março 27, 2007

EXTRACTO DE CARTA ESCRITA A UM AMIGO POR JULIUS KLENGEL, PROFESSOR EM LEIPZIG, DE GUILHERMINA SUGGIA

Klengel 1.jpg
“thank you for the account of Guilhermina colossal success at Paris. It does not surprise me in the least, for I myself am a most ardent admirer of her wonderful talent, and I am firmly persuaded that before long Mlle. Suggia will be the favourite artist of the musical world, for such masterly execution united to such an essentially musical soul exists only in the most richly endowed artists, and they are rare.”

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fevereiro 14, 2007

CARLOS BEIRES - TESTEMUNHO

Pedem-me um depoimento escrito sobre a grande violoncelista portuense Guilhermina Suggia. Não vou escrever nada que acrescente algo ao valor musical da insigne Artista, glória deste País e desta Cidade, onde nasceu e morreu. Apenas recordações pessoais de alguém que teve a felicidade de a ouvir frequentemente e de a conhecer bem.

1 O meu primeiro contacto com Suggia data de 1934. Eu era aluno de piano do Curso Silva Monteiro e a minha Professora, D. Carolina da Silva Monteiro, juntamente com sua irmã D. Ernestina, apresentavam anualmente alguns dos alunos do Curso numa Audição de Discípulos. Foi num dos ensaios dessas Audições que, pela primeira vez, vi e conheci Suggia. Estou ainda a vê-la chegar à casa do Curso Silva Monteiro, na Av. da Boavista, no seu automóvel, conduzindo ela própria, sem qualquer motorista. Nessa época eram poucas as senhoras que tinham carta de condução e que conduziam sozinhas os seus carros, sem motorista...

2 Depois disso, tive mais um encontro com Suggia, dado que ela tinha uma pequena casa em Leça da Palmeira e os meus Pais costumavam passar os verões nessa praia. Várias vezes acompanhei D. Carolina da Silva Monteiro até à casa de Suggia. Aí a ouvi dizer que gostava muito de tocar em colaboração com esta Senhora. Simplesmente, esta Senhora é que não gostava de tocar em público e daí serem sempre com a colaboração de D. Ernestina os recitais públicos de Suggia.

3 É de 1937 outra recordação de um recital, no Salão Árabe do Palácio da Bolsa, de Suggia com D. Ernestina da Silva Monteiro, recital este integrado, salvo erro, nas comemorações dos 50 anos da criação da Universidade do Porto. Nesse tempo, era raríssimo o Salão Árabe abrir as suas portas para o que quer que fosse. Tenho bem presente ainda o aspecto belíssimo da sala, com todos os assistentes em traje de gala: casacas e vestidos compridos de noite das Senhoras!

4 Suggia tinha dois violoncelos em que tocava normalmente: um Stradivarius e um Montagnana. Como todos os anos dava recitais em Inglaterra costumava, no regresso a Portugal, trazer um deles e deixar o outro em Londres. Aconteceu assim que, quando rebentou a 2a Grande Guerra, em l/Set./1939, tinha consigo, em Portugal, o Stradivarius e foi com este óptimo instrumento que permaneceu e tocou no nosso País durante aqueles longos seis anos.

5 Desse largo período de tempo recordo especialmente os dois recitais no Teatro Rivoli, nesta cidade, com a Orquestra Sinfónica Nacional (Maio/1943, salvo erro), dirigida pelo célebre maestro Sir Malcolm Sargent. Salvo erro, Suggia interpretou os concertos de Dvorak e de Saint-Saëns. Os concertos foram promovidos pelo Círculo de Cultura Musical e recordo o Rivoli completamente cheio de um público entusiasmado, aplaudindo estes concertos. De notar que, nesta época, com a guerra na sua fase mais intensa, os partidarismos políticos (pró-Aliados ou pró-Alemanha) faziam-se sentir com vigor em Portugal.

6 Finda a Guerra, Suggia voltou aos concertos em Inglaterra. Como, em Nov./1948, eu me encontrava em Londres, onde estagiava numa empresa eléctrica, fui ouvi-la ao Albert Hall. Recordarei sempre com grande emoção o meu encontro com a grande Artista. E para se apreciar a consideração com que Suggia era admirada naquele País, veja-se que a II parte do concerto foi ouvida por Suggia no camarote real, onde a Rainha Isabel (a Mãe da actual Rainha Elisabeth II) a tinha convidado!

7 Guardei propositadamente para o fim deste breve depoimento duas referências de carácter mais pessoal.

7 a) Uma delas refere-se às lições que deu a minha irmã Maria, no princípio dos anos 40, sempre por pura simpatia e sem qualquer remuneração. Habitávamos, nessa altura, uma óptima casa situada na Rua Mons. Fonseca Soares, rua que terminava ali mesmo em frente à nossa porta. Escuso de dizer que o local era ideal para fazer música: ausência total de ruídos exteriores. E foi ali que, várias vezes, Suggia se dirigiu e tocou. Achava que minha irmã tinha uma compleição física ideal para o violoncelo. Este convívio apertou mais as nossas relações de Amizade. Até que, em 1943, minha irmã, sentindo uma forte vocação religiosa, tomou a decisão de ingressar na Comunidade das Franciscanas Missionárias de Maria. E a forma como Suggia aceitou essa decisão duma sua aluna muito querida é mais uma característica da personalidade da grande Artista, penso que mal conhecida nesses aspectos mais íntimos da sua maneira de ser.

7 b) A outra refere-se à única ocasião em que colaborei em público com a grande Artista. Foi em Junho/1948 no Centro Universitário do Porto. Convidada para lá se apresentar e dar um pequeno recital, Suggia aceitou uns dias antes, chamou-me a sua casa e disse-me: "O Carlos é que vai acompanhar-me neste recital". Naturalmente aceitei e fiquei-lhe muito grato pela escolha do colaborador. Recordo, entre outras, duas peças que ela tocou com a graça e a perfeição que a caracterizavam: a "Dança Ritual do Fogo" de Manuel de Falla e a "Pièce en Forme de Habanera" de Maurice Ravel.

8 Em Junho/1950 ainda me encontrava em Londres e soube que Suggia estava na London Clinic para onde tinha sido transportada, a fim de ser operada. Fui lá vê-la e logo à entrada encontrei o Prof. Álvaro Rodrigues, que a tinha acompanhado, a seu pedido. Ele logo me informou do que se passava: Suggia tinha um cancro e o cirurgião britânico tinha-se limitado a abrir e a fechar novamente a incisão praticada. Nada havia a fazer!
Dirigi-me então ao quarto de Suggia onde pude emocionadamente despedir-me dela. Ela estava acompanhada por uma das suas amigas britânicas que, até ao fim, não cessaram de a confortar e amparar naquela hora difícil!

9 O fim da vida de Suggia é bem conhecido. Regressada ao Porto no mês seguinte, faleceu na sua casa, em 30/Julho. Está sepultada no Cemitério de Agramonte, desta cidade.
E são estas algumas recordações pessoais da grande Artista, que talvez ajudem a compreender melhor a personalidade de Suggia, glória mundial portuguesa da interpretação musical violoncelística!
Porto, Junho de 2006

do catálogo da exposição "SUGGIA, O VIOLONCELO" que decorre na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto, até final de Março

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fevereiro 07, 2007

MARIA ISABEL CERQUEIRA MILLET - TESTEMUNHO

Cerca dos meus 10 anos, meu pai fez-me sócia do Orfeão Portuense, cujos
concertos se realizavam no Teatro Gil Vicente, no Palácio de Cristal. Fui ouvir
um concerto de Guilhermina Suggia e do professor Luís Costa, que constava de duas sonatas, uma de Beethoven, outra de Brahms. Esse concerto impressionou-me de tal maneira que marcou para sempre a minha vida!

Desde então não largava meu pai, dizendo que queria aprender violoncelo. Meu pai acabou por ceder, tendo eu por primeiro mestre o professor Augusto Suggia, pai de Guilhermina. Terminado um ano de lições, o professor Suggia faleceu, e fiquei portanto sem aulas. Com meu pai violinista e minha tia Olinda pianista, pratiquei muito, executando trios de Mozart, Beethoven e Haydn.

Cerca dos meus dezoito anos e graças à grande amizade da professora Ernestina da Silva Monteiro, grande amiga e colaboradora de Suggia, consegui obter uma audiência com a grande Artista. Esta recebeu-me com certa severidade, declarando desde logo só ensinar professores e artistas. Deixou no entanto uma esperança, dizendo que se encontrasse uma oportunidade, e achando-me algumas qualidades, se lembraria de mim! Essa oportunidade chegou três anos mais tarde, quando nos contactou dizendo que tinha em sua casa uma senhora inglesa, sua antiga aluna, e que essa senhora me daria lições. Trabalhei duramente durante uns três meses com essa excelente professora, Miss Jean Marcel.

Suggia muito frequentemente assistia às aulas e tinha quase sempre qualquer
observação preciosa a fazer, modificando uma arcada, ou uma dedilhação, a
fim de tornar uma frase mais musical, ou facilitando a execução de uma passagem mais difícil.

Com o começo da Guerra 1939-45 , Miss Marcel regressou a Inglaterra. Bem
impressionada com o meu esforço e progressos, Suggia continuou a dar-me
lições com bastante assiduidade. Gostava muito de ensinar, pois entregava-se
completamente ao aperfeiçoamento de uma obra musical. Trabalhava arduamente a técnica, pois não estando esta dominada, não poderia haver liberdade de interpretação. Em sua casa passei momentos inesquecíveis, assistindo aos ensaios da grande artista com a professora e pianista Ernestina da Silva Monteiro e a professora D. Maria Adelaide Freitas Gonçalves, também pianista.

Passou a existir uma grande amizade entre meus pais e Suggia, que sentia
que minha família era um pouco a sua.
Tive também a felicidade de assistir em Lisboa e Porto aos concertos para o
Círculo de Cultura Musical em que Suggia colaborou acompanhada pela
Orquestra Nacional, debaixo da direcção do Maestro Malcolm Sargent. Ouvir
e ver esta grande artista nos seus concertos, era qualquer coisa de mágico, cujo fascínio nunca se poderá esquecer!

Em 1948, data da inauguração da Orquestra do Porto, da qual passei a fazer
parte, senti grande emoção quando Suggia actuou no concerto inaugural,
tocando o Concerto de Saint-Saens e o Kol Nidrei de Max Bruck. Momentos
de grande beleza e emoção que nunca poderei esquecer durante a minha já
muito longa existência!
Porto, Maio de 2006
do catálogo da exposição "SUGGIA, O Violoncelo" que decorre na Casa-Museu Guerra Junqueiro até final de Março

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fevereiro 02, 2007

MADALENA SÁ COSTA - TESTEMUNHO

Guilhermina Suggia, a grande violoncelista portuguesa, nasceu no Porto em
1885. Fez uma grande carreira de concertista em muitos países: Portugal – onde foi muito acarinhada e admirada – Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Hungria, Polónia, Rússia, etc., tocando com grandes pianistas e orquestras, sob a direcção de famosos maestros como Artur Nikisch, Mendelberg, Pedro de Freitas Branco, Malcolm Sargent e muitos outros.

Sempre que se apresentava em público era recebida delirantemente, vendo-se
obrigada a tocar inúmeros extra-programa. A sua maneira de tocar tem, para
mim, um cunho muito especial que a diferencia de outros grandes artistas. É
a ligação afectiva às obras que interpreta e a comunicação com o público que
estabelece de um modo muito emotivo.

Do estudo que fiz sobre os seus dezasseis anos de vida no Porto até à sua partida para Leipzig, onde foi estudar com Julius Klengel (refiro-me às datas entre 1885 até 1901), verifico o seguinte: tem como professor de violoncelo o seu pai Augusto Suggia, excelente músico, violoncelista da Orquestra do Teatro
S. João do Porto, que conheci muito bem porque foi o meu primeiro professor
e, como professor de música de câmara, Moreira de Sá, meu avô, como é
de todos sabido, violinista, pedagogo e personalidade ímpar no meio musical
português. Esses dois mestres eram personalidades afectivas que, sem dúvida,
marcaram a maneira de tocar de Guilhermina.

Observando os Anais do Orpheon Portuense, sociedade de concertos fundada
pelo meu avô e onde vieram dar concertos as maiores celebridades musicais
como Heifetz, Ferruccio Busoni, Jelly D’arany (a quem Ravel dedicou a
Zigane), Paderewsky, Rubunstein, Piatigorskyy, Pablo Casals, verifica-se que
Guilhermina pertenceu ao Quarteto Moreira de Sá (conjuntamente com
Henrique Carneiro, 2º violino e Benjamim Gouveia, viola) tomando aí conhecimento - entre outras obras - dos grandes quartetos de Beethoven, dados em primeira audição, em Portugal. Esta formação musical que Guilhermina recebe na Sociedade Orpheon Portuense, tocando em quarteto e trio com diferentes elementos, entre os quais sua irmã Virgínia, minha Mãe e meu Pai e outros elementos, é fundamental para a sua educação. Lembro Irene Fontoura Guedes, Laura Artayet Barbosa, Madureira Guedes, Benjamim Gouveia, Josephine Jones, Amélia Marques Pinto, Henrique Ferraz, Rosália Sousa Monteiro com quem interpretou obras de Beethoven, Tschaikovsky, Haydn, Mendelssohn, Mozart, Ravina, Batta, Dvorak, Brahms. É um período de grande importância no seu desenvolvimento: toca muito dos 12 aos 16 anos em concertos promovidos por aquela Sociedade. Guilhermina vive num ambiente familiar e num ambiente musical de grande afectividade, desenvolve de forma nítida o amor pea música, pelas obras que estuda e vai conhecendo. A meu ver, são os dois primeiros mestres que tem no Porto que marcam a sua maneira de tocar durante a sua vida.

Quando parte para Leipzig, o Orpheon Portuense organiza um concerto de
despedida em que Guilhermina toca o 1º andamento do Concerto de Lalo,
Tarantella de Popper e Variações sobre um tema Rocócó de Tschaikovsky.
Deixa, antes de partir, um retrato com a seguinte dedicatória: “A Moreira de
Sá com eterna gratidão”. O Orpheon Portuense fez uma despedida muito carinhosa, cheia de admiração por Guilhermina. Minha Mãe disse-me sempre que quando ela partiu para Leipzig, já era uma violoncelista muito formada, muito completa. Volta mais tarde a tocar no Orpheon Portuense com minha Mãe e meu Pai e, em 1924, na homenagem a meu Avô aquando do seu falecimento, com o pianista inglês George Reeves. E, ainda mesmo antes disso, quando sabe que Moreira de Sá vive os seus últimos dias de vida, desloca-se a sua casa tocando para ele, no seu quarto, um prelúdio de Bach.
O período da minha vida em que fui sua discípula foi fabuloso. Fiquei-lhe
devedora de uma dedicação, de um amor pelo seu ensino que não posso esquecer.

Sei que as suas lições eram altamente bem pagas. Mas nunca recebeu nada
pelas inúmeras aulas que me dava. Meus Pais é que lhe ofereciam uma lembrança a juntar a palavras de agradecimento. Por isso, o sentimento de gratidão que tenho sentido pela vida fora é imenso e nunca esquecerei. Quando
dei o primeiro concerto no Teatro Gil Vicente do Palácio de Cristal em 1931,
Guilhermina e seu Pai foram assistir ao ensaio geral o que me deu uma grande
satisfação e alegria. Mais tarde em 1939 aquando de um outro meu concerto
ofereceu-me uma belíssima fotografia sua de autoria de Dorothy Wilding.
Esse período das relações de amizade com Guilhermina Suggia em que a ouvi
imensas vezes tocar, em concertos e em privado, nos ensaios com meus Pais,
foi de grande valor para a minha carreira artística assim como as suas lições
preciosas. Ela adorava ensinar e eu recebi esse amor pelo ensino que me acompanhou toda a vida. Os ensaios a que assistia com os meus Pais são para mim inesquecíveis. Com minha Mãe, tocava os concertos de Dvorak, Elgar, Lalo, Variações Sinfónicas de Boelmann, Sonatas de Samartini, Eccles, Locatelli, peças de Popper, Sinigaglia, Camargo, Senallié; e, com meu Pai, eram as duas Sonatas de Brahms e a Sonata em lá de Beethoven. Com este programa convidou meu Pai a tocar em 1929, num recital em Londres, no Wygmor Hall e, minha Mãe em concertos em casas particulares. Os jornais ingleses referem-se elogiosamente ao recital. Jamais voltaria a sentir uma tal perfeição na concepção e interpretação das obras que resultava de um entendimento maravilhoso entre Suggia e meus pais.

Antes, em 1926, a Sociedade Filarmónica de Vigo convidou Guilhermina,
minha Mãe e meu Pai, a realizarem um concerto na série em que colaborou
a Orquestra Sinfónica de Madrid. O primeiro concerto dessa série é unicamente
preenchido com Guilhermina, Leonilda Moreira de Sá e Costa e Luiz
Costa. No terceiro, Guilhermina toca, com a Orquestra, o Concerto em Ré de
Haydn, sendo o 2º e 4º concertos apenas preenchidos com a orquestra dirigida
pelo célebre maestro Arbóz. Guilhermina dizia muitas vezes que eram pianistas
ideais.

Guilhermina deixa, em testamento, o seu famoso violoncelo Montagnana para
ser vendido e, com o produto daí resultante, se instituir um prémio com o seu
nome, destinado a premiar o melhor aluno do Conservatório de Música do
Porto. Foram premiados seis violoncelistas de reconhecido mérito. A mim,
deixou-me em testamento um violoncelo italiano do século dezoito, Cavaleri.
Fiquei comovida e agradecida por se lembrar de mim. É um instrumento com
uma sonoridade linda.
Porto, Largo da Paz, Maio de 2006

do catálogo da exposição "SUGGIA, O Violoncelo" que decorre na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto, até final de Março

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janeiro 31, 2007

INÊS E OFÉLIA DIOGO COSTA - Testemunho

Quando surge uma Artista, tão extraordinária como Guilhermina Suggia,parece-nos que ao evocá-la, toda a atenção deve convergir para os aspectos musicais com ela relacionados. Mas, é para nós gratificante, recordar também a relação entre a nossa família e Guilhermina Suggia. Relação duradoira e absolutamente “cristalina”, que perdurou desde o seu regresso ao Porto até ao seu desaparecimento.

Este relacionamento iniciou-se antes do nosso nascimento e começou por um
amável convite de Guilhermina Suggia a Ofélia Diogo Costa, para cantar em sua casa, quando esta regressou ao Porto, após uma estadia em Paris para trabalhar com a célebre cantora Claire Croiza. Inúmeras vezes, Ofélia Diogo Costa e Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves foram convidadas para fazerem e ouvirem Música, na casa de Guilhermina Suggia.

Não queremos deixar de referir a troca de impressões realizada numa dessas reuniões, sobre a interpretação da notável peça “Après un Rêve” de Fauré, que Guilhermina Suggia tocava admiravelmente e que a nossa Mãe cantava.

Ofélia Diogo Costa foi tão receptiva a esse “encontro”, que muitos anos mais
tarde, numa conferência realizada no Conservatório de Música do Porto, com
o título “Do Público – Do Intérprete – Da Lição” fez as referências que transcrevemos em seguida:

Contaram-nos esta confissão de um músico, ao ouvir – Après un Rêve – Quando
existe semelhante melodia, as palavras são supérfluas.
Até que ponto corresponde isto à verdade?
A que regiões, poderia levar-nos a Poesia, se a intérprete a erguesse a um plano, onde tudo quanto fosse terrestre desaparecesse?

Elle sollicite l’âme hors la chair… - no dizer do poeta.

Não façamos aqui a diferença do Talento e do Génio.
Baste-nos senti-la em Criadores e Intérpretes.
Guilhermina Suggia é, a meu ver, um Génio de Interpretação. Nela tudo é vivido, humano, sublime.
É uma continuadora da Obra de Arte, rasgando clareiras insondáveis.
É, enfim uma Intérprete rara. A única talvez que transfigurando-se nos canta
“Après un Rêve”. Mas, nesta canção sem palavras, Ela é a própria Poesia.
Num esquisso inesquecível, António Carneyro imortalizou Intérprete, Poesia e
Música:


- Tu m’appelais et je quittais la terre
Pour m’enfuir, avec toi, vers la Lumière »

Guilhermina Suggia foi presença constante em todos os concertos realizados
por Ofélia Diogo Costa e Maria Adelaide Diogo Freitas Gonçalves. A proximidade das nossas residências – nessa altura, vivíamos na Rua Heróis de Chaves, portanto muito próximo da Rua da Alegria, - permitiu que Guilhemina Suggia fosse uma presença importante na nossa infância.

Guilhermina Suggia ficou totalmente seduzida, quando o nosso irmão nasceu
e passou horas junto do seu berço, encantada com tão minúsculo ser. Hoje,
admiramos muito o seu carinho pelas crianças que fomos. Depois, a vida afastou-nos, porque deixamos de viver no Porto, mas não nos separou. A relação continuou com nossa tia Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves.
Quando o Círculo de Cultura Musical iniciou as suas actividades, no Porto,
por iniciativa de Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves, Guilhermina
Suggia foi uma das suas primeiras assinantes. A sua presença, numa friza no
Rivoli, junto da friza da Direcção, era uma “nota” característica dos concertos
desta associação. Presença importante para o público, que seguia as suas
reacções e muito especialmente para os artistas… Recordamos: A admiração
do então jovem violoncelista Gaspar Cassadó ao saber da sua presença na sala
onde actuava e que de imediato, lhe dedicou uma peça; e o espanto do violinista Henryk Szeryng ao ser cumprimentado, no fim do seu concerto, por tão ilustre artista.

O contacto com Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves foi fecundo e
dele resultou a sua actuação, como solista, em dois magníficos concertos, no
Círculo de Cultura Musical, com a Orquestra Nacional sob a direcção, respectivamente, do famoso Maestro Malcolm Sargent e do ilustre Maestro Pedro de Freitas Branco. Guilhermina Suggia tocou ainda em várias outras Delegações do Círculo de Cultura Musical. Citamos um excepcional concerto em Viseu e o seu último concerto em Aveiro, em que foi acompanhada por Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves.

Outras realizações juntaram as vontades de Guilhermina Suggia e Maria
Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves. Quando esta decidiu fundar a Orquestra
Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, Guilhermina Suggia apoiou-
-a, inicialmente, em muitas diligências, além de contribuir na orientação do
naipe de violoncelos e levou a sua generosidade a actuar na primeira apresentação desta orquestra ao público sob a direcção do Maestro Karl Achatz.
Se, o Conservatório de Música do Porto foi contemplado no testamento de
Guilhermina Suggia foi devido ao apreço que a ilustre Artista tinha pela Obra
realizada por Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves nesse estabelecimento
de ensino.
A fama de um intérprete é, em geral limitada no tempo e são raríssimos os
exemplos que perduram.
Pensamos que os ouvintes de Guilhermina Suggia devem ter a preocupação de
transmitir às gerações futuras, a recordação dos momentos inesquecíveis que
as suas interpretações lhes proporcionaram.
A memória da grande Violoncelista deve permanecer viva e a sua arte perdurar
através dos tempos.
Porto, Maio de 2006

do Catálogo da exposição "SUGGIA, O Violoncelo" que decorre na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto até final de Março

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janeiro 24, 2007

CARLOS SOUSA BAPTISTA- testemunho

Pertenço ao número de pessoas, talvez já não muito elevado, que foram bafejadas com a sorte de, mais do que uma vez, terem assistido a audições de
Guilhermina Suggia com o seu violoncelo. Não venho, no entanto, fazer considerações sobre a artista e a sua música, pois isso está para além da minha competência.

Venho, apenas, prestar uma modesta contribuição, dando a conhecer
duas situações por mim vividas: uma com o violoncelo sem Guilhermina Suggia e outra com a artista sem o violoncelo.

Na minha qualidade de dirigente municipal colaborei de muito perto com o
então Presidente da Câmara Municipal do Porto, Dr. Fernando Cabral, nos
trabalhos conducentes à aquisição do Teatro Rivoli, em 1989, tendo depois responsabilidades na gestão da casa de espectáculos. Para iniciar a actividade do “Rivoli-Teatro Municipal” foi decidido levar a efeito um sarau e fazer a apresentação pública do violoncelo de Guilhermina Suggia, que se encontrava no Conservatório de Música do Porto, tendo eu sido encarregado das diligências
necessárias para o efeito.
Poucos dias antes da data marcada para o sarau surgiram inesperados problemas na avaliação do precioso instrumento para se concretizar o indispensável seguro antes de transitar para o Rivoli. A surpresa para quem tratou do assunto – e julgo que o será também para boa parte de quem me lê – é que o violoncelo foi avaliado em mais de cem mil contos (meio milhão de euros nos dias de hoje), tendo sido mesmo necessária a participação de duas seguradoras, uma portuguesa e outra estrangeira!

A outra situação – Guilhermina Suggia sem o violoncelo – teve lugar na antiga Faculdade de Medicina, junto ao Hospital de Santo António, num concerto ao qual assistiu Guilhermina Suggia sentada na primeira fila, em cadeira localizada mesmo debaixo do parapeito dum varandim superior, onde eu assistia também ao concerto, mesmo na vertical da referida cadeira.

Nunca mais pude esquecer o que foi observar a forma como GuilherminaSuggia acompanhou passagens da execução musical, movendo-se constantemente, ora com a cabeça, ora com o tronco, chegando mesmo a quási se desequilibrar na cadeira.

O “espectáculo”, visto do local em que me encontrava, chegou a aproximar-se da comicidade, mas cedo compreendi que tinha sido testemunha do fervilhar da
alma da Artista que vivia a Música, na plurilatinidade herdada dos seus ascendentes próximos, com a mistura de sangue português, italiano e espanhol.

Porto, Junho de 2006

(Do Catálogo da exposição "SUGGIA, O VIOLONCELO" a decorrer na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto, até final de Março)

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janeiro 17, 2007

GUILHERMINA SUGGIA e ANTÓNIO LAMAS

Como netos de António Lamas (1861-1915), ilustre amador musical e coleccionador de instrumentos antigos, parece-nos oportuno explicar qual a razão por que Guilhermina Suggia manteve com o nosso Avô uma correspondência regular durante oito anos, de 1903 a 1911, correspondência essa representada actualmente por um conjunto de cerca de oitenta postais ilustrados, dos quais vinte se encontram na exposição. Lamentamos a perda de muitas cartas a que os postais se referem, certamente muito mais ricas de conteúdo.

António Lamas foi considerado um brilhante instrumentista de violino, dedicando-se mais tarde à violeta, instrumento que se coadunava mais com o seu temperamento e que na altura tinha poucos adeptos, sendo relegado para um plano secundário. Dedicou-se também ao estudo da viola-de-amor, da qual se pode dizer que foi o único instrumentista do seu tempo no nosso País. Notabilizou-se em qualquer destas modalidades, promovendo e colaborando em inúmeros concertos com grandes figuras musicais tanto nacionais como estrangeiras. Assim, manteve uma regular colaboração como violetista num quarteto com Rúbio, Arbós e Rey Colaço.

Dedicou-se muito especialmente ao estudo e interpretação de música antiga, tendo sido o grande impulsionador e animador dos célebres "Concertos Históricos" que procuraram divulgar a música de câmara anterior a Bach. Fundou, com outros músicos notáveis, a Sociedade de Música de Câmara, que trouxe a Portugal as figuras mais destacadas da época. Fez parte da Real Academia de Música e integrou por diversas vezes júris de exames no Conservatório Nacional, por inerência do cargo nessa Academia.

Grande apaixonado pela música antiga, como atrás se refere, organizou na sua própria casa uma vasta colecção de cerca de uma centena de instrumentos de várias épocas, a que devotou sempre o maior interesse e dedicação. Foi convidado várias vezes a actuar no Paço Real. Condecorado pelo Rei D. Carlos, declinou, por excessiva modéstia, a honraria com que fora distinguido.
António Lamas teve a oportunidade, numa deslocação ao Porto, de ouvir a jovem e talentosa Guilhermina Suggia e a circunstância de ser um assíduo frequentador do Paço permitiu-lhe ter sido uma das pessoas que envidou esforços junto da Família Real para que lhe fosse concedida uma bolsa para prosseguimento dos estudos no estrangeiro. Essa diligência teve resultados positivos, o que lhe permitiu beneficiar dos preciosos ensinamentos do insigne violoncelista e professor Julius Klengel.

Poucos meses depois, com menos de vinte anos, iniciava já uma longa carreira de concertista apresentando-se nas grandes salas das mais prestigiadas cidades europeias: Estrasburgo, Neustadt, Baden Baden, Paris, Bruxelas, Mainz, Heidelberg, Mannheim, Bremen, Dortmund, Haia, Londres, Amsterdam, Bayreuth, Coburg, Karlsbad, Viena, Lemberg, Varsóvia, Munique, Stuttgart, Berlim, Hamburgo, Frankfurt, Ostende, Basileia, Cracóvia, Leipzig, Dresden, Schemnitz, Innsbruck, Estocolmo, Kolozsvar, Kissingen, Scheveningen, Neuchâtel, Düsseldorf, Roma, St. Petersburg, Moscovo, etc. Em várias destas localidades actuou por mais de uma vez e as deslocações, em certos casos muito longas, eram feitas nos comboios da época e em condições muito precárias.

Apresentou-se em vários concertos com outros grandes solistas como o pianista Godowsky, a cantora lida Volti e o célebre violinista Fritz Kreisler, e em diversos locais, em duo, com Pablo Casals, sempre com o maior sucesso.

Actuou ainda como solista com as maiores orquestras da Europa sob a direcção de, entre outros, Eduard Colonne, Fiedler e Martin Spõrr. Durante um certo tempo beneficiou ainda dos conselhos do violoncelista David Popper. É de salientar, que toda esta actividade, que constituiu a sua 1a tournée no estrangeiro, decorreu no curto período de sete anos, entre 1904 e 1911.

Não podemos deixar de referir a gratidão expressa por Guilhermina Suggia ao nosso Avô, ao longo dos seus postais, e a forma carinhosa e familiar como sempre o tratou, o que nos toca profundamente.
ELISA E JOÃO ANTÓNIO LAMAS
Lisboa, Maio de 2006
(do Catálogo da exposição "SUGGIA, O VIOLONCELO", a decorrer na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto, até 31 de Março p.f.)

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junho 15, 2006

GUILHERMINA SUGGIA NA "MONOGRAFIA DE MATOSINHOS", DE GUILHERME FELGUEIRAS

Cultíssimo espírito de mulher, extraordinária violoncelista, assinalada portuguesa em todo o mundo musical, onde foi estrela de primeira grandeza.
Era filha dum mestre de violoncelo e artista primoroso também, Augusto Suggia, que do Conservatório de Lisboa passou ao do Porto e ali fixou residência. Na capital do Norte nasceu Guilhermina C. Mena Suggia, a 27 de junho de 1888 e ali aprendeu com seu pai e com o famoso violoncelista espanhol Pablo Casals a técnica do instrumento em que devia mais tarde adquirir grande notoriedade. Começava a refulgir no mundo musical quando, aos sete anos, se revelou assombrosa já, pela primeira vez que tocou em público, na então aristocrática, muito distinta, Assembleia de Matosinhos.
Nesta vila e num dos salões do Teatro Constantino Nerv. se conservou durante largos anos o retrato a óleo da egrégia concertista, pintado por António Alexandrino da Silva (95).

Depois são os seus triunfos repetidos no Quarteto de Música de Câmara do Orfeão Portuense, menina e moça, e os concertos sucessivos que dá, aplaudidíssimos, com sua irmã Virgínia, pianista notável também, mais tarde Madame Léon Tichon.
Ë a sua entrada no Paço Real, em Lisboa, onde Suas Majestades o Rei D. Carlos, a Rainha D. Amélia, a Rainha viúva D. Maria Pia e os príncipes, e todos os grandes de Portugal, a aplaudem e a consagram, num concerto memorável, como grande também de Portugal, entre os maiores artistas da época.
E são, depois, com 17 anos, os seus estudos por subsídio régio no Conservatório de Leipzig, onde tem como seu mestre e amigo Julius Klengel. E onde Artur Nickisch — o enorme Nickisch — meses passados, ao ouvi-la no «Gewandhaus», consente que ela repita a pedido do público entusiasmado (o que nunca se havia feito, a ninguém nesse «auditonum») o concerto de Volkmann, que havia maravilhosamente executado.
E depois, são todos os países que percorre, entre ovações do público e aplausos da crítica. São as cortes que a recebem como uma princesa — desde a estranha, do Czar da Rússia, à puritana, da Inglaterra.
Durante a guerra de 1914-1918, tocou em diversas festas de caridade em que esteve presente gente da corte inglesa, sempre com brio e relevo de verdadeira artista.
É, sobretudo, a Grã-Bretanha que ela cativa e onde, para todo o resto da vida, fica tendo os seus mais dilectos admiradores — a artista preferida de Eduardo VII, amiga de Balfour e de Austen Chamberlam que «não gostava de música», a não ser a tocada por Guilhermina Suggia; amiga da duquesa de York, hoje Rainha viúva da Inglaterra, que, sempre a requeria para os seus concertos de beneficência e, mal chegava a Londres, lhe mandava sempre um precioso ramo de orquídeas. Essa nação britânica, «onde nunca esteve em hotéis», porque de par em par se lhe abriam as portas dos palácios — disputando-lhe o convívio — das mais nobres, das mais fechadas, famílias da aristocracia inglesa.
Guilhermma Suggia como preito de gratidão pelo País que tanto a aplaudiu e acarinhou, legou o seu valioso violoncelo «Stradivarius» para fundar uma bolsa de estudo na Real Academia de Música, em Londres, violoncelo esse que foi vendido a um coleccionador por oito mil libras.
Mil páginas de ouro da sua vida se poderiam escrever. Algumas até, por mais curiosas, a contar episódios com ela passados e anedotas cheias de graça. Ou a dizer de seus gostos, da sua casa, do seu conhecido amor pêlos cães de raça — os «Scottish-terner», de preferência — ou da sua valiosa colecção de tapetes orientais. Ou até, ainda que tal não pareça, em artista de tão finos sentimento e temperamento, as suas devoções desportivas, pelo ténis, pela natação e pelo remo.
Assinalando a passagem do terceiro aniversário da morte de Guilhermina Suggia, a Câmara Municipal do Porto prestou homenagem à memória da insigne violoncelista, com várias solenidades, entre as quais o descerramento ns jardins do Conservatório de Música de um busto, devido ao cinzel de Leopoldo de Almeida.
Guilhermina Suggia, foi casada em primeiras núpcias com o grande virtuoso do violoncelo Pablo Casals, de quem foi discípula dilecta. Mais tarde divorciou-se, tendo contraído de novo matrimónio com o Dr. Carteado Mena.

Do livro”MONOGRAFIA DE MATOSINHOS” de Guilherme Felgueiras
(Cedido por Biblioteca Florbela Espanca – CMMatosinhos

VM-G.Suggia naceu a 27 de Junho de 1885 e não 1888 como é referido.
De seu nome GUILHERMINA AUGUSTA XAVIER DE MEDIM SUGGIA.A este se acrescenta CARTEADO MENA pelo seu casamento com o Dr José Casimiro Carteado Mena.

O violoncelo STRADIVARIUS foi deixado à Royal Academy of Music para atribuição, depois da sua venda, de um prémio anual ao melhor aluno de violoncelo. A Bolsa a violoncelistas solistas foi atribuída com o dinheiro que Suggia deixou depositado nos bancos ingleses ( cerca de 10.000 Libras)

Não se divorciou ( em termos jurídicos) de Pablo Casals, com quem viveu entre 1906 (?) e 1913, mas com quem nunca chegou a casar, embora o tenha referido várias vezes em correspondência

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dezembro 21, 2005

GUILHERMINA SUGGIA e LUIS de FREITAS BRANCO

“A escola moderna de violoncelo principia com João Luiz Duport, francês, falecido em 1819. O alemão Bernardo Romberg, falecido em 1841, foi o primeiro a efectuar viagens de concertos como violoncelista e a executar sempre de cor. O italiano Antonio Piatti, o russo Davidoff e o checo Popper foram também violoncelistas notáveis, sendo o espanhol moderno Pablo Casals, o maior de todos os tempos, como técnica e profundeza de interpretação, e o transformador da pedagogia do violoncelo.

Guilhermina Suggia, portuguesa, nascida no Porto, é, em toda a história da música, a senhora que mais se distinguiu como instrumentista de arco e possue o som de violoncelo mais formoso e expressivo de que há memória. Guilhermina Suggia é um dos vultos geniais da história da música portuguesa.

A revolução operada por Casals na técnico do violoncelo consiste principalmente na aproximação dos modos de dedilhar deste instrumento e do violino, correspondendo ao papel moderno do violoncelo, que passou de instrumento acompanhador, a um dos principais instrumentos solistas. O método e a dedilhação de Casals encontram-se, entre outras, nas obras didáticas de Stutschewsky e Alexanian.”


Luiz de Freitas Branco, História Popular da Música, Lisboa, Cosmos, s/d, pp. 280,281


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novembro 06, 2005

IN MEMORIAM BERNARDO V. MOREIRA DE SÁ

...
Moreira de Sá era um desses espíritos de eleição e uma dessas vontades inflexíveis que produzem sem descanso, construindo uma obra que o tempo não apaga e, ao contrário, solidifica, tornando-a imortal pelo exemplo que contém.

São tantas e tão variadas as aptidões de Moreira de Sá e exercidas com tamanha distinção, que a sua obra equivale, com efeito, a um monumento no qual figuram a Ciência, a Arte e as Letras, porque Moreira de Sá foi músico insigne, professor eminente e escritor ilustre. Ele reuniu nobremente três das mais difíceis manifestações do pensamento. Cultivou a Arte desde os 7 anos, idade em que deu o seu primeiro concerto com a assistência de El-Eei D. Pedro V. Honrou o nome português ao lado de Vianna da Motta, de Casals, de Bauer e de Guilhermina Suggia, — a deusa do violoncelo.

Cooperou, além de outros, com E. Arbós e J. Thibaud — para mim, pelo sentimento e elegância, o primeiro violinista da actualidade — e ainda se engrandeceu, acompanhando Artur e Alfredo Napoleão.

Moreira de Sá foi pianista e conferente, director de orquestra e coros orfeónicos, professor de violino, piano, composição, estética, ciências matemáticas e físicas e línguas, que conhecia a fundo e foi, sem dúvida, alguém a quem o Porto deve reconhecimento eterno pelo muito que trabalhou no seu desenvolvimento artístico. Moreira de Sá legou-nos ainda uma obra notável como escritor. A vida do morto ilustre será orgulho constante da família que o estremecia e saudade imensa dos amigos que, como eu, o veneravam.

GASPAR BALTAR (Setembro de 1929)

IN MEMORIAM BERNARDO V. MOREIRA DE SÁ( Livraria Tavares Martins-Porto 1947)

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julho 17, 2005

AO TOCAR O VIOLONCELO UMA MULHER DEVE DEIXAR UMA IMPRESSÃO DE GRAÇA E BELEZA

Guilhermina Suggia (n. 1888)* tornou-se, merecidamente, muito popular neste país**, a partir de uma data que as páginas de MT*** ou os livros de referência musical habituais não permitem determinar com exactidão.

Estudou com Klengel e, mais tarde, durante algum tempo, com Casals. A opinião de MT sobre a arte de Suggia ( tal como expressa em Agosto de 1922 a propósito da sua interpretação dos concertos de Dvorak e Elgar) é que “não obstante a sua origem meridional, deve ser incluída no grupo das intérpretes femininas que buscam a pureza de som e a pureza da concepção e não no das frenéticas cuja energia supera em violência a de qualquer intérprete masculino.”

Um retrato famoso - um dos melhores de Augustus John – tornou-a conhecida de milhares de pessoas que nunca a ouviram tocar e ilustra bem a primeira parte da tese presente neste importante depoimento citado no número de Março de 1925, de MT:

“Ao tocar o violoncelo, uma mulher deve deixar uma impressão de graça e beleza. Deverá usar um vestido de ampla roda, que caia em pregas elegantes. Já vi mulheres tocarem violoncelo com uma saia curta e apertada. Parecem macacas, tão feias.” – Guilhermina Suggia

*1885
**Inglaterra
***MUSICAL TIMES

THE MIRROR OF MUSIC(1844-1944)
Novello & Company Ltd and Oxford University Press -1947

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junho 10, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo- X

Assim é que, sobre os memoráveis Concertos Sargent — Suggia, alguém escreveu:

«A Suggia, grande e bela. De raça real, saída duma tela italiana da Renascença, em pompa, O som parecia vir dela própria, interior, e o violoncelo ser apenas o pretexto.

Presente nesses concertos, também o pintor Carlos Botelho pôde colher, em traço caricatural, da insigne Artista, flagrantes poses em 3 desenhos.

Em 28 de Maio de 1943 reaiizou-se também no Teatro de S. Carlos, um Concerto integrado na série organizada pela Emissora Nacional, em que «a gloriosa violoncelista portuense arrebatou, como sempre, todos quantos a ouviram, com o espantoso fogo das suas interpretações, o seu fraseado encantador, o ritmo impressionante sobre o qual arquitecta as mais livres e arrojadas ideias.»

Em 12 e 19 de junho desse ano, Suggia faz-se ouvir pela 1ª vez em dois Recitais peia Rádio, directamente dos estúdios da Emissora Nacional (Lisboa).

Por fim, a 30 do mesmo mês, em Lisboa, ela arrebata o grande público do Coliseu dos Recreios e, num grande gesto de generosidade, oferece os seus respectivos honorários - 40 contos à Assistência aos Tuberculosos e às Irmãzinhas dos Pobres.
Nos anos seguintes Suggia nunca mais deixou de tocar para o público português.

E no último dia de Maio de 1950, a dois meses da sua morte, realizou-se em Aveiro um Concerto que foi o canto do cisne daquela que seis décadas antes abraçara, em Matosinhos, pela primeira vez o instrumento dos seus amores!

Porto, Abril de 1969
Carlos de Figueiredo
(Cedido por A Cunha Silva)

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junho 08, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - IX

«O violoncelo é para mim — disse-o ela um dia — o instrumento que melhor reproduz o angustiado lamento da voz humana ou a expressão triunfal dum cântico vitorioso de Resgate e de Amor. Para se tocar violoncelo é preciso estreitá-lo num amoroso amplexo — como se fora uma mãe carinhosa embalando um filho bem-amado.

Reparando bem, a posição do violino, na distenção do braço esquerdo, traduz uma atitude de afastamento — contrariamente à do violoncelo, que apenas define confidência, intimidade... Apenas uma vez na vida um violino se comoveu até às lágrimas — quando, numa tarde inesquecível, ouvi o divino Isaÿe interpretar o Concerto de Beethoven. Foi apenas uma vez — e nunca mais...»

A actividade musical de Suggia no nosso país, teve em 1943 o seu ano áureo.
Dele há que revelar o facto do "Círculo de Cultura Musical" ter apresentado, em Janeiro, em cinco memoráveis Concertos, três em Lisboa no Teatro S. Carlos, e dois no Teatro Rivoli, do Porto, a célebre violoncelista com a colaboração da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional sob a regência do notabilíssimo "maestro" britânico sir Malcolm Sargent (1895-1967).

O que foram esses Concertos relativamente, a Guilhermina Suggia, bem se pode avaliar, dando a palavra a Fernando Lopes-Graça:

«Os concertos de S. Carlos foram como que uma espécie de revisão dos grandes triunfos de Suggia: o Concerto de Dvorak, o Concerto de Saint-Saëns, o Concerto de Elgar ficaram novamente devendo muito do seu prestígio à arte consumada da grande violoncelista. Há certos passos melódicos, certos cantabili nestas obras que supomos dificilmente poderem ser dados com mais expressão, requinte, intenção e beleza de sonoridade;
gravam-se-nos para sempre na memória intimamente associados ao nome de Suggia. E no Concerto de Haydn, e nas Variações Sinfónicas de Boëlmann a mesma mestria, o mesmo domínio do instrumento, o mesmo poder de sedução. Ouvir Suggia é experimentar aquele frémito divino que só os artistas excepcionais são capazes de nos comunicar.»

Que de testemunhos da sua personalidade artística não havia ainda a citar verdadeiramente eloquentes — até mesmo à margem da crítica!

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junho 02, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - VIII

Acerca desse Concerto ( 10 de Abril de 1930 no Teatro de S. João) de Guilhermina Suggia, um ilustre cronista dos acontecimentos musicais, traçava em "O Comércio do Porto" os seguintes apontamentos: «Dizer o que foi a execução dos números que ela interpretou, só fazendo das palavras igualmente uma obra de Arte.

Da sala lançaram-se, convergiram sobre essa figura de Mulher predestinada todos os olhares e, com eles, todas as almas. O braço fortemente esculpido de Suggia arranca do violoncelo as primeiras arcadas e o som, partindo, elevando-se, pareceu-me abrir-se no ar por sobre todos, como um tentáculo impalpável e invencível de magia, segurando-nos na sua garra misteriosa de sedução! (...) Alguém num camarote, apoiando a cabeça entre as mãos, chorava convulsamente, sufocadamente, lágrimas de íntima e indizível comoção, lágrimas que lhe matariam a alma, se não pudessem irromper livremente a dizer, umas após outras, o amor quase enlouquecido de um pai e o orgulho bem nobre de um primeiro mestre de violoncelo!"

Augusto Suggia pressentiu certamente que jamais assistiria às ovações de um novo concerto de sua filha... Assim aconteceu. E volvidos dois anos Guilhermina recebia em Londres a infausta notícia da sua morte, sentindo o acerbo espinho da Saudade...

Suggia era uma artista de estilo a um tempo clássico e romântico: clássico, pela força concentradora, romântico, pelo poder expansivo. A estas faculdades naturais desenvolvidas pelo estudo, a um espírito lúcido, a um temperamento rico e voluntarioso, a uma requintada sensibilidade se deveu o seu fascínio, o seu poder de comunicabilidade e sugestão, o seu gosto de exibição, a teatralidade justa e harmoniosa das suas poses.

Se não fora violoncelista, ela teria sido igualmente grande como actriz, qual outra Sara Bernhardt, se à arte de Talma se houvesse consagrado.

Mas como conceber Suggia sem o seu violoncelo? Só com ele se completava: ele era a sua razão de ser — um filho que tivesse de acalentar...
(Cedido por A Cunha e Silva)

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maio 31, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - VII

Com o rebentar da Primeira Guerra Mundial, Suggia, que entretanto se havia desligado de Casals, decide ir viver na Inglaterra numa tentativa de prosseguir a sua carreira, algum tempo suspensa. Aí continuamente solicitada e rodeada de honrarias, o seu prestígio de concertista torna-se cada vez maior.

Um consagrado escritor e ensaísta britânico exprime, em prosa de arte, a rara sensação que lhe causou a grande Artista num concerto efectuado em Manchester em 1919, reparando na «figura atraente... ao surgir no estrado com o seu belíssimo instru¬mento e seu trágico semblante egípcio...»

Augustus Jonh (1879-1961), o maior retratista inglês do séc. XX, num quadro a óleo, concluído em Março de 1923, fixa também a figura de Suggia tocando numa elegante atitude de emoção e domínio, quadro impregnado de majestade e beleza.


Em 1927, Suggia consorcia-se com o Dr. José Carteado Mena (1876-1949) fixando residência no Porto.
Ouvi-a pela primeira vez, era eu menino e moço, num Concerto dado no Teatro de S. João a 10 de Abril de 1930 com a colaboração da Orquestra dos "Concertos Sinfónicos de Lisboa" sob a direcção de Pedro de Freitas Branco (1896-1963).
Nessa noite inesquecível de vibrante entusiasmo, a audição do Concerto de Haydn e o de Saint-Saëns, do Kol Nidrei de Max Bruch e da Habanera de Ravel constituiu, graças à soberba interpretação de Suggia, um incitamento para o meu estudo de violoncelo e a revelação duma elevada arte com a perfeição da qual comecei então de sonhar...
(Cedido por A Cunha e Silva

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maio 26, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - VI

Nesse mesmo ano (1907), em Portugal, um conhecido articulista, ao anunciar um concerto de Suggia no Salão do Conservatório de Lisboa, escreve nos seguintes termos: "O que existe nessa extraordinária mulher-artista e que levanta a sua arte, aos olhos de todos os que o escutam, com um relevo admirável e a enche da mais veemente expressão e do mais vivo e impressionante colorido, é todo um cálido temperamento de meridional, bem criado à luz do nosso sol e sob o vivo azul do nosso céu, é uma alma bem portuguesa que uma vocação artística cedo despertada ensinou a vibrar, emocionando-se com violência e sabendo, por uma sugestão feliz, transmitir-nos a nós essa emoção.

Segue-se um largo período em que, em Paris, o íntimo convívio que Suggia manteve com Casais foi de molde a adquirir novas experiências humanas e estéticas, sendo de salientar o conhecimento das Suites de Bach. O Concerto Duplo para dois violoncelos e orquestra de Emmanuel Moór (1862-1931) foi muitas vezes tocado por ambos. A Suite op. 110, do mesmo compositor é-lhes dedicada.

Dão inúmeros concertos, e nessa actividade conjunta dir-se-ia que a Intelectualidade Ibérica, na sua dupla feição hispânica e lusitana, nunca esteve tão altamente representada como por esses dois génios peninsulares da Música.
(Cedido por A Cunha e Silva)

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maio 24, 2005

TESTEMUNHO DE PROF MADALENA SÁ E COSTA

NET 1931 14 MAIO GUILHERMINA, MADALENA E AUG SUGGIA PAL CRISTAL.jpg
Guilhermina Suggia, a grande violoncelista portuguesa nasceu no Porto em 1885.
Em 1901 partiu para Leipzig onde foi estudar com Julius Klengel, mas até
essa data estudou violoncelo no Porto com seu Pai, Augusto Suggia, excelente
violoncelista e professor, e música de câmara com Moreira de Sá, personalidade ímpar no meio musical português.

Durante esses dezasseis anos pertenceu ao Quarteto Moreira de Sá e aí toma conhecimento dos quartetos de Beethoven (que virão a ser dados em primeira audição em Portugal) e de muitas outras obras importantes; toca em muitos concertos do "Orpheon Portuense", sociedade de concertos fundada em 1881 por Moreira de Sá com muitas elementos do meio musical portuense.

Esta sociedade que ao longo desses anos da formação de Guilhermina muito acarinhou o seu desenvolvimento, organiza um concerto antes da sua partida para Leipzig, em que toca o 1º andamento do concerto de Lalo, Tarantela de Popper e Variações sobre um tema Rococo de Tschaikovsky.
No dizer de minha Mãe, Leonilda Moreira de Sá Ferreira da Costa, quando
Guilhermina parte, já é uma violoncelista muito feita, muito completa.

Fui sua discípula durante 10 anos. Esse período da nossa convivência e
amizade foi fabuloso. Ouvi-a tocar muitas vezes em ensaios e concertos com
minha Mãe e com meu Pai. Aprendi muito nas suas lições e ouvindo-a em
concertos, com a sua maneira de tocar muito comunicativa e emotiva.

Em 1926, a Sociedade de Concertos de Vigo, convidara Guilhermina e meus
Pais para tocarem numa série de concertos, tocando ela num deles com a
Orquestra Sinfónica de Madrid dirigida pelo famoso maestro Arbós.
Para mim as sonatas de Brahms e a sonata em lá de Beethoven, que tocava
com meu Pai, tiveram uma execução de rara beleza e perfeição que jamais
esquecerei. Guilhermina convidou meu Pai a realizar este programa no Wigmore Hall de Londres em 1929. E minha Mãe a tocar nessa ocasião em concertos em casas particulares de Londres.

Foram relações artísticas e de amizade muito intensas e profundas. Quando
Guilhermina parte para a Alemanha deixa uma sua fotografia com a seguinte dedicatória: "A Moreira de Sá com eterna gratidão". E, com minha Mãe manteve uma correspondência enorme durante muitos anos incluindo cerca de cem postais enviados de muitas cidades e países onde toca. Realiza concertos em muitos países.

Além de Portugal, onde é delirantemente ovacionada e acarinhada, toca em
Espanha, França, Alemanha, Itália, Áustria, Holanda, Dinamarca, Polónia,
Suíça, Rússia, etc. e com Orquestras dirigidas por eminentes maestros como
Artur Nikisch, Mengelberg, Pedro de Freitas Branco, Malcom Sargent.

Deixa em testamento o seu famoso violoncelo Montagnana para ser vendido e,
com o produto daí resultante se instituir um prémio com o seu nome destinado
ao melhor aluno do Conservatório de Música do Porto. Esse prémio foi
distribuído a seis jovens em provas de concerto com orquestra tendo
altamente dignificado esta atribuição.

Deixou ainda o famoso violoncelo Stradivarius à Real Academia de Londres,
Ao Conservatório de Música de Lisboa deixou um outro assim como à
violoncelista Isabel Cerqueira Millet sua discípula; e, a mim, um violoncelo
italiano do século dezoito. Fiquei-lhe eternamente grata também por este seu
gesto.

Versão do capítulo sobre Guilhermina Suggia que integra o livro de
memórias de Madalena Moreira de Sá e Costa em fase de pré-publicação
.
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FOTO ACIMA - 1931 com Guilhermina Suggia e Augusto Suggia no final do ensaio
do meu 1º concerto (Teatro Gil Vicente, Palácio de Cristal, Porto).
FOTO 1 ABAIXO - 1901 Quarteto Moreira de Sá: Bernardo Moreira de Sá (1º
violino), Henrique Carneiro (2º violino), Benjamim Gouveia (viola) e
Guilhermina Suggia.
FOTOS 2 ABAIXO - 1929 Programa de concerto no Wigmore Hall


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maio 23, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - V

No mês de Abril deste ano de 1904 as irmãs Suggia dão um Concerto em Lisboa a favor da Associação das Escolas Móveis pelo método de João de Deus.

No ano seguinte, na estância termal de Carlsbad, Guilhermina encontra-se casualmente com a Rainha D. Maria Pia e com o famoso violoncelista David Popper (1843-1913) que todos os dias se compraz em ir tocar com ela. "Que felicidade eu ter ainda lições com o grande David Popper!" exclama então Suggia, em cujo Álbum ele autografou: "À maior dos violoncelistas vivos, Guilhermina Suggia, do seu velho confrade D. Popper".

De 1904 a 1907, na companhia de sua irmã e colaboradora de sempre, os seus concertos sucederam-se por quase toda a Europa, desde Portugal à Rússia e à Turquia.

Em Itália, o notável pianista e compositor G. Sgambati (l841-l914), discípulo dilecto de Liszt e amigo de Wagner, escreveu estas palavras a propósito dos concertos que em 1907 a nossa compatriota realizou naquele país: "Suggia é superior a Piatti, Popper, Klengel, etc. Nunca ouvi assim tocar violoncelo".
(cedido por A Cunha e Silva)

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maio 19, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo -IV

Aureolada de glória, Suggia regressou a Portugal nesse mesmo ano de 1903, e com sua irmã deu no Porto um concerto para os sócios do "Orpheon Portuense", e em Lisboa outro no Salão da Trindade, em benefício da Assistência Nacional aos Tubercu¬losos, patrocinado pela Rainha D. Amélia.

Afigura-se-me interessante revelar a dedicatória que se lê num velho exemplar da "Elegia" de Fauré, pertencente ao Arquivo Suggia, e que, escrita nessa época pelo conhecido dilettante portuense Dr. Forbes de Magalhães, a seguir se transcreve:

"À insigne violoncellista portuense, Guilhermina Suggia

off."
O seu mais antigo admirador; o primeiro que a ouviu tocar, tendo ella seis annos d 'edade e residindo em Manhufe, próximo da igreja de Mathosinhos; o primeiro que a acompanhou ao piano; o primeiro que com ella tocou um duetto de violoncellos; o que não admira só as suas qualidades artísticas, mas aprecia muito o seu merecimento como muito amiga de seus paes e de sua irmã, outra notável artista,
Porto. 7-2-1904

Forbes de Magalhães

(cedido por A Cunha e Silva)

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maio 12, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - II

Em 1901 a sua ida a Lisboa, constitui um passo decisivo na sua vida, conquistando na Capital os maiores admiradores, entre os quais os membros da Família Real. A Rainha D. Amélia, entusiasmada e magnânima, ao saber que a sua maior ambição era o seu aperfeiçoamento no estrangeiro, promete-lhe uma bolsa de estudo.

Atribuída esta, realiza-se então no Porto, em 4 de Novembro daquele ano, um Concerto de Despedida, no qual G. Suggia executa obras de Chopin, Tchaikowsky, Lalo e ainda, como nota de interesse, Nocturno e Tarantela de Klengel, o compositor--violoncelista e insigne pedagogo que na Alemanha iria ser o seu Mestre. Alguns dias depois acompanhada por seu pai, vai a Vigo, onde embarca para Lípsia, por via Bremen.

Julius Klengel (1859-1933), ao ouvir a nova discípula logo reconheceu nela uma vocação extraordinária e um temperamento excepcional; a sua forte intuição musical bem se revelava na forma como ela cantava os andamentos lentos!

Assim como os antigos davam o nome de diva às grandes cantoras que, como Luísa Todi (o caso de maior celebridade na Arte musical portuguesa) eram especialistas no canto "spianato"— também a Suggia, tal a grandeza sonora e profunda expressividade que imprimia no canto largo, merecia que se lhe desse o nome de deusa.

Não estaria longe o dia de ela se impor como grande Artista...

O primeiro entre os maiores acontecimentos da sua carreira, foi na verdade, a sua apresentação em 1903, na consagrada sala de concertos de Lípsia — o Gewandhaus. Tocou o Concerto de Volkmann, acompanhada por orquestra sob a direcção do genial Artur Nikisch (1885-1922).

Uma apoteose sem precedentes veio coroar a interpretação fascinante daquela jovem portuguesa com dezoito anos ainda incompletos!

(Cedido por A. Cunha e Silva)

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maio 10, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, Por Carlos Figueiredo - I

Não se improvisa, o Artista nasce feito. Assim tal qual. Seja homem ou mulher, Ensimesmado, inquieto, insatisfeito, O Artista nasce quando Deus o quer.
Jorge Condeixa

Guilhermina Suggia, vulto genial entre os músicos portugueses, foi no firmamento da Arte interpretativa um astro de primeira grandeza.
Filha de portugueses, mas de ascendência espanhola e italiana pelo lado paterno (Medim Suggia) nasceu em 27 de Junho de 1885 no Porto, na freguesia de S. Nicolau. Veio a este mundo numa modesta e acolhedora casa da Rua de Ferreira Borges, prédio que mais tarde teve que ser demolido em obediência a novos traçados urbanísticos.

Seu pai, Augusto Suggia, natural de Lisboa, onde depois de frequentar o Conservatório, foi violoncelista do "Real Teatro de S. Carlos", e que, a convite da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos, veio a exercer as funções de professor de música nas Escolas desta vila, iniciou-a no estudo da música, tendo ela apenas cinco anos, para logo a fazer dedilhar, como quem brinca, nas cordas dum pequenino violoncelo, instrumento propositadamente mandado vir de Paris.

Nesta altura, a família Suggia morava em Matosinhos, sendo de crer que na Rua do Godinho, conforme reza a própria certidão de nascimento de Guilhermina, que aos seis anos foi a baptizar-se na igreja de Santo lldefonso, no Porto.

Augusto Suggia, como bom pedagogo e conhecedor das belas qualidades latentes de sua filha, em breve lhe proporcionou o primeiro contacto com o público, como colaboradora num concerto realizado no "Grémio de Matosinhos" acompanhada ao piano por sua irmã Virgínia, um pouco mais velha, devendo-se a sua apresentação a Guilherme Ferraz, figura local de grande prestígio.

É portanto em Matosinhos que em 1892, com sete anos de idade, Guilhermina Suggia ensaia os primeiros voos da sua trajectória ascensional de Artista.

Durante alguns anos G. Suggia toma parte em muitos concertos efectuados não só em Matosinhos, (um programa dos quais aqui se reproduz em fac-simite), como em Leça, na Foz do Douro e no Porto, quase exclusivamente para o "Orpheon Portuense".

Entretanto será curioso recordar que na época balnear de 1898 foi contratado para o Café de Espinho um violoncelista catalão de 21 anos, que rapidamente se fez notar pelo seu invulgar talento: Pablo Casals.

Atraído por essa fama, Augusto Suggia levou sua filha a receber dele as proveitosas lições que a ajudariam a progredir.
(Cedido por A. Cunha e Silva)

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maio 03, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, por ANITA MERCIER - VII

Infelizmente Suggia não gostava de gravar discos. Deixou apenas três e a maior parte do reportório em que era mais conhecida nunca foi gravada.
Em 1988 a EMI lançou uma compilação de gravações antigas, que contudo não representa o melhor de Suggia. Ao que parece, não existem gravações das suas numerosas actuações para a BBC. Dependemos do relato de colegas ou ouvintes dos seus recitais para formarmos uma ideia de como tocava. Estas fontes não deixam dúvidas: a mestria musical de Suggia era soberana. Ao longo da sua carreira, Suggia foi louvada pela sua técnica sem falha, o absoluto controlo do arco, a subtileza do fraseado, a riqueza do timbre, a sensibilidade das interpretações.

Algumas fontes sustentavam que as suas interpretações perdiam em poder pela forma deficiente como manejava o arco. É possível que tal opinião tenha sido posta a circular por Feuermann, que era um seu concorrente assumido e considerava Suggia uma “intérprete de sala de estar”. Mas é desmentida por múltiplos relatos de imprensa sobre os seus concertos. Numa época em que o maior elogio que uma mulher poderia receber era que “tocava como um homem”, não há dúvida de que Suggia tinha capacidade para se afirmar entre intérpretes dos dois sexos. O violoncelista com quem mais vezes foi comparada era Casals.

Suggia tocou a maior parte do reportório popular no seu tempo, incluindo os concertos de Haydn, Dvorak, Saint-Saëns, Lalo, Schumann e Elgar. Quanto a Delius, cedeu-o a Beatrice Harrison. Os seus programas incluíam regularmente sonatas de Sammartini, Brahms, Beethoven, Locatelli, Franck, Rachmaninov e Debussy. Alguns violoncelistas deixaram-se intimidar pelo incontestável.

Domínio das suites de Bach por Casals e não as tocavam por isso, mas Suggia tocou com frequência algumas das suites. Além do Stradivarius, possuía um Montagnana e um Lockey Hill; reconhecidamente ciosa dos seus violoncelos não admitia que colocassem flores no palco onde tocava, com receio de que a humidade pudesse danificar os instrumentos.

Suggia era claramente uma solista; raramente tocava em conjuntos de câmara. Por um curto período, em 1914, integrou um trio com Fanny Davies e Jelly d’Arányi e a irmã desta, Adila Fachiri, e com a violinista e compositora Rebecca Clarke, que lhe dedicou uma peça para violoncelo e piano. O acompanhante musical mais frequente de Suggia foi George Reeves.
Ocasionalmente, participou em recitais com outros artistas como Arthur Rubinstein e Wilhelm Backhaus. Entre os maestros com os quais trabalhou contam-se Hamilton Hardy, Adrian Boult, Henry Wood e Pedro de Freitas Branco, da Orquestra Sinfónica portuguesa. Tinha uma relação de especial proximidade com Malcolm Sargent, que dirigiu a Sinfónica de Londres num concerto memorial, após a sua morte. Zara Nelsova, que tivera um contacto com Suggia e fora muito inspirada por ela, participou também nesse concerto.

É possível que permaneçam para sempre envoltos em mistério alguns aspectos da vida pouco convencional de Suggia, mas isso não é importante. O que, sim, importa é a marca deixada por Suggia na história da música. A atribuição anual do Prémio Suggia é ocasião para evocar a carreira extraordinária de uma grande intérprete e o seu compromisso generoso para com os violoncelistas do futuro.

(ANITA MERCIER está a escrever uma biografia de GUILHERMINA SUGGIA. Se possuir alguma informação relevante, por favor envie-a para o seguinte endereço: amercier@juilliard.edu )


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maio 01, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, por ANITA MERCIER - VI

Suggia vivia em Londres quando as “suffragettes” lutavam na rua pelos direitos das mulheres. A sua opinião sobre o feminismo não é conhecida, mas ela foi certamente uma feminista pelo exemplo. Casals provou que o violoncelo podia ser um instrumento de eleição para um solista. Suggia provou que as mulheres podiam ser violoncelistas solistas em igualdade com os homens.

Outras violoncelistas da geração de Suggia deixaram a sua marca – em especial, Beatrice Harrison e May Muckle -, mas Suggia foi especialmente bem sucedida em conciliar duas qualidades com as quais muitas intérpretes mulheres ainda hoje se debatem: ser atraente e ser levada a sério como artista. No artigo que publicou em THE STRAD a propósito da morte de Suggia, Millie Stanfield salientou este ponto: “Ela provou, pelo próprio exemplo, que o violoncelo podia conferir elegância a uma mulher tal como a um homem e produzir uma música tão forte e tão viril”.
(tradução de Luís Lopes)

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abril 28, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, por ANITA MERCIER - V

Malcolm Sargent enviou um dia um presente a Suggia com a seguinte nota: “Com todo o meu afecto e simpatia. Por favor, nunca se apresse: as rainhas podem esperar pelas Suggias!”.

É difícil penetrar o verdadeiro carácter da mulher que inspirou esta devoção. É certo que, em público, Suggia se esforçou sempre por cultivar uma imagem glamorosa e excessiva.

Vestia-se de forma magnífica e tinha gostos luxuosos. Contava entre os seus amigos aristocratas e escritores. Imperiosa e segura de si, jamais duvidou do seu destino de grande artista. Tem sido por vezes descrita – em especial, por pessoas ligadas a Casals – como imprevisível, caprichosa e susceptível.

Por outro lado, George Moore, que acompanhou Suggia em vários recitais ao longo dos anos 1930, negou que ela fosse uma “prima donna” temperamental; seria, pelo contrário, uma personalidade equilibrada. Também Litton Strachey a descreve como despretensiosa e alegre, por vezes quase juvenil.

Outros dizem que era generosa para com os amigos e colaboradores, paciente e conscienciosa para com os estudantes. Muitas das cartas que deixou testemunham um sentido de humor brincalhão. Suggia tinha muitos interesses à margem da música.
Era uma mulher desportiva: o ténis, a pesca, a vela e o remo eram os seus passatempos favoritos. Tinha uma aptidão natural para as línguas e era uma leitora voraz. Dominando o inglês coloquial, publicou vários artigos na imprensa britânica, incluindo ensaios sobre o cantor russo Fyodor Chaliapine e o D. Quixote de Cervantes. Por detrás da imagem de diva vivia uma mulher inteligente, calorosa e multifacetada que dificilmente se deixa catalogar.

(tradução de Luís Lopes)

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abril 24, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, POR ANITA MERCIER - III

Em 1919 Suggia tornou-se noiva de Edward Hudson, um rico editor britânico. Hudson era consideravelmente mais velho e pessoalmente pouco estimulante, mas possuía algumas propriedades interessantes: uma residência na zona prestigiosa de Queen Anne’s Gate e Lindisfarme, um castelo do séc XVI ao largo da costa de Nortúmbria. Ofereceu-lhe também um violoncelo Stradivarius de 1717, que Suggia manteve após ter anulado o projecto de casamento por razões que desconhecemos.

O casamento com o Dr. Carteado Mena teve lugar quando ela tinha 42 anos, no limite da idade fértil, e já com uma carreira sólida. Parece ter-se tratado de um casamento de conveniência: Carteado Mena era o médico pessoal da idosa mãe de Suggia e o procurador da artista nas suas ausências do Porto.
O casamento foi anunciado na imprensa britânica em Dezembro de 1925, com fotos de Suggia em vestido de noiva. Mas só se concretizou realmente em 27 de Agosto de 1927, no Porto.

Desconhece-se as razões pelas quais Suggia se terá assumido como casada mais de dois anos antes do casamento real (mas não era a primeira vez que ela assumia publicamente um estado civil que não correspondia à realidade). Esta atitude sugere que Suggia terá conduzido por esta altura – meados dos anos 20 – uma vida dupla. Mantinha residência em Londres e no Porto. Nesta última cidade, que ela amava profundamente e sempre considerou a sua cidade natal, viviam os pais, totalmente dependentes dela dos pontos de vista financeiro e afectivo; um marido era útil face aos constrangimentos burgueses e à falta de privacidade numa pequena cidade. Londres, onde vivia durante a temporada dos concertos, oferecia-lhe liberdade, amigos cosmopolitas e a excitação do palco.

Com esta vida dupla, Suggia logrou um equilíbrio entre, por um lado, a fidelidade às raízes e a responsabilidade para com as necessidades dos pais e, por outro, a sua sede de uma existência mais aventurosa. Resta saber se esta solução de compromisso lhe trouxe verdadeira felicidade. As fotos do casamento forjadas sugerem um grande esforço da sua parte por ocultar a sua verdadeira vida. Podemos imaginar a inquietação por detrás da máscara.
Quando tais fotos foram publicadas, Suggia encontrava-se no auge da sua fama.
(tradução de Luís Lopes)

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abril 22, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, por ANITA MERCIER -II

A estes factos essenciais contrapõem-se não poucos boatos, mistérios e mitos que dariam para encher um fosso de orquestra. Suggia era uma mulher brilhante, carismática e enigmática. Suscitava as atenções, com um instinto nato de cena.
Era inevitável que se falasse dela, mas a própria nunca se preocupou em corrigir as histórias que corriam.

São muitas as histórias e as afirmações sobre Suggia, que vão do altamente duvidoso ao comprovadamente falso. Dizia-se que hipnotizava os homens “do alto do palco”; que Casals alimentava um ciúme doentio e lhe escondia o violoncelo como castigo pelas atenções que ela prodigalizava a outros homens. Conta-se que terá surpreendido Suggia em flagrante delito com Donald Tovey e o terá expulso de casa sob a ameaça de uma pistola.

Também se conta que Suggia e John mantiveram uma relação, da qual terá nascido a violoncelista Amaryllis Fleming.
Até há pouco tempo, acreditou-se erradamente que Suggia nascera em 1888, mas a escritora portuguesa Fátima Pombo localizou uma cópia da sua certidão de nascimento que indica o ano de 1885.

De todo o modo a vida da violoncelista foi tão extraordinária que dispensa histórias imaginadas.

Desde a juventude que se afirmou como uma mulher livre e determinada, algo raro entre as mulheres do seu tempo. O pai acompanhou-a a Leipzig, mas, após ter deixado o conservatório, passou a viajar sozinha, ou acompanhada pela irmã, nas suas tournées. Aos 18 anos já assumira o estatuto de principal esteio económico da família, dirigindo sempre com firmeza os aspectos económicos da sua vida. Possuidora de uma autoridade natural, raramente deixou que lhe cerceassem a independência, mesmo quando tal significava pôr em causa as convenções.

A relação de Suggia com os homens é o que melhor ilustra esta faceta. Nos primeiros anos do século XX considerava-se natural que as mulheres renunciassem a quaisquer veleidades de carreira após o casamento, mas Suggia determinou a sua carreira e a sua vida amorosa como bem entendeu. Identificava-se a si mesma como “ Guilhermina Suggia-Casals” e, na correspondência com familiares e amigos, os dois referiam-se um ao outro como marido e mulher. O casal tocou frequentemente em duo, tendo-lhes sido dedicadas duas peças para dois violoncelos: um concerto de Emmanuel Móor e uma sonata de Tovey. Mas a associação não foi, afinal, feliz.

A situação de Suggia era particularmente incómoda: Casals era mais velho nove anos, fora seu professor, era colega de profissão e, implicitamente, um concorrente. Ambos tinham uma personalidade forte e dominadora. Era talento e ambição a mais sob o mesmo tecto. Após a ruptura, Casals jamais se referirá em público à relação.
Em privado dirá que fora um dos episódios mais cruéis e infelizes da sua vida. Quanto a Suggia, referia-se a Casals com respeito e deferência, mas negava (sem razão) que ele alguma vez tivesse sido seu professor.

(tradução de Luís Lopes)

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abril 20, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, por ANITA MERCIER *- I

(O retrato pintado por Augustus John provocou um escândalo - um dos vários suscitados pela carismática violoncelista GUILHERMINA SUGGIA. Anita Mercier escreve sobre a vida de uma intérprete musical nata.)

Todos os anos pelo Outono, são dezenas os jovens músicos que se reúnem no Wigmore Hall de Londres, em competição por um dos galardões mais prestigiosos do mundo do violoncelo, o PRÉMIO SUGGIA.

O prémio tem origem num legado testamentário da violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia, falecida em 1950, que instituiu um fundo para bolsas de estudo. Suggia foi uma das instrumentistas mais famosas do seu tempo. Quem foi a mulher que deu o nome ao prémio? A resposta não é simples, já que, no caso de Suggia, vida e lenda se sobrepõem.

Os factos essenciais da vida de Suggia são conhecidos. Nascida em 1885 no Porto, numa família da classe média com gostos musicais (o pai era violoncelista e a irmã mais velha pianista), Suggia começou a tocar violoncelo aos cinco anos. Como criança prodígio, ganhou fama no Porto e estudou algum tempo com Pablo Casals antes de obter, aos 16 anos, uma bolsa de estudo para o Conservatório de Leipzig, onde estudaria com Julius Klengel e teria como condiscípulos, entre outros, Emanuel Feurmann, Gregor Piatigorsky e William Pleeth. Em 1903 tocou com êxito o seu concerto de graduação no Gewendhaus de Leipzig passando os anos seguintes a actuar em toda a Europa até que se estabeleceu em Paris em 1906, com Casals. Os dois passam a viver como marido e mulher, embora nunca se tivessem casado, e acabaram por se separar em 1913.

Em 1914, Suggia trocou Paris por Londres, onde a sua reputação cresceu rapidamente. No início da década de 1920 era já uma figura prestigiada da cena musical britânica, continuando também a tocar em Portugal e Espanha.
Foi em 1923 que Augustus John pintou o seu célebre retrato.
Em 1927, casou-se com o Dr. José Carteado Mena e iniciou uma vida confortável entre o Porto e Londres. Ao longo da década de 1930 continuou a tocar e participar em concertos difundidos pela BBC.
Os anos de guerra retiveram-na em Portugal onde se consagrou sobretudo ao ensino. De 1949 é a sua aparição final no Festival de Edimburgo – um triunfo. Suggia morreu no Porto em 1950.

*ANITA MERCIER é professora na Juilliard School de Nova York e escreve neste momento uma biografia de Guilhermina Suggia

(tradução de Luís Lopes)

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abril 18, 2005

A MULHER E A ARTISTA EM GUILHERMINA SUGGIA, de Ápio Garcia - VI

HONRA não só da Nação que lhe foi berço, mas também do mundo internacional da música, o nome de Guilhermina Suggia ficou gravado a letras inalteráveis ao tempo e ao critério humano, no álbum imenso da antologia dos mais indiscutíveis nomes do estrelato da música!

Os maiores da Terra renderam o seu tributo de valor à espiritualidade sublime dos textos musicais que ressoam sob o arco triunfal que seus dedos esguios seguram nervosamente.

Os mais argutos e idóneos críticos da arte de Apoio decidiram a sua unanimidade quanto à projecção do seu valor no panorama geral do quadro dos executantes de todo o universo.
Definiu-lhe o valor a sua carreira de anos seguidos ao serviço da proclamação do seu talento nato e exclusivo.

Originária de uma Pátria célebre na história política, Suggia é intérprete, através da projecção do valor do seu nome, de uma modalidade única na história da música.
Nome proclamado pelas sete partidas do mundo como a primacial intérprete da melodiosa sonância do violoncelo no mundo actual, tem sido a verdadeira embaixatriz de uma arte contrária aos ventos das preferências da moderna geração, levando-a junto do escol que, devidamente, a aprecia.
Propagandista de textos clássicos esta “globe-'trotter” vincou, de uma maneira, sobremodo excepcional, os mais belos textos da pauta que os Beethoven e os Mozart legaram, para sempre, ao mundo.

Por tudo isto, o seu nome aliado à acção do seu poder integralmente ressuscitador, transpôs já as barreiras do presente porque o nome de Guilhermina Suggia passou o limiar da História com uma das mais belas páginas escritas no álbum dos vultos imorredoiros dos mais consagrados executantes do mundo!

ÁPIO GARCIA

(Cedido por João Pedro Santos)

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abril 15, 2005

A MULHER E A ARTISTA EM GUILHERMINA SUGGIA, de Ápio Garcia - V

TRABALHANDO continuamente, apesar de ser considerada a maior das violoncelistas do mundo, Guilhermina Suggia jamais deixou de injustamente supor que ainda precisa de estudar!
Ela própria quando, perante as maiores ovações da mais selecta das assistências, recebe aplausos e flores, não aceita, intimamente, tais aplausos.
É que, não ficando de bem consigo mesma quanto à qualidade da execução, não lhe importa a vibrante aclamação das plateias.

Porém, quando os considera inteiramente merecidos, a grande concertista vibra de entusiasmo e faz-se espectadora no aspecto material de tais aplausos.
E agora perguntamos nós que distância irá entre estes dois aspectos de conceito e razão de avaliação de tão suprema arte!

(Cecido por João Pedro Santos)

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abril 13, 2005

A MULHER E A ARTISTA EM GUILHERMINA SUGGIA, de Ápio Garcia - IV

O escritor Havelsch Ellies chamou-lhe “figura egípcia de cabelos soltos sobre os ombros, amplas roupagens de variegadas cores, um meigo sorriso nos lábios muito finos e uma grave tristeza no olhar magoado...» expressões que Augustus John —o «retratista» inglês mais conceituado no mundo contemporâneo expôs para sempre na «Tate Gallery».

No seu "retiro espiritual" da Rua da Alegria, do Porto, lá está a reprodução fotográfica desse maravilhoso quadro que um multimilionário chamado Lord Deween, adquiriu por extraordinário preço para ficar pertença do Estado.

A sua elegância física, o ar de distinção e a voz cadenciada e de bom timbre não olvidaram os dedos afusados exigidos no seu mister de arquitecta de sons que não mais deixaram de fazer parte das mais gratas reminiscências dos bons amadores de concertos. Com uma preferência definida e assente pela música dos séculos XVII e XVIII, apreciando de uma forma especial o génio de Bach e Beethoven, seguidos, bastante além, por Haydn, Schumann, Schubert, Brahms, a eminente violoncelista não deixa de ouvir com a devida apreciação, a música moderna.

É-lhe aceitável, mercê do sentido trepidantemente que representa, colocando-se como símbolo subjectivo da vida da hora que passa.
Espírito dotado de belos sentimentos de solidariedade mais que uma vez postos em alta evidência através da aquiescência da sua colaboração desde que D. Amélia de Orleans e Bragança lhe solicitava tocasse em benefício dos próprios doentes, encarna, simultaneamente, a devota do lar que estima o rigoroso arrumo das mais pequenas coisas.
A sua casa — talvez mais rigorosamente o seu museu de caras preciosidades domésticas — constitui o protótipo de uma galeria em que a arte e o etéreo se dão as mãos numa conjunção de harmonia e de inacreditável poesia.
Desde os quadros espalhados pelas paredes até aos mais caros tapetes orientais, a tebaida da artista mais proclamada do mundo abriga com rara propriedade o seu labor.
Acerca, ainda, da vida íntima, confidenciou:
“Os artistas devem conviver apenas, como artistas que são, no mundo espiritual da Arte, Eu, que sempre me interessei por questões de medicina, casei-me com um médico — que, por ventura minha, é um apaixonado admirador de arte musical. Deste modo, na intimidade do nosso lar, podemos trocar sempre impressões que deleitam o nosso espírito sem ficarmos apenas limitados à monotonia dum tema único. Por isso mesmo considero-me invejavelmente feliz».

Mas Guilhermina Suggia não esquece que é uma mulher do presente século: guia automóvel, joga ténis, pratica a natação e rema.

A intérprete maravilhosa de Bach e Beethoven, considerada pelo também grande artista catalão Pablo Casais a maior violoncelista do mundo, não encarna bem aquele tipo de mulher que os ignorados biógrafos pretendem: — de que nem sempre a sua atenção se prende com pequenos pormenores da vida quotidiana.

É o caso do Sandy, um exemplar canino de rara estimação. Tinha, por esse animal, uma extraordinária admiração Ela própria confessava que, pelas atitudes que tomava quando ela tocava, parecia compreender a sua arte!
Confessou que, no dia em que se viu privada da sua companhia, teve o maior desgosto da sua vida!
A propósito de entrevistas concedidas à Imprensa, Guilhermina Suggia, disse:
“Há um certo fundamento de verdade nisso que dizem a meu respeito. Tenho evitado, mui¬tas vezes, a concessão de entrevistas para os jornais ou revistas, tanto nacionais como estran¬geiros. Receio sempre possíveis complicações, embora eu seja a primeira pessoa a concordar com a necessidade de confidenciar a alguém os lances mais emotivos e ainda inéditos das memórias da minha vida de artista. A Imprensa mereceu-me sempre a mais alta consideração e tenho pêlos jornalistas a mais devotada simpatia. Não me esqueço, nem me esqueci nunca, das atenções que lhes devo e do carinhoso estimulo com que acarinharam os primeiros sucessos da minha carreira, quando eu era ainda e apenas uma menina-prodígio.Quantas vezes recordo os bons conselhos dos críticos de Arte desse tempo, desde o Arroio ao bondoso Pai Ramos. Esses ficaram, para sempre, na minha enternecida gratidão.

Certo dia, ao chegar a uma localidade do interior da Inglaterra, onde devia participar num concerto, fui abordada, logo que me apeei do comboio, por um repórter dum jornal que, à viva força pretendia que eu lhe concedesse ali mesmo uma breve entrevista. Não pude atendê-lo, não só por não saber o que deveria dizer-lhe e sobretudo pela circunstância de ser então a vez primeira que eu visitava aquela localidade. Desculpei-me conforme pude. No dia seguinte o referido jornal publicava uma falsa entrevista comigo, afirmando-se que eu dissera que o público inglês da província não sabia apreciar devidamente a boa música. Tive apenas conhecimento do sucedido já quando me encontrava no salão de concertos. Reparei, então, que alguns espectadores tinham aberto na sua frente o referido número daquele jornal, como se lessem atentamente a minha depreciativa referência à sua cultura musical. Houve quem me aconselhasse a justificar-me perante o auditório, mas eu preferi manter-me em silêncio, depois de meditar no avisado conceito daquele aforismo francês: «Quem muito se desculpa, compromete-se».
Concentrei em mim a mágoa desse desgosto que me pungiu deveras, E quando comecei a tocar, o violoncelo falou por mim a todos quantos me escutavam. Quando acabei, a assistência quase delirou no entusiasmo duma manifestação de apoteose — que eu agradeci, de lágrimas nos olhos.
Não mais esqueci esses aplausos e essas aclamações, assim como não esqueci nunca o imprudente e ousado repórter que, tão malevolamente, me colocara, numa situação delicada perante um público que apenas me conhecia de nome.

Desde, então, evitei sempre que uma dessas cenas pudesse vir a repetir-se.
Mas, como vê, a culpa não foi minha...»

(Cedido por João Pedro Santos)

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abril 11, 2005

A MULHER E A ARTISTA EM GUILHERMINA SUGGIA - de Ápio Garcia - III

NUNCA, em Gewandhaus — a maior e mais consagrada sala de concertos da Alemanha —, se havia aberto a única excepção de tocar artista de idade tão jovem, ao mesmo tempo como executante.
Tocar em Gewandhaus era atingir o zénite da mais inatingível das glórias. Só os maiores nomes do universo musical lá poderiam chegar. Com muita propriedade uma cronista chegara a afirmar: “0 estrado é considerado um verdadeiro altar !”

Rompendo todos os justos e estipulados preconceitos, a violoncelista portuguesa executa, nessa noite, o concerto de Volkmann.
Toda a sua interpretação atingira as raias do delírio. Os aplausos demorados e acentuadamente sonoros, cingiram de maneira especial a fronte da grande intérprete da arte da pauta.

Nikisch, contra todas as razões que presidiam ao regulamento, consente na sua repetição e poderia, depois, constituir extra-programa no final da segunda parte.

São da executante estas palavras: «Os aplausos e aclamações que então me dispensaram ficaram para sempre nos meus ouvidos, na minha memória e no meu coração...»

É por esta altura, e após o estrondoso êxito de Leipzig, que Guilhermina Suggia, peregrina por todo o continente europeu, demonstrando a sua inultrapassável Arte.

Ouviram-na, então, Espanha, França, Alemanha, Áustria, Rússia, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Escandinávia, Itália, Suíça, Checoeslováquia, Turquia e Polónia. A sua arte incomparável entrara pelos seus dedos afilados em residências de reis e presidentes, ao lado de outros vultos em destaque no mundo da política, da sociedade e da própria Arte.

Homens de Estado, da mais alta linhagem nobiliárquica, capacidades da ciência, da literatura e da cultura, entabularam conhecimento espiritual com a magia dos sons que só as suas mãos sabiam produzir!

E olhando-a — como a surpreendeu o escritor ensaísta Havelsch Ellies em “Impressions and Coments», quando a viu tocar, nesse dia, em Manchester — parece-nos vê-la encadernada na sua elegância e distinção peculiar perante o estupefacto dos mais celebrados vultos.

Desde o início destas excursões artísticas através de toda a Europa o seu inigualável talento jamais deixou de marcar a sua insubstituível presença.
Desde o sublime clima austero da Corte Imperial de Sua Majestade Britânica até à residência de fausto do antigo Czar de todas as Rússias, Guilhermina Suggia estava presente nas mais inolvidáveis horas de arte.

Porque “quem a ouvisse tocar, jamais a esqueceria — como se no seu violoncelo vibrasse o magoado e irresistível encanto de uma nova lira de Orfeu, na sedução de Eurídice através de tenebrosas paragens dos ciclos infernais…» — não deixaram de ecoar dois casos verdadeiramente invulgares que caracterizam o alto interesse que a eminência de sua arte provocava nos maiores espíritos.

É bem conhecido o caso anti-musical de Austen Chamberlain. A sua presença jamais foi notada, assistindo com interesse, à execução de qualquer música pelo mais discutido vulto. Era, pois, certo e sabido que, poucos minutos após qualquer concertista ter dado início à execução do trecho musical mais belo, Chamberlain bocejava... de enfado.

Foram abertas, porém, duas excepções a tão rigorosa regra.
A primeira, quando ouvia o famoso cantor inglês de melodiosa voz, Gervasius Cary Elwes; a segunda ao ouvir a eminente violoncelista num Recital de Arte !
Esta asseveração foi documentada pelo próprio punho de Chamberlain em carta enviada à viúva do ilustre cantor, de que, aliás, o mundo tomou conhecimento através do livro de «Memórias».
Não fica, porém, por aqui a exemplificação de quanto prendia a maviosidade da execução de Guilhermina Suggia.

O ministro britânico Balfour, ouvia-a, na época da outra grande guerra, na chamada intimidade de um recital que reunia todo o elemento aristocrático da Grã-Bretanha.
E, quando, no decorrer da execução da Suite de Bach, um secretário particular vem e lhe segreda qualquer coisa, este mandou retirar o emissário de extraordinárias ordens, continuando a ouvir os acordes do violoncelo.
A executante notara que algo de extraordinário se estava passando na história política da Inglaterra.

Logo que acabou de executar a Suite, Guilhermina Suggia, permitiu-se chamar a atenção do ilustre ministro, alegando que deveria deixar de a ouvir para atender ordens inadiáveis.

Balfour limitou-se a responder: Seria um crime imperdoável tê-la obrigado a interromper o seu Concerto, Fiquei maravilhado e parece-me que a sua interpretação me inspirou providencialmente para eu poder resolver um problema que se considera insolúvel...»


(Cedido por João Pedro Santos)

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abril 08, 2005

A MULHER E A ARTISTA EM GUILHERMINA SUGGIA- Ápio Garcia - II

«O violoncelo é, para mim, o instrumento que melhor reproduz o angustiado lamento da voz humana ou a expressão triunfal dum cântico vitorioso de resgate e de amor».
(GUILHERMINA SUGG1A)

Quem hoje, passar na Rua Ferreira Borges, da capital do norte, não lhe é, já, dado ver a modesta casa onde Guilhermina Suggia — a maior violoncelista do mundo — viu a luz da vida. A picareta aconselhada a ser posta em prática ao serviço das recentes leis da urbanização encarregou-se de, impiedosamente, a demolir para sempre. Fora essa a moradia escolhida por seu pai — violoncelista também — Augusto Suggia, quando, após a sua acção didáctica no Conservatório de Música de Lisboa, viera residir para o Porto.

O pai de Guilhermina Suggia vivia para a música, através da directriz imposta pelo seu próprio destino.

O talento acentuadamente extemporâneo de Guilhermina constituía indizível e duplo prazer paternal ao ver que, nas prometedoras mãos daquela «menina prodígio» estava entregue a sucessão artística dos Suggia. Disso não restava a menor dúvida e, precisamente, por não achar infrutíferas as lições ministradas ao talento que começava a evidenciar-se, o conceituado professor não desistia do seu intento de internar na difícil carreira musical o espírito dessa Verdadeira promessa que estava recebendo já o influxo de tão magistrais lições.

E, apenas com sete anos de idade, evidenciou, publicamente, a sua rara vocação no salão de festas do antigo Clube da vila piscatória de Matosinhos.
A estreia fora auspiciosa e a assistência, ao retirar, concordou, unanimemente, tratar-se de uma revelação sem precedentes na história nacional da música.

Aquela noite de Matosinhos havia constituindo — e sem o saber — a chave de abertura das mais extraordinárias noites que é possível tributar-se aos grandes génios!

(Cedido por João Pedro Santos)

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abril 07, 2005

A MULHER E A ARTISTA EM GUILHERMINA SUGGIA- de Ápio Garcia -I

NOTA DE ABERTURA
Por mais que procurasse nos arquivos de música e bibliotecas oficiais e privadas, nada encontrei, em forma definitiva, que me elucidasse acerca dessa gigantesca figura nacional, Guilhermina Suggia. Abordei, entretanto, algumas personalidades mais ou menos relacionadas com a vida musical e nenhuma informação concreta puderam fornecer-me além do que é sabido de quase toda a gente, sem esquecer que muitos deles primavam em ignorar a sua própria nacionalidade l

Muitos outros a tinham ouvido em concertos que os «vagos» informadores, apesar de tudo, se permitiam classificar de magistrais, mas certo é também que chegavam a desconhecer que ela nasceu e vive, desde há anos, na Rua da Alegria, do Porto.

Dava-se o caso — infeliz caso este que ainda perdura no momento em que escrevo estas linhas — de Guilhermina Suggia se encontrar retida no leito em convales¬cença própria do seu mal-estar que se sucedeu à inter¬venção cirúrgica que, ainda há dias, teve lugar em Londres, local do mundo que mais carinhosamente a aplaudiu.

Não podia, portanto, ser recebido pela sua habitual e característica amabilidade. O seu médico assistente, Prof. Dr. Álvaro Rodrigues, dera ordens terminantes sobre o aspecto das visitas e eu vi-me privado de lhe ouvir algumas confidências cuja presença, aqui, se tornavam absolutamente necessárias.

Passei, então, pelas redacções da imprensa para ouvir alguns dos jornalistas que a entrevistaram, desfazendo, assim, aquela má impressão que tomou foros de célebre de que Guilhermina Suggia não dava entrevistas...
Porém, ninguém melhor do que o jornalista Marques da Cunha o desmentiu através de uma entrevista publicada há mais de sete anos e que, a meu ver, é a única reportagem idónea e completa que, sobre ela, tem descido à praça pública.

Não existe ainda a sua biografia nem os próprios dicionários musicais inserem as mais breves referências a seu respeito, por se tratar, ainda, de uma figura da presente época.

«A Mulher e a Artista em Guilhermina Suggia» é, pois, quando muito, uma pequena síntese sobre alguns aspectos da sua personalidade e destina-se, por isso, a desfazer um pouco o denso véu que envolve o seu nome na terra em que, em boa hora, nasceu.
Está dado o primeiro passo; os biógrafos musicais se encarregarão do resto.
Porto, 29 de Julho de 1950
O AUTOR

(Cedido por João Pedro Santos)

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abril 01, 2005

À MAIOR DOS VIOLONCELISTAS VIVOS, GUILHERMINA SUGGIA...

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Em Karlsbad em Julho de 1905 encontra o velho mestre checo David Popper (1843-1913) que escreve no álbum em que Suggia colecionava autógrafos: «À maior dos violoncelistas vivos, Guilhermina Suggia, do seu velho confrade David Popper».
Mas, deste encontro o que ela relata em 16 de Julho de 1905 a Guilherme Leite de Faria (um amigo da família, em Matosinhos) é outra coisa:
«Pense o meu bom amigo que tive a felicidade de encontrar aqui o grande David Popper e apprendo immenso com este mestre. Popper toca ainda sublime, encantador.Sua amiga leal»

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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março 08, 2005

TESTEMUNHO DE FRANÇOIS BROOS

Guilhermina Suggia era uma grande violoncelista. Sobretudo uma enorme Artista. Enorme intérprete. O que eu gosto mais é da interpretação do Artista. A técnica faz muita falta. Há músicos que têm uma técnica estupenda mas sem musicalidade. E a musicalidade faz falta. Era isso que Suggia tinha: Grande técnica e enorme musicalidade. Expressão extraordinária. Um bocado teatral. Mas era o temperamento dela. Gostei muito de trabalhar com ela. E a amizade! Tínhamos uma enorme amizade . que posso dizer mais de Suggia?! Ela fez alguns bons alunos também. Mas Suggia para mim era... Já não há. Já não há. Há grandes violoncelistas. Há uma grande escola de violoncelistas, mas nada faz esquecer Suggia. Era também uma grande personalidade. Muito culta!
De Suggia não posso dizer nada mais. Só posso dizer que tive por ela toda a minha admiração

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outubro 22, 2004

GUILHERMINA SUGGIA-GRANDE NA VIDA E NA MORTE ( 4ª e ÚLTIMA PARTE DO DISCURSO)

O interesse de Guilhermina Suggia pela obra cultural e artística da Universidade motivou que nos últimos anos mais de perto com ela convivêssemos. Grande prazer espiritual? Sem dúvida. Mas isso levou-nos a assistir, magoados, aos estragos de uma doença que em curtos meses a entregou à morte.

Havia um ano, talvez, que Suggia se vinha queixando e nos derradeiros meses intensificaram-se os sintomas: dores, fastio, emagrecimento. Em Londres consultou médicos e tirou radiografias. O diagnóstico certo a que chegaram — se a algum chegaram — ignoro. Sei que não lhe falaram em operação. E foi pena.
Desta sua estada em Londres conheço mais pormenores pela carta, de 25 de Outubro, do Dr. Bártolo do Vale Pereira que a visitou, a meu pedido, em casa de Mrs Melville, onde se hospedara. Tenho essa carta diante de mim. Primeiro, são as gratíssimas impressões que lhe ficaram da demorada visita a D. Guilhermina Suggia, com quem falava pela primeira vez e que o recebeu gentilmente. Em seguida, vêm as impressões do concerto em Bournemouth.

Depois de se referir à cidade, entra na descrição do festival que se realizou para comemorar o 57.° aniversário da criação da Orquestra Sinfónica, nessa noite regida por Rudolf Schwarz. À abertura do Egmont de Beethoven, seguiu-se a Suite n.° 3 de Gordon Iacob que estava na sala a assistir à execução da sua obra. Como terceiro número, figurava no programa o Concerto, Op. 20, de Eugène d' Albert. É então que sobe ao estrado a nossa grande Artista que ouviu uma extraordinária ovação. E Bártolo do Vale Pereira remata os seus comentários com esta frase: "Enfim, não há a menor dúvida que foi um grande triunfo para ela, e para mim uma noite memorável".
Foi essa a última vez que Suggia tocou na Inglaterra que a adorava. A penúltima fora, meses antes, nos grandiosos festivais de Edimburgo.

Uma vez em Portugal, aumentaram as preocupações com o seu estado. Assaltou-a uma suspeita terrível. Nas vésperas do último concerto, adiado já por motivo da sua doença, Guilhermina Suggia mostrou-me claramente as suas apreensões. Bem entendi que a Artista fizera o diagnóstico do mal.
Álvaro Rodrigues, que então a viu, a pedido do colega Castro Henriques que sempre tão dedicado lhe foi, aconselhou a intervenção urgente que seria a salvação ou a sentença sem apelo.

Que dias e, sobretudo, que noites de angústia passaria a doente, sozinha, sem qualquer pessoa de família que pudesse consolar-lhe o coração aflito perante o mistério do Além! Porque ela ouvia já, no silêncio do seu quarto, aproximarem-se os passos da Morte e queria preparar-se para se lhe entregar cristãmente.

Chamou na manhã de 17 de Junho, um sábado, o Padre Luís Rodrigues para que lhe indicasse o caminho do Céu. Quando ouviu da boca do sacerdote as palavras da absolvição, sentiu — afirmou depois — a maior felicidade da sua vida. Chamou também o advogado e o notário para melhor poder repartir quanto possuía na terra. E tudo deixou escrito por sua mão, com a meticulosidade, o método e a ordem que punha em todas as coisas. "Vou para Londres preparada para quanto me possa suceder", disse-nos ela, a Castro Henriques e a mim, três dias antes de seguir para Inglaterra.
Partiu, entrou na London Clinic, e na mesa operatória, no dia seguinte ao do seu aniversário (nascera em 27 de Junho de 1885), perante as lesões da parede da vesícula calculosa e já do próprio fígado, o cirurgião Maingot e Álvaro Rodrigues viram desaparecer a última esperança. No mesmo dia da operação, ao cair da tarde, o Dr. Castro Henriques e eu estávamos ao corrente da situação insolúvel.

Portugal ia perder um dos seus mais gloriosos concertistas e a Inglaterra um dos seus artistas predilectos. Assim se exprimiu o Embaixador inglês em Lisboa ao endereçar ao nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros as condolências oficiais da Grã-Bretanha: "Qualquer que fosse o seu auditório — na presença da rainha ou da rainha-mãe, ou de operários das minas chegando do trabalho — a resposta, ao ouvi-la tocar, era sempre a mesma: admiração pela sua arte consumada. Amaram-na por si-mesma e pela sua personalidade verdadeiramente admirável."

Dias depois da laparotomia exploradora, eu recebia a notícia, por carta do Dr. Bártolo do Vale Pereira, prestes a terminar o seu estágio em Inglaterra, de que: Guilhermina Suggia regressaria no avião português de sábado, -15 de Julho. Eu, a caminho do Congresso Internacional de Anatomia, a reunir na velha Oxónia, só chegaria a Londres na noite seguinte.
Por isso, julgando-a já em Portugal, surpreendido fiquei, quando na manhã de segunda-feira o. Dr. Miguel Pile, nosso muito ilustre Cônsul Geral na capital inglesa, me comunicava, em nome da doente, que ela, ainda em Londres, partiria nessa tarde. O avião atrasara o seu voo.
Liguei para a London Clinic. Falou-me com voz segura, a voz de sempre, em que ninguém descobriria sofrimento ou desânimo. Dali a pouco encontrava-me junto dela. Seriam - 11 horas. Estava ainda deitada, a tomar vários medicamentos com que a preparavam para a viagem aérea. Disse-me então: "Sei que tenho um mal sem cura". Quis animá-la, mas logo me interrompeu: " O Dr. Maingot contou-me ontem toda a verdade. A Medicina nada mais pode fazer. Tentou-se tudo. Receitou-me umas injecções. Levo-as comigo. Se não fizerem efeito, mais nenhuma terapêutica se conhece para este mal". A Artista já não podia iludir-se. Ouvira, a sua sentença de morte. E até lhe explicaram como seria o seu fim.

Mrs Melville, a grande amiga das horas boas e das horas más, havia entrado no quarto. E, de pé, junto da cama, olhava-me e olhava a doente, mantendo a custo a serenidade necessária. Era difícil responder. Todavia, precisava de animar a doente e atenuar os efeitos da confissão brutal da verdade. Calmo, procurando dar às minhas palavras a maior naturalidade, observei: "É possível que o seu médico tenha razão. Porém, o que a Medicina e os homens não conseguem, pode muito bem fazê-lo Deus, se assim o entender". Súbito, os olhos da doente iluminaram-se. Por eles passou um clarão de esperança.. E respondeu-me: "Tem razão. E olhe que eu tenho fé. Ainda há pouco esteve aqui um padre irlandês, a quem me confessei e que me deu o Senhor ". Confiava num milagre. Despedi-me e saí.
Duas horas depois entrava de novo na Casa de Saúde. O nosso Cônsul, solícito e carinhoso, não demorou a chegar. Suggia desceu até ao carro amparada por nós. (O edema enorme dos membros inferiores tornava-lhe o andar difícil e muito penoso. No entanto, cabeça erguida, voz forte e bem timbrada, muito cuidada a toilette. Pertencia ao número daqueles "que têm pudor de sofrer ou desfigurar-se em público". Nunca a vi chorar, nem mesmo quando se despediu de Mrs Melville, do Conselheiro da Embaixada, Caldeira Queiroz, do Dr. Miguel Pile e de mim, e a levaram num carrinho de rodas — caridosa atenção do pessoal do aeródromo, creio eu — da sala de espera, onde estávamos, para o avião que a trouxe a Portugal, onde queria morrer e ser sepultada.

Mas sei que chorou na intimidade, tanto na London Clinic como em sua casa, perto do fim. :

"'Lágrimas! A melhor tinta .
Com que se pode escrever".

"Não sei, nem agora me importa saber, se é monótona a descripção de uma dor humana, para os desconhecidos de quem a sofreu", disse Alberto de Oliveira na comunicação sobre a morte do poeta António Feijó, dirigida à Academia Brasileira. E logo acrescentou este comentário: "Monótona será, mas ai de quem lhe não sentir a grandeza e a beleza!" Ao longo dos corredores da London Clinic, Suggia foi-se despedindo do pessoal que a servira. Primeiro, partiu o automóvel com a doente recostada em almofadas, levando junto dela Mrs Melville e a enfermeira que a acompanhou ao Porto. O Dr. Miguel Pile quis passar ainda por uma casa de flores. Levou-lhe uma caixa de jasmins. Eu levei-lhe umas rosas. Pequenas atenções a que era tão sensível o coração da Artista. Nós sabíamos — e ela, desgraçadamente, também o sabia —que eram aquelas as últimas flores que em vida de nós receberia.

Era tão sensível ao bem que lhe faziam que chegava a sofrer. Poucos dias antes de partir para Inglaterra, estávamos junto da sua cama de doente os seus médicos e eu. Decidido que ela se operaria em Londres, o Dr. Álvaro Rodrigues, para a sossegar, prontificara-se a acompanhá-la. Tão grata notícia fora-lhe transmitida na véspera ou antevéspera. E era esse favor que desejava agradecer. "Esperava muito de si (dizia ela voltada para Álvaro Rodrigues), mas nunca podia supor que por mim tanto se sacrificasse. Quando o soube pelo Dr. Castro Henriques, fiquei muito comovida. Não consegui dormir toda a noite. Sofri muito"' E perante a nossa admiração, explicou: "É que eu sofro mais com o bem do que com o mal que me fazem". Por isso, ela era a grande Artista que foi! A sua personalidade — escreveu o violoncelista alemão Paulo Grummer a D. Madalena Moreira de Sá —"foi e permanece única".

Façamos por não esquecer a nobre lição que, sem o pretender, assim nos deu e apague-se qualquer nota discordante que possa vir perturbar a harmonia que em nós deve despertar a evocação da Artista excelsa.

E — depois dos maiores triunfos nas grandes cidades e cortes da Europa, de Lisboa a S. Petersburgo — morreu, segundo o desejo que manifestara, nos derradeiros dias, ao Padre Luís Rodrigues:
" Cheguei a suplicar a Deus que me desse vida e saúde, pois agora grandes coisas gostaria de fazer para Sua glória. Mas que merecimentos tenho eu, mulher como qualquer outra, para que o Senhor me distinguisse e em mim manifestasse o Seu poder? Não. Aceito a vida ou a morte, consoante Deus determinar". E, pelas onze horas da noite de 30 de Julho, o Padre Luís Rodrigues, seu confessor, a quem a doente pedira que não a abandonasse na hora extrema, ajoelhado à beira da sua cama, rezava-lhe as orações dos moribundos que ela atentamente seguia, no supremo esforço de deixar a terra e entrar, purificada, na Eternidade.
No quarto, como testemunhas mudas da tragédia sublime da libertação daquela alma, apenas Mrs Melville, que chegara de Londres nesse mesmo dia, chamada por um telegrama da doente, e a enfermeira inglesa, de joelhos também, subjugada pela grandeza do quadro que tinha diante dos olhos. E mal o sacerdote acabou de recitar as orações, Guilhermina Suggia expirou serenamente, entregando a alma a Deus que a fizera nascer Artista e seguir no mundo da Música uma trajectória de luz.

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

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outubro 21, 2004

GUILHERMINA SUGGIA- GRANDE NA VIDA E NA MORTE (3ª PARTE DE DISCURSO)

Pisava-o seis meses depois. Gentil e generosa, levou à Faculdade de Medicina, na noite de 21 de Maio de 1949,— há pouco mais de um ano! — o notável Trio de que Henri Mouton e François Broos também faziam parte e, a seguir, porque acedesse a tocar a solo, nós ouvimos encantados e agradecidos, os três artistas no Centro Universitário em novo e magnífico recital que terminou a altas horas.

E não se julgue que o oferecimento de Guilhermina Suggia para tocar não representava sacrifício. Talvez poucos saibam que a notável concertista, exigentíssima consigo própria, nunca subia serena para o estrado, donde seduzia e enfeitiçava as almas com a voz do seu violoncelo, "ora mystica e pura como um tabernáculo de Deus, ora desvairada, incoherente, como possessa d'um demónio louco!" para me servir de palavras de António Cândido a propósito da prosa de Eça de Queirós.

"Para tocarmos (confessava-me nessa noite) queimamos os nossos nervos.” Um concerto representava sempre para ela uma grave preocupação."
E foi certamente por isso que, embora houvesse cuidadosamente preparado com D. Ernestina da Silva Monteiro programas diferentes para treze concertos, nunca lhe ouvimos tocar a maior parte dessas músicas. Mas ninguém se admire. O grande Pablo Casals — de quem Suggia, como já o disse, recebeu lições e com quem mais tarde colaborou — "depois de milhares de concertos com o máximo êxito, ainda pode tremer em frente do público como na sua primeira apresentação", escreve um dos seus biógrafos. E passou mais de dez anos a estudar as Suites de Bach antes de as tocar publicamente. É que os artistas vivem insatisfeitos. O grande pintor Malhoa confessava ao Dr. Alberto Rego, em carta de 12 de Junho de 1932, a propósito do Retábulo para a Igreja de Chão de Couce, última obra que sua mão assinou: " Ah! meu amigo, vim ao mundo com olhos e coração de artista, o que quer dizer que tenho tido uma vida de torturas! Se a arte nos dá algumas horas de encanto, sucedem-se não horas mas dias e meses de lutas constantes procurando atingir o que tão difícil é: realizar o nosso sonho!"

Referi estes factos não só para mostrar os motivos da gratidão que a Universidade e o Centro Universitário devem à memória de Guilhermina Suggia, mas também por me parecer que eles pedem contribuir para melhor e mais justa compreensão de algumas atitudes da Artista, julgadas, porventura, estranhas por espíritos desprevenidos.

E, se me permitem, farei referência, ainda, a um episódio, bem eloquente na sua singeleza, contado pelo Prof. Egas Moniz em carta ao seu antigo condiscípulo, cujo nome ainda agora citei.
Passou-se há anos no Hotel do Buçaco. Uma tarde Suggia, ali. hospedada, apareceu inesperadamente, com o seu violoncelo, na pequena sala privativa onde os músicos do sexteto que tocava no Hotel principiavam a jantar: "Vocês tocam para nós (disse-lhes); eu venho hoje tocar para os meus amigos. E a lei das compensações." E sentou-se. De nada sabiam os hóspedes. A surpresa, e simultaneamente recompensa, fora apenas para os artistas. Para ninguém mais Suggia nessa tarde admiravelmente tocou.

Eram assim as suas reacções. Tinha dentro de si aquela aguda e fina sensibilidade, sem a qual não se é verdadeiramente grande artista. No convívio que o Dr. Jayme de Souza e eu tivemos com ela nos três últimos anos — em que nunca lhe ouvimos qualquer referência depreciativa ao valor ou ao carácter de colegas, mas sim, muitas vezes, palavras de elogio e apreço — sempre se mostrou extremamente simples e acolhedora, disposta a auxiliar as iniciativas culturais do Centro Universitário e a estimular a favor dele e da nossa Universidade o entusiasmo das jovens artistas, suas discípulas, às quais inteiramente se dava. Não quis partir para Londres e deixar-se ali operar sem ouvir a voz daquela que hoje é religiosa numa casa de Barcelos. À outra instituiu sua herdeira. Ensinar será obra apenas de inteligência; mas educar, afeiçoar almas, cercando-as de Beleza, é obra de amor.
A alma sensível e o espírito de compreensão de Guilhermina Suggia revelam-se nas duas cartas — uma de 18 de Agosto e outra de 13 de Setembro de 1945, portanto cinco anos antes da sua morte — dirigidas a D. Ernestina da Silva Monteiro, quando a discípula, a que me referi acima, resolveu abraçar a vida religiosa. Escreve na primeira: "Ela veio visitar-me na quarta-feira passada e fomos a Barreiros [onde Suggia tinha a sua casa de campo] e depois a Leça; uma tarde juntas, conversando muito, chorando muito, mas fiquei convencida que é Deus que a chama e que nada há a fazer para modificar as suas ideias". E acrescenta: "Se gostava d'ela até aqui, ainda me prendeu mais aquele ar de bondade, quási de santidade, que nos inspira admiração e respeito". E faz a confissão seguinte que merece ficar registada: "É curioso, mas sinto-me feliz agora por ela ir para esse mundo espiritual, cheio de mistério e de beleza. Não a perdemos, ganhámo-la e estará sempre mais perto de nós". Na carta seguinte volta a falar com a maior ternura da que fora sua discípula muito querida. Diz assim: "Tenho-a sempre no meu pensamento e apesar de me ter conformado e desejando por vezes estar no lugar d'ela, pois que o mundo para onde ela vai é bem melhor do que este em que vivemos, cheio de maldades, invejas, caprichos e ambições e mentiras, sinto uma grande saudade. Ao menos lá tudo é pureza, simplicidade, bondade, abnegação e o próprio sacrifício deixa de existir, porque reverte em prol da Humanidade''.

Não tive escrúpulo em citar aqui passos destas cartas íntimas nem sua dona o teve em consentir que eu o fizesse. O nosso desejo é prestar homenagem à memória da Artista, referindo um conjunto de factos reveladores da nobreza dos seus sentimentos.

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

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outubro 20, 2004

GUILHERMINA SUGGIA-GRANDE NA VIDA E NA MORTE- (2ª PARTE DE DISCURSO )

Restam-nos, além de um filme que não conheço, alguns discos gravados e o soberbo quadro da Tate Gallery, de Londres, em que o pincel de Augustus John imortalizou na tela a genial Artista numa das suas atitudes de sonho, beleza e domínio.

Fui-lhe apresentado pelo marido, o saudoso colega Dr. Carteado Mena, em 10 de Junho de 1934, no Palácio da Bolsa, no intervalo do concerto que ela generosamente ofereceu à Universidade (então dirigida pelo Prof. Adriano Rodrigues), para auxiliar os estudos de alunos mais necessitados. Depois desse recital no Salão Árabe, em homenagem a Camões, outras belas noites lhe ficou devendo a Universidade, nas quais ela própria ou algumas discípulas, trazidas por sua mão,— Miss Fleming, D. Maria Alice Ferreira e D. Pilar Torres — tocaram nas Salas Nobres das Faculdades de Medicina e Engenharia,
Quando, em Junho de 1948, nesta cidade reuniu o II Congresso Nacional de Engenharia e o Dr. Jayme de Souza e eu — acompanhei-o, a seu pedido, nessa missão delicada — quisemos ouvir o conselho de Guilhermina Suggia sobre a organização de um concerto a oferecer aos congressistas, sem que por nós passasse a sombra sequer da ideia de se obter a sua contribuição pessoal, foi ela que espontaneamente se ofereceu, insistindo até vencer o nosso acanhamento e receio em aceitar tão inesperado quanto honroso oferecimento. Pôs só uma condição: tocar dentro da Universidade, no Salão da Faculdade de Engenharia, e apenas para os congressistas e elemento oficial.

Se para o Engenheiro Jayme de Souza foi gratíssima a presença da Artista na sala da Faculdade que o diplomou, para mim seria igualmente grata a sua presença na sala da minha Faculdade, Escola onde seu marido havia também estudado.

A rara sensibilidade de Guilhermina Suggia surpreendeu o meu desejo. Nas vésperas de partir para Londres para tocar, sob a regência de Malcom Sargent, o Concerto de Elgar no grandioso festival patrocinado pela Rainha a favor do "Musicians’ Benevolent Fund", Suggia, nervosa o preocupada, dizia-me no final do ensaio de D. Maria Alice Ferreira: " Se quiser que eu venha tocar na sua Faculdade, não se esqueça de mim nas suas orações, pedindo a Deus que em Londres tudo me corra bem". Felizmente, o êxito foi completo. Releio a carta que o Eng.° Carlos Beires, então em Walton-on-Thames, a trinta quilómetros do centro londrino, me escreveu em 27 de Novembro de 1948:
"Recebi as suas palavras precisamente na manhã desse dia memorável em que fui ouvir a Senhora D. Guilhermina ao Albert Hall. Não podiam, pois, chegar em melhor altura.
" Foi uma noite que não esqueço. A grande sala cheia, com a presença da Rainha e da Princesa Margarida. Programa de música inglesa com um grande Coro, Orquestra Sinfónica de Londres e o M. Sargent. Muito entusiasmo. A grande Artista tocou com uma profundidade e emoção como poucas vezes tenho ouvido. E soube comunicar-no-las !
"Fui encontrá-la à saída do palco, durante os agradecimentos ao público, e senti então ainda melhor essa agitação dos grandes momentos. Recebeu-me com uma amizade que não posso esquecer...

"Transmiti-lhe as palavras de V...... e a incumbência que a sua carta me conferia. E pode estar certo de que, se é grande a sua admiração e gratidão por Guilhermina Suggia, nela não encontrará senão compreensão e boa vontade! Li-o na expressão com que ouviu as minhas palavras."

"E como gostaria (termina Carlos Beires) de estar presente nessa noite memorável em que a maior Artista portuguesa pisar o estrado dum dos salões nobres da nossa Universidade " !

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

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outubro 19, 2004

G.SUGGIA-GRANDE NA VIDA E NA MORTE- HOMENAGEM 25/11/1950- (1ªPARTE DE DISCURSO)

ILUSTRE REPRESENTANTE DE S. EXCELÊNCIA o MINISTRO DA EDUCAÇÃO NACIONAL E
SENHOR VICE-REITOR,
SENHORES PROFESSORES E ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE,
DIGNAS AUTORIDADES,
SENHORAS E SENHORES:

A primeira vez que ouvi Guilhermina Suggia — que eu, em criança, vira passear, já menina prodígio, na praia de Leça com sua irmã Virgínia, há três anos falecida em Paris onde vivia — foi em 9 de Junho de 1923, no Teatro de S. João, quando a grande concertista aqui veio "matar saudades" após uma larga ausência de Portugal. O seu génio artístico, dando-lhe fama, cobria de glória a nossa Pátria.

Se bem me lembro, tocou nessa memorável noite, acompanhada pela Orquestra Filarmónica de Lisboa, regida por Francisco de Lacerda, o célebre, e na opinião de Pablo Casals dificílimo Concerto de Haydn, cuja interpretação, sob a regência de John Barbirolli, ainda hoje podemos admirar na gravação de "His Master's Voice". A solo, tocou uma Suite de Bach, seu autor predilecto, e novamente com a orquestra o Concerto de Lalo.

Se a técnica de Guilhermina Suggia (salientou o "Times" ao noticiar o falecimento da Artista) era de pureza clássica, as suas interpretações animavam-se com um calor e uma paixão que lhe pertenciam pelo berço e pela nacionalidade. Com efeito, seu pai, o violoncelista Augusto Suggia, foi o seu primeiro mestre—só mais tarde Julius Klengel a leccionou em Leipzig; — sua irmã, um pouco mais velha, era uma pianista distinta; e tanto Guilhermina, portuense, como Casals, catalão, — de quem também recebeu lições — se criaram ao sol ardente e magnífico da Ibéria.
Quem poderá esquecer a perfeição da sua técnica que tudo vencia sem esforço aparente? Como esquecer o incomparável som, aveludado e quente, da sua arcada elegante e segura? O vigor do seu estilo inconfundível, misto de paixão, dignidade e firmeza, consoante justamente notou Richard Capell? E como esquecer, enfim, as atitudes da Artista, vivendo intensamente o drama dos poemas que interpretava? Porque ela, rindo ou chorando, tudo nos transmitia através do seu amado violoncelo.
Depois daquele concerto no Teatro de S. João — hora de Arte e de glorificação da Artista — creio que nunca Suggia tocou no Porto que eu não a ouvisse, exceptuando a noite de 25 de Maio de 1948, em que fechou, na Sala do Conservatório, as reuniões da Camarata desse ano.
Nessa noite foi particularmente feliz. Depois da nevrite que por alguns meses a obrigara a absoluto repouso da mão esquerda, tocava então pela primeira vez em público. A doença não a diminuira. Ela própria confessou ao Dr. Jayme de Souza e a mim que ficara plenamente satisfeita com a prova, pois fora uma das raras vezes em que tocara bem na sua já longa vida de concertista. E ao nosso sorriso respondeu, com seriedade e convicção: "facto, tSei o que estou a dizer-lhes. Os dedos das minhas mãos são de mais para contar as vezes em que, de tenho sido feliz ". Era a insatisfação dos grandes artistas.

Pela radiotelefonia, que me lembre, ouvi-a num dos seus concertos em Lisboa: com a Orquestra Nacional e uma noite — estava eu em Santiago de Compostela na acolhedora casa do cirurgião Puente Castro — quando ela, com a mesma orquestra, interpretou em Madrid o Concerto de Dvorak (28-IV-1945).

A última vez que a ouvi—já então o emagrecimento e a palidez impressionavam — foi no dia 31 de Maio deste ano, dois meses antes da morte. Aquele concerto em Aveiro foi o canto do cisne. As derradeiras músicas que tocou foram, extra-programa, a Peça em forma de Habanera de Ravel, e a alada e saltitante Abelha de Schubert, executada, assim como sucedera com o Rondó de Weber, com tal perfeição, nitidez, leveza, e mocidade, que a assistência, com seus aplausos, a levou a bisar o trecho.
Agora, tristemente repetimos as palavras trágicas do Poeta: Never more ! Nunca mais ouviremos vibrar, feridas pelo seu arco mágico, as cordas dos violoncelos predilectos — o Stradivarius e o Montagnana — que legou para prémios escolares. E para sempre nos faltam a alegria e o entusiasmo do seu convívio tão simples e afectuoso.

Sim. A morte da grande concertista emudeceu para sempre as cordas dos seus violoncelos preferidos, companheiros fiéis da sua gloriosa carreira. Lembram-me neste momento os versos emocionantes de Camilo Pessanha:

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.”

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

PARTE DE UM DISCURSO FEITO NUM CONCERTO DE HOMENAGEM(as partes restantes serão publicadas brevemente

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outubro 12, 2004

CARTA DE ZARA NELSOVA FALANDO DE G. SUGGIA

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CARTA DE ZARA NELSOVA FALANDO DE G.SUGGIA

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outubro 11, 2004

MEMÓRIAS DE PROF MADALENA MOREIRA DE SÁ E COSTA, DISCÍPULA DE G.SUGGIA

Guilhermina Suggia, a grande violoncelista portuguesa nasceu no Porto em 1885.
Em 1901 partiu para Leipzig onde foi estudar com Julius Klengel, mas
até essa data estudou violoncelo no Porto com seu Pai, Augusto
Suggia, excelente violoncelista e professor, e música de câmara com
Moreira de Sá, personalidade ímpar no meio musical português.
Durante esses dezasseis anos pertenceu ao Quarteto Moreira de Sá e
aí toma conhecimento dos quartetos de Beethoven (que virão a ser
dados em primeira audição em Portugal) e de muitas outras obras
importantes; toca em muitos concertos do “Orpheon Portuense”,
sociedade de concertos fundada em 1881 por Moreira de Sá com muitas
elementos do meio musical portuense.

Esta sociedade que ao longo desses anos da formação de Guilhermina
muito acarinhou o seu desenvolvimento, organiza um concerto antes da
sua partida para Leipzig, em que toca o 1º andamento do concerto de
Lalo, Tarantela de Popper e Variações sobre um tema Rococo de
Tschaikovsky.
No dizer de minha Mãe, Leonilda Moreira de Sá Ferreira da Costa,
quando Guilhermina parte, já é uma violoncelista muito feita, muito
completa.
Fui sua discípula durante 10 anos. Esse período da nossa convivência
e amizade foi fabuloso. Ouvi-a tocar muitas vezes em ensaios e
concertos com minha Mãe e com meu Pai. Aprendi muito nas suas lições
e ouvindo-a em concertos, com a sua maneira de tocar muito
comunicativa e emotiva.
Em 1926, a Sociedade de Concertos de Vigo, convidara Guilhermina e
meus Pais para tocarem numa série de concertos, tocando ela num
deles com a Orquestra Sinfónica de Madrid dirigida pelo famoso
maestro Arbós.


Para mim as sonatas de Brahms e a sonata em lá de Beethoven, que
tocava com meu Pai, tiveram uma execução de rara beleza e perfeição
que jamais esquecerei. Guilhermina convidou meu Pai a realizar este
programa no Wigmore Hall de Londres em 1929. E minha Mãe a tocar
nessa ocasião em concertos em casas particulares de Londres.
Foram relações artísticas e de amizade muito intensas e profundas.
Quando Guilhermina parte para a Alemanha deixa uma sua fotografia
com a seguinte dedicatória: “A Moreira de Sá com eterna gratidão”.
E, com minha Mãe manteve uma correspondência enorme durante muitos
anos incluindo cerca de cem postais enviados de muitas cidades e
países onde toca. Realiza concertos em muitos países.
Além de Portugal, onde é delirantemente ovacionada e acarinhada,
toca em Espanha, França, Alemanha, Itália, Áustria, Holanda,
Dinamarca, Polónia, Suíça, Rússia, etc. e com Orquestras dirigidas
por eminentes maestros como Artur Nikisch, Mengelberg, Pedro de
Freitas Branco, Malcom Sargent.
Deixa em testamento o seu famoso violoncelo Montagnana para ser
vendido e, com o produto daí resultante se instituir um prémio com o
seu nome destinado ao melhor aluno do Conservatório de Música do
Porto. Esse prémio foi distribuído a seis jovens em provas de
concerto com orquestra tendo altamente dignificado esta atribuição.
Deixou ainda o famoso violoncelo Stradivarius à Real Academia de
Londres, Ao Conservatório de Música de Lisboa deixou um outro assim
como à violoncelista Isabel Cerqueira Millet sua discípula; e, a
mim, um violoncelo italiano do século dezoito. Fiquei-lhe
eternamente grata também por este seu gesto.


Versão do capítulo sobre Guilhermina Suggia que integra o livro de
>memórias de Madalena Moreira de Sá e Costa em fase de
>pré-publicação.

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julho 02, 2004

VARIAÇÔES SOBRE UM RETRATO- Inês Lourenço

Guilhermina Suggia
(variações sobre um retrato)

1.

No escarlate do vestido
entre os joelhos avulta
o versátil companheiro
que em voz grave lhe responde
desde esse Porto marítimo
da infância, muito antes
da era dos petroleiros e
da boçalidade dos banhistas.

2.

O arco descreve
o intenso itinerário
de Leipzig a Paris,
de Berlim a Varsóvia,
o fascínio dos palcos, o
secretismo dos camarins,
na arritmia do pulso
que o fulgor persegue.

3.

Num crescendo vibrátil
desenha o andamento,
seus motivos ascendentes de
harmónica tensão. E na pausa
final, que um ímpeto antecede
o arco se suspende
augúrio e êxtase.


4.

No atelier londrino
de Mallord Street,
o pintor fixa o instante
de uma metamorfose.
Na tela cresce a silhueta
unida ao Stradivarius,
num corpo mútuo
de exótica mariposa,
olhos cerrados no meridional
abraço. Nem Pablo,
o virtuoso, nem qualquer outro
amante, desatará jamais
esse abraço sem fim.

por Inês Lourenço

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junho 05, 2004

SOBRE GUILHERMINA SUGGIA

João de Freitas Branco concede esta confidência no seu discurso proferido no Porto em 12 de Julho de 1989:

«Passou-se isto numa época em que eu fui uma espécie de seu assistente para os concertos da Emissora Nacional. Tinha ido buscá-la( a GUILHERMINA SUGGIA) ao hotel para a levar ao concerto em que ia tocar e, durante o caminho, reparei que ela se mostrava um tanto deprimida. (Ao contrário do que era costume, pois ela era sempre muito exuberante.) A certa altura, disse-me: «Sabe, hoje vou tocar muito preocupada, porque quando saí do Porto a minha cadelinha adoeceu... Não sei como é que hoje vou poder tocar bem».


No final dos anos 40, o encontro de Suggia com Maria Adelaide de Freitas Gonçalves tem consequências para a vida cultural portuense.
Formaram um duo piano-violoncelo, tendo sido com Adelaide Gonçalves que Suggia tocou pela última vez em público, na delegação do Círculo de Cultura Musical de Aveiro. Maria Adelaide Gonçalves, que era directora do Conservatório de Música do Porto, lançou também as bases preparatórias da orquestra, com elementos dessa escola de música, seleccionando, por exemplo, alunos finalistas. Guilhermina Suggia superintendeu com mestria e eficácia o naipe dos violoncelos, na sua maioria constituído por alunos seus! Dizia-se que era o naipe mais seguro da orquestra. Karl Achatz, de nacionalidade sueca, devotou-se à preparação de um conjunto musical de 72 elementos. Enraizada no Conservatório, a Orquestra foi chamada «Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto». Foram, no entanto, convidados a integrar a Orquestra outros elementos, alguns deles estrangeiros residentes no Porto.
A inteligência e empenhamento de Adelaide Gonçalves para concretizar esse desejo artístico e cultural do Porto, de ter uma orquestra sinfónica, atraiu algum apoio de entidades oficiais e patrocínios particulares.
O concerto para apresentação oficial, em primeira audição, da Orquestra Sinfónica do Conservatório do Porto dá-se na noite de 21 de Junho de 1948, no Rivoli, no Porto. A estreia foi um acontecimento sensacional. A solista foi Guilhermina Suggia que executou obras de Weber, Beethoven, Saint-Saëns, Max Bruch e Liszt. A assistência, que enchia completamente a vasta casa, aplaudiu entusiasmada. O ministro da Educação Nacional, em representação do presidente da República, no final do concerto elogiou a iniciativa e a convicção, depois de cumprimentar elogiosamente Suggia, a Orquestra e o seu maestro Karl Achatz.


Em 1949, Guilhermina Suggia já com sinais visíveis de doença, tem a corajosa iniciativa de criar o Trio do Porto, constituído por ela, pelo violinista Henri Moton (professor do Conservatório e concertino da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto) e pelo violetista François Broos.
A estreia foi no sábado, 21 de Maio de 1949, no salão nobre da Faculdade de Medicina. O concerto foi organizado pelo Centro Universitário do Porto da Mocidade Portuguesa. O programa foi consagrado a Beethoven: trio n° 5 em dó menor op. 9 n° 3; o trio nº 3 em sol maior op. 9 n° l e o trio n° 2 em ré maior op. 8 (conhecido por l.a serenata). O êxito foi total e os aplausos calorosos.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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junho 01, 2004

VIANNA DA MOTTA E O MEIO PORTUGUÊS

Não creio grandemente nas virtudes e alcance prospectivo ou retrospectivo desta quase instituição literária e muito portuguesa que é o In Memoriam ('), e afigura-se-me que se no outro mundo (em que aliás não acreditava) Viana da Mota pudesse ter conhecimento de que também a sua memória estava em vésperas de ficar arrumada nas páginas de um mais ou menos copioso e laudatórío volume, não deixaria por certo de fazer uma daquelas suas tão expressivas visagens em que fina e discretamente se misturavam a ironia e a piedade pelas fraquezas e ridículos dos mortais.

Adiantará esta homenagem póstuma alguma coisa no conhecimento, na compreensão, que os portugueses tiveram da figura do ilustre músico? Duvido. A verdade é que, se nunca em vida Viana da Mota teve a consagração que a sua invulgar estatura merecia, se na hora do traspasse lhe não foram prestadas as honras a que como poucos tinha direito, não será agora, ano e meio volvido sobre o seu passamento, que essa injustiça se reparará com o improvável reconhecimento, por parte dos seus compatriotas, da grandeza de um artista que era insofismavelmente um vulto nacional.
Mas não estarei eu a cair em erro de utopia, supondo que as coisas poderiam ter-se passado de maneira diferente, de maneira mais conforme aos ideais
que nos fazemos dos deveres e ilustração do homem
civilizado? Pendo a crer que sim. ..

Num país avesso, parece que por natureza ou má sina, à consideração dos valores superiores da inteligência e da sensibilidade; num país lamentavelmente propenso à subestimação das coisas da arte e do pensamento, e onde o culto, a fascinação de quanto é vazio e medíocre vem atingindo, há uns anos a esta parte, aspectos e proporções verdadeiramente alarmantes; num país onde a maioria da população só tem duas paixões, só vibra, só se electriza com duas funções: o fado e a bola; num país onde até os melhores, os mais esclarecidos, se deixam facilmente contaminar da inanidade geral e lá fazem também cortejo atrás da «vedeta» desportista, cinematográfica ou radiofónica que a moda lançou e a desenfreada publicidade jornalística consagrou — quem é que se lembra de honrar o talento que nobremente se soube conservar afastado do barulho da feira pública, que não desceu a contemporizar com a mediocridade, que não pagou a arautos que sonorosamente lhe proclamassem o génio, que não adulou os príncipes da finança ou da política, que não ingressou em confrarias e capelinhas de elogio mútuo e até à última manteve um decoro, uma compostura, uma ética (para empregar uma destas palavras mágicas muito ao gosto dos tempos que correm), que não pode deixar de incomodar uma sociedade que, acima dos altos valores humanos e dos rigorosos imperativos da consciência moral, põe as delícias da vida fácil, o amor do luxo e da ostentação, a sede do oiro, a ânsia da glória, qualquer que ela seja, por qualquer modo que se possa obter, e ainda que seja a... curto prazo?

Foi Viana da Mota um dos maiores pianistas do seu tempo, um artista admirado e respeitado pelos seus pares como um Mestre? Frioleiras...

Foi Viana da Mota durante algumas décadas o nome português mais europeu, um verdadeiro embaixador espiritual do seu país? Ninharias...

Foi Viana da Mota amigo ou correspondente de algumas das figuras mais notáveis da música e do pensamento musical da sua época? Bagatelas...

Foi Viana da Mota como compositor o iniciador do nacionalismo musical português, o pioneiro de um movimento que, se não produziu melhores frutos, não teria sido positivamente por culpa sua? Bugiarias...

Esteve Viana da Mota durante cerca de vinte anos à testa do primeiro estabelecimento musical do País, a que emprestou o prestígio do seu nome, nome a que incontroversamente ficou ligada a mais esclarecida, actualizadora e progressiva reforma que ainda tal estabelecimento conheceu depois da sua fundação? Lendas...

Foi Viana da Mota, como pedagogo, o fundador da moderna escola de tocar piano em Portugal e mestre, directo ou indirecto, de quase todos os artistas que hoje no País usufruem de alguma notoriedade como virtuosos do teclado? Invencionices...

Foi Viana da Mota, como artista e como professor, um modelo de probidade profissional, um trabalhador e um estudioso sempre ávido de superar-se a si próprio, procurando constantemente, apaixonadamente, penetrar mais fundo nos segredos, nos problemas técnicos e estéticos da sua arte? Maravalhas...

Foi Viana da Mota, pela cultura e ilustração intelectual, um homem superior, um tipo de artista-humanista raro no nosso país? Patacoadas...

...não monta mais
Semear milho nos rios
Que querermos por sinais
Meter coisas divinais I
Nas cabeças dos bugios.

Como tantos outros artistas portugueses dos maiores, Viana da Mota foi uma vítima da incompreensão, da maldade e da pequenez de um meio com o qual a sua invulgar estatura não podia ter medida comum. Negaram-lhe o talento, disputaram-lhe a glória, moveram-lhe campanhas ultrajantes, dificultaram-lhe a vida, regatearam misérias nos seus modestos cachets de concertista, esforçaram-se por fazer cair sobre o seu nome e a sua obra a pedra vil do esquecimento, deixaram-no morrer num isolamento e numa solidão terríveis, e mesmo depois de morto se procurou evitar que a sua vera fisionomia de artista e de intelectual pudesse ser revelada em toda a sua luz.

Entretanto, os medíocres que o guerreavam subiam, os nulos que lhe invejavam a fama triunfavam, os incompetentes que lhe deslustravam o nome floresciam, os néscios que desdenhavam da sua arte alcandoravam-se — e agora são capazes de aparecer a fazer-lhe o comovido panegírio...

Que a meia dúzia de amigos e admiradores sinceros que lhe permaneceram fiéis se não agastem:

Adhuc sub judice lis est.

(1)Fernando Lopes Graça ( texto escrito como contribuição para IN MEMORIAM de VIANNA DA MOTTA, foi contudo recusada a sua publicação com alegação em invencíveis mas não explícitas dificuldades quanto à sua inclusão nele)
1949


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maio 22, 2004

VIDA CASEIRA

“Existem dois lados da minha vida bastante separados e bastante distintos, a minha vida caseira e a minha carreira artística. À semelhança de muitos outros grandes músicos, não vivo todo o meu tempo rodeada de uma atmosfera musical.

Quando estou em casa trabalho bastante na minha música numa parte do dia, mas a maior parte do meu tempo é tomado com outras coisas, como olhar pela minha casa, visitar os meus amigos, e diverti-los. O meu marido tem muito bom gosto no que diz respeito a antiguidades e um grande conhecimento delas. Ele mobilou certas partes da casa e eu tenho os meus próprios quartos mobilados de acordo com o meu gosto, que é bastante diferente.
Eu gosto de cadeiras modernas e confortáveis, como aquelas" - ela apontou para o grande sofá de braços estofado em que eu me encontrava sentado. «Eu gosto igualmente de uma casa bem governada, e gosto de boa comida, e de nisso ser bem servida, porque quando estou em casa sou uma mulher bastante ocupada. Então os agentes escrevem-me a convidar-me para actuar em concertos, e por um tempo estou outra vez na atmosfera musical, apreciando-a. Mas sinto sempre que a minha arte tem as suas raízes na minha vida caseira, como tal sem a minha vida doméstica não seria capaz de conduzir a minha música de uma forma tão bem sucedida».

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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maio 14, 2004

O VIOLONCELO (de SUGGIA) NOS LIVROS DE VIRGÍNIA WOOLF

Que GUILHERMINA SUGGIA foi, durante as primeiras décadas do século passado, muito mais conhecida e admirada na Grã-Bretanha do que em Portugal, não restam dúvidas.
Em Londres, “ir ouvir a SUGGIA”, era sinónimo de necessidade ou “dever” que gostosamente se cumpria.

No Diário, de Virgínia Woolf, por exemplo, (volume II – 1920-24 – da Penguin Books) pode ler-se, no sábado, dia 2 de Novembro de 1924: (traduzo): “ Como de costume estou, ou imagino que estou, afogada em trabalho, embora consiga, ainda assim, algumas horas de puro prazer: ir ao cinema esta noite, ir à SUGGIA na segunda-feira, porque desejo a sua música para me estimular e inspirar.”

Em nota de rodapé: (GUILHERMINA SUGGIA, 1888-1950, a célebre violoncelista portuguesa, acompanhada pelo seu compatriota José Viana da Mota, deu um concerto em Wigmore Hall no dia 3 de Novembro de 1924). Tocaram, sabe-se, as duas sonatas de Brahms, a em “mi menor” e a em “fá maior”.


Também no livro THE ART OF DORA CARRINGTON, da autoria de Jane Hill, Londres, The Herbert Press, 1994, existe uma referência à nossa violoncelista (a vida de Dora Carrington foi levada ao cinema – CARRINGTON – com Emma Thompson na protagonista).

Página 26 (traduzo): "em 1912, quando frequentava o 2º ano da Slade, Carrington começou a ter encomendas e a arranjar alunos. Um estúdio em Chelsea custava então cerca de 10s. por semana e cada lição rendia-lhe 5s.
A sua determinação em ser independente era tal que chegou a considerar a hipótese de aceitar o lugar de professora de desenho no liceu de St. Helen, em Abington. Mas, por temperamento, era-lhe impossível ter um emprego fixo, pois tal significaria o fim da sua ambição de se dedicar apenas à pintura.
O que ela realmente necessitava era do incentivo da vida londrina: passar as manhãs na London Library e as tardes, até quase à noite, no seu estúdio – tomar chá com Augustus John num dos cafés belgas de Fitzrovia ou ouvir uma sonata de Bach tocada por Madame SUGGIA no Aeolian Hall ou a “Flauta Mágica” no camarote de Lord Esher’s na Royal Opera House”.

São apenas dois exemplos.
Creio que entre os outros componentes do chamado Bloomsbury Circle existirão muitos mais. Para os estudiosos de GUILHERMINA SUGGIA, que não sou, uma pesquisa nas correspondências e diários, quando os haja, de autores e artistas como Roger Fry, Duncan Grant, Mark Gertler, Lady Ottoline Morrell, Clive Bell, Lytton Strachey, Vanessa Stephen (a irmã de Virgínia Woolf) ou John Keynes, talvez traga resultados muito proveitosos.

Sem falar na leitura, ou releitura de toda a obra de Virgínia Woolf que, confissão sua, com SUGGIA contou para a inspirar e estimular.

Ora aqui está, porventura, o tema para uma interessante tese de doutoramento em literatura inglesa – “O violoncelo nos Livros de Virgínia Woolf” – ( e este violoncelo seria o de SUGGIA, que ninguém duvide!)
Mãos à obra!

Ana Maria de Almeida Martins, escritora-ensaísta

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maio 13, 2004

DEPOIMENTO DE UM ALUNO DE VIOLONCELO,da "ESPROARTE" de Mirandela

Olá. Em primeiro lugar gostaria de me apresentar. Chamo-me Zé João, tenho 15 anos e resido em Mirandela, minha terra natal.

Frequento o 10º ano na "Esproarte", Escola Profissional de Arte e música de Mirandela, no naipe de Violoncelo. Já frequentei um curso de verão com a prof. Madalena de Sá e Costa e com o prof. Paulo Gaio Lima, com este último alguns estágios.

Agora passo a agradecer a vossa página, muito especialmente por se tratar dessa Grande Senhora, " Guilhermina Suggia". O fascínio pela sua vida começou há dois anos quando passava na rua da Alegria e Marquês, no Porto e o meu pai me mostrou a casa de uma violoncelista portuguesa, de renome internacional.
Aquele ar desprezível da casa, com as cortinas certamente de origem a esvoaçar, foi motivo de diálogo em família, sobre o menosprezo que no nosso país se dá a grandes vultos, elogiando figuras fúteis e sem qualquer valor moral, artístico, cultural, ex. "Residentes do Big ...".

Brevemente terei de realizar a minha prova de aptidão profissional (PAP), para conclusão do curso de instrumento nesta escola. Gostaria de tratar a vida e obra de Guilhermina Suggia.

Gostaria e agradecia que me dessem directrizes para pesquisa de materiais sobre a celebridade em questão.
Também gostaria que me informassem sobre a editora dos livros “Guilhermina Suggia - A sonata de Sempre” e “Guilhermina Suggia ou o Violoncelo Luxuriante”, de Fátima Pombo.
Grato pela colaboração que me estão a prestar já com esta página e por se fazer jus a tão notável Senhora.
Com os melhores cumprimentos e ao vosso dispor

josé joão.

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maio 07, 2004

TESTEMUNHO DE UM LEITOR, EX-ALUNO DO CONSERVATÓRIO DO PORTO

É sempre bom existirem pessoas preocupadas na divulgação de personalidades Portuguesas que na área da Música notabilizaram Portugal, quer no ensino e divulgação Musical Nacional, quer na vertente do seu contributo para o Mundo!

De facto, não ficava indiferente quando eu tinha algumas aulas de Piano na Sala Guilhermina Suggia no Conservatório do Porto (onde nos anos 90 ainda existia o seu Violoncelo numa "Cúpula de vidro"!...será que ainda lá está...?).

Ainda na semana transacta eu estava a falar com uma personalidade Diplomática em Genève (por razões profissionais) e veio à conversa o nome desta violoncelista e particularmente o do Mestre Vianna da Motta (que foi professor naquela cidade com notável êxito)!
Claro que a minha satisfação aumentou uma vez que tirei o Curso Superior de Piano no Porto com a mais notável discípula do Mestre (na minha humilde opinião) Maria Manuela Araújo!!!

Não querendo fugir ao seu assunto, deixo o meu testemunho do exame final com a máxima classificação do José Augusto Pereira de Sousa , com o acompanhamento deslumbrante de Manuela Araújo!

Por fim deixe-me registar-lhe que visitando o Conservatório do Porto poderá ver Salas com o nome da Guilhermina Suggia, da Manuela Araújo e o Salão Nobre com o de Vianna da Motta!


Manuel Pimentel Fonseca


Meu Caro senhor,
Agradecemos as suas simpáticas palavras que acabam por ser um estímulo para continuarmos este nosso trabalho.

Quanto ao violoncelo Montagnana que GUILHERMINA SUGGIA deixou em testamento para ser instituído o prémio SUGGIA, a ser atribuído anualmente ao melhor aluno da classe de violoncelo do Conservatório de Música do Porto melhor fora que, tal como o Stradivarius, o deixasse a Inglaterra. Digo isto não com anti-patriotismo, porém com muita mágoa. O Montagnana é, segundo os entendidos, um instrumento equiparado em tudo (mesmo no preço) ao Stradivarius. Suggia deixou o desejo expresso no seu testamento de que o violoncelo fosse vendido pela CMPorto – de quem dependia nessa altura o Conservatório de Música do Porto, e com o produto dessa venda fosse instituído o prémio. Caso o Conservatório deixasse de estar sob a alçada da CMPorto a administração do bem passaria para a entidade que o tutelasse para que o prémio continuasse a ser atribuído.
A Câmara Municipal do Porto estipula um valor de 550 contos ao violoncelo, faz uma compra, que evidentemente não é paga (Se estou errado que alguém me corrija) e em 53 anos (Suggia morreu em 30/7/1950) o prémio é atribuído 5 vezes. CINCO VEZES! O valor do prémio foi o correspondente a 3% da importância dada pela CMPorto ao violoncelo.
O Montagnana que, apesar de não ter sido pago (que me corrijam se estou enganado) é legalmente propriedade da CMPorto, que o tem fechado num cofre-forte no Museu Soares dos Reis, sem ser visto e, o mais importante, sem ser tocado. Está provado por técnicos especializados que a inactividade dos instrumentos prejudica o seu som. Quem e como se pode resolver isto?
Será que as autoridades não entendem que um bem como o Montagnana não é propriamente a coroa do D. João V? Deve ser usufruído por violoncelistas e público. E as decisões testamentárias devem ser cumpridas, sob pena de sermos desleixados, corruptos, traidores. A memória de quem tanto honrou este país merece respeito.
Oxalá nós merecêssemos os valores que nos honram. A sua memória ainda honra o seu país! Que nós o sentíssemos como sentem os ingleses!

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maio 06, 2004

TESTEMUNHO DO PROF HENRIQUE FERNANDES

Foi no Inverno de 1943 que tive a oportunidade de, pela primeira vez e ao vivo, ouvir GUILHERMINA SUGGIA.

Nessa noite memorável, com foros de acontecimento excepcional no meio musical lisboeta, no Teatro Nacional de S. Carlos, apresentava-se a consagrada violoncelista ao lado de outro grande intérprete, o maestro Sir Malcolm Sargent, que dirigia a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional.

Num deslumbramento dificilmente descritível, admirei a sua versão do Concerto de Dvorak, revelado numa plenitude de recursos tão exuberantemente demonstrados no arrebatamento das passagens brilhantes, como na contenção inteligente das páginas mais íntimas.

Esta emoção repetiu-se alguns anos depois quando me foi dado assistir a um recital seu onde incluía no programa, além de outras obras, a Sonata em Lá maior, de César Franck, na sua versão original para violoncelo solo, a 3.a Suite para violoncelo solo, de J. S. Bach (o seu autor predilecto) e ainda a Dança Ritual do Fogo, do Bailado «O Amor Bruxo», de Manuel de Falla.

Afortunadamente, ofereceu-se-me assim o ensejo de apreciar algumas das suas realizações mais instantemente reclamadas e aplaudidas por todos os auditórios.
Escusado será dizer que, a partir de então, não mais esqueci o fascínio dessas interpretações.
E quem poderia esquecer a perfeição da sua técnica que tudo vencia sem esforço aparente?
Como esquecer a incomparável sonoridade conseguida através de um soberbo e elegante domínio do arco?
O vigor do seu estilo inconfundível, misto de paixão, sensibilidade e inteligência?
E, enfim, a sua presença senhoril, dominando o palco e a assistência, tal como a imortalizou no magnífico quadro da «Tate Gallery», de Londres, o pintor Augustus John.

A grande violoncelista exerceu também a nobre missão de ensinar e transmitir a outros a sua arte, o seu saber.

Guilhermina Suggia tinha o dom de nos elevar ao sublime com uma inata capacidade de exprimir a essência da música, como se ela própria e o violoncelo fossem um só corpo vibrando em uníssono!

Henrique Fernandes (violoncelista e professor de violoncelo)

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abril 29, 2004

3 NOMES GLORIOSOS

“...outros dois artistas que, como Vianna da Motta, têm adquirido nos centros artísticos mais cultos, um nome glorioso, mercê dos seus méritos que os distinguem, são o notabilíssimo cantor Francisco de Andrade e a insigne violoncelista D. GUILHERMINA SUGGIA.”

Do Livro “Os GRANDES PERÍODOS DA MÚSICA” de J. Neuparth, 1911

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abril 28, 2004

TESTEMUNHO DE ISABEL CERQUEIRA MILLET(violoncelista, aluna de G.SUGGIA)

Porto, 26 de Abril de 2004

É com grande prazer que escrevo algumas palavras sobre a grande artista que foi GUILHERMINA SUGGIA.

Foram 11 anos (de 1939 a 1950), em que tive momentos de grande emoção e beleza, tanto ouvindo os seus concertos, como assistindo a inesquecíveis ensaios, em que era acompanhada pelas pianistas Ernestina da Silva Monteiro ou Maria Adelaide Freitas Gonçalves, suas colaboradoras habituais.

Nunca poderei esquecer a sonoridade única e expressiva, que fazia vibrar de emoção quem a escutava.

Extraordinariamente extrovertida quando interpretava, por exemplo, Dvorak ou M. De Falla, etc., mas também contida e mesmo severa nas sonatas de Beethoven, Brahms, ou as suites de Bach.

É impossível não mencionar também as suas lições em que a par de uma grande exigência interpretativa, nos ajudava a resolver as nossas dificuldades com conhecimento ímpar.

Foram 11 anos que terminaram com a sua morte, em que pude não só admirá-la como Artista, mas também como grande amiga que tive a sorte de conhecer, e que fez com que toda a minha vida tenha sido dedicada ao violoncelo.

ISABEL CERQUEIRA MILLET (violoncelista, aluna de Guilhermina Suggia)

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abril 27, 2004

TESTEMUNHO DE ZARA NELSOVA

ZARA NELSOVA, violoncelista naturalizada americana, nascida em Winnipeg em 1918, descendente de pais russos, foi professora na Juilliard School e Rutgers University nos Estados Unidos e também na Royal Academy of Music , de Londres.

Eu sabia que após a morte de Guilhermina Suggia, num concerto em sua memória organizado pela Royal Academy of Music-Londres, ZARA NELSOVA tocou um andamento do Concerto de Elgar.

ZARA NELSOVA, violoncelista naturalizada americana, nascida em Winnipeg em 1918, descendente de pais russos, foi professora na Juilliard School e Rutgers University nos Estados Unidos e também na Royal Academy of Music , de Londres.

Eu sabia que após a morte de Guilhermina Suggia, num concerto em sua memória organizado pela Royal Academy of Music-Londres, ZARA NELSOVA tocou um andamento do Concerto de Elgar.

Depois das minhas deambulações pelo Porto em busca de documentos sobre SUGGIA, da casa onde viveu e morreu Suggia. Depois de me perguntarem se Guilhermina Suggia era um programa para computadores, de perguntar a dezenas de pessoas que me pareciam poderem saber onde morou Suggia e nem uma única sabia quem tinha sido GUILHERMINA SUGGIA, resolvi escrever a Zara Nelsova a/c de Juilliard School em jeito de desabafo, não pensando sequer numa resposta.

Passado cerca de um mês recebi a carta que transcrevo a seguir.
(Zara Nelsova viria a morrer em 23 de Outubro de 2002.)


“Os meus agradecimentos pela sua carta e as minhas desculpas pelo atraso na resposta.

SUGGIA foi uma das grandes intérpretes do seu tempo. Ouvi-a tocar quando eu tinha 10 anos de idade. Conheci-a pessoalmente em Londres cerca de um ano antes da sua morte. Ela ouviu-me tocar através da rádio de Londres o concerto de Schumann e encontramo-nos em casa de amigos comuns.

Arranjou-me concertos em Lisboa com orquestra e um recital no Porto. Infelizmente, morreu uma semana antes de eu chegar. Fui ao cemitério pôr flores no seu túmulo, com um grande desgosto.

Ela foi uma grande inspiração no mundo da música e deu enorme prazer a milhares de pessoas que a escutaram.

NÃO POSSO ACREDITAR QUE SEJA ESQUECIDA EM PORTUGAL! NO SEU PRÓPRIO PAÍS.
CERTAMENTE QUE NUNCA SERÁ ESQUECIDA POR QUALQUER VIOLONCELISTA QUE A TENHA ESCUTADO.

Zara Nelsova”


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abril 21, 2004

2 COMENTÁRIOS DE UM EX-ALUNO DO CONSERVATÓRIO

Isto não é um comentário, é simples conversa a propósito.
Fui aluno do Conservatório de 1934 a 1943.
O S. Carlos (tal como a Sociedade de Concertos e o Circulo de cultura Musical) oferecia uma porção de bilhetes à Associação dos Alunos do Conservatório, para cada concerto (e espectáculos de ópera).
Fui um beneficiário regular dessas ofertas.

Lembro-me de ter assistido então a um concerto da Guilhermina Suggia, no S. Carlos. Deve ter sido o recital de homenagem ao General Jordana.
Não sei dizer de que cor era o vestido da artista, mas lembro-me que "dava nas vistas". Quando sentada quase desaparecia sob os muitos metros de pano.
Mas mais do que o vestido impressionaram-me os movimentos dos seus braços, que me pareceram muito exagerados.
Muito novo ainda, a Guilhermina Suggia deu-me a impressão de gostar de "dar espectáculo". Suponho que terei saído do S. Carlos incomodado, a pensar que para se tocar bem violoncelo não é preciso tanto esbracejar...
Não tenho palavras para descrever o prazer do reencontro que o vosso weblog me proporcionou.
E a anedota dos 60 contos é engraçadíssima.
Vou visitar todo o vosso weblog.
Fernando Marques Pinheiro.

11/4/04


Há poucos dias um jovem que assistiu a um concerto de Guilhermina Suggia no Teatro de S. Carlos, aludiu aqui, em “Suggia, Ferro e Salazar”, a dois pormenores que ficaram gravados na sua memória visual : o vestido da artista, que “dava nas vistas”, e os movimentos dos braços, que lhe pareceram “exagerados”. Do que ouviu, do que escutou, nada disse. Ainda escutava mal. Guilhermina Suggia deixou-o indiferente.
Mas quase setenta anos depois surgiu este weblog e com ele a indiferença desse jovem foi quebrada. Surgiu a curiosidade e logo a seguir a admiração.

Hoje proponho um pequeno exercício a realizar dentro deste weblog.
Depois de, com “Suggia, Ferro e Salazar”, se imaginar o ambiente que rodeou o concerto de Suggia realizado no S. Carlos conjuntamente com banquetes, recepções, tourada à antiga portuguesa, etc., tente-se imaginar o ambiente num outro concerto, este em Londres, lendo-se as palavras da própria Guilhermina Suggia que se encontram neste weblog em “Carta a uma amiga sobre o concerto de Albert Hall”.
Eis algumas dessas palavras :
(...) “o meu concerto no Albert Hall foi triunfal (...). (...) estava triste, o que comoveu muita gente que tinha lágrimas nos olhos – incluindo a Rainha” (...).
“A Rainha, com a princesa Margaret e a sua corte, recebeu-me no fim, tendo para mim palavras comovedoras, dizendo que nunca nenhum artista a tinha entusiasmado tanto e que era preciso eu vir mais vezes aqui pois que os ingleses me adoravam. Bebemos champanhe (...) e ela bebeu à mais velha aliada” (...).
“Estava triste”, escreveu Guilhermina Suggia a propósito da maneira como tocou neste concerto.

Veja-se agora também neste weblog, em “Guilhermina Suggia e Vianna da Motta”, a alusão do Dr. João de Freitas Branco a intérpretes “intelectuais” e intérpretes “impulsivos”, colocando Guilhermina Suggia na categoria dos “impulsivos” e Viana da Mota na dos “intelectuais”.
Mas note-se que, se por um lado Freitas Branco classifica Suggia como “impulsiva”, por outro lado não omite o facto da artista fascinar o público pela fibra da sua “interpretação” - tal como Viana da Mota obtinha as suas coroas de glória ao “interpretar”, como também diz Freitas Branco, o pensamento beethoveniano ou de Bach.

Possuidora de uma enorme sensibilidade, Guilhermina Suggia terá, de facto, parecido algumas vezes arrebatada, ou incontida, ou...“impulsiva”..., mas também o Dr. Luís de Freitas Branco aponta nela “a elegância da linha melódica, a vivacidade do ritmo, a graça da simples inflexão da frase”. E isto revela uma natural contenção.

Resta que, como é evidente, entre o calor da sensibilidade e a frieza do intelecto, a escolha é livre, para quem se dispõe a ouvir.
Fernando Marques Pinheiro.

18/4/04



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abril 18, 2004

Testemunho de LUIS DE FREITAS BRANCO

GUILHERMINA SUGGIA, portuguesa, nascida no Porto é, em toda a história da música, a senhora que mais se distinguiu como instrumentista de arco, e possui o som de violoncelo mais formoso e expressivo de que há memória.

GUILHERMINA SUGGIA é um dos vultos geniais da história da música portuguesa.”


“HISTÓRIA POPULAR DA MÚSICA” de Luís de Freitas Branco, 1943

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abril 17, 2004

Espanha e Portugal

"... não é preciso que em Espanha e Portugal compositores e intérpretes vivam de costas. Temos Casals, Cassadó, Casaux, uma SUGGIA..."

"Contribución al estudio de la música española y portuguesa", de SANTIAGO KASTNER, 1941

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UMA CELEBRIDADE MUNDIAL,NASCIDA NO PORTO

GUILHERMINA SUGGIA

O Porto pode orgulhar-se de ter nascido aqui uma artista extraordinária, que alcançou, em todo o mundo, uma fama, quase ímpar.
GUILHERMINA SUGGIA nasceu nesta cidade no último quartel do século passado – ou mais precisamente a 27 de Junho de 1885.
Aqui faleceu também a 31 de Julho de 1950 (1), depois de uma carreira cheia de triunfos artísticos que ainda estão na memória de muita gente.

Seu pai, Augusto Suggia, professor de violoncelo, tinha grande estima por meu avô, 1º Visconde de Villar d’Allen, que tanto trabalhou em prol da música e dos músicos e que, por isso mesmo, o auxiliara e protegera, especialmente no início da sua vida profissional.
Quando a pequenina Guilhermina, aos 6 anos - ia principiar a aprender violoncelo com seu pai - meu avô, que possuía um violoncelo de pequeno formato (único que existia no Porto), sempre na ânsia de estimular o estudo da música, logo lhe emprestou esse invulgar instrumento. Dele se serviu a futura grande artista durante alguns anos. É desse período inicial uma curiosa fotografia em que GUILHERMINA SUGGIA figura com este pequeno violoncelo, e ao lado, sua irmã Virgínia, que a acompanhava ao piano (in “O Tripeiro”, Dezembro de 1963).

É desnecessário alongar-me aqui sobre dados biográficos desta artista pois, nesta mesma revista, ainda não há muitos anos, sobre ela escreveu, com interesse e copiosa soma de detalhes, um ilustre colaborador - Rebelo Bonito.

No arquivo da minha casa existe o programa do seu 1º concerto, no Orfeon Portuense (Teatro Gil Vicente), em 22 de Maio de 1896, portanto antes de completar 11 anos. Acompanhou-a ao piano sua irmã “menina” Virgínia. Colaboraram: “menina” Leonilde Moreira de Sá, D. Irene Fontoura, D. Amélia Marques Pinto e D. Laura Barbosa. Augusto Suggia dirigiu a orquestra.

Em 1905 já o grande violoncelista David Popper escreveu num álbum de SUGGIA: “ To the greatest of living cellists, Guilhermina Suggia, from her aged confrère, D. POPPER.” Ninguém podia dizer mais dum “oficial do mesmo ofício”...

Sabendo que eu possuía o pequeno violoncelo no qual iniciara os seus estudos - e de que tinha tão gratas recordações - a nossa ilustre conterrânea mostrou grande desejo de o tornar a ver, ao que imediatamente, e com muito gosto, acedi.

Expôs-se então - de acordo com a genial artista - o curioso instrumento, rodeado pela colecção dos seus discos, na montra da Agência da “His Master’s Voice” (que tinha o exclusivo das suas gravações) e que eu então dirigia em Portugal. Foi isto em 1930 e SUGGIA não escondeu o grande prazer espiritual que sentiu ao relembrar os saudosos tempos da sua iniciação na arte musical. Ofereceu-me nessa ocasião a fotografia autografada que acompanha estas despretenciosas notas. Para se poder avaliar o tamanho do violoncelo, fotografei-o ao lado do meu “Forter”, que foi também pertença do meu avô e seu instrumento preferido; dele também me utilizei nos remotos tempos da minha aprendizagem, a que já atrás me referi, mas que cedo infelizmente abandonei, limitando-me apenas a ouvir os outros – mas isto devotadamente – primeiro por diletantismo e mais tarde – durante mais de 30 anos – até por dever profissional.

Como certamente toda a gente que teve a felicidade de assistir aos concertos de GUILHERMINA SUGGIA, recordo ainda com saudade esses momentos invulgares. É que encantava ouvi-la tocar, e talvez não menos vê-la tocar, tal a expressão e sentimento que ela imprimia às suas execuções.

É de justiça recordar aqui, ter sido a Rainha Senhora D. Amélia quem, no início da sua carreira, lhe facultou uma bolsa de estudo para a nossa artista se aperfeiçoar no estrangeiro, antevendo assim as suas extraordinárias possibilidades.

Todos sabem, possivelmente, o prestígio e a fama que SUGGIA alcançou, dum modo especial, em Inglaterra, onde a alta-roda a acolhia carinhosamente.

Disso posso dar um curioso testemunho: - Uma noite, na primavera de 1927, estando em Londres, fomos (minha mulher e eu) à Royal Opera House – Convent Garden. Ia à cena o “Rigoletto”, tendo como figura principal o tenor Dino Borgioli, que no nosso Teatro de S. João tantas vezes foi calorosamente aplaudido. Pouco antes de levantar o pano, observámos do nosso camarote um certo movimento e sussurro na plateia, onde algumas pessoas se levantavam ou, pelo menos, esboçavam um gesto de cumprimento a alguém que avançava pela coxia central para se dirigir a um “fauteil” de orquestra, numa das primeiras filas: era GUILHERMINA SUGGIA que, envolta num elegantíssimo e rico agasalho de peles – e inconfundível na sua maneira de ser e de se apresentar – correspondia, sorridente, às senhoras e homens que a saudavam.

Assim verificámos, com um certo orgulho de portugueses, o prestígio e estima de que a nossa Artista ali gozava.

Villar d’Allen, Março de 1970

Do livro “O porto e a Música” de Alfredo Ayres de Gouveia Allen, Porto 1970

(1)Refira-se que G. Suggia morreu a 30 de Julho de 1950 e não 31 como é mencionado.- VM

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abril 16, 2004

Valorização dos nossos Artistas Músicos

A propósito de dois notáveis instrumentistas que recentemente se fizeram ouvir nos chamados concertos de Outono do Tivoli: o pianista Artur Rubinstein, de fama mundial, e o violoncelista Maurice Gendron, no início de uma carreira que se antevê gloriosa, apraz-nos recordar o nome de dois artistas portugueses: José Viana da Mota e Guilhermina Suggia que, nas obras ora executadas, o 4.° Concerto para piano de Beethoven, e os Concertos para violoncelo de Haydn e Dvorak, brilharam por toda a parte como intérpretes inigualáveis.

Falecidos há pouco tempo, não pertencem a um passado tão longínquo que não os possamos recordar ainda, e lembrá-los do mesmo passo às gerações novas, com o orgulho e o respeito que nos devem merecer os verdadeiros valores nacionais, aqueles valores que, na nossa actual e cada vez mais pronunciada idolatria pelo artista estrangeiro (e qualquer que ele seja, ilustre, de facto, ou simples prestidigitador), tendemos lamentavelmente a subestimar ou, pelo menos, a considerar sob o ângulo de uma admiração reticente, se não meramente formal. Viana da Mota e Guilhermina Suggia foram dois dos mais excelsos artistas músicos desta terra. Hoje todos o dizem, ou todos se sentem na obrigação de o dizer; mas, quando vivos, nem todos o pensavam: o desdém, a indiferença e não raro até o abocanhamento foram durante muito tempo os únicos prémios com que galardoámos o seu talento – e o caso de Viana da Mota, nomeadamente, é sintomático, até mesmo na morte... Não foi aqui que eles conquistaram as palmas da sua glória, não. O estrangeiro reconheceu-lhes o valor excepcional muito mais cedo do que nós.
Aqui, os nossos valores passam-nos à porta, cruzamos com eles nas ruas, mas só damos por eles tarde demais.
Nós somos assim: muito patrioticamente orgulhosos das nossas glórias, mas as nossas glórias são quase sempre... póstumas. O pior é que não temos emenda, o pior é que a indiferença, o menosprezo do artista nacional vivo continua a ser a nossa atitude corrente, o pior é que continuamos a passar certamente por muitos e indiscutíveis valores que só reconhecemos depois do seco necrológio jornalístico ou do quantas vezes banal IN MEMORIAM.
Na música, possuímos aí uma dezena de artistas - instrumentistas de arco, pianistas, cantores – de indiscutível mérito, reais talentos que não desmerecem da tradição dos nossos grandes concertistas e cujo confronto com tantos dos virtuosos estrangeiros que nos visitam, e que nós tão entusiasticamente acarinhamos, não pode resultar em seu desabono. Mas quê – já lá dizia o Nobre: Que desgraça nascer em Portugal! – quem dá por eles, que oportunidades se lhes oferecem (as que lhes apresentam são quase sempre de favor...), que estímulos proporcionamos à sua arte, que fazemos para os valorizar, como os consideramos, como os estimamos?

Há para aí várias sociedades de concertos, outras se criam, os empreendimentos musicais públicos pululam, as temporadas de concertos sucedem-se aqui e ali: mas em vão se procuraria que deste intenso e algo descontrolado movimento algum benefício resultasse para os nossos intérpretes musicais. O virtuoso estrangeiro – bom, mau ou sofrível – é que é a base, o chamariz, o engodo de toda esta actividade, no fundo, e atentamente vistas as coisas, bem fictícia sob o ponto de vista de uma verdadeira cultura. O público assim o quer, os empresários condescendem (na verdade, não se sabe bem se não são os empresários que o querem, e se não é o público que condescende)... Quanto aos artistas nacionais, oh! Esses têm tempo de se afirmar, de singrar, de brilhar... post mortem.
Não seria possível, não seria desejável, não constituiria um dever pensar, estudar, elaborar quaisquer medidas tendentes a proteger o artista músico nacional, a garantir-lhe a apresentação pública, a proporcionar-lhe o rendimento de que em tantos casos é capaz, ainda que com sacrifício do virtuoso estrangeiro e sem que com isso fossemos cair em feio pecado de xenofobismo?
Cremos que já alguma coisa se tentou neste sentido. Desgraçadamente, o que parece é que as obrigações decorrentes do estatuto proposto se escaparam habilidosamente pelas lassas malhas da condescendência e da tolerância – e os nossos intérpretes musicais aí continuam à espera que queiram reparar neles ou que qualquer mera e degradante oportunidade de favor se lhes depare.

Fernando Lopes Graça (do livro “A Música Portuguesa e os seus Problemas” 1952)

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abril 15, 2004

Intérpretes portugueses

Interpretação musical.— Além dos intérpretes portugueses já referidos, como o violinista Sá Noronha, o pianista Artur Napoleão, o insigne Viana da Mota, Óscar da Silva, o maestro David de Sousa, notabilizaram-se o barítono Francisco de Andrade (1859-1921), seu irmão António (1854-1942), a soprano Maria Augusta Correia da Cruz (1869-1901), Francisco de Lacerda, como chefe de orquestra, e a violoncelista Guilhermina Suggia (1878-1950). Todos estes artistas fizeram carreira internacional e alcançaram reputações justificadas.
Para se ajuizar da craveira de Francisco de Andrade como Intérprete de ópera bastam estas palavras escritas por Bruno Walter nas suas memórias: «outra realização que nunca esquecerei foi o fascinante Don Glovanni de Andrade, um dos raros exemplos em que um artista parecia, por natureza, predestinado ao papel.

Do Livro “História da Música Portuguesa” de João de Freitas Branco


(Refira-se que Suggia viveu entre 1885 e 1950 e não entre 1878-1950 como referido-vm)

Publicado por vm em 01:35 AM | Comentários (0)

abril 14, 2004

GUILHERMINA SUGGIA E VIANNA DA MOTTA

Para além-fronteiras, foi em Inglaterra que se prestou Inteira justiça ao talento extraordinário de GUILHERMINA SUGGIA, que tinha algo de genial. Se é legitima a distinção entre intérpretes intelectuais e impulsivos, nenhuma comparação a pode ilustrar melhor do que a que se fizesse entre Viana da Mota e Guilhermina Suggia.

Exceptuadas as peças de bravura, nomeadamente as de Liszt, em que Viana da Mota era magistral, os grandes monumentos do pensamento beethoveniano, ou de João Sebastião Bach, foram as coroas de glória do eminente pianista, enquanto a inconfundível violoncelista portuense atingia o seu máximo em páginas como os concertos de Saint-Saëns, de Lalo, Dvorak ou de Elgar, como as Variações de Boëllmann ou, no género miniatural, a transcrição da Habanera, de Ravel. Fascinava então o público pela fibra da interpretação, a elegância da linha melódica, a vivacidade do ritmo, a graça de uma simples inflexão da frase, tudo como se fosse inteiramente espontâneo, transfigurando o imenso labor de preparação necessário a qualquer artista de craveira.
Viana da Mota e Guilhermina Suggia formaram escola em Portugal e a sua acção pedagógica reflecte-se hoje em considerável número de pianistas e violoncelistas de merecimento, alguns em vias de carreira internacional.


Do livro “História da Música Portuguesa” de João de Freitas Branco

Publicado por vm em 12:29 AM | Comentários (2)

abril 10, 2004

Testemunho de GEORGE WOOD

Em “Memórias” de George Wood (1999), referentes à década de 1930, encontra-se uma referência elogiosa ao talento de Suggia, a par dos de Caspar Cassado, Pablo Casals, André Navarra, Gregor Piatigorski, Beatrice Harrison e outros que ele diz ter conhecido e escutado, com prazer, naquela época.

tradução de Ana Maria Costa

Publicado por vm em 01:27 AM | Comentários (2)

abril 05, 2004

Histórias de Abandonos

O modo como movimentava o arco constituía todo um tratado gestual. «O meu arco começa no meio das costas»,dizia. E isso sentia-se. Percebia-se na magnificência da atitude assumida. Além disso, tinha uma relação quase pessoalizada com os violoncelos. Um Stradivarius, um Lockey Hill e um Montagnana. Instrumentos valiosos doados em testamento a diferentes instituições.

O modo como movimentava o arco constituía todo um tratado gestual. «O meu arco começa no meio das costas»,
dizia. E isso sentia-se. Percebia-se na magnificência da atitude assumida. Além disso, tinha uma relação quase pessoa-lizada com os violoncelos. Um Stradivarius, um Lockey Hill e um Montagnana. Instrumentos valiosos doados em testamento a diferentes instituições. O Montagnana, por exemplo, foi comprado pela Câmara Municipal do Porto e entregue ao Conservatório de Música desta cidade para patrocinar um Prémio Guilhermina Suggia. O produto da venda do Stradivarius serviu para patrocinar prémio semelhante em Londres. Acontece que no Porto, por questões burocráticas, há já vários anos ninguém é distinguido com o Prémio Suggia. Em Londres, todos os anos há um aluno premiado.
É apenas uma, entre muitas histórias de abandonos. A casa de Suggia é outra das recordações tristes. Chegaram a Leixões navios carregados com tapetes persas, biombos da China, móveis raros, lustres e papéis de parede, tudo comprado em Londres. Suggia quis ter no Porto a sua «home», como não se cansava de dizer.
A ideia era reproduzir o ambiente das mansões inglesas, e tê-lo-á conseguido. Hoje nada | resta. Pilar Torres não esconde a mágoa de ter visto que «alguém teve a coragem de colocar lá uma bandeira de leilão. A Câmara devia ter comprado aquele recheio fabuloso. Havia quadros de Malhoa, prenda da Rainha D. Amélia e da Rainha de Inglaterra. Hoje, se se quiser fazer uma Casa Guilhermina Suggia, não há quase nada».
E, no entanto, haveria tanto!

EXPRESSO, 18 de Janeiro de 1997

E, no entanto, hoje em Portugal, de Suggia, apenas resta para além dos 2 violoncelos, a casa onde viveu e morreu, na Rua da Alegria, nº 665. Não tem sequer uma placa que diga:” AQUI VIVEU E MORREU GUILHERMINA SUGGIA”
Nada. Silêncio, desconhecimento. Ignorância quase total acerca da mais importante figura da música do seu tempo.
Hoje a casa está à venda, será destruída e no seu espaço será construído um edifício que renda milhões. A única casa ainda de pé, onde Suggia viveu está à venda por 90.000 contos e ninguém a salva. Perde-se a oportunidade de se abrir uma CASA-MUSEU GUILHERMINA SUGGIA.
O violoncelo “Montagnana” que deixou para ser instituído anualmente um prémio ao melhor aluno de violoncelo do Conservatório do Porto, foi comprado pela CMPorto, tendo-lhe sido atribuído um valor de 550.000$00. Foram atribuídos, creio,5 prémios desde 1951. Muito provavelmente o valor do “Montagnana” hoje, daria para comprar várias vezes a casa.
Vai chegar um dia em que não haverá mesmo nada. E no entanto Suggia deixou tanto. Tanto que nós não merecemos.
Entrei numa livraria, na Rua dos Clérigos. Dirigi-me ao balcão onde estava um senhor distinto, bem vestido, com ar de quem não vendia só livros, também os lia. Perguntei se tinha alguma coisa sobre Guilhermina Suggia e ele perguntou-me:
Isso é o quê? Um programa de computadores?”
Assim mesmo. Tal e qual.
Expliquei quem tinha sido Suggia. Disse-me:
”Ah! talvez encontre na Rua Formosa, nuns alfarrabistas.”
Corri para a Rua Formosa, entrei no primeiro. Perguntei:
”Tem alguma coisa sobre a Guilhermina Suggia?”
E com um ar muito simpático o senhor disse-me :
” Olhe, agora pergunte-me em português”.
“Não sabe quem foi Guilhermina Suggia?”.
“Não faço ideia”.
Lá lhe disse. E como estava perto da Rua da Alegria subi para ver a casa. Cheguei ao nº 665. O que havia sido um jardim era agora um cemitério de automóveis. Bati à porta duma casa abandonada sempre a imaginar Suggia lá dentro. Acho mesmo que a escutava.
Eu queria ouvir alguém dizer: FOI NESSA CASA QUE SUGGIA VIVEU. Perguntei desesperadamente a dezenas de pessoas que passavam na rua com idade que eu julgava poderem ter conhecido Suggia. Ninguém sabia onde ela tinha vivido.
“Mas sabe quem foi Suggia?” Todos a quem perguntei, sem excepção, disseram
“Não imagino quem tenha sido”
Eu estava torcido. Eu queria que alguém me dissesse que tinha sido naquela casa. Lancei um olhar sobre as casas e corri para uma que tinha ar de ser habitada. Nº 645. Toco à campainha. Era um rez-de-chão alto. Oiço abrir uma janela e fiquei cheio de esperança. Perguntei:
“A senhora sabe se foi nesta casa que viveu Guilhermina Suggia?”(Só queria ouvir dizer:”Foi no nº 665”)
“Ai não faço ideia. Mas olhe, antes de nós não viveu. Nós vivemos aqui há 8 anos e conhecemos os senhores que viviam cá”
“Mas sabe quem foi Guilhermina Suggia?”
“Não senhor. Não faço ideia”

Desci a correr a Rua da Alegria. Entrei numa papelaria, comprei um bloco de cartas. Sentei-me num café e escrevi a ZARA NELSOVA professora na Juilliard School em Nova Iorque. Sabia que ela tinha tocado em Londres num concerto organizado pela Royal Academy of Music em 1950, em homenagem a Suggia. Escrevi sofridamente as minhas tristes aventuras desse dia.
Quase ninguém sabe quem foi GUILHERMINA SUGGIA! Que ingrata terra!


Publicado por vm em 01:18 AM | Comentários (2)

abril 02, 2004

Testemunho de MADALENA SÁ E COSTA

Penso que deveriam haver mais homenagens e concertos em memória da grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA. A sua memória dever-se-ia manter sempre viva.

Em 1950, ano em que ela faleceu, o Conservatório realizou nos jardins um concerto com quatro violoncelos em que toquei com Celso de Carvalho, Carlos Figueiredo e Luís Millet. Mais tarde a Universidade realizou um concerto com vários violoncelistas, em que eu também toquei. Em 1985, ano Mundial da Música a Secretaria de Estado da Cultura convidou-me a colaborar num concerto realizado no Ateneu Comercial do Porto em que tocaram 12 violoncelistas as Bachianas Brasileiras, de Villa-Lobos, dirigidas pelo Dr. Manuel Ivo Cruz. Em 2001 houve um concerto para fazer lembrar a memória de GUILHERMINA SUGGIA, no Teatro Rivoli, com o magnífico violoncelista Mischa Maisky.
Ainda a Fundação Engº António de Almeida mandou esculpir um busto de SUGGIA que está num dos jardins da Cidade. Tudo isto, a meu ver, é pouco, quando se foi tão grande. Sobretudo acho que o Conservatório de Música do Porto deveria não esquecer a fantástica oferta que Suggia fez aos alunos daquele estabelecimento de ensino.
Lembrei-me de oferecer ao Conservatório este livrinho que hoje lhe estou a enviar(1) e juntamente escrevi uma carta à Presidente da Direcção do Conservatório, sugerindo a instituição na Escola, de um dia, cada ano, "GUILHERMINA SUGGIA”. Estou satisfeita que de agora em diante o dia 21 de Maio será de música pelos alunos para ser lembrada a grande violoncelista. Também o violoncelo “Montagnana” é, para mim, outro problema. A Câmara tirou-o do Conservatório e levou-o para o Museu Soares dos Reis. Deveria ser garantida a sua manutenção sonora. Ser tocado constantemente pelos premiados “Guilhermina Suggia”.
Alguém me pediu que escrevesse um trabalho sobre a maneira como SUGGIA tocava, porque não se conhece nada específico. É claro que não se pode dar uma ideia em palavras. Mas estou a tentar fazer um trabalho porque a ouvi muitas vezes com meus pais em privado e em concerto. E também com orquestra.
Foi tão grande o seu talento, a sua Arte, que a sua memória nunca devia ser apagada.


(1)trata-se do livro da autoria de Madalena Sá e Costa “Prémios Guilhermina Suggia do Conservatório de Música do Porto"

MADALENA SÁ E COSTA, violoncelista, professora de violoncelo (ex-aluna de Guilhermina Suggia)

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março 27, 2004

Faz agora 15 anos que morreu...

Faz agora quinze anos que morreu uma grande artista portuguesa. Raros amigos e admiradores a lembraram; e a que foi das melhores violoncelistas do seu tempo e assinalou com fulgores de talento a sua presença na musicologia das últimas décadas é hoje um valor arrumado entre os que o tempo quase apagou. Mas há esquecimentos que pesam como injustiças, quando não como ingratidões. Lembrar os que deixaram alguma coisa de si para nos tornar melhores — a nossos olhos e aos dos outros — para além de retribuição de um bem com simples acto de reconhecimento, é mostra de dignidade, sentido de valor humano, posição perante a vida a definir-se em cultura. E nós, que somos poucos, deveremos ter o cuidado de suprir pela qualidade a míngua da quantidade, para conseguir que um equivalha a muitos com a força e a virtude que fazem do homem o íntimo dos deuses. Honrar os que já foram e se tornaram grandes por seu merecimento é mantê-los presentes como afirmação de uma existência também nossa, pois nosso é o património que nos ficou; na sua glória ou na altitude que lograram atingir está com o nome deles o do povo a que pertenceram: a sobrevivência e continuidade no tempo como valor humano. GUILHERMINA SUGGIA além do prémio anual atribuído pelo Secretariado Nacional da Informação, crê-se não ser recordada como se devia a uma Artista que no estrangeiro, sobretudo na Inglaterra, soube servir a música e o seu país.


De rara precocidade, havendo recebido lições de seu pai, Augusto Suggia, já aos 13 anos fazia parte do quarteto de música de câmara do Orfeão Portuense como violoncelista, com executantes da estirpe de Moreira de Sá e Henrique Carneiro.
Logo os êxitos dos seus concertos se sucedem e a Rainha Dona Amélia concede-lhe uma bolsa de estudo para cursar na Alemanha. A seguir, e o jornadear pelas capitais do Mundo, cotando-se como das melhores intérpretes de Saint-Saëns, Lalo, Dvorak, Elgar, Boëllmann, Ravel. Na Inglaterra admiravam-na extraordinariamente e a Família Real dispensava-lhe especial estima. Os seus concertos atraíam o grande público e a sua arte singular dominava e fazia escola.
De forte, densa capacidade interpretativa, o arco abria estradas e claridades, em traços vivos, de notável sobriedade e firmeza, sem excluir a subtileza de um apontamento, o encanto de uma sonoridade. Tinha o sortilégio de urna presença que transfigurava e tudo fazia esquecer: estava ela, com o seu instrumento de magia, e o mundo maravilhoso que abria e revelava. Aconteceu mesmo que, findo um concerto, reinou o silêncio das grandes comoções, quase doloroso, até irromper o entusiasmo daqueles que a sua arte subjugara - e aguardavam mais, não querendo que passassem os momentos de embriaguez espiritual. E conta-se que umas estrangeiras de visita ao nosso país percorreram centenas de quilómetros para irem ouvi-la, dizendo depois que só para isso valia a pena vir a Portugal.
GUILHERMINA SUGGIA morreu no Porto, onde passou grande parte da sua vida e criou profundas amizades e dedicações.
Também se votou a coisas das artes e da cultura, mostrando particular interesse pela educação artística da juventude. E ao seu grande coração não era estranha a pobreza: ultimamente só abandonava o seu recolhimento para colaborar em obras de caridade. Isto, que sucedeu em vida, transpareceu também depois da morte, pois o seu testamento reflecte o quanto ela queria aos seus amigos (não esquecendo os de Inglaterra), aos servidores, aos jovens que vão para o futuro com a promessa de uma realização em humanidade. Há uma dívida em aberto para com esta grande artista portuguesa. É preciso saldá-la, honrando-lhe a memória, perpetuando o seu nome como bem merece. Isso também honrará quem o fizer, porque os homens e os povos valem, pelo que fazem e pelo modo como sabem apreciar os que, de algum modo, puderam dar expressão duradoura ao que neles há de superiormente humano. Assim os homens se aproximam do Homem e não se afastam do seu destino; é um modo de se dignificarem.

MIRANDA MENDES ( Diário de Notícias 28/4/1969)

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março 24, 2004

Testemunho de Maestro Manuel Ivo Cruz

Nos seus altos e baixos, a vida musical portuguesa tem encontrado, em todas as épocas, músicos do mais alto valor, que ultrapassam o ónus da nacionalidade e a projectam no exterior de forma indelével. Poder-se-á mesmo dizer que a presença portuguesa no dia a dia cultural europeu se deve prioritariamente ao talento dos nossos artistas músicos, compositores e intérpretes.
SUGGIA foi um desses seres de privilégio que nos colocaram naturalmente na Europa culta, muito antes da entrada dos nossos políticos nos gabinetes de Bruxelas ou de Strasburg.

O início da minha vida artística fez-se através do violoncelo; fui aluno de Mimi de Korth Brandão e depois, no Conservatório Nacional, de Mário Camerini; durante alguns anos fiz parte do naipe de violoncelos da Orquestra Filarmónica de Lisboa.
Esta informação destina-se apenas a indicar o peso da presença de SUGGIA na minha vida: mas dela me lembro desde a minha infância.
SUGGIA era então uma espécie de divindade mitológica, que por vezes chegava até nós como que descendo dos céus! O género de fascínio que mais tarde viriam exercer Maria Callas e Karajan.
A primeira vez que a vi foi no S. Carlos, num concerto de que já esqueci quem tocava e qual o programa; lembro-me somente que SUGGIA estava num camarote de 1ª ordem - olhava para o palco e eu via-a de perfil, perfeitamente desenhada contra a ligeira iluminação que vinha do fundo, imóvel, concentrada, atenta ao concerto. E eu atento àquele perfil magnífico, rasgado, dominador, cheio de força. Depois, no intervalo, já com as luzes acesas, a SUGGIA parecia uma rainha, sorrindo e respondendo discretamente a todos os que, cá debaixo, a cumprimentavam. Tornei a vê-la, mais de perto, no Conservatório Nacional; meu Pai, então Director, tinha-a convidado para professora e sei que SUGGIA ficou satisfeita com a hipótese; a sua ligação ao Porto e sobretudo a carreira de grande concertista internacional impediram porém a concretização desse plano.
Mas nas minhas memórias infantis, avultam sobretudo os seus concertos a que assisti no S. Carlos, em 1943, com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional dirigida por Sir Malcolm Sargent. Foi a 1ª vez que a vi tocar e guardo desses momentos uma recordação luminosa! Não só o som espantoso do seu violoncelo ressoa ainda na minha cabeça, como também me é inesquecível a sua presença em cena, arrebatadora, duma expressividade que ajudava o público a acompanhar e apreender as mais subtis “nuances” da obra que interpretava.
Nada lhe era indiferente, todo o frazeio era claro, talentosíssimo, musicalíssimo!
As Variações Sinfónicas de Boëllman, os concertos de Dvorak, Elgar e Saint-Saëns, nunca mais saíram do arquivo das minhas emoções.

Um dos aspectos mais duradouros e positivos das actividades de Suggia foi o de ter deixado uma escola de violoncelo perfeitamente caracterizada no Norte de Portugal, a Escola de SUGGIA.
Um exemplo recente disso é o facto de, quando da muito controversa criação, em 1988, da Orquestra da Regie Sinfonia, no Porto, enquanto os diversos naipes foram sobretudo preenchidos com músicos estrangeiros, dos quatros lugares então abertos, no naipe de violoncelos, três acabaram por ficar bem entregues a músicos portuenses, netos artísticos de SUGGIA: José Augusto Pereira de Sousa, Gisela Neves e Paula Almeida, que felizmente continuam hoje na Orquestra Clássica do Porto. Isto é significativo, mais ainda por se ter verificado numa conjuntura em que ser músico português levantava imediatamente injustas reservas. (1)
Em 1985, dirigi no Norte uma série de concertos comemorativos do centenário do nascimento de GUILHERMINA SUGGIA, por amável convite de Madalena Moreira de Sá e Costa, sua discípula directa e continuadora no Conservatório do Porto da sua grande escola. Reuniu-se nessa altura uma orquestra de violoncelos de alto nível, formada por discípulos e discípulos-netos de SUGGIA, entre os quais retive os nomes de Madalena Moreira de Sá e Costa, Isabel Delerue, Teresa Rocha, Isabel Cerqueira Millet, Arnould Allum, Gisela Neves, Vieira Duarte, Paula Almeida, José Augusto Pereira de Sousa, José Lobo...
Grande representante nortenho da escola de SUGGIA foi também Carlos Figueiredo, violoncelista de carreira muito notável, prematuramente desaparecido, de quem conservo a melhor recordação.
Mas outros discípulos de Suggia continuaram a sua escola em Lisboa, entre os quais o saudoso Filipe Loriente, Celso de Carvalho e Pilar Torres,(2) que muito felizmente a prolongou na sua cátedra do Conservatório de Lisboa.
Outro aspecto a salientar no fulgurante rasto de Suggia foi o seu entusiástico apoio à criação da Orquestra Sinfónica do Porto, em 1948.
Como espírito cultivado, mulher inteligente e cidadã europeia por direito próprio, SUGGIA tinha a noção de que uma vida musical estável exige a presença do organismo sinfónico, garante básico da profissão de músico e forte dinamizador de público. Sei que o seu empenhamento foi enorme: não só se apresentou como solista nos primeiros concertos da nova Orquestra como passou várias semanas a trabalhar o naipe de violoncelos, os seus jovens alunos, preparando o reportório sinfónico que iriam enfrentar pela 1.a vez.
É exemplar, a grande SUGGIA a fazer o papel de chefe de naipe de uma Orquestra que ainda não existia!
Repito: SUGGIA foi um desses seres de privilégio que nos colocaram naturalmente na Europa culta, muito antes da entrada dos nossos políticos nos gabinetes de Bruxelas ou de Strasburg.

(1) - Hoje a situação não melhorou...
(2) - Ambos também nesta data já falecidos, para nosso pesar.

...
Maestro MANUEL IVO CRUZ

Publicado por vm em 12:03 AM | Comentários (7)

março 12, 2004

Suggia no castelo de Lindisfarne

Sobre a passagem de Guilhermina Suggia pelo “maravilhosamente dramático mas habitável” castelo de Lindisfarne, - na costa nordeste da Inglaterra - , que foi, primitivamente mosteiro, depois fortaleza e, hoje monumento nacional, pode ler-se, num texto de Jonathan & Clare (microart.org):
“O actual aspecto do castelo de Lindisfarne surgiu por obra do fundador da revista Country Life, Edward Hudson. Este, em 1901, descobriu o castelo decadente e vazio e verificou o seu potencial para uma singular morada de férias românticas. Encarregou o seu arquitecto favorito, Edwin Lutyens de o actualizar, mais uma vez, como refúgio para si próprio e amigos seus.” (...) “Uma galeria superior tem um estrado, de um dos lados, onde a hóspede regular de Hudson, a Senhora Suggia se apresentaria com o violoncelo Stradivarius que o mesmo Hudson lhe oferecera”.


Também Jean Moorcroft Wilson, na sua biografia do poeta Siegfried Sasson (1896- 1918), recorda que este visitava Lindisfarne para passar a tarde “com a única ocupante do castelo, a notável violoncelista, Senhora Suggia. (...)
Ouvindo-a tocar Bach no compartimento reverberante de um castelo isolado e histórico, a eloquência do seu violoncelo acompanhava.....”.


(selecção de textos e tradução de Ana Maria Costa)

Publicado por vm em 12:17 AM | Comentários (0)

fevereiro 10, 2004

O som de cada instrumento

O som de cada instrumento individualiza-se com a pessoa que o faz e pode tornar-se inconfundível, como um sinal de pele.

Suggia costumava dizer que o que não ama a música, o que não a ama profundamente, plenamente, não pode ser um bom intérprete. Mas isso não chega, avançava ela. O que se serve da música para atingir glória em nome próprio, em vez de se tornar o nome próprio, em vez de se tornar o mais íntimo servidor dela, é provável que só atinja sucessos efémeros.

Suggia não poderia concordar com a opinião do violoncelista polaco Emmanuel Feurmann (1902-1942), que associa musicalidade a existência viril. Feurmann é de opinião que “o violoncelo é um instrumento masculino, porque requer força física para produzir um som volumoso. A mão esquerda de um violoncelista precisa de ser forte e, ao mesmo tempo, flexível, porque a tensão que tem de manter é imensa”.

Guilhermina Suggia, de temperamento invulgar, penetra intimamente nas obras, desmonta com minúcia as ideias do compositor e transforma uma frase musical em algo de grandioso.
Quando o som do violoncelo é convocado pelas mãos e pela mestria de Suggia fica mais perto da natureza humana. Ela sente a música, mas sente também o público e faz dele o que quer. A pose em que segura o violoncelo junto ao corpo, mas afastando dele a cabeça, que dirige para o alto, é o prelúdio do acto em que dominará completamente a audiência. Suggia interpreta a música ao mesmo tempo que interpreta a cena de estar a interpretar a música.

O som é sensual, mas não deixa de ser nítido e pode ser profundamente comedido. A mestria no violoncelo é evidente: o peso equilibrado do arco nas linhas melódicas, a impecabilidade da mão esquerda, o tom quente, macio, polido, suave, dramático… a distinguir as peças. Tem uma técnica colossal, uma afinação meticulosa e uma potente sonoridade. Suggia, que fez coincidir a carreira de violoncelista com a vida, deixa-se penetrar pela música em cada um dos seus actos.

No mundo só teve um rival e um companheiro, ao mesmo tempo do destino e do violoncelo – Pablo Casals. E se é verdade que durante uns anos se falou pelo mundo no excepcional “duo ibérico”, mesmo com as vidas separadas, Suggia e Casals continuaram a ser a referência máxima do violoncelo, colocados a par pela crítica sempre incapaz de decidir-se pela hierarquia.

A Suggia foram atribuídas qualidades e interpretações únicas que, dizia-se, teriam de ficar para sempre ligadas ao seu nome, como por exemplo a suite nº 3 em dó maior e a suite nº 1 em sol maior para violoncelo solo de Bach. Guilhermina Suggia percorreu prodigiosamente todos os grandes centros musicais da Europa e recebeu as mais finas honras e os mais entusiasmados aplausos.

Em Portugal, apesar de elogios sinceros, e de amigos incondicionais, Suggia sofreu a ambiguidade e a mesquinhez de alguns medíocres. Quase 50 anos depois da morte é completamente ignorada por muitos, mesmo músicos. Já são poucos, também, os que podem dizer que a ouviram tocar, que a viram caminhar na Rua de Santa Catarina, passear os cães cedo pela praia de Leça da Palmeira ou a abrir a porta de casa.

A memória de Guilhermina Suggia dispersa-se pelas casas dos que têm elementos seus, objectos de sombra. Poderemos apenas lamentar que o nº 665 da Rua da Alegria não tenho sido transformado em Casa-Museu como ela tanto desejou?

O que saberá de Suggia a geração dos seus violoncelistas-bisnetos?

Fátima Pombo

Publicado por vm em 09:17 AM | Comentários (0)