setembro 30, 2003

D. Sancho II (1ª parte)

Quando D. Afonso II faleceu, não contava ainda catorze anos de idade o primogénito do seu matrimónio com D. Urraca (filha de Afonso IX de Leão). Daí resultou que durante a menoridade do novo rei D. Sancho II foram os ministros de seu pai quem ficou sustendo as rédeas da governança.
As ambições do poder clerical encontravam agora o ensejo de fazer reviver suas insaciáveis pretensões. Faltáva-lhes a debelá-las o braço enérgico e possante de D. Afonso. Sentiam-se afoitos perante um rei-criança, cujos ministros e tutores lhes não podiam opor o prestígio pessoal tão influente naquelas eras.
Não admira, pois, que os ministros durante a menoridade de D. Sancho houvessem de transigir com as exigentes pretensões daqueles mesmos, a quem aliás el-rei D. Afonso tão vigorosamente soubera sempre resistir.
De três membros se compunha este conselho, que a seu cargo tinha a tutoria do príncipe e a regência do reino. Eram eles: - Gonçalo Mendes (o chanceler-mór), Pero Anes de Novoa (o mordómo-mor) e Vicente (o deão de Lisboa).
Quando o príncipe afinal atingindo a maioridade chegou a empunhar o ceptro real, achavam-se desfrutando de toda a preponderância o clero e a nobreza, - verdadeiros potentados que aliás se digladiavam e hostilizavam porque cada um deles pugnava exclusivamente pelo alargamento de suas prerrogativas e realização de suas ambições sempre insaciáveis, nunca satisfeitas.
Quer isto dizer nada mais, nada menos, que estavam inutilizadas e perdidas quantas brilhantes conquistas el rei D. Afonso II havia realizado em prol da autoridade régia.
De ânimo irresoluto e pouco apto para lutas políticas, D. Sancho II não era homem talhado para reconquistar as prerrogativas perdidas.
Debalde seus velhos ministros, em cujos ombros el-rei continuou a delegar a administração suprema dos negócios públicos, tentaram à sombra do monarca recolocar as coisas no pé em que D. Afonso as havia deixado.
Nem D. Sancho tinha a energia indispensável para com ele poderem contar na ocasião precisa, - nem a pouca força moral que dele poderiam receber bastaria para os habilitar a sair de situação tão crítica.

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setembro 29, 2003

e-mail

Por motivos que desconheço, deixei de ter acesso à minha conta de e-mail anterior. Assim, para o envio de correspondência, a nova conta é:

xoao@hotmail.com

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D. Afonso II

D. Afonso II que lhe sucedeu na coroa, como filho primogénito do consórcio de D. Sancho I com D. Dulce (filha do conde de Barcelona, Raimundo Berenger), deveu à sua compleição obesa o cognome de Gordo.
Efectivamente, apesar de pouco afeiçoado às lides belicosas, abrilhantou, ainda assim, o seu reinado com a gloriosa tomada de Alcácer do Sal em 1217.
Já em tempos seu avô nas correrias ao Alentejo havia ganho o assalto aquela praça; mas esse esforço de D. Afonso Henriques não passara de um acto de pasmoso arrojo; sem elementos para a guarnecer e garantir a sua conservação, lá a deixara por fim outra vez volver ao domínio dos Sarracenos.
O cometimento, pois, de D. Afonso II foi deveras uma reconquista.
E nela fizeram os portugueses reverdecer os louros da vitória que já cinco anos antes haviam colhido ao baterem-se destemidos na célebre batalha de Navas de Tolosa em auxílio do rei de Castela contra os Mouros.
Onde, porém, a energia do monarca mormente se distinguiu foi nas lutas políticas que prosseguiu e sustentou, como legado paterno, contra as pretensões do clero e contra as tentativas de invasão manifestadas pelos papas em relação à pública administração; o arcebispo de Braga e o bispo de Lisboa, encontrando no monarca um rude adversário, foram sempre reprimidos pelo braço potente de D. Afonso.
Poderão notar-lhe alguns como nódoa no seu brilhante reinado a luta encarniçada com que disputou a suas irmãs as terras e castelos que D. Sancho I lhes legara. Advirta-se, porém, que, se D. Afonso sufocava no coração o sentimento de amor fraterno, é porque para cimentar e consolidar a autoridade real entendia dever manter ilesas as prerrogativas do trono opondo-se a que lhe fizessem desmerecer o prestígio da coroa com o despojarem-na de suas mais preciosas gemas.

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setembro 28, 2003

D. Sancho I

A história, que deu a D. Afonso Henriques o cognome de Conquistador, designa D. Sancho I pelo epíteto de Povoador.
Quer isto dizer que D. Sancho não herdou de seu pai as tendências guerreiras? Não quer.
D. Sancho, digno filho de D. Afonso I, que já em tempo de seu pai tinha demonstrado o que valia e podia o vigor de sua espada nos denodados certames contra a mourisma, soube continuar as tradições heróicas de sua família prosseguindo na senda das conquistas, tomando aos Mouros Elvas e Palmela, finalmente aproveitando o auxílio de uma esquadra de cruzados, que por ocasião velejava nas costas de Portugal, para em 1189 se apoderar de Silves – o que lhe facultou ensejo de intitular-se rei de Portugal e dos Algarves.
Não limitou a isso, porém, a sua enérgica actividade. Mas fundando e reconstruindo povoações, dando forais a concelhos, e, numa palavra, desenvolvendo o gérmen da vida municipal, D. Sancho I mereceu indisputavelmente o cognome com que a posteridade o ficou designado na história.
Simultaneamente sustentava com válida pujança a luta contra a prepotência do clero representada pelos bispos do Porto e de Coimbra que se recusavam em suas dioceses a reconhecer a supremacia temporal do monarca, e na tenaz defesa das prerrogativas régias não hesitou mesmo em afrontar as iras do pontífice.
Falecido em Coimbra após 26 anos de governo, jaz na capela-mor da igreja de Santa Cruz em mausoléu fronteiro ao de seu pai, - mausoléu que também el-rei D. Manuel lhe mandou erguer.

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setembro 27, 2003

D. Afonso Henriques (4ª parte)

Tomando Santarém aos Mouros por surpresa em 15 de Março de 1147 e Lisboa aos 28 de Junho do mesmo ano, D. Afonso Henriques afirmou acentuadamente as suas tendências de guerreiro intrépido e vinculou definitivamente, como pertenças dos Estados a que presidia, todo o território que ficava ao norte do Tejo, - enquanto nas vastas planícies de Alentejo se praticavam heróicos feitos de atrevidos fronteiros, já tomando Fernão Gonçalves a praça de Beja em 1162, já apoderando-se de Évora em 1166 o célebre Gerlado-sem-pavor.
Por outro Lado o rei D. Afonso mostrava-se hábil político e defensor estrénuo dos seus direitos, aproveitando a influência do clero, mas sabendo-lhe conter as pretensões nos seus justos limites, - fundando e dotando generosamente os mosteiros de Alcobaça e de Santa Cruz de Coimbra, de Tarouca e de S. Vicente de Fora, mas opondo-se tenazmente à ingerência da cúria romana nos negócios da administração governativa.
Casado com D. Mafalda (filha de Amadeu III, conde de Mauriana e de Saboya), D. Afonso Henriques, que houve de sua esposa vários filhos e filhas, contava 74 anos de idade, quando aos 5 de Dezembro de 1185 veio a falecer em Coimbra (onde três séculos depois el-rei D. Manuel lhe mandou erguer sumptuoso mausoléu na capela mór da igreja de Santa Cruz), e deixou por herdeiro da coroa seu filho D. Sancho.

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setembro 26, 2003

D. Afonso Henriques (3ª parte)

Desta arte o papa, que tinha o poder discricionário sobre os reis da terra, exaltando-os ou depondo-os a seu bel-prazer, aceitou o oferecimento de D. Afonso Henriques; - e, assinadas novas pazes entre os dois primos no convénio de Astorga em 1143, o rei de Leão reconhecia finalmente perante o legado pontifício o título de rei independente que o filho de D. Teresa havia assumido.
Estava solenemente quebrada a palavra dada pelo príncipe, quando se vira cercado no castelo de Guimarães.
Por seu lado Egas Moniz que ficara solene penhor do seu pupilo, apenas este faltando ao que prometera se havia rebelado contra a suserania de Afonso VII, resolveu dar um exemplo do que era a honradez leal e cavalheiresca daqueles tempos, exemplo que ficou imorredouro e para sempre admirado através dos séculos. Não lhe permitindo o espírito de nacionalidade e independência estorvar os planos briosos do moço príncipe, nem lhe sofrendo também a sua cavalheirosa lealdade que ficasse a mácula de um perjúrio a inodoar (sic) a turvar quiçá desairosamente o arrebol do novo reinado que despontava, - foi com sua mulher e seus filhos, descalço e de corda ao pescoço, entregar-se à disposição de Afonso VII, oferecendo-lhe a sua vida e de sua família como expiação da violada promessa.
(1)
O rei leonês, maravilhado perante o cavalheirismo e abnegação de tão nobre procedimento, reenviou-o em paz, depois de o haver acolhido com as mais significativas demonstrações de benevolência e deferência.
Estava definitivamente fundada a monarquia portuguesa.
D. Afonso Henriques, o primeiro do nome e o primeiro na ordem cronológica dos nossos reis, é pois o iniciador dessa galeria de monarcas sob cujo governo têm corrido os destinos de Portugal desde 1140 até hoje, - galeria em que os diversos soberanos se podem considerar distribuídos por quatro dinastias na forma seguinte:

(1) Actualmente contesta-se muito a veracidade do episódio de Egas Moniz. Este episódio só é relatado já no tempo de Afonso III, aliás, uma cópia de uma história que se contava antes, do conde galego Pedro Ansures. A atribuição a Egas Moniz desse episódio terá tido origem em João Soares Coelho, trovador da corte de Afonso III, descendente da família Egas Moniz, que certamente teve como intuito exaltar a sua própria linhagem. Ver “Dois Séculos de Vicissitudes Políticas”, História de Portugal, Vol II, Direcção de José Mattoso e também “Portugal Medieval – Novas Interpretações” do mesmo José Mattoso

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setembro 25, 2003

D. Afonso Henriques (2ª parte)

Estava, porém, determinado que assim não continuaria por muito tempo. D. Afonso Henriques, ao assumir o governo de Portugal, revoltou-se contra a ideia de vassalagem que só o aperto crítico das circunstâncias o havia constrangido a prometer. E, almejando sobre a cabeça uma coroa de monarca independente, travou luta com o rei leonês, luta em que o destemido filho de D. Henrique invadindo a Galiza chegou a conquistar várias praças ao norte do Minho.
Nisto, porém, os Mouros vendo-se agora poupados pelas correrias dos portugueses ousaram invadir o norte da Estremadura, e chegaram quase a bater às portas de Coimbra.
Então D. Afonso Henriques, vendo-se entre dois perigos, preferiu ajustar pazes (embora um pouco humilhantes) com seu primo a fim de poder livremente voltar-se contra os Muçulmanos.
A audácia de sua espada descendo rápida como um raio ao encontro das hostes agarenas atravessou vitoriosa o Alentejo e acabou por ir selar na Batalha de Ourique aos 25 de julho de 1139 o brilhante remate daquele encarreirado triunfo em que os Mouros aprenderam de vez a temer e a respeitar a intrepidez das armas portuguesas. Debelado este estorvo, o seu ânimo irrequieto voltou-se de novo contra o rei leonês rompendo as pazes que com este assinara; e a vitória, que o filho de D. Henrique obteve sobre seu primo na batalha ferida em Arcos de Val-de-Vez, engrinaldando-lhe a fronte de verdes louros e derramando em torno do seu vulto o prestígio da heroicidade, levou-o enfim a aceitar definitivamente o título de rei, com que os seus súbditos já desde muito o aclamavam e festejavam, habituados como ficaram a tratar de rainha a infanta viúva D. Teresa.
Foi pois em princípios de 1140 que D. Afonso Henriques tomou pela primeira vez oficialmente o título de rei, - e, para que bem garantido lhe ficasse na fronte o diadema régio contra as pretensões do rei leonês, a quem por modo nenhum quadrava esta teimosia de seu primo em negar-lhe agora vassalagem, o novo monarca recorreu ao diplomático expediente de colocar a coroa sob protecção do pontífice, declarando o seu reino tributário da Santa Sé.

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setembro 24, 2003

D. Afonso Henriques (1ª parte)

Enérgico e valoroso apesar de seus verdes anos, o moço príncipe não hesitou em arvorar o pendão da revolta e constituir-se chefe dos que pugnando contra o procedimento escandaloso de D. Teresa miravam sobretudo a acabar com a ingerência do conde galego nos negócios do Estado.
Ferida em 1128 junto a Guimarães na célebre Batalha de S. Mamede em que as hostes de D. Afonso Henriques derrotaram os partidários da infanta-rainha e do conde de Trava, - ficava posto à frente dos estados, que seu pai governara, um príncipe que apesar de contar apenas dezassete anos de idade, porquanto havia nascido em Guimarães, em 1111, deixava já sobressair talento político a par da intrepidez e do valor guerreiro, astúcia e manha a par do génio ambicioso e fogoso, a par da energia viril os dotes não menos recomendáveis do tino prudencial.
A vida de D. Afonso Henriques tinha de passar-se quase toda na refrega dos combates. Primeiro houve as lutas contra seu primo, o filho de D. Urraca, Afonso VII de Leão e Castela, que já durante a regência de D. Teresa o tinha vindo cercar no castelo de Guimarães por ocasião de apresentar-se a reclamar da infanta-rainha o reconhecimento da vassalagem.
Fôra (sic) o caso assim. Afonso VII, cingindo a coroa, entendeu dever obrigar sua tia D. Teresa a prestar-lhe vassalagem; para isso invadiu de mão armada o território português, e foi tomando sem grande custo quantas praças e castelos encontrou no caminho, - ensejo que assaz lhe proporcionavam as dissidências já então pronunciadíssimas entre os partidários da infanta e os de seu filho.
Chegando em frente do castelo de Guimarães, onde o príncipe então estava, Afonso VII pôs-lhe cerco. A situação era apurada e crítica; no castelo não havia forças assaz com que resistir aos sitiantes; os conselheiros de D. Afonso Henriques induziram-no prudencialmente a reconhecer a suserania de seu primo; e desta arte logrou o moço príncipe ver-se livre do cerco, ficando Egas Moniz (aio e mentor do filho de D. Teresa) como penhor responsável pelo cabal cumprimento da palavra do seu pupilo. Depois Afonso VII correra a exigir de D. Teresa igual reconhecimento, e voltara para os seus Estados satisfeito de bom êxito que havia colhido quase sem esforço algum.

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setembro 23, 2003

D. Teresa

D. Teresa, sobre cujos ombros pesava agora o encargo de governar o condado, mantinha as tradições ambiciosas de seu marido.
Usando promiscuamente em seus diplomas a par do título de condessa o título de infante (sic) ou mesmo o de rainha, ou ambos simultaneamente, - títulos que desde Fernando
o Magno as filhas de reis usavam comummente quando sobre algum território exerciam governo e domínio, - propunha-se com intrepidez sustentar luta contra a supremacia de sua irmã; e, quando esta faleceu em 1126, a infanta-rainha podia já, senão oficialmente de direito, pelo menos de facto, considerar-se independente nos seus Estados.
Malogrou-se-lhe, porém, a sua ardente ambição de mando supremo perante outra paixão não menos ardente.
Perdida de amores pelo conde galego Fernão Peres de Trava, D. Teresa excitou a animadversão dos barões portucalenses, cujo brioso orgulho se recusava a aceitar supremacias estranhas.
Começaram, pois, os descontentes a agitar-se e acabaram por agremiar-se em torno de D. Afonso Henriques, o filho do conde borgonhês.

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setembro 22, 2003

Condado Portucalense

Sob o seu governo principia a palavra Portucale ou Portugal a representar – embora muito vagos e indefinidos ainda – uns certos lineamentos de nacionalidade.
Que importa que a administração do conde não seja absolutamente independente e autónoma?
Que importa que ele governe o condado – primeiramente sob a autoridade superior de seu primo Raimundo, e mais tarde sob a directa suserania do rei Afonso VI?
A ideia de nacionalidade lá transparecia já, - se não implantada, - esboçada.
Depois ao condado portucalense propriamente dito juntou Afonso VI o governo do condado de Coimbra e mais o de quantas terras o braço guerreiro de D.Henrique fosse sucessivamente conquistando aos Mouros no sul do Mondego.
O futuro reino de Portugal, - simples condado por ora, cuja capital era Guimarães, - preparava-se já para ir pouco a pouco alargando a área de seus territórios.
D. Henrique de Borgonha é o inaugurador da nossa nacionalidade.
Envolto um poucochito (sic) nas névoas do legendário, o vulto deste ilustre guerreiro não pôde ser ainda apreciado pela crítica histórica em toda a claríssima luz da verdade.
Que motivos reais o levaram a França em 1110? Seria, como geralmente se conjectura, o desejo de alistar lá gente de guerra com que engrossar as suas hostes? Seria; mas não é ponto que esteja de sobra averiguado.
Porque chegou ele a estar lá preso? Ignora-se.
Qual a verdadeira causa que o induziu a ir como cruzado batalhar na terra santa de 1103 a 1105? Seria o mero entusiasmo que naquelas épocas fascinava tantos cavaleiros e que os arrastava irresistivelmente a irem distinguir-se quebrando lanças naquelas regiões longínquas? Seria porventura outro motivo qualquer que ora nos escapa? Também não se sabe ao certo.
O que se sabe, porque tudo em seu procedimento o autoriza a concluir, é que, no meio daquela tendência geral da Espanha cristã a retalhar-se em diversos Estados, independentes, o príncipe borgonhês cifrava o seu sonho áureo em tornar o condado de Portugal puramente autónomo.
Á ambição de D. Henrique correspondiam igualmente as tendências dos barões portucalenses.
Desta arte, - quando Afonso VI de Leão veio a falecer e lhe sucedeu no trono sua filha legítima D. Urraca já então viúva, a qual depois passou a segundas núpcias com o rei de Aragão, - D. Henrique buscou todos os meios de tornar efectiva e real a sua ideia dominante, muito embora as circunstâncias lhe não sorrissem nunca favoráveis para tal desejo se levar a efeito.
E assim correu a vida do príncipe neste vaivém de sobressaltos e esperanças, acarinhando constantemente o projecto da independência autonómica para o condado que administrava, logrando a troco de alianças e conluios políticos adiantar pela Galiza dentro as fronteiras setentrionais desse condado, e procurando alargá-las ao sul em excursões contra os Mouros – onde nem sempre todavia o seu braço forte ficou vitorioso, antes lhe sucedeu perder mesmo alguns dos postos avançados que temporariamente possuíra no território correspondente à Estremadura actual.
Jazem na Sé de Braga, em mausoléu fronteiro ao de sua esposa, os restos mortais do conde que pouco mais de cinquenta anos contaria, quando veio a falecer em 1 de Maio de 1114 deixando por único fruto do seu consórcio um filho de tenros anos.

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setembro 21, 2003

D. Henrique de Borgonha

Entre os guerreiros, que de longes terras vieram provar sua valentia no exército de Afonso VI, achavam-se militando dois príncipes, oriundos ambos da casa de Borgonha.
Raimundo e Henrique se chamavam estes.
A cada um deles deu afonso VI uma de suas filhas em casamento: - a Raimundo, D. Urraca; a Henrique, D. Teresa. Aquele confiou o governo do condado de Galiza; a este, o do condado portucalense.
Condado portucalense ou condado de Portucale era a denominação por que designava naquela época o território compreendido entre Douro e Minho.
Provinha-lhe o nome de uma antiga povoação (Portus Cale) fundada na margem do Douro em frente de outro lugarejo mais antigo (Cale) a que proximamente corresponderá hoje Vila Nova de Gaia.
D. Henrique de Borgonha, que em 1094 começou a governar o condado portucalense depois de haver casado com a filha bastarda de Afonso VI, era filho do duque Henrique de Borgonha e de sua mulher Sibila, (1) bisneto de Roberto (rei de França) e portanto descendente de Hugo Capeto.
Camões caiu inadvertidamente num engano quando escreveu:

“... Henrique, dizem que segundo
Filho de um rei de Hungria experimentado,
Portugal houve em sorte, que no mundo
Então não era ilustre nem prezado;
E para mais sinal de amor profundo
Quis o rei castelhano que casado
Com Teresa sua filha o conde fosse;
E com ela das terras tomou posse.”

(Lus. III, 25)

E na estância 28ª do mesmo canto continua a chamar-lhe húngaro:

“O forte e famoso húngaro extremado.”

Estava isto em harmonia com a tradição que mais geralmente vogava em Portugal acerca do conde no tempo em que o poeta viveu. Mas outras opiniões havia também. O próprio Camões o diz na estância 9ª do canto VIII:

“Nós húngaro o fazemos; porém nado
Crêem ser em Lotaríngia os estrangeiros.”

Efectivamente D. Henrique de Borgonha não era húngaro; francês, sim.

(1) Embora à partida não me propusesse fazer qualquer tipo de revisão ao texto transcrito, pois sai fora do alcance deste blog. O objectivo, recordo, seria apenas transcrever fragmentos de velhos escritos que abundam cá por casa. O eventual trabalho de exegese deixaria para os interessados. Contudo, o objecto que estou a transcrever está demasiado próximo daquilo que é a minha formação académica e daí que seja difícil resistir a algumas correcções, que procurarei reduzir ao mínimo.
A propósito do conde D. Henrique, as recentes investigações de genealogistas franceses renegam que Sibila fosse sua mãe. Era sim cunhada, pois esta era casada com o seu irmão Eudes. Assim, Henrique e Raimundo não eram primos, como diz a historiografia tradicional. Eram “apenas membros de duas famílias diferentes unidas pelo casamento” (José Mattoso). Ver “Dois Séculos de Vicissitudes Políticas”, História de Portugal, Vol II, Direcção de José Mattoso

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setembro 20, 2003

Reconquista

Pelayo (ou Pelágio), o príncipe em torno do qual se agremiava este pequeníssimo punhado de intrépidos guerreiros, conseguiu efectivamente não só manter-se inexpugnável no seu retiro, mas ir inclusivamente pouco a pouco alargando a extensão de seus domínios por sucessiva conquistas sobre os árabes, os quais, sujeitos primeiro ao califado de Bagdad, acabaram em 760 por constituir em Córdova um califado independente, e deste foi Abd al-Rahmam o primeiro califa.
Os sucessores de Pelayo não afrouxaram também no empenho de ir perpetuando a tradição que representavam da velha monarquia goda e ampliando quanto possível a limitada área de seus por ora estreitos domínios.
Favila sucedeu a Pelayo, e ao sucessor de Pelayo sucedeu Afonso I que chegou a alongar a vitória de suas armas até às margens do Douro. 1
Com o sucessivo alargamento da área ocupada pelos representantes da família goda, foi-se o território respectivo retalhando em vários Estados, tais como os reinos de Leão, de Navarra, de Aragão e de Castela.
Em tempo de Fernando
o Magno, que reuniu na sua cabeça as coroas de Leão e de Castela, o reino de Leão – que tivera até aí por fronteira meridional o rio Douro – alargou-se para o sul até ao Mondego. O monarca, tomando Coimbra aos Mouros, assentou aí a sua corte.
Ao sul do Mondego o território, que hoje constitui parte importante de Portugal, era naquela época teatro constante de ininterruptas escaramuças entre cristãos e árabes, sorrindo alternativamente a uns ou aos outros os fugazes lampejos de uma efémera vitória.
Por morte de Fernando
o Magno, e depois de numerosas peripécias e cruentas lutas entre seus três filhos, veio um deles (Afonso VI) a ficar governando em todos os domínios legados por seu pai.

1 Hoje, é muito polémica a aceitação da tese da sucessão visigótica por parte da monarquia asturiana. Ver “Portugal no Reino Asturiano-Leonês”, História de Portugal, Vol I, Direcção de José Mattoso

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setembro 19, 2003

A ocupação muçulmana

Pouco mais de um século duraram, porém, as coisas neste estado. Rodrigo, rei dos Visigodos, que para subir ao trono havia dele esbulhado o seu antecessor Witiza, foi o derradeiro monarca desta dinastia.
Os filhos de Witiza, tramando por seu turno contra o usurpador, acharam, entre os descontentes, numerosos partidários prontos a acolher-lhes as suas pretenções; desses o mais notável foi o conde Julião, que aproveitou assim o ensejo de vingar estrondosamente a honra de sua filha Florinda ultrajada pelo monarca.
Já nesse tempo os califas de Bagdade dominavam vastos territórios ao norte de África; e Julião, que então estava por governador em Ceuta, praça africana subordinada ao domínio visigótico, aliou-se com os árabes para expulsar do trono o violador de sua filha.
Era isto nem mais, nem menos, que entregar a pátria ao domínio muçulmano.
Tarik, atravessando rápido como um raio o pequeno braço de mar que separa as terras africanas das hispânicas, e a que hoje se dá o nome de estreito de Gilbraltar, derrotou o infeliz Rodrigo em julho de 711 na memorável batalha de Guadalete.
Depois seguiu-se o tumultuar da torrente arabica por sobre o solo da península, enquanto ao norte, nas Astúrias, em um recantosinho escondido entre penhascos, e inacessível às lanças dos invasores, se recolhiam as pouquíssimas relíquias que haviam escapado daquele tremendo naufrágio, mantendo ali naquelas brenhas os vestígios tradicionais do domínio godo e quiçá preparando ‘in mente’ futuras sublevações contra os actuais dominadores.

Para aqueles que chegaram pela primeira vez a este blog, esta é a transcrição de uma História de Portugal, da colecção Biblioteca do Povo e das Escolas; editor David Corazzi, Lisboa, 1881

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setembro 18, 2003

As invasões bárbaras

Seguiu-se no século V a invasão dos bárbaros do norte por entre os desfiladeiros dor Pirenéus.
Alanos, Suevos e Vândalos constituíram as tribos destes primeiros invasores. Naquele tumultuoso retalhar de presas, a parte setentrional do actual território português coube em sorte aos Suevos e aos Alanos para teatro das suas violentas devastações. Mais tarde Alanos e Vândalos uniram-se contra os Suevos mas não lograram ficar vitoriosos. E, enquanto os Vândalos se retiravam rechaçados e recalcados para o sul da península, a entidade autonómica dos Alanos chegava mesmo a desaparecer absorvida pelos Suevos. Estes, que dominavam na parte noroeste, foram pouco a pouco extendendo para o sul o seu domínio, até que os Visigodos, atravessando por seu turno os Pirenéus e invadindo a península hispânica, se apresentaram formidáveis e poderosos a disputar aos Suevos o território setentrional, enquanto os Vândalos conseguiam furtar-se-lhes escoando-se para as regiões africanas.
Na porfiada luta entre Visigodos e Suevos, Teodorico II (chefe Visigodo) não só devastou o território correspondente à província actual do Minho, mas inclusivamente descendo para o sul chegou a cercar Lisboa, e quase, quase, aniquilou de todo o Estado dos Suevos que, circunscrito afinal dentro de limites estreitíssimos, veio a perder a sua autonomia em fins do século VI perante as esforçadas armas do rei Leovigildo.
Ficava por esta ocasião a península hispânica inteiramente subordinada ao domínio visigótico.

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setembro 17, 2003

O domínio romano

Quinto Sertorio, - um valente romano que havia militado na guerra civil entre Sula e Mário, e que, depois de vencido este último, tivera de refugiar-se como proscrito nas terras africanas, - convidado pelos Lusitanos a dirigi-los nas suas sublevações, passou da África à península onde era já assaz conhecido, porque inclusivamente aí encetado a sua carreira militar.
Colocado agora à testa dos valorosos Lusitanos, Quinto Sertório, - se por um lado, como guerreiro habilíssimo, lograva derrotar sucessivamente diversos generais romanos, - por outro lado, como político e sábio administrador que era, ia pouco a pouco insinuando entre as rudes tribos, que capitaneava importantíssimos elementos da mais adiantada civilização. Évora que foi a terra onde Sertório assentou a sua corte, e a que por todos os motivos poderemos chamar capital da vasta região em que ele chegou a dominar, ainda hoje atesta em suas ruínas os monumentos de arte interessantíssimos com que o ilustre capitão a aformoseou. Sertório, porém, acabou por um fim tragicamente desastroso e perfeitamente análogo ao do Viriato. Assassinado num banquete por Perpena – um dos seus lugares tenentes que contra ele conspirara, - Quinto Sertório deixava por sua morte a Lusitânia completamente à mercê dos dominadores romanos. A política de assimilação, adoptada pelo governo de Roma em relação às suas conquistas, acabou por transformar mais esta (a Lusitânia) numa província do império, - facto para que até certo ponto concorrera a administração de Sertório ao implantar entre os Lusitanos os usos e os costumes da civilização romana.
1

1 Contrariamente ao que era hábito na historiografia tradicional, Sertório nunca foi um traidor, nem nunca pensou separar a Península Ibérica de Roma. Os lusitanos foram um meio de dirigir a luta contra Sula. No entanto, ganhando o apoio dos lusitanos e celtiberos, foi, para ele, relativamente fácil proceder a um processo de aculturação destas comunidades. (Nota do autor do blog)

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setembro 16, 2003

Lusitanos e Romanos

Vencido Aníbal, e obrigados os Cartagineses a abandonar as suas ambiciosas pretensões de ficarem dominando no território peninsular, passou essa ideia a insinuar-se com firme teimosia no espírito dos Romanos.
Mal pensavam, porém, estes soberbos conquistadores na enérgica resistência que as suas legiões tinham de encontrar nos Lusitanos, - povo de costumes frugais e tendências belicosas, em quem predominava enraizadíssimo o instinto da independência, e que, constituindo uma das tribos célticas em que se achava retalhada a península, habitavam o território correspondente à Beira actual, à Estremadura portuguesa e espanhola, e à parte setentrional do Alentejo.
Nos pontos correspondentes às nossas actuais províncias do norte existiam os Bracaros, - outro ramo de tribos célticas.
A parte meridional do Alentejo e a região do Algarve achavam-se ocupadas pelos cuneenses.
Vencidos os Lusitanos, apesar da sua tenaz resistência, pela intercorrência de uma infame traição com que o romano Sérgio Galba logrou ficar vitorioso de seus inimigos vitimando-os numa horrorosa carnificina, de que poucos escaparam, - desses poucos constituiu-se mais tarde um núcleo de desforra, e entre eles ergueu-se rude e destemido um verdadeiro herói arvorando o pendão da revolta em prol da independência do torrão natal.
Este foi Viriato, um simples montanhês do Hermínio, que reunindo em torno de si as relíquias da antiga bravura lusitana soube num arranco sublime de desespero triunfar gloriosamente dos romanos.
E de tal ordem foi a resistência organizada por Viriato, que o próprio Cipião, se quis levar a melhor dos Lusitanos, teve de recorrer astuciosamente a uma nefanda traição.
Viriato morreu aleivosamente assassinado, enquanto dormia, por dois dos seus oficiais que o general romano comprara.
A morte de Viriato significava o primeiro passo para os Romanos assentarem definitivamente o seu domínio na península, muito embora mais tarde o ânimo irrequieto e indomável dos Lusitanos lhes preparasse novas sublevações.

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Fenícios e Cartagineses

Um dia os Fenícios, sentindo-se ameaçados pelas tribos indígenas, pediram socorro aos Cartagineses.
Estes, começando por entrar na península como simples auxiliares desses, a quem os prendiam ainda laços não apagados de parentesco e de origem comum, acabaram por apresentar-se com pretensões a dominadores.
No séc. III a.C. intenta o cartaginês Amilcar empolgar o domínio do torrão peninsular; e, apesar da resistência que se lhes opõe, as armas de Cartago vão sucessivamente ficando vitoriosas.
Os vencidos, porém, apelam para a protecção dos Romanos a quem pedem auxílio.
E – quando Aníbal, o célebre general cartaginês, depois de revelar na Espanha o seu arrojo militar, atravessa de um pulo os Pirenéus e em seguida os Alpes, dispondo-se a ir ferir no próprio coração, em Roma, a poderosa república; - os Romanos, por seu turno e no intento estratégico de operarem uma diversão, invadem a península e sustentam contra as hostes de Cartago uma guerra encarniçadíssima.

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setembro 15, 2003

Primórdios

A história dos habitantes que primitivamente ocuparam a península hispânica perde-se na noite dos tempos e na obscuridade das conjecturas.
Destrinçar a verdade no meio desse caótico labirinto, - em que o elemento fabuloso e o lendário conspiram de mãos dadas para nos abafar o elemento histórico, já de si difícil de surpreender, - é tarefa que não cabe nos apoucados limites de um livrinho rudimentar.
Contentemo-nos em assentar, pois, baseados na autoridade dos mais conspicuos historiadores, que os primitivos habitantes da península parece terem sido os Iberos ou Euskaldunaes (sic), ramificação de uma antiquíssima emigração arya (sic).
A invasão do elemento celta, que mais tarde se realizou, ocasionou na parte central do território peninsular a fusão dos Iberos com os Célticos, dando origem às tribos mistas dos Celtiberos.
Ao norte e a oeste os Célticos constituiriam cinco grupos principais de tribos bárbaras, a saber: Cantabros, Asturos, Vasconios, Galaicos e Lusitanos.
Posteriormente os Fenícios, que em suas aventurosas navegações chegaram até este cantinho ocidental, fundaram aí colónias, mormente nas costas meridionais da península, inoculando o primeiro germe do movimento marítimo-comercial.
Por outro lado pequenas colónias gregas visitavam o litoral do oeste e aí assentavam domicílio, escolhendo de preferência as margens do Minho e Douro, - colónias gregas que ainda hoje se acham acentuadamente representadas na elegância plástica das nossas ovarinas, no tipo formoso e airosa organização das nossas mulheres de Aveiro ou das tricanas de Coimbra.

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História de Portugal

A primeira relíquia a ser transcrita será uma versão popular da História de Portugal, publicada em 1881. As alterações efectuadas prendem-se com a actualização da grafia e com a introdução de títulos que servirão de índice para os ‘posts’.

Publicado por xoao em 07:39 PM | Comentários (0) | TrackBack

O princípio

Este blog destina-se prioritariamente a servir de veículo a alguns alfarrábios que tenho cá por casa. Esta é uma forma de preservar e dar a conhecer algumas curiosidades que poderão ser razoavelmente raras, ou pelo menos pouco conhecidas.

Publicado por xoao em 07:23 PM | Comentários (0) | TrackBack