novembro 27, 2004

Uma Coisa Doce

Cheguei cedo de mais (para a Noite, isto é) ao bar do costume! E como sempre cheguei só, à espera de melhor sorte. Pensei «Talvez hoje….talvez Hoje vá para casa mais cedo, mas acompanhado!»

Observei o ambiente monocromático da grande sala que constituía O Bar.
Depois da sua entrada magnifica, lembrado uma porta palaciana, maior que um homem, em tamanho e imponência, estava a grande sala, salpicada de mesas de plástico a imitar madeira. Cada mesa estava ladeada das habituais quatro cadeiras. De cada lado da porta estavam encastradas janelas largas, amplas, e pensar-se-ia, igualmente antigas, não fosse o toque metálico do alumínio que as constituía.

Encostado à parede direita estava a o bar. Ainda não reinava grande actividade nele. Feito de mogno, escurecido pela mão humana e pelo tempo, tinha o ar de algo que restava de outros tempos, e de outros ventos. Lembrava a permanência do temporário! Era conjuntamente com a porta de entrada, um resquício de uma outra época, e de outras vidas.
Era também uma reconversão de uma peça de mobiliário em bar. Um sacrilégio histórico pensar-se-ia. Mas altos valores se erguem contra heranças, sobretudo se esses valores se puderem contabilizar em dinheiro vivo!
Debaixo de uma decoração fria, pautada por alguns quadros temáticos, que mudavam com as modas, notava-se a parede repintada vezes sem conta, que exalava um cheiro a antigo, como quase tudo o que de original n’O Bar.
Sentia-me bem ali. Sentia-me em casa fora de casa. Sempre estivera fora de tempo, noutro tempo, que não o meu!
Num mundo em que ser, ou ter alternativas é ser “moderno”, eu não tinha alternativas, e não era alternativo. Exalava o mesmo cheiro a antigo que o local que era minha segunda casa!
Um casal de almas penadas que vagueavam fantasmagoricamente pelas mesas, perguntando laconicamente: “o que deseja?”
Sentei-me na mesa que estava ao canto, do mesmo lado que o bar. Daí dominava! Via quando queria e não queria, quem entrava e saia. Era o falcão de guarda, que não guardava nada mais do que o seu poleiro.
Pedi um café, um expresso, como se diz pelos locais mais formais da cidade. Pouco depois trouxeram-no fumegante para a mesa. Vinha numa chávena sem requinte, com um pires de um branco relavado inúmeras vezes, acompanhado pelo pacotinho de açúcar da praxe, e por uma pequena colher.

Abri o pacote rectangular rasgando um dos seus vértices. Despejei-o na chávena, como se largasse um punhado de areia de uma só vez. Mexi-o com a colher, num movimento sem destino, infinito na sua intenção. E durante um ou dois infinitos continuei a mexer, a misturar aquele lago negro com o doce que lhe adicionara.

Deixei repousar um pouco, perdendo um pouco a vontade de o beber. Enfim começara a pensar no que estava à minha frente. Recobrei o sentido do real ainda a tempo de bebê-lo quente. Levei-o à boca num movimento aparentemente rápido, mas que era lento de mais para mim. Enfim, lá tocou nos meus lábios. Senti um amargo adocicado percorrer-me, até só o saborear apenas na memória!

Publicado por emigas em novembro 27, 2004 04:22 PM
Comentários

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