junho 05, 2005

A superior desfocagem

A recente pressão sobre o ensino superior, nos termos em que foi feito, pelo Ministro Mariano Gago e pelo Presidente da República, mostra até que ponto estas entidades não souberam formular, nos novos paradigmas do desenvolvimento, as velhas e cansadas máximas acerca da desorganização do sistema de ensino em Portugal. Com efeito, a questão do número de alunos por curso e a problemática das notas de acesso ao sistema só são relevantes quando o princípio da escolha hiper-condicionada por parte dos alunos e da relevância curricular e de conhecimento são postas de lado. Por isso, em vez de analisar os modelos de escolha procura-se concentrar a selecção na nota e em vez de analisar as exigências para uma sociedade do conhecimento dos saberes existentes e não-existentes na sociedade portuguesa formalizados ou não em modelos curriculares questiona-se o número de alunos. Mal vai um país que ainda não conseguiu pensar uma rede universitária nacional com os seus pólos de excelência e interligada às redes de nacionais e internacionais de produção de bens e serviços. Pior vai um país que enfrenta o processo de Bolonha como um risco e não como um pretexto para melhor se posicionar de outra forma na sociedade do conhecimento. Triste da sociedade que perante os conceitos de “organização que aprende” e de “região que aprende” prefere a crítica de a quem ensina e os planos gizados no arbítrio do senso comum. As lógicas colectivas subjacentes aos processos de desenvolvimento implicam uma outra atitude; A estruturação regional de redes de integração (público/privado) (empresas/universidade) no domínio das políticas públicas permite definir uma “learning region” como uma “...combinação estruturada de instituições estrategicamente orientadas para a transferência tecnológica, para a aprendizagem e para o desenvolvimento económico, particularmente capazes de criar condições no território para as empresas aí se desenvolverem em vez de procurarem localizações alternativas “ (Pratt, 1997:65 citado por Serrano, António, 2005:101) Esta dinâmica visando a centralidade e a atracção de actividades elege a dimensão regional como a mais apta para desenvolver internamente, opções e soluções concertadas de cooperação e integração de tipo territorial e funcional (Serrano António e outros, Ibidem; 101) Este princípio de autonomia interliga-se com a capacidade das novas tecnologias das informação/comunicação em gerarem uma utilização estratégica desta informação na construção de redes interligando potenciais agentes e actores económicos, políticos e culturais. A Região não pode correr assim um perigo de desfocagem dos debates nacionais acerca do ensino superior e reflectir de dentro para fora uma estratégia que a autonomize no contexto nacional e internacional. Este desafio do século XXI pode ser perdido cada vez que simbolicamente assistimos a reflexões do exterior para a região eivados de “notas de cartão postal” e de invocações o remoto passado de uma remota paragem. Sinto, num quadro cada vez mais competitivo, que a melhoria da acção colectiva está cada vez mais dependente de políticas públicas incentivadoras de redes como factores de competitividade e que essas conexões deverão, no caso dos Açores, por imperativo e por vocação redes múltiplas e abertas ao exterior mas com a inteligência motora radicada no próprio arquipélago. Para tal urge reforçar a memória colectiva regional. Processo histórico, todos os dias reescrito mas muitas vezes adulterado. Não se trata de reescrever uma história mas de cultivar uma memória sobre actores, factos e desafios para que a sociedade reflicta sobre si mesma e adopte caminhos de futuro enraizados no presente.

Publicado por Rolando Lalanda às 07:35 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)

Conhecimento, a certeza do futuro.

1. Quando a Universidade dos Açores nasceu, interligada ao movimento autonómico, poucos pensavam que a sua vocação estaria tão intimamente ligada à evolução do sistema de ensino nacional (afluxo de estudantes e docentes continentais) e ao mesmo tempo, que esta, na entrada do século XXI , estivesse tão dependente da atitude dos alunos açorianos (hoje base essencial de recrutamento de alunos). Este aparente paradoxo mostra a especificidade do conhecimento na estruturação dos processos sociais, económicos e políticos, e também enuncia a necessidade de fundamentar a prospectiva na descoberta dos princípios e regras associados ao paradigma da sociedade do conhecimento. 2. Como afirma Peter Drucker, no seu livro A Sociedade Pós-Capitalista, ainda não percebemos bem como se comporta o conhecimento como recurso económico; todavia, ao analisar os primeiros estudos sobre esta matéria, cedo se descobre que a concorrência imperfeita parece inerente à economia do conhecimento; que nem o consumo nem o investimento parecem ter efeito na produção do conhecimento; finalmente, que não existe um denominador comum aos diversos tipos de conhecimento, o que contrasta com os pressupostos da economia clássica para a análise de outros recursos. Assim, ao analisar o impacto e a importância da Universidade dos Açores na sociedade açoriana, devemos ter em consideração a importância do recurso produzido no processo de aprendizagem universitário: o conhecimento, no campo concreto e material da sua produção. 3. Constata-se infelizmente que tanto o Estado como a sociedade civil na apreciação que fazem da Universidade utilizam alguns indicadores de reduzido alcance e outros aparentemente associados a modelos de gestão e de avaliação das políticas públicas aplicáveis à análise de outros tipos de organização. É assim que um dos primeiros erros radica na concepção da despesa com o ensino e os resultados. Tal como afirmou Drucker, o conhecimento só aparece correlacionado com o investimento muito a longo prazo. A noção de choque tecnológico na economia do conhecimento é simplesmente absurda. Um outro erro na compreensão das dinâmicas Universitárias, nomeadamente na Universidade dos Açores, está na relação entre a procura agregada de “cursos” e a oferta de propostas de ensino cujo equilíbrio deveria ser alcançado através das regras de mercado. Com efeito, nem a ausência de vocações para determinados “cursos”, nem os planos de desenvolvimento do ensino universitário são passíveis de um ajustamento deste tipo. De facto, se existe domínio onde a construção das dinâmicas de formação escapa à planificação é este. Porém, o mesmo já não se pode dizer dos efeitos perversos da redução da “capacidade instalada” em matéria de especialistas nos diversos domínios científicos no seio de uma comunidade científica. A reconversão de especialistas e de universitários com longas carreiras de investigação e ensino é uma proposta que se torna ridícula no contexto das lógicas de crescimento de uma sociedade do conhecimento. 4. Num mundo recheado de incertezas a emergência da sociedade do conhecimento vem colocar a aprendizagem e a investigação no cerne dos processos de mudança social. As instituições de ensino, nomeadamente as universitárias, não podem estagnar. O ciclo de transformação da informação em conhecimento e da aprendizagem em comportamentos pela sua complexidade exige não só a produção científica em si mas também o estudo dos factores do próprio desenvolvimento do conhecimento (objecto das ciências humanas e sociais). Como todo o modelo de ensino se deve estruturar no domínio da credenciação formal mas também no domínio da formação contínua (actualização), a Universidade nunca tem uma tarefa terminada. 5. Neste contexto a Universidade dos Açores tem vindo a aprofundar as várias dimensões do conhecimento na sociedade açoriana. O crescimento na oferta de ensino tanto ao nível das licenciaturas e pós-graduações como ao nível da formação contínua marca o dinamismo desta estrutura. Também a permanente formação dos seus quadros tem vindo a reforçar a capacidade de investigação tanto nas ciências da natureza como nas ciências humanas. 6. Este projecto estruturante e de futuro, hoje consensual na sociedade açoriana, lança um permanente desafio: o da criação de estruturas e de organizações capazes de reterem e de potenciarem os recursos humanos gerados pelo desenvolvimento do conhecimento.

Publicado por Rolando Lalanda às 07:30 PM | Comentários (0) | TrackBack (0)