janeiro 15, 2005

East Chop Poles

DavidFokos-EastChopPoles.jpg
Foto de David Fokos

"Como se fosses noite e me atirasses
uma corda de músculos e rosas.
Como se fosses noite e me deixasses
deslumbrado com todas as sombras,
com todos os silêncios,
com todos os passeios de mãos dadas com o impossível.

Com todos os minutos,
Os lentos, os belos, os terríveis minutos
que se escoam com a angústia nas escadas.
Como se fosses noite e acordasses
todos os olhares furtivos aos bancos vazios,
todos os passos hesitantes que ninguém segue
mas que deixam na rua deserta,
na cidade ausente,
o arabesco triunfal de um arcanjo que passa,
o rasto vitorioso dum condenado que dança,
rindo dos deuses que o julgaram."


... Chamava-se Ary dos Santos. Era poeta, "mas castrado, não". Era poeta com a
boca: comia palavras, cuspia palavras, lambia-as como quem engole, mordia
sabores sem mastigar. Faz hoje 20 anos que se despediu daqui. Não gostava de
viver entre margens. Tomou uma estrada larga e foi desafiar outras moradas,
outros arcanjos, outros deuses - lá, onde se imagina que fique o abrigo dos
audazes.

A Loba

Publicado por xc em 07:09 PM

dezembro 15, 2004

A tua ausência

Philippe Pache - amarelo e vermelho.jpg
Foto de Philippe Pache


"...Nisto acordei com dor, com impaciência;
E não vos encontrando, olhos brilhantes,
Vi que era a minha morte a vossa ausência!"

Bocage

Publicado por xc em 06:32 PM

Endurece ou sucumbes

Philippe Pache - cara.jpg
Foto de Philippe Pache

"Não te deixes invadir por essa ternura delico-doce, fanada, a saudade à portuguesa; endurece ou sucumbes."

Sebastião Alba

Publicado por xc em 06:28 PM

novembro 09, 2004

Nymfem i elven

Reidulv Lyngstad-Nymfen i elven 2.bmp
Foto de Reidulv Lyngstad

(...)

Supôs amar o instante e só amou sua carne
solitária, ou amou talvez a carne que o amou.
Por certo tudo fora desejo insatisfeito,
e sua esperança foi apenas nostalgia
do que viria depois; assim foi o futuro
como a lembrança: um fantasma de luz;
e o outro, sombra.

(...)

Francisco Brines, in Ensaio de Uma Despedida

Publicado por xc em 11:13 PM

novembro 03, 2004

On the road again

PeterRoger.jpg
Foto de Peter Roger

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

Publicado por xc em 05:07 AM

outubro 30, 2004

Sem imagens

Deito fora as imagens
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

de Coração Sem Imagens, Raul de Carvalho

Publicado por xc em 01:20 AM

outubro 26, 2004

Amor perdido

Francesca Crescenti02.jpg
Foto de Francesca Crescenti

só me responderás
se quiseres inutilizar
este poema de amor

ao qual dei o nome
do verso que queria
eliminar da vida...

para te lembrar
para sempre
para nunca mais

ter de esquecer
um amor perdido
porque não podia ser

Francisco Coimbra

Publicado por xc em 02:31 AM

outubro 25, 2004

Impetuoso

hboerboom2.jpg
Foto de H. Boerboom

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Eugénio de Andrade, Poema XVIII

Publicado por xc em 03:08 AM

outubro 19, 2004

Why do i feel so sad

Richard Williams-whydoifeelsosad.jpg
Foto de Richard Williams


Apagar-te?
Não!
Vinco o teu rosto na minha memória, porque amo sofrer-te
.

Miguel Patrício

Publicado por xc em 11:55 AM

outubro 15, 2004

Confusion

Marcus Claesson - Confusion.jpg
Foto de Marcus Claésson


"Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê."

Luís de Camões

Publicado por xc em 05:36 PM

outubro 12, 2004

Pretextos para fugir do real

Robert Sulej.jpg
Foto de Robert Sulej


A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

Alexandre O´Neill

Publicado por xc em 05:17 PM

outubro 05, 2004

É quando estás de joelhos

Wiejewiatr.jpg
Foto de Wiejewiatr

"É quando estás de joelhos
que és toda bicho da terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada das trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredo
se de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da terra"

David Mourão Ferreira

Publicado por xc em 12:49 PM

outubro 04, 2004

Omen

ANTHONY INDIANOS - Omen.jpg
Foto de Anthony Indianos

Devia eu destacar a página ao livro, dobrá-la em quatro vincos bem marcados, colocá-la num sobrescrito sem data nem selo, curvar a estrada e entregar-to em mão!... Como quem faz passar um tesouro por debaixo da porta. Como quem se sente capaz de multiplicar as coisas belas.

"Ah! Pudesse eu
saltar da imaginação
para arrancar da noite
a lua e os cometas!...
- sangrasse embora o céu
e uivassem os poetas
na sua escuridão.

Ah! Pudesse eu
suprimir as estrelas
com uma espada de versos!...
- caísse embora um véu
de silencio apagado
nesta ilusão de haver janelas
para outros universos.

Ah! Pudesse eu
pedir poesia
que rasgasse o luar
e desse à ventania
mãos para arrancar
os astros das raizes
sangrentas no ar!...

Ah! Pudesse eu!...

Para na verdadeira solidão
que nenhuma estrela adoça
ouvir pulsar enfim o nosso coração
na terra só nossa."


... Porque hoje começou por me apetecer um pouco de Zé Gomes Ferreira e raramente me evito aos apetites.

A Loira

Publicado por xc em 05:00 PM

Levitation

ANTHONY INDIANOS - Levitation.jpg
Foto de Anthony Indianos

"Cai uma mulher entre as minhas pernas. Não pergunto ao que veio. Só lhe pergunto o que quer. E como quem abre um verso entre duas coxas, repete contra a minha boca em espera algumas palavras de poesia fêmea. Afunda-me a voz à anca e fala-me por detrás da pele: do outro lado do mundo. Diz:
« ir buscar-te
ao abismo de milénios de existencia
e trazer-te livre.*»
E a mim, ocorre-me apenas responder-lhe na mesma língua. Digo-lhe:
«A minha fome é de dentro
e a minha sede é palavra*.»"

A Loba

[*de "Posse Intemporal" e "Insaciedade", citados a Manuela Amaral]

Publicado por xc em 04:58 PM

outubro 02, 2004

Corpo de mar

Tim sousa.jpg
Foto de Tim Sousa

"Teu corpo de mar...

Meu mar infinto.
Renasço na fímbria do mar, do teu mar de sargaços,
no teu mar de desencontros e naufrágios
Renasço na tua boca de sal,
No teu cheiro a maresia,
Renasço em cada onda tua, envolta em grinaldas de espumas,
Em véus de saudade"

Maria Branco

Publicado por xc em 10:22 PM

Roberta nude

GERALD APPEL robertanude.jpg
Foto de Gerald Appel

"Foi luz e trevas, foi calor e frio, foi tudo e nada.
Encheu-me a consciência da minha insignificância,
De que nada posso e de que aquilo que quero não conta.
É hoje certeza de que o que possuo não é meu mas do destino.
E ontem, já só braseiro, alimentou-me a solidão,
Pois tu não estavas...
Ah, se os teus dedos pudessem limpar a fuligem dos meus olhos
E a tua boca varrer as cinzas que cobrem a minha,
Por baixo estaria um sorriso à tua espera
E sentir-me-ia compensada!
Vem! Depressa!"

Maria Branco

Publicado por xc em 04:38 PM

Inga Nude

GERALD APPEL - inganude.jpg
Foto de Gerald Appel

"Hoje quero ser escritora sobre o papel do teu corpo.
Vou te gravar na pele, em palavras, aquilo que de dentro me trazes
Para que, por absorção, regresse ao teu ser e jamais se perca
E este ciclo se mantenha eterno.
A caneta é esta boca que repete à exaustão o que me fazes sentir
E a tinta, indelével, é o amor que sinto por ti.
À medida que escrevo vou-te cobrindo de pétalas vermelhas
que esvoaçam ao encostar das nossas bocas, ao juntar dos nossos alentos em uníssono..."

Maria Branco

Publicado por xc em 04:36 PM

setembro 30, 2004

Imóvel

Michal Barteczko7.JPG
Foto de Michal Barteczko

"Imóvel... para um mundo que não me enleia
E se desprende das malhas que me suportam.
Camuflada... em redes que me inquietam,
No sossego aparente do corpo.
Cega... pela ruptura entranhada
Na pele que já não possuo.
Nua... de sentires que me abrem,
Cedendo à solidão que me reveste de nada."

Sou Uma

Publicado por xc em 12:24 AM

setembro 29, 2004

Desperta-me de noite o teu desejo

Bruno Bisang3.jpg
Foto de Bruno Bisang

"Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me
defendo

É raiva
então ciume
a tua boca

é dor e não
queixume
a tua espada

é rede a tua língua
em sua teia

é vício as palavras
com que falas

E tomas-me de foça
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
e o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

e tu dentro de mim
vais descobrindo vales."

Maria Teresa Horta

Publicado por xc em 03:46 PM

Aroma-mulher

Bruno Bisang 2.jpg
Foto de Bruno Bisang

"Teu corpo é agosto

Tu cheiras a verão
por baixo das veias

Tu cheiras a quente

Tu cheiras à febre
do sangue maduro

Teu ventre de orgia
teu cheiro a sodoma
aroma-mulher

Teu corpo de agosto
tem cheiro a setembro"

Manuela Amaral

Publicado por xc em 03:44 PM

Guardian

Mona Kuhn - guardian.jpg
Foto de Mona Kuhn

"É ao lusco-fusco que crescem os medos de separação,
Os beijos nascem mais sôfregos,
Os abraços mais apertados
E a ansiedade mais desesperada.
Só as mãos entrelaçadas estão quietas,
Como que tentando parar o tempo,
O sonho de ter... de ser..."

Maria Branco

Publicado por xc em 01:30 AM

setembro 27, 2004

Para te esperar

Erwan Barbey-Cariou3.jpg
Foto de Erwan Barbey-Cariou

"Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.
Não lavei as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.
Não lavei o corpo
pois tinha os rastros
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo,
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.
Nem aqueles lençóis,
não os lavei,
nem os espelhos,
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.
Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar:
donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar."

Soares Feitosa

Publicado por xc em 05:09 PM

Cárcere

Erwan Barbey-Cariou2.jpg
Foto de Erwan Barbey-Cariou

"Só me debato sei que não voo
por entre as grades que tens no peito

Cobras o preço do ar que sorvo
Pago-te o fogo com que te odeio

Mas pode o mundo conter-se todo
onde me sinto mais prisioneiro

Ah não te iludas se te perdoo
Não me acredites se te rejeito"

David Mourão Ferreira

Publicado por xc em 05:08 PM

setembro 13, 2004

A Queda

Michael McCarthy4.jpg
Foto de Michael MaCarthy


"E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,
Volve-se logo falso.., ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,
Morro à mingua, de excesso.

Alteio-me na cor à força de quebranto,
Estendo os braços de alma- e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
- Vencer às vezes é o mesmo que tombar -
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso...

Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!... "

Mario de Sá-Carneiro

Publicado por xc em 06:22 AM

setembro 06, 2004

Fugitivo

Michael McCarthy.jpg
Foto de Michael McCarthy

"... Um homem luta contra o sangue
que derrama
em que cama
terá ele o seu repouso?
está ancioso? e como não?
não estaria quem pisasse
um desconhecido chão?
Não estaria de garganta afogueada
quem por nada
assim fugisse?
quem por tudo suplicasse
dai-me forças, dá-te forças
a ti próprio te confias
dá-te alento. dá-te tempo
dá-te dias
sobrevive de agonias
respirando sobrevives
sobrevive..."

Sérgio Godinho, Fugitivo

Publicado por xc em 10:17 PM

agosto 30, 2004

Soneto do cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão Ferreira

Publicado por xc em 12:02 AM

fevereiro 04, 2004

Ferrolho

Kim Weston - Ferrolho.jpg
Foto de Kim Welson

Tudo nos leva
a estremecer
ao desejo,
ao prazer
a levantar o ferrolho
que nos isola
de tudo

Na pele
do forçado
tudo nos impele
a querer
a querer vencer
os sinais
de beleza do destino

No pontão
do pantanal
tudo nos impele
a chorar
a vestir
a pele
de um peixe
de um pássaro

Nas nossas gargantas
sufocadas
tudo nos impele
a cantar

Tudo nos leva
a estremecer
ao desejo
ao prazer

A levantar o ferrolho que nos separa...

Jean-Louis Murat

Publicado por xc em 04:17 PM

fevereiro 02, 2004

Amor

Philippe Pache - mar.jpg
Foto de Philipe Pache

Deixa-te estar embalado no mar nocturno
onde se apaga e acende a salvação...

Deixa-te estar na exaltação dos sonhos sem forma:
com ela caminha o horizonte dos meus braços abertos,
e por cima do céu estão meus olhos pregados, guardando-te.

Deixa-te balançar entre a vida e a morte, sem nenhuma saudade:
deslizam os astros na abundância do tempo que cai:
nós somos pequenos como um ponto de pólen rodando entre os mundos.

Deixa-te estar neste embalo de água gerando círculos...
Nem é preciso dormir para a imaginação desmanchar-se em figuras
ambíguas...
Nem é preciso fazer nada para se estar na alma de tudo...
Nem é preciso querer mais, - que vem de nós um beijo eterno
e afoga a boca da vontade e os seus pedidos...

Cecília Meirelles

Publicado por xc em 09:40 AM

fevereiro 01, 2004

Vigílias

Philippe Pache - tu n sabes.jpg
Foto de Philippe Pache

Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador

Al Berto

Publicado por xc em 07:13 PM

janeiro 30, 2004

Miragem

Dekan - miragem.jpg
Foto de Dekan

"Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela, sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade."

José Luis Peixoto

Publicado por xc em 04:33 PM

Top view

Aether - topview.jpg
Foto de Aether

Irrompe do teu corpo iluminado
toda a luz de que o mundo sente falta
Não a que mais reluz. Só a mais alta
Só a que nos faz ver o outro lado

do bosque onde o Futuro e o Passado
defrontam o Presente que os assalta
num combate indeciso a que nem falta
o sabor de saber-se ilimitado

Irrompe assim a luz entre os extremos
da mesma renovada madrugada
E vibra a cada instante um novo grito

Com essa luz do grito é que nós vemos
que Passado e Futuro não são nada
apenas o presente é infinito

David Mourão Ferreira

Publicado por xc em 12:05 PM

janeiro 23, 2004

Cântico Negro

«Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali …

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos …

Se ao que busco saber nenhum de vós me responde,
Por que repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por ai…

Se vim ao mundo foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:«vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!


José Régio - Poemas de Deus e do Diabo

Publicado por xc em 10:58 AM

janeiro 14, 2004

O amor em visita

O Amor em Visita

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
o seu arbusto de sangue. Com ela
encontrarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob o s meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! Em cada mulher existe uma morte silenciosa:
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, melhor nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria!

Herberto Helder

Publicado por xc em 05:19 PM

dezembro 12, 2003

Phenomenal Woman

Fenomenalwoman.jpg
Foto de K. Sienna

PHENOMENAL WOMAN

Pretty women wonder where my secret lies.
I'm not cute or built to suit a fashion model's size
But when I start to tell them,
They think I'm telling lies.
I say,
It's in the reach of my arms
The span of my hips,
The stride of my step,
The curl of my lips.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

I walk into a room
Just as cool as you please,
And to a man,
The fellows stand or
Fall down on their knees.
Then they swarm around me,
A hive of honey bees.
I say,
It's the fire in my eyes,
And the flash of my teeth,
The swing in my waist,
And the joy in my feet.
I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

Men themselves have wondered
What they see in me.
They try so much
But they can't touch
My inner mystery.
When I try to show them
They say they still can't see.
I say,
It's in the arch of my back,
The sun of my smile,
The ride of my breasts,
The grace of my style.
I'm a woman

Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

Now you understand
Just why my head's not bowed.
I don't shout or jump about
Or have to talk real loud.
When you see me passing
It ought to make you proud.
I say,
It's in the click of my heels,
The bend of my hair,
the palm of my hand,
The need of my care,
'Cause I'm a woman
Phenomenally.
Phenomenal woman,
That's me.

Maya Angelou

Publicado por xc em 10:13 AM

dezembro 09, 2003

Os teus olhos...

Osteusolhos.jpg
Foto de Patrick Demarchelier

Os teus olhos
exigindo
ser bebidos

Os teus ombros
reclamando
nenhum manto

Os teus seios
pressupondo
tantos pomos

O teus ventre
recolhendo
o relâmpago

David Mourão Ferreira

Publicado por xc em 02:05 PM

dezembro 06, 2003

Começar de novo

Começar de novo
E contar comigo,
Vai valer a pena
Ter amanhecido.

Ter me rebelado,
Ter me debatido.
Ter me machucado,
Ter sobrevivido.

Ter virado a mesa,
Ter me conhecido.
Ter virado o barco,
Ter me socorrido.

Começar de novo
E contar comigo,
Vai valer a pena
Ter amanhecido.
Sem as suas garras,
Sempre tão seguras.
Sem o teu fantasma,
Sem tua moldura.

Sem suas escoras,
Sem o teu domínio.
Sem tuas esporas,
Sem o teu fascínio.

Começar de novo,
E contar comigo,
Vai valer a pena
Já ter te esquecido.

Começar de novo...


Ivan Lins

Publicado por xc em 03:37 PM

dezembro 02, 2003

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Chico Buarque

Publicado por xc em 09:54 AM

Emboscada

Emboscadas

Foste como quem me armasse uma emboscada
ao sentir-me desatento
dando aquilo em que me dei
foste como quem me urdisse uma cilada
vi-me com tão pouca coisa
depois do que tanto amei

Rasguei o teu sorriso
quatro vezes foi preciso
por não precisares de mim
e depois, quando dormias
fiuz de conta que fugias
e que eu não ficava assim
nesta dor em que me vejo
do nos ver quase no fim

Foste como quem lançasse as armadilhas
que se lançam aos amantes
quando amar foi coisa em vão
foste como quem vestisse as mascarilhas
dos embustes que se tramam
ao cair da escuridão

Resgatei o teu carinho
quatro vezes fiz o ninho
num beiral do teu jardim
e depois, já em cuidado
vi no teu espelho do passado
a tua imagem de mim
e esta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim

Foste como quem cumprisse uma vingança
que guardavas às escuras
esperando a sua vez
foste como quem me desse uma bonança
fraquejando à tempestade
de tão frágil que se fez

Resgatei o teu ciúme
quatro vezes deitei lume
ao teu corpo de marfim
e depois, como uma espada
pousei na terra queimada
o meu ramo de alecrim
e esta dor em que me vejo
de nos ver perto do fim.

Sérgio Godinho, in Na Vida Real

Publicado por xc em 09:45 AM

novembro 28, 2003

A canção desesperada

A Canção Desesperada

Tua lembrança emerge desta noite em que estou.
O rio e o mar enlaçam seu lamento obstinado.

Abandonado como um cais na madrugada.
É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre o meu coração chovem frias corolas.
Oh sentina de escombros, feroz gruta de náufragos!

Em ti se acumulam os voos e as guerras.
De ti ergueram asas os pássaros do canto.

Tu devoraste tudo, qual devora a distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Era a hora ditosa do assalto e do beijo.
Era a hora do êxtase que ardia como um facho.

Uma ânsia de piloto ou de mergulhador cego,
turva embriaguez de amor, tudo em ti foi naufrágio!

Na infância de névoa, minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufráfio!

Tu cingiste-te à dor, prendeste-te ao desejo.
Derrubou-te a tristeza, tudo em ti foi naufrágio!

Fiz recua então a muralha de sombra,
caminhei para além do desejo e do acto.

Oh carne, carne minha, ó amada que perdi,
a ti nesta hora húmida evoco e torno cântico.

Como um vaso guardaste a infinita ternura
e o infinito olvido partiu-te como um vaso.

Era a solidão, solidão negra das ilhas,
e ali, mulher de amor, me acolheram teus braços.

Era a seda e a fome, e então foste os frutos.
Era a dor e as ruínas e tu foste o milagre.

Ah, mulher, eu não sei como pudeste conter-me
na terra da tua alma e na cruz dos teus braços!

Meu desejo de ti foi terrível e breve,
o mais revolto e ébrio, o mais tenso e mais ávido.

Cemitério de beijos, ainda há fogo em teus túmulos,
ainda os cachos ardem picados pelos pássaros.

Oh boca mordida, oh membros beijados,

oh os famintos dentes, os corpos entrançados!

Oh a cópula louca de esperança e esforço
em que ambos nos atamos e nos desesperamos.

E a ternura, suave como a água e a farinha.
E a palavra que mal começava nos lábios.

Esse foi meu destino, nele singrou minha ânsia,
nele caiu minha ânsia, tudo em ti foi naufrágio!

Oh sentina de escombros, em ti tudo caía,
que dor não exprimiste, que ondas não te afogaram!

De queda em queda ainda chamejaste e cantaste.
De pé como um marujo sobre a proa de um barco.

Floresceste ainda em cantos e brotaste em correntes.
Oh sentina de escombros, poço aberto e amargo.

Mergulhador cego e pálido, derrotado e fundeiro,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a hora dura e fria
com que a noite domina todo o horário.

O cinturão ruidoso do mar abraça a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.

Abandonado como um cais na madrugada.
Somente a sombra trémula se torce em minhas mãos.

Ah, para além de tudo! Ah, para além de tudo!

É a hora de partir. Oh abandonado!

Pablo Neruda

Publicado por xc em 10:27 AM

novembro 25, 2003

Multidão

Uma folha tomba do plátano, um frémito sacode o imo do cipreste,
És tu que me chamas.

Olhos invisíveis sulcam a sombra, penetram-me como à parede os pregos,
És tu que me fitas.

Mãos invisíveis nos ombros me tocam, para as águas dormentes do lago me atraem,
És tu que me queres.

De sob as vértebras com pálidos toques ligeiros a loucura sai para o cérebro,
És tu que me penetras.

Não mais os pés pousam na terra, não mais pesa o corpo nos ares, transporta-o a vertigem

obscura

És tu que me atravessas, tu.

ADA NEGRI

Publicado por xc em 12:16 PM

Doce Perspicácia

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Foto de Katika

Ó Doce Perspicácia

Ó doce perspicácia dos sentidos!
Versão mais táctil que apressados dedos
sempre na treva tropeçando em medos
que só o olfacto os ouve definidos!

Audível sexo, corpos repetidos,
gosto salgado em curvas sem segredos
a que outras acres e secretas - ledos,
tranquilos, finos ásperos rangidos -

se ligam, mancha a mancha, lentamente...
Perfume túrgido, macio, tépido,
sequioso de mão gélida e tremente...

Vago arrepio que se escoa lépido
por sobre os tensos corpos tão fingidos...
Ó doce perspicácia dos sentidos!

Jorge de Sena

Publicado por xc em 10:23 AM

novembro 24, 2003

Deitas-te

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Foto de Ralph Traeumer

"Deitas-te E ficas nua
de nem nascida

Deitas-te E vem a Lua
que te fulmina

Deitas-te E és uma rua
desconhecida

Deitas-te E logo a tua
alma cintila"

David Mourão Ferreira

Publicado por xc em 10:00 PM

Seria Outono aquele dia...

Jacques Leinnes - outonodmf.jpg
Foto de Jacques Leinnes

"Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu demais sob o meu rosto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim doce e tranquilo...?
Seria Outono...

Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo."

David Mourão Ferreira, Outono

Publicado por xc em 01:23 PM

novembro 18, 2003

Dor

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Foto de Michele Dugan

"... E a dor, afinal,
é o mais individual
poema d'amor."

António de Navarro, Poema

Publicado por xc em 10:15 AM

Inércia

levitation.jpg
Foto de Michele Dugan

"De sol a sol me disponho
Para sonhar de uma vez;
Mas tenho medo de que o sonho
Seja comprido, talvez...

Não desejo conservar-me
Parado; mas sinto lento
Todo e qualquer movimento
Que venha para levar-me...

E mesmo não vejo em roda
Quem me faça a despedida:
De mim esta gente toda
Anda alheia, distraída...

E. lá no fim, pode haver
Uma certa incompreensão
E ninguém me receber,
Ninguém me dar a mão...

Assim fico na distância
Dum desprezo pressentido;
Parado, preso, vestido
Da minha pobre jactância.

Resta-me o grito final
Da morte, medonho e firme;
E toda a gente há-de ouvir-me
E pressentir-me afinal!

Adolfo Rocha (Miguel Torga)

Publicado por xc em 10:04 AM

novembro 17, 2003

Insónia

insonia.jpg
Foto de Jean Ferro

"... E todos os sinos que alimentavam insónias
hão-de repetir as horas mortas
só para os ouvidos da torre;

E os outros ruídos abafar-se-ão no manto negro da noite."

Ferando Namora, Transfiguração

Publicado por xc em 12:56 PM

novembro 14, 2003

Disappear

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Foto de Daniel Duvall

"Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se."

Casimiro de Brito

Publicado por xc em 04:47 PM

novembro 13, 2003

E ao anoitecer

anoitecer.jpg
Foto de Darek Banasik

E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

Publicado por xc em 05:45 PM

Ponto de vista

"Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes."

Leila Míccolis

Publicado por xc em 12:43 PM

novembro 08, 2003

Quatro facas

suspiro.jpg
Foto de Shannon Hourigan

"Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome.
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca).
Amando ataco amando contra atacas
este amor é de sangue que não estanca.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas
E em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas."

Manuel Alegre

Publicado por xc em 11:51 AM

novembro 05, 2003

Serenas

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Foto de AmiRam Jablonovsky

"... E às vezes
é a rosa que pousa
na ave que voa,
rosa de penas,
- e as duas lá vão...
serenas,
em comunhão,
voando asceses
da sua hora de noa..."

Antonio de Navarro

Publicado por xc em 02:51 PM

O teu espectro

espectro.jpg
Foto de Irene Kakogiannou

"... Mas ante mim,
Levita-se o teu espectro:
E esse instante já no fim
É um infinito em que penetro..."

Publicado por xc em 12:49 PM

novembro 04, 2003

Distante

distante.jpg
Foto de Marcos Appelt

("... Eis como tu ficas distante,
E assim a fera triste em ti desperta.
E eu vou-me em busca de qualquer amante,
Pedir esmola a qualquer porta aberta...")

Também JOSÉ RÉGIO

Publicado por xc em 07:05 PM

Beijo os meus lábios e o ar

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Foto de Yvan Galvez

"... Em noites de furor julgo que és tu.
Atiro os braços para te abraçar!
Abraço o meu corpo nu;
Beijo os meus lábios e o ar..."

José Régio

Publicado por xc em 06:30 PM

Nudus

nudus.jpg
Foto de Marta Soul

"... O não te desejar é impossivel
Porque tu sabes, sempre moça e eterna amante,
pairar, virgem suprema, inatingível e intangível,
Prostituída a cada instante..."

José Régio

Publicado por xc em 12:26 PM

Prazer desejado

prazer desejado.jpg
Foto de Rafael Roa

"... Todo o corpo me dói de tais desejos
Que a minha carne flagelada e moça
Já só exige quaisquer beijos:
Basta-lhe a água, já, de qualquer poça..."

Tirado de POEMA DE CARNE-ESPÍRITO de JOSÉ RÉGIO

Publicado por xc em 09:53 AM

novembro 01, 2003

Bordel

Horas mortas...
... turvas...
tortas
agora
e toda a hora...
... Amen!

Portas tortas
abertas
hirtas
abertas
tortas
retortas
de trincos
e trancas
partidas

E tudo torto
... mas tudo...
tudo torcido
e contorcido
turvo e torto...
... mas, sobretudo
mui... muito torto,
tão hirtamente...
... terrivelmente!

E há horas brancas
adormecidas
nas horas pretas
e há um fado
cantando
contando,
embalado,
a sina de todas
que tu, e eu, mais enlodas

(baixinho, que ninguém nos ouça! Podem chamar-me doido...)

Pressinto
quando entro,
Ñão sei porquê!
o Cristo
e a Virgem Mãe
lá dentro
naquele antro
a par e ao pé
dum Mefisto
de quebranto
estranho encontro!...

Agora,
e toda a hora...
... Amen!

António de Navarro

Publicado por xc em 10:35 PM

Isto

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Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.

Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

Publicado por xc em 04:22 PM

outubro 31, 2003

Ilha perfumada

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Foto de Michael Vahle

"... a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com os teus lábios de espuma e salsugem..."

Manuel Alegre

Publicado por xc em 12:25 AM

outubro 30, 2003

Outono

Outono do amor que folhas moves
na direcção dos corpos separados
e molhas desses prantos ignorados
de quem na primavera conheceu o

movimento das aves
e desse movimento estas esperas
agora só conhece já e ouve
a própria descida com as folhas

a voz própria cansada
quando a vida
e a voz lhas está a dor tirando

Outono do amor outono de aves
e de vozes caladas e de folhas
molhadas de temor e surdo pranto

GASTÃO CRUZ

Publicado por xc em 09:26 AM

outubro 29, 2003

A tua nudez inquieta-me

A tua nudez inquita-me.jpg
Foto de Alain Daussin

A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho um pensamento despido;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminando, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

Fernando Assis Pacheco, UM CAMPO BATIDO PELA BRISA

Publicado por xc em 03:26 PM

outubro 28, 2003

Quero-te

quero-te.jpg
Foto de David Mendelsohn

Poema para uso tópico

"Quero-te como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa."

Nuno Júdice

Publicado por xc em 10:28 AM

outubro 17, 2003

Lamento por Diotima

O que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?

amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã?

que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,

num relvado talvez me fuzilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?

Vasco Graça Moura

Publicado por xc em 10:23 PM

outubro 10, 2003

Morrer de Amor

"Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso"

Maria Teresa Horta

Publicado por xc em 08:44 AM

Segredo

"Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar"

Maria Teresa Horta

Publicado por xc em 08:41 AM