junho 30, 2004

Marte e a Origem

Tinha acabado de adormecer. Dentro do sonho surge um homem que me segura na mão, puxa-me e deixo o corpo para trás. Rompo a atmosfera terrestre de mãos dadas com o homem silencioso. No espaço o silêncio torna-se ensurdecedor, o homem é engolido pelo o breu do vazio. Eu fico suspensa no vácuo, vejo a terra a rodar, vejo a lua a flutuar, e por impulso dirijo-me até Marte, levei segundos a lá chegar. Não fico satisfeita e avanço um pouco mais, e acabo por ficar suspensa no ar entre Júpiter e Marte. Cruzo as pernas em tom de meditação, e pondero no porquê do pensamento que me trouxe aqui.
Mas porque aqui? E não em Marte, ou Júpiter? Com tantos lugares no universo onde poderia ter ido, porquê aqui? Sobre esta cintura de asteróides que dividem os planetas interiores dos exteriores? O que pode isto ter de importante? Que relevância tem isto na busca das origens? Cada vez estou pior! Sim isto é bonito, até o sol parece mais pequeno, não posso dizer que não é uma bela vista. Mas existem tantos lugares belos neste universo, porquê aqui?
Continuo sentada a flutuar sobre o breu, o meu espectro altera de cor conforme a minha insatisfação, e continuo a minha dissertação.
Podia ter ido até a uma lua qualquer, podia ter ido a Plutão, podia ter ido ao centro da galáxia. Mas o pensamento sempre me limita na busca das origens. Porquê aqui? Deve ser castigo, nunca paro no sistema solar para o indagar melhor, porque julgo, e sei que sei tudo sobre ele. Cada planeta tem vida, mas em dimensões temporais e espaciais diferentes, e em cada uma dessas dimensões em todo o sistema solar só um dos planetas tem vida, os outros estão vazios. OK. Isso é estranho, não consigo compreender a razão. Pois nos outros sistemas nesta galáxia todos os planetas têm vida ao mesmo tempo. Já em Vega me disseram para averiguar a causa deste porquê. E eu assim o fiz, e cheguei à conclusão que é porque é assim e não de outro modo.
Fico tão irritada isto são os Pleidianos a testarem-me como sempre! Que raio, o espectro funciona à velocidade do pensamento, mas o pensamento funciona de outro modo e é raro ele funcionar pela vontade, existem coisas maiores pelas quais ele se rege… E este é um daqueles dias em que não devia ter saído da terra, nem muito menos dos lençóis, é sempre preferível a este marasmo espacial.
Esperneio de raiva, quero voltar e não consigo, e de repente sinto duas mãos a tocarem-me os ombros. Viro-me para trás assustada. O espectro engole em seco, dois homens gigantes pairam no ar ao meu lado. Deviam ter cerca de três metros de altura, pareciam humanos, tirando a sua altura e o tamanho das testas em comparação com a estrutura do corpo, pois eram desproporcionais. Tinham vestidos umas túnicas, pareciam que vinham da pré-historia.
- És tão impaciente!
- Queres os porquês mas não tens a paciência necessária.
- Pois, o meu irmão tem razão. Os porquês existem para serem revelados, e tem a sua altura certa.
- Claro que sim. E como é habito, só vocês é que tem acesso aos porquês e o resto tem de andar a mendigar por eles. Afinal sabem-me dizer porque estou aqui?
- Claro! Temos uma mensagem para ti, chegamos atrasados porque é difícil passar Plutão, como tu bem sabes.
- Pois sei. Quer dizer…ainda estou para descobrir a razão de dois anéis de asteróides entre os planetas. Isso sim gostava que me explicassem.
- Mas tu já sabes… ou pelo menos já chegas-te a uma maravilhosa conclusão.
- Sim, mas e certezas??? Porque um porquê só é respondido com uma certeza. O que me interessa ter duas hipóteses.
- Diz lá quais são.
- Uma é que este sistema solar é uma prisão, e a outra é que é um berço, e os humanos estão na escola e protegidos do que está lá fora.
Os homens riem-se, fico ainda mais irritada, agora o meu espectro está da cor de Marte.
- Ainda bem que estás dessa cor. Porque viemos contar algo sobre Marte e a Terra.
- Ai sim? Então contem, porque depois a vontade suprema tem de voltar para o mar dos lençóis.
- Aqui onde estamos há muitos, muitos, muitos, milhões dos vossos anos, havia um planeta. Como podes ver estes calhaus entre Marte e Júpiter são das poucas coisas que restaram dele. As pessoas que moravam nele mudaram para Marte e depois voltaram a fazer das suas e foram para a terra.
- Das suas?
- Sim, olha como está Marte?
- Sim, é um deserto vermelho. E?
- Pois, vermelho sangue, da alegria da vida que se esvaiu, durante milhões e milhões de anos. E infelizmente continuam na mesma.
- Continuam na mesma?
Os espectros dos dois homens desvanecem no ar à medida que fiz a ultima pergunta, e eu começo a ser puxada para a terra. Quando estou a passar a lua oiço a voz dos homens em conjunto.
- Espero que tenhamos conseguido responder as tuas questões enquanto esperavas por nós.

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junho 25, 2004

Henry Miller
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Publicado por sc em 12:35 PM | Comentários (0)

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"(...)Pergunto: acreditam com toda a sinceridade que a nossa salvação depende do saber? Presumindo por momentos que o cérebro humano é capaz de armazenar nas suas misteriosas fibras a totalidade dos processos secretos que governam o Universo, de que vale isso? Sim, De que vale isso? Que faríamos nós, nós humanos, com esse inconcebível saber? Que poderíamos fazer? Alguma vez fizeram essa pergunta a vocês próprios? Parece que todos nós partimos do princípio de que a acumulação de conhecimento é uma coisa boa. Nunca ninguém pergunta: e que farei desses conhecimentos quando os tiver. Já ninguém ousa acreditar que , na curta duração de uma vida, seja possível adquirir nem que seja uma pequeníssima fracção da totalidade de todo o saber humano existente...
Mais uma pausa para tomar fôlego. Desta vez estávamos todos com a garrafa a postos. Caccicacci descarrila, perdera-se. Não era com os conhecimentos, ou com a falta deles, que estava tão desesperadamente preocupado. Por mim, tive consciência do esforço silencioso que ele fazia para voltar ao bom caminho. Sentia-o aforgar-se, enterrar-se no pântano ao debater-se tão esforçadamente para reatar o assunto principal.
- Fé! Há momentos estava a falar de fé. Perdemo-la. Perdemo-la por completo. Fé em qualquer coisa, quero eu dizer. E contudo a fé é a única coisa que permite ao homem viver. É a fé e não o conhecimento, que tem de se admitir ser inexaurível e, no fim de contas, inútil ou destrutivo. É a fé. a fé também é inexaurível. Sempre foi e sempre será. É a fé que inspira proezas, que vence obstáculos... que move literalmente montanhas, como a Bíblia diz.
Fé em quê? Fé apenas. Fé em tudo, se quiserem. Talvez "aceitação" fosse uma palavra mais adequada. Mas a aceitação é ainda mais dificil de compreender do que a fé. Mal pronunciamos a palavra, aparece logo alguém que pergunta: Também no mal? E se respondemos que sim, o caminho fica barrado. Riem-se-nos na cara, evitam-nos como leprosos. O bem pode ser posto em dúvida, mas o mal - e isto é um paradoxo-, o mal, apesar de lutarmos contantemente para o eliminar, é sempre tomado como certo. ninguém duvida da existência do mal, embora se trate apenas de um termo abstracto para significar aquilo que está sempre a mudar de carácter e que, bem analisadas as coisas, se descobre muitas vezes bom. Ninguém aceita o mal pelo o seu valor facial. até chega a parecer que só existe para ser convertido no seu oposto. A maneira mais simples e mais rápida de o conseguir é, evidentemente, aceitá-lo. Mas quem possui sensatez bastante para adoptar tal procedimento?(...)"

Henry Miller, Plexus

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junho 22, 2004

Fantástico Hubble


Ring Nebula


Egg Nebula


Hourglass Nebula


Cat Eye´s Nebula


Orion Nebula


Eagle Nebula


Lagoon Nebula


Tarantula Nebula


Eskimo Nebula


Keyhole Nebula


Spirograph Nebula


Publicado por sc em 11:23 PM | Comentários (1)

junho 19, 2004

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"(...) O filósofo chegou a cadeira para junto do visitante, até os seus joelhos se tocarem e colocou ambas as mãos nas pernas de Meehawl MacMurrachu.
«Lavar é um costume extraordinário-declarou.-Somos lavados ao vir ao mundos e ao sair dele, e não encontramos prazer nenhum na primeira lavagem nem nenhum proveito na última.
«-Lá isso é verdade, senhor-concordou MacMurracho.
«-Muita gente considera que as lavagens além destas se devem apenas ao hábito. Ora o hábito é continuidade de acção, é uma coisa muito detestável e muito difícil de abandonar. Um provérbio perpetua-se ao contrario de um escrito, e as loucuras dos nossos avós mais importantes para nós do que o bem-estar da nossa posteridade.»

Henry Miller, PLEXUS, Livro Segundo da Rosa-Crucificação.

Publicado por sc em 01:54 PM | Comentários (0)

junho 17, 2004

"A mente verdadeiramente criativa em qualquer campo não é mais que isto: uma criatura humana nascida anormalmente, inumanamente sensível.

Para ele...um toque é uma pancada, um som é um ruído, um infortúnio é uma tragédia, uma alegria é um extase, um amigo é um amante, um amante é um deus e o fracasso é a morte.

Adicione-se a este organismo cruelmente delicado a subjugante necessidade de criar, criar, criar - de tal forma que sem a criação de música ou poesia ou literatura ou edifícios ou algo com significado, a sua respiração é--lhe cortada. Ele tem que criar, deve derramar criação. Por qualquer estranha e desconhecida urgência interior, não está realmente vivo a menos que esteja criando" - Pearl Buck

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junho 16, 2004

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Sobre o calor do meio-dia encontro um pombo-correio debaixo do meu carro quando saio do super-mercado. Automaticamente penso: tenho uma mensagem debaixo do carro. Entro no carro, ponho as compras lá dentro, volto a sair, e o pombo continua no mesmo lugar. Ainda ontem disse que não acreditava em magia, que uma secura me tinha invadido. E hoje aqui tenho uma mensagem. Penso: será que a mensagem me pertencia? O pombo não sai debaixo do carro. Quem me enviaria uma mensagem através de um pombo-correio? Como poderiam saber que me encontrava ali, naquele exacto momento? Voltei a entrar dentro do carro, arranquei devagar, parei, olhei para trás e ele continuava no mesmo lugar. Um homem aparece e leva-o para a sombra. Digo ao homem que o pombo tinha aparecido ali, e arranco com o carro. Não quis ver a mensagem que continha, para não quebrar a magia.

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junho 14, 2004

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Um homem torna-se sábio de mãos dadas com a solidão. Mas é de mãos esticadas que ele o é.

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junho 11, 2004

Sinto uma necessidade quase efervescente de me libertar. Largar as amarras e voar. Partir e nunca mais regressar. Correr e saltar sem uma só vez parar. Desejo ser uma fita de seda que escorrega pelo infinito mar. Deslizar ao sabor da maresia e dos seus efémeros gentis ressaltos. Que maravilha seria então dançar ao sabor do luar. Ser uma estreita sombra sobre o titânico mar. Ser ao mesmo tempo o sabor de um limão, aquele que arde mas tudo cura, no mesmo instante o sabor de um queijo ao paladar de um querido seu amante. Ser uma flor que desbota pela manhã. Ser cores infinitas de sabores e olhares. Ser a beleza vã, de alguém que observa o infinito sem saber que dele faz parte também.

Publicado por sc em 07:18 PM | Comentários (2)

junho 08, 2004

Noite

A noite minha amada,
Não é ensolarada.
Mas sim é assombrada!
A ti pertenço minha adorada.
Pois sou aquela que te acompanha.
Sou aquela que se esconde por detrás,
Do brilho flamejante da estrela da manhã.
Pairo no ar sempre na margem da contradição.
A leveza que outrora eu transportei,
A ti não te dei, pois não existo no teu breu.
Sou em mim mesma a clareza,
Do que foi pureza.
E do que é dual.
Pois é tal,
O meu anseio por concordância,
Que não encontro paciência.
Para suportar a beleza que a noite encerra,
Como a dureza que o dia transparece.
Ecoa tanto que nos consegue inebriar e não elucidar,
Sobre a verdadeira questão,
Que aqui nos encerra.
É o dia que oculta a verdadeira,
Imensidão do espaço.
Fantástico é o desejo de o conhecer!
Grandioso é o poder de o fazer acontecer!
Saudosa noite que em ti encerras a verdade,
Para onde nos levas eternidade?

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junho 04, 2004

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"Os Anjos que rodeiam o Trono por cima são chamados Dias e os que rodeiam o Trono por baixo são chamados Noites."

Le Zohar, II, 137, a.

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"Porque tudo está em cima, nada está em baixo. Mas isto só é assim para aqueles que não têm conhecimento."

Odes de Salomão, 34.

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"Um símbolo revela sempre, qualquer que seja o contexto, a unidade fundamental de várias zonas do real."
Mircea Eliade

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"A imagem só pode ser estudada pela imagem, sonhando as imagens tal como elas se juntam na fantasia..."
Gaston Bachelard

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"O conhecimento das bases arquetípicas universais... incitou-me a olhar o que existe por toda a parte e sempre e o que pertence a todos como um facto psicológico."
Jung

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"Os conceitos criam ìdolos de Deus, só a impressão súbita pressente algo"
Gregórie De Nysse

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"Analisar intelectuamente um símbolo, é descascar uma cebola para encontrar a cebola"
Pierre Emmanuel

Publicado por sc em 10:58 AM | Comentários (0)