agosto 28, 2008

Epopeia das cruzadas no Médio Oriente.

Posted at agosto 28, 2008 09:38 PM in .

Epopeia das cruzadas no Médio Oriente.

Por WILLIAM H. HALL

Para muita gente a palavra «Cruzada» evoca a visão de um cavaleiro andante, vestido de ferro, armado de lança e espadão, cavalgando um corcel de guerra. Logo se pensa em Ricardo, Coração de Leão, conduzindo formidável massa de armas e descarregando medonhos golpes de espada. Recorda-se, outrossim, Saladino comandando uma esmagadora e rápida carga de cavalaria árabe, erguendo para o céu a sua recurvada cimitarra. A nossa mente voltam eternos trechos de Ivanhoe, do Talisman e outras obras da mesma época. Recordamos ainda a cidade santa de Jerusalém, o Santo Sepulcro e castelos e torres e estandartes ao vento. Por outros termos, a palavra Cruzada é sinónimo de uma era de romance medieval.
A razão desse poder evocativo está em que, durante duzentos anos, os exércitos da Europa ocidental se bateram duramente para formar um reino no Oriente, voltando-se todos os povos para esse recanto do Mundo, movidos por um espírito de romântico fervor, fervor religioso, comercial, social e militar, que não cessou de despertar admiração em sucessivas centúrias.
Quantas páginas emocionantes foram escritas! Quão grande foi a nossa emoção de colegiais ao ser-nos dado conhecer, pela primeira vez, a acção dos Cruzados, as sangrentas e ingratas querelas nascidas das desinteligências do conde Raimundo de Toulouse e Bohemond, o príncipe normando! Como nos impressionou a tomada de Jerusalém por Saladino, pela teimosia do rei Guy, que recusou ouvir o sábio conselho de Balian e de Raimundo de Tripoli, descendente do grande conde de Toulouse! Ali também as ordens religiosas de cavalaria se empenharam em vultosas operações de crédito, pois na realidade não se pode distinguir se houve mais comércio, mais guerra ou mais fé. Mas foi sem dúvida a Cruz que prevaleceu.

HERÓIS DA CRUZ

Muitos de nós se emocionaram com a história de Pedro, o Eremita, com o apelo do papa Urbano a favor da guerra santa, com o exército de crianças, marchando através da Europa ou vendidas como escravas no Oriente. Todos estamos lembrados do período que vai de 1098, quando Antióquia foi capturada, a 1291, quando os cavaleiros do Ocidente finalmente se fizeram ao mar, guiados pelo rubor do sol poente. Quem pode esquecer os nomes de Godofredo de Buillon, o herói de Jerusalém... de Balduino, seu primeiro rei... de Raimundo de Bohemond e de Tancredo...e, principalmente, do sarraceno Saladino, que foi, talvez, entre todos o mais nobre cavaleiro?
Essa é a terra onde esses heróis viveram, onde construiram os castelos mantenedores do seu poder feudal, com os métodos de defesa estabelecidos após longo estudo da região e onde muitos se erguem ainda, testemunhando uma época de lutas incessantes, ajudando o nosso cérebro a reviver essa longa caminhada. É preciso conhecer as desinteligências espirituais que dividiam Cruzados e Sarracenos, para saber onde e porquê esses castelos foram construidos. Sem isso, nunca saberíamos que estandarte colocar sobre a torre acastelada de Margab ou de Kalat-el-Husn — se o dos Cavaleiros Hospitaleiros ou o de Saladino. Não é, porém, desejo nosso traçar aqui uma história das Cruzadas. Falaremos apenas de alguns pontos, que destacaremos para refrescar a memória dos leitores.
Numerosas são as causas citadas para explicar a primeira Cruzada. Uma das mais frequentes é, sem dúvida, a do tratamento a que eram submetidos os peregrinos nas estradas da Palestina e na própria Jerusalém. Fosse por que fosse, grandes exércitos foram reunidos sob o comando de nobres chefes. Finalizados os preparativos (1097-98), puseram-se aqueles em marcha pelas montanhas de Amanus, ao Norte da Síria, enxameando a região chamada Porta da Síria. Foram sitiar a cidade de Antióquia.
Após luta áspera e longa as muralhas foram escaladas e tomada a cidadela. Antióquia permaneceu por todo o período das Cruzadas como a capital de um principado cristão, possessão das famílias de Bohemond e Tancredo, príncipes normandos. Nesse tempo, Balduino, irmão de Godofredo de Bouillon, desviava-se mais para Leste, com o intuito de formar um reino para si próprio. Tomou Edesso, a moderna Urfa, nela estabelecendo poderoso quartel-general, que serviu durante 40 anos como base de surtidas contra o Moslem e o rico vale da Mesopotâmia.
Um ano depois da queda de Antióquia, o exército dos Cruzados, com os seus príncipes e cavaleiros, em quatro longas colunas e desenvolvendo acção conjunta com navios venezianos, que operavam ao longo da costa, aventurou-se contra o alvo supremo: Jerusalém
Os Cruzados inflamaram-se de sagrado zelo, quando, sobre muralhas e torres, avistaram o templo da Area e o zimbório da igreja do Santo Sepulcro. Imediatamente começou o cerco. Os vários chefes atacaram de diferentes pontos. Com lanças e flechas e as catapultas funcionando noite e dia, conseguiram abrir brechas nas muralhas. Britaram as pedras colossais e através daquelas apressaram a luta.
Finalmente, na muralha Norte, no mesmo local onde o exército do imperador romano Tito penetrara mil anos antes e onde Godofredo de Bouillon erigira uma torre de madeira monumental e própria para longo assedio, foi efectuada a primeira entrada em Jerusalém. Quando, mais tarde, os outros chefes viram o estandarte de Godofredo flutuando sobre a torre capturada, forçaram o combate por todos os meios. E o grosso do exército dos Cruzados entrou vitorioso no coração da cidade.
Não vamos aqui relatar as tristes histórias do massacre e do sangue que se seguiram à vitória e que contrastaram com o mais humano e cristão tratamento dado aos vencidos, quando o sultão Saladino e os seus soldados maometanos, oitenta e oito anos depois, retomaram a Cidade Santa. A verdade é que Jerusalém foi vencida e se tornou realidade a formação ali de um reino Cruzado.
Godofredo de Bouilon foi naturalmente o herói do cerco. Os Cruzados desejaram, por isso, que fosse ele o rei. Mas como Raimundo de Toulouse tivesse sido primeiramente escolhido para tal posto de honra, Godofredo recusou declarando:
— Deus proíbe que eu use uma coroa de ouro, onde meu Senhor ganhou uma coroa de espinhos.
No entanto, e pelo espaço de um ano foi ele o chefe militar e após a sua morte, o irmão Balduino, vindo de Edessa, aceitou o título sendo coroado como primeiro rei de Jerusalém. Foram gastos então cerca de cinquenta anos na construção de castelos fortificados ao longo da costa e nos trabalhos de demarcação dos limites a fim de proteger as fronteiras.
Logo que ficaram definitivamente organizados o reino de Jerusalém, o principado de Antióquia e o condado de Edessa, uma quarta divisão foi feita, criando-se o condado de Tripoli, nascido de uma parte de Jerusalém e outra de Antióquia e dotado com organização para Raimundo de Toulouse. Este último condado subsistiu à queda do próprio reino Cruzado e é nesse território, justamente, que ainda hoje encontramos os maiores castelos-fortalezas e os melhores exemplos de arquitectura militar, demonstrando o génio da engenharia daquela época. Jubail, Tripoli Tantus, Safita, Margab e a rainha de todas Kalat-el-Husn, ou «Krak dos Cavaleiros», marcam os limites principais desse condado.

Comments

Posting of new comments has been disabled for this post.