janeiro 31, 2004

Última sessão

A última sessão realizada entre nós pelo inolvidável mestre, efectuou-se no dia 10 de Fevereiro na sala do Grupo Xadrez de Lisboa e na presença de numerosa assistência. Alekhine mostrara o desejo de jogar com 8 adversários dos que melhores resultados tinham obtido nas sessões de simultâneas anteriores, tendo em 4 tabuleiros as peças pretas e consentindo aos jogadores nacionais a utilização de relógios. Os adversários de Alekhine foram: Dr. António Maria Pires, Carlos Araújo Pires, Gabriel Russel, Masoni da Costa, Álvaro Amores, Alves de Aguiar, Francisco Lupi e A. Araújo Pereira. Iniciando-se às 20:15, a sessão terminou rapidamente. Às 24 horas todos os adversários do Campeão do Mundo haviam já abandonado.
Ao pronunciar algumas palavras em resposta ao agradecimento que lhe fora patenteado pelo Dr. António Maria Pires, presidente da Federação Portuguesa de Xadrez, em nome dos xadrezistas de Portugal, Ronald Silley, presidente da direcção do Grupo de Xadrez de Lisboa, em nome dos sócios do Grupo, o Dr. Alexandre Alekhine teve algumas amáveis palavras para os amadores portugueses, aos quais aconselhou o estudo pormenorizado de bons tratados, para um aproveitável desenvolvimento da suas capacidades latentes, focando a necessidade do contacto com mestres amadores estrangeiros, em competições xadrezísticas que muito contribuirão para o progresso e aproveitamento do xadrez nacional.

FIM

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janeiro 28, 2004

Uma partida

Partida nº 15


Gambito de Dama – Defesa Ortodoxa


Brancas: Alekhine Pretas: António Maria Pires

1.d4 d5 2. c4 e6 3. Cf3 Cf6 4. Bg5 Be7 5. Cc3 Cbd7 6. e3 O-O 7. Dc2 c5

Com este lance as pretas ficam com um bom jogo libertando-se com facilidade. As brancas poderiam ter jogado 7. Tc1 também considerado correcto.

8. cxd5

As brancas têm em vista arranjar um ataque fulminante sobre o rei adversário depois de O-O-O e h4.

8. ... Cxd5

Também é jogável cxd5 segundo a opinião de Collijns no seu Lärobok.

9.Bxe7 Cxe7 10. Bd3 g6 11. O-O-O cxd4 12. Cxd4 Db6 13. h4 Cc5

Eliminando a forte posição do Bispo.

14. h5 e5

Um bom lance. O Bc8 tão difícil de desenvolver na defesa ortodoxa, liberta-se.




15.hxg6 Cxd3 16. Dxd3 fxg6

As pretas eliminaram as variantes arriscadas e embora com o peão de e5 isolado têm uma excelente posição. A Tf8 domina a coluna com pressão sobre as brancas.

17.Dc4+ Rg7 18. Cf3 Df6 (Evitando Dh4) 19. Ce4 Dc6 20. Cxe5

Este lance não é recomendável. A vantagem do peão vai custar cara às brancas.

20.... Dxc4 21. Cxc4 Be6 22. Td4? Cf5 23. Ce5 Cxd4 24. exd4 Bxa2 25. f3 (Melhor seria Rd2) Tc8+

Se as pretas jogassem em lugar deste lance, Tfd8 o peão d4 não teria defesa suficiente.

26.Rd2 Tfd8 27. Re3 a7

Preparando a retirada do Bispo em a2. Jogar Tc2 seguido de Txb2 seria erro. O Dr. Alekhine espreita a última possibilidade de tomar qualquer iniciativa apoderando-se da coluna aberta C.
Quanto mais adiante as brancas tomaram a coluna aberta ainda tentaram dar mate no meio do tabuleiro!

28.Ta1 Bg8 29. Cc5 Bd5 30. g4 Jogada diabólica a que se seguem outras de prisão do rei preto com o fito de dar mate... 30. ... Td6 31. g5 Tb6 32. Ccd3 Tc2 33. b4 Bc4 34. Ta5 Tb5 35. Ta3 Bxd3 36. Rxe3 Tg2

Ainda que aparentemente não exista perigo em abandonar a coluna C às brancas, as pretas ainda vão ter preocupações por esse motivo.

37. Tc3 Txg5 38. Tc7+ Rf6 39. Re4 Txb4 40. f4 Tg1 41. Txh7 Te1+ 42. Rd5 Tb5+ 43. Rd6 Rf5 44. Tf7+ Re4 45. Te7 Procurando o cheque a descoberto. 45. ... Td5+ 46. Rc7 Tb1 47. Cxg6+ Rxd4 48. Ce5 a5 49. Cf3+ Rc3 50. Ce5 a4 51. Te8 Ta5 52. f5 Tf1 53. Rb6 Td5 Embora pudesse deixar tomar a Torre. 54. Tc8+ Rb3 55. Cc4 Txf5 56. Rxb7 Tc5 0:1

As brancas já não têm defesa possível. Uma partida interessante em que as pretas até final tiveram que evitar a actuação do Cavalo branco com muitas e variadas ameaças.

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janeiro 27, 2004

3ª Sessão

A terceira sessão que o Dr. Alexandre Alekhine jogou em Portugal foi realizada na Sociedade de Geografia, no dia 1 de Fevereiro. Na vasta sala Portugal, na presença duma assistência calculada em mais de 600 pessoas, entre as quais se contavam com os corpos directivos da Sociedade de Geografia, Federação Portuguesa de Xadrez e Grupo de Xadrez de Lisboa, o campeão mundial defrontou novamente 40 xadrezistas, os melhores de Portugal. (...)
O Dr. Alekhine não encontrou nesta sessão as mesmas facilidades de ganho que obtivera na anterior, jogada no Casino do Estoril. Mais familiarizados com o ilustre visitante, os jogadores nacionais houveram-se melhor, com a vantagem de terem a equipa reforçada. Ao cabo de oito horas e meia de luta, o campeão mundial encontrava-se visivelmente cansado. Os seus formidáveis recursos ainda lhe valeram em bastantes partidas, entre as quais é digna de citação a jogada pelo nóvel xadrezista Peter Braunmann: Um gambito letão, que desorienta o campeão do mundo. Braumann chega a jogar com duas damas, mas apesar disso Alekhine obtém o empate.
Gabriel Russel também em posição ganhante vê-se coagido a empatar, pois é o único adversário que Alekhine tem às 5 horas e meia da manhã! O Dr. António Maria Pires, Alves de Aguiar e Artur Cruz batem o mestre! Carlos de Araújo Pires, Gabriel Russel, Peter Braumann, Álvaro Amores, Francisco Lupi, Henrique Mantero, Vírgilio Costa, Jorge Gonçalves e A. Araújo Pereira empatam.
Alekhine obtém 28 vitórias, empata 9 partidas e sofre 3 derrotas. A equipa portuguesa reabilita-se um pouco das sessões anteriores!...

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janeiro 24, 2004

2ª Sessão

No dia 27 de Janeiro jogou-se no Salão de Inverno do Casino do Estoril, uma sessão de 40 partidas simultâneas. (...) Na equipa portuguesa encontravam-se representadas as seguintes agremiações xadrezísticas: Grupo de Xadrez de Lisboa, Instituto Superior Técnico, Grupo de Xadrez de Coimbra, Faculdade de Ciências de Lisboa, etc. Ao cabo de 5 horas e meia, sem acusar a mais ligeira fadiga, Alekhine, terminou a sessão com o elevado score de 37 partidas ganhas, 1 perdida e 2 empatadas. Coube a Armando Aragão da equipa de Coimbra, a honra de vencer Alekhine. Alves de Aguiar e A. Araújo Pereira, empataram com o mestre. (...)

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janeiro 23, 2004

1ª Sessão



Na 1ª sessão jogada no Casino do Estoril no dia 24 de Janeiro, perante numerosa assistência, sem ver o tabuleiro, Alekhine, depois de 3 horas e meia de luta venceu todos os adversários. A sua técnica e memória excepcionais maravilharam a assistência, que tributou ao mestre uma formidável ovação. O xadrezista João de Moura foi incumbido da ingrata tarefa de "speaker", da qual se houve acertadamente. os adversários de Alekhine eram: Francisco Lupi, Henrique Mantero, Peter Braumann, Jorge Gonçalves, Álvaro Carvalho, Dr. Miguel de abreu, Fausto Caldeira e José Ribeiro. Os dois primeiros opuseram ao campeão mundial uma forte resistência.

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janeiro 22, 2004

Introdução (IV)

O professor holandês, Max Euwe, arrebatou-lhe em 1935 o título, vencendo-o pelo score mínimo de 15,5 a 14,5, mas em 1937 é forçado a devolver-lho depois de em 30 partidas ter perdido 11, ganho 6, e empatado 13. Alekhine é novamente campeão do mundo, título que até hoje conserva.
Fala-se num próximo match entre Alekhine e Capablanca, no qual será posto em jogo o título de campeão mundial que decerto não foi ainda por ninguém usado com tanta propriedade, como pelo invulgar e excepcional mestre que Portugal acaba de ter a honra de receber.

_________

A bibliografia xadrezística nacional é pobre. Que esta pequena obra sem pretensões, possa contribuir para a difusão do rei dos jogos são os nossos desejos.
A parceria António Maria Pereira que editou pela primeira vez em Portugal uma obra sobre xadrez, (o Jogo real, de A. Ansur), mais uma vez presta a sua colaboração editando este simples trabalho, que outro mérito não possui, senão o de marcar uma data histórica para o Xadrez Nacional: a passagem pelo nosso país, do maior mestre de todos os tempos – o campeão do mundo Dr. Alexandre Alekhine.

Lisboa, Fevereiro, 1940

Alfredo Araújo Pereira

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janeiro 21, 2004

Introdução (III)

As suas qualidades estratégicas revelam-se na famosa abertura que tem o seu nome jogada pela primeira vez contra A. Steiner em Budapeste. Esta abertura marcou o início duma teoria absolutamente nova, tendo merecido aos mestres Grünfeld, Kostich e Réti consideráveis análises.
No seu final de partida contra Tartakower, no torneio de Viena, final que obteve um prémio de beleza e que foi ganho por Alekhine, quando todos julgavam o empate certo, ficaram bem vincadas as suas qualidades de originalidade e poder de combinação.
Em Londres, no Torneio dos Grandes Mestres (1922) e no qual Capablanca participou obtendo o 1º Lugar, Alekhine classificou-se em segundo, não perdendo uma única partida e tendo a satisfação moral de, ao jogar com Capablanca, ver este propor-lhe empate ao 17º lance.
Alekhine ganha em 1925 os quatro primeiros prémios dos torneios de Paris, Berna, Baden-Baden e Hastings, sem uma derrota.
Em 1927 disputa o título de campeão do mundo a Raul Capablanca, jogando 34 partidas com o impassível cubano, ganhando 6, perdendo 3 e empatando as restantes!

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janeiro 20, 2004

Introdução (II)

No torneio de Carlsbad em 1991, Alekhine alcançou um dos primeiros lugares. Em pequenos torneios (Stockolmo 1912 e Scheveningue, 1913) em que participava o mestre Janowski, ganha os dois primeiros lugares, conseguindo ex-aequo com Nimzowitch o primeiro lugar também no torneio Pan-russo de mestres em 1913-14.
Contava então 16 anos.
No torneio internacional de S. Petersburgo (1914) a sua classe desenvolve-se em toda a pujança, empatando, depois dum sacrifício de peças, com Lasker (nessa altura campeão do mundo).
No torneio internacional de Manheim (Julho, 1911) Alekhine revela a cada nova sessão um acréscimo do seu predomínio, oferecendo à teoria xadrezística novos subsídios e alargando os seus horizontes, como por exemplo na partida francesa jogada contra Fahrni, onde inicia pela primeira vez o ataque por h2-h4. O período da Grande Guerra interrompe a sua brilhante carreira, mas em 1921 em Triberg, Budapeste e Haia adquire a reputação de campeão da Europa, não perdendo uma única das 30 partidas jogadas, incluindo entre os seus adversários, Bogoljubow e Rubinstein que derrota em partidas brilhantíssimas, enriquecendo com sábias concepções a ciência xadrezística. A sua inspiração artística é flagrante nas 26 partidas simultâneas jogadas sem ver, Em New-York e 28 em Paris, contra fortíssimos amadores, batendo o recorde mundial.

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janeiro 19, 2004

Introdução (I)



O Dr. Alekhine que Portugal teve a honra de receber em Janeiro, é um dos raros artistas do jogo real, que consegue reunir a um tempo um conhecimento de teoria, para a qual já vastas contribuições tem dado, uma rápida visão e um alto espírito artístico. Estas qualidades fizeram dele o maior jogador de xadrez de todos os tempos. Tendo começado muito novo a bater-se em competições de grande importância, com os maiores jogadores desse tempo, depressa marcou um lugar de destaque, e à natural curiosidade que despertava pela sua pouca idade juntava-se a técnica profunda que ia revelando o seu espírito inovador. Do prefácio do seu livro «Deux cents parties d'échecs» escrito pelo Dr. S. Tartakower tirámos algumas notas biográficas indispensáveis a este pequeno trabalho que não representa que uma tentativa de perpetuar a passagem pelo nosso País do campeão do Mundo de Xadrez e alguns dos jogos por ele feitos com os xadrezistas nacionais.

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janeiro 18, 2004

Prefácio

O distinto amador de xadrez que é o senhor Alfredo Araújo Pereira quis dar-me a honra de prefaciar o seu interessante livro comemorativo da passagem por Lisboa do actual campeão do mundo, o Dr. Alekhine.
Trabalho importante sob diversos pontos de vista não é fácil salientar onde está o seu maior valor:
Guardar para a história uma recordação do portentoso talento ou melhor do génio do Dr. Alekhine manifestado entre nós? Concorrer para a propaganda em Portugal da prática do grande jogo?
Pode ainda formular-se a hipótese doutros objectivos, e igualmente desinteressados da parte do autor, mas sem dúvida a última formulada e verificada é a que mais nos importa.
É evidente que o xadrez não goza em parte alguma da estulta retumbância daqueles pobres jogos ou artes que metem punhos ou pés, mas no entretanto já conta em Portugal admiradores numerosos, alguns bons amadores e dispõe de certa organização.
Existem regularmente vários grupos disseminados no país e a Federação Portugues de Xadrez é uma das mais antigas filiadas da respectiva Federação Internacional e as provas em que tem entrado já lhe conferiram nome mundial, havendo a citar em especial o 4º lugar que alcançou no 1º Torneio das Nações feito por correspondência em que cooperou, em mais de 4 anos de provas porfiadas e sensacionais.
Se do opúsculo do meu amigo Araújo Pereira resultar como tudo indica, ainda que só causado pelos atractivos da curiosidade, a formação de alguns novos jogadores, todos lhe devemos, como eu aqui faço, a declaração de que lhe somos gratos.

ANTÓNIO MARIA PIRES
Presidente da Federação Portuguesa de Xadrez

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janeiro 16, 2004

Nova “Velharia”!



Vamos divulgar partes de um pequeno livro que se tornou mítico para todos os amantes portugueses de Xadrez. Este livro, “Alekhine, Campeão Mundial de Xadrez em Portugal”, descreve a estadia do antigo campeão do mundo desta modalidade no nosso país, bem como analisa as partidas jogadas entre o campeão e os jogadores portugueses.
O livro, da autoria de Alfredo Araújo Pereira, foi publicado em 1940, pela Parceria António Maria Pereira, seis anos antes de Alekhine falecer, curiosamente no nosso país.


Alfredo Araújo Pereira; Alekhine – Campião mundial de Xadrez EM PORTUGAL; editor Parceria A. M. Pereira, Lisboa, 1940

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janeiro 13, 2004

Epílogo

Um povo nestas circunstâncias revela incontestavelmente que a sua nacionalidade está bem longe de extinguir-se no marasmo da inactividade social ou na voragem dos cataclismos políticos.
De resto, para que tal sucedesse, fora mister arrancar primeiro e aniquilar uma por uma as páginas monumentais dessa epopeia sublime em que o génio titânico de Luís de Camões, consubstanciando as glórias de seus conterrâneos, lhes talhou a imortalidade da apoteose.
Enquanto um povo se abraçar com entusiástica devoção ao sagrado estandarte de seus maiores, impossível lhe será esfacelar-se ou morrer, porque lho veda a própria consciência do que a si deve e aos seus antepassados, - sobretudo quando esse povo é, conforme o definiu Victor Hugo ultimamente por ocasião de celebrar-se o tricentenário do Homero português, «um povo extraordinário que, imperceptível quase no globo se atendermos só às pequeníssimas dimensões do seu país, soube assumir na história um papel grandioso, avassalando as terras como fez a Espanha e avassalando os mares como fez a Inglaterra, sem haver perigo ou dificuldade que lhe ocasionasse um momento sequer de hesitação ou perplexidade.»
A surpreendente animação, com que Portugal solenizou em Junho de 1880 o tricentenário do grande poeta, apresenta efectivamente esta significação altíssima: - um país que não morre; um povo que não se presta a que lhe raspem do mapa-mundi o seu nome gloriosíssimo.

FIM

Acabamos de transcrever, ao longo destes últimos meses, este resumo (esta História de Portugal, em 64 páginas, parecia interminável quando transcrita para o blogue). Justificou-se a transcrição integral, pela temática abrangida e pela narrativa, que a mim me pareceu particularmente interessante, apesar de desconhecer o(s) seu(s) autores.
Esta história judiciosa e apologética, nada asséptica como muita da História ciência e estruturalista pretende ser, é datada, mas particularmente atractiva.
Nos próximos dias seguir-se-ão outras velharias. Algumas ocuparão mais, ou menos tempo que esta. Fica, contudo, quase a certeza que mais nenhuma terá o mérito de ser transcrita na íntegra.

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janeiro 11, 2004

D. Luís

Sucedeu-lhe el-rei D. Luís que hoje governa, e que em 1862 casou com a princesa D. Maria Pia de Saboya (filha do rei de Itália Victor Manuel) – uma dama de elevado espírito e sentimentos nobilíssimos.
O herdeiro presuntivo da coroa é o filho primogénito daquele consórcio, o príncipe D. Carlos.
Portugal pode afoitamente proclamar-se o país clássico da liberdade.
Nesse particular, nenhum outro se lhe avantaja, nenhum certamente o iguala, mesmo desses cuja forma governativa apresenta ostensivamente condições mais democráticas.
Se lhe não assiste na actualidade a importância política inerente aos grandes Estados, redunda-lhe como indemnização a tranquilidade e o remanso com que, exclusivamente entregue às sacrossantas lides da civilização e do progresso, nelas concentra desafogado a sua actividade toda.
Nessa cruzada incruenta e pacífica Portugal preza-se de acompanhar sempre os mais adiantados países; e no afirmar de suas tendências nobres, generosas e humanitárias, chega por vezes a dar frisantes lições à Europa, como sucedeu quando em 1867 expungiu definitivamente do seu código a pena de morte, - pena que já el-rei D. Pedro V havia tacitamente abolido de facto, não se prestando nunca a assinar o seu nome em sentenças de semelhante natureza.

Para os recém chegados a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881

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janeiro 10, 2004

D. Pedro V (2ª parte)

Por isso quando, na flor dos anos, a morte o raptou de súbito ao amor de seus súbditos, foi como se o povo sentisse desdobrarem-se-lhe em torno os lutos da orfandade. Nunca houve morte de soberano que mais lastimada fosse. É que no espírito de todos achava-se indelevelmente impressa a memória dos rasgos de heróica abnegação e serena intrepidez com que durante as epidemias da cholera-morbus (em 1856) e da febre amarela (em 1857) D. Pedro havia mostrado realmente ser o pai de seu povo.
D. Pedro e sua virtuosíssima esposa, a rainha D. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen, que pouco mais de um ano logrou de casada e que não chegou a dar sucessores ao trono, foram no sólio português o alvo constante de um fanatismo geral, fanatismo que tocava quase as raias da adoração.
A D. Pedro V chamaram alguns o Esperançoso; de Muito amado o cognominaram outros; melhor o designaríamos talvez dando-lhe o cognome de Rei-modelo, ou com mais propriedade ainda o denominaríamos chamando-lhe o Amigo dos que trabalham, designação com que ele a si próprio se qualificou em um dos elegantes e substanciais discursos que a miúdo pronunciava.

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janeiro 09, 2004

D. Pedro V



D. Pedro V, o imediato sucessor de D. Maria, foi o que se chama verdadeiramente um vulto excepcional. Tinha tomado a sério o espinhoso encargo de reinar; conglobavam-se nele todas as qualidades mais selectas e mais apreciáveis dos monarcas seus predecessores; concentravam-se nele com entranhada veneração todas as esperanças do seu povo.
Cultor das letras e seu desveladíssimo protector, D. Pedro teve a satisfação de assistir ao frutificar, em toda a sua pujante exuberância, do movimento literário entre nós inaugurado por Garret, Herculano e Castilho. A criação do Curso Superior de Letras a expensas de seu bolsinho particular bastaria por si para assinalar brilhantemente na história o glorioso nome de el-rei D. Pedro V, se em cada um de seus actos não houvesse motivo especial de elogio.
Este sim, que era deveras um rei!

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janeiro 08, 2004

D. Fernando II

E foi D. Fernando, quem por morte de D. Maria II assumiu a regência durante a menoridade de D. Pedro V, seu filho, - regência que ficou assinalada, durante os dois anos quase completos que durou, pela circunspecção e tino prudencial de que deu provas o monarca viúvo. Essencialmente afeiçoado às belas-artes e seu desvelado cultor, deve-lhe o país nesse campo especial relevantíssimos serviços, mais que suficientes para justificarem a cognominação de Rei-artista por que é geralmente tratado el-rei D. Fernando II de Portugal. Sob a sua regência e por iniciativa própria se construiu a capela mortuária, onde no mosteiro de S. Vicente de Fora jazem todos os soberanos reinantes da dinastia de Bragança (com excepção de D. Maria I e D. Miguel) além de muitos outros membros da mesma família.

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janeiro 04, 2004

D. Maria II (2ª parte)

D. Maria II, - cuja energia de caracter estava talhada perfeitamente para suster o pesado encargo de presidir aos destinos de uma nação, - contava apenas 34 anos de idade, quando prematuramente veio a falecer. Prantearam-na saudosas lágrimas do país todo, que – se não podia propriamente ver nela a Constitucional (como alguns historiadores a têm cognominado, menos legitimamente talvez – porque em suma o génio soberano e varonil de D. Maria II propendia mais para as arbitrariedades despóticas do que para a pautada obediência ao regime constitucional) – encontrava todavia simbolizado nela a dama virtuosíssima que na educação de seus filhos podia servir de modelo a todas as mães. De quantos cognomes a posteridade escolha para designá-la na história, nenhum certamente lhe caberá com tanto direito como o de Educadora.
Viuva do príncipe bávaro Augusto de Leuchtenberg após dois meses de infrutífero consórcio, passara D. Maria II a segundas núpcias com o príncipe D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha – que veio a ter o título honorífico de rei, apenas lhe nasceu o filho primogénito D. Pedro.

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