março 22, 2010

Paneleirices

"Já ouviste falar de miau-miau?"
"Não. O que é isso?"
"E kit-kat? Também não?"
"O chocolate? Sim, é uma das minhas novas drogas."
"O quê? Voltaste a essas merdas?"
"Eh pá... eu sei que tenho os açúcares altos e o colesterol mau bem espalhado no corpo, mas não vejo qual é a gravidade..."
"A gravidade é que essa merda é pior que tudo o que tu já consumiste. É anestesia para cavalos, porra! Não lês os jornais?"
"..."
"Special K? Vitamina K? K? Ke-ta-mi-na!"
"E se te fosses foder? Achas que agora, depois de andar a viajar por túneis de lsd, ácidos manhosos de quinta categoria, mdma cheio de estricnina, cavalo do Casal Ventoso, achas que depois de papar com tanta merda ia me meter noutra aventura?
Não vês que a minha droga agora são os chocolates, os vinhos, as comidas, os devaneios da tripa de um tipo de meia-idade?"
"Ah bom. Então nunca ouviste falar de miau-miau e kit-kat?"
"Isso são drogas? Pelo nome parecem é uma porra de uma paneleirice!"

Conversa inventada entre duas pessoas, amigas, que hipoteticamente se encontram após anos de consumo e posterior abstinência para voltar a falar de drogas. Logo, uma utopia.

Escrito por Tiago Peregrino em 06:23 PM | TrackBack (31)

setembro 08, 2009

[...] an object is interesting because it's the crystallization of a good idea. And I like being surrounded by good ideas. Every single time you walk past something you like, you get a blast of happy chemicals to the brain, and I like that.

Douglas Coupland, questionado por Decca Aitkenhead em entrevista ao The Guardian, a propósito do escritor (e artista plástico) possuir incontáveis montes de objectos e projectos pessoais na sua própria casa, enchendo-a até um ponto de densificação exagerada da atmosfera caseira.
Ler o resto aqui.

Escrito por Tiago Peregrino em 10:53 AM | TrackBack (32)

agosto 28, 2009

Resposta a um e-mail

Não voltei. Simplesmente passei por aqui e tropecei numa parábola distópica. Se caí ao chão e por cá fiquei, ainda está por apurar.

Escrito por Tiago Peregrino em 01:45 PM | TrackBack (25)

agosto 27, 2009

Cinismo

Estou virtualmente no trabalho. Fisicamente sentado à secretária, ansioso, com as mãos algo trémulas de nervos envelhecidos pelo antigo e longínquo consumo de um gigantesco caleidoscópio de drogas. O tempo não flui com a velocidade que eu quero e tenho nada para fazer. Mas também não quero que comecem a cair coisas nesta ferramenta de software inútil de pedidos de alterações, reparações, análises, e outras coisas mais aos milhentos sistemas informáticos que esta corporação tem.
Sinto-me perdido por não ser útil, mas sentir-me-ia miserável se o fosse. Recordo com alguma frequência episódios do "Psicopata Americano" de Bret Easton Ellis. A espiral de demência transformada em espiral de violência. Às vezes não consigo entender como é possível que metade desta gente aguente tanto sapo pela goela, tanto tempo morto passado em cubículos ou "open spaces" normalizados e salubres, pendurados de cartazes cheios de procedimentos para prevenir esta exagerada Gripe A, qual gripe espanhola ou peste bubónica. Destaco sempre com cinismo as regras de comportamento social. Ou melhor, "distanciamento social". Regras que incluem o aconselhamento a não tocar em outros seres humanos. Pelo seu bem. E pelo bem da corporação, que de outra forma se verá espoliada de não sei quantos por cento de "massa laboral", esse objecto abstracto de carga humana em constante avaliação probabilística.
Sento-me ao computador para escrever estas linhas e tentar sentir o pêndulo do tempo passar com maior celeridade. Tic. Tac. Tic. Tac. À minha volta hordas de pessoas movimentam-se por entre papéis e secretárias, redes de computadores ligados entre si sem medo de gripes, mas alucinados com vírus de hackers russos ou finlandeses.
Há cura para este olhar bovino que me assola o espírito? Para encontrar uma alegria no meio de tanto Kafka?
Com cinismo espero que sim.

Escrito por Tiago Peregrino em 03:05 PM | TrackBack (24)

outubro 16, 2007

Fuck

Não acredito em Deus, mais do que Deus acredita em mim. Acredito que temos medo de ser mortos, por isso inventámos Deus, que diz que matar é pecado. Acho que inventámos Deus, tanto quanto inventámos a televisão.

Excerto da entrevista telefónica concedida por Nick Tosches a Kathleen Gomes, transcrita e analisada pela jornalista para o suplemento Ípsilon do jornal Público de 12 de Outubro de 2007

Escrito por Tiago Peregrino em 11:55 PM | TrackBack (128)

junho 07, 2007

Pensamento... (11)

[...] a única diferença entre um suicídio e um martírio é mesmo a quantidade de cobertura jornalística.
Se uma árvore cai na floresta e ninguém está lá para a ouvir, não se limita a ficar ali caída a apodrecer?
E se Cristo tivesse morrido de uma overdose de barbitúricos, sozinho no chão da casa de banho, estaria Ele no Céu?

in "Sobrevivente", de Chuck Palahniuk, edição Casa das Letras, tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e Vasco Teles de Menezes

Escrito por Tiago Peregrino em 02:27 PM

setembro 19, 2006

Comentários

Uns tipos quaisquer andam a bombardear com lixo os comentários deste blog há não sei quanto tempo. Decidi por isso, e porque a quantidade também não o justificava, eliminar o link que permite a quem por aqui passa deixar o seu texto.
Não é minha política fazê-lo, mas o problema persiste (mesmo com IP's banidos) e ocupava muita quota em disco que se pretende cheia com outros venenos que não o "Viagra" ou o "Sex College Fuck".
No entanto, o mail continuará a funcionar, mesmo que o blog pareça adormecido durante meses (como o caso actual).

Boas leituras.

Escrito por Tiago Peregrino em 12:22 AM

maio 06, 2006

Cure For Pain

Where is the ritual?
And tell me where, where is the taste?
Where is the sacrifice?
And tell me where, where is the faith?

Someday there'll be a cure for pain
That's the day I throw my drugs away
When they find a cure for pain

Where is the cave where the wise woman went?
And tell me where, where's all that money that I spent?

I propose a toast
To my self control
You see it crawlin helpless on the floor

Someday there'll be a cure for pain
That's the day I throw my drugs away
When they find a cure for pain
Find a cure for
Find a cure for pain

"Cure for Pain", Morphine

Escrito por Tiago Peregrino em 03:11 AM

Pessimismos

Alguém apareceu neste blog através de uma busca ao "efeito da heroína nos olhos". Há consequências físicas óbvias. A diminuição da pupila ou a cor da íris degenerada em tons mortiços. Mas para lá do literal, os opiáceos obrigaram os meus olhos a abandonarem-me para sempre. Passei a "ver" as almas das pessoas. E a visão está longe de ser bonita...
Escrito por Tiago Peregrino em 02:56 AM | Vírus (0)

março 20, 2006

Estereografia

Desde que deixei de consumir substâncias que induzem à alucinação, deixei também de conseguir ver estereogramas. A primeira vez que consegui tal proeza (muito difícil para um realista como eu) foi precisamente numa trip de cristais vermelhos, cujo nome artístico já não recordo, mas cujas consequências estão ainda hoje tão vivas nos arquivos bolorentos da minha memória como a primeira vez que fiz sexo. As portas para as diferentes realidades que o ácido oferecia desvanecem-se com o passar do tempo. Ou esperam por mim noutra qualquer extremidade dimensional.
Escrito por Tiago Peregrino em 01:57 PM | Vírus (1)

junho 07, 2005

No Cinema...

Tratando este blog de destacar o que de mais disfuncional a sociedade pode criar, e mantendo aberta a perspectiva de que nem só de livros da geração beat (ou sucedâneos) vive o retrato dessa parte paradoxalmente renegada e idolatrada do comportamento humano, esta passará a ser mais uma secção absolutamente não-periódica, espontânea, e de óbvio poder argumentativo para os leitores.
A sétima arte está cheia de filmes "off-beat", "contra-corrente", seja qual for o termo catalogado. Eis alguns, a que se seguirão outros, conforme a disponibilidade e a memória me permitam.

- "Straw Dogs" (1971), de Sam Peckinpah. Provavelmente um dos mais perturbadores estudos sobre o comportamento humano e a responsabilidade subconsciente. A misoginia ou o sexismo de que é acusado por alguns são, na minha opinião, aspectos meramente figurativos e exemplificativos do que Peckinpah pretende com o seu filme: um tratado sobre o paradoxal conflito interior dos nossos sentimentos. Um momento alto é o diálogo final entre a personagem de Dustin Hoffman e David Warner. Nenhum sabe o caminho para casa, porque já nenhum deles consegue reconhecer a fronteira da sua humanidade.

- "Funny Games" (1997), de Michael Haneke. Se o primeiro título que referi usava a violência como ferramenta para retratar uma visão, esta obra de Haneke eleva o padrão a uma mise-en-scéne realista, brutal, num claro piscar de olhos ao consumismo do sangue na sociedade actual. O tema final de John Zorn, mestre do jazz-metal-core, é o corolário de um filme inesquecível (quer se queira, quer não).

Escrito por Tiago Peregrino em 05:47 AM | Vírus (1)

junho 06, 2005

O Ciúme da Ressaca

Sinto-a como um desconcertante vulto celeste que giza uma rota gravitacional em redor do meu corpo. Como uma ameaça constante à minha integridade emocional. Um enjôo matinal que rasga as entranhas como uma paixão adolescente. Sinto-a ali, perfeita, irracional, infiel, pronta a comprimir a minha alma como um pedaço de papel esmagado. Uma brincadeira de crianças. Um tremendo grito de revolta que se apodera de mim com a força de um mundo em queda livre. Vejo-a com outro, em lisonjeira cavaqueira, numa sedução que fere mais que todas as lágrimas que já derramei e as que verterei no futuro. Ah! Se não fosses a minha Heroína, matava-te só para mim!

Escrito por Tiago Peregrino em 10:11 PM | Vírus (0)

junho 03, 2005

Queimado

Sou guiado por impulsos eléctricos. Eu sei. Todos sabem. Percorrem-nos o circuito do sistema nervoso como um gigantesco quadro de alta tensão que fornece milhares de Watts a um grande país. O problema é que nós não somos apenas corrente. Alterna ou contínua. As sinusoidais do osciloscópio servem de interpretação à alma? Os implantes neuronais estimulam o acto X, mas não terão consequências no acto Y? Só o sujeito em questão o saberá. Mas sou guiado por impulsos eléctricos. E actualmente receio que estou em curto-circuito.

Escrito por Tiago Peregrino em 03:46 AM | Vírus (1)

maio 23, 2005

No motel da rua Esquerda

Com uma clara e inocente satisfação, soltei um esgar de bizarria. Suzy, boneca de porcelana branca, puta de profissão, vendia também pensamentos. Nada de citações de fulano ou sicrano. Pensamentos genuínos, dos que só ela fora instruída no decurso da sua vida cheia de episódios lacónicos. Senti-os trespassarem as almofadas enxovalhadas entre os nossos corpos. Rumores que saíam da sua boca proibida, que emanavam do suor que lhe escorria pelo ventre, misturado com o perfume barato e exageradamente doce.
O nosso ninho, no meio daqueles lençóis brancos do motel da rua Esquerda, transformara-se num palco de improvisação, uma stand-up comedy da vida real, ou uma jam session de lamentações e querelas aninhadas no mais puro caos. Sempre que Suzy sorria era de sarcasmo, não de prazer ou felicidade. Comecei a questionar o meu saber, aquilo por que alguns investiam em mim como futuro senhor engenheiro doutor das doutas leis dogmáticas.
Depois de algumas lições paguei os préstimos com bonificação, deixei-a sozinha no quarto, e desci as escadas com direcção ao bar de traços art-déco falaciosos. Com dois copos de Jack, ouvi um fantasma ao ouvido que me preconizava a viver com celeridade, não a pensar.

Escrito por Tiago Peregrino em 11:25 PM | Vírus (0)

maio 03, 2005

Doutor

Nos meus dias de judiaria e chulice descarada, conheci um fotógrafo de feições animalescas proveniente de Samoa. Os velhos Ray-Ban de lentes castanhas escurecidas envolviam aquela personagem numa invulgar auréola kitsch. Nunca em tempo algum cumprimentara um colega de profissão colocado dentro de umas bermudas tamanho XXXL, de camisa havaiana desfraldada e demasiado curta, onde se vislumbrava por entre uma imensidão de pelos púbicos uma impressionante cúpula de gordura, saliente e flácida, entre o umbigo e a cintura descaída. Estávamos em pleno inverno.
Continue a injectar "Doutor"
Escrito por Tiago Peregrino em 02:32 PM | Vírus (3)