fevereiro 27, 2011

SECRETARIADO NACIONAL DE INFORMAÇÃO - PRÉMIO GUILHERMINA SUGGIA - 1963

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No corrente ano o Secretariado Nacional de Informação leva a efeito mais uma vez os concursos para atribuição dos prémios, por ele instituídos, "Guilhermina Suggia" (interpretação) e "Carlos Seixas" (composição). Para o prémio de interpretação foi escolhido o piano como instrumento musical.
Ao de composição podem concorrer obras para orquestra, conjuntos de câmara, instrumentos solistas, música vocal e ópera. Os candidatos a estes prémios deverão fazer a sua inscrição até 15 de abril - Pr. G.Suggia - e 30 de Abril - Pr.C.Seixas -, sendo os prémios de 8 000$00 e 15 000$00, respectivamente.
"ARTE MUSICAL" 19 de Março de 1963

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julho 27, 2010

GUILHERMINA SUGGIA NO ROYAL ALBERT HALL - LONDRES - 1948 - JORNAL "O SÉCULO"

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maio 02, 2008

PRIMEIRA NOITE DE ARTE DE MARIA ALICE FERREIRA (10) - "O CONCÊRTO DE APRESENTAÇÃO DA VIOLONCELISTA MARIA ALICE FERREIRA COM A COLABORAÇÃO DA GRANDE ORQUESTRA SINFÓNICA DA EMISSORA NACIONAL"

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Quem é esta Maria Alice Ferreira? — preguntava-se, ontem, à noite, antes do concêrto, nas salas, nos vestíbulos, nos corredores do Teatro Rivoli. E, depois do concêrto, quando os quási dois milhares que a tinham ouvido deixavam os seus lugares, já não se preguntava:i Quem é esta Maria Alice Ferreira?, já não se murmurava em ar de argumento que tudo justificava e explicava: Dizem que é filha do grande industrial Delfim Ferreira! Exclamava-se, assombradamente, encantadoramente: É uma grande artista !

Esta frase sintética, expressiva, lapidar, colhida em muitas centenas de bôcas, em tantas bôcas, por certo, quantas as pessoas que haviam assistido ao concêrto, serve para aferir, grosso modo, a impressão do público.

Desconhecido, poucas horas antes (ou conhecido, apenas através das referências e dos anúncios dos jornais), o nome de Maria Alice Ferreira conquistara, efectuado o concêrto, a celebridade a que todos os artistas, legitimamente aspiram e que só excepcionais circunstâncias lhes permitem, a maior parte das vezes, obter.

O grande e ilustre nome de Guilhermina Suggia, que havia, naturalmente, servido de reforço para a curiosidade dos musicófilos, saíra na verdade, mais prestigiado, ainda, da audição. A discípula, em tudo e por tudo, era digna da mestra. À coroa de glória desta somava-se, com o triunfo indiscutível daquela, mais um belíssimo florão. Note-se, porém, que esse triunfo indiscutível é, principalmente, obra de Maria Alice Ferreira, da sua extraordinária personalidade artística das suas qualidades assombrosas de concertista. A mestra poliu, afeiçoou, integrou nos cânones da arte-ciència o temperamento duma artista nata, que é, já, grande e será maior se porfiar, rumo ao futuro de glória que, desde ontem, ficou aberto diante dela. A mestra disciplinou, metodizou, deu o inconfundível retoque a esse temperamento de excepção. E o resultado patenteou-se, ontem, de modo impressionante a um público enorme e entusiasmado que, interrogando-se, duvidando, talvez, a princípio, encontrou a resposta mais rigorosa e se certificou, em absoluto, finda a audição reconhecendo e proclamando, entre si, esse reconhecimento: Esta Maria Alice Ferreira, afinal, é uma grande artista!

De “O COMÉRCIO DO PORTO” de 5-V-1937
Cedido por Luís Sá Pessoa

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abril 10, 2008

PRIMEIRA NOITE DE ARTE DE MARIA ALICE FERREIRA (8) - "O PRIMEIRO CONCÊRTO DA GRANDE ORQUESTRA SINFÓNICA DA EMISSORA NACIONAL, COM MARIA ALICE FERREIRA

É hoje que, no Teatro Rivoli, a Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional se apresenta no primeiro dos dois concertos que, pela segunda vez, nesta época, vem realizar nesta cidade.

No concêrto de hoje apresenta-se em público, pela primeira vez, a jovem e distintíssima violoncelista Maria Alice Ferreira, que é — podemos afirmá-lo, porque já a ouvimos acompanhada pelo conjunto orquestral de Pedro de Freitas Branco — uma artista de extraordinário talento. Maria Alice Ferreira, aluna da eminente violoncelista Guilhermina Suggia, que tocará, amanhã, com a Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, será acompanhada, ao piano, na segunda parte, por sua irmã, Maria de Lourdes Ferreira pianista de mérito, também.

O programa do concêrto de hoje, que vai ser um dos maiores acontecimentos musicais da temporada, tanto pela concertista que se estreia, como pelo conjunto orquestral que lhe serve de moldura e que o ilustre maestro Pedro de Freitas Branco dirige, está assim organizado, de modo a satisfazer os nossos dilettanti mais exigentes :

1.ª PARTE - I — Rienzi — Abertura, Wagner, pela orquestra; II — Concerto, em ré menor, Lalo, para violoncelo e orquestra, violoncelo: M.lle Maria Alice Ferreira;a)Prélude:lento – allegro maestoso, b)andantino com moto. – allegro presto – andantino – allegro presto. c) Final: introduction – andante – allegro vivace.

2ª PARTE – Violoncelo e piano, violoncello:M.lle Maria Alice Ferreira; III –Aria (da ópera Orfeu), Gluck; IV Rondo, Boccherini; V – Après un Rêve, Fauré; VI – Spinnlied (A fiandeira), Popper.

3ª PARTE – Violoncelo e Orquestra, violoncelo: M.lle Maria Alice Ferreira; VII –Allegro Apassionato, Saint-Saëns; VIII – Kol Nidrei, Max Bruch; IX –Tarantella, Popper.
De “O COMÉRCIO DO PORTO” de 4-V-1937
(Cedido por Luís Sá Pessoa)


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outubro 17, 2007

AINDA GUILHERMINA SUGGIA NO TEATRO DE SÃO CARLOS COM A FILARMONIA DE LISBOA, dirigida por FRANCISCO DE LACERDA

Paremos um instante para acentuar o reconhecimento dum salto qualitativo na senda da nossa já abundante, mas raras vezes fulgurante, actividade concertística. O panegírico que segue, de Suggia, tal como os acima citados, entoa toda a escala dos superlativos, só que os faz soar, em geral, mais afinados, com os adjectivos ornamentais melhor colocados:
«Não é possível encontrar palavras, não há frases que possam traduzir cabal e capazmente as impressões que Suggia produziu no espírito de todos. Mixto de admiração e de pasmo, fascinação, encantamento, e arroubo por tudo. Sucessivamente, a grandíssima artista nos fez passar, numa gama ascendente, cada vez mais poderosa de domínio.

A sua arcada, a sua técnica, a sua grande alma, a sua mascara traduzindo passo a passo todas as "nuances" dos trechos executados, por forma a convencer-nos que artista e instrumento formam um todo, um bloco, como que completando-se mutuamente.
Independentemente destas qualidades assombrosas, Suggia ainda nos oferece outro prisma por que passamos a admirá-la: a modalidade da sua alma de artista, a sua compreensão nítida das obras executadas, a sua integração nelas. Talvez seja dentre as suas pasmosas qualidades a mais surpreendente! Suggia tocou a solo a celebre "suite" em dó de Bach [agora ficamos a saber qual das suites foi!], e com acompanhamento de orquestra dois concertos em ré, de Haydn e de Lalo.
Pois na execução das 3 obras não houve um só ponto de contacto, não houve um só compasso, uma só nota duma delas que nos podesse fazer lembrar uma nota ou um compasso de outra! Fantástico!»

Depois destas desmedidas hipérboles, Sampaio Ribeiro, reporta os aplausos apoteóticos que já conhecemos, mas acrescenta um pormenor revelador, quanto à qualidade do público, antes de apreciar Lacerda (a quem deixa de chamar sr., mas Maestro - com maiúscula!) e à Filarmonia:
«[...] Há a notar que na assistência havia muito do bom, musicalmente falando, por exemplo Viana da Mota, maestro Fão, Rey Colaço, Freitas Branco [Luís, decerto], José Henrique dos Santos, Rui Coelho, Artur Fão, Costa Reis, Adria¬no Pereia [Mereia, talvez], etc.
A orquestra preencheu o resto do programa, tocando optimamente a Abertura do "D. João", "Fragmentos do 3° acto dos Mestres Cantores" e o nocturno de Duparc "Aux Etoiles".
O Maestro Lacerda felicíssimo e competentissimo quer como regente quer como acompanhador.
E... creio bem que para o outono teremos novamente ensejo de aplaudir este esplendido núcleo sinfónico. Ego»(1923/06/16)

“ARTE MUSICAL” Volume I- IV SÉRIE, nº 5 - Outubro de 1996

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outubro 15, 2007

AINDA GUILHERMINA SUGGIA NO TEATRO DE SÃO CARLOS COM A FILARMONIA DE LISBOA, DIRIGIDA POR FRANCISCO DE LACERDA

Para quem viu tocar Suggia e, necessariamente, experimentou o seu sortilégio, não parecerá exagerado este efeito catártico, causado mais pela concertista que pelo maestro, diga-se de passagem. Mas para Lacerda, ao sucesso juntou-se a caução assim dada por aquela que, com Viana da Mota, era uma das duas estrelas portuguesas no universo dos virtuoses instrumentais, e que lhe confirmava, junto da opinião pública, a aura que as simples notícias dos seus méritos não seriam bastantes para atear. Sampaio Ribeiro - o Ego do República - já despido de prejuízos, não se conteve em louvores:

«Se o primeiro concerto deste núcleo sinfónico, foi, por si, um acontecimento artístico de primeiro plano, o segundo, em que Guilhermina Suggia se apresentava de novo - e para a maior parte das pessoas pela primeira vez - ao publico de Lisboa, marca um triunfo não só para a nossa celebrada compatriota, como para a Filarmonia e é mais um marco miliário na grande estrada do cultivo da musica entre nós.»

“ARTE MUSICAL” Volume I – IV Série – Nº 5 – Outubro de 1996

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outubro 14, 2007

GUILHERMINA SUGGIA TOCA NO TEATRO DE SÃO CARLOS COM A FILARMONIA DE LISBOA, DIRIGIDA POR FRANCISCO LACERDA

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O segundo concerto triunfal
Se o concerto inaugural foi um sucesso, maior ainda seria o segundo em que participou a violoncelista portuguesa de renome internacional, Guilhermina Suggia. Mantendo o género feminino, vejamos o que disse Oliva Guerra, a poetisa responsável desde a sua fundação em 1921 pela coluna musical do Diário de Lisboa, onde levou a extremos de deliquescência um estilo de recorte literário e sentimental, e de enfoque social na elegante assistência dos concertos:

«Falar da Arte de Guilhermina Suggia fora o mesmo que tentar modelar no barro tosco da palavra frágil todo o frémito divino que se desprende, como uma chama, das mais altas manifestações do sentimento humano; fora o mesmo que tentar traduzir toda a essência mais vibrante do lirismo da alma, duma alma excepcional que sofre e chora e canta, fazendo do seu sofrimento, da sua voz e do seu canto toda a força esmagadora com que sacode, arrasta e despedaça toda uma multidão de almas, que a escuta de joelhos. Essas milhares de almas viu-as ontem Guilhermina Suggia ali rendidas, amarfanhadas por aquela angústia sufocante que se experimenta em face do que é grande de mais para este mundo, esses milhares de almas sentiram ontem ali aos pés da grande artista esses êxtases supremos e inesquecíveis que ficam a viver eternamente a dentro de quem os sente com todo o domínio absorvente duma visão larga de prodígio.

A Arte de Guilhermina Suggia não se define, é indescritível. Reúne em si tudo o que há de mais intimo, de mais profundo e mysterioso a dentro da alma humana. Domina e arrebata. Como sacerdotisa no seu trono, embriagada de sonho, em atitudes estilisadas de inspirada, Guilhermina Suggia teve momentos de emoção que a levaram para além da vida no voo transfigurador da arcada arrastadora. No seio do seu violoncelo privilegiado vibrou uma alma sublime que gemeu, gritou e se estorceu nos paroxismos da paixão, uma alma imensa, sedenta e desvairada, feita de retalhos de almas, de todas as almas sofredoras que vivem a vida eterna das emoções raras.»

Depois destes excessos verbais, vem a brevíssima referência às obras tocadas que, por sinal, marcam a versatilidade estilística da violoncelista e do maestro, mas não suscitam comentários à cronista (mais literária que musical, está bem de ver):
«Não é possível destacar qualquer trecho ou passagem dos concertos de Haydn [qual?] e de Lalo, que tocou com a orquestra, ou da suite [qual?] de Bach, que tocou a solo, porque em tudo foi igualmente grande inexcedivelmente genial.

Francisco de Lacerda, o grande regente que nos maravilhara há dias com o seu savoir faire inegualável, foi ontem ao lado da divina artista o colaborador insuplantável em todos os números de orquestra, só ou no acompanhamento á ilustre solista, e onde a sua regência cuidada, precisa e elegante, sem gestos inúteis nem teatralidades rebuscadas, soube comunicar como uma chama oculta todo aquele frémito de emoção indefinível, que é a grande vitoria da verdadeira Arte.
As ovações foram também indescritíveis. Nunca assisti a uma apoteose igual.» [1923/06/08].
"ARTE MUSICAL" IV Série, Volume 1, nº5, OUTUBRO DE 1996
Desenho de Francisco de Lacerda de Lydia Balomey, sem data

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agosto 22, 2007

VIRGÍNIA SUGGIA NO "LE MONDE MUSICAL" de 30 de DEZEMBRO de 1907

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Em 30 de Dezembro de 1907 lia-se o seguinte sobre Virgínia Suggia no Le Monde Musical:
«Mlle. Virgínia Suggia, irmã da notável violoncelista, é, também ela, uma pianista de talento e de temperamento. Num recital composto de uma Sonata de Beethoven, dos Estudos Sinfónicos de Schumann, de peças de Chopin, de Liszt e do famoso Sous bois do seu mestre V. Staub, conduzido com um raro brio bisado, a jovem artista portuguesa mostrou dons preciosos de sonoridade e de expressão, um jogo audacioso, por vezes um pouco precipitado; enfim, uma natureza fortemente interessante (...) à qual um numeroso auditório não deixou de manifestar as marcas da sua muito viva satisfação.»

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA ou o VIOLONCELO LUXURIANTE” de Fátima Pombo

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maio 08, 2007

UM GRANDE ACONTECIMENTO ARTÍSTICO: GUILHERMINA SUGGIA (TEATRO JORDÃO-GUIMARÃES)

Trazida pela delegação vimaranense do Círculo de Cultura Musical, no quarto concerto da temporada, Guilhermina Suggia veio ao Teatro Jordão, na passada segunda-feira, realizar um concerto de violoncelo, com a colaboração da jovem pianista, Berta Alves de Sousa.

Dizer do prazer espiritual que a insigne intérprete de violoncelo nos proporcionou e, outrossim, focar a beleza dos números executados, o mesmo será que confessar a enternnecida admiração por quem se nos apresenta como lídima glória nacional e exaltar, também, o seu expressivo estilo de executante que, de facto, é na sua técnica impressionável.

Guilhermina Suggia obteve uma justa consagração do público vimaranense e soube impor-se-lhe pelo "virtuosismo”, da sua inegualável arte, quer maravilhando-o pela destreza de execução, quer embevecendo-o com as produções da sua preferência. Desde o Adágio da Toccata em dó maior, de Bach, â Sonata de Henry Eclles, e, ainda, as Variações Sinfónicas, de Boëllman. a Sonata de Richard Strauss, e o aligeirado programa da última parte do seu concerto, no castiço sabor das composições de Falla, Glazounov, Ravel e Joaquim Nin, mereceram a religiosidade de atenção, enriquecida de sobremaneira pela execução dos dois extras, Siciliana e Dança do Fogo, que arrebataram.

Chegou mesmo a ter-se a impressão de que, no palco da nossa esplêndida Casa de espectáculos pairavam em espírito as melodias mavíosissimas dos semi-deuses da Velha Grécia, que o nimbavam dum encanto de maravilhosa, compassiva e doce harmonia, capaz de fazer enternecer até as próprias lágrimas. como as corações se saturaram desse rescendente aroma que irisa e perfuma e a que não faltou as alegorias das ninfas e das parteneias.

Honra à Arte — honra a GUILHERMINA SUGGIA!

* * *
No princípio da segunda parte do programa, os académicos do Liceu de
Martins Sarmento subiram ao palco e estenderam no chão as suas capas, sobre as quais passou Guilhermina Suggia, oferecendo-lhe um ramo de perfumados cravos.

As senhoras D. Ana Maria Pereira Mendes Ferreira da Cunha, D. Maria Amélia Sequeira Braga Costa, Drª D. Maria José Moura Machado e D. Maria Filipa Freire de Andrade Martins Fernandes, que formavam a Comissão, depuseram nas mãos de Suggia um lindo ramo de mimosas flores.!
O Presidente da Câmara, Sr. Dr. Fernando Manuel de Castro Gonçalves, acompanhado do Presidente da Delegação do C. C. M., Sr. Francisco de Assis Pereira Mendes, ofereceu à distinta Artista um volume da Obra Comemorativa das Festas Centenárias em luxuosa encadernação. í
Com Suggia vieram várias famílias e pessoas de distinção do Porto, entre as quais nos lembra de ter visto a Sr.ª D. Adelaide Freitas Gonçalves, Directora do Círculo de Cultura, no Porto, Dr. António Calém, distinto entusiasta dos Círculos de Cultura, D. Maria Alice de Gomes Ferreira, de Riba d'Ave aluna muito distinta e predilecta da grande mestra Suggia.

(NOTÍCIAS DE GUIMARÃES – Ano 16º- Nº 791 dd 30 de Março de 1947
Cedido por Belmiro Oliveira)

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abril 13, 2007

A MADAME SUGGIA RECITAL

PROGRAMME OF MODERN WORKS – Masterly renderings

Madame Suggia followed her recent recital of old masters with a second recital yesterday at the Wigmore Hall, dedicated to modern, and comparatively modern, composers. Composers – not masters. A short piece of Dvorak and another, equally short by Debussy are not enough to give character to a programme in which are found the variations of Boëlmann, the Humoreske of Sinigaglia, the Serenade of Kreisler and the Habanera de Ravel – most trifling and least exquisite of the Ravel’s exquisite trifles.

But the quality of the music did not interfere to any appreciable extent with our pleasure. The touch of Mme Suggia is life, and even the Boëlmann variations acquire at her hands moments of beauty and moments of great interest. If there was no special beauty in the phrase, there was always great beauty in the phrasing; if the ornamentation was tawdry, its weakness was hidden by the grace and finish of the performance.

And in a way we were glad of this opportunity to give our whole attention to the technical aspects of the rendering. No doubt the greatest musical pleasure is only possible when a great player is matched by great music. But there is also a pleasure in seeing a past master at work on second–rate material, mending, re-fashioning, restoring, polishing, till its poverty is no longer apparent. When the master in question is Mme Suggia that pleasure may surpass expectation. F.B.

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abril 10, 2007

MADAME SUGGIA - THE ROYAL MAGAZINE ( data desconhecida)

As others see us”

Mme Suggia, the famous cellist can no more help showing in her looks her love for music than a mother can help showing her love for her child.
Touching the strings of the cello, this great musician becomes as if divine,”

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abril 09, 2007

MADAME SUGGIA NO WIGMORE HALL- 10 de FEVEREIRO DE 1936

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Wigmore Hall - SUGGIA – Recital – Monday
February 10, at 5,30 – Pianoforte GEORGE REEVES

(…) Those left-hand fingers like steel and velvet, that bowing like silk and thistledown. But Suggia the consummate stylist can never be taken for granted; she plays in a way that bestows freshness upon even the most hackneyed things.

One felt she had gone so deeply into the compositions played that she had reached the common denominator behind them – melody, that great life force of music. In a sonata by Valentini and two pieces by Boccherini, Suggia’s exquisite rendering of the melodic line taught one that in these old solo sonatas everything grew out of it, even the accompaniment was but an aura, thrown out from the melodic line.
Bach suite in G for cello alone went further, for he had designed the solo part to contain in itself the implications of melody, counterpoint, and centred so completely that one never noticed the absence of accompaniment.
She gave us another phrase of melody in Beethoven’s sonata in A Major for cello and piano. Here the concurrent melodic lines of the two instruments were carried on with an agreement in phrasing and a delicacy of contrasting timbres that delighted the imagination as much as they charmed the outer ear. Special recognition is due to Mr Reeves for the restraint he exercised over the bass of the piano, and for the peculiarly limpid quality of his treble cantilena. A group of cello solo pieces completed the programme.
MUSICAL TIMES – Março 1936

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março 28, 2007

FORGOTTEN CONCERTO - MADAME SUGGIA- GLASGOW

When Madame Guilhermina Suggia, the cellist, plays with the BBC Scottish Orchestra in the Usher Hall on Saturday she will remind listeners of a little-remembered composer born in Glasgow 85 years ago – Eugene d’Albert.
She is playing his forgotten concerto.

At 61, Madame Suggia is a slender, graceful woman, with crisply curling dark hair, just turning grey. How does she look so young?

Her explanation: for the first time she has no responsibilities, no worries.
I am alone” she says. “without a tie or a single relative.”

For years, in Portugal, she and her scientist husband lived on a farm. Last spring, when he died, she went to live in Oporto, where she was born.

The Festival programme reproduces the Augustus John portrait of Madame Suggia. There is a story behind that.
She gave about 80 sittings to the artist. First he painted her in a golden gown. Then he painted it over, made it white chiffon. Finally he borrowed an entirely dress for her.

EVENING CITIZEN – GLASGOW- 24/8/1949

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março 23, 2007

A RAINHA ISABEL DE INGLATERRA ENVIOU UM RAMO DE FLORES A GUILHERMINA SUGGIA E O PRESIDENTE DO CONSELHO TELEGRAFOU PARA LONDRES E INTERESSOU-SE PELA SUA SAÚDE

Londres, 5 – A rainha Isabel enviou um ramo de flores e uma carta, manifestando a sua simpatia, à célebre violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia, que foi operada, na semana passada, na clínica de Londres, do célebre cirurgião britânico Rodney Maingot.
Ao fazer hoje esta revelação à “Reuters”, Suggia disse:

“Fiquei tão profundamente impressionada com o amável gesto da rainha que mal pude dormir na noite passada.”

Suggia manifestou, também, o seu profundo reconhecimento ao Presidente do Conselho Português, dr. António de Oliveira Salazar, que telegrafou a perguntar do seu estado, e ao dr. Rui Ulrich, embaixador de Portugal em Londres, que a visitou na Casa de Saúde de Londres.

Suggia disse esperar regressar a Portugal em meados deste mês.
REUTERS - Junho de 1950

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janeiro 10, 2007

GILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS - RECTIFICAÇÃO

Distinguidos amigos:

En la Parte 10 del 2º Capítulo de mi reportaje "Guillermina Suggia, el amor secreto de Pablo Casals" que se ha reproducido en esta web dedicada a la gran intérprete, existe un pequeño error de traducción en mi texto original publicado en los números 367 y 368 de la revista española Historia16 que se ha repetido al trasladarlo a estas páginas. Para una mejor comprensión del estado de ánimo de la artista en esa fecha, dos meses antes de su fallecimiento, les hago llegar la siguiente rectificación que próximamente se publicará en la citada revista.

Se trata de la carta originalmente manuscrita en francés de Guillermina Suggia dirigida a Pablo Casals en Mayo de 1950.

Donde dice: " No deseo morir sin que me escuches, querido maestro y volverte a ver..." Realmente debiera decir: "No quisiera morir antes de oírte, querido maestro, y verte de nuevo".

Con el mensaje, mis saludos a los seguidores de la gran intérprete.

Ana Mª Férrin

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janeiro 09, 2007

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (14 e FINAL)

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Después de sucesivos avatares la vivienda de la Rua da Alegria n° 665 fue vendida a un particular que la alquiló a una empresa que se anunciaba en las páginas especializadas como Agencia Internacional de Modelos, eufemismo que ocultaba una casa de prostitución de altos vuelos con cristales biselados, câmaras de vídeo en el exterior y un portón metálico que impedia ver el interior del jardín y con él a los visitantes que entraban con su coche.

Meses atrás de verse publicado este reporta je un tiroteo puso fin a la actividad de la mansión y el propietario tomo la decisión de venderla. Muchos portuenses que siguen la historia de la intérprete y los melómanos portugueses en general, especialmente los integrantes de la Asociación Guillermina Suggía, siempre animadores culturales en favor de la Intérprete, vieron la oportunidad de que la Administración adquiriese el edifício para ubicar en él un museo que perpetuase la memória de Ia violoncelista, pero las gestiones no cristalizarem. La idea era instalar allí a disposición de los estudiosos la rica bibliografia de temas musicales donada por Guillermina al Conservatório de Oporto con el objetivo de que los interesados pudieran servirse de ella y consultarla, a la vez que hacer del inmueble un punto de reunión internacional para los amantes del violoncelo.

En fecha reciente las autoridades de Matosinhos, donde la concertista residió de nina con sus padres, realizaron gestiones para adquirir los muebles y otras pertenencias de Guillermina que están en poder de sus beneficiários, en previsión de que no se les pierda el rastro y así preservarlos en lugar seguro para ser instalados un dia en esa futura Casa-Museo Guillermina Suggía que tantos aficionados lusitanos están seguros de que acabará siendo rescatada para la posteridad.

Guando se cierra este trabajo la sucursal de un Instituto de Medicina Naturista acaba de instalarse en el edifício de la Rua da Alegria n° 665. Después de servir de sindicato, oficinas, peluquería o burdel, al hogar donde Guillermina Suggía dio su último adiós después de vivir en ella 23 anos, a la casa donde tantos alumnos asistieron a sus clases y aprendieron a valorar Ia música, parecen aguardarle nuevas aventuras. Pero son aventuras con los dias contados, porque al igual que sucedió con la casa lisboeta de Fernando Pessoa, los muros de la Rua da Alegria n° 665 están llamados a un destino natural que acabará por cumplirse - solo la mediocridad es impaciente, los grandes saben esperar-. Puede que sea premonitório el que a la publicación de esta revista los responsables del Instituto Português do Património Arquitectónico se encuentren valorando su clasificación como de Interés Nacional, paso prévio para hacer realidad el proyecto de la casa-museo.

Sobre el papel, este proyecto lo tiene todo ganado. Existe la gloria real del personaje, Guillermina Suggía, una mujer que abrió de par en par los secretos del violoncelo a las mujeres, llevándose por delante balizas y amarres de prejuicios. A su alrededor perviven casas, tiendas, iglesias, teatros, lugares originales que acompanaron la vida y actuaciones de la artista, con un buen plantel ciudadano de aficionados a la música culta. Puede disfrutarse alguna filmación de sus aplaudidos recitales en tantos auditórios y una docena de temas grabados que se hacen inolvidables para quienes los escuchan, como su Kol Nidrei, de Max Bruch, delicado y turbulento, único. Intactas en manos de diferentes propietarios reposan muchas pertenencias y los trajes y violoncelos de la concertista, reunidos a la espera de que alguien con el motor suficiente dé la serial de salida para que se donen a la casa-museo los múltiples recuerdos que guardan tantos admiradores.
Y por encima de todo está el valioso ejemplo para las jóvenes generaciones de que cuando alguien se prepara y resiste, lucha y no se da por vencido, acaba ganando. Y queda para la posteridad.

El tiempo pondrá su punto y final a esta crónica que hoy se cierra braceando entre la pereza de un alegre despertar. Guillermina Suggía nos despide con un guiño y una breve misiva de su puño y letra dirigida a su pianista acompañante y amigo, José Vianna da Motta. A la chellista se le han pegado las sábanas y há faltado a una cita con él. Disculpándose con humor le envia estas líneas que no necesitan traducción:

Hotel de L'Europe
Installatíon Moderne (appartaments avec salle de bain)

Praça Luís de Camões, 6
Lisboa
Telephone C. 5363

9.35 h
My dear mouse:
Acordei às 8h para me levantar e tocar consigo mas não sei como, adormeci outra vez e só agora é que almoço.
Desculpe sim, eu ter faltado à minha palavra d ‘ingleza.
D'aqui a 20 minutos sou sua.
Pussycat.

*" Las fotos para este reportaje son de varias procedencias, porque existen multitud de copias de una misma imagen en poder de diversos propietarios. El principal reconocimento para el presente trabajo se deberá a Elisa Lamas, Isabel Millet, Virgílio Marques y el Arxiu Nacional de Catalunya.

Artigo - parte II-final - de ANA MARIA FÉRRIN editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro passado



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janeiro 08, 2007

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (13)

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Por lo avanzado de su enfermedad, a Guillermina le fue imposible acudir a la cita del festival en junio de 1950, quedando en el aire el interrogante de un hipotético encuentro con Casals. De los músicos que tocaron en aquel evento de alcance mundial, solo el pianista Mieczislaw Horszowsky había formado parte del alegre grupo presente en San Salvador en 1912, cuando se produjó la ruptura entre Pablo y Guillermina. Sacando fuerzas de su verdadero estado, que pocos conocían, Guillermina se despidió de su público el 31 de mayo en Aveiro con un concierto en el Teatro Aveirense, donde las notas de Bach, Chopin y Falla sonaron por última vez interpretadas por la que fue llamada La Reina de los Chellistas.

El 28 de junio fue intervenida por el cirujano doctor Maingot en la London Clinic de la capital inglesa, aconsejada y acompanada por su médico el doctor Álvaro Rodrigues, que también colaboró en la operación. Guillermina Suggía falleció el 30 de julio de 1950. Su vivienda de la Rua da Alegria n° 665 de Oporto fue dejada en usufructo a su alumna Isabel Cerqueira, casada con Lluis Millet, un violinista barcelonés, sobrino del fundador del Orfeó Catalá del mismo nombre e impulsor del Palau de la Música de la Ciudad Condal. Al mismo tiempo dejaba dispuesto el destino del inmueble para el dia en que faltara su alumna.

La hija de la beneficiaria, llamada también Isabel Millet, nació en esa misma casa y allí vivió hasta los 13 anos. Ella no conoció a Guillermina, pero de una u otra manera al vivir rodeada por los objetos que acompañaron en vida a la violoncelista e inmersa en una familia de músicos, todo ese entorno avivó su imaginación de mujer creativa y ha tenido mucho que ver en el desarrollo de su vocación de escritora y profesora de interpretación.

La etapa inglesa de Guillermina, su relación con Casals y como vivió su vuelta a Oporto forman la trilogia inédita, en su mayor parte, de la existência de aquella mujer reservada que fue Guillermina Suggía y de quien los padres de Isabel MiIlet fueron alumnos, la madre amiga y confidente y quizá la mayor beneficiaria al heredar parte de sus bienes y una gran cantidad de documentación personal. Los manuscritos de Isabel Millet sobre la violoncelista, aún no editados, han aportado pasajes desconocidos para el presente trabajo.

Artigo - parte II (13) - de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro passado

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janeiro 05, 2007

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (12)

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Susan Metcalfe y Pablo Casals se separaron de hecho en 1928. En 1957 él solicitó el divorcio y ese mismo año volvió a casarse a la edad de 80 anos con Marta Montáñez, de 21, a quien había conocido en 1951 cuando ella viajo a los 15 anos acompañada de su tio Rafael desde su tierra, Puerto Rico. Marta estudiaba violoncelo en Nueva York y al encontrarse en presencia de Casals, en Prades, se ofreció a tocar ante él.

Cuatro anos después se evidenciaba la atracción del maestro hacia la alumna, una historia que fue constante en la vida de Casais. Así le pasó con Guillermina Suggía y el mismo origen tuvo su relación con Francisca Capdevila, antigua alumna suya de 17 anos en 1896. En noviembre de 1954 se agravaba la dolência de Francisca, Ia esposa que compartió con Casals la peor época del músico, acompañando su soledad en el exilio francés de Prades y sosteniéndolo en sus profundas depresiones. Poco antes de morir ella, el 18 de enero de 1955, el músico avisó a un sacerdote y contrajó con su mujer una boda religiosa que si no tenía efectos legales por no estar divorciado de Susan Metcalfe, sí fue un acto de lealtad hacia la que llamó «compañera de mi vida».

AI trasladar el Festival de Prades a Puerto Rico en abril de 1957 Casals daba otro paso en dirección a su unión com Marta Montánez (que por azar había nacido en la misma casa que la madre del músico, en Mayagüez), a la que convirtió en su esposa el siguiente mes de agosto. En la madurez de su convivência con la joven, Casals disfrutó 17 anos de estabilidad y honores.

Artigo - parte II (12) - de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro passado

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janeiro 04, 2007

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (11)

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El tono conciliador de la carta era complementario de otra conmovedora misiva enviada años atrás por Pablo Casals. Figura en Guilhermina, un libro del escritor português Mário Cláudio, Prémio Pessoa 2004. Jugando entre la realidad y la ficción, el autor cita un telegrama enviado a Guillermina por el maestro la noche de Fin de Ano de 1913, el ano de su separación, y en sus líneas Pablo dejaba escapar un anhelo:

Chére Guilhermina... Te deseo toda la dicha del mundo... En el momento en que abra la ventana para contemplar la medianoche estaré triste y pensaré en ti con toda mi alma. Tal vez también tu pensarás en mi.


De ser cierto el mensaje poco iba a durarle la tristeza al gran músico en esa ocasión, porque en enero de 1913 Pablo Casals ya mantenía una correspondência bastante íntima con la soprano norteamericana Susan Metcalfe, su amiga desde 1904. En marzo de 1914 el intérprete viajaba hasta Nueva York, donde en pocos dias contría un matrimónio relámpago com la cantante ante la sorpresa de amigos y familiares de ambos, que ignoraban la relación. Después viajó con ella desde Wasinghton hasta su villa de San Salvador, en Tarragona.

La refinada esposa de Casals tenía fortuna propia y estaba acostumbrada a una intensa vida social repartida entre la Costa Este estadounidense y los principales centros europeos, algo difícil de trasladar a las largas temporadas que Pablo gustaba pasar en la pequena localidad costera de San Salvador.Y mucho menos con la suegra, dona Pilar, controlando el funcionamiento de la casa y viviendo allí permanentemente, acompañada por otro de sus hijos, con la esposa y los niños.

Esa vida alejada de su propia família y ambiente, compartiendo intimidad con personas con las que no conseguia comunicarse, no entraba en los planes de una mujer independiente y cosmopolita como Susan, que había llegado a ser la señora Casals a la edad de 35 anos y debía de tener otros proyectos de convivência para su matrimonio. A la larga todo ello provocaria frecuentes disputas entre la pareja, que desembocarían en un paulatino alejamiento, hasta el dia en que Susan hizo su equipaje y partió hacia Nueva York abandonando a Pablo Casals. Los comentários hechos por el músico más adelante, presa de un gran abatimiento («...Mi esposa se marcho con el pretexto de ser incapaz de convivir con mi família...»], pueden dar una pauta de los problemas de fondo por los que debió pasar Guillermina Suggía 20 anos atrás, cuando se vio en la misma situación que Susan, pero siendo la portuguesa 15 anos menor y una mujer con mucha menos experiência que la cantante norteamericana.

Artigo - parte II (11) - de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro passado

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janeiro 03, 2007

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (10)

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Pero los felices proyectos que la posguerra brindaba a los músicos al reanudarse las veladas, con los aficionados deseando olvidar las pesadillas vividas, se truncaron para la artista al intensificarse las molestias abdominales que venía padeciendo y confirmarse el diagonóstico de um cáncer avanzado. Guando tuvo constancia médica de que su final se acercaba, que ni operaciones ni tratamientos detendrían el fatal desenlace, fue desarrollando una serie de iniciativas que plasmó en su testamento. De ellas el Prémio Suggía instituído en Gran Bretana lleva médio siglo cumpliéndose tal y como la intérprete dejó dispuesto.

Entre las voluntades que ella misma cumplió consta su acercamiento a la Iglesia, «católica, apostólica y romana», puntualiza, aunque anteriormente hubiera tenido contactos con la Iglesia anglicana. Y el envio de una extensa carta escrita a Pablo Casals en mayo de 1950 con el motivo aparente de solicitarle unas entradas y la reserva de un hotel para el festival que iba a celebrarse en junio de ese año en Prades [Francia] para conmemorar el 200 aniversario de la muerte de J. S. Bach. Entre sus líneas anidaba mucho más. Afecto, respeto y una clara intención de hacer las paces con el pasado:

Querido amigo:
Te escribo con emoción y con la esperanza de que no me rechaces... Si te fuese posible reservar dos habitaciones sencillas o una doble para una amiga que me acompana y para mi, sé que es difícil, pero con tu influencia... Y también dos localidades para los conciertos, si es preciso que envie antes el importe dime adónde... Yo sigo trabajando en Porto, siempre con el mismo ideal que aprendi de ti... [pero] estoy muy enferma y desgraçadamente no sé si podré continuar con mi carrera... Mi marido murió hace un ano, ha sido una víctima de los Rayos X... No deseo morir sin que me escuches, querido maestro y volverte a ver... Espero que comprenderás la alegría que me darias si pudiese estar diez dias cerca... Recuérdame siempre como tu devota admiradora... (Hás olvidado a la pequena alumna que iba a Espinho a tomar lecciones contigo?... Hasta la vista, espero.

Saber si esa carta había llegado a las manos de Pablo Casals, conocer como había reaccionado él en caso de recibirla, si la respondió y en que sentido había constituído un interrogante durante médio siglo, ya que los archivos de Casals no guardaban constancia del envio y Guillermina pocos dias antes de morir hizo el esfuerzo de seleccionar una gran cantidad de papeles que dio a una amiga inglesa para que los destruyera y entre ellos podia haber desaparecido la prueba de esa correspondência.
Por azar, la fortuna hizo que al mismo tiempo que aparecia en el Arxiu Nacional de Catalunya el original enviado por Guillermina a Casals, Isabel Millet nos comunicaba desde Oporto que poseía la otra clave del enigma: la respuesta a Guillermina de Pablo Casals, enviada desde Perpignan a través de una carta de su amigo el doctor René Puig.
Si con su carta Guillermina dejaba claros sus sentimientos, por parte de Casals, al aparecer el testimonio de su contestación afirmativa dada con la mayor privacidad y desconocida por sus allegados hasta el punto de que biógrafos muy cercanos al músico no tenían noticia de que se hubiera producido, las especulaciones sobre su resentimiento hacia Guillermina se esfumaban. A quien ignore las presiones particulares y profesionales por las que pasaba el compositor esos dias, la respuesta encargada a un tercero podrá parecerle escueta. No obstante, para aquellos que conozcan la particular odisea que estaba viviendo Casals, aún convaleciente de su depresión, sufriendo fuertes migrarias y con Francisca, su mujer entre 1928 y 1955 enferma de Parkinson, a la que cualquier inconveniente provocaba una crisis que agravaba su estado, podrá leer entre líneas y dar a la carta todo su valor.
A pesar de la sobrecarga de responsabilidades en esos dias Casals encontró la forma de gestionar Ia estancia de su antigua pareja en el festival, lo que no debió ser fácil diez dias antes de su inicio. Las circunstancias le obligaron a coordinar, ensayar y grabar en menos de un mes un cambiante repertório diário durante 19 dias con solistas desconocidos entre si (legados de todo el mundo, recayendo en él por añadidura la responsabilidad final de acomodar en un pequeno perímetro a un gran número de personalidades universales que deseaban asistir al renacer de Pablo Casals y con él a todo un modo de vida anulado por la Segunda Guerra Mundial.
Con la carta remitida a Guillermina por medio de su amigo el doctor Puig, manuscrita, sin copia guardada en el archivo que contiene innumerables pruebas mecanografiadas de la correspondecia del l Festival, el maestro unia el recuerdo del joven de 22 anos con Ia nina de 13. Las almas de los dos músicos desprendían sus cortezas de rencores y volvían a quedar limpias, en paz, solo habitadas por su mutuo aprecio:

20 May 1950
«Madame»:
Imaginará usted facilmente las ocupadones del maestro y le ruego que le excuse por no responderle él mismo, él se encuentra muy conmovido por su carta, pero está atado de tal manera por los ensayos que no puede escribirle.
Cada dia ensaya o tiene grabación. Él toca todas las tardes, todos los músicos están aqui desde el 3 de mayo... Tiene usted dos habitaciones reservadas en el Hotel Alexandra de Vernet-les-Bains... Le agradeceremos que nos diga exactamente el número de localidades y aquellos conciertos a los que usted desee asistir… Le ruego que acepte mis sentimientos más respetuosos.

Artigo - parte II (10) - de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro

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janeiro 02, 2007

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (9)

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Su convencimiento de que el músico debe ser un dios sobre el escenario lo llevó Guillermina hasta el limite.
Físico. Resistiéndose a no parecer atractiva en los recitales:

Tuve bastantes problemas con la vista después de los concertos y cuando fui al oculista me prohibió tocar sin gafas. Dijo que de lo contrario sufriría fuertes dolores de cabeza. Pero las gafas no se aguantarían sobre mi nariz... debería sujetarlas con una pinza. Qué espectáculo seria!

Y económico. Después de ofrecer una serie de conciertos en el extranjero, en diciembre de 1924 Guillermina estaba a punto de volver a Portugal y se encontraba agotada. Vários conciertos le esperaban en Lisboa y Oporto. En esta última ciudad estaba previsto que su acompañante fuese Luis Costa, un pianista con el que se compenetraba muy bien y eso la tranquilizó, significaria un descanso para sus ojos, adernas de ayudarle a recobrar las energias al no tener que dedicar largas horas a ensayar.

Por el contrario, en Lisboa le adjudicaron un músico local desconocido para ella. En una larga carta a su buen amigo el pianista y compositor José Vianna da Motta le pidió que mediase con la directiva organizadora del evento para que al pianista concertado lo sustituyeran por el inglês George Reeves, otro asiduo de sus recitales por Europa con el que había compartido a menudo el repertório diseñado para Lisboa.Todo ello dirigido a cumplir su exigência de calidad sin verse en la situación de tener unos pocos ensayos con el nuevo pianista que podrían no ser suficientes, pues la artista seguia la norma de no encararse a un auditório sin antes lograr una total compenetración con sus acompanantes. Guillermina conocía las dificultades de tesorería por las que navega la Sociedad de Conciertos y no dudó en ofrecerse a descontar de sus propios honorários los gastos de la estancia de Reeves en Lisboa.

Con el fin de la Segunda Guerra Mundial llegó la reactivación de la vida artística internacional. En un período de euforia en el que se reabrían los auditórios de toda Europa, Japón y Estados Unidos ofreciéndole interesantes contratos, la violoncelista vio llegado el momento de emprender otra etapa en su carrera, esta vez decidiéndose a viajar cruzando los cielos. Como anécdota curiosa contaremos que Guillermina nunca había querido aceptar conciertos en el continente americano por temor a que sus queridos violoncelos se vieran afectados por la humedad de los viajes marítimos. Su meticulosidad llegaba a ordenar que retirasen inmediatamente del escenario cualquier centro de flores situado frente al instrumento o el estuche. Al viajar en avión esa dificultad no existia y un abanico inmenso de experiências y posibilidades se abria para ella en los auditórios que esperaban al otro lado del océano.

Artigo - parte II (9) - de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro passado


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dezembro 29, 2006

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (8)

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Por parte de La Suggía, como empezó a conocerse a Guillermina en Gran Bretana ante el êxito del retrato pintado por Augustus John, actuar con buenos contratos se traducía en un compromiso de perfección artística que la llevaba a disfrutar apasionadamente de sus actuaciones frente al público. Con sus ingresos pudo procurarles una buena vejez a sus padres y colaborar en obras sociales de su interés. Y para ella misma significó extraer el máximo placer de una vida cómoda rodeada de amigos, buena residencia y un coche de primera clase, buena selección de joyas y un guardarropa de alto estilo que la hicieron sentirse admirada en las continuas fiestas a las que era invitada; hoteles de lujo, yates privados. Para Guillermina los seres humanos habían sido creados para ser felices.

Ninguno de los dos, Casals y Suggía, tuvieron descendencia juntos ni en sus sucesivas uniones. Por Clarinda, empleada y amiga de Guillermina, se conoce la confidencia de que en los últimos años de su vida la intérprete lamentaba no haber tenido hijos. Aunque un jugoso episódio relatado por la profesora de la Juilliard School de Nueva York, Anita Mercier, relaciona a Guillermina Suggía con el escritor lan Fleming, el creador del conocido agente secreto James Bond, a quien conoció a través del pintor Augustus John y su hija ilegítima Amaryllis Fleming, conocida violoncelista y hermanastra a su vez de lan Fleming.

Augustus John mantuvo una intensa relación amorosa con Eve Fleming, viuda con cuatro hijos varones de un miembro del Parlamento britânico y héroe inglês de Ia Primera Guerra Mundial. Un dia la dama anunció a sus íntimos la adopción de una nina recién nacida, AmarylIis. Durante años Amaryllis Fleming creyó esa historia hasta que a la edad de 24 años descubrió que en realidad era hija natural de Eve y del pintor Augustus John. La rareza siguiente se produjo cuando John admitió que ciertamente él podia ser el padre de Amaryllis, mientras que Eve Fleming siguió insistiendo en que la nina era adoptada.
Pero la historia aún se enriqueceria con un sorprendente rumor londinense. Ba-sándose en el parecido físico y musical de Amaryllis Fleming con su profesora de violoncelo, Guillermina Suggía, y las muchas atenciones que esta tuvo con su alumna, se especuló con que la verdadera madre de la joven había sido Guillermina y no Eve Fleming, apoyándose en la débil motivación de que a mediados de 1925, el ano del nacimiento de Amaryllis, todas las referencias biográficas daban cuenta de que Guillermina Suggía fue sometida a una delicada intervención de la que nunca se han dado pormenores. El sobrino de Amaryllis y autor de su biografia, Fergus Fleming, desechaba rotundamente en 1993 esa conjetura, reforzada por la afirmación de que el rostro de Guillermina lo pinto Augustus John de memória, cuando ya su relación con ella había concIuido.Y si todas las notas históricas datan la ejecución del famoso cuadro entre los anos 1921-1923, Ia progenitura de la pareja Suggía-John resulta bastante improbable.

Artigo - parte II (8) de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro

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dezembro 28, 2006

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (7)

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La violoncelista solía afirmar que era muy sensible al bien que le hacian, mientras que no prestaba oídos a quien la quisiera mal. Esa forma suya de proceder le procuró un escogido grupo de amigos, entre ellos su empleada Clarinda o Isabel Cerqueira de Millet y su família, a los que consideraba como propios, lo mismo que la cantante lírica Ofélia Costa, para cuyos hijos Guillermina solía traer regalos cada vez que volvia de sus conciertos. Gentes que supieron entender que bajo los toques britânicos en el vestir, que en su tierra resultaban exóticos, su amor a los animales o la rareza para la época del interés que demostraba por el deporte y la vida al aire libre siendo mujer se se mantuvo intacto hasta que una temida enfermedad fue ganando terreno en su organismo.

En la colónia inglesa de Oporto contaba con antiguas amistades que estuvieron siempre a su lado compartiendo veladas musicales en casa de unos y otros. Las biografias de Guillermina y Pablo Casals seguidas en paralelo hacen evidente que la penúria de los malos tiempos cuajó de modo diferente en cada miembro de la pareja. A Casals los sufrimientos de tantas guerras le forjaron por largos anos un carácter austero, poco amigo de fiestas, y le agudizaron un cierto miedo escénico a tocar en solitário que padecia de antaño y que
él paliaba procurando actuar rodeado por otros músicos siempre que le era posible, amén de un compromiso político cada vez más radicalizado que lo llevó a distanciarse de muchos antiguos amigos trás los excesos de la República, la locura de la Guerra Civil española y la tragédia de la Segunda Guerra Mundial. «El arte es lo contrario de la barbárie», solía decir.

Fue necesario un prolongado retiro en el pueblo francês de Prades, mirando cara a cara a la depresión y rebelándose ante un mundo que parecia haber perdido la capacidad de razonar, para que el compositor de El Pesebre volviera a captar el pulso de la música, lo que sucedió a partir de que a su alumno norteamericano Alexander Schneider se le ocurriera aglutinar el sentimiento del mundo musical ante el retraimiento voluntário de Casals en protesta por la dictadura del general Francisco Franco en Espana y el posterior reconocimiento de ese regimen por las principales potências occidentales.

Aprovechando la cercania del bicentenário de la muerte de J. S. Bach en 1950, Schneider y un grupo de admiradores de Casals consiguieron que músicos y melómanos de todo el mundo se dirigieran hasta Prades para conmemorar la efeméride junto con el maestro de Vendrell, lo que le hizo salir de su aislamiento.

De solemnidad, gravedad, irreductibilidad en el compromiso ético, es el perfil que llega de Pablo Casals entre los años 1931 y 1957. Pero el ser humano guarda amplios registros que a menudo son una sorpresa para los extraños. Un dia aparece un testimonio impensable para su imagen de esos anos y asoma en el lector una sonrisa cómplice al conocerse otra conexión portuguesa de Casals en el âmbito amoroso.

Vinícius de Moraes dedicaba un poema en 1973 a três Pablos fallecidos ese ano:

Que ano más sin cri¬tério/, Ese del setenta y três.
Llevó para el cementerio/, A três Pablos de una vez.
Três Pablotes, no Pablitos/. -En tiempo, como en espacio,
Pablos de muchos caminos/: Neruda, Casals, Picasso
...

A esos tres pablos los había conocido más o menos bíblicamente,según ella, una de las más populares actrices portuguesas de cine y teatro que dio el siglo XX, Beatriz Costa, la Clara Bow lusa nacida 1907. Bonita y menuda,con la perfecta de muñeca de porcelana y cuerpo mullido de muñeca de trapo, también vedette de music-hall y cantante, la picante e inteligente mujer, que al retirarse a princípios de 196O desarrolló una labor literaria de éxito, contaba en el segundo de sus seis libros publicados, Quando os Vascos eram Santanas, que a Pablo Neruda lo visitaba en los tiempos en que el Premio Nobel de Literatura era embajador de Chile en Paris; a Pablo Picasso le debía «a honra de ser apalpada por él em casa de la modista Elsa SchiapareIIi»;en cuanto a sus relaciones con Pablo Casals escribió:

...O casamento com mulher jovem era uma idea fixa en él. Quando quis casar comigo, já tinha bastante idade. Acabou por dar o seu nome ilustre a uma discípula sua de vinte um años.

Artigo - parte II (7) de ANA MARIA FÉRRIN editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro

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dezembro 27, 2006

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (6)

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Guillermina se instalo en Oporto el período de 1939 a 1942 prácticamente completo. Se centró en su dedicación a la ensenanza y tareas de voluntariado en apoyo del Ejército britânico durante la Segunda Guerra Mundial.

Tenía sus propias recetas contra el aburrimiento y cuando la ausência de los auditórios se le hacía insoportable se fugaba a su manera cambiando la disposición de los muebles y renovando la decoración. En la faceta docente que desarrolló entre su vivienda de Oporto y la quinta de Os Cirassóes, en Barreiros da Maia, encontro lazos de amistad y complicidad con muchas de sus alumnas, que serían más tarde beneficiarias de su herencia, entre ellas Isabel Cerqueira de Millet, Pilar Torres y Madalena Sá e Costa. Esta última violoncelista sigue en activo a sus 90 anos en Portugal, donde es una figura altamente respetada. En referencia al abuelo de Madalena se guarda un recuerdo que ilustra la calidad humana de Guillermina. El 2 de abril de 1924 el músico Bernardo Moreira de Sá dejaba de existir De viaje desde Inglaterra y antes de partir hacia Espana con un largo contrato de conciertos que la llevarían a desplazarse por todo el país, ese mismo mês Guillermina hizo escala en Oporto para acompanar en sus últimos dias de vida a Bernardo Moreira de Sá, el maestro que había confiado en ella haciéndola formar parte a los 13 anos del cuarteto profesional de cuerda que él dirigia. En agradecimiento de aquella primera oportunidad y de su vieja amistad, Guillermina viajo expresamente para tocar unas suites de Bach junto ai lecho de su gran amigo.

Artigo - parte II (6) - de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16"de Dezembro

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dezembro 26, 2006

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (5)

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Guillermina contrajo el que seria su único matrimonio en 1927 con el doctor radiólogo del Instituto Pasteur de Portugal José Casimiro Carteado Mena. Estuvieron juntos hasta la penosa muerte del marido, que le llegó como resultado de una continua exposición a los Rayos X en sus largos anos de profesión en tiempos que aún se desconocía el alcance nocivo de las radiaciones. Después de sucesivas amputaciones de vários dedos y un brazo, no se consiguió atajar el mal y José falleció en 1949, un año antes que Guillermina.

Las cartas cruzadas entre ambos en ese mismo periodo nos hablan de complicidad y lealtad entre dos seres que se comprendían y respetaban. Lo demuestra que al partir en 1948 hacia Londres para someterse a una intervención con pocas esperanzas de éxito, Guillermina confio sus últimas voluntades a su marido, haciéndole saber que lo había nombrado beneficiário de una renta y que parte de sus joyas y accesorios personales los legaba a la hija de él, Maria Anna, y a su cuñada, Anna Mena. Para Guillermina después de la perdida de sus padres en 1932 y de su hermana entre 1948 y 1949 la desaparición del marido significó Ia soledad familiar absoluta. «Ahora estoy sola en el mundo», confesó a los íntimos.

Lãs frecuentes ausências de Guillermina por toda Europa, con largas estancias en Inglaterra alejada del marido, habían dejado espacio libre en Oporto para que algunas voces Ia tacharan de libertina, dando crédito a las habladurías propiciadas por el desdén de un determinado grupo social hacia ella, que la llamaba despectivamente a ingleza y que relacionaba a Guillermina con jóvenes amantes locales o foráneos, algo que pudo ser cierto. O no. En todo lugar existen seres que mientras más êxito y talento detectan en un compatriota con más ahínco se lanzan a su yugular procurando desprestigiarlo.

Se sabe que poco después de instalarse Guillermina en Oporto dos de esas damas se acercaron a ella en los salones del club social de la ciudad rogándole que aceptara ser la figura central de un concierto de benefícencia, a lo que ella accedió encantada de colaborar. Unos dias más tarde, al coincidir en un baile de dicho club, las mismas senoras le dieron la espalda fingiendo no conocerla, negándole el saludo. La violoncelista no se dio por enterada, pero memorizó el detalle para corresponderles como se merecían en el momento adecuado, que no tardó en llegar. Cercana la fecha del concierto, ya con el nombre de la intérprete utilizado como reclamo, las damas volvieron a visitarla para concertar los pormenores del acto y al entrar Clarinda en sus habitaciones y comunicarle la visïta, Guillermina adoptó la pose altiva, la conocida frialdad inglesa de la que se revestia cuando lo consideraba necesario, y le dijo a su empleada con la recomendación de que transmitiera textualmente el mensaje:

—«Madame» me manda decirles que no está.

Artigo - parte II (5) de ANA MARIA FERRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro

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dezembro 25, 2006

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (4)

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A título íntimo se le conocieron a Guillermina varias relaciones amorosas durante su etapa londinense - se especuló sobre su amistad con el entonces príncipe de Gales-. La más seria y duradera fue con un conocido integrante de la aristocracia inglesa, el editor y empresário sir Edward Hudson. Incluso se llegó a publicar en la prensa británica de 1919 el inminente enlace de la pareja.

Son una buena colección de fotografias de esa época las que muestran a Guillermina en traje de baño en sus playas, paseando, haciendo equilibrios colgada de los aparejos de un barco hundido, mostrando las capturas de una jornada de pesca, encaramada en las almenas dei Castillo de Lindisfarne, propiedad de su prometido en la costa de Northumberland, siempre elegante por rara que fuera la ocasión.

Con motivo de su compromiso Mr. Hudson le regaló el Stradivarius de 1717 que aparece en el cuadro de Augustus John, un presente que Guillermina no le devolvió al romper su relación en 1919, como tampoco abandonaria el fastuoso apartamento en Queen's Anne Gate que le proporcionó el novio inglês. Ambos siguieron manteniendo vínculos de afecto y ai morir en 1937 sir Edward le dejó en su testamento una determinada cantidad de libras en aprecio a su valiosa amistad y a su música gloriosa.

Después de décadas de vivir prácticamente separados, los padres de Suggía se habían reunido a princípios de los anos 20 para residir juntos en la casa que su hija había adquirido para ellos en Oporto, en la Rua da Alegria n° 885, situada frente ai n° 665, donde la violoncelista instalaria más tarde su hogar definitivo. Augusto llevó con el a Felisbella Passos, una hija ilegítima que lo acompañaba desde hacía tiempo,y todos continuaron su vida a expensas de Guillermina.A cargo de la intérprete corrieron la manutención y el servicio de Augusto y Elisa, incluso algún gasto galante de un padre que llevó una vida revoltosa desde sus tiempos de músico y profesor del conservatório. Augusto era un caballero con fama de bohemio al que se tenía por un asiduo visitador de direcciones poco recomendables. Guillermina nunca llevó un control de gastos con sus progenitores; debía pensar que la diferencia entre sus propios honorários de 60.000 escudos por concierto contra los 20 escudos que pudiera ganar ocasionalmente su padre, ya retirado, tocando alguna noche en un cine o teatro le permitia proporcionar a sus mayores todos los caprichos que no disfrutaron en sus años más jóvenes, cuando se sacrificaron para que ella triunfase.

Augusto Suggía murió en marzo de 1932 a los 81 anos - esta fecha desmonta una leyenda, según la cual Pablo Casals había rescatado a Guillermina en Paris en 1906 de la mala situación en que se encontraba al quedar huérfana de padre -. Su fallecimiento fue un duro golpe para la artista, que se consideraba muy cercana a el . Y, en octubre de ese mismo año, cuando aún no se había repuesto de la perdida, moría Elisa, su madre.
La desaparición de ambos no modificó la generosidad de Guillermina para con su hermanastra Felisbella. De forma documentada le dejó en su testamento el querido violoncelo de su infância, en agradecimiento por los cuidados que la joven había tenido con Elisa y Augusto mientras Ia intérprete cumplía sus compromisos por Europa. Fuentes allegadas van más alia y aseguran que adernas del violoncelo Felisbella recibió una dotación económica, lo mismo que su empleada y confidente Clarinda, unos legados quizá ocultos bajo las disposiciones del párrafo donde Guillermina encargaba a determinada persona que diese destino conforme «as instruções que de min tenha recebido» a ciertos valores que poseía en Londres.

Artigo - parte II (4)- de Ana Maria Férrin, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro

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dezembro 22, 2006

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (3)

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En la capital inglesa residió Guillermina por espacio de muchos anos, integrada en un ambiente afín a su temperamento, que tantas veces fue definido como británico. Sus êxitos en el Reino Unido expandieron su contratación por toda Europa y la popularidad de que gozó entre los súbditos ingleses la confirma el hecho de que los primeros años de su estancia no llegó a tener un hogar propio en Londres, ni le fue preciso reservar habitación en un hotel, pues numerosos amigos se anticipaban a invitarla a sus residências cada vez que la artista regresaba de cumplir sus compromisos en el continente.


Sus actuaciones cruzando Europa fueron numerosas en esa época y más vale remitir a los estudiosos hacia las hemerotecas que guardan las crónicas de sus éxitos, de Budapest a Sevilla y de Estocolmo a Lisboa. Sus relaciones sociales abarcaban realeza y aristocracia, músicos de renombre, políticos. El Prémio Nobel de Ia Paz y ministro inglés Joseph Austen Chamberlain declaraba en una entrevista a propósito del poco sentido musical que había en él:

... Una vez se abrió por un instante para mi esa cortina que permite sentir el placer de Ia buena música. Fue cuando escuché tocar a «Mme.» Suggia y casi llegué a pensar que podia existir en mi alguna música. Pêro después de oírla esa cortina volvió a cerrarse quedándome de nuevo en la oscuridad.

En la revista Times and Side el periodista Christopher St. John dedicaba una crónica a Ia actualidad musical londinense con una larguísima crítica a Guillermina que finalizaba con las siguientes palabras:

...Después de que «Mme.» Suggia ejecutara en Wigmore Hall la obertura de Ia «Sonata de Brahms para violoncelo en Fa Mayor» yo no hubiera corrido por ahí fuera aunque otros diez conciertos hubieran exigido mi atención... Había tanta expresión en aquel primer fraseado desde los primeros compases que los asistentes sentíamos que estábamos ante el perfil de Brahms, lo cual siempre es tremendo, lo mismo que su colorido. Estoy feliz a todos los niveles por ser Suggía quien me parece la mayor de todos los violonchelistas. Casals es tecnicamente igual, mas su interpreíación no me prende con el mismo jovial entusiasmo que Guillermina Suggía.

Arturo Rubinstein después de tocar con ella declaro al Aberdeen Press and Journal el 25 de octubre de 1926:

...La admiración y el interés más encendido de la noche se reservaron para la interpretación de la señora Suggía.

Y uno de los momentos cumbres de su carrera Io consiguió Guillermina tocando en diciembre de 1932 en Londres ante una audiência de 10.000 personas en el concierto conmemorativo dei 65° aniversario de la esposa del rey Jorge, la reina Mary, en el Royal Albert Hall a beneficio del Fondo de Asistencia a los Músicos.

La escritora Virgínia Wolf y la pintora Dora Carrington, integrantes del grupo de Bloomsbury, la nombraron ellas mismas, o sus biógrafos. La primera dijo:

...Quizás consiga algunas horas de puro placer escuchando a Suggía, porque deseo su música para estimularme e inspirarme...

La segunda afirmó:

...Un incentivo de mi vida londinense es oir una sonata de Bach tocada por «Mme.» Suggía en Aeolian May.

Artigo (PARTE II - 3 -) de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro.


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dezembro 21, 2006

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (2)

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Para Pablo Casals romper su convivência con Guillermina Suggía en 1913 llevó aparejado el distanciamiento con muchos de los amigos frecuentados hasta entonces, incluso su vida profesional quedó afectada. La relación de sus actuaciones durante ese año apenas contiene una densa gira otoñal por la que el llamaba la tierra triste de Rusia, finalizada a mediados de diciembre en Moscú con un concierto dirigido por Rachmaninov.

En Gran Bretaña, desde que Casals pisó su território por primera vez, nunca había encajado muy bien entre Ia sociedad inglesa, ésa es una realidad a la que el se refirió a menudo. Sin existir en principio un motivo concreto, si se pasa revista a sus íntimos de esas islas veremos que solo Donald Francis Tovey era inglês de nacimiento; precisamente Tovey, que había sido el desencadenante de su ruptura con Guillermina. Por el contrario, Inglaterra era para la violoncelista su habitat natural y una vez establecida en esa tierra, trás su etapa con el músico de Vendrell, Donald Tovey se convirtió en su principal apoyo, el admirador y amigo íntimo que le proporcionó buenos contactos en aquel país puntero en cuanto a oportunidades musicales, y la presentó a los miembros influyentes de la alta sociedad britânica. De ahí que Casals no quisiera correr el riesgo de encontrarse a los dos en la intimidad de algún salón londinense, circunstancia que le sucedió alguna vez. Guillermina había retomado una actividad imparable al separarse de Casals. Un recorrido por las críticas musicales de Ia época muestra frases irrebatibles para definir los recitales de Ia violoncelista portuguesa, como Ia siguiente:

Un ideal de perfectión estilística y musical... Guillermina. «The Queen of the Cellists».

Sus actuaciones llevaban el marchamo de algo irrepetible. lmpecable, desarrollaba sus recitales con un despliegue de sutiles pianísimos, transformados a su placer en los agresivos pasajes graves, rápidos o agudos, tradicionalmente asociados a la fuerza de un varón, según afirmaban los entendidos. A la vez Guillermina Suggía dominaba el juego de la sofisticación.

La Suggía, el cuadro pintado por el artista galés Augustus John,que hoy puede contemplarse en la Tate Gallery de Londres, donde está considerado una de sus joyas, es una tela impactante que no deja indiferente a quien la observa y despierta los sentidos mostrando a la llameante mujer en todo su esplendor. Para comprender varias características del sorprendente retrato, los brillos que se deslizan por el barniz del instrumento y el vestido hasta posarse en la piel de la intérprete y los pliegues del cortinaje, se hace preciso acudir a los apuntes que la misma Guillermina publicó con motivo de la primera exhibición de la obra en los que explica como llevó a cabo Augustus John su realización.

El artista hizo que la modelo se colocara encarada hacia la izquierda de la habitación - vista desde la óptica del espectador -, donde un ventanal ocupaba buena parte de la pared, escogiendo los dias soleados para pintar y de ellos sólo las horas de máxima luz. El sol traspasaba el cristal y le daba de lleno en el rostro deslumbrándola, por lo que de una forma natural ella echaba hacia atrás el cuello girandolo hacia el hombro derecho y cerraba los ojos, acentuando la sensación de arrobamiento. Empezó su posado vestida con un traje dorado escogido por el pintor, pêro al comprobar que atrapaba demasiado Ia luz, un dia de repente el artista decidió cambiarlo por otro blanco. Tampoco ese color conseguia expresar el tintineo, la pasión que buscaba destacar en la violoncelista. La pureza del tono prestaba a la modelo un aire angelical, todo lo contrario del fuego que John deseaba transmitir, por lo que finalmente pidió a Guillermina que lo sustituyera por uno rojo, que esta vez si fue el definitivo.

Ese retrato, La Suggía, contiene un movimiento de brazos y manos tan vivo que el observador no se sorprendería si de pronto brotara la música, eso y el batir de una falda a la que casi puede oírsele crujir la seda fueron efectos conseguidos para una Guillermina que a petición del pintor no dejó de interpretar a Bach todo el tiempo que duraron las sesiones. Cadencia y medida. Mientras pintaba John tarareaba la música con ojos de travesura. Y cuando un toque de pincel lo dejaba especialmente satisfecho empezaba a caminar por el estúdio, apoyándose en la punta de los pies, azogado, como si danzara. Ella lo veia de reojo y tenía que esforzarse para contener la risa. El contrasentido de una modelo a la que se le pedia que no dejara de moverse fue el mecanismo que empleó Augustus John para, retocando continuamente la pintura, congelar el instante mismo de una determinada presión de los dedos sobre una cuerda más o menos tensa del violoncelo. O jugando con el brazo, el arco y el mástil acechar y atrapar los três elementos formando un triângulo casi perfecto con el nacimiento del cuello.

Las sesiones de dos horas se alargaron otras dos en muchas ocasiones con entreactos que ambos aprovechaban para comer juntos y mantener una charla. Augustus John era todo lo contrario de su hermana Gwen, solitária y mística,amante dei escultor Auguste Rodin y también pintora. Guillermina dejó escrito que John era un hombre ameno, mordaz y sarcástico, y el «todo Londres» dejó extender el rumor de que entre el pintor y Guillermina, ambos alrededor de la cuarentena, había surgido un romance.

Artigo (PARTE II - 2 -) de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro.


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dezembro 20, 2006

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16" (1)

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dezembro 18, 2006

GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS (Y II) por ANA Mª FERRIN - "HISTORIA16"

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dezembro 15, 2006

"HISTORIA16" - GUILLERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS ( PARTE II), de ANA MARIA FERRIN

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Na próxima semana começaremos a publicar a segunda parte do artigo de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Dezembro

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dezembro 12, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (11)

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Los años cicatrizaron la ruptura, con matices, y sus encuentros posteriores fueron escasos. En los anos 20 Casals actuaron juntos tres temporadas con la Hallé Orchestra, pero solo se vieron cara a cara al coincidir en un vagón de ferrocarril en la estación de St. Pancras en 1923. Casals camino de Manchester, Suggía viajando hacia Leicester para dar un concierto con Malcom Sargent y ella, que se encontraba en un gran momento de popularidad por sus conciertos y por el éxito de la exhibición del cuadro de Augustus John, con una gran seguridad en si misma le dijo que esa noche tocaria «como una diosa».

En 1924 Casals actuó en Inglaterra y Guillermina acudió a oírlo en un concierto de Dvorak. Casualmente coincidieron después en un restaurante, Guillermina con su madre y él acompañado de un amigo. Se sentaron juntos y hablaron largamente, «observados morbosamente por todos los clientes, que nos conocían de vista y sabían la historia. Pablo no había estado bien en Londres, pero volvi a verlo en Manchester y allí tocó maravillosamente», le contó la artista a su amigo Vianna da Motta en una carta.
Lo que Guillermina no sabia era que al sentarse ella en la primera fila y verla Casals después de un largo tiempo de alejamiento, el intérprete sufrió una gran impresión poniéndose más y más rígido a medida que avanzaba el concierto hasta que un calambre lê agarrotó una mano.

Otra ocasión de cruce de sus vidas, sin encuentro personal, se produjo ai sustituir Suggía a Casals en 1931 cuando él tuvo que anular un concierto para la BBC por una emergencia familiar.

Guillermina, del germánico «la que protege en firme libertad», fue una figura indiscutible del violoncelo en toda Europa. En Inglaterra tocó con la Royal Philarmonic Society, la State Simphony Orchestra, la BBC Simphony Orchestra, la London Simphony Orchestra. Sus recitales en el Royal Albert Hall o en Wigmore Hall provocaban raptos críticos como este:

Oírla es como apresar la expresión musical de un puma en las florestas sudamericanas, esplendidamente flexible, vigorosamente graciosa, dibujando una pasión durmiente hasta que llegada al clímax toda su brillante inteligencia salta y consigue su fín. Es altamente excitante.
(Brighton Herald, 8 de diciembre de 1934].

Guillermina fue reconocida, adernas de por su talento interpretativo, por ser una innovadora de la puesta en escena. Sabia instintivamente que la musca debe abrirse camino a través de todos los sentidos posibles, desplegando la imaginación hacia un mundo de belleza global y para ella en ese concepto cabia todo; crear la ilusión de un paisaje idílico y un fondo decorativo que rimara con los cortinajes y el traje del músico, lograr una depurada estética en la posición y los movimientos del intérprete, buscar la elegância sensual en las ropas coordinadas con el calzado. Ella misma disenaba su peinado subrayándolo con un cuidadoso maquillaje que acentuaba sus ojos rasgados.
El cuidado de las manos, el tono rojo de sus lábios y sus unas, todo era supervisado, coordinado por la artista para crear un ambiente que predispusiera al espectador a sumergirse en un baño de armonía propiciado por l música.

No seria un detalle nimio el que Suggía poseyera un atractivo rostro nefertiano y contara con un buen par de piernas enfundadas en seda, de las que mostraba parte de los tobillos durante sus recitales calzando zapatos sofisticados que se convertían en un referente de moda, asomando por el borde de unos trajes de gala que todos creían confeccionados por famosas firmas de alta costura cuando a menudo salían del sencillo taller de Cla
rinha, la costurera de Leça da Palmeira en la Rua Direita.
El atelier estaba situado en una casa que aún existe, allí las oficialas y aprendizas vivían la excitación de ver aparecer cada verano a la famosa y elegante Suggía portando los más atrevidos sombreros y accesorios.

La casa que solía alquilar cada verano en la Rua Nogueira Pinto de esa localidad costera sigue en pie, como casi todos los edifícios que puntuaron su
vida.Y felizmente este ha llegado hasta nuestros dias en perfecto estado.
* Las fotos para este reportaje
son de varias procedencias porque
existen multitud de copias de una
misma imagen en poder de diversos
propietarios. El principal reconoci-
miento para el presente trabajo se
deberá a Elisa Lamas, Isabel Millet y Virgílio Marques"

Artigo - parte 11 - de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" do passado mês de Novembro


Nota de VM- Infelizmente a casa que Suggia manteve arrendada durante muitos anos em Leça da Palmeira está - como a quinta dos Girassóis em Barreiros da Maia e a casa da Rua da Alegria 894 que Suggia comprou para os pais - num estado de ruína quase total. A informação incorrecta deve-se ao facto de ter sido publicada em tempos no blog uma fotografia da casa errada.
Pelo facto pedimos as nossas desculpas

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dezembro 11, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (10)

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Por su parte, Guillermina Suggía tuvo al principio de su ruptura algún intento de silenciar el nombre de Casals de su biografia, con especial hincapié en dejar bien claro que musicalmente se hablaban de tu a tu, evitando mencionar que de nina ella fue alumna del maestro catalán y que cuando se unieron el tenía un cachet muy superior al de ella. Jamás volvió a nombrar a su antigua pareja a título personal, pero si se refirió a el como músico.

En abril de 1920, en un largo artículo para la revista Music & Letters, después de hacer un duro repaso al mundo musical eligió el nombre de su antigua pareja para extenderse en largos párrafos sobre el que considera el violoncelista ideal, el más dotado y exigente, Pablo Casals:

...Me veo forzada a mencionar un nombre que, en opinión de todo el mundo, es el que destaca preeminente entre los violonchelistas vivos. Ese nombre es Pablo Casals. No trazaré su biografia, pero si diré algunas palabras acerca de su trabajo y de su inmenso valor para la generación venidera de violoncelistas... Casals tocó todos los instrumentos orquestales entre los 5 y los 12 anos y solo después de conocerlos todos se decidió por el violoncelo... Revolucionó todas las escuelas de violoncelo créando una técnica nueva que abrió Ias puertas a todas las posibilidades de este instrumento, haciéndolo capaz de la más pura expresión musical...

El descubrió que para sentarse bien y sen tirse seguro con el violoncelo, colocando el arco sobre las cuerdas y utilizando la posición corporal correcta, no era necesario contorsionarse... Ejecutaba su trabajo artístico de tal modo que su cuerpo se adaptaba con naturalidad a las formas y movimientos correspondientes, siendo así capaz de armonizar aquello que los franceses llaman «l'esthétique» con su técnica y su sentimiento musical...

Veintitres anos más tarde sus respuestas a una entrevista tenían un tono diferente:

...Que pena que Casals no pueda venirahora a Portugal. La crítica nos colocó siempre cara a cara en una equilibrada confrontación de valores. Pablo Casals me considera la mayor violoncelista del mundo y solo me queda pagarle con la misma moneda. Seríamos, en ese caso, dos glorias peninsulares, como si el destino se hubiese encaprichado de que el y yo naciésemos en naciones vecinas del extremo occidental de Europa...(The Violoncello, 12 de enero de 1943].

Artigo - parte 10 - de ANA MARIA FERRIN, editado na revista "HISTORIA16"
de Novembro passado

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dezembro 07, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (9)

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De poco les sirvió un breve intento de reconciliación vivido por la pareja entre marzo y junio del año siguiente a raiz del concierto que Emmanuel Moor había escrito para ellos y que tenían comprometido en Paris. Una pieza que, por cierto, guardaba la línea más importante para ser ejecutada por Guillermina, lo que debió reavivar el problema de su convivência. En julio Casals dejaba de nuevo la capital francesa para veranear en su casa junto a la playa de San Salvador y Guillermina atendia la invitación de su hermana Virgínia y su cuñado el editor Pichón para que les acompañara a Brive-la-GailIard hasta el otoño.

Al año siguiente, 1914, la violoncelista de 29 anos se instalaba en Londres dispuesta a empezar un nuevo capítulo y por primera vez en su vida sin nadie a quien rendir cuenta de sus decisiones profesionales ni personales.
En el Museo Casals de San Salvador que hoy ocupa la antigua mansión del músico, una fotografia de madre e hijo reposando cada uno en su hamaca podrían reflejar la tranquilidad en que quedo la casa trás la partida de los huéspedes aquel verano de 1912. Guillermina ofrece otra imagen tumbada en un banco junto al lago de Aix-les-Bains, su rostro y toda su figura parecen gritar de alegria por la libertad recobrada.
De Pablo Casals existen biografias autorizadas que simplemente excluyen de sus páginas el nombre de Suggía. En otras se hace patente, que si un escritor decide escribir sobre un protagonista real podrá escoger entre varias posturas, pero la menos aconsejable es la de permanecer arrodillado escribiendo al dictado, ya que eso obligará al escritor a ir rebajando, cuando no desprestigiando, a aquellos personajes que no resulten gratos al biografiado o a su entorno.

En tono apologético para Casals transcurre una de esas primeras biografias, lo que no tendría más importância que un cuestionable ejercicio de estilo si no fuera porque de esa obra, de esos párrafos sobre Guillermina se ha nutrido médio siglo de perfiles biográficos con datos descalificativos para la intérprete portuguesa en un intento de desacreditarla. El autor confiesa que como Casals había quedado herido con la relación nunca quiso hablarle de ella y tampoco quienes lo rodeaban quisieron informalo, todos callaron. Cuenta que sólo encontró a alguien dispuesto a transmitirle que Suggía «era una criatura de historias, de intrigas, de aventuras». Y con esos mimbres el autor construyó un retrato desfigurado de la violoncelista que ha servido para ser copiado y traducido y trasladarse a otros libros una y otra vez.

Del mismo modo ignoran la presencia de Guillermina en la vida del maestro algunas reseñas biográficas exportadas desde Puerto Rico, la residência de sus últimos 16 años, la pátria de su madre y de su última esposa y donde la figura de Pablo Casals es reverenciada hasta el punto de haberse convertido en un icono musical y turístico.

Artigo - parte 9 - de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA16" de Novembro passado

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"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (8)

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Para los dos, Casals y Suggía, revisando la documentación existente queda claro que fueron el uno para el otro parte importante de sus vidas. Si la ruptura se produjo por celos profesionales [se guardan críticas de la época donde alaban a Suggía por encima de Casals], serían ciertas las informaciones según las cuales el maestro tarraconense llegó a esconder los instrumentos de su pareja para que ella no pudiera ensayar, y auténticos los rumores de que Guillermina estaba harta de una relación que asfixiaba sus proyectos. Si por el contrario, como afirman testigos muy diversos, los motivos fueron pasionales, resultarían creíbles los testimonios de que Casals se enzarzó en una pelea con el pianista y compositor inglês Donald Frances Tovey al encontrarlo, según metáfora de la época, «en plena transgresión» con Guillermina.

Pero existen otras interpretaciones del suceso. Tovey tenía la edad aproximada de Casals, había tocado a los 18 anos con el gran violinista Josef Joachim y de esa colaboración había partido un espaldarazo que lo llevó a ser conocido en Inglaterra, añadiendo su gran talento interpretativo, casi malabarista. Entre otras cualidades era capaz de memorizar partituras de una gran complejidad y del grosor de un libro, tocarlas y volverlo a hacer al revés, de atrás para adelante. Hijo de un clérigo, entró a los 12 años en la escuela privada de Sophie Weisse, dejado en sus manos, y a partir de entonces toda su vida estuvo programada por esta mujer que, posiblemente por temor a perder su ascendência sobre él, lo apartó de las relaciones normales de niñez y juventud, lo que contribuyó a un cierto autismo en su carácter, incapacitado normalmente para comunicar y comprender los sentimientos. Tovey llegó aquel verano de 1912 a la casa construída por Casals en el pueblo tarraconense de Sant Salvador con su Sonata para dos Chelos, compuesta especialmente para Casals y Suggía. Era la segunda invitación, el ano anterior había tenido que suspender el viaje por una epidemia de cólera en Barcelona. Poco antes el músico británico había concluído el exótico encargo de una Marcha Nacional para el sultán de Zanzíbar y los amigos bromeaban con él recibiéndolo con plumeros y colchas a modo de mantos. En el chalet se encontraban hospedados el pianista Mieczyslav Horszowski y un flamante Enrique Granados con su esposa Amparo celebrando el êxito de su obra Goyescas.

A mediados de septiembre de 1912 Donald Tovey recibió la noticia de que su padre, el reverendo Duncan Tovey, se encontraba gravemente enfermo. Muy sensibilizado por la noticia y antes de partir para Inglaterra, el músico intensifico Ia buena relación con Guillermina e intimó amigablemente con ella, que se sinceró con el músico confiándole un determinado problema íntimo existente en su relación con Casals.Tovey intentó mediar entre la pareja hablando con Casals y posiblemente, sin ser consciente de su inoportunidad, mencionó un cierto tema de índole sexual que provocó en Casals una violenta explosión de celos.
Situándonos en el rigor se trata de un terreno en el que solo pueden hacerse conjeturas basadas en confidencias ajenas, porque ninguno de los dos, Casals o Suggía, se refirió nunca a verdadero motivo que los llevó a la ruptura. Se sabe que el maestro regresó a San Salvador después de un viaje antes de lo previsto por GuiIIermina, y que aquellas vacaciones acabaron bruscamente volando la vajilla y empuñando Casals un revólver que no se llegó a disparar. Mientras Casals se quedó en su casa de San Salvador con su madre y sus hermanos, Tovey partió para Londres y Guillermina fue Paris, pero no acudió al hogar común de Villa Molitor, sino que prefirió quedarse en otra dirección a la espera de ver como se resolvia el episódio.

Artigo - parte 8 - de ANA MARIA FÉRRIN, editado pela revista "HISTORIA 16" de Novembro passado


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dezembro 06, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (7)

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Allí empezaron sus desventuras. Perdida la beca, al dia siguiente partían animosamente los Casals hacia Paris para continuar los estúdios en medio de un invierno terrible, Pablo esperanzado con encontrar un trabajo que les costeara la vida y las clases. En aquellos dias, felices años del can-can y el Moulin Rouge, el estudiante se enteró por un amigo del concurso para una plaza de violinista que celebraba el Folies-Marigny, un teatro de vodevil. Pablo se presente y se hizo con el puesto. Pero cuando parecia que la vida se encarrilaba, el joven de 19 anos contrajo una disenteria complicada con hemorragias intestinales que los médicos no acertaban a tratar. Entre el frio y la mala alimentación el músico no se recuperaba.

Un dia la madre tomó una decisión que dejó perplejo a Pablo:

Yo miraba asombrado a mi madre mientras me decía: «Volvamos a Barcelona, es lo mejor que podemos hacer, no te convienen estos inviernos tan rigurosos» - recordaba Casals en la entrevista de José Corredor-. Mi madre se había cortado su magnífica cabellera por mi, vendiéndola por un poco de dinero para ayudar al viaje de vuelta a Barcelona! Lo hizo así, con toda sencillez, sin gritos ni lamentaciones, aunque para ella suponía el fin de un sueño.

En 1897 el imán que atrae la buena o la mala suerte aguardaba a Pablo en Barcelona bajo su aspecto más favorable, a partir de entonces su carrera iria de triunfo en triunfo. Con semejantes antecedentes, al coincidir tiempo después en Paris era indudable que Pablo Casals y Guillermina Suggía hablaban un mismo idioma, ambos sabían el valor del bienestar y el esfuerzo que cuesta llegar a el cuando no se posee más capital que ilusiones y una buhardilla alquilada.

Qúantas veces volvieron a encontrarse Casals y Guillermina en la ciudad del Sena, donde residia el músico por esas fechas antes de hacerse pública su relación? El ano 1905 fue en el que Casals alquiló Villa Molitor, una casita con jardín, el n° 20 de un total de 25 chalets situados en el barrio de Auteuil. Guillermina cumplía 20 anos, Casals 29. Surgió ia circunstancia subliminal de una postal enviada por ella a su benefactor y amigo António Lamas comunicándole que en breve daría una serie de conciertos con el violoncelista Casals. La postal es la reproducción de una tela de Van Dyck mostrando al príncipe Guillermo y a Maria Estuardo tomados de la mano. Al año siguiente ya hay constancia de una vida en común de ambos músicos en el chalet francés, pero pudo iniciarse tiempo atrás. A ese respecto existen contradicciones de fechas y el dato nunca ha sido muy preciso.

Las fotografias de la pareja durante su primera época parisina llevan todas un marchamo: Joie de Vivre. Amor, música, viajes, reuniones con amigos. La mayoría eran músicos que acudían al chalet con sus instrumentos para organizar saraos privados tocando juntos las piezas que se lês antojaban, cantando, comiendo, bebiendo, lejos de empresários y de las presiones de escenarios y público. «La banda de los ladrones», como gustaban llamarse a si mismos, artistas de talento que luego vieron inmortalizados sus nombres, se apiñaban en el salón o en el pequeno jardín. Unas veces Pablo y Guillermina se muestran en las fotos con la excitación de montar en automóvil, nadar, jugar al ténis. Otras aparecen más relajados, ella cose, el pule sus violoncellos, donde brilla la esmeralda regalada por la reina Ma Cristina de España que Pablo hizo engarzar en un arco.

H. L. Kirk describía así a GuiIlermina en su biografia de Pablo Casais [1974]:

Suggia no era una belleza a la manera clásica, pero resultaba fascinante con su tez clara, aceitunada, enmarcada por una espléndida cabellera muy negra, a juego con sus ojos. Su risa era alegre, explosiva, y centraba Ia atención en cualquier reunión. Exuberante y atractiva, poseía una mente rápida y un espíritu independiente con gustos bohemios que Casals no aprobaba. Desde el principio de su relación Suggia demostró a Casals su impredecible y temperamental carácter.

Ella aprobaba la vanguardia, él preferia a los artistas más conservadores. Si más adelante Pablo Casals condensó su vida con Guillermina en la frase «con ella viví el episódio más cruel e infeliz de mi vida», puede que ese sufrimiento se gestara durante aquellas alegres reuniones donde la veta fascinante de Guillermina con los hombres mostraba sus inicios. Amigos que le pedían más solos a ella que a Casals, mientras la intérprete se hacía de rogar entre risas, y los compañeros insistían, y ella más risas corriendo a esconderse hasta que ellos la encontraban. Alegria de vivir, travesuras de mujer que recobraba su infancia perdida de niña agobiada por la estricta disciplina de un instrumento implacable. Aun así, abundantes testimonios cuentan que durante anos estuvieron muy unidos, Casals corria a encontrarse con Guillermina tras cada actuación y si estaba previsto que su ausencia durara más tiempo ella lo acompañaba, lo que lógicamente debió estancar su propio desarrollo profesional que tan bien había empezado. Las fotos primeras nos los muestran siempre con llas manos unidas o apoyados uno en el hombro del otro.

Todo parece indicar que Suggia y Casals no llegaron a casarse. Se sabe que el maestro la pidió en matrimonio y que al parecer fue ella la que no consintió. No obstante, los dos provenían de famílias católicas y conservadoras y ésa pudo ser la causa de que ambos escribieran a los íntimos contando que se habían casado y refiriéndose desde entonces el uno al otro como marido y mujer. De ahí que en diversos programas de los principales centros musicales europeos se refirieran a las actuaciones de los dos como un matrimonio. En su History of the Violoncello el doctor Lev Ginsburg escribía sobre los recitales dados en Moscú en noviembre de 1908 por la pareja:

Pablo Casais y su esposa Guilhermina Suggia ofrecieron su concierto para dos cellos en el Moor Concerto.

Artigo - parte 7- de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA 16" de Novembro passado

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dezembro 05, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (6)

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Su predestinación a encontrarse abarca vários niveles, eran dos vidas de arranque muy similar. La madre de Casals, Pilar Defilló, era una joven portorriqueña nacida en Mayagüez de família catalana, cuyos padres habían conseguido una posición cómoda en la isla hasta que, posiblemente por causas políticas, el padre y el hermano mayor se suicidaron y la madre decidió volver a España en 1860 con los dos hijos más pequenos de los ocho que había tenido. Los três se establecieron en Vendrell y Pilar empezó a estudiar piano con Carlos Casals, el organista de la Iglesia de Santa Anna, con quien acabó casándose.

El padre de Guillermina, el violoncelista y profesor del Conservatório de Oporto, Augusto Jorge de Medina Suggía, tenía ascendência italiana y española. Los dos personajes tuvieron mucho que ver en los éxitos de sus hijos, buscándoles contactos, empujándolos y alentando sus ilusiones cuando la precariedad en movimientos de avance y repliegue amenazaba con asfixiarlos. Si Augusto Suggía abandonó su puesto de profesor para sostener el proyecto de futuro de su hija de 16 anos en un país extranjero, Pilar Defilló, la madre de Pablo Casals, también aportó su vena audaz dejando solo a su marido en VendrelI y partiendo con sus tres hijos, Pablo de 17 anos y dos muy pequenos, el menor aún de pecho, hacia Madrid para solicitar ayuda a la família real con una carta de presentación del compositor Isaac Albéniz. La escasez pasada por los Suggía no puede compararse con la miséria en su grado más grave sufrida por la señora Casals y sus tres hijos en la capital francesa.

En declaraciones a J. Mª Corredor, Pablo Casals recordaba emocionado la llegada al Palacio de Oriente con los tres miembros de su família que lo acompanaban aquel invierno de 1895. Mientras Pablo tocaba una composición propia al piano, su hermanito Luis correteaba por la estancia y Enrique, el bebé que hacía el número 11 de los hijos del matrimonio Casals-Defilló, lloraba a todo pulmón porque tenía hambre y su madre no se atrevia a amamantarlo en aquel marco... hasta que la infanta Isabel, la Chata, los acompañó a un lugar reservado y la madre pudo alimentado.
Igual que sucedió con GuiIlermina, Pablo Casals obtuvo una beca de la Corona de su país para Madrid y Bruselas, siempre acompanado por su madre y sus hermanos, lo que fue desastroso para la relación de los padres. El esposo no comprendía lo que el llamaba la locura de mi mujer, de acá para allá con los três hijos supervivientes del matrimonio, de Madrid a Bruselas, de Bruselas a Paris, trabajando de costurera para sobrevivir y gastándose los escasos ahorros de la família, que poco a poco iba enviándole el marido.

En Bruselas Casals reaccionó con una gran dignidad ante las burlas del profesor del conservatório, Edouard Jacobs, quien sin motivo alguno el primer dia de clase le hizo pasar un largo rato de humillación con sus sarcasmos, provocando las contínuas carcajadas de los alumnos:

— Bien, ahora escucharemos a «le petit espagnol...». Parece que estamos ante un muchacho que lo sabe todo, debe ser un individuo extraordinario! El gran artista no ha traído su violoncelo y tocará con cualquier instrumento. Qué sublime!

Tragándose la rabia, Casals tomó el chello prestado y tocó como nunca lo había hecho dejando paralizado al auditório. Guando acabó, el silencio era general y el profesor le pidió que lo acompañara a su despacho y le dijo:

— Si está dispuesto a ingresar en mi clase le prometo, contra todas las ordenanzas del Reglamento, que este ano le concederemos el Primer Premio del Conservatorio.

A lo que Casais contestó:
— No señor, usted me ha vejado y no me quedaré aqui ni un minuto más.


Artigo - parte 6 - de Ana Maria Férrin, editado na revista "HISTORIA 16" de Novembro passado

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dezembro 04, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (5)

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Al ir espaciando su hermana las actuaciones, en lo sucesivo Guillermina compartiria sus recitales con pianistas cada vez más notables. Tocaria junto a George Reeves, Gerald Moore, Harold Bauer, Ernestina da Silva Monteiro y Arturo Rubinstein, entre una larga serie de concertistas de primera fila.Y una y otra vez, vuelta a Paris, vuelta a Pablo Casals.

Quando la precoz Guillermina conoció a Casals tenía 13 anos y ya era la violoncelista principal de la Orquesta de la Ciudad de Oporto y uno de los integrantes del cuarteto de cuerda de Bernardo Moreira de Sá. Ese verano de 1898 Casals estaba contratado en Portugal por el Casino de Espinho para amenizar las cenas, los bailes, las veladas de juego, como parte de un sexteto de cuerda con el compromiso de que un dia a la semana él actuaría como solista. De la misma manera que le había sucedido en Barcelona cuando interpretaba solos en el café Tost dei barrio de Gracia, se difundió por Porto y los demás círculos portugueses el prestigio de sus excepcionales recitales y personalidades de todo tipo acudían a escuchar al músico de Vendrell. Los reyes de Portugal, don Carlos y dona Amélia, tuvieron noticia de su presencia y lo invitaron a dar un recital en su Palacio de Lisboa.

No se sabe donde se enteró Augusto, el padre de Guillermina, de la presencia de Casals, si concidieron ambos en el Casino de Espinho o en algún salón privado. Lo único cierto es que después de escucharlo y de confirmar la categoria de sus nuevas técnicas de digitación y posición que lograban una sonoridad de calidad única, el padre de la adolescente acordó con Casals que diera lecciones a su hija durante el tiempo que durara la estancia del músico español en Portugal. Por espacio de varias semanas la menuda Guillermina y su padre cargaron con el violoncelo y las partituras, recorriendo en tren los 18 kilómetros que separaban Espinho de su lugar de residência, Oporto.

En 1903 la concertista volvió a coincidir con Pablo Casals en Leipzig como solista de la Gewandhaus Orchestra y convertida en una espléndida mujer de 18 anos, llamada, en opinión del ambiente musical alemán, a convertirse en una celebridad. A partir de ahí de una u otra manera sus vidas quedarían unidas hasta 1913.


(Artigo - parte 5 - de ANA MARIA FÉRRIN, editado na revista "HISTORIA 16", em Novembro passado)

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dezembro 01, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (4)

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Dejando aparte el cariño que se profesaron las dos hermanas hasta el final de sus días, Virginia no debía sentirse feliz con tanta carga y acabó por irse a vivir sola a la zona de Ribeirinho, en Matosinhos. Más adelante también ella recibió una Beca de Ia Corona y viajó a Paris a estudiar en su conservatório con el profesor y compositor Louis Diémer. En una actuación conoció al influyente editor León Pichón, que se convertiría en su marido y los salones de su residência serían considerados en poco tiempo de los más elegantes de Paris. El piano quedaria en un segundo plano a plena satisfacción de Virgínia, las cartas de esa época a su família son una continua alabanza de la vida doméstica y los viajes sin trabajar, solo de placer, al tiempo que bendice la suerte de tener un marido que la cuide. Incluso la novedad de disfrutar en el hogar de un nuevo electrodoméstico, el aspirador, le resulta un motivo más interesante para comentar con su familia que la música.

Elisa no parecia apreciar mucho el talento de su hija Virgínia. En una ocasión recibió una carta suya en la que la jovén le contaba el gozo de un viaje con su reciente marido por el sur de Francia. En ella Virgínia enviaba unos párrafos para su hermana aconsejándole el matrimonio, porque «el amor es mejor que la música y no vás a estar toda la vida con el violoncelo en la mano». Quando la recibió la madre le hizo llegar el recado a la hija menor, pero desechando para Guillermina la perspectiva de una boda, algo que, según creia, estaba bien para la gente común (entre ellas Virgínia), pero los elegidos debían tener otras metas:

...Porque una artista como tu, Guillermina, pensaria de la misma manera? Lo que tu posees es muy raro, mientras que lo que ella tiene [un marido] cualquiera lo puede tener...

Las atenciones de Julius Klengel con Guillermina fueron contínuas aquel período de 1902. En un dueto llevado a cabo por ambos ante profesores y alumnos del Conservatório, fue criticada la actitud del profesor, que cedió a su alumna la parte del primer violoncelo poniéndose él en un segundo plano.

Ya soy viejo y empieza mi declive - les contestó con firmeza a los músicos, acallando sus quejas-. En cambio ella es joven, llena de talento y conoce todos los secretos del violoncelo. Está empezando a triunfar y llegará tan alto que nadie la detendrá.

No todo eran parabienes. Hasta Portugal llegó la noticia de que contraviniendo las normas de la Bolsa de Estúdios que prohibían especificamente las actuaciones pagadas mientras durase la dotación, Guillermina había percibido unos pequenos honorários por alguno de sus recitales en Leipzig, lo que provocó la retirada fulminante del único dinero fijo con que contaban padre e hija y agravó su ya maltrecha economia. Con la ayuda de Julius Klengel y las mil penúrias que podemos imaginar, la estancia en tierras alemanas fue dilatándose fuera del plazo previsto y el 26 de febrero de 1903 Guillermina Suggía escribió varias páginas nuevas en la historia de la música. Nunca antes un intérprete de 17 anos había formado parte de la Gewendhaus Orquestra, por añadidura era una mujer y además actuaba como solista. Otras novedades se producían. La avalancha de aplausos aclamando a Guillermina trás su actuación con la orquesta pidiéndole un bis hizo que el director Arthur Nikisch decidiera aprobar la petición del público pidiéndole a Guillermina que repitiese toda su parte, contraviniendo las normas de la entidad que prohibían ese tipo de privilégios. El despegue internacional de Guillermina Suggía se gestaba desde Leipzig. En marzo de 1903 Guillermina dio por terminados sus estúdios alemanes y regresó a Portugal llevándose el regalo de la partitura del Capricho en forma de Chaconne de Klengel, dedicado a su alumna «Con afecto profundo en recuerdo de su tiempo de estúdio en Leipzig».

Conocedora de la dureza del público portuense, Guillermina preparó minuciosamente el primer concierto en su ciudad hasta el último detalle, incluso el modo de aparecer en escena, con el propósito de dominar la situación. La acompanaba al piano su hermana Virgínia. Un murmullo de rechazo recorrió al auditório ante la actitud de Guillermina, que optó por salir a escena con pose altiva porque no deseaba dejar traslucir la emoción que la embargaba al volver a su lugar de nacimiento. Como si careciera de importancia para ella la respuesta de sus compatriotas, acostumbrada al reconocimiento de un público tan preparado como el alemán. El desencuentro desapareció al escucharse la fuerza de los primeros acordes del concierto rasgando el silencio de la sala. Entre la intérprete y su público natural se produjo una entrega total.

La vida de Guillermina se convirtió en una continua gira desde esa fecha, mayo de 1903. Las salas de concierto europeas la acogieron en Suiza, La Haya, Bremen, Amsterdam, Paris, Mainz, Bayreuth, Praga, toda Viena, Berlín y parte de Rusia.En Rumanía el éxito fue clamoroso, Guillermina se sorprendió con la exclamación unánime del público, que coreaba una palabra que ella no identificaba:

Quê están gritando, que dicen? Le pregunta a un empleado del teatro.

Madame, la están llamando Paganina, sabe?, como Paganini - le aclaro éste.

(Artigo- parte 4 - de ANA MARIA FÉRRIN editado na Revista "HISTORIA 16" de Novembro


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novembro 30, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (3)

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Mientras tanto, junto a esas cartas del padre relatando los êxitos de la joven concertista, otras letras iban y venían entre Portugal y Alemania. Eran las peticiones y agradecimientos, súplicas y preocupaciones, transmitidas por Augusto Suggía a su hija Virgínia y a diversos amigos para que remediasen la penúria económica que vivían el padre y la hija menor en Leipzig, sosteniéndose los dos con la dotación real calculada para pagar unicamente las clases y la estancia de Guillermina. Los cuatro miembros de la família, Elisa y Augusto, Virginia y Guillermina, se habían unido para que la joven promesa tuviera la más alta titulación, preparándose con los mejores profesores de la época y en el país de mayor prestigio musical. Si para ello era preciso, Virginia, tres anos mayor que su hermana y una pianista bien valorada hasta entonces, sacrificaria su carrera abandonando su propia formación para dar clases particulares de piano a un grupo de alumnos y con esa única renta mantenerse ella y la madre mientras durara la estancia de Guillermina y su padre en Leipzig.

A menudo la responsabilidad depositada en los hombros de Virgínia se cargaba más y más con las añadidas y contínuas peticiones de dinero del padre. Había que pagar las clases de Klengel, en las que Ilegaron a retrasarse vários meses, cubrir la estancia de los dos, la alimentación, y esos otros gastos de un padre atento al cuidado de una hija que debía relacionarse y darse a conocer, gastos a los que Guillermina se referia como «las trompetas de la fama». Hay una segunda lectura muy interesante de las cartas de esa época dirigidas a Portugal por Augusto Suggía moviendo los hilos unas veces para conseguirle conciertos a la hermana pianista, otras para que le pagasen a Virginia un piano nuevo. El dinero ahorrado por la joven para el nuevo instrumento se había evaporado camino de Leipzig invertido en los futuros êxitos de Guillermina.Virginia contaba 20 años por entonces, três más que su hermana, y las circunstancias la convertían en el único miembro familiar que aportaba financiación efectiva a toda aquella empresa, ya que el padre había renunciado a su sueldo de profesor en el Conservatório de Oporto para acompanar a la joven promesa y la madre carecia de recursos propios.

(Artigo- parte 3 - de ANA MARIA FÉRRIN editado na Revista "HISTORIA 16" de Novembro de 2006


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novembro 28, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (2)

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Poco antes del nacimiento de Guillermina en 1885 se creaban en Oporto La Sociedad de Música de Cámara y el Orfeón Portuense, lo que dio la oportunidad de que un gran número de compositores contemporáneos de renombre mundial, Dvorak, Debussy, Ravel, Tchaikosvky, Rachmaninoff, fueran conocidos en Portugal. Con su padre el violoncelista y profesor de música Augusto Suggía, amigo de los promotores de ambas sociedades y como parte del mundo cultural portuense, Guillermina al violoncelo y su hermana Virgínia al piano eran invitadas a las veladas y posteriores recepciones, a las que se presentaba a personajes normalmente inaccesibles por ser las dos niñas unas concertistas muy conocidas en Oporto. En marzo de 1901 con motivo de un recital dado por las dos hermanas en el Palácio Real de Lisboa, la reina Amélia le preguntó a Guillermina, de 15 años, cuál era el sueño de su vida. Con determinación ella le contestó:
Mi sueño seria poder perfeccionar mis estúdios en el extranjero.

Un mês más tarde se recibieron en el hogar de los Suggía dos pulseras de oro, una para cada hermana, de las que pendían dos corazones de rubíes y brillantes acompañadas de una una carta de los reyes de Portugal en reconocimiento a las concertistas. En octubre se añadió la ansiada respuesta de la Corona a la petición de Guillermina en forma de Bolsa de Estúdios para costearle la estancia y las clases en el conservatório de su elección. La família logró que la hija menor pudiera empezar las lecciones aquel mismo curso, ya comenzado. Por aquel tiempo el máximo prestigio musical se fijaba en la escuela alemana con dos líneas principales de magistério provenientes ambas del profesor Grützmacher, de Dresden, personificadas por Hugo Becker en Berlín y Julius Klengel en Leipzig. De ambos el padre de Guillermina decidió que fuera este último el escogido para los estúdios de su hija y a primeros de noviembre de 1901 la estudiante y su padre se instalaron en Leipzig en casa de Olga Katzentein, sobrina del cónsul alemán en Oporto.
El cálido y paternal Julius Klengel, primer violoncelista de la famosa Gewandhaus Orquestra a la vez que profesor, no tardó en hacer de Guillermina su alumna predilecta. Se preocupó por una lesión del hombro que la joven arrastraba desde niña por una sobrecarga de trabajo mal dirigido y ayudó a que la trataran hasta solucionar el problema muscular. Klengel era realmente un antiprofesor si nos atenemos al estilo de una época en la que abundaban los divos tiránicos. Saboreando un grueso cigarro puro que rodaba entre sus dedos, escuchaba plácidamente a sus discípulos guiándolos para que desarrollaran sus peculiaridades originales sin copiar a nadie.
— Lo hacia sin sofisticación, sin caprichos, sin una pauta rígida. Para él todos éramos diferentes - dijo de él William Pleeth.
El profesor presentó a Guillermina entre aquellas amistades que pudieran ayudarla en su carrera, directores de orquesta, mecenas, músicos de fama, compositores. Augusto escribía regularmente a la familia y entre otros amigos a Miguel Angel Lambertini dando cuenta de los progresos de su hija y de las atenciones que recibía.En una carta fechada el 1 de diciembre de 1901 el padre relataba a Lambertini el insólito pasaje del encuentro de Guillermina con el director de la Gewandhaus Orquestra, Arthur Nikisch, al serle presentada por Julius Klengel. Seguiria una serie de comunicaciones en las que explicaba las invitaciones a tocar com la orquesta, las ovaciones que provocaban las actuaciones de la adolescente e incluso las quejas de los demás profesores integrantes de la Gewandhaus, acalladas por un fascinado Arthur Nikisch:
…Quando el profesor Klengel le presentó a Guillermina con muchas alabanzas, Arthur' Nikisch no quiso que fuéramos a su estudio. Nos dijo que preferia escucharla acompañada por la Gewandhaus Orquestra y acordamos la cita... Al terminar Guillermina su parte en la Gewandhaus, Nikisch rompió en aplausos y en bravos, lo que consideramos un gran honor por lo inusual... ( 1 de diciembre de 1901)].

...El profesor Julius Klengel ha insistido en que Guillermina se quede todo el verano en Leipzig para completar su aprendizaje y confrontar su técnica con sus colegas masculinos de cara a poder confirmar su lanzamiento artístico en los conciertos de invierno. Como la beca finaliza ahora, el profesor Klengel ha escrito un certificado que enviamos al ministro acompanado de una carta nuestra solicitando que se le amplie la beca y podamos estar aqui hasta el nuevo curso... (22 de junio de 1902].

...Guillermina ha sido invitada por la dirección de la Gewandhaus a formar parte del concierto conmemoratívo de la orquesta, que será el próximo 26 de febrero... Para celebrarlo, el profesor Klengel organizó una fiesta en su honor a la que invitó al resto del cuarteto de cámara de la Gewandhaus del que él forma parte... La señora Klengel se encargo personalmente de la decoración de la sala, presidida por un retrato de Guillermina adornado con flores y con un rótulo donde se leia «Viva la gran artista»... Cuando ella entro en la sala, los aplausos duraron cinco minutos y al acabar tuvo que bisar cada una de sus piezas, aplaudidísima... (23 de noviembre de 1902].

(Artigo- parte 2 - de ANA MARIA FÉRRIN editado na Revista "HISTORIA 16" de Novembro

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novembro 27, 2006

"GUILHERMINA SUGGIA, EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS" de Ana MªFérrin (1)

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Este año 2006, cuando los árboles que rodean el n°24 de Portland Place cambien del verde al pardo perdiendo sus hojas, el enclave londinense acogerá a los jóvenes músicos que acuden hasta sus salas con la ilusión de lograr uno de los más prestigiosos galardones del mundo violoncelista, el Prémio Suggía. Dotado con 3.000 libras, brindará ayuda económica al afortunado ganador que podrá dedicarse un año, o más si le renuevan la confianza, a perfeccionar sus conocimientos y despegar en los inícios de su carrera. Allí se presentó a los 10 anos la inolvidable Jacqueline du Pré, esposa de Daniel Baremboin, y se hizo con el prémio siete años consecutivos.Y a la espera de dar su audición, muchos de esos jóvenes se hacen una pregunta: “Quién era Guillermina Suggía?”
Llamada por los críticos de la primera mitad del siglo XX La Reina de los Cellistas, La Maga del Violoncelo, La Divina Suggía, La Princesa del chello, Guilhermina Suggía fue una violoncelista portuguesa, esposa de Pablo Casals a lo largo de siete anos sin firmar en el Registro Civil, que revolucionó ese instrumento en técnica, posición y sonoridad. Hasta el 31 de diciembre de 2006 una exposición de la Câmara Oficial de Oporto en esa ciudad brinda la oportunidad de conocer la vida y la obra de una concertista sobresaliente y casi desconocida en la actualidad que abrió a las mujeres las puertas profesionales del violoncelo, un instrumento que históricamente se les había resistido.

La potencia creativa de esta intérprete que completaba su talento musical con una personalidad arrasadora le permitió llevar adelante un liderazgo que facilitó a las féminas esa opción instrumental. Si para un hombre manejar la envergadura del chello supone un considerable gasto de energia jalonado de lesiones, qué decir del esfuerzo necesario en una mujer, a quien por añadidura las buenas maneras de antaño obligaban a colocar el instrumento por delante de sus rodillas juntas o a un lado del cuerpo forzando el torso de la concertista a un retorcimiento físico doblemente agotador que sus colegas masculinos. De ahí que al referirse a las pocas ejecutantes anteriores a Guillermina, incluída Lisa Christiani, la más conocida, a quien Félix Mendelsshon dedicó su composición Canciones sin palabras, se acostumbra a comentar de todas ellas que tenían «un débil sonido». Aún en 1930 el chello era tenido por un instrumento indecoroso para las mujeres y la Orquesta de la BBC prohibía expresamente en su formación la contratación de violoncelistas femeninas. A este respecto conviene añadir los comentários negativos y a menudo obscenos de algunos maestros intentando apartar a las estudiantes de un camino tenido por inadecuado, como la soez observación que el profesor Thomas Beecham dedicó en tono de burla a la violoncelista Beatriz Harrison, contemporánea de Suggía, cuando era una adolescente:
— Señorita, tiene usted en las piernas algo capaz de dar un gran placer a miles. Y todo lo que hace es sentarse y arañarlo.
Pero llegó Guilhermina Suggía y bajo Ia dirección de su primer maestro de música, su padre, cambió esa tradición ante la curiosidad del ambiente musical. En la fotografia que da fé de su primer concierto público con solo 7 anos aparece ya con su pequeno violoncelo, regalo del vizconde Villar d'Allen, bien encajado entre sus rodillas. El Jornal de Notícias do Porto celebraba el estreno de Guillermina como solista calificándola de nina prodígio.

(Parte 1 de Artigo de ANA MARIA FÉRRIN editado na revista "HISTÓRIA 16" de Novembro que completará na sua edição de Dezembro o mesmo artigo.
Por uma questão prática divimos o artigo em várias partes para publicação. Esta divisão, que não pretende ser rigorosa, é da nossa total responsabilidade)

Publicado por vm em 11:00 AM | Comentários (0)

novembro 22, 2006

GUILHERMINA SUGGIA NA REVISTA ESPANHOLA "HISTÓRIA 16"- ARTº DE ANA MARIA FÉRRIN

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Publicado por vm em 11:08 AM | Comentários (0)

GUILHERMINA SUGGIA EL AMOR OCULTO DE PABLO CASALS, por ANA MARIA FÉRRIN

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Brevemente iremos publicar aqui um artigo escrito por Ana Maria Férrin, do qual foi publicada uma 1ª parte na revista espanhola HISTÓRIA 16, sendo a 2ª parte publicada na edição de Dezembro da mesma revista.
ANA MARIA FÉRRIN, jornalista e escritora - biógrafa de GAUDI - publicou já vários livros entre eles 4 sobre o grande arquitecto catalão.

(Publicaremos o artigo com a amável autorização de Ana Maria Férrin e da Direcção da Revista HISTÓRIA 16)

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abril 12, 2006

UM NOVO ÊXITO DE GUILHERMINA SUGGIA- DN 26/10/1949

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(Cedido por Isabel Millet)

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abril 03, 2006

SUGGIA - 1923 - PRO-ARTE

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Guilhermina Suggia nasceu no Porto. Aos cinco anos recebeu as primeiras lições de seu pai, Augusto Suggia, excelente mestre de violoncelo. Em Leipzig, aos quinze anos, estudou com Julius Klengel, como pensionista do Estado. Dois anos mais tarde estreou-se nos concertos do Gewandhaus, com Artur Nikisch, em Leipzig, obtendo desde logo um dos êxitos mais completos de que há memória na história dos grandes virtuoses. Começou então a sua gloriosa peregrinação por toda a Europa, encantando e arrebatando os públicos da Alemanha, Holanda, Russia, Polonia, Austria, Belgica, Suissa, Escandinavia, França, Espanha e Inglaterra. Tendo fixado residencia neste ultimo país, é ahi considerada como a primeira violoncelista do mundo.

O mais reputado e temido dos críticos ingleses, o sr. Ernest Newman, escreveu a respeito de Suggia numa crítica recente - "A vida em Londres tem as suas compensações musicais. Por exemplo: ouvir Madame Suggia duas vezes em três dias. É um dos raros e realmente grandes interpretes de instrumentos de corda".
O ilustre David Popper, também violoncelista, escreveu em 1905 no album da artista: "To the greatest of living cellists Guilhermina Suggia from her aged confrère. D. P."
Vindo a Lisboa para se fazer ouvir no violoncelo que a Europa inteira consagrou como uma das mais admiraveis fontes de expressão estética, Suggia inscreve em os nossos anais artísticos uma pagina suprema. Para a receber, a Philarmonia deseja ser como que a moldura musical em que se enquadre o genio da virtuose portuguesa.
(Cedido por Isabel Millet)

Publicado por vm em 10:54 AM | Comentários (2)

março 24, 2006

GUILHERMINA SUGGIA na EMISSORA NACIONAL

O grande acontecimento musical desta temporada é, sem dúvida, o reaparecimento da formidável artista Guilhermina Suggia, considerada, em Londres, onde residiu durante muitos anos, a primeira violoncelista do mundo. Nos dois concertos, que a Sociedade de Concertos de Lisboa organizou para os dias 25 e 26 - segunda e terça-feira próximas - Guilhermina Suggia será acompanhada pela Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco. O "Radio-Semanal" insere, os programas dessas noites - que ficarão gravadas na história musical portuguesa - nas páginas onde se publicam os habituais programas da Emissora Nacional. Os concertos serão transmitidos pelas estações de onda média e de onda curta do nosso primeiro posto.
(Cedido por Isabel Millet)

Publicado por vm em 10:37 AM | Comentários (0)

março 23, 2006

A PRIMEIRA VIOLONCELISTA DO MUNDO

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(Cedido por Isabel Millet)

Publicado por vm em 10:36 AM | Comentários (2)

março 07, 2006

GUILHERMINA SUGGIA NO FESTIVAL de EDIMBURGO

Guilhermina Suggia, que tomou parte no 3º Festival Internacional de Música e Arte Dramática, em Edimburgo (o I Festival teve lugar em 1947), conquistou de tal modo a admiração do público que ainda ontem, para sair do teatro, teve de intervir a polícia.
A violoncelista, a divina, a única, a incomparável, criou para seu uso uma constelação e também uma janela aberta para a Terra inteira. Só lhe faltam as asas de anjo para poder subir ao Céu e tocar violoncelo aos pés de Deus".

(Diário de Notícias- sem indicação da data)

(Cedido por Isabel Millet)

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janeiro 01, 2006

GUILHERMINA SUGGIA NA ARTE MUSICAL- JANEIRO de 1930

A Arte Musical não quer deixar de assinalar nas suas colunas a passagem de GUILHERMINA SUGGIA pelo palco de uma das principais salas de concertos de Lisboa, prestando-lhe as suas homenagens e lamentando que uma artista de tal envergadura não se faça ouvir mais frequentemente na sua pátria.

Não se tem verificado felizmente para os amadores de música portuguesa, a respeito de Suggia, a verdade do ditado: “ Ninguém é profecta na sua terra!”.Felizmente, repetimos, nem o público nem a crítica Têm deixado entre nós de fazer justiça aos raros méritos de GUILHERMINA SUGGIA, eles são tão grandes que a colocam mais do que numa situação internacional ou mundial, pois lhe asseguram um lugar histórico. Como intérprete de instrumento de cordas não encontramos outra artista senhora, de igual envergadura na história da música. Tal é o facto que supre todos os encómios e todos os adjectivos; a Todi, como cantora, Suggia, como executante, são duas estrelas de igual grandeza.

E não é só na técnica, na emoção, na musicalidade, nos dons puramente musicais que Suggia se distingue. Ela é uma intelectual, um espírito cultíssimo, a que nada de belo, nada de grande que o universo encerre, deixa de interessar, e assim a podemos ouvir falar de Bach, de Wagner, de Dante, de Cervantes, de Camões, de Michel-Angelo, de Rodin ou de um simples espectáculo da natureza, com a mesma sensibilidade e a nesma erudição.

Muitos artistas em todos os países usam a bandeira nacional para encobrir as próprias deficiências. Com GUILHERMINA SUGGIA sucede justamente o contrário: ela não tem necessidade de invocar a sua qualidade de compatriota para arrancar os nossos entusiásticos aplausos, nós é que sentimos o orgulho de a chamar portuguesa e portuense para honra nossa.

Revista “ARTE MUSICAL”, Ano I- Nº 3 – 20 de Janeiro de 1930
Director:Luís de Freitas Branco

(Cedido por João Pedro Mendes dos Santos)

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dezembro 28, 2005

RÁDIO NACIONAL 20 de Junho de 1943

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1ª Página do órgão oficial da EMISSORA NACIONAL - "RÁDIO NACIONAL" noticiando o 1º recital (na EN, é claro) de GUILHERMINA SUGGIA acompanhada pela pianista Berta Alves de Sousa.
Pena a gravação deste recital não existir. E doutros. Nem 1 só! Tudo se perdeu.
(Cedido por João Pedro Mendes dos Santos)

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dezembro 26, 2005

NOTAS AO CD DE G. SUGGIA SAÍDAS NA REVISTA "STRINGS", NOS ESTADOS UNIDOS

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GUILHERMINA SUGGIA PLAYS HAYDN, BRUCH, LALO.
HAYDN CONCERTO IN D MAIOR ( JOHN BARBIROLLI, CONDUCTOR 1928); KOL NIDREI (UNKNOWN ORCHESTRA AND CONDUCTOR, 1927); LALO CELLO CONCERTO IN D MINOR (LONDON SYMPHONY ORCHESTRA, PEDRO DE FREITAS BRANCO, CONDUCTOR,1946; SAMMARTINI SONATA IN G MAJOR, ARR. SALMON (WITH GEORGE REEVES, PIANO, 1927).DUTTON, CDBP 9748.


Para todos os que se deixaram fascinar pelo famoso retrato que Augustus John pintou da célebre violoncelista portuguesa GUILHERMINA SUGGIA (1888-1950) (*), que foi amante de Casals (a tempestuosa relação iniciou-se quando ela tinha 17 anos de idade (**) e durou 6 anos) , aqui está uma oportunidade para escutar uma intérprete soberana (que tocou em Leipzig com a Orquestra da Gewandhaus sob direcção de Nikisch) em peças centrais do seu reportório. Os ouvintes descobrirão uma técnica nítida e elegante, no que pensamos – talvez injustamente – ser o estilo de Casals: modernidade surpreendente, com um recurso mínimo ao portamento (excepto na peça de Bruch), produzindo o que se assemelha a uma voz intensamente humana. A interpretação do concerto de Lalo, gravado quando ela se aproximava dos 60 anos, caracteriza-se não apenas por uma maravilhosa elegância, mas também por uma serenidade a que poucos violoncelistas chegam. O Allegro Vivace final é prudente, mas também enérgico e cheio de cor. O modo como SUGGIA toca Haydn (e as cadências de Casals) não é menos fora do tempo do que ouvimos a violoncelistas como Feuermann, Fournier e, inclusive, Tortelier, com trilos e grupetos tocados lentamente e com uma insinuante graça felina. A Sonata de Sammartini é sedutora.
O trabalho de reprodução levado a cabo pelos engenheiros de som da DUTTON é de qualidade excepcional. Em particular o Concerto de Lalo, com cuja gravação (***) se pretendera demonstrar a nova técnica de gravação de espectro total da DECCA, tem uma amplitude e um impacto tremendos. As notas de Lyndon Jenkins oferecem pormenores interessantes sobre as obras gravadas.
L.V. (Laurence Vittes)

Revista “STRINGS – August/September 2005, nº 131” USA

(Enviado gentilmente por ANITA MERCIER)
Tradução de Luís Lopes

(*)A data de nascimento de GUILHERMINA SUGGIA é 1885 e não 1888
(**) A sua relação com Casals terá começado em 1906/7, por conseguinte aos 21/22 anos e não 17
(***) Feita em 1946.

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dezembro 13, 2005

OPINIÕES COM DATA- COIMBRA 1947 e 1964

No Círculo, Guilhermina Suggia e o Quarteto Húngaro. E não resisto a levantar um problema sugerido por tão diversas concepções e realizações como as que estes dois concertos pressupunham. Trata-se de duas atitudes fundamentalmente opostas, quanto ao fenómeno musical e à função da música, como arte e como agente social. De um lado, a concepção virtuosística, em que a música é tomada como puro deleite sensorial e gratuito, de problemática essencialmente técnica. O concertista comporta-se como um mago desencadeador de prodígios. Compreende-se que, nesta ordem de ideias, pouca ou nenhuma importância tenha o que se toca, mas como se toca. A arte suprema do virtuoso nivela as obras da mais variada estatura, tornando-se lícito recorrer indiferentemente às obras-primas da literatura musical, aos arranjos mais medíocres ou discutíveis, às composições mais anódinas. A música converte-se num meio, pelo qual o virtuoso domina o auditório. Este, por sua vez, não precisa de saber, de conhecer, de compreender, o que para ele está sendo executado, mas apenas de admirar o grau de prodígio dessa execução. E o êxito de um virtuoso será tanto maior quanto melhor souber dominar, subjugar, o seu público.

Não há dúvida de que Guilhermina Suggia é um destes leões da música, possuidora do segredo de arrebatar plateias. Daí, o seu justo renome internacional. E quer o programa que apresentou quer o brilho com que o defendeu a colocam entre os mais característicos representantes de uma bem definida mentalidade. Programa ecléctico, com as costumadas peças de efeito, mas que resultou num real prazer, mais sensorial do que intelectual, é certo. Compreenda-se: não era Bach, nem Fauré, nem Ravel, nem Falla que ali íamos escutar: era Guilhermina Suggia! Daqueles, ninguém se lembrou: esta galvanizou a plateia. E toda a gente se esqueceu também da acompanhadora, Berta Alves de Sousa. Mas não era assim que deveria ser, em conformidade com uma concepção eminentemente individualista da música?

O Quarteto Húngaro representa uma concepção diametralmente oposta. Aqui já o executante não é um mago, mas o humilde e devotado servidor da sua arte: o intermediário que se apaga entre esta e o público, e para quem ela, longe de constituir um pretexto para exibições, é antes uma forma acabada de pensamento, portadora de uma mensagem, e para tanto possuidora de meios próprios e específicos, que não de modo algum convencionais e arbitrários. Ao executante impõe-se o escrúpulo da escolha, a fidelidade aos propósitos dos autores e o critério interpretativo, de modo que o público possa receber integralmente a mensagem que lhe é destinada, sem que esta seja iludida ou desvirtuada. Tudo qualidades que em alto grau reúne o Quarteto Húngaro, maravilhoso agrupamento em que não sabemos que mais admirar: se a realização impecável das execuções se a suprema categoria das interpretações. Logo a composição do programa, incluindo um clássico, um romântico e um moderno, revelava um equilíbrio a que não estamos habituados. E Mozart foi gracioso e delicado sem ser fútil; em Schubert, o tema caracteristicamente romântico da luta da donzela com a morte atingiu um dramatismo sem choraminguices; e no Quarteto de Debussy foi criada aquela atmosfera rarefeita c sensual, peculiar ao músico impressionista — e tudo isto com uma economia de meios c uma intencionalidade expressiva só possíveis quando grandes artistas, como o provaram ser Zoltan Székely, Alexandre Moskowsky, Dénes Koromzay e Vilmos Palotai, se subordinam de boa vontade e humildemente à disciplina do conjunto, pondo inteiramente as suas excepcionais qualidades ao serviço da música.
Coimbra, Março de 1947

(Lisboa, Março de 1964.)
Oh, a severidade dos verdes anos! Mereceria de facto a nossa grande violoncelista um tratamento tão duro? Seria de natureza tão superficial o brilho das interpretações de Suggia? Talvez. Mas, tanto quanto me recordo, ardia nelas o fogo sagrado, muito embora o seu virtuosismo nem sempre fosse tão verdadeiro como espectacular. E ainda estou a ver, num intervalo, o Jean-Paul Sarrautte, aos berros, apoplético, pela coxia fora: «Mais elle joue faux comme une cochonne!»
Do livro “Opiniões com data” de João José Cochofel (1919-1982)

(Cedido por Belmiro de Oliveira)


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novembro 04, 2005

AUDIÇÕES - ORPHEON PORTUENSE - GUILHERMINA SUGGIA

Se há momentos na vida que a valem toda, ou mesmo mais que todos os outros banalmente vividos, os de hontem, passados no Orpheon, pertencem ao numero d’esses para quem soube vivel-os.

Guilhermina Suggia tocou! – N’esta affirmação poderíamos condensar toda a notícia, resumir toda a crítica do espectáculo inolvidável. Mas não exprime a gama frívola das phrases feitas, dos logares communs inexpressivos, que outros, á força de poucos nos dizerem, nos obrigarem a repetir-lhes tantas vezes. Mas com SUGGIA o caso è diverso: é Ella quem tudo nos diz com a sua Arte Divina!, emudecendo a nossa palavra, dominando com a sua originalidade a impotente monotonia do commentario.

Guilhermina Suggia tocou! Mas como em geral isto se diz de quem faz vibrar um instrumento, é preciso acrescentar que Suggia se faz vibrar a si mesmo personificando a musica, restituindo-a na vibração de todo um ser, pelo braço elegantíssimo, sob cujo impulso o arco dança cadenciadamente, pelo rosto austero ou sorridente que quasi nos quer fallar, pela mão levíssima, sob cuja imponderável pressão as cordas do violoncello são verdadeiras cordas vocaes, gemendo e cantando ou rindo às gargalhadas como uma voz sem artifício.

Onde descobrir um esforço na sua technica espontânea? – o esforço existiu na persistência de muitos annos de estudo: mas hoje violoncello e Suggia são elementos de uma só alma, exprimindo-se um ao outro tão sincera e verdadeiramente, que ouvir a Artista é possuíl-a por instantes, espiritualmente, na intimidade do nosso coração.

Não houve, pois, não pode haver um concerto de Suggia. Vibra uma sala sob o influxo do seu nervo electrizador – e eis tudo. O violoncello, o arco, as cordas, sem a menor denuncia que revele a sua essência material diluem-se no frenesi da Artista, evaporando-se no calor do seu espírito, e ouvimos mais que musica, o segredo de uma emoção em alvoroço.

O programma…expressamente preparado para nos dar esta formidávil impressão era uma synthese de obras primas escolhidas entre as mais difficeis que o classicismo e o romantismo têem creado.

A primeira parte com a Sonata de Sammartinni, o adágio e o allegro de Boccherini, o minuetto de Haydn e ainda a série em dó de Bach, foi simplesente formidável. Acumularam-se ali, principalmente no ultimo numero, todas as difficuldades da mecânica, todas as mais requintadas expressões da virtuosidade sem excluir um sentimentalismo que só nervos especiaes traduzem.

O publico fascinado fez taes evasões e tantas chamadas á artista – que ela não descançou sem tocar fora do programa o preludio da série em Sol de Bach.

A segunda parte continha obras mais modernas e românticas, mais próximas ainda do nosso coração. Por isso o enthusiasmo recrudesceu com o “Canto da Floresta” de Dvorak, o “Trecho Popular” de Schumann e muito especialmente depois da execução da “Gavota” de Henschel e do “Vito” de Popper, o grande entre os maiores do violoncello.

Perante a ovação do publico, Suggia intercalou n’esta altura, fora do programma a “Allemande” de Sénaillé, terminando, depois de breve intervalo, com a Sonata de Valentini, obra monumental em que os efeitos de duas a três cordas, com trilos de duas e acompanhamento de terceira, as escalas e as cadencias se sucedem n’um imponente cosmorama sonoro.

O publico, perante tanta beleza, não queria deixar a artista retirar-se, a despeito da sua evidente fadiga.

Suggia tocou então…extra-programma, a “Serenata Hespagnola” de Glazunnof e “ Depois de um Sonho” de Fauré.

D. Leonilde Moreira de Sá e Costa, que acompanhou magnificamente ao piano compartilhou dos aplausos a Suggia dirigidos, e esta recebeu ainda muitas flores, o retrato e um brinde de Moreira de Sá, brindes de Teixeira Lopes e do Orpheon, saudações de velhos amigos da infância, muitas senhoras, o camarim sempre cheio, e dois grandes abraços: o de Guilherme Ferraz, primeira pessoa que a apresentou em publico ( foi em Matozinhos, tinha Suggia 7 annos) e o de seu pae, a rever-se no triumpho colossal da filha querida.

Coincidência interessante: fazia hontem 19 annos que Suggia, pela última vez, tinha tocado no Orfeon.

C.S. - Carlos Santos (?)( 20/5/1923)

(Cedido por João Pedro Mendes dos Santos)

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setembro 20, 2005

MATOSINHOS RECORDOU A MAIS PRESTIGIADA VIOLONCELISTA PORTUGUESA: GUILHERMINA SUGGIA

Numa altura em que se comemora o aniversário do nascimento de Guilhermina Suggia, a Autarquia de Matosinhos descerrou um busto em bronze e promoveu um concerto com o famoso «Montagana», um dos violoncelos que pertenceu à violoncelista.


Guilhermina Suggia viveu a sua infância e juventude em Matosinhos, onde seu pai era docente de música nas escolas da Santa Casa da Misericórdia. A família Suggia habitou muitos anos a cidade, em particular a Casa de Manhufe.

Com base nesta longa relação, a Associação dos Antigos Alunos das Escolas da Confraria do Bom Jesus de Matosinhos promoveu, em parceria com a autarquia, uma homenagem à célebre violoncelista, que em 1892 realizou naquela cidade a sua primeira apresentação pública.

Inserido nas comemorações dos 120 anos do seu nascimento, foi inaugurado um busto que se situa na Praça Guilhermina Suggia, local simbólico que representa o epicentro dos locais onde habitou a família Suggia. O busto em bronze – doado por Miguel Ferreira – tem como pedestal uma escultura em granito que se assemelha a um violoncelo, oferecido pela Câmara Municipal de Matosinhos. As obras foram elaboradas pelo escultor Helder Carvalho.

Américo Freitas, presidente da direcção da Associação dos Antigos Alunos, considera esta homenagem “um contributo para que fosse possível perpetuar em bronze a maior violoncelista que nasceu em Portugal”.

Helena Sá e Costa, ex-aluna da violoncelista e a quem coube descerrar o busto, revelou que foi um prazer muito grande ver a sua ex-professora assim homenageada, “sinto esse dever de falar acerca da forma extraordinária como tocava e como ensinava”.

Depois da homenagem, os matosinhenses puderam assistir a um concerto, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, onde José Augusto Pereira de Sousa (último aluno a receber, em 1986, o prémio «Guilhermina Suggia» atribuído pelo Conservatório de Música do Porto), interpretou três peças no «Montagnana», violoncelo que acompanhou Suggia em inúmeros concertos, e que segundo o discurso proferido, pelo vereador da Cultura, Fernando Rocha, é um instrumento ao qual a violoncelista dedicava particular afecto, “considerando-o uma peça insubstituível e um complemento natural de si própria”.

Sandra Fernandes

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julho 26, 2005

TRISTE FIGURA QUE PORTUGAL FARÁ QUANDO QUALQUER NAÇÂO ESTRANGEIRA LEVADA PELO INCONTESTADO MÉRITO DE GUILHERMINA SUGGIA, DISTINGUIR ESTA NOSSA COMPATRIOTA

No dia 23 de Abril de 1904 as duas irmãs participam num concerto de beneficência em Lisboa. E ele (o jovem jornalista,primo de Óscar da SilVa) esceve:

“(...) AS IRMÃS SUGGIA – Após uma série de concertos realizados nos principais centros de música, como os da Alemanha e França, onde Guilhermina Suggia e Virgínia Suggia, provaram à evidência a exuberância do seu talento e proclamaram bem alto que este florido cantinho, quase esquecido, possui compleições artísticas de primeira grandeza; depois das gratas e inolvidáveis recordações pela forma aliás merecida e justa por que foram recebidas – elas não se esqueceram, todavia, o prometido que haviam feito de oferecer um concerto em favor das Escolas Móveis; e, fiéis a essa promessa e só para o seu cumprimento, vieram a essa capital.

Essa festa que, como é do domínio público, se realizou em 23 de Abril último, foi mais um triunfo para esses dois entesinhos deliciosos e vagos, essas duas encarnações da Arte!

Além do programa cumprido na totalidade, as ilustres artistas, gratas ao quente acolhimento e entusiásticos aplausos com que o selecto auditório, ávido de lhes prestar mais uma vez inteira justiça, as glorificou, num requinte de gentileza e de bondade, fizeram-se ouvir em outras célebres e difíceis composições, entre elas a poética Sérenade de Herbert e o mavioso Nocturno de Chopin.

Está acima de todo o elogio o precioso desempenho que as duas geniais irmãs deram a todas as peças que executaram; em nossa fraca opinião não há termos que rigorosamente exprimam e definam o estado da nossa alma, que, se desprendem dos instrumentos, quando vibrados pelos dedos fuselados dessas gráceis figuritas, se perde em extasiada em mundos extraordinários e desconhecidos, que só elas têm o magno condão de nos mostrar!

O espírito crítico abate-se num misto de respeito e admiração ante estas duas personificações do mimo, da correcção, do sentimento, da divina arte, enfim! E duplamente lhes agradece a encanadora noite que lhe proporcionou, e mais ainda, ao ver quão bem se casa a arte com a bondade de sentimentos e desinteresse que se albergam nos seus corações juvenis de mulher e de artistas, a manifesta lembrança que tiveram para com aqueles que, sem meios para o obter, carecem de pão para o espírito.
E,quanta mágoa nos causa o vermos que, nesta terra tão fértil em galardoar burguesas enriquecidas, não houvesse ainda quem alvitrasse um galardão digno e Guilhermina Suggia, nem um Director Geral de Instrução, que, escudado nessa alevantada e justa ideia, promovesse a imposição do hábito de S. Tiago.
Aí fica o alvitre que muito folgaremos ver realizado por V. Exa., lembrando-lhe a triste figura que Portuga fará quando qualquer nação estrangeira levada pelo incontestado mérito de Guilhermina Suggia, distinguir esta nossa compatriota!”
Orlando Courrege
Jornal de Matosinhos, 17/1/1997

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julho 25, 2005

TOQUEI ONTEM NA PHILARMONIE O CONCERTO DE DVORAK

Um primo de Óscar da Silva, admira sem limites a artista que sempre lhe retribuiu muita amizade. Ela escreve-lhe sempre por onde passa. Em 16 de Fevereiro de 1906 envia-lhe um postal da Polónia:
Toquei ontem na Philarmonie o concerto e Dvorak e vários números entre eles Bach que foi muito apreciado. Sucesso indiscritível. Críticas esplêndidas. Partimos hoje para Viena onde nos demoraremos 5 dias. Depois Strassbourg. – G. Suggia”

De Frankfurt, datado de 22 de Agosto do mesmo ano, transcrevemos outro, dirigido ao primo de Óscar:
Frankfurt/M – Desculpe não lhe ter escrito mas não me tenho esquecido de si. No dia 1 de Setembro o meu primeiro concerto em Ostende.
Acceite m.tas saudades
O meu endereço é Frankfurt, nº 61.II”

Ele por sua vez escreve a seu respeito em jornais e revistas. Transcreve um artigo em que o juvenil jornalista, pouco mais velho que ela, na Semana Ilustrada, em 25 de Abril de 1904, no seu entusiasmo, incluso sugere que seja condecorada.

Orlando Courrège
Jornal de Matosinhos, 17/1/1997

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julho 22, 2005

INTERFERÊNCIA DE ÓSCAR DA SILVA PARA QUE LECCIONE COM JULIUS KLENGEL

O mais célebre violoncelista da Europa, Julius Klengel, que ficara amigo de Óscar da Silva, desde a estadia deste em Leipzig, o felicitara calorosamente quando ele terminou as suas provas finais no Real Conservatório dessa cidade.

Dadas essas amistosas relações, por intermédio de Óscar da Silva, Guilhermina Suggia passou a receber lições do genial mestre. Diria mesmo, numa carta, o pai da artista, Augusto Suggia, que fora o primeiro professor da filha, em 23-6-1902, com respeito a Klengel:
É admirável. Óscar da Silva conhece-o bem e a ele devemos a nossa finalidade de ter este mestre colossal (...)”


Na maior e mais conceituada sala de concertos da Alemanha, a Gewandhaus, em Leipzig, a moça portuguesa de 17 anos, foi a primeira mulher que se apresenta ali, como executante. E nunca artista tão jovem pudera tocar nessa Sala. Dirigida a orquestra pelo eminente maestro Artur Nikish, interpretou o concerto de Volkmann. A interpretação foi extraordinária. Foram tão calorosos os aplausos, que no final do programa, o número de Guilhermina Suggia teve de ser bisado.
Depois, triunfos e mais triunfos por toda a Europa. Durante cerca de 30 anos tocou em vários palácios reais e presidenciais. Fixou-se, porém, em Londres, cativada pela hospitalidade britânica.

Em 1904 era indubitavelmente reconhecida como a maior violoncelista que tinha aparecido no mundo artístico musical.

Solicitavam-na de toda a parte. Nesse ano, na Alemanha, dá o primeiro concerto em Heidelberg. Um segundo em Manheim, com orquestra dirigida pelo conhecido maestro, que já estivera em Lisboa, Edouard Colonne. Nesses concertos, segundo a Semana Ilustrada de Lisboa, “ o auditório estava como hipnotizado ao ouvi-la, rompendo ao terminar o concerto os mais espontâneos aplausos”. Transcrevia essa revista de jornais alemães.

ORLANDO COURRÈGE- Jornal de Matosinhos, 17/01/1997

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julho 21, 2005

SUGGIA VISITOU TODOS OS CENTROS MUSICAIS EUROPEUS

Guilhermina Suggia com os dotes maravilhosos de violoncelista exímia, visitou e conquistou todos os centros musicais europeus.

Aos 10 anos de idade já se apresentara em público, em Leça da Palmeira, tocando numa festa infantil, sendo aplaudida com caloroso entusiasmo. Essa “menina-prodígio” no Orpheon Portuense (Teatro Gil Vicente) acompanhada por sua irmã Virgínia ao piano, dá o primeiro concerto no Porto (22-5-1896). No mês seguinte faria 11 anos!

Mas fortes aplausos, colherá já, quando no Grémio de Matosinhos se exibe (12-10-1895) com a irmã ao piano e um ano depois em 28 de Setembro, colabora com Óscar da Silva no Clube de Leça.

Poucos anos decorrem e aos 13 anos, prestava a sua arte, ao lado do talentoso e experiente Moreira de Sá e Henrique Carneiro, como violinistas e Benjamim Gouveia, viola. O celebrado “Quarteto Moreira de Sá”. Entretanto, em Março de 1901 apresenta-se no Salão do Conservatório de Música de Lisboa. Rotundo sucesso. O público fica maravilhado com a jovem violoncelista.

Mais tarde, num recital no Palácio das Necessidades, a Rainha D. Amélia assegura-lhe os meios para continuar os seus estudos na Alemanha, como a novel artista pretendia.

ORLANDO COURRÈGE- JORNAL DE MATOSINHOS 17/1/1997

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julho 19, 2005

NUNCA OUVI TOCAR TÃO BEM VIOLONCELO!

Em 1906 encontrava-se em Paris. A vida de Guilhermina Suggia corria grave perigo, atacada de pneumonia. Porém a sua forte constituição e desvelados cuidados venceram a doença. Muito fraca e longa convalescença impedem-na de tomar parte em grande número de concertos com os quais estava comprometida.

Aos 22 anos Guilhermina não tinha rival no seu instrumento. Na revista citada anteriormente (SEMANA ILUSTRADA), o mesmo articulista (um primo de Óscar da Silva), em Março de 1907, já completamente recuperada, escreve a seu respeito de que respigam breves linhas “(...)Em Roma onde deu há dias um concerto na Societá di Santa Cecília, o maestro Sgambati disse em pleno Salão em voz alta o seguinte: “Suggia é superior a Piatti, Popper, Klengel, etc.; nunca ouvi tocar tão bem violoncelo!”
Orlando Courrege
Jornal de Matosinhos, 17 de Janeiro e 1997 (parte)

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julho 05, 2005

O REGRESSO DA GRANDE VIOLONCELISTA

Matosinhos será das poucas localidades portuguesas que não precisa de efemérides para homenagear as suas personalidades, sobretudo no campo da Cultura. Cuido também que poucos matosinhenses com destaque nesta ampla área, matosinhenses por nascimento ou por residência prolongada, mortos ou vivos, que não tenham merecido aos executivos a que venho presidindo um particular interesse.

Para além de sessões públicas de debates esclarecedores, as sucessivas edições que constituem memórias para a posteridade. Assim, com frequência acontece voltar-se uma e outra vez a esta e àquela figura. Por exemplo, agora. No passado dia 27 de Junho cumpriram-se 120 anos sobre o nascimento da notável violoncelista Guilhermina Suggia. A Câmara Municipal de Matosinhos, há precisamente seis anos, editou a obra Guilhermina Suggia - A Sonata de Sempre, da escritora Fátima Pombo. Convenhamos que esta coerência cultural não é vulgar no campo autárquico.

No próprio dia de aniversário da Suggia foi formalizada uma associação para a divulgação e estudo da obra da referida intérprete, e o município de Matosinhos, como não podia deixar de ser, está associado.

Do mesmo modo, estamos a estudar uma série de iniciativas que pretendem, uma vez mais, chamar a atenção para esta figura internacional da Música Portuguesa. Bem entendo, posso dizer mesmo que bem entendemos, que desta forma, Matosinhos, constituindo mais do que uma etapa na biografia da Suggia, não pode eximir-se de a homenagear e disponibilizar materiais sobre a sua vida e obra. Assim, é minha intenção deixar aqui algumas pistas sobre a presença da artista na cidade de Matosinhos.

A aproximação é feita através do pai, Augusto Jorge de Medim Suggia, violoncelista do Real Teatro de S. Carlos e professor do Conservatório de Música, em Lisboa. Em dada altura da sua vida, ele recebe uma tentadora proposta da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos para vir para o Norte, a fim de ensinar música em Matosinhos. Por qualquer razão, Augusto Suggia fixa residência no Porto, na Rua de Ferreira Borges. A casa onde viveu então, e há muito demolida, foi onde, a 27 de Junho de 1885, nasceu Guilhermina Augusta. Temos notícia de que com apenas dois anos, ela queria que a levassem para ao pé do pai, a assistir às aulas de violoncelo. Terá sido essa a razão das suas primeiras visitas a Matosinhos.

A família Suggia muda-se do Porto, indo viver para uma casa em Manhufe, próximo da igreja de Matosinhos. Porém, no Verão de 1891, nova mudança de casa dentro da vila, para a Rua do Godinho. É, finalmente, aqui que Guilhermina começa a fazer estudos sistemáticos de solfejo e violoncelo, sob a orientação do pai, que também lecciona a filha Virgínia, três anos mais velha que a irmã, que estuda piano. Segundo Fátima Pombo, Guilhermina Suggia não era uma aluna conformista, mesmo diante da reconhecida autoridade musical e cultural do pai. Desde muito cedo, ela revelou-se uma singular personalidade de violoncelista.

Decerto o professor Augusto Suggia reconhecia o enorme talento dessa filha, ainda que a jovem estivesse ainda longe da maturidade. As suas potencialidades chamavam a atenção. Aliás, a estreia de Guilhermina como concertista tem lugar já em 1892, tendo ela apenas sete anos, no salão da Assembleia de Matosinhos. Ai a criança violoncelista foi acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia. Depois passaram três anos, antes de Guilhermina voltar a participar num recital, fê-lo relativamente próximo do local da sua estreia, no Clube da Foz, a 14 de Agosto de 1895. Foi o segundo concerto da época balnear, em que interpretou obras de Offenbach e Popper, sempre acompanhada pela irmã.

Estas informações são retiradas do programa. Porém, a 12 de Outubro desse ano, de novo os amadores de música de Matosinhos escutam, extasiados, o violoncelo de Guilhermina Suggia, desta vez no Grémio de Matosinhos. E, alternando com concertos no Porto, sobretudo no Orfeão Portuense, a 22 de Setembro do ano seguinte, a violoncelista apresenta-se no Clube de Leça, e no concelho, voltará a tocar nesta mesma sala, a 12 de Setembro de 1898. E esta foi a terceira e última vez que actuou no concelho.

Recorde-se que a derradeira aparição de Guilhermina Suggia em público foi no histórico Teatro Aveirense, a 31 de Maio de 1950, uns dois meses antes do seu falecimento. Tendo, pois, Matosinhos como cenário das suas primícias como concertista, este seu novo espaço torna-se biograficamente importante. E a própria acção do professor Augusto Suggia ainda está insuficientemente estudada como estímulo a algumas carreiras musicais da época, para além das suas duas filhas.

Narciso Miranda- Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos

O COMÉRCIO DO PORTO, 4/7/2005

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março 21, 2005

NA ASSOCIAÇÃO BRITÂNICA DO PORTO- RECEPÇÃO EM HONRA DE MALCOLM SARGENT

Os salões da Associação Britânica (“Feitoria Inglesa”) — centenária colectividade de tão honrosas tradições—abriram-se ontem, de tarde, para receber o
prestigioso maestro Malcolm Sargent, que hoje, à noite, num concerto a efectuar no Teatro Rivoli, vai dirigir a Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, com a colaboração da ilustre violoncelista Guilhermina Suggia.

Às 17 horas, nos confortáreis e aristocráticos salões da «Feitoria, registava-se grande movimento de convidados. Além de numerosas senhoras britânicas e portuguesas e de categorisados membros da Colónia Inglesa. Viam-se os srs. drs. António Joice, que representava o sr. Governador Civil; capitão António Miranda, pelo sr. Comandante da 1ª' Região Militar; engenheiro Albano Sarmento, presidente da Municipalidade portuense; representante do Chefe do Departamento Marítimo; coronel Namorado de Aguiar, comandante da Polícia de Segurança: dr. Pereira Salgado, Reitor da Universidade do Porto; António de Oliveira Calem, presidente da Associação Comercial; Engº Custódio Guimarães, pela Liga dos Combatentes da Grande Guerra; Engº Costa Lima, director do Instituto do Vinho do Porto; D. Guilhermina Suggia; Drs Oliveira Lima, Alfredo de Ataíde, Vasco Valente, Antero de Figueiredo, Carteado Mena, Angelo Vaz e Castelo Branco; Carlos Mello; D. Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, directora do Conservatório de Música; Conde de Campo Belo; padre Guimarães Dias;Conde de Aurora; José Rosas Júnior, Francisco Manuel Fernandes Borges; Raul Lello: Joaquim Vasques de Carvalho; Fernando de Castro; Freitas Gonçalves, etc.
O sr. Hockins, Director da «Sala Inglesa”, da Universidade do Porto, saudou, em Inglês, o maestro Malcolm Sargent, a artista Guilhermlna Suggia, e os professores da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional.
A seguir, Malcolm Sargent agradeceu a. saudação e exprimiu o seu contentamento em dirigir um concerto no Porto. pois não ignorava que o público portuense era muito exigente em assuntos de arte musical.
A recepção em honra de Malcolm Sargent — individualidade eminente no mundo musical britânico — foi promovida pela Sala Inglesa da Universidade do Porto, tendo, para tal fim, a Direcção da Associação Britânica cedido gentilmente os seus salões. Decorreu animadamente e com distinção.

1º de JANEIRO, 27/1/1943

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março 15, 2005

O FUNERAL DE GUILHERMINA SUGGIA ONTEM REALIZADO NO PORTO CONSTITUIU UMA SENTIDA MANIFESTAÇÃO DE PESAR- DN, 2/8/1950

Porto, 1 – O funeral da insigne violoncelista Guilhermina Suggia constituiu uma sentida manifestação de pesar. Desta cidade pode dizer-se que não deixou de prestar homenagem à grande artista um só dos vultos de maior destaque em todos os meios; do País, do norte e do sul, estiveram presentes ou fizeram-se representar todas as autoridades, todos os organismos e individualidades ligadas à Arte Musical. E o Chefe do Estado, o Presidente do Conselho e o Governo, por intermédio do sr. Prof. Dr. Fernando Pires de Lima, ministro da Educação Nacional, prestaram também a sua última homenagem à figura rara e excelsa que tão bem, tão nobremente, prestigiou o nome de Portugal.

A saída do préstito estava marcada para as 11,30, mas muito antes já se encontravam em casa da ilustre extinta, à Rua da Alegria, numerosas individualidades, entre as quais os srs. Dr. Antunes Guimarães, presidente da comissão distrital da União Nacional, que representava o chefe do Distrito; presidente da Câmara Municipal; D. Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves, directora do Conservatório de Música do Porto, representando também o Círculo de Cultura Musical; dr. Fernando Aroso, presidente da Câmara Municipal de Matosinhos; prof. Filipe Loriente, pela Orquestra Sinfónica Nacional; prof dr. Amândio Tavares, reitor da Universidade; prof. Luís Costa, director do Orfeão Portuense, representando a srª D. Elisa de Sousa Pedroso; presidente do Círculo de Cultura Musical de Lisboa; D. Helena de Sá e Costa, com a representação dos professores do Conservatório Nacional de Lisboa; António Russell de Sousa, pela União Nacional; maestro Afonso Valentim, prof. Dr. Jaime Rios de Sousa, dr. Sarmento Beires, da Faculdade de Ciências; dr. Alberto Pires de lima, vereadores e chefes de serviços municipais, professores do Conservatório do Porto, discípulos de Guilhermina Suggia, entre os quais a sra. D. Maria Alice Ferreira.
Muitas coroas de flores cobriam e rodeavam a urna, vendo-se entre elas as enviadas pelos srs. Presidente do Conselho, Embaixador de Inglaterra, Governador Civil do Porto, Câmara Municipal, Consulado do Porto da Grã-Bretanha, Associação Luso-Britânica, Círculo de Cultura Musical, violoncelistas da Emissora Nacional e por muitos membros da colónia britânica. Pouco depois da chegada do sr Ministro da Educação Nacional, o rev. Matos Soares, pároco da freguesia de Nossa Senhora da Conceição, fez encomendação do corpo, iniciando-se a seguir o saimento fúnebre. As borlas pegaram as discípulas da grande violoncelista. Uma viatura dos Bombeiros Voluntários do Porto coberta com ramos e coroas de flores, postada atrás do carro fúnebre, encabeçava o extenso préstito constituído por dezenas de automóveis, conduzidos por aquelas entidades, enquanto a pé, seguiam centenas de pessoas. À entrada da Igreja da Lapa pegaram as borlas os srs. Prof. Drs. Fernando Pires de Lima e Amândio Tavares, dr. Antunes Guimarães e António Maria Pinheiro Torres e coronel Licínio Presa. A missa de corpo presente foi celebrada pelo rev. Luís Rodrigues, tomando lugares na capela-mor, além das individualidades já referidas, os srs. Brigadeiro Nunes da Ponte, Ricardo Spratley, tenente Rodrigues, representando o comandante da I Região Militar; prof dr Adriano Rodrigues, mestre Joaquim Lopes, director da Escola de Belas-Artes; dr. Sousa Costa, engº Rebelo Bonito, D. Berta Alves de Sousa, prof. Dr. Hermenegildo Queirós e engº Daniel Barbosa. Durante a missa fizeram-se ouvir a Orquestra Sinfónica do Porto, sob a regência do maestro Frederico de Freitas; o coro feminino do Conservatório de Música do Porto e as cantoras do Postigo do Sol. Após os responsos organizou-se o cortejo a caminho do cemitério de Agramonte, pegando as borlas à saída do templo as sras. D. Adelaide de Freitas Gonçalves, D. Berta Alves de Sousa, D. Ernestina da Silva Monteiro, D. Stela Cunha, D. Maria Amélia Cruz e D. Helena Moreira de Sá, e os srs. Profs. Luís Costa, Henri Mouton, François Broos, maestro Afonso Valentim, Cláudio Carneiro, Alberto Carneiro e Catarina Carneiro.
A urna ficou depositada em jazigo de família, onde se encontram os restos mortais de seus pais e do marido da extinta. A chave da urna foi entregue ao sr. Ministro da Educação Nacional, que, por seu turno, a entregou ao sr. Dr. Alberto Pires de Lima, um dos testamenteiros de Guilhermina Suggia.

HOMENAGEM BRITÂNICA EM LISBOA
A Embaixada da Inglaterra manda hoje celebrar missa de sufrágio, às 11 horas, na Igreja do Corpo Santo, em Lisboa, por alma de Guilhermina Suggia.

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março 07, 2005

O FUNERAL DE GUILHERMINA SUGGIA CONSTITUIU UMA GRANDIOSA HOMENAGEM DE SAUDADES- JN, 2/8/1950

Como era de calcular, o funeral da insigne Artista Guilhermina Suggia, ontem realizado, atingiu verdadeira imponência. Não foi apenas o elemento oficial que tomou parte nas cerimónias. Foi todo o Porto, representado pelos elementos mais destacados de todas as classes sociais, foi o próprio Povo, que sentiu que com a morte da excepcional violoncelista, desapareceu uma alta figura nacional, das que mais distintamente encarnam o génio da Nação – a alma da Pátria.

A alta burocracia, o alto e o baixo comércio, a indústria, as profissões liberais, dezenas de corporações associativas estiveram presentes, acompanhando por intermédio dos seus delegados o cortejo fúnebre, da casa da Rua da Alegria para a Igreja da Lapa e daqui para o cemitério de Agramonte, onde o corpo ficou inumado.

O préstito saiu da residência da extinta pouco depois das 11 horas, onde estivera velado, durante a noite e as primeiras horas da manhã, por individualidades oficiais e representantes de diversos organismos. De sobre a urna foram retirados os inúmeros “bouquets” e ramos de flores que lá haviam sido colocados, oferecidos por incontáveis amigos e admiradores da extinta. Entre esses testemunhos de homenagem, figurava um “bouquet” enviado pelo sr. Presidente do Conselho, e outros enviados por organismos musicais, Câmara do Porto, Governador Civil, Cônsul e Consulesa de Inglaterra, D. Maria Borges, D. Maria Alice Ferreira, etc.

Em casa fez a encomendação do corpo o Abade da freguesia da Senhora da Conceição, sendo a urna conduzida imediatamente para um auto-fúnebre, seguido por um pronto socorro dos Voluntários do Porto, que transportava as flores. Nesse momento pegaram as borlas do caixão os discípulos da Artista.
Organizado o cortejo seguiu este, com dezenas e dezenas de automóveis e com muitas pessoas a pé, até à Igreja da Lapa, precedido por uma motocicleta da P.S.P.. Num dos automóveis seguiu o sr Ministro da Educação Nacional que representava o Chefe do Estado, o Presidente do Conselho e o Governo.

À entrada do templo pegaram as borlas o titular da Educação, o Reitor da Universidade, o dr. Antunes Guimarães, o dr. A.M. Pinheiro Torres e o sr. Russel de Sousa. Enquanto a urna foi colocada sobre uma eça, aquelas individualidades tomavam lugar, com muitas outras do lado da Epístola , vendo-se do lado do Evangelho as Pequenas Cantoras do Postigo do Sol, com o seu maestro Virgílio Pereira. Em outros lugares ficaram colocadas muitas outras individualidades representativas.

Rezou a missa de corpo presente o reitor da igreja, e durante a celebração a Orquestra do Conservatório executou, dirigida por Frederico de Freitas, várias composições adequadas o coro feminino do Conservatório cantou “Crucifixus” e as Pequenas Cantoras entoaram diversas peças corais.

Findas as cerimónias religiosas, e ainda ao som da Marcha Fúnebre, o cortejo voltou a organizar-se, a caminho de Agramonte. Houve novo turno, com pessoas ligadas à arte Musical, e no cemitério, quando se fechou o caixão, a chave foi entregue ao sr Ministro da Educação Nacional, que por sua vez a entregou ao sr. Dr. A. Pires de Lima, testamenteiro da Artista.
As representações foram em grande número. Além das que já mencionámos, havia as do Embaixador da Inglaterra, pelo Cônsul, o Instituto Britânico em Lisboa, pelo sr. Riekett, o Comandante da Região, o Presidente da Câmara de Lisboa, a Academia de Música da Madeira, os srs W.S. Clode, engº P. Clode e Fernando Lopes Graça, pelo maestro Virgílio Pereira, o Coral Feminino do Porto pela sua regente, a profª D. Stela Cunha, etc.

JORNAL DE NOTÍCIAS, 2 de Agosto de 1950



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março 01, 2005

A MORTE DA INSIGNE VIOLONCELISTA FOI MUITO SENTIDA EM AVEIRO - "1º de Janeiro "2 de Agosto de 1950

AVEIRO,1 – Foi muito sentida nesta cidade a morte da insigne violoncelista Guilhermina Suggia que em Aveiro contava muitos admiradores e em 31 de Maio, aqui celebrou um inolvidável concerto, o último concerto que efectuou no nosso país.

Nessa ocasião, no teatro onde se realizou o concerto, foi descerrada uma lápide, em homenagem à grande artista. Essa lápide, ontem em sinal de sentimento, esteve coberta de crepes.

A Câmara Municipal, na sua sessão, aprovou um voto de profundo pesar pela perda de Guilhermina Suggia e a direcção do Círculo e Cultura Musical, em Aveiro, fez-se representar no funeral.

1º de JANEIRO, 2 de Agosto de 1950

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fevereiro 25, 2005

GUILHERMINA SUGGIA- O FUNERAL DA EMINENTE ARTISTA - "O 1º de Janeiro" de 2/8/1950

O funeral da grande violoncelista Guilhermina Suggia, ontem realizado da Igreja da Lapa para o cemitério de Agramonte, constituiu uma expressiva manifestação de pesar, uma demonstração de elevada admiração e apreço pelos altos méritos da insigne artista que, honrando a cidade do Porto, de onde era natural, tão brilhantemente soube prestigiar o país no panorama mundial da requintada arte da música.

Pouco depois das 11 horas chegou à residência da eminente artista o sr Ministro da Educação Nacional, que representava o chefe do Estado, o Presidente do Conselho e o Governo.

A seguir o rev. Padre Matos Soares, pároco da freguesia de N.Senhora da Conceição, leu os responsos, depois do que a urna, contendo os restos mortais de Guilhermina Suggia, foi colocada num auto-fúnebre em que seguiu para o templo da Lapa, completamente cheio, acompanhada de um pronto-socorro dos Bombeiros Voluntários do Porto, que transportava ramos de flores e de numerosos automóveis conduzindo pessoas de elevada representação social.

Da sala mortuária até ao auto-fúnebre seguraram as borlas da urna as discípulasda grande artista.

Após a chegada à igreja da Lapa do cortejo fúnebre, que abria com um motociclista da Polícia de Segurança Pública, organizou-se um turno até ao transepto, pegando as borlas da urna o sr Ministro da Educação Nacional, reitor da Universidade, represenantes do chefe de distrito, da União Nacional e do S.N.I. e o Presidente do Município.

Do lado da “Epístola” ocuparam lugar várias individualidades de entre as quais os srs. Comandante João Pais e dr Fernando Aroso. Do lado do “Evangelho” viam-se as Pequenas Cantoras do Postigo do Sol, com o maestro Virgílio Pereira. Noutros lugares, viam-se, entre outros, os srs. Brigadeiro Nunes da Ponte, Prof Engº Daniel Barbosa, prof.dr. Adriano Rodrigues, D. Maria Vaz Fernandes Borges, D. Maria Alice Ferreira, professor Joaquim Lopes, Prof dr. Hermenegildo Queirós, dr Sousa costa, capitão António Graça,, prof. Dr Sarmento Beires, Raul de Caldevila, Gabriel Ferreira Marques, António Dias, António Pinto Machado, Manuel Matos, Artur Corte-Real, François J Bross, maestro AfonsoValentim, maestro Raul de Lemos, dr Carlos Costa, prf Filipe Loriente, Delfim Ferreira, Maxwell Graham, G. Tait, Neville Kendall, Prof Dr Hernâni Monteiro, etc.

A missa de corpo presente foi celebrada pelo reitor da Igreja da Lapa rev padre Luís Rodrigues e durante a cerimónia a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, sob a regência do maestro Frederico de Freitas, executou a “Marcha Fúnebre”, “Sinfonia Heróica” de Beethoven, “Prelúdio” de J.S. Bach e, à saída da urna, a “Marcha Fúnebre” de Chopin. O Coro Feminino do Conservatório cantou “Crucifixus”, de “Missa em si menor” de Bach e as “Pequenas Cantoras do Postigo do Sol”, entoaram “Sepulto, Domino” de Victoria e “Jesus, oh maestre”, de Bach.

No final dos responsos, organizaram-se dois turnos do interior do templo para o auto-fúnebre, tendo segurado as borlas da urna, D. Berta Alves de Sousa, D. Ernestina da Silva Monteiro, D. Stela Cunha, D. Helena Moreira de Sá e Costa, D. Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, professores Luís Costa, Cláudio Carneiro, Alberto Pimenta, Afonso Valentim, François Bross e Henri Mouton e Catarina Carneiro.

A chave da urna foi entregue ao sr Ministro da Educação que, por sua vez, a entregou a um dos testamenteiros da extinta.
O cortejo fúnebre dirigiu-se, com acompanhamento numeroso, ao cemitério de Agramonte onde a urna ficou depositada em jazigo de família, coberta de flores.

REPRESENTAÇÕES
Fizeram-se representar: o sr. Embaixador da Grã-Bretanha pelo sr vice-cônsul H.J.Griffith; o chefe do Distrito pelo sr. Dr. João Antunes Guimarães; o comandante da 1ª Região Militar pelo tenente sr Rodrigues; a Câmara Municipal de Lisboa e o Município do Porto pelo seu Presidente sr. Coronel Licínio Press; a União Nacional pelo sr. António Russel de Sousa; a Srª Elisa de Sousa Pedroso, a Sociedade de Concertos, a Orquestra Filarmónica de Lisboa e Sociedade Coral Duarte Lobo pelo sr. Prof Luís Costa; o Instituto Britânico no Porto pelo sr Rickett; o Orpheon Portuense pelo sr. Fernando Moreira de Sá, António Amorim Pinto e Luís Costa; os professores do Conservatório de Lisboa D. Maria Cristina Lino Pimentel e Jorge Croner de Vasconcelos e pela srª D. Helena Moreira de Sá e Costa; o Círculo de Cultura Musical do Porto pelo sr. Ricardo Spratley e D. Maria A. de Freitas Gonçalves; a Associação Industrial Portuense e o Rotary Clube do Porto pelo sr.Rodrigo Ferreira Dias; a Sociedade dos Escritores e Compositores Teatrais e o maestro Jaime Silva, filho, pelo sr. Francisco Correia; o Centro Universitário da M.P. pelo prof. Sr. Dr. Jaime Rios de Sousa; a Empresa Artística do Coliseu do Porto pelo sr. João Silva; o Coro de Câmara Poliphonya pelo engº sr. Rebelo Bonito; a Sociedade de Concertos e a Sociedade de Concertos da Madeira, William e Luís Clode e professor Lopes Graça pelo maestro Virgílio pereira, etc.
Sobre a urna foram depostas coroas e “bouquets” de flores oferecidas pelo sr dr oliveira Salazar; embaixador de Inglaterra; cônsul e consulesa da Grã-Bretanha no Porto; D. Maria Borges;D. Maria Alice Ferreira; Câmara Municipal do Porto; governador civil do Porto; violoncelistas da E. N.; Círculo de Cultura Municipal desta cidade; Conservatório de Música do Porto; Mrs Tait e Mrs. Tage, etc.
Durante a noite de segunda-feira para ontem, velaram o cadáver da ilustre extinta, os Bombeiros Voluntários do Porto e Portuenses.

O Funeral esteve a cargo da casa Alberto Pereira, Filhos.

Por iniciativa da entidade britânica de Lisboa é hoje, pelas 11 horas, celebrada missa de “Requiem” na igreja dos Padres Dominicanos do Corpo Santo, da Capital, por alma da ilustre artista Guilhermina Suggia.


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fevereiro 21, 2005

O SR EMBAIXADOR DA INGLATERRA EXPRESSA CONDOLÊNCIAS EM NOME DO SEU GOVERNO - "O Século" 1/8/1950

O senhor ministro dos Negócios Estrangeiros recebeu de Sir Nigel Ronald, embaixador da Inglaterra, em Lisboa, a seguinte carta:
“Meu prezado Ministro dos Negócios Estrangeiros: - em nome do meu governo e do povo da Grã-Bretanha, desejo apresentar ao governo e povo de Portugal a expressão de profundo pesar pelo falecimento de D. Guilhermina Suggia. Esta grande artista ocupava um lugar muito especial, não só na estima mas ainda no afecto do povo do meu país, a quem nos últimos trinta e cinco anos, aproximadamente, ela concedeu milhares e horas de puro prazer. Qualquer que fosse o seu auditório, quer fosse a rainha ou a rainha-mãe ou operários das minas chegando do trabalho, a resposta ao ouvi-la tocar era sempre a mesma; não mera admiração pela sua arte consumada; amaram-na por si mesma e pela sua arte verdadeiramente admirável. É, pois, com real e profundo sentimento que eles se irmanam com o povo de Portugal, perante a perda da sua tão distinta e profundamente amada compatriota. Creia-me, meu caro ministro, seu muito dedicado
Nigel Ronald”

O SÉCULO, 1 de Agosto de 1950

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fevereiro 18, 2005

GUILHERMINA SUGGIA DEIXA LEGADOS PARTICULARES E ARTÍSTICOS- "O Século" 1/8/1950

GUILHERMINA SUGGIA
DEIXA LEGADOS PARTICULARES E ARTÍSTICOS

Porto 31- A morte de Guilhermina Suggia foi muito sentida. De todos os pontos do País têm sido recebidas condolências e à sua casa têm acorrido muitas pessoas de relevo nas artes, nas letras e nas ciências nortenhas, para velarem o cadáver.

O préstito fúnebre sai amanhã às 11 e 30 da Igreja da Lapa para o cemitério de Agramonte, depois dos ofícios fúnebres, em que colaboram alguns dos discípulos da eminente artista, que assim querem prestar-lhe a última homenagem.

O testamento de Guilhermina Suggia divide-se em duas partes: legados particulares e legados artísticos. Com o produto da venda do seu violoncelo “Stradivarius”, avaliado em mais de 10.000 libras, será instituído na Royal Academy of Music, de Londres um prémio anual com o seu nome, para o melhor aluno de violoncelo.
Com idênticos fins legou outro instrumento e a sua biblioteca musical ao Conservatório de Música do Porto, e ainda outro ao Conservatório Nacional, com cujo produto será instituído um prémio com o nome do pai, que foi aluno daquele estabelecimento de ensino.

Deixou ainda inúmeras obras de arte a antigos alunos e pessoas amigas, 20 contos à Sociedade Protectora dos Animais, do Porto, e o prédio onde vivia, na Rua da Alegria, ao colégio Ultramarino das Missionárias de Maria, de Barcelos, para a construção de uma capela privativa. A face e as mãos da artista foram modeladas em cera, pelo modelador José Baganha.

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fevereiro 10, 2005

O FUNERAL DE GUILHERMINA SUGGIA CONSTITUIU UMA SENTIDA MANIFESTAÇÃO DE PESAR- Diário Popular, 1/8/1950

PORTO, 1 — Constituiu uma profunda manifestação de pesar o funeral da grande violoncelista Guilhermina Suggia.

Quando o sr. dr. Fernando Pires de Lima, (Ministro da Educação Nacional,
que representava os srs. Presidentes da Republica e do Conselho, chegou à residência de Guilhermina Suggia, encontravam-se ali, a fazer a ultima velada, entre outras individualidades, os srs. coronel Lucínio Presa, presidente do Município portuense, que representava o presidente da Camara Municipal de Lisboa, acompanhado de todos os vereadores; prof. Francois Parose, director do Conservatório Real de Bruxelas; dr. Antunes Guimarães em representação do governador civil do
Porto; prof. dr. Amandio Tavares, reitor da Universidade, acompanhado de
outros professores; brigadeiro Nunes da Ponte, comandante João Pais, cônsul e consulesa de Inglaterra, Mestre Joaquim Lopes, D. Maria da Assunção Borges, Ricardo Spratley, maestro Raul de Lemos e outras individualidades dos meios artístico, social e literário do Porto. Estas e muitas outras entidades incorporaram-se, depois, no funeral.

À chegada do féretro à igreja da Lapa constituiu-se um turno formado pelos srs. Ministro da Educação, reitor da Universidade, drs. Antunes Guimarães, Pinheiro Torres, Russel de Sousa e coronel Lucínio Presa. Enquanto o distinto musicólogo padre dr. Luís Rodrigues rezava a missa, a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Musica, sob a direcção do maestro Frederico de Freitas, executou marchas fúnebres.
No cemitério de Agramonte, onde o corpo ficou depositado em jazigo de família, organizou-se outro turno, com os antigos discípulos da grande violoncelista. A chave do caixão foi entregue pelo testamenteiro ao sr. Ministro da Educação que fará a sua entrega ao Museu Histórico da cidade.

DIÁRIO POPULAR, 1/8/1950

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fevereiro 08, 2005

HOMENAGEM PROMOVIDA PELAS ENTIDADES BRITÂNICAS- Diário Popular, 1/8/1950

Para que as pessoas a quem não foi possível assistir ao funeral da ilustre artista D. Guilhermina Suggia possam prestar uma derradeira homenagem à memória da grande violoncelista portuguesa, será celebrada missa de “Requiem”, amanhã, na Igreja dos Padres Dominicanos, do Corpo Santo, às 11 horas. A cerimónia realiza-se por iniciativa das entidades britânicas.


DIÁRIO POPULAR, 1/8/1950

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fevereiro 01, 2005

O FUNERAL DE GUILHERMINA SUGGIA, REALIZADO ONTEM NO PORTO, FOI UMA MANIFESTAÇÃO DE ENORME PESAR- DIÁRIO DE LISBOA, 1/8/1950

PORTO, 31 (Pelo telefone)—O Porto culto e artístico teve bem a noção da irreparável perda que sofreu com a morte da grande violoncelista Guilhermina Suggia, muito justamente considerada no estrangeiro como glória nacional do nosso País.

O seu funeral, efectuado esta manhã na igreja da Lapa, foi prova eloquente do pesar que esta cidade está sofrendo. O vasto templo, ricamente decorado, comportou, durante as cerimónias da missa de corpo presente e responsos, tudo quanto o Porto conta de mais representativo em todos os seus sectores.

Desde a presença do ministro da Educação Nacional, que representava o Governo; até à gente humilde do povo, todos ali compareceram para prestar a derradeira homenagem à incomparável artista.

A Orquestra Sinfónica do Conservatório do Porto, sob a regência do maestro Frederico de Freitas, executou, durante a entrada da urna no templo, a «Marcha Funeral» da «Sinfonia Heróica» de Beethoven, e no decorrer da missa, o «Preludio» de Bach, e no final a «Marcha Fúnebre» de Chopin. As pequenas cantoras do Postigo do Sol, sob a regência do professor Virgílio Pereira, cantaram «Sepulto Domino», de Victoria, e «Jesus, ó Mestre!», «Da Paixão, segundo S. Mateus», de Bach. O coro do Conservatório, dirigido pelo professor Calado, cantou «Cruxifixus», de Bach.
Foi celebrante o professor de música do Seminário da Sé, rev. Luís Rodrigues.

Na assistência via-se elevadíssimo número de senhoras, alguns antigos alunos, directores e professores e alunos do Conservatório do Porto, reitor da Universidade e professores, presidentes e vereadores das Camaras do Porto e de Matosinhos, mestre Joaquim Lopes, director da Escola de Belas Artes; comandante João Pais, brigadeiro Nunes da Ponte, prof. Adriano Rodrigues, Ricardo Spratley, dr. Sousa Costa, dr. Antunes Guimarães, escultor José Caldas, dr. António Pinheiro Torres, em representação do director do S. N. I., Delfim Ferreira (Riba d'Ave) e sua filha D. Maria Alice Ferreira; eng.° Rebelo Bonito, que representava o Coro de Camara Polifónico de Lisboa; prof. Luís Costa, em representação de D. Elisa Pedroso, presidente do Circulo de Cultura Musical, Sociedade de Concertos, Sociedade Coral Duarte Lobo e Orquestra Filarmónica de Lisboa. Sua filha D. Maria Helena de Sá e Costa. Representava os professores do Conservatório Nacional de Lisboa, Maria Cristina Pimentel e Jorge de Vasconcelos. O Orfeão Portuense encontrava-se representado pelos srs. prof. Luis Costa, eng.° Moreira de Sá e António Amorim Pinto.

Viam-se também escritores, artistas, figuras representativas, etc.
Os Bombeiros Voluntários do Porto fizeram a guarda de honra.

A chave do caixão foi entregue ao sr. dr. Alberto Pires de Lima que por seu turno a entregou ao sr. ministro da Educação Nacional.

No cortejo para o cemitério de Agramonte, onde ficou sepultado em jazigo de família o corpo da insigne artista, junto dos seu pai e de seu marido, encorporaram-se muitas dezenas de automóveis.

Em vários edifícios da cidade conservam-se bandeiras a meia haste.

DIÁRIO DE LISBOA, 1/8/1950


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janeiro 26, 2005

ANÚNCIO DE MISSA DE 8º DIA

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Mandado Publicar no "O SÉCULO" de 5 de Agosto de 1950, pelo Círculo de Cultura Musical

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janeiro 25, 2005

GUILHERMINA SUGGIA - O FALECIMENTO DA INSIGNE ARTISTA - "O COMÉRCIO DO PORTO" 31/7/1950

Na sua residência, Rua da Alegria, 665, nesta cidade, faleceu, às 23 horas de ontem, a grande violoncelista D. Guilhermina Suggia, insigne artista, cujo nome alcançou larga projecção, não só no nosso País, como no estrangeiro, onde, sobretudo em Inglaterra, disfrutava do mais alto prestígio.

Guilhermina Suggia, que contava 65 anos de idade, adoecera há tempos gravemente, pelo que, em Londres, se submeteu a uma intervenção cirúrgica da qual nenhumas melhoras lhe advieram. Nessa ocasião, a nossa ilustre compatriota viu quanto era querida e admirada pelas mais altas personalidades da corte inglesa, tendo recebido da própria família real os mais eloquentes testemunhos de estima e consideração, que muito a sensibilizaram. Como os seus padecimentos se agravassem de dia para dia, resolveu, a convite dos seus médicos assistentes, regressar a Portugal e recolher à sua casa do Porto, onde a morte a veio surpreender.

O desaparecimento da insigne artista constitui perda irreparável que não enluta somente os portugueses mas, também, todo o mundo musicófilo e artístico.

Guilhermina Suggia era viúva do falecido médico radiologista portuense dr. Carteado Mena, não tendo agora pessoa alguma de família.

O seu funeral realiza-se amanhã, terça-feira, às 12 horas, na igreja da Lapa, saindo o féretro da residência às 11 e 30.
Está a cargo da Casa Alberto Pereira, Filhos.

Guilhermina Suggia, filha de Augusto de Medim Suggia, que foi professor do Conservatório de Músico de Lisboa e de Elisa Xavier Suggia, nasceu no Porto, numa casa da Rua Ferreira Borges, demolida há anos, em 27 de Junho de 1885.

Discípula de Klengel, no Conservatório de Leipzig, fez a sua apresentação em público aos sete anos de idade, e – nota curiosa – no Salão do Antigo Clube de Matosinhos, vila em que os seus pais residiram durante muito tempo. Dotada de um precoce talento musical, foi considerada desde logo, como “menina prodígio”. Aos treze anos de idade entrou como violoncelista para o famoso quarteto de música de câmara do Orfeão Portuense, tendo como violinistas Moreira de Sá e Henrique Carneiro e como violeta José Gouveia. Por essa ocasião apresentou-se em Lisboa, na Academia dos Amadores de Música, sendo entusiasticamente aclamada. Foi, então, convidada a participar numa festa elegante realizada no Palácio das Necessidades, sob a protecção da família real, assistindo ao concerto o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia, o príncipe D. Luís Filipe, os infantes D. Afonso e D. Manuel e a rainha D. Maria Pia.

Depois deste memorável concerto seguiu para a Alemanha, matriculando-se no Conservatório de Música de Leipzig, então sob a direcção de Julius Klengel que não a admitiu por a considerar superior a todos os alunos que frequentavam aquele estabelecimento de ensino. Aos 17 anos incompletos foi autorizada, excepcionalmente, a tocar na “Gewandhaus”, de Leipzig, a mais ampla e consagrada sala de concertos da Alemanha, num concerto regido pelo grande Artur Nikish, executando o concerto de Volkmann, alcançando tão retumbante êxito que teve de bisar, sob verdadeira tempestade de aplausos. Este acontecimento marca, seguramente, o início da sua triunfal carreira artística através da Europa, até se fixar em Londres, depois de se apresentar no Porto, no Orfeão Portuense, num concerto a favor da A.N.T. e correspondendo a um apelo feito pela rainha D. Amélia.

Trabalhando sob a direcção do grande artista catalão Pablo Casals, em breve ascendeu à posição mais alta a que um artista pode aspirar, vendo-se festejada e aclamada por toda a parte.

Tocou em todos os palácios reais e presidenciais da Europa, perante chefes de Estados, das figuras mais célebres da vida política, social e artística de Espanha, França, Alemanha, Áustria, Rússia, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Escandinávia, Itália, Suíça, Checoslováquia, Turquia e Polónia, sem que, todavia, deixasse de ficar presa da cativante hospitalidade britânica. De facto, de nenhuns triunfos guardava melhor recordação do que dos obtidos em Inglaterra, cuja corte frequentou como artista querida e admirada, desde os tempos de Eduardo VII. Recordava, até, a insigne violoncelista que a morte ceifou, que sendo Austin Chamberlain conhecido como pouco amante da música, lhe confessara, certa vez, ter vislumbrado um relâmpago de emoção artística, em duas únicas vezes – quando escutou a voz do famoso cantor inglês Gervasius Cary Elwes e ouviu tocar Guilhermina Suggia.

Com marcada preferência pelos autores dos séculos XVII e XVIII, as suas predilecções iam, sobretudo, para Bach, Beethoven, Haydn, Schumann, Schubert e Brahms, sem todavia, deixar de mostrar apreço por muitos outros compositores clássicos e modernos.

A sua beleza de estilo e a perfeição da frase não foram superadas por nenhum dos actuais concertistas de violoncelo, segundo a crítica inglesa. Tais são, a largos traços, os dados biográficos da grande e ilustre artista que o mundo musicófilo acaba de perder.

COMÉRCIO DO PORTO, 31 de Julho de 1950

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janeiro 19, 2005

GUILHERMINA SUGGIA, VIOLONCELISTA DE NOME INTERNACIONAL FALECEU ONTEM- "O SÉCULO" 31/7/1950

Porto, 30 – Pelas 23 e 30 faleceu na sua residência, na Rua da Alegria, 665, a eminente violoncelista Guilhermina Suggia, que há pouco regressara de Inglaterra onde fôra buscar alívio para os seus males. Estavam presentes naquele instante os srs drs Álvaro Rodrigues e Alberto Pires e Lima, a enfermeira e o pessoal da casa.
O corpo é transportado amanhã, às 12 horas para a igreja da Lapa, onde se efectua a missa de corpo presente.
Em seguida, realiza-se o funeral, para o cemitério de Agramonte.
Faleceu com grande calma e resignação.

Guilhermina Suggia nasceu no Porto, e logo desde os primeiros anos revelou uma espantosa vocação musical. Aos 7 anos fez a sua primeira apresentação em público, maravilhando todos quantos a ouviram.

Seu pai deu-lhe as primeiras lições de violoncelo. Mais tarde aperfeiçoou-se em Leipzig, com o grande mestre Julius Klengel. Aos 16 anos, obteve um êxito apoteótico nos concertos da famosa “Gewandhaus” daquela cidade perante um público considerado o mais sabedor e exigente da Alemanha daquele tempo. Dirigiu a orquestra nesses concertos memoráveis, cuja influência na carreira de Guilhermina Suggia foi definitiva,, um dos maiores maestros de todos os tempos – Artur Nikisch .

Desde então a insigne artista portuguesa foi aclamada nos principais centros de música do Mundo, como intérprete inconfundível, tanto no género de câmara como no sinfónico. Em Inglaterra, especialmente, o seu nome alcançou um enorme prestígio, tendo sido cumulada de honras pela família real.
Guilhermina Suggia, violoncelista da craveira dos Casals, Piatigorsky, Feuermann, era extraordinariamente perfeita na execução do nobre instrumento que a tornou célebre.

Não era, porém, esse, o lado do seu talento que rendia todo e qualquer ouvinte à grandeza da sua personalidade. Eram-no, sim, uma indisível arte de realçar a frase musical, um sentido rítmico agudíssimo, uma fibra, um entusiasmo e, por vezes, um humor incomparáveis. Algumas das suas criações, verdadeiramente geniais, eram inultrapassáveis de expressão. Quem lhe tenha ouvido o concerto em Lá menor de Saint-Saëns ou o concerto de Dvorak, não pode ter esperança de alguma vez conhecer melhores interpretações dessas obras.

Guilhermina Suggia foi, também, uma grande professora, deixando numerosos discípulos. Sobre eles pesam agora a responsabilidade e a honra de serem os únicos depositários de uma arte e uma escola que deram à história da música portuguesa uma das suas mais brilhantes páginas de glória.
O SÉCULO 31 de Julho de 1950

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janeiro 14, 2005

CRÍTICA DE RUY COELHO A CONCERTO de 26/1/1945

S.CARLOS – CONCERTO SINFÓNICO
O 4º concerto da série promovida pela E.N. realizou-se ontem, também com muito êxito. A solista foi GUILHERMINA SUGGIA. Tocou, além do “Concerto” de Saint-Saëns, o “Papillon” de Fauré e “Chant élégiaque” de Florent Schmitt.
Como sempre, mostrou aquele raro poder de penetração só acessível a intérpretes de grande classe. E de tal forma que, pode dizer-se: electrizou o público. Foi em todas as peças a intérprete genial que tanto mais se admira quanto mais se ouve. Tocou extra-programa.

Deram-se duas obras de autores contemporâneos: “A Sinfonia das Cores” de Artur Bliss, e a “Suite para Cordas” de José H. dos Santos. O compositor inglês serve-se duma paleta orquestral opulenta em timbres. Os ritmos, a imaginação, a realização, dão àquele trabalho categoria superior de verdadeira obra contemporânea “up to date”. A “suite” de José H. Dos Santos utiliza a “corda” da orquestra nas boas regiões, e como “esquema” no seu género, está bem manipulada como qualquer molde. A Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional deu ao programa interpretações vivas, sempre sob a direcção do maestro Pedro de Freitas Branco, e distinguiu-se especialmente, na “Valsa” de Ravel – obra moderna construída sobre um título romântico e uma imagem musical igualmente romântica – do que se deduz não ser o título das obras o que lhes marca o carácter estético, mas logicamente o conteúdo.
RUY COELHO

DIÁRIO DE NOTÍCIAS 27 de Janeiro de 1945

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janeiro 11, 2005

A MORTE DA GRANDE VIOLONCELISTA GUILHERMINA SUGGIA-DIÁRIO POPULAR 31/7/1950

Com a morte da grande violoncelista Guilhermina Suggia ontem ocorrida na sua residência, no Porto, desaparece uma das artistas portuguesas que tiveram maior audiência no estrangeiro. Considerada das primeiras do seu género.

Logo aos 7 anos de idade revelou as suas qualidades, num concerto realizado no Porto, que ficou memorável. Daí por diante os seus triunfos contaram-se pelos concertos realizados. Em Portugal e no estrangeiro a sua arte impô-la à consideração universal. Ainda recentemente, em Inglaterra, a ilustre artista recebeu as felicitações do rei Jorge V, distinção rara concedida pelo soberano britânico.

Guilhermina Suggia nascera a 27 de Junho de 1885.

Entre os muitos telegramas e telefonemas recebidos na residência da extinta, contam-se os dos srs. Presidentes da República e do Conselho e Embaixador de
Inglaterra membros do Corpo Diplomático e Consular, etc.

O Chefe do Estado e o sr. Presidente do Conselho fazem-se representar no funeral. Vários membros do Governo telegrafaram também a apresentar condolências.

Numerosas colectividades puseram as bandeiras a meia haste, em sinal de luto.
O funeral sai amanhã, pelas 12 horas, da Igreja da Lapa, onde será rezada missa de corpo presente, para o cemitério de Agramonte.

DIÁRIO POPULAR, 31 de JULHO de 1950

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dezembro 14, 2004

A MORTE DE GUILHERMINA SUGGIA - DIÁRIO DE NOTÍCIAS de 31/7/1950

Porto, 30 – Próximo da meia-noite faleceu na sua residência, Rua da Alegria 556 (*), a grande artista GUILHERMINA SUGGIA. O funeral realizar-se-á terça-feira, a hora ainda por determinar.

Morreu GUILHERMINA SUGGIA.
Morreu – sabem-no bem e concordam connosco, certamente os grandes apreciadores de música, e assim, e com verdade a classificamos – a maior violoncelista dos nossos tempos.

Ficam, portanto, de luto pesado, pela sua morte – ocorrida perto da meia-noite, em sua casa, para onde fora, há dias “gravíssimamente” doente – os músicos portugueses. Portugal, diga-se mesmo, porque Suggia, nascida e criada no Porto, ainda que de todo o Mundo, como todos os grandes artistas – cidadãos do Mundo – era genuinamente portuguesa, por sentimento e temperamento, e muito honrou, sempre, durante a sua vida, seus êxitos, suas glórias, Portugal.

A notícia abrupta da sua morte chegada a deshoras à redacção deste jornal, impede-nos, por falta de tempo, de compulsar quantos elementos nos poderiam dar nota da sua biografia brilhantíssima.
A nosso recurso vêm, no entanto, alguns colhidos ao acaso, entre os muitos “dossiers” da nossa biblioteca de consulta, e mais, e melhor, os que por muito conhecidos, guardam a nossa memória.
Foi ela filha dum mestre de violoncelo e violoncelista primoroso também, Augusto Suggia, que do Conservatório de Lisboa passou ao do Porto e ali fixou residência. Ali nasceu Guilhermina e ali aprendeu com seu pai a técnica do instrumento em que devia, mais tarde, vir a ser prodigiosa e famosa – genial – como os mais célebres violoncelistas de todos os tempos. E no Porto, ainda precoce talento musical, aos sete anos, “menina prodígio” se revelou assombrosa já, pela primeira vez que tocou em público, no então aristocrático, muito distinto, Clube de Matosinhos.

Depois são os seus triunfos repetidos, no Quarteto de Música de Câmara do Orfeão Portuense, menina e moça, e os concertos sucessivos que dá, aplaudidíssimos, com sua irmã Virgínia, pianista notável também, mais tarde Mme Léon Tichon. É a sua entrada no Paço Real em Lisboa, onde o rei D. Carlos, a rainha D. Amélia, a rainha viúva D. Maria Pia e os príncipes, e todos os grandes de Portugal a aplaudem e a consagram, num concerto memorável, como grande também de Portugal, entre os maiores artistas da época.

E são, depois, com 17 anos, os seus estudos no Conservatório de Leipzig, onde tem como seu mestre e amigo, Klengel. E onde Nikisch – o enorme Nickisch – meses passados, ao ouvi-la no “Gewandeshaus” consente que ela repita, a pedido do público entusiasmado ( o que nunca se havia feito a ninguém nesse “auditorium”), o concerto de Volkmann, que havia maravilhosamente executado.

E depois são todos os países da terra que percorre, entre ovações, e em que se iguala ao maior de todos os violoncelistas do tempo, o célebre Pablo Casals.

São as cortes que a recebem como uma princesa – desde a estranha do Czar das Rússias à puritana da Inglaterra. É sobretudo a Inglaterra que ela cativa e onde para todo o resto da vida, fica tendo os seus mais dilectos admiradores - a artista preferida de Eduardo VII, amiga de Balfour e de Austen Chamberlain, que “não gostava de música” a não ser a tocada por GUILHERMINA SUGGIA; amiga da duquesa de York, hoje rainha da Grã-Bretanha, que sempre a requeria para os seus concertos de beneficência, e mal chegava a Londres, lhe mandava sempre um precioso ramo de orquídeas. Essa Inglaterra, “onde nunca esteve em hotéis” porque de par em par se lhe abriam as portas dos palácios – disputando-lhe o convívio – das mais nobres das mais fechadas famílias da aristocracia britânica.

Mil páginas de ouro da sua vida as poderíamos escrever, se tempo houvéssemos. Algumas até, por mais curiosas, a contar episódios com ela passados e anedotas cheias de graça. Ou a dizer de seus gostos, da sua casa, do seu conhecido amor pelos cães de raça – os “scottish-terrier”, de preferência – ou da sua valiosa colecção de tapetes orientais. Ou até, ainda que tal não pareça, em artista de tão fina qualidade, as suas devoções desportivas, pelo “tennis”, pela natação e pelo remo.

Mas o caso – e tristíssimo – é que morreu GUILHERMINA SUGGIA, altíssimo espírito de mulher, extraordinária artista, assinalada portuguesa em todo o mundo musical, onde foi estrela de primeira grandeza.
Dizem, sobre estrelas, os astrónomos que, se alguma delas, por morte desaparecesse do Céu, em muitos, muitos, muitos anos, receberíamos ainda todo o fulgor da sua Luz e do seu Encanto.

GUILHERMINA SUGGIA, como tal, continuará brilhando na claridade do seu prestígio admirável, na saudade de todos os que – inolvidavelmente – a ouviram e aplaudiram. Pertence desde hoje, aquela falange de eleição, dos mortos...que não morrem.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS,31 de Julho de 1950

(*) a sua casa ficava na Rua da Alegria, 665 e não 556 como é referido.

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dezembro 09, 2004

UMA DAS MAIORES VIOLONCELISTAS DO MUNDO- República, 31-7-1950

Faleceu ontem, à noite, no Porto, na sua residência, a notabilíssima violoncelista portuguesa, Guilhermina Suggia, uma das maiores violoncelistas do mundo, com grande e prestigioso nome artístico nos mais altos meios musicais e uma das maiores figuras do movimento musical português de todos os tempos.

Guilhermina Suggia, que se fazia pagar a peso de oiro, e ombreava com os mais famosos músicos mundiais, tocou nos selectos concertos para publico exigentíssimo, recebeu deferências especiais de muitos chefes de Estado, na Europa e na América, sendo até recebida com particulares testemunhos de admiração e estima pelos reis da Inglaterra, que muito se interessaram pela sua saúde.

Guilhermina Suggia, que era natural do Porto, muito cedo revelou o seu génio musical, tendo feito a apresentação ao público, apenas com 7 anos.
Depois de ter recebido as primeiras lições de seu pai, um músico italiano(*),
Guilhermina fez a sua educação musical na Alemanha e teve o seu primeiro grande êxito, aos 16 anos, num concerto realizado em Leipzig conjuntamente com a célebre orquestra «Gewandhaus», regida pelo mais famoso chefe de orquestra desse tempo, o grande musico Artur Nikisch.

Começou, então a sua grande carreira gloriosa, que durou até há poucas horas; e daria assunto para muitas páginas a história empolgante dos seus êxitos em todo o mundo. Os críticos assinalavam o seu estilo incomparável, a cor e expressão que sabia arrancar de certas partituras, nomeadamente nos concertos de Saint-Saëns e Dvorak, em que excedia os mais notáveis violoncelistas.

Dentro em pouco, descansará para sempre, no cemitério de Agramonte do Porto, a grande violoncelista portuguesa. A sua morte representa uma perda mundial.

REPÚBLICA, 31/7/1950

(*) seu pai, Augusto Suggia, nasceu em Lisboa, descendente de famílas espanholas do lado materno e italianas do lado paterno
VM

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dezembro 07, 2004

UM NOVO MAESTRO

O aspecto mais notável do último concerto da Orquestra Sinfónica Feminina ( Women’s Symphony Orchestra) da Grã-Bretanha foi a actuação de Madame SUGGIA como maestro ( ou deveríamos dizer “maestrina”?). Como era de esperar deu o maior exemplo de graciosidade na arte de dirigir que até hoje vi em alguém do sexo feminino.

É curioso que, em matéria de direcção de orquestra, os homens são em geral mais graciosos do que as mulheres. Lembro-me de que na primeira vez que vi Ethel Smyth dirigir fiquei decepcionado com o seu estilo, embora ela tenha obtido os resultados que pretendia. Devo, contudo, dizer que só vi Dame Ethel dirigir com a batuta de Sir Henry Wood, que é de dimensão extraordinária. Parece que se adequa bem ao maestro, mas permito-me opinar que Miss Smyth se teria sentido mais à vontade com uma batuta algo mais curta. SUGGIA utilizou uma batuta de dimensão mais normal e foi realmente um prazer tê-la visto dirigir. Outra coisa se não esperaria, aliás, de alguém cuja arte do violoncelo se pode, literalmente, qualificar como poesia do movimento. Acrescento apenas que ela demonstrou uma boa capacidade de controlo e pareceu, do ponto de vista musical, plenamente à altura da sua tarefa.

THE MUSICAL MAIL - Agosto de 1924

Trad Luís Castanheira Lopes
(cedido por Isabel Millet)

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dezembro 02, 2004

MORREU A GRANDE VIOLONCELISTA PORTUGUESA GUILHERMINA SUGGIA- JN 31-7-1950

Morreu Gulhermina Suggia. Embora esperada, a notícia não deixou de nos emocionar. É que desaparece alguém, uma artista eminente, uma grande figura cuja projecção ultrapassou este velho burgo que lhe foi berço, assim como o País, para irradiar pelo mundo fora – numa honrosa e justa consagração. Pelos seus méritos invulgares, esta mulher que nos maravilhava com os prodigiosos acordes que as suas mãos artistas exalavam do seu violoncelo mágico, pertencia por direito próprio à extirpe de um Pablo Casals.

Guilhermina Suggia nasceu com o génio do violoncelo. Filha dum Artista, cresceu num ambiente em que a grande música dominava. A sua tendência musical revelou-se era ela ainda uma menina de palmo e meio. Teve no pai o seu primeiro mestre. E aos 7 anos enfrentava pela primeira vez o público, que, pressentindo encontrar-se na frente de alguém que a glória nimbaria um dia, lhe dispensou entusiásticos aplausos – que foram o melhor dos incitamentos.

Os seus progressos foram de tal sorte que não tardou em seguir para a Alemanha, a fim de se aperfeiçoar. Teve então ali como mestre o famoso professor Julius Klengel, que depressa se apercebeu do talento invulgar da sua jovem discípula, não hesitando em apresentá-la em vários concertos, enfrentando o conhecedor e exigente público germânico da época.
De triunfo em triunfo, a nossa compatriota participava, aos 17 anos, nos grandes concertos de Leipzig, de grande renome mundial. Nesses concertos, Suggia tocou sob a regência de Arthur Nikish.

Depois iniciou a sua peregrinação pelas capitais da Europa – verdadeiro caminho do triunfo. Guilhermina Suggia entrava gloriosamente na galeria das celebridades musicais. Os portugueses seguiam com o mais vivo interesse a carreira ascencional da sua compatriota, embora muito poucas vezes tivessem o ensejo de a escutar. A artista fixara-se em Inglaterra, onde contava com um público fiel de admiradores. Por lá permaneceu vários anos, vindo de vez em quando à pátria numa visita rápida. E continuavam a chegar até nós os ecos dos seus sucessivos êxitos perante o culto público londrino. A própria corte britânica não escapava à magia do violoncelo da artista.

Mais tarde voltou de vez para o Porto, e a cidade habituou-se a vê-la todos os dias passeando pelas ruas da Baixa. Quando ela passava, muita gente ignorava que ia ali uma artista eminente, de renome universal.

Guilhermina Suggia ia contudo todos os anos a Londres dar concertos. Foi professora da jovem talentosa violoncelista Maria Alice Ferreira.

Em princípio do mês corrente Guilhermina Suggia, muito doente deslocou-se a Londres, a fim de se submeter a uma melindrosa intervenção cirúrgica. As soberanas inglesas rainhas Maria e Isabel, admiradoras da grande artista, enviaram-lhe então ramos de flores e interessavam-se diariamente pelo seu estado de saúde.
Também o chefe do governo português, sr. D. Oliveira Salazar, telegrafava diariamente para Londres, informando-se da ilustre enferma.
Regressou a Portugal no passado dia 17, chegando ao Porto, de avião, alguns dias mais tarde.
Os seus padecimentos porém foram-se agravando dia a dia, até que ontem, pelas 23 horas, expirou suavemente. Assistiram aos seus últimos momentos a srª. D. Maria Isabel Pereira Caldas Vilarinho de Carvalho Cerqueira e os srs. Alberto Carlos Carvalho Cerqueira, seu testamenteiro, e dr. Alberto Pires de Lima.

Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia era viúva do saudoso radiolgista dr. Carteado Mena, tendo nascido nesta cidade, na freguesia de S. Nicolau, no dia 27 de Junho de 1885. Foram seus pais Augusto Medim Suggia , um artista e ascendência italiana e D. Elisa Xavier Suggia. Menina ainda, Guilhermina Suggia formou com sua irmã e seu pai um trio musical que se fez ouvir com sucesso no fim do século passado.

Possuía a comenda de San thiago e a Medalha de Ouro da cidade do Porto.
O féretro é trasladado amanhã da residência da eminente artista, à Rua da alegria, 665, para a igreja da Lapa, onde será rezada ao meio-dia missa de corpo presente, efectuando-se depois o funeral no cemitério de Agramonte.
O funeral está a cargo da casa Alberto Pereira (Filhos).

JORNAL DE NOTÍCIAS, 31 de Julho de 1950

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novembro 30, 2004

UM CONCERTO DE BENEFICÊNCIA

Realizou-se ontem à tarde, no Queen’s Hall, um concerto de beneficência a favor da “Queen’s College Extension Appeal Fund". No intervalo, Lady Tree, antiga estudante, pronunciou uma curta alocução evocativa e apelou à concessão de donativos com vista à expansão do ensino superior para as mulheres.

Entre os artistas participantes no variado programa incluíam-se Lady Howard de Walden (soprano), Maurice D’Oisly (tenor) e Madame Adila Fachiri (violinista). À Orquestra Sinfónica Feminina da Grã-Bretanha coube a execução das principais obras e alguns dos acompanhamentos. Desejaríamos poder louvar sem reservas esta iniciativa admirável, mas não é possível passar em claro uma generalizada falta de vitalidade na execução das peças. Não é difícil identificar a quem coube a responsabilidade: decerto não às instrumentistas, que, não obstante a direcção da orquestra, lograram dar alguma vida ao primeiro andamento do concerto para piano em Dó menor de Beethoven (em que foi solista Mrs Alfred Allport) e a “The Cliffs of Cornwall” de Ethel Smyth.
Madame SUGGIA – que apresentou uma aluna promissora – Miss Vyvyan Lewis – foi a terceira maestrina a dirigir a orquestra. Não há qualquer motivo que impeça uma mulher de ser uma boa dirigente de orquestra, mas a verdade é que Miss Gwynne Kimpton, Madame Suggia e, de certo modo, também Dame Ethel Smyth não ajudaram a orquestra, antes pelo contrário, gesticulando de forma incompreensível, ou seja, marcando tempo a tempo, em vez de se limitarem ao compasso ou à frase.
O resultado foi de uma falta de confiança e de ritmo de execução. Dir-se-ia que dirigir com uma batuta prejudica a espontaneidade e induz uma rigidez muscular contrária à facilidade de movimentos e à fluência do ritmo. Mas não deveria ser difícil corrigir tais deficiências de técnica.

THE TIMES – 27 de Junho de 1924
(Cedido por Isabel Millet- trad de Luís Castanheira Lopes)

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novembro 26, 2004

A IMPRESSÃO CAUSADA PELA MORTE DE GUILHERMINA SUGGIA, QUE AMANHÃ VAI A ENTERRAR

PORTO, 31—Embora a notícia da sua morte não surpreendesse, constituiu mostras de sentido pesar, pois desapareceu uma alta figura de renome internacional de que o Porto muito se orgulha de ter sido berço. Guilhermina Suggia não era uma figura muito popular, pois o povo não a conhecia, apesar de a cada passo com ele se confundisse por essas ruas. O seu meio ambiente era o da arte, e dos seus cultores ou apreciadores.

Há muitos anos que era raríssimo apresentar-se em publico, e quando o fazia, isso constituía espectáculo de alto valor, tal como foi a apresentação da sua aluna dilecta Maria Alice Ferreira (Riba d'Ave) realizada no Teatro Rivoli, em 4 de Maio de 1947 (1). O que sem exagero se pode classificar de acontecimento citadino. Além da apresentação da jovem violoncelista, o espectáculo . teve a colaboração da grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, sob a regência de Pedro de Freitas Branco.

O funeral da gloriosa Guilhermina Suggia, efectua-se amanhã, saindo o préstito da sua residência, na Rua da Alegria, 556 (2), para a igreja da Lapa, de onde ao meio-dia será rezada missa de corpo presente, efectuando-se depois o funeral para o cemitério de Agramonte, a cargo da casa Alberto Pereira Filhos.


Uma carreira fulgurante

Quando nasceu, trazia já no sangue todo o belo influxo de arte que havia de nortear-lhe o espírito. Vinha de uma família de artistas. Guilhermina Suggia era filha de Augusto Suggia, mestre de violoncelo, distinto, que no Porto conquistou um nome respeitável: Foi aí, nesse ambiente acolhedor e tão propício ás coisas do espírito, que desabrochou a pequenina Guilhermina. A casa de seu pai era um centro de vida musical que transbordava até ao lar de Gustavo Lehmano onde se reuniam o cantor Salvini, o nosso grande Viana da Mota, Moreira de Sá, o violoncelista Marques Pinto e muitos outros que nem por serem “estrelas” de menor fulgor, deixavam de enobrecer serões de arte de tamanha representação. Em 1893, tinha ela apenas cinco anos, visto que nascera a 27 de Junho de 1888 (3), já o pai a iniciava nos segredos da música, para dois anos mais tarde entusiasmar o público, tocando com tanta graça quanto intenção e inteligência. Mais tarde, os progressos da sua técnica e o desabrochar do seu estro musical abriram-lhe o verdadeiro caminho do virtuosismo. As estreitas paredes da grande casa lusitana já não chegavam para conter o mundo interior da sua alma de artista.

Partiu para Leipzig, com uma bolsa de estudo, concedida por D. Carlos, o rei artista tão inclinado sempre a estimular a arte dos portugueses. Foi Klengel o primeiro grande mestre de Guilhermina Suggia que, em breve, chamava a si as atenções da melhor sociedade musical alemã. A Leipzig, aos grandes concertos do Gewandhaus, acorriam o melhor público, os melhores críticos e os melhores músicos. Aí nascia o respeito dos grandes pela jovem intérprete, desta vez dirigida por Arthur Nikish, pianista, violoncelista e regente de Orquestra do Gewandhaus Ópera de Leipzig e da Orquestra Filarmónica de Berlim, nos anos áureos das suas primeiras peregrinações pela Europa.

Também Guilhermina Suggia iniciava então uma carreira triunfal através da Europa, tocando para os públicos mais requintados—para príncipes e reis, para os artistas mais exigentes. Em Inglaterra, porém, havia de se fixar o estro rutilante desta grande artista. As elites de Londres chamavam-na e acarinhavam-na, desde os tempos da primeira Grande Guerra, quando ela de violoncelo nos braços, acorria aos festivais, em beneíicio das vítimas das trincheiras e dos seus entes queridos. A rainha Alexandra assistia a esses concertos e, com ela, a duquesa de York e as princesas Helena Vitória e Cristina.
A universalidade desta ilustre artista que na história da música contemporânea portuguesa só teve par em mestre Viana da Mota, estava longe de ter atingido o verdadeiro diagrama da sua consagração. Muitos milhares de pessoas haviam ainda de vibrar sob o influxo das notas arrancadas ao seu violoncelo, arrebatá-la apoteoticamente dos camarins, conduzi-la, delirantemente, aos hotéis onde se hospedava, comportando-se, enfim, com ela, como grande e indiscutível artista que era. O seu primeiro concerto em Albert Hall data de 1932 e foi em beneficio dos músicos pobres ingleses. A rainha Mary e o rei Jorge V foram-lhe então apresentados e nunca mais o nome de Guilhermina Suggia se desusou das maiores noites musicais da corte inglesa. Outras vezes ali foi tocar e ainda agora a família real, num testemunho de admiração, exprimiu o seu interesse pela saúde da ilustre artista portuguesa que era, alem de artista, uma senhora. A Inglaterra, que a conquistara e consagrara, guardou-a em dois notáveis retratos, um que se admira no museu do palácio de Windsor, outro na Tate Gallery, também de Londres e assinado pelo famoso retratista Augusto Jhon.

Não obstante tantos e tão fundos vínculos, esta senhora de origem italiana ficou sempre portuguesa. E o seu coração ficou com um português, o dr. Carteado Mena, sábio que as investigações com os raios-X haviam de fazer mártir, já depois do casamento.
Morreu há cerca de um ano e, pode dizer-se, com a sua morte, Guilhermina Suggia, que não deixa filhos, sofreu a maior dor da sua vida. O seu lar revestia-se das cores solenes das grandes mansões de arte e de estudo e a harmonia era a voz mais alta daquelas duas vidas unidas por amor e em amor vividas.

Guilhermina Suggia, um espírito liberal que em muitos actos da sua vida profissional deixou expressos pontos de vista morais e ideológicos, além de outras condecorações, testemunhos nacionais e estrangeiros de admiração consagratóría, possuía a grã-cruz da Ordem de Cristo e a comenda da Ordem Militar de Sant'Iago.

O Porto, sua terra natal sempre lembrada, condecorou-a com a Medalha de Ouro da Cidade.

DIÁRIO DE LISBOA 31 de Julho de 1950


(1) O Concerto com a jovem discípula realizou-se no Teatro Rivoli em 4 de Maio de 1937 e não 1947 como é referido na notícia

(2) A sua residência foi na Rua da Alegria 665 e não 556

(3) Guilhermina Suggia nasceu em 27 de Junho de 1885 e não 1888

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novembro 18, 2004

A CONSAGRAÇÃO PÚBLICA DE GUILHERMINA SUGGIA, NO TEATRO RIVOLI

Resumidamente, relatámos já, a homenagem prestada, no Teatro Rivoli, a Guilhermina Suggia. E acentuámos que essa homenagem, a que se associaram, entusiasticamente, quantos escutavam, nessa noite, a iminente violoncelista, tivera, sobretudo pela vibração dos aplausos, verdadeiro carácter de apoteose.

Finda a primeira parte do concerto, um concerto que ficou memorável a comissão organizadora daquele acto de consagração, constituída por algumas das pessoas mais categorizadas dos nossos meios social, cultural e artístico e pelos três críticos musicais da Imprensa diária portuense, convidou Guilhermina Suggia a ir ao palco, acompanhada por seu marido, o sr.dr. Carteado Mena, pelo regente da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, Maestro Pedro de Freitas Branco, e por todos os elementos daquele conjunto instrumental que tão notavelmente colaborou no concerto de Guilhermina Suggia e no da sua discípula Maria Alice Ferreira.

Em cena aberta, com o palco repleto de admiradores da gloriosa Artista, muitos dos quais, a quase totalidade, de casaca e smoking, o sr.dr. Joaquim Costa, ilustre escritor e director da Biblioteca Municipal do Porto, pronunciou, em nome dos promotores daquela homenagem, um breve e brilhante discurso de satisfação à homenageada, afirmando, com emoção que Guilhermina Suggia estava a receber ali, o preito dos que viam nela uma das mais altas encarnações da música, em Portugal, na Europa e no Mundo, o sr.dr. Joaquim Costa – de cujo elogio nos foi possível tomar uma única nota, limitando-nos a apontar o significado dalgumas das suas frases que conservamos na memória – declarou quanto se sentia honrado com a representação que lhe fora confiada, representação, na verdade, do escol da gente portuense.

Depois de, uma vez mais, ter ouvido o divino violoncelo de Guilhermina Suggia, não encontrava as palavras que, rigorosamente pudessem traduzir o seu pensamento e o seu sentimento em vibração intensa. Aquela homenagem constituía um acto de justiça, afinal, porque o génio da artista era digno da consagração pública prestada pelos seus admiradores.

Fazendo o elogio vibrante de Guilhermina Suggia, o maior elogio a que um artista pode aspirar, o orador evocou a forte ancestralidade musical da homenageada, acentuando bem, que no seu sangue, em que o elemento italiano e o elemento espanhol se misturavam, era o elemento português que predominava e mais ardentemente vibrava na inconfundível personalidade da concertista.

Integralmente Artista, Guilhermina Suggia – disse – possui a par de uma cultura musical invulgar, uma invulgar cultura literária. Adorando os poetas, tem junto de si – e nos seus versos houve muitas vezes, o alimento da sua extraordinária, da sua requintada sensibilidade artística – os poemas firmados por alguns dos maiores nomes, nomes imortais da Poesia, como Dante, como o nosso imortal Camões.

Razão á para que os portugueses, e em especial os portuenses se orgulhem de ter Guilhermina Suggia por compatriota e conterrânea. É que o nome da Artista figura, de há muito tempo, nos cartazes dos concertos dos grandes centros civilizados. E, embora o apelido não seja português, sabe-se que ela é portuguesa, é nossa!

Vibrante, depois de ter emoldurado a figura artística de Guilhermina Suggia com expressões do mais elevado e entusiástico encómio:
-Abençoada a terra que gerou esta Artista, glória do Porto e de Portugal!

Palmas intensas e prolongadas secundam as palavras do ilustre homem de letras, que a homenageada agradece, emocionada, com o olhar.
Em seguida, o sr. Dr. Joaquim Costa convida a juvenil e prodigiosa aluna de Guilhermina Suggia, Maria Alice Ferreira, a descerrar a placa de homenagem à gloriosa concertista, colocada numa das paredes da plateia, perto do palco. A placa, muito simples, contém apenas o nome da homenageada.

Sob aplausos trovejantes, Maria Alice Ferreira, que, finda a primeira parte do concerto, havia ido ao palco entregar à sua professora, a quem beijou na face, a primeira corbelha de flores, formosíssima, oferecida naquela noite de apoteose, puxou, rodeada por algumas das pessoas, que do palco haviam descido à plateia, o pano que velava a lápide. Entretanto, no palco, entre as corbelhas, todas lindas, que lhe rodeavam o estrado, Guilhermina Suggia curvava o busto elegante, agradecendo os aplausos, a homenagem, a apoteose.
Depois, pedindo silêncio falou. Duas palavras simples, timbradas por uma emoção profunda. Nada fizera para aquilo. Aquela consagração injustificada ficava-lhe na alma. Naquele momento nada mais podendo dizer, afirmava a todos, a todo o público que a aplaudia, a sua sincera gratidão.
Novas palmas retumbantes. No palco, sumptuoso, fulgurante, na plateia, nas frisas, nos camarotes, nos balcões, na geral, só se viam mãos erguidas, batendo palmas.

Manuel dos Santos, o activo e estimado gerente do Teatro Rivoli, em nome deste, e, em particular, do seu conhecido director, sr. Manuel José Pires Fernandes leu o Auto de Homenagem, assim redigido:

“ Aos cinco dias do mês de Maio de 1937, pelas vinte e três horas, na Sala e Espectáculos do Teatro Rivoli desta cidade do Porto, achando-se presente a Comissão de Homenagem à excelsa artista portuense Guilhermina Suggia, composta por Mestre António Teixeira Lopes, drs. Carlos Ramos, Carlos de Passos, Aarão de Lacerda, Alberto Brochado, Joaquim Costa, Frazão Nazaret, Joaquim de Freitas Gonçalves, António de Pinto Machado, Delfim Ferreira, Maria Alice Ferreira (Riba de Ave), Francisco Manuel Fernandes Borges, conde da Covilhã, Máximo de Carvalho, Juliano Ribeiro, Hugo Rocha, Henrique de Castro Lopes, Mário de Figueiredo, Eduardo dos Santos (Edurisa), Ernesto Viriato dos Passos, Ferreira da Silva e Artur Barbosa, comigo Manuel dos Santos, gerente do Teatro Rivoli, como representante do director Manuel José Pires Fernandes, que, por motivo de falta de saúde, não pode comparecer, reuniu perante a numerosa e distinta assistência desta memorável noite artística, a Sessão de Homenagem para o descerramento da lápide comemorativa da passagem da insigne violoncelista por esta casa de espectáculos. E, para constar, se lavrou o presente Auto que depois de lido por mim em voz alta, vai ser assinado por todos que nele intervieram e pela digna assistência que, deste modo, deseje prestar o devido preito a tão alta glória nacional.”

A leitura do Auto de Homenagem, feita em voz pausada e nítida, provocou, como é óbvio, aplausos estrondosos. Depois, dezenas de assinaturas cobriram as páginas do album luxuoso que o continha.

Entre muitas outras pessoas de categoria, que nos recordamos de ter visto no palco, registamos, além daquelas que o Auto menciona, como componentes da Comissão de Homenagem, os nomes do Prof Luiz Costa, do maestro Afonso Valentim, etc.

O sr. Dr. António de Oliveira, distinto professor do Liceu Alexandre Herculano, compôs um vibrante soneto em homenagem a Guilhermina Suggia, de que reproduzimos o terceto final:

Ao Porto só, compete em Portugal
Gravar em tipo de oiro colossal
O nome fulgurante de SUGGIA !

Este soneto, impresso, foi distribuído no teatro e entregue, autografado, à homenageada.

No concerto de Guilhermina Suggia, foram oferecidos lindos e valiosos bouquets e corbelhas. Eis os nomes dos respectivos oferentes:
-Miss Muriel Tait, Mlles Maria Alice Ferreira e Maria de Lourdes Ferreira, D Ernestina da Silva Monteiro e irmãs, D. Filomena Nogueira de Oliveira, D. Fernanda Van Zeller, D. Madalena Costa, Miss Finister, D. Maria Fernanda Borges, D. Maria Adelaide Freitas Gonçalves e prof Joaquim Freitas Gonçalves, Mrs Danvers, D. Isaura Pinheiro de Brito, Mr e Mrs Alexander, Gardénia, Mrs Glennie Rawes, Albino Guimarães, um grupo de 52 discípulas de M.lles Carolina, Ernestina e Maria José da Silva Monteiro.
Madalena Moreira de Sá e Costa, aluna já consagrada de Guilhermina Suggia, mandou-lhe ao palco, também, uma corbelha encantadora.

O COMÉRCIO DO PORTO, 7/5/1937

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novembro 16, 2004

2ª APRESENTAÇÃO, CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL DO PORTO, DE GUILHERMINA SUGGIA E MALCOLM SARGENT

Mais um memorável evento artístico coube ontem a esta importante colectividade cultural, ao efectuar-se um segundo concerto sinfónico sob a direcção do dr. Malcolm Sargent e o concurso valiosíssimo de GUILHERMINA SUGGIA, que se anunciou para os associados da série B.

Compôs-se este novo programa da célebre “Water Musik” de Händel, versão Harty, de precioso efeito orquestral, fazendo-nos desejar que num 3º concerto pudesse ouvir-se com tão exemplar regência, a Suite irmã da “Water-Musik”, intitulada “Fire-Musik” e também de renome.
Opôs-se-lhe o admirável concerto para violoncelo de Elgar, o reputado autor da cantata “Rei Olavo”, do oratório “Gerontius” que lhe valeu o doutorado “Honoris Causa” de Cambridge em 1900, e da Sinfonia em mi bemol, considerada uma das melhores depois das de Beethoven.

GUILHERMINA SUGGIA, a intérprete excepcional da obra, pois só ela a fez triunfar, no país do autor... dá-lhe uma soberba concepção! O trecho em si, tem inspiradas variantes rítmicas, subtilezas de modulação, uma sábia maneira de orquestrar, doseando a famosa partitura com interesse constante para os “audientes”, e realçando sempre a intervenção frequente do solista.
Sinteticamente, é uma obra profunda de sentido e emoção, com uma grande nobreza, nunca desprezando, no desenvolver do trecho, a estética, nem a tornando complexa como tanta vez deparamos em produções modernas.
Todas estas qualidades se tornam ampliadas desmesuradamente no contacto da ideal intérprete.

Que palavras poderiamos nós encontrar para traduzir a expressão dada ao 2º andamento?! Toda a nossa mágoa e insatisfação próprias mais provam afinal, quanto, foi maravilhosa a realização.
Os ouvintes escutam cada nota religiosamente e irrompem no final com uma interminável ovação, da qual participa o grande chefe da orquestra Malcolm Sargent. Ecoam bravos num crescendo electrizante... o estrado de cada vez mais florido dá-nos por momentos a ilusão de que os geniais artistas ascenderam a um estrado etéreo, tanto realçam o poder da sua Arte!

Pertenceu à 2ª parte do programa a célebre obra de Boëllmann “ Variações Sinfónicas” e a tão genial violoncelista arca as suas dificuldades com entusiasmo triunfal, reflectindo-o as suas atitudes com impressionante eloquência.
No acompanhamento de profusos contratempos o maestro Sargent deu a agilidade própria, manejando a batuta com volteios de “flecha”.

Os aplausos voltaram a homenagear GUILHERMINA SUGGIA, o auditório ergueu-se, a aclamá-la, prolongando-a o mais possível, e a magna artista mais uma vez teve a consciência de quanto vale a emoção que nos transporta e tanto faz esquecer!
Com pesar tivemos de compreender que o tempo prossegue e não pode perpetuar-se o “encantamento”.

Escutámos a seguir a 3ª Sinfonia de Brahms com os seus inúmeros episódios de transcendental beleza, principalmente no 1º e último andamentos, sempre nos Allegros, em que a energia se expande até à eclosão vitoriosa. Bem a propósito foi incluída esta Sinfonia de Brahms, pois era justamente o que Elgar citava como ponto culminante na literatura musical!
O último número do programa foi a abertura “ Cockaigne” de Elgar (de cockney – dialecto londrino) obra descritiva, bem pensada e com uma riqueza melódica deveras comunicativa, a par da bravura que arrebata porque é forte de inspiração. O grande regente teve o triunfo merecido e toda a orquestra participou da ovação. Dos aplausos da noite, grande parte foi-lhe também tributada com plena justiça.

Vieram expressamente assistir às memoráveis audições o ilustre presidente do Círculo de Cultura Musical de Lisboa e o sr Prof Varela Cid.

B. A. de S.

1º de JANEIRO- 29 de Janeiro de 1943

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novembro 10, 2004

G.SUGGIA e MALCOLM SARGENT - CIRCULO DE CULTURA MUSICAL DO PORTO

Duas sumidades, que as glórias da música repercutem largamente, e cuja história de incandescentes triunfos, nos aponta os grandes privilégios do destino...uniram as suas Artes no 3º Concerto promovido pelo Círculo de Cultura Musical do Porto, que ontem à noite se solenizou no habitual Teatro Rivoli.

O majestoso e amplo recinto de espectáculos tornou-se restrito para conter todos aqueles que, movidos pela ânsia da forte emoção, que sempre provoca o aproximar dos entes extraordinários, se comprimiam, no intento de testemunhar tão grandioso acto! A figura esguia e nervosa do famoso maestro inglês surgiu em frente à Orquestra da Emissora Nacional, e desde logo o seu poder magnético se transmitiu sobre toda a massa instrumental e sobre o imenso auditório.

Malcolm Sargent, o célebre virtuoso da batuta, iniciara seu comando... e vitoriosamente soaram os primeiros acordes da “Sinfonia Londrina” de J. Ireland, obra modelar de estrutura e efeitos sonoros.
O inspirado maestro gesticula com distinção, verdadeiramente à maneira inglesa, porém seus nervos de artista, para o qual a centelha divina da Arte tudo faz adivinhar e sentir, impõe-se ao menor gesto que esboça, e seu olhar projecta mil estados de alma em apoteose, que com a maior maleabilidade se executam.
Assim ouvimos sob este domínio e primor de entendimento a peça inicial, e “Ouvindo o primeiro Cuco na Primavera” de Delius, composição de notável poesia e subtileza imaginativa.

Após umas pausas entra em cena GUILHERMINA SUGGIA, a sublime artista que colhe loiros com a mesma facilidade com que certamente colhe qualquer flor dum jardim! – Mais uma vez nos deu essa impressão ao prender a si o violoncelo, e incutindo-lhe tal vibração que ele canta extasiado e apaixonado todo o tempo que ela o quiser reter.
Ouvimo-la tocar o concerto de Dvorak, cujo tema heróico, inicial, se manifesta como uma ode à vida, à vitória e à Pátria que ele tanto amou, como Smetana, por sua vez, defendeu a música do seu país.
Colossal interpretação da grande solista...que numa ânsia crescente dialogava com a orquestra.
Na nostálgica frase do Adágio, ou no motivo marcial do 3º Andamento, por toda a obra, afinal inflamava-se o ardor, os sentimentos mais comovedores que num instrumento de arco se possa comunicar! No rosto tão expressivo da egrégia concertista perpassou tudo o que a alma criou.
Diremos também que o excelso maestro a acompanhou na intenção superiormente!

Palmas sem fim, ecoaram na sala, e quanta vez GUILHERMINA SUGGIA, teve de voltar à cena. Era só ainda o fim da primeira parte e uma fila de variadas cores de “bouquets” e corbelhas cercou a extraordinária “virtuose”.

Na segunda parte escutamos o concerto de Saint-Saëns, espirituoso e lucilante.
A graça expande-se por toda a partitura – e não compreendo como pode haver quem a ache inferior a outras...pois que o contraste que ela forma, é justamente o seu maior encanto; e desde que GUILHERMINA SUGGIA a interpreta, ela torna-se invulnerável.
Aclamações entusiásticas, delirantes reclamavam a artista que ao retirar-se do palco, levava consigo o arrebatamento e a fascinação de quantas almas a compreenderam. Diríamos quase uma luta insistente...querendo o público dominá-la por sua vez. Ilusão porém: GUILHERMINA SUGGIA não voltou com seu instrumento e no silêncio que se fez sentimos que só a sua ausência o provocara, desolado, como uma luz que ao sumir-se mais densas torna as trevas!

Continuou o concerto com mais uma obra do paisagista Delius “ O Jardim do Paraíso”, e por último, o bailado fantástico de Holst “ O Doido Varrido”. Obra interessantíssima e impressionante de ritmo e contrastes, lembrando-nos tecnicamente Falla.
O maestro obteve no final a mais eloquente manifestação do auditório, merecendo muito especial menção a grande Orquestra da Emissora Nacional, que tão brilhantemente cumpriu o seu dever.

Logo à noite, realizar-se-á o segundo concerto sinfónico, sob a direcção de Malcolm Sargent e o concurso de GUILHERMINA SUGGIA, em que se ouvirá entre outras obras o famoso concerto de Elgar e a 3ª Sinfonia de Brahms.

B. A. de S.

1º de JANEIRO, 28 de Janeiro de 1943

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novembro 05, 2004

CRÍTICA A CONCERTO COM MARIA ALICE FERREIRA NO TEATRO RIVOLI, EM 4 DE MAIO de 1937

Uma noite de vibrante arte, decorrida em ambiente de palpitante interesse, a de ontem, no Teatro Rivoli, para audição da grande Orquestra Sinfónica da E.N. com a colaboração de uma nova e insinuante figura de artista, M.elle Maria Alice Ferreira.

A abrir o concerto, o conjunto orquestral executou essa vulgarizada abertura de Wagner – Rienzi – em que, num apreciável equilíbrio de naipes, evidenciou ampla sonoridade. Pedro de Freitas Branco conduziu essa harmoniosa composição com vigor.
A seguir – o atractivo da noite – a apresentação pela primeira vez em público, como concertista, de M.elle Maria Alice Ferreira, que actuou com os professores da orquestra.
Figura insinuante, consciente da sua personalidade, M.elle Maria Alice Ferreira tem uma apresentação distinta, enfrentando o público – a vasta sala do Rivoli estava cheia! – com toda a serenidade, com a tranquilidade que só se adquire ao longo de um largo treino artístico.
A peça de concerto que lhe coube foi o “Concerto, em ré menor” de Edouard Lalo – composição eriçada de dificuldade de interpretação. A jovem concertista – quinze anos floridos de graciosidade e inteligência – demonstrou logo, no prelúdio, a sua forma primorosa de tocar. Magnífica posição, atitude levemente decorativa e uma expressão nítida de quem vibra com as harmonias musicais. Arcada elegante, larga, simultaneamente rigorosa e delicada, arrancando o som com leveza e agilidade.
O “intermezzo” e os três andamentos do “final” foram executados com segurança, brilho e vivacidade.
Estava submetida ao juízo do público – assistência de “escol” – a jovem artista, que logo firmara, num domínio absoluto, os seus créditos, conquistando, sem favor, os aplausos, que foram demorados e carinhosos.
A segunda parte do programa coube à distinta concertista e a sua irmã M.elle Maria de Lourdes Ferreira, que a acompanhou ao piano.
Dotada de uma memória invulgar – executou todas as obras a seu cargo sem partitura – M.elle Maria Alice Ferreira, interpretou um trecho da ópera “Orfeu” de Gluck, com magnífico som. O mimoso “Rondo” de Boccherini foi realçado com nuances de efeito. “Aprés un rêve” de Fauré, demonstrou colorido e sugestiva poesia. O trecho de David Popper, “Spinnlied”, no movimento da sua composição, extraordinária agilidade na concertista. Muitos aplausos coroaram a segunda parte do programa, de tal forma que, M.elle Maria Alice Ferreira teve de executar em extra, novo trecho.
A abrir a terceira parte do programa o maestro Pedro de Freitas Branco, anunciou que a orquestra, grata ao público do Porto pelo seu carinhoso acolhimento, ia executar “As danças do Príncipe Igor”.
De facto, essa exuberante página, rica de efeitos, de Borodine, foi realçada pela orquestra brilhantemente.
Novamente M.elle Maria Alice Ferreira, com a colaboração da orquestra, em boa unidade, e sob a direcção de Pedro de Freitas Branco, atacou o “Allegro Apassionato” de Saint-Saëns. A jovem concertista acentuou a sua técnica num domínio invulgar, raro, sobretudo na sua idade. Empolgou, especialmente a assistência na execução de “Kol Nidrei” do compositor alemão Max Bruch. Evidenciou colorido e aliciante emoção. A célebre “Tarantelle” de Popper, obteve na arcada da concertista um apreciável relevo. Em extra, e para corresponder aos aplausos, a distinta artista fez-se ouvir na “Vespa” – composição do reportório das grandes violoncelistas – com toda a propriedade e realce de efeitos.
Uma grande noite para o público e para M.elle Maria Alice Ferreira que constituiu uma revelação, afirmando-se uma violoncelista de estilo, com personalidade, qualidades excepcionais da concertista em todas as suas modalidades. Magnífica, aplaudível, iniciativa a da sua apresentação em público que documentou com um valor incontestável na arte musical portuguesa. Registamos o acontecimento com satisfação. Foi muito aplaudida, aplausos de que compartilhou a sua professora, a grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA que, de um camarote, assistiu orgulhosa da sua obra, ao concerto.
M.elle Maria Alice Ferreira foi brindada com dezenas de “corbeilles” de preciosas flores e muito cumprimentada.
O maestro Pedro de Freitas Branco e os professores que o acompanharam foram distinguidos, também, com demorados aplausos.
A sala estava cheia, vendo-se nas várias lotações do teatro pessoas de representação social no nosso meio, a maior parte das quais em traje de concerto. O aspecto da sala produzia vistoso efeito. – M.F.

Hoje, às 21, 45, realiza-se o segundo e último concerto da Orquestra da Emissora Nacional, em que toma parte, numa preciosa colaboração, a grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA.
O nome prestigioso desta artista é garantia suficiente de interesse para o “escol” da sociedade portuense.

1º de JANEIRO- 5/5/1937

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outubro 26, 2004

CRÓNICA MUSICAL - O COMÉRCIO DO PORTO 14/5/1937

Im wunderschõnen Monat Mai — No Rivoli: uma apresentação e uma apoteose — Recordando noites de beleza — Discípula e Mestra — De novo Freitas Branco e a sua Orquestra
—- Maria Alice Ferreira — A sua aparição — Uma noite que é uma alvorada — Guilhermina Suggia — Momentos eternos
— A Artista, o seu génio e a multidão — A maior e mais
bela das lápides comemorativas

Nos primeiros dias de Maio – “im wunderschönen Monat Mai” como nos disse o grande poeta do Intermezzo – deram-se nesta cidade dois acontecimentos musicais, que não devem passar sem referência nestas crónicas: uma apresentação e uma apoteose.
A apresentação, que era para muitos uma promessa, volveu-se para todos em certeza. Enchera-se de ouvintes o mais vasto Teatro do Porto, o Rivoli. Para lá convergiram, no começo da noite de 4, centenas e centenas de pessoas. De tudo devia haver nessa multidão heterogénea, que quase às ondas, ia enchendo a sala: curiosos, incrédulos e crentes.
Entretanto, fora, continuavam a rodar os automóveis, que depois se espraiavam, tomando posição nas imediações do Teatro. A Grande Orquestra da Emissora Nacional, que dias antes nos deslumbrara, abre com o “Rienzi”, um prólogo entusiástico a essa noite de arte.
Freitas Branco é aclamado à frente da sua esplêndida “cohorte” A sala tem já uma disposição magnífica. A Atenção redobra de intensidade.
Sente-se que passa no ar uma convergência simultânea de olhares e de espíritos. Nisto a orquestra levanta-se e abre caminho a uma alvura que se adianta até ao lugar que lhe é destinado.
Projectando-se no fundo preto dos fatos dos instrumentistas, lembra qualquer coisa de matinal, um sorriso de luz. Era a concertista dessa noite, Maria Alice Ferreira. O público recebe-a “fidalgamente”. As palmas, em aclamação, sucedem-se aos números do programa, cumprido rigorosamente.
A concertista - assim devemos chamar-lhe, atenta a importância da prova a que se submete – põe em evidência a indubitável qualidade de mérito que lhe dão todo o direito às honras duma plateia culta e justa.
Qualidade e quantidade de som, afinação, segurança, largueza de arcada e inteligência de fraseio, o que, tudo junto, dá esta soma – o talento. Será isto dizer que tem tudo feito?
Não. A sua própria inteligência lhe dirá que pôs pé firme no começo duma carreira que vai a subir.
Mal iria o artista que se supusesse ter atingido definitivamente o seu alvo: teria assistido ao seu próprio fim.
A vida alimenta-se de sonho; e a arte, que é a sua intérprete fiel, não pode deixar de sonhar também, ascendendo sempre de aspiração em aspiração. Foi muito, foi muitíssimo o que fez nessa noite; mas agora olhar ao alto.
Possa o eco das aclamações ferventes, que ouviu, e o perfume das flores inúmeras que recebeu transformar-se num estímulo cada vez mais vivo e apontar-lhe sempre a estrada radiosa, mas difícil, aberta às suas privilegiadas qualidades e por onde a conduz a mão segura da sua gloriosíssima e inigualável Mestra.

Nos acompanhamentos, é de justiça registar o quinhão de elogio que cabe à orquestra e à pianista Maria de Lourdes Ferreira, gentilíssima irmã da concertista, pelo talento com que os realizaram. Noite admirável, que nos fica simbolicamente a rescender a flores! Noite de Primavera e Primavera da Alma!


E agora Suggia ! Será possível, porventura, exprimir, comunicar por palavras pautadas e sujeitas a regras estabelecidas, toda essa desordem íntima, toda essa alucinação de visionar mundos, todo esse dinamismo irresistível, que, minuto a minuto nos convulsionava fundamente até às origens do nosso ser? Não: Traços largos. Uma estátua...quando destinada à luz forte do dia, deve ser rebatida em planos incisivos e grandes.
Nessa. noite, Suggia afigurava-se-me uma nobre visão da estatuária antiga. Não uma figura de hoje, mas, superior ao tempo, de todos os tempos — uma encarnação misteriosa do que há de eterno na vida. Trajando de preto, teve, a meu ver, uma ideia felicíssima. O vestido dava-lhe um hieratismo, ao mesmo tempo, solene e estranho.

Intérprete poderosa da alma humana, ela realizava perturbadoramente a protagonista do drama intenso da vida, tão cheio e alternado de êxtases e de angústias !
Pesa na sala um silêncio concentrado, absorvente, depois das palmas vibrantes que a saudaram.
Aguarda-se com ânsia a primeira arcada. Ei-la! E a atmosfera carrega-se de electricidade que, de quando em quando, à medida que a audição prossegue, reboa em descargas atroadoras. Sucedem-se o sábio Tartini, Sammartini, Dvorak... Paremos...

Se tudo na noite foi grande, o Concerto de Dvorak deve, no entanto destacar-se pela vastidão da obra e pelas culminâncias atingidas pela artista. Nos seus três tempos, esta composição dá-nos um trítico empolgante, em que passam todas as emoções, desde o lirismo simples ou amoroso às fremências épicas dum apelo de levante..
Há passagens que não se ouvem sem um calafrio na espinha dorsal. A artista domina-nos absolutamente: tem-nos nas mãos. À Orquestra secunda-a à altura das suas responsabilidades, sob a batuta sugestiva de Pedro de Freitas Branco.
Depois disto que dizer? Não façamos enumerações.

Fiquemo-nos a escutar, a escutar ainda e sempre os ecos que guardaremos na alma. O concerto decorre num crescendo formidável.
De arte? Não seria possível! Por tão alto pairava a eminentíssima artista!
Mas de arrebatamento. Esgotado o programa, há extras. E, ouvidos os extras, há gritos, bravos, palmas, num esquecimento, num desprezo magnífico da hora que avança!

Tinha porém de findar o encantamento. E findou? Não. Saímos. Lá dentro ficou uma lápide marcando a oiro, a noite que passava.
Mas a verdadeira lápide comemorativa inscreveu-a a artista insigníssima, a golpes de génio, na lembrança imperecível da multidão imensa que, de pé e olhos marejados, arremessava aos pés de SUGGIA, a sua alma agradecida e louca de comoção.

PORTO, 13/V/1937

(O COMÉRCIO DO PORTO 14/5/37)

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outubro 25, 2004

CONCERTO DE APRESENTAÇÃO DA VIOLONCELISTA MARIA ALICE FERREIRA

Quem é esta Maria Alice Ferreira? – perguntava-se ontem, à noite, antes do concerto, nas salas, nos vestíbulos, nos corredores do Teatro Rivoli. E depois do Concerto, quando os quase 2 milhares que a tinham ouvido, deixavam os seus lugares, já não se perguntava: Quem é esta Maria Alice Ferreira? Já não se murmurava com ar de argumento que tudo justificava e explicava: “ Dizem que é filha do grande industrial Delfim Ferreira! Exclamava-se, assombrosamente, encantadoramente: “ É UMA GRANDE ARTISTA!”

Esta frase sintética, expressiva, lapidar, colhida em muitas centenas de bocas, em tantas bocas, por certo, quantas as pessoas que haviam assistido ao concerto, serve para aferir, grosso modo, a impressão do público.

Desconhecido, poucas horas antes (ou conhecido, apenas através das referências e dos anúncios nos jornais), o nome de Maria Alice Ferreira conquistara, efectuado o concerto, a celebridade a que todos os artistas, legitimamente aspiram e que só excepcionais circunstâncias lhes permitem, a maior parte das vezes, obter.

O grande e ilustre nome de Guilhermina Suggia, que havia naturalmente servido de reforço para a curiosidade dos musicólogos, saíra, na verdade, mais prestigiado ainda.
Da audição. A discípula em tudo e por tudo era digna da mestra. À coroa de glória desta somava-se, com o triunfo indiscutível daquela, mais um belíssimo florão. Note-se porém que esse triunfo indiscutível é principalmente, obra de Maria Alice Ferreira, da sua extraordinária personalidade artística, das suas qualidades assombrosas e concertista. A Mestra poliu, afeiçoou, integrou nos cânones da arte-ciência o temperamento de uma artista nata, que é, já, grande e será maior se porfiar, rumo ao futuro de glória que, desde ontem, ficou aberto diante dela. A mesma discípula metodizou, deu o inconfundível retoque a esse temperamento de excepção. E o resultado patenteou-se, ontem, de modo impressionante, a um público enorme e entusiasmado que, interrogando-se, duvidando talvez a princípio, encontrou a resposta mais rigorosa e se certificou, em absoluto, finda a audição, reconhecendo e proclamando, entre si, esse reconhecimento: “ Esta Maria Alice Ferreira, afinal, é uma grande artista!

Consola verificar, nestes tempos que não vão muito — diz-se e é, relativamente, certo — para as superiores manifestações do espírito, em geral. e da arte, em particular, que o público portuense sabe ainda, quando confia na qualidade dos artistas que vai ouvir ou ver, corresponder às iniciativas arrojadas.

O concerto de ontem e o de hoje podem ser considerados de muitos pontos de vista iniciativas arrojadas — e, também, meritórias. Trazer ao Porto pela segunda vez, nesta época, um conjunto instrumental da categoria da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional e apresentar uma instrumentista da categoria de Guilhermina Suggia não representam, decerto empreendimento fácil. Razão, pois, para que louvemos os organizadores destes dois concertos que se inserem no panorama musical da capital do Norte como eventos de importância excepcional.
• • •
O Teatro Rivoli. já consagrado como recinto de concertos, que determinem afluência de grande público encheu-se. Da plateia à geral, toda a gente de algo da cidade — e de fora da cidade. As figuras mais categorizadas em todos os sectores da sociedade portuense. Dos meios artístico e cultural uma representação considerável. Toda a aristocracia da música. Numa frisa, acompanhando, com legítima ansiedade — mas também, com a segurança de quem confia em quem. sob a sua égide, se apresenta — Guilhermina Suggia. Todo o Porto do escol no “Rivoli” em suma. Ambiente de récita de gala. Muitas senhoras com vestidos sumptuosos e elegantíssimos. Casacas e smokings, dando ao vasto recinto aquele aspecto de bom gosto e de distinção que – diga-se a verdade – não é frequente nos nossos concertos e nos nossos espectáculos, mesmo quando são oficialmente de gala.

Às 22 horas, com todo o conjunto instrumental instalado, Pedro de Freitas Branco entra no palco. Afectuosamente, admirativamente, o público saúda-o com palmas. E o eminente Maestro, cujo triunfo, nos dois concertos recentes, foi tão notável, empunha a batuta. Faz-se absoluto silêncio. O concerto principia.

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A abertura de Rienzi, a cargo da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, provocou, como era de esperar, dadas as condições de agrado do empolgante trecho da obra perenal de Wagner, intensos aplausos. O concerto começara, auspiciosamente. Na sala. ampla, de linhas sóbrias e imponentes, ao mesmo tempo, a temperatura do interesse pela audição subia, a olhos vistos.
Um breve intervalo. E. gentilíssima, sorrindo, sem aquele enleio que perturba, muitas vezes, os concertistas — e, sobretudo os concertistas femininos — mais experimentados e mais atentos aos grandes auditórios, Maria Alice Ferreira, com o seu violoncelo, sobe ao estrado, um estrado que sugere um trono... Veste de branco. É como uma nuvem de arminho. As palmas crepitam, por todo o recinto. Uma entrada verdadeiramente triunfal.
Pressente-se a curiosidade geral. Volta o silêncio. E o braço ondulante da violoncelista desenha a primeira arcada.
O Concerto em ré menor de Lalo, obra de grande classe, é o primeiro número para violoncelo e orquestra. Quando as ultimas notas do Prelude vibraram, o auditório manifestou-se. entusiasticamente, aplaudindo a concertista, 15 anos que esplendem, precocemente, transformando em mulher quem é quase criança pela idade.
Depois, o Intermezzo e o final. E o alento da violoncelista, se não encontrara, ainda, o género em que pudesse expandir-se, manifesta-se, exuberantemente, nas três partes da obra admirável do mestre glorioso do Roi d'Ys. Ao findar o Concerto, os aplausos estrondearam, com maior intensidade. A juvenil Maria Alice recebia palmas de admiração pelo seu talento de executante e intérprete e de carinho peta sua figura encantadora.
Na segunda parte, consagrada, exclusivamente, a Maria Alice Ferreira, acompanhada por sua própria irmã, Maria de Lourdes Ferreira, pianista de muito merecimento, firme e expressiva na difícil missão de acompanhar, pudemos avaliar melhor, porventura, as qualidades da violoncelista estreante.
A formosa Ária do Orfeu, de Gluck. o conhecido Rondo, de Boccherini, o admirado Aprés un rêve, de Fauré. e esse graciosíssimo Spinnlied, de Popper, permitiram observar, em todas as suas facetas, as faculdades artísticas da concertista. O vigor dramático da página de Gluck e a elegância palaciana da página de Boccherini. o romantismo perturbador da peçazinha de Fauré e a graça descritiva, perfeito desenho de lindos arabescos que é a obrazinha requintadamente violoncelística de Popper foram expressos, por Maria Alice Ferreira, de modo a justificar o entusiasmo ruidoso do auditório. Se tudo, igualmente. nos agradou, queremos destacar o ultimo numero da segunda parte, apresentado, impecavelmente, encantadoramente, pela concertista.
Fora do programa, correspondendo aos aplauso; vibrantissimos com que o
publico premiava a audição. Maria Alice Ferreira brindou os seus ouvintes
com a castíza. e conhecida Jóta de Manuel de Falla.
• • •
Tocada a peçazinha de Popper, foram depostas no palco, enchendo todo o proscénio, dezenas — dezenas! note-se bem — de lindíssimas corbelhas com flores naturais. No meio delas emergindo como uma grande camélia vaporosa, o busto da homenageada sobressaía mais. Os aplausos transcenderam, então, a apoteose.

Chamada, insistentemente, de todos os sectores do recinto enorme Guilhermina Suggia, que tinha a seu lado seu marido, o sr. dr. Carteado Mena, Mestre Teixeira Lopes e miss Tait, ergueu--se para agradecer, E agradeceu, — via-o quem a olhava — emocionada. Os aplausos, palmas fortes, que pareciam reforçar à medida que a discípula e a professora as agradeciam, envolviam, por igual, Maria Alice Ferreira e Guilhermina Suggia. O triunfo que se assim se assinalava era, também, para quem, com as suas lições, havia preparado a concertista daquela noite memorável
Maria de Lourdes Ferreira, modestíssima, esquivando-se aos aplausos, teve, também, o merecido quinhão do agrado do publico. É uma pianista com qualidades para brilhar.

A abrir a terceira parte, Pedro de Freitas Branco, comparticipa, também, naquele êxito grandioso, anunciou que, para se associar, mais ainda, ao significado daquela festa inesquecível, a Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional ia tocar as Danças guerreiras do príncipe Igor, de Borodine. E, maravilhosamente, o seu grande conjunto instrumental tocou o trecho famoso do compositor russo, conquistando, também, aplausos trovejantes. Decididamente, o entusiasmo contagiara todo o auditório.

Em seguida, acompanhada pela orquestra. Maria Alice Ferreira fez-se ouvir, sucessivamente, no delicioso Allegro apassionato, de Saint-Saëns, no religioso Kol Nidrei, de Max Bruch, e na movimentada Tarantella, de Popper. Senhora absoluta de si. dominando-se e dominando o Instrumento. Maria Alice Ferreira terminou o seu concerto, não cessando de encantar quantos a escutavam. Todos os números da terceira e ultima parte do programa foram aplaudidos com extraordinária vibração. O último, porém, valeu-lhe uma ovação formidável»
Gentil para com quem lhe manifestava tão positivo agrado, a juvenil violoncelista tocou, ainda, acompanhada pela Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, "A abelha", de Schubert, obrazinha interessantíssima, que o auditório aplaudiu, também, entusiasticamente.
Fraseando e dizendo de modo que aponta a verdadeira artista. Maria Alice Ferreira afirmou-se executante e intérprete admirável de todos os autores com que se apresentou no seu concerto te estreia. A sua musicalidade evidencia-se logo aos primeiros compassos. O som que arranca do violoncelo é volumoso. Com os anos adquirirá, sem dúvida, maior vigor ainda. Tal como está, tal como se apresentou, é — não receamos asseverá-lo — uma artista digna dos aplausos invulgares com que, ontem, foi distinguida. Os aplausos do publico são, também, os nossos. É com orgulho, legítimo orgulho, que vemos surgir, na nossa terra, já bem fadada para a música, uma artista como Maria Alice Ferreira. Junto dos nomes portuenses já coroados pelo prestígio, o desta novel instrumentista ficou, desde ontem, indelevelmente, assinalado.

Pedro de Freitas Branco, o eminente director da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, muito contribuiu, também, para a beleza e para a grandeza do espectáculo de ontem. À frente do seu admirável agrupamento, onde estão alguns doa melhores músicos de orquestra portugueses, foi tanto nos dois números a seu cargo como nos de acompanhamento, o maestro que tão admirado e aplaudido é. Mereceu bem as palmas fortíssimas com que o auditório o quis, prestando justiça, premiar.
No seu camarim, recheado de flores lindíssimas e lindíssimas prendas, Maria Alice Ferreira foi, nos intervalos e no fim da audição, cumprimentada e felicitada por centenas de pessoas que a haviam escutado e aplaudido.
A sua estreia caracterizou-se por um cunho inusitado de grandiosidade.
Para o público em geral foi uma radiosa surpresa.
Para nós — queremos acentuar — foi, na verdade, uma consoladora confirmação de valores.

O COMÉRCIO DO PORTO, 5/5/1937

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outubro 15, 2004

CRÍTICA AO CONCERTO DE ZARA NELSOVA NO S. CARLOS

SOCIEDADE DE CONCERTOS DE LISBOA
Abrindo uma nova folha do seu já volumoso livro de ouro, a Sociedade de Concertos apresentou uma artista em começo de carreira, mas precedida de uma forma que longos anos de trabalho muitas vezes não logram atingir. A violoncelista Zara Nelsova tem para nós, portugueses, um significado muito especial, porque a divulgação do seu nome, em tão pouco tempo, se deveu em parte aquela extraordinária capacidade de admiração que caracterizava a nossa saudosa Guilhermina Suggia e não menos ao prestígio de que a insigne concertista gozava no estrangeiro. Foi nem jeito de homenagem à memória de Suggia que Zara Nelsova preferiu Portugal a outros países europeus, nesta primeira “tournée” pelo continente.

O interesse que as circunstâncias suscitavam aumentou quando soubemos o programa proposto.
O vulgar, num artista-virtuoso, é a limitação ao reportório que lhe dá maior evidência.
Zara Nelsova não quis negar ao público uma demonstração indiscutível das suas possibilidades técnicas e assim, começou pelo “Concerto” de Schumann, bem uma peça para solista e acompanhamento. Mas artista séria e inteligente, Zara Nelsona procurou um outro carácter para a sua segunda contribuição, salvando o equilíbrio do programa, tantas vezes comprometido pelo individualismo dos executantes. O “D.Quixote” é essencialmente um poema para orquestra, em que o violoncelo desempenha um papel apenas mais importante do que os outros instrumentos, nomeadamente a viola.
Tanto em Schumann como em Strauss Nelsova marcou uma forte personalidade artística, modularmente séria e, ao mesmo tempo generosa em rasgos de expressão nunca inconveniente à própria natureza da música.
A afinação é impecável nas passagens mais transcendentes como nas elementares. Uma qualidade que nos faz recordar a sua grande admiradora portuguesa, cujo entusiasmo comunicativo não pôde, infelizmente, manifestar-se ontem como em tantas noites de boa música no S. Carlos, é a perfeita incisão rítmica, que, só por si, torna a execução de Nelsova qualquer coisa de vivo e lhe dá a mais sólida base musical.
A assistência soube corresponder à categoria da concertista. Os aplausos e chamadas obrigaram Nelsova a vir inúmeras vezes ao proscénio.
À Orquestra Sinfónica Nacional e ao seu director, Pedro de Freitas Branco, são devidas palavras de elogio pelas realizações das aberturas “Carnaval Romano” e “Rienzi”, do “Adagietto” de Mahler, do acompanhamento do “Concerto” de Schumann, sobretudo pela felicidade com que venceram as mais incontáveis dificuldades da partitura de Strauss, sem esquecer os solos de viola por Albertina Freire.
Está de parabéns a Sociedade de Concertos de Lisboa pelo excelente início de temporada. J.F.B.

O Século, 23/11/1950

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outubro 14, 2004

ZARA NELSOVA HOJE NO S. CARLOS (22/11/50)

A violoncelista Zara Nelsova apresenta-se hoje em S. Carlos.
A Sociedade de Concertos de Lisboa inaugura hoje a temporada com a apresentação de uma artista de fama internacional, considerada uma das melhores violoncelistas da actualidade.
Quando Guilhermina Suggia ouviu pela primeira vez a jovem Zara Nelsova, em Londres, quis, imediatamente conhecê-la, para lhe exprimir todo o seu entusiasmo por tão extraordinários dotes de intérprete e executante. E foi a grande artista portuguesa quem projectou a vinda ao nosso país de Zara Nelsova, projecto que, infelizmente, já não viu realizado.

Do seu extenso reportório, que inclui não só a literatura clássica e romântica do violoncelo, mas também muitas obras de autores modernos, como Hindemith, Martinu e Samuel Barber, Zara Nelsova escolheu para o concerto de hoje, às 21, 45, em S. Carlos, o “Concerto” de Schumann, e o poema sinfónico “D.Quixote” de Richard Strauss. Será acompanhada pela Orquestra Sinfónica Nacional, dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco, que interpretará também, a abertura “Carnaval Romano” de Berlioz, o “Adagietto” de Mahler e a abertura de “Rienzi” de Wagner

O século, 22/11/1950

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outubro 13, 2004

ZARA NELSOVA TOCA EM S. CARLOS

ZARA NELSOVA – A Sociedade de Concertos de Lisboa conseguiu obter, para inauguração da época, a vinda de uma artista de extraordinária categoria, que se estreia depois de amanhã no S. Carlos.
Zara Nelsova é uma violoncelista de técnica perfeita, que sabe interpretar com expressão indizível a música dos grandes mestres.

Do reportório do seu instrumento, Zara Nelsova escolheu duas obras das mais difíceis, mas que são também das que mais intimamente se casam com o seu temperamento romântico: “O Concerto em Lá menor” de Schumann, e o poema sinfónico “D. Quixote” de Strauss.
A orquestra Sinfónica Nacional terá a direcção do maestro Pedro de Freitas Branco que, além dos importantes acompanhamentos, interpretará a abertura de “O Carnaval Romano”, de Berlioz, o “Adagietto” de Mahler e a abertura do “Rienzi” de Wagner.
As assinaturas para os lugares ainda disponíveis efectuam-se amanhã.

O SÉCULO, 20/11/1950

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outubro 07, 2004

VINTE E SEIS ANOS DEPOIS O PORTO HOMENAGEIA GUILHERMINA SUGGIA


Pela primeira vez, 26 anos depois, o Porto, por iniciativa de César de Morais, presta homenagem àquela que críticas de todo o Mundo consideraram, a par de Pablo Casals, a maior violoncelista mundial – GUILHERMINA SUGGIA.
Patrocinado pela Câmara Municipal do Porto e em colaboração com a Orquestra Sinfónica do Porto, o concerto que se realiza amanhã, no Teatro Rivoli, pelas 21horas e 30, é inteiramente dedicado à artista portuense galardoada com a Medalha de Ouro da Cidade, comenda de Sant’iago e Grande Oficialato da Ordem de Cristo.

Para a homenagem póstuma, César de Morais compôs o “Concerto para violoncelo e Orquestra” prestando-se a interpretá-lo em primeira audição mundial o violoncelista Michel Marchésini, solista da Ópera de Paris, 1º Prémio do Conservatório de Paris, solista e concertista consagrado em recitais e concertos em toda a Europa, solista da Ópera de Nice e Cavaleiro da Legião de Honra.
Completam o programa a abertura sinfónica de Sousa Carvalho “Eumene” e, na segunda parte a 5ª Sinfonia de Beethoven, regidos pelo maestro Gunther Arglebe.
Os bilhetes para o acontecimento são vendidos na bilheteira do teatro, ao preço popular e único de 20$00.
Sem, contudo, necessitar de apresentação, GUILHERMINA SUGGIA, nasceu no Porto a 27 de Junho de 1888 (1), entrando com 13 anos para o Quarteto de Câmara do Orpheon Portuense (2) . Estudando primeiro com o pai, o professor Augusto Suggia, e mais tarde com Klengel, GUILHERMINA SUGGIA obteve um êxito apoteótico, aos 16 anos nos concertos de Gewandhaus dirigidos por Artur Nikisch, iniciando, então a sua carreira com concertos na Alemanha, França, Inglaterra, Holanda, Rússia, Polónia, Suiça, Itália, Bélgica, Escandinávia, Espanha, etc.
Divorciada de Pablo Casals, volta a Portugal, onde fixa residência no Porto (3) dedicando-se a audições de carácter cultural e beneficente a favor de instituições congéneres ou em benefício de estudantes pobres. Sob a regência de Malcolm Sargent, é convidada a tocar no Albert Hall, em benefício dos músicos desempregados, a que assiste a família Real. Doente, é operada em Londres e regressa a sua casa no Porto, onde faleceu no dia 30 de Julho de 1950. No testamento dispôs do seu Stradivarius avaliado em 10.000 libras, para que fosse vendido e o seu produto aplicado na Royal Academy of Music, para instituição de um prémio anual ao melhor aluno de violoncelo. Os outros dois instrumentos que possuía legou-os aos conservatórios de música de Lisboa e Porto, para serem vendidos e instituídos prémios idênticos(4).

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 2 de Setembro de 1976
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(1) - G.S. nasceu a 27 de Junho de 1885
(2) - Quarteto Moreira de Sá
(3) – Quando termina a relação com Pablo Casals, Guilhermina Suggia não regressa a Portugal. Vive uns tempos em casa de sua irmã, Virgínia Suggia, em França e nos inícios de 1914 fixa residência em Inglaterra
(4) – G.S. deixa em testamento o seu violoncelo MONTAGNANA à Câmara Municipal do Porto (entidade de quem dependia na altura o Conservatório de Música) para ser vendido e com o produto dessa venda ser atribuído um prémio anual ao melhor aluno de violoncelo. Caso o Conservatório deixasse de estar sob a tutela da CMPorto o remanescente da venda do violoncelo passaria para a entidade que tutelasse o conservatório, para que o prémio continuasse a ser atribuído. Deixa o seu violoncelo “Lockey Hill” ao Conservatório de Música de Lisboa, em homenagem a seu pai que aí estudou e foi professor.

(notas de vm)

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outubro 06, 2004

A MAIOR VIOLONCELISTA DE SEMPRE (O "DIA" de 5/10/1990)

Acabam de completar-se 40 anos sobre a morte de GUILHERMINA SUGGIA. Foi, indiscutivelmente, uma das primeiras figuras entre os violoncelistas de todo o mundo e a maior entre nós. Artista extraordinária, GUILHERMINA SUGGIA sabia, como poucos, arrancar do seu violoncelo sonoridades de magia, que as suas mãos vibrantes e o seu coração de Mulher humanizavam.
A vida de SUGGIA foi um constante sonho de beleza. Vivendo para a Arte, a ela serviu com o seu fulgurante e imenso talento, a ela se entregou por inteiro.

Dotada de invulgar inteligência e possuindo um raro e poderoso encanto pessoal, SUGGIA assim que entrava no palco, cingia a si o violoncelo e levantava o arco, já tinha conquistado o público que, fascinado, febril e vibrante, escutava recolhido a espantosa artista.
Nascida no Porto, a 27 de Janeiro (1) de 1885, contava apenas sete anos quando se apresentou em público e já fazia parte da Orquestra do Porto ainda não tinha completado doze.
Aos quinze anos foi para a Alemanha aperfeiçoar os seus estudos e dois anos depois fazia a sua apresentação como violoncelista nos concertos de Leipzig, logo realizando digressões pela Europa.
Mais tarde, GUILHERMINA SUGGIA trabalhou com Pablo Casals, com quem fez uma famosa tournée em 1912, colaborando ambos nas audições do Concerto para dois violoncelos, composto por Emanuel Moór, e dedicado ao eminente artista catalão (2).
Logo após a primeira grande guerra, SUGGIA fixou residência em Londres (3) tornando-se rapidamente conhecida e apreciadíssima em Inglaterra, tendo tocado algumas vezes em particular para a família real inglesa. Fez-se ouvir com grande frequência pelo público londrino, sempre com unânime elogio da crítica.
Em 1923, o seu retrato, o mais conhecido de todos e o mais famoso da artista, foi pintado por Augustus John e encontra-se na TATE GALLERY, de Londres.
De regresso ao Porto, aí ficaram memoráveis os concertos que realizou, voltando de novo a Inglaterra em 1949, onde se fez ouvir pela última vez nos Festivais de Edimburgo.
A 30 de Julho de 1950, GUILHERMINA SUGGIA falecia no Porto, sendo o seu desaparecimento uma perda irreparável para a música portuguesa e para a arte em geral. Servindo-a com fervor e a mais perfeita dignidade, GUILHERMINA SUGGIA cobriu de glória o seu nome e a sua Pátria.

(1)- Guilhermina Suggia nasceu a 27 de Junho de 1885

(2)- Com efeito o concerto para 2 violoncelos de Emanuel Moór foi dedicado aos 2 violoncelistas, sendo o 1º violoncelo dedicado, pelo compositor, a Guilhermina Suggia e o 2º a Pablo Casals.

(3)- Guilhermina Suggia fixa-se em Londres em 1914. Em 1913 termina a relação com Pablo Casals, fixa-se em casa de sua irmã Virgínia, em França. Parte para Inglaterra no início de 1914 e fixa-se em Londres
(notas de vm)

MARIA FERNANDA MELLA, “O Dia” de 5 de Outubro de 1990

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outubro 03, 2004

PARTE DE ENTREVISTA DE PROF HELENA SÁ E COSTA À REVISTA MACAU

VJ - Que tal se começássemos por falar de Guilhermina Suggia
HSC – Sim. Conheci-a aqui no Porto quando ela veio de Londres em 1924. Esteve lá cerca de 20 anos sem vir a Portugal tocar. Era muita falada aqui em casa, pois a minha mãe tinha sido muito amiga dela. Mas nós não a conhecíamos pessoalmente, víamos somente os retratos antigos e tínhamos uma pequena ideia através daquilo que nos contavam. A única coisa que sabíamos era que ela vivia em Londres. Um dia, os meus pais foram tocar a casa do escultor Teixeira Lopes e uma das pessoas que também se apresentou foi a Guilhermina Suggia que tinha acabado de chegar de Londres. Tinha vindo para juntar os pais que estavam separados e conseguir comprar uma casa para eles. Acabou por "encontrar" um marido, tendo casado com um médico português, Dr. Carteado Mena a quem admirava muito.

VJ – Como era a sua personalidade?
HSC – Exuberante. Dava muito nas vistas; não que fosse muito bonita, mas quando se arranjava bem nos concertos chegava a ser bonita. A tocar então, tinha expressões que a tornavam mesmo fascinante. Musicalmente era também muito exuberante. Aquilo que o Pablo Casals tem de interioridade, ela tinha de expressividade. Ela falava muito do Casals, pois tinha vivido sete anos com ele…
VJ - …fala-se muito do seu vibrato intenso…
HSC – …sim, é verdade. Ela tinha uma técnica muito refinada que transparecia, por exemplo, quando tocava as Suites, de Bach. Naturalmente tinha aprendido com o Casals pois tinha sido aluna dele. Como sabe, o Casals tocou muito aqui no Porto, num Café em Espinho. E foi daqui que o meu avô o convidou para fazer uma tournée pelo Brasil com o trio formado por ele próprio, Casals e o pianista inglês Harold Bauer. Só depois disso é que ele foi com a Suggia para Paris e, curiosamente, a mãe dela a acompanhou. Apesar de toda essa exuberância que há pouco referi, ela era um pouco desigual: havia dias que estava muito bem disposta e outros nem tanto. Era também muito notada na rua pois vestia-se sempre com muitas cores. Nos concertos, porém, vestia-se lindamente e com grande requinte. É curioso que ela foi uma das primeiras pessoas a guiar automóvel chegando mesmo a dizer que ia para os seus concertos a conduzir, pois era a maneira de se distrair, concentrando-se naquilo que estava a fazer e não tendo que pensar no concerto. Isso, porque era muito ansiosa. Por várias vezes tocou com Freitas Branco em Lisboa e chegou mesmo a desmaiar pois sentia uma grande aflição antes de entrar para o palco.
Depois de estar muito tempo afastada do nosso meio, tinha receio de que começassem a convidá-la indiscriminadamente para tocar. Por isso, tornou--se de muito difícil acesso: não aceitava os convites e quando aceitava, era um preço louco.

Extracto de entrevista dada a VEIGA JARDIM por Prof HELENA SÁ e COSTA para a Revista MACAU

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julho 20, 2004

"RECITAL SUGGIA", NO SALÂO ÁRABE DO PALÁCIO DA BOLSA-10/6/1934

Seguindo uma tradição a todos os títulos simpática, a Universidade do Porto vem comemorando, nos últimos anos, a data camoneana – 10 de Junho, com solenidades de carácter nobremente, elevadamente, artístico.
Este ano, pode dizer-se que a Universidade do Porto obteve o seu maior triunfo trazendo até nós GUILHERMINA SUGGIA, a mais notável individualidade musical portuguesa da actualidade e, no dizer de críticos eminentes, a "primeiro" violoncelista de todo o mundo.

Para que o “Recital Suggia” tivesse todo o carácter de sumptuosidade e grandeza a que tinha jus conseguiu o devotado reitor do nosso primeiro estabelecimento de ensino que a Associação Comercial do Porto cedesse a mais importante dependência da sua Sede.
O Salão Árabe do Palácio da Bolsa, sendo único no país, presta-se, naturalmente, às festas e solenidades da mais requintada distinção.
E, ao vê-lo, no domingo pretérito, polvilhado de vestidos elegantíssimos, de casacas e de smokings, compreendia-se logo a supremacia daquele recinto de maravilha em relação a todos os outros que possuímos.

Na primeira parte do programa, D. GUILHERMINA SUGGIA fez-se ouvir em “Sonata em Sol Maior” de Sammartini; “Melodia” (Orpheu) de Gluck; “Allegro Spirituoso” de Senallié, acompanhada por D. Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, pianista de nome consagrado, e “Sonata em Sol menor, op. 5 nº 2” de Beethoven, acompanhada por D. Ernestina da Silva Monteiro, outra pianista cujos méritos se evidenciaram também.
É impossível com uma Artista como Suggia, dizer que isto foi melhor que aquilo. E festivamente por ela tudo é bem tocado, sempre.
Tanto uma como outra das sonatas tiveram a interpretação assombrosa que só Suggia pode dar.

Na segunda parte, o prof. Adriano Rodrigues, na sua qualidade de Reitor da Universidade do Porto, proferiu algumas palavras sobre o significado da festa, transformadas de resto, num interessante discurso, em que a figura, musicalmente excepcional de Guilhermina Suggia e o vulto incomparável, o vulto máximo do cantor dos Lusíadas, perpassaram e brilharam.
O prof. Adriano Rodrigues justificando a realização daquela comemoração camoneana com o Recital Suggia, consignou à Artista e ao Poeta as expressões que a uma e a outro, de verdade se aproximavam.

Na terceira parte, novamente Suggia. “A Suite em dó” de Bach para violoncelo (Prelude, Alemande, Courante, Sarabande, Bourrées I e II e Gigue) teve todos os requisitos para obter do auditório a ovação que obteve.
Depois “Sicilienne” de Marie-Therese von Paradis, “Gavotte” de Méhul, em primeira audição, e “Rondo” de Boccherini, uma das mais belas páginas que existem para violoncelo, tiveram também a interpretação própria, o mais rigoroso, o mais brilhante que é possível dar a obras tão características e de tanta preciosidade.
D. Maria Adelaide de Freitas Gonçalves fez os acompanhamentos destas três obras de maneira superior.
E o programa fechou com “Arte em Estilo Antigo”, de José Franco, outra primeira audição. “Malagueña” de Albeniz, “Pièce en forme deHabanera”, de Ravel, e “Sérénade espagnole”, de Glazunov, obras que Suggia teve D. Ernestina da Silva Monteiro por acompanhadora primorosa.
Fora do programa, correspondendo aos aplausos vibrantíssimos do auditório, que não arredava pé da Sala e da Galeria, a Artista tocou, ainda, “Andalucia”, outra saborosa página espanhola de Nina, e essa Formosíssima “A Abelha”, de Schubert, cujo vôo a violoncelista, admiravelmente descreve.

Todo o sarau, pode afirmar-se sem exagero, foi para Guilhermina Suggia, uma alta consagração.
O público recrutado no escol da sociedade e da intelectualidade portuense, saudou a Artista com uma veemência que não pode ser superada.
De resto, pela sua maneira de tocar, pessoalíssima, a violoncelista eminente merece bem todos os aplausos que se lhe consagram.
Vivendo, intensamente, apaixonadamente, a sua arte, Guilhermina Suggia é uma concertista poderosa que, pelas próprias atitudes, que seriam exageradas se não fossem, como são, sinceras e naturais. Conquista e subjuga a alma dos auditórios.
Resta dizer que a Artista foi felicíssima na escolha das suas colaboradoras.
Tanto D. Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves como D. Ernestina da Silva Monteiro pertencem como pianistas, ao nosso primeiro plano musical.
Desde o rigor e a expressão duma à emoção e à vibração da outra, todos os encómios são devidos às duas senhoras que tanto enobrecem, entre nós, a arte dificílima do piano.

D Guilhermina Suggia recebeu das mãos dum distinto estudante universitário um violoncelo miniatural em oiro filigranado com o símbolo da Universidade. Delicada e valiosa prenda esta. E às suas preciosas colaboradoras foram oferecidos pequenos corações, também em linda filigrana de oiro.
Suggia recebeu ainda, das mãos da sua discípula dilecta, D. Madalena Moreira de Sá e Costa, filha do eminente pianista Luiz Costa, um admirável ramo de flores.

O recital tinha, como dissemos, um objectivo altamente meritório. Era dado em benefício dos estudantes universitários pobres.
E a verdade é que apesar dos preços elevados, que foi mister estabelecer, o Salão Árabe quase se encheu da Sala à Galeria.

O COMÉRCIO DO PORTO, 12 de Junho de 1934


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julho 19, 2004

OUTRA CRÍTICA AO CONCERTO DO TEATRO RIVOLI DE 5/5/1937

Noite de inolvidável arte, noite de encantamento - como justamente a considerou o sr. dr. Joaquim Costa – a de ontem no Rivoli! Efectuava-se o segundo e último concerto da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, com a preciosa colaboração da grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA.

Encheu-se o vasto teatro. Reuniu-se ali a maior representação social portuense. Um grande nome constituía a atracão. Sentia-se, transparentemente, um palpitante interesse em ouvir a Artista. Para muitos ela havia proporcionado já, por diferentes épocas, horas de adorável prazer espiritual. Para outros ela era uma figura de relevo no mundo artístico, cujos méritos se conheciam apenas através da informação de autorizados críticos. A noite de ontem foi de realidades. A grande “virtuose” que conquistara as elites do nosso país, atravessara há muito as fronteiras, percorrera pelo estrangeiro, os grandes centros artísticos e impusera, vitoriosamente, o seu nome, a sua categoria, a sua personalidade de concertista. GUILHERMINA SUGGIA, na terra onde nascera, neste Porto, berço de várias notabilidades da arte musical, ia, novamente, proporcionar momentos de adorável prazer espiritual.

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O concerto iniciou-se com uma linda composição de Tartini, “Adágio”, em que SUGGIA documentou esplendidamente a sua técnica. Naquela compostura de sóbria elegância que é ao mesmo tempo uma graciosa imagem arrancada à preciosa tela de museu, dominando o Stradivarius, SUGGIA arrancou uma autoridade que empolgou a assistência.
Tocou, depois, a “Suite Ancienne” de Sammartini. Três andamentos em que se fundem delicadas harmonias. Execução primorosa onde se salientou o estilo inconfundível da concertista, marcado na pureza do som, na envolvente porção de sentimento e na vigorosa interpretação.
O concerto de Antonin Dvorak – composição em que se reúnem caprichosos temas – foi um mimo de interpretação. A assistência esteve suspensa das suas atitudes integradas no espírito da obra, sentindo a vibração da sua correctíssima arte.
A orquestra, que Pedro de Freitas Branco conduziu com inteligência e pormenorizadamente nos seus efeitos manteve-se em perfeita unidade com as execuções de SUGGIA, atingindo o conjunto dos dois valores um invulgar brilho.
A solo, a grande violoncelista tocou a “Suite em dó” de Bach, numa segurança perfeita, arrancando do instrumento “nuances” de cor, de poesia, sentimento e vivacidade.
Ravel na “Pièce en forme de Habanera”; Glazunov na “Sérénade espagnole”, e Sinigaglia na “Humoreske”. Três composições cheias de contrastes e de motivos de sugestiva delicadeza assentes em construções ricas de efeitos – foram interpretadas com mestria, com a expressão e o carácter só possíveis na arte e na técnica de GUILHERMINA SUGGIA.
A grande artista foi demorada e entusiasticamente aplaudida, num frisante testemunho de admiração, numa clara demonstração de apreço. Dos aplausos compartilharam o ilustre maestro Pedro de Freitas Branco e os professores que formam a orquestra.

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No final da primeira parte procedeu-se a uma significativa homenagem à insigne artista. No palco, rodeada de Mestre Teixeira Lopes, Drs. Carlos Ramos, Joaquim Costa e Aarão de Lacerda, Freitas Gonçalves, Pedro Freitas Branco, Henrique de Castro Lopes, Máximo de Carvalho, dr. Carteado Mena, Manuel Reis, Pinto Machado e inúmeras pessoas de destaque social, GUILHERMINA SUGGIA foi alvo de uma grande ovação.
O sr. dr. Joaquim Costa, ilustre escritor e director da Biblioteca Municipal, improvisou um discurso. Enalteceu a figura artística, “extraordinária figura humana” de SUGGIA, em cujas veias girava sangue italiano, árabe e português. Apontou os primores da sua técnica e as suas grandes qualidades de artista. Referiu-se à cultura literária de SUGGIA e destacou-a com orgulho, como portuense ilustre, que os portuenses devem venerar. Recordou o concerto da noite anterior em que brilhou uma jovem concertista, artista de instinto e de largo futuro, obra cultural de SUGGIA, Mlle.Maria Alice Ferreira.
Largos aplausos coroaram as palavras do sr. dr. Joaquim Costa.
A seguir foi descerrada na sala, por Mlle Maria Alice Ferreira, uma lápide com o nome da eminente artista, acto que foi sublinhado com calorosos aplausos.
O sr. Manuel dos Santos, gerente do Rivoli, que representava o empresário e director daquela casa de espectáculos, sr.M. J. Pires Fernandes, leu o auto da inauguração da lápide.
SUGGIA, emocionada, agradeceu, dizendo não merecer tão expressiva homenagem. A assistência, de pé, novamente lhe manifestou a sua consideração em aplausos carinhosos. E vieram flores. Lindas “corbeilles” ocuparam a ribalta dando uma nota de cor ao recinto.

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A Orquestra tocou com todo o carácter e ampla sonoridade “El Sombrero de três picos” de Manuel de Falla – peça conhecida do nosso público – que foi muito aplaudida.
A pedido, SUGGIA executou duas composições sempre com apreciável brilho, sendo muito aplaudida. Foi-lhe oferecida uma coroa de flores de lindíssimo efeito.
Uma memorável noite de Arte que deixou inolvidáveis impressões! - M.F.

“O PRIMEIRO DE JANEIRO”, de 6/5/1937

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julho 15, 2004

CRÍTICA AO CONCERTO DE 5/5/1937 no TEATRO RIVOLI

A glória de Guilhermina Suggia, firmada há muitos anos, não se avoluma – entre nós, pelo menos – com mais um concerto em que a grande violoncelista se apresente. Para os admiradores de Guilhermina Suggia – e quem, tendo-a ouvido, não a admirará? -, a glória da mestra do violoncelo é como um dogma inalterável: por mais audições que lhes proporcione, não ficam a admirá-la mais, porque mais não podem já admirá-la!

Guilhermina Suggia, a quem não é exagerado qualificar de genial, porque só o verdadeiro génio é susceptível de realizar prodígios como os que ela realiza com o violoncelo, tem para nós, de todas as vezes – e são tão poucas... – que a ouvimos, algo de novo e de surpreendente. Riquíssima de qualidades artísticas, de qualidades que se fundem, quando toca, no bloco maravilhoso que subjuga todas as atenções. A Artista apresenta-nos, por assim dizer, facetas desconhecidas, à medida que a ouvimos e lhe analisamos – se o encantamento consente qualquer espécie de análise ...- a excepcional personalidade. É assim, de audição para audição, Guilhermina Suggia oferece-nos novos motivos de assombro que, se não lhe aumentam a glória, tornam a sua grande figura artística, por multiforme, um prodígio – diremos assim, convencidos de exprimir noção verdadeira – em constante renovação de si mesma.

Ontem, ao terminar, sob aplausos frenéticos, o concerto, essa impressão radicara-se-nos no espírito. Guilhermina Suggia, soube ser a instrumentista máxima da sua especialidade, afigura-se-nos, sempre diferente – gigantescamente diferente -, da Guilhermina Suggia que, no concerto anterior, havíamos observado.

Desde que há anos, num sarau de arte efectuado no sumptuoso Salão Árabe do Palácio da Associação Comercial do Porto, a eminente concertista se apresentou aos “dilettanti” portuenses, não voltámos a deliciar-nos com a arte duma das mais notáveis concertistas do mundo, na actualidade. Os musicófilos lisbonenses ouviram-na, há poucos meses, em dois concertos que ficaram memoráveis na vida musical de Lisboa. Por seu turno os “dilettanti” da grande capital britânica, mais felizes do que os portugueses, têm tido o ensejo de aplaudir a artista gloriosa, várias vezes, nos últimos anos. Eis porque repetimos: Guilhermina Suggia que é nossa e vive no Porto, sua terra natal, não pode nem deve estar tanto tempo sem que os portuenses, seus conterrâneos, a oiçam. Porque há-de um tesoiro de tal valia permanecer oculto durante anos?

Os concertos de anteontem e ontem provaram, uma vez mais, que o Porto, quando lhe proporcionam arte autêntica, não se escusa, não se retrai e aflui aos concertos, em massa, antegozando o prazer de poder aplaudir, aplaudir com entusiasmo e sem reservas, como aplaudiu, nestas duas últimas noites, no recinto da nossa mais vasta casa de espectáculos. É preciso que Guilhermina Suggia apareça em público mais vezes. Cada audição dessa artista incomparável é sempre um banho lustral para quem ama e admira a música.
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Passava das 22 horas – como anteontem – quando Pedro de Freitas Branco subiu ao estrado da regência, acolhido por palmas estrepitosas. E quando Guilhermina Suggia entrou no palco, vestida de preto, com simplicidade e elegância, os aplausos cresceram em intensidade. Todo o público prestava, assim, a sua primeira homenagem dessa noite à concertista que, principalmente o levara ali.
Como na véspera, notaram-se no teatro todas as figuras de destaque nos meios social, cultural, artístico do Porto. O aspecto do recinto impressionava, pela imponência. Era um grande mar de cabeças, distribuído por todos os sectores do teatro. Muitos vestidos de noite, lindíssimos alguns, muitas casacas, muitos smokings também. Um grande interesse, um interesse apaixonado a transparecer de todas as fisionomias. Ambiente de sensação, a sensação justificada por um concerto de Guilhermina Suggia.
Numa frisa, a triunfadora da véspera, Maria Alice Ferreira, com a família, frechada pelos olhares admirativos dos que a haviam ouvido já. Noutra frisa, com o marido da Artista, Sr. Dr. Carteado Mena, mestre Teixeira Lopes, miss Muriel Tait, a pianista D. Ernestina da Silva Monteiro. E não acabaríamos de citar nomes representativos se pudéssemos dar-nos a esse trabalho impossível...

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Adágio, de Tartini, abriu a primeira parte. Obra brilhante, de acentuado cunho clássico, Guilhermina Suggia cuja arcada larga e brilhante tinha o ensejo de se evidenciar, desde logo, executou, magistralmente a bela peça de abertura. Os aplausos com que a premiaram foram, como é óbvio, abundantes e vibrantes. O triunfo começava – no princípio da audição.
Emoldurando a concertista, o conjunto instrumental, comandado, impecavelmente, por Pedro de Freitas Branco, fez sobressair, mais ainda, a página de Tartini.
Depois, a suite ancienne, de Sammartini, primorosamente arranjada para orquestra. Três andamentos – Allegro, Grave, vivace – de nobre classicismo. Motivo de êxito seguro para a execução e a interpretação de Guilhermina Suggia, muito à vontade dentro da bela peça do compositor milanês. Os mesmos aplausos fortíssimos.

Um pequeno intervalo. E logo a concertista reaparece para tocar o Concerto de Dvorak, três movimentos apojados de boa música, de música da melhor. A obra do grande compositor, orgulho legítimo da “Tcheca-Eslováquia” de hoje, encontrou em Guilhermina Suggia uma intérprete admirável, capaz de valorizar, pela riqueza de expressão com que apresenta a riqueza de motivos das páginas, o pensamento musical do mestre.
Findara a primeira parte. O público subjugado pelo génio da concertista, não cessava de bater palmas. Na verdade, a concertista mereceu-as bem. Elas não representavam mais do que um prémio justíssimo.
Que dizer de Guilhermina Suggia que não esteja dito já? Para quê insistir na sua fogosidade apaixonada, marca inconfundível do seu talento de raça? Para quê salientar, se não constitui revelação para ninguém, a sua virtuosidade sublime, que lhe dá azo a fazer do seu violoncelo, ora um leão que “ruge” ora um rouxinol que “gorjeia”, já uma garganta que soluça e geme e estertora, já uma boca fresca e sadia que exorta e gargalha e canta? O violoncelo de Guilhermina Suggia, já de si maravilhoso, tangido pelas mãos milagreiras da Artista, chega a afigurar-se-nos um instrumento mágico. Será preciso dizer mais, exaltar o modo por que ela fraseia, diz, exprime a música que interpreta e executa? A sonoridade magnífica que produz, a vida que comunica a tudo o que toca, o próprio comentário histriónico que lhe é peculiar e acompanha a execução de qualquer peça, exteriorização natural duma pujante e vibrante sensibilidade – tudo modalidades da sua arte magistral, da sua arte de eleita.

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Eis porque foi justíssima a homenagem que, durante o intervalo da primeira para a segunda parte, lhe prestaram os seus admiradores, representados, no palco, por artistas, escritores, jornalistas, pessoas de categoria no meio oficial, na sociedade, na vida superior do Porto.
Nesse acto de consagração, a que se associou, vibrantemente, entusiasticamente o auditório em peso e a que, pela hora tardia a que teve fim o concerto – 1 hora e 5 minutos da madrugada de hoje – só amanhã consagraremos a referência merecida, o sr. dr. Joaquim Costa proferiu um breve e brilhante discurso de saudação e a menina Maria Alice Ferreira, a convite daquele ilustre homem de letras, descerrou uma lápide, na plateia, de homenagem a Guilhermina Suggia, a sua grande mestra. Uma verdadeira e impressionante apoteose à Artista e à sua arte.

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Na segunda parte, Guilhermina Suggia fez-se ouvir, de entrada, a solo, na lindíssima suite, em dó, de Bach, o clássico egrégio, viveu, assombrosamente, sob a arcada da concertista eminente. O Prelude, a Allemande, a Courante, a Sarabande, a Bourrée e a Gigue, as seis partes da obra magistral, agradaram, em absoluto ao auditório, que aplaudiu, com o vigor de sempre, com o entusiasmo de sempre.

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A Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, sob a regência empolgante de Pedro de Freitas Branco, salientou-se, depois na conhecida e admirada obra de Manuel de Falla “El Sombrero de tres picos”, uma das suas coroas de glória. O eminente artiste, valor dos maiores, também, da música portuguesa, foi aplaudido, com frenesi. E as palmas do público envolveram, merecidamente, o seu admirável conjunto instrumental. Regina Cascais esteve ao piano durante a execução da obra já famosa.

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Por fim, Guilhermina Suggia, acompanhada pela orquestra tocou “Pièce en forma de Habanera”, de Ravel, “Sérénade espagnole” de Glazunov, e “Humoresque” de Sinigaglia, três peças de estilo para uma instrumentista como ela obrar prodígios. E o público aplaudiu em delírio, no final.
Correspondendo aos aplausos, Guilhermina Suggia fez-se ouvir, ainda, num delicioso “Andante” de Haydn e no caprichoso “Rondó” de Boccherini, peça para acrobacia de mãos.
É óbvio acrescentar que a grande violoncelista tocou, estupendamente, como as anteriores, estas duas peças fora do programa.
O concerto – acentuamo-lo para rematar – rematou com uma apoteose. Todo o público de pé, aplaudiu, longamente, carinhosamente, Guilhermina Suggia. É impossível que, seja onde for, o público manifeste maior entusiasmo.
Ontem foi o máximo – eis tudo!

“O COMÉRCIO DO PORTO 6/5/1937)


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maio 26, 2004

PALAVRAS DE FRANCINE BENOIT SOBRE SUGGIA

A 29 de Janeiro de 1937 escreve Francine Benoit a propósito do segundo concerto da temporada na Sociedade de Concertos de Lisboa que:

«Além do excepcional talento de Suggia, há que admirar e render homenagem à sua energia, à sua força de vontade, ao seu domínio sobre uns nervos duma sensibilidade agudíssima.

“Tout se tient”, dizem os franceses: naqueles nervos e naquela reacção forte da vontade está toda a maior característica da arte de Suggia. Dominaram novamente o palco - e o teatro todo, completamente cheio - a sua figura (...), as suas feições vincadas, as suas expressões pessoalíssimas (que têm sido tão imitadas...) e que nunca mais esquecem a quem as viu uma só vez.

Sensibiliza porventura um pouco o público anónimo que Suggia nunca se digne abaixar - ou erguer - os olhos até ele, mas os artistas do traço e da cor admiram incondicionalmente essa viva imagem da arte no seu aspecto mais avassalante”.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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maio 25, 2004

NOTÍCIAS SOBRE SUGGIA NO DAILY MIRROR

Talvez para atiçar a imaginação, publica-se uma coluna com pequenas notícias sobre Suggia no The Daily Mirror (sem data):


«Apesar da eminência que Mme. Suggia atingiu, secreta e privadamente, a maior alegria da vida dela é saber que um concerto foi cancelado. A razão principal é a devoção à casa dela no Porto, ao seu jardim (de que ela diz não perceber nada a não ser adorar as flores) e aos seus cães. Longe, no Portugal quente, ela gosta de nadar e de tomar banhos de sol.

- Suggia não tem a comum inquietação pelas suas preciosas mãos. Rema. Faz vela. Pesca. Decora interiores. Só o ténis joga com suavidade, porque pode ser perigoso para o pulso da violoncelista.

- Suggia colecciona tapetes. Tem vários persas e chineses. Detesta salas de concerto atapetadas.

- Disse Suggia que a melhor sala de concertos, na Europa, por razões de acústica, de mobiliário e em geral é o Usher Hall em Edimburgo, seguido pelo Teatro Nacional de S. Carlos em Lisboa.

O número ideal de audiência é 500.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo”

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maio 10, 2004

ENTREVISTA DE CELSO DE CARVALHO A D.JOÃO DA CAMARA (EXCERTO)

Um dos discípulos preferidos de GUILHERMINA SUGGIA foi o Professor Celso de Carvalho. Transcreve-se aqui algumas passagens de uma entrevista por ele concedida à Emissora Nacional, num programa produzido por D. João da Câmara e radiodifundido em 30 de Julho de 1974:

D. João da Câmara: Faz hoje 24 anos que faleceu Guilhermina Suggia, uma grande violoncelista portuguesa, que fez carreira em todo o Mundo: uma longa carreira, sempre em lugar de primeiro plano, e que viria mais tarde a fixar-se no Porto, exercendo aí uma notável acção pedagógica que contribuiu decisivamente para a formação de alguns dos nossos melhores violoncelistas.
O Celso de Carvalho foi um desses escolhidos, por isso, peco-lhe que recorde para nós a grande artista.

Celso de Carvalho: Não é sem emoção que recordo esse relacionamento. A minha convivência com Guilhermina Suggia foi marcada principalmente pela oportunidade de poder ser seu discípulo. Pude assim conhecer e apreciar mais de perto a sua rica personalidade, tão fértil em valiosos conhecimentos, como no bom acolhimento que me dispensou.
Em cada lição vivia a proximidade da sua arte. Era como se o tempo se tivesse dilatado e ganhasse uma nova dimensão.

D. João da Câmara: Foi um trabalho regular ou teve interrupções?

Celso de Carvalho: Por essa altura, Suggia estava a residir no Porto com mais frequência e a série de lições que em princípio se tinha combinado foi-se prolongando e veio a durar três anos.

D. João a Câmara: Esse trabalho continuado revela, evidentemente, um interesse da mestra pelo discípulo.

Celso de Carvalho: É verdade. Esses três anos representaram para mim um alto benefício pois, de facto, devo-lhes a melhor parte da minha formação artística.

D. João da Câmara: Seria interessante que nos revelasse alguns aspectos do modo como decorriam as lições.

Celso de Carvalho: Guilhermina Suggia como Mestra era também uma pessoa excepcional, não só pelo valor dos ensinamentos mas, sobretudo, pela sua capacidade de os transmitir.
Por exemplo: durante as lições ela nunca se preocupava com o decorrer do tempo previamente estabelecido, estava sim preocupada em que as coisas se aperfeiçoassem e fossem conseguidos os melhores resultados possíveis.
Um dos aspectos mais importantes dessas lições resultava do hábito de se sentar junto do aluno e, servindo-se sempre de um dos seus magníficos violoncelos, corrigir e exemplificar aquilo que julgava necessário, deixando-se, muitas vezes, levar pelo gosto de concluir uma frase ou até a própria obra.
Eram esses os grandes momentos em que me era dado seguir o seu pensamento, admirar mais de perto a sua mestria.

D. João da Câmara: Falemos agora de outro aspecto da sua personalidade. Guilhermina Suggia era uma pessoa com muito interesse; muito agradável, de disposição alegre e comunicativa.

Celso de Carvalho: E também de uma grande simplicidade. Ocorre-me relatar alguns factos que o testemunham bem.
A sua popularidade no Porto, estendia-se até ao Mercado do Bolhão (o mais famoso da Cidade) onde, diariamente, fazia as suas compras discutindo os preços com as vendedeiras a quem, de seguida, oferecia bilhetes para os seus concertos.
Ou então, estando hospedada no Palácio-Hotel do Buçaco, uma tarde apareceu inesperadamente, com o seu violoncelo, na pequena sala privativa onde os músicos do Sexteto que tocava no Hotel principiavam a jantar. Com a maior naturalidade disse-lhes: «Vocês tocam para nós enquanto tomamos as refeições; hoje venho eu tocar para os meus colegas e amigos — é a lei das compensações», e sentando-se presenteou-os com algumas peças do seu vasto repertório.
Recordo-me ainda que, quando se apresentava com a Orquestra Sinfónica do Porto, onde fui solista do naipe de violoncelos, muitas vezes me pedia que fosse ouvi--la da plateia, querendo saber de imediato a minha opinião sobre o que acabara de realizar. E, certa vez em que o Maestro pretendia continuar o ensaio enquanto trocávamos impressões, ela retorquiu-lhe que esperasse, pois tinha em muita consideração as minhas observações.
Eram assim as suas reacções: tinha dentro de si aquela aguda e fina sensibilidade, sem a qual não se é verdadeiramente um grande artista.
Um concerto representava sempre para ela uma grave preocupação: «Para tocarmos em público (confessava muitas vezes) queimamos os nossos nervos».

D. João da Câmara: Suggia era a menina-bonita do Porto.

Celso de Carvalho: Sem dúvida. Quando, em 1948, a Orquestra Sinfónica do Porto fez a sua primeira apresentação em público — no Teatro Rivoli — foi ela a solista escolhida. As intermináveis ovações que culminaram a sua actuação eram também de reconhecimento pela grande influência que exercera para que se concretizasse aquela realidade que se oferecia à Cidade do Porto — ter uma Orquestra Sinfónica.
Quero ainda dizer quanto lamento não existir em Portugal um único disco seu em boas condições técnicas (no apogeu da sua carreira estávamos ainda muito longe dos actuais processos de gravação) de modo a que nos fosse dado guardar em toda a sua plenitude o raro prazer de a ouvir. . .»


de "PONTO E CONTRAPONTO". Revista da Academia de Música de Santa Cecília

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maio 05, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL-Conc de 25/1/1943

S. CARLOS— Não há palavras que possam descrever o ambiente de arte e de entusiasmo que reinou no terceiro e último concerto de GUILHERMINA SUGGIA e Malcolm Sargent.

Se do primeiro para o segundo já se sentira um crescendo de vibração, a diferença em relação ao de ontem, ainda mais se acentuou, talvez por ser a despedida da nossa inigualável compatriota, que tão raras vezes ouvimos, e do notável regente britânico tão aplaudido nas inesquecíveis noites que ficámos devendo ao Círculo de Cultura Musical.
O programa tinha uma feição marcadamente inglesa, pois que até os dois mestres alemães nele incluídos: Haëndel e Haydn, estão longe de poder ser considerados estranhos à Inglaterra.
O arranjo que sir Hamilton Harty fez da «Water-Music”, de Haëndel, é um modelo de rara aliança do bom efeito orquestral, moderno, com o respeito pelo estilo antigo.

Seguiu-se mais uma interpretação do admirável concerto de Elgar para violoncelo e orquestra, que na primeira audição alcançara um triunfo e ontem obteve um êxito, se é possível, ainda maior.
O génio de GUILHERMINA SUGGIA, o admirável dom que a divina artista possui de fazer dos sons musicais uma linguagem tão explícita como a falada ou escrita, brilharam, mais que brilharam, cintilaram, nesta obra, cheia de recitativos e de melodias de intensa expressão.

A «Fantasia sobre um tema de Fallis» de Vaughan Williams, importante primeira audição deste programa, apresenta-nos o maior compositor inglês contemporâneo, na sua maneira mais característica, apoiada no classicismo e no modalismo dos compositores seus compatriotas do século XVI. O tema quinhentista de Fallis é enquadrado e desenvolvido por processos modernos, com admirável valorização da sonoridade da orquestra de arcos e sem nada perder da sua cor. O maestro Sargent dirigiu esta obra com profunda emoção e rematou-a com admiráveis cambiantes dinâmicos.

No célebre concerto em ré maior, de Haydn GUILHERMINA SUGGIA, venceu brincando as dificuldades acumuladas: os repetidos passos em «capotasto», as notas vertiginosamente agudas, fora da extensão do ponto, os desenhos rapidíssimos, as notas dobradas, todo o mais espinhoso repertório da técnica do violoncelo, desfilou diante dos nossos ouvidos encantados, com a facilidade da água corrente. As ovações que já tinham sido largas e calorosas, ao terminar o concerto de Elgar, foram ainda mais entusiásticas no fim do de Haydn, sendo a incomparável artista obrigada a vir vezes sem fim ao proscénio, rodeada de flores.

A ópera «Romeu e Julieta», de Delius da qual foi extraído o trecho sinfónico ontem ouvido em primeira audição com o título de «Jardim do Paraíso», não é o drama de Shakespeare, mas a novela do escritor suiço-alemão Gottfried Keller. Os noivos designados simbolicamente pelos nomes shakespeareanos são dois jovens camponeses, que, por não poderem casar, se suicidam. O «Jardim do Paraíso» que não é uma peça triste mas um trecho de expressão ao mesmo tempo sóbria e transfigurada descreve o caminhar dos noivos para a morte.
O maestro Malcolm Sargent pôde nesta partitura, dar a plena medida da sua arte, em que a inteligência se alia à sensibilidade.
No trecho seguinte, que terminava o programa o maestro Sargent mostrou a ductilidade do seu talento, passando do sentimento estático de Delius para a exuberância realista da abertura, «Cockaigne», de Elgar composta em louvor da cidade de Londres e dos seus habitantes.

Foram delirantes, apoteóticas as ovações tributadas ao maestro dr. Malcolm Sargent. Deixa este eminente chefe de orquestra em Portugal milhares de admiradores entusiastas, que esperam ter brevemente ensejo de o tornar a aplaudir. É um intérprete moderno que se encontra, igualmente à vontade nos estilos barrôco e romântico, movendo-se com pasmosa facilidade no meio das mais intrincadas complicações, sucessivas e simultâneas, de ritmos desusados e de acordes dissonantes Tem sobretudo a virtude de tornar clara toda a musica que dirige. Foi portanto plenamente justificado o triunfo do maestro Sargent e cremos que não leva má impressão nem do publico de Lisboa nem da Orquestra Sinfónica Nacional, que neste concerto continuou a realizar maravilhas.—F. B.

"O SÉCULO" de 25 de Janeiro de 1943

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maio 04, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL- Conc de 25/1/1943

TEATRO DE S. CARLOS – Círculo de Cultura Musical
Concerto de 25/1/1943

A série de concertos da iniciativa do Círculo de Cultura Musical para a apresentação entre nós da moderna música inglesa, terminou ontem, com o mesmo êxito dos anteriores.

É evidente que a revelação da cultura musical de um país numa representação de tantos autores modernos, em obras desconhecidas, como Holst, Walton,Williams, Delius, Elgar, etc. grandes compositores Mestres da orquestra moderna, demais dados na versão fidelíssima de um Maestro também inglês, não podia deixar de constituir, - porque se trata de obra de vocação – o facto principal, o primeiro plano, de todas essas manifestações culturais. E só depois do aspecto criador, - o da revelação de tantas obras – deveríamos considerar o aspecto interpretativo. Foi o que fizemos, porque o contrário seria admitir o absurdo. “A obra é única”. Os diversos intérpretes chegam depois . Oxalá essa lição dada em três concertos por “um” grande e competente maestro inglês, - lição de amor à cultura musical da sua terra – sirva de exemplo.

Fez Malcom Sargent, em três concertos, o que normalmente, em anos de trabalho muitos não conseguem. Ontem Malcom Sargent tocou as seguintes obras: “Música Aquática de Haendel-Harty; “Fantasia” de Williams; “No Jardim do Paraíso” de Delius; e a abertura de Elgar “Cockaigne”. As páginas de Delius são delicadíssimas, repassadas de um ambiente poético delicioso. As de Williams são de facto do mais forte sinfonista inglês contemporâneo.

A “Abertura” de Elgar deu um final esplendoroso e brilhantíssimo a estes festivais. Está cheia de melodias bem traçadas de grande colorido e de ritmos francos.

GUILHERMINA SUGGIA tocou novamente o concerto de Elgar, ouvido num concerto anterior e o concerto de Haydn. Esta notável intérprete a que chamamos numa das nossas impressões “a grande artista de sempre”, continuou ontem à noite a sua posição de excepcional artista. Que poderemos acrescentar? Que o público não se fatigou de aplaudir, em chamadas repetidas e intermináveis, o Maestro Malcom Sargent, GUILHERMINA SUGGIA e a Orquestra Sinfónica Nacional. – RUY COELHO

Diário de Notícias 26 de Janeiro de 1943

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maio 03, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL- Conc 22/1/1943

S. CARLOS—O concerto de ontem foi ainda mais apoteótico que o de antes de ontem, o que é elogioso para o público de Lisboa, visto o programa de ontem ser de compreensão bem mais difícil e conter nada menos de três primeiras audições. Foram elas: «Ouvindo o primeiro cuco na primavera», de Frederick Delius, «Concerto» para violoncelo e orquestra, de Edward Elgar. e «Sinfonia», de William Walton.

O requintado talento do compositor inglês Delius falecido há apenas oito anos, está destinado a uma carreira feliz em Portugal. O supremo bom gosto que pôs em tudo o que escreveu torna-o querido nos países latinos amigos da delicadeza e da justa proporção. A peça ontem ouvida em primeira audição é um delicioso quadro de ar livre, inteiramente original e diferente desses outros quadros campestres ou florestais que são: o «Siegfried-Hyll». de Wagner; a «Noite de Verão», de Kodaly; a «Tarde de um Fauno», de Debussy; e a «Pastoral», de Honnegger. O maestro Sargent dirigiu-a com elevada sensibilidade.

O «Concerto», de Elgar. é maravilhosamente concebido segundo a índole expressiva do violoncelo, mais romântico do que o concerto de violino do mesmo autor, mais livre na forma e orquestrado de modo a nunca abafar, o que não é fácil, a tessitura grave do Instrumento. A liberdade da forrna e o sentimento romântico tornam a obra difícil de interpretar, e não é possível imaginar-se uma interpretação ao mesmo tempo mais clara e mais cheia de fantasia, de a que ontem ouvimos. Quanta à sinfonia de William Walton pasma-se que uma tão densa floresta de sons, uma das mais titânicas concepções musicais dos últimos tempos, sejam obra de um compositor de trinta anos. de um debutante na forma da sinfonia. A obra, que dura 45 minutos, consta do primeiro andamento rápido, de «scherzo», de andamento lento e de final rápido, quatro andamentos, como se vê, mas tratados sem qualquer preocupação tradicional, nem mesmo clássica. É uma obra monumental. como dissemos, essencialmente rítmica e dionísica, escrita por processos melódicos, harmónicos e contrapontísticos, inteiramente aparte dos habituais.

Completavam o programa a «Abertura de Londres», de John Neland, e as «Variações sinfónicas», de Boëllmann, para violoncelo e orquestra.

Para GUILHERMINA SUGGIA não encontramos outra classificação do que a que davam os antigos às grandes cantoras, à Todi, por exemplo, que, como SUGGIA era especialista no canto largo, ou, como então se dizia, no canto «spianato»: GUILHERMINA SUGGIA é uma deusa, é a deusa da arte que sabe traduzir a vida no que ela tem de mais profundo, no amor e na dor. O público mais uma vez vibrou intensamente nas variações de Boëllmann e sentiu, logo à primeira audição, todas as belezas do concerto de Elgar, que teve acolhimento entusiástico.

Como os aplausos não cessassem, a nossa genial compatriota veio gentilmente ao proscénio desculpar-se de não poder bisar devido à extensão do programa.

O maestro dr. Malcolm Sargent alcançou um merecido e grande êxito pessoal. Compartilhou com SUGGIA da vitoria da nobre partitura de Elgar. Foi brilhantíssimo na abertura de Ireland e na dificílima sinfonia de Walton provou ser um grande chefe moderno, que sabe tornar claras e expressivas as maiores complicações rítmicas e polifónicas. A espantosa ovação que acolheu Malcolm Sargent ao terminar a sinfonia deve deixar-lhe grata recordação. As chamadas foram Inúmeras, e o publico parecia não querer abandonar a sala.

A Orquestra Sinfónica Nacional elevou-se à máxima altura e por várias vezes foi distinguida com os aplausos especiais do público electrizado. — F B.

“O SÉCULO, 23 de Janeiro de 1943

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maio 02, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL-CONCERTO 22/1/1943

TEATRO NACIONAL DE S. CARLOS
Círculo de Cultura Musical – 22/1/1943

O segundo concerto dirigido pelo maestro inglês Malcolm Sargent, no Teatro de S. Carlos, realizou-se ontem com um programa – com excepção das “Variações” de Boëllman – consagrado à música sinfónica inglesa só para orquestra e para “celo” e orquestra.

O Círculo de Cultura Musical proporcionou assim aos seus sócios o conhecimento directo de algumas obras mais representativas de Ireland, autor da “Abertura Londres”, de Walton, autor da Sinfonia que fechou o programa, de Delius, autor da “Primavera”, e de Elgar, autor do concerto para violoncelo e orquestra. Este facto de revelação de tantas obras da escola inglesa ao nosso público, merecia largas referências, tanto mais que, por exemplo, só a Sinfonia de Walton, pela sua vastidão, pelo sentido estético, pelo vigor da paleta orquestral, não pode ser comentada com a mesma ligeireza com que se comenta as “Variações” de Boëllman.

Há nesta Sinfonia o momento culminante de todo o programa – num esforço para evitar o lugar comum, na expressão, no ritmo, na côr, e em todos os elementos instrumentais.

Como no concerto anterior, GUILHERMINA SUGGIA esteve como solista e tocou, além das “Variações” de Boëllman, o concerto de Elgar, conservando-se, como era natural, à altura do nome que há muito conquistou.

A orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, sob a direcção nítida e viva do Maestro Malcolm Sargent, especialmente na obra realmente dificílima que é a Sinfonia de Walton, foi digna do título que usa. – RUY COELHO

Diário de Notícias, 23 de Janeiro de 1943

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maio 01, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL-conc 21/1/1943-Outra crítica

S. CARLOS— o décimo concerto do Círculo de Cultura Musical na temporada presente merece ficar assinalado na história dos concertos sinfónicos em Portugal. O reaparecimento da divina GUILHERMINA SUGGIA e a estreia de um notável regente moderno, o maestro inglês Dr. Malcolm Sargent, asseguraram a este espectáculo o êxito apoteótico que de facto o acolheu.

A genial artista portuguesa que electriza o público logo ao aparecer no estrado mais uma vez vincou a música, mais uma vez fez cantar o seu soberbo «Stradivarius» com inflexões que mais parecem de uma voz
humana do que de um instrumento. A fantasia romântica e o "sentimento apaixonado do concerto de Dvorak, o elegante classicismo de Saint-Saëns encontraram em GUILHERMINA SUGGIA uma intérprete igualmente perfeita arrancando ovações delirantes ao terminar estas obras capitais da literatura do violoncelo.

Quem esperar a fleugma britânica na regência do maestro Malcolm Sargent enganar-se-á redondamente. É um chefe de Orquestra intenso, fogoso mesmo, sem deixar de ser elegante nas atitudes e nos gestos. "Acompanhou excelentemente os dois concertos e dirigiu com mestria a abertura «As vespas», de Vaughan Williams a terceira sinfonia de Brahms e um bailado de Holst rico de imprevisto rítmico e de instrumentação. É uma das melhores obras modernas inglesas que temos ouvido e o maestro Sargent dirige-a admiravelmente . A guerra actual e os seus horrores não impediram que o maestro Malcolm Sargent incluísse no programa de ontem uma obra alemã. Registamos o facto com o aplauso que merece tão nobre procedimento.

A Orquestra Sinfónica Nacional ouve-se com infinito brilho, ocorrendo-nos salientar, entre outros momentos felizes a acção das trompas no concerto de Dvorak, o maestro Malcolm Sargent conquistou o público de Lisboa. Foi mais de meia dúzia de vezes chamado ao proscénio no final do concerto por entre frenéticas aclamações.

A direcção do Circulo de Cultura MUSICAL merece louvores pela Organização deste inesquecível espectáculo da mais pura arte. —F. B.


O SÉCULO, 22 de JANEIRO de 1943

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abril 30, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL-CONCERTO 21/1/1943

TEATRO NACIONAL DE S.CARLOS
Círculo de Cultura Musical - Concerto de 21/1/1943

O Círculo de Cultura Musical deu agora aos seus sócios, com o concerto realizado ontem em S. Carlos, um programa sinfónico, sob a direcção de Malcolm Sargent, um maestro inglês de grande reputação e que pela primeira vez dirige em Lisboa.

Aumentava ainda o valor inédito do programa a interpretação de algumas famosas obras inglesas desconhecidas entre nós e a audição da “3ª sinfonia” de Brahms, um dos monumentos da música. Malcolm Sargent conquistou aplausos justos e entusiásticos do público. De facto regeu com uma técnica que sabe colocar num plano superior as obras sem trair o pensamento dos autores, e conservou sempre as sonoridades orquestrais num ambiente de apurado bom gosto. A orquestra colaborou com verdadeiro “brio” profissional.

As obras inglesas possuem uma construção sólida, técnica firme, concisão e colorido.

Deve dizer-se que o interesse propriamente musical da noite manteve-se, particularmente, na monumental “Sinfonia” de Brahms e na primeira audição das páginas de Holst, um compositor que honra a moderna música inglesa.

GUILHERMINA SUGGIA foi a solista dos dois conhecidos concertos de Dvorak e Saint-Saëns.

É evidente que o concerto de Saint-Saëns apesar da interpretação brilhante de SUGGIA ficou numa posição débil, justamente pela “virtuosidade “ artificial, dado o contraste imediato com a “música pura” da “Sinfonia”. O mesmo se deu com o concerto de Dvorak, tão próximo das páginas modernas de Williams.

Isto não significa não ter sido GUILHERMINA SUGGIA a artista de sempre. – RUY COELHO

Diário de Notícias, 22 de Janeiro de 1943

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abril 11, 2004

SUGGIA NO ALBERT HALL

GUILHERMINA SUGGIA tocou ontem no Albert Hall de Londres


Londres, 22 – Guilhermina Suggia, célebre violoncelista portuguesa, tocou esta noite no Albert Hall de Londres, por ocasião de um concerto em benefício de músicos desempregados britânicos.

A rainha e a princesa Margareth assistiram ao concerto e pediram que lhes fosse apresentada a artista portuguesa que veio expressamente de Lisboa para interpretar o concerto em Sol menor de Elgar. A orquestra foi dirigida por Sir Malcolm Sargeant.

Diário de Notícias, 23/11/1948

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abril 07, 2004

Sonatas de Brahms e Beethoven

«Existem determinados artistas que não poderiam ser de um modo diferente do que aquele que são e, no seu dia, Suggia constitui um deles. Foi o seu dia no Wigmore Hall, na terça-feira. (...) e não existe nenhum artista que consiga colocar mais emoção na sua execução do que aquela que Suggia coloca.

Assim, vulcânicos como são os seus sentimentos, nada surge como destoando, nem as exigências da técnica, nem a precisão da sua interpretação. O trabalho constitui sempre um todo perfeito, sendo, no entanto, algumas partes em particular intensamente sentidas. Mesmo a sua arrebatadora interpretação do tema de abertura do op. 69 de Beethoven não provocou, por algum milagre, um desequilíbrio na leveza geral da sonata - uma sonata na qual, acidentalmente, Beethoven deu uma grande ideia a César Franck. Pois no último movimento, Franck, através da alteração de duas notas e efectuando um desenvolvimento em conformidade com isso, produziu uma melodia magnífica tendo Beethoven, por uma vez falhado por disso não se ter apercebido.
O acompanhante perfeito de Suggia ao piano tem ainda de ser encontrado - talvez esteja- ainda por nascer, Luiz Costa não é um mero acompanhante para um qualquer vulgar víoloncelista, na sua parte da sonata ele teria sido um seu igual, mas tocando com Suggia houve ocasiões onde a perfeita harmonia foi perdida, não por culpa de algum dos dois artistas, mas simplesmente devido à gigantesca personalidade da execução de Suggia. Os seus fraseados, tal como a coordenação dos seus "rubatos", foram excelentes, e tivemos o invulgar espectáculo de dois Latinos pegando fogo às difíceis composições teutónícas de Beethoven e Brahms. A propósito, as sonatas de Brahms foram as encantadoras op. 38 e a extremamente popular op. 99».


Morning Post, 12 de Novembro de 1924
«Ouvi-la tocar a Sonata de Brahms (Opus 38) com o pianista adequado, como sucedeu no Wigmore Hall na segunda-feira, e aquela obra-prima, que tão primorosamente realçou as numerosas qualidades do violoncelo, compreende-se o quanto a perfeita fusão entre o intelecto e a emoção significam num artista, embora desvendar e definir a arte de Suggia nos transmita a impressão de que existe algo de inapreensível. Ela surge identificando-se de uma forma tão íntima com o seu instrumento que parece que este apreendeu o seu carácter. Sente-se que só através do violoncelo poderia viver, de modo a ir ao encontro da plenitude da expressão.»


The Daily Telegraph, 21 de Novembro de 1938
«Actualmente Guilhermina Suggia não actua em público com frequência - para nossa grande perda. Presentemente, ela constitui uma artista ainda mais delicada e subtil relativamente ao que sempre foi, e ontem no Palladium proporcionou-nos uma tal exibição em violoncelo, que só muito raramente alguém é suficientemente afortunado para tal ouvir.
Mme. Suggia pode sempre adoptar um tom persuasivo e, quando necessário, um estilo desapaixonado. O tom é agora mais doce e a vitalidade rigorosamente controlada. A elegância da execução do seu primeiro grupo de peças - pequenas composições de Sammartinl, Bacb e Senaillé - não foi inesperada, nem o resplendor da sua interpretação do Concerto de Saint-Saëns nos tomou de surpresa.
Mas a sua terceira contribuição - a Sonata de Brahms em mi menor, op. 38 - na qual teve em Gerard Moore o mais admirável colaborador - superou todas as expectativas. Foi notório o gracioso fraseamento no terceiro andamento, o qual foi particularmente cativante e, acima de tudo, a sua interpretação do último andamento, onde, com demasiada frequência, o violoncelo competia com o piano, sugerindo uma batalha entre um duende e um gigante.
A vitalidade de Mme. Suggia e o tacto do seu acompanhante colocaram os dois instrumentos em igualdade. Vitalidade esta que não se traduziu, no entanto, por tons forçados ou ritmos caóticos. Uma rigorosa noção de medida fluiu ao longo de toda a concepção; combinando espírito com um clássico sentido de forma, resultando numa interpretação que não será facilmente esquecida.»

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abril 03, 2004

O Concerto de D'Albert e outras peças

21 de Agosto de 1949

O grande acontecimento musical que aparece em relevo nos jornais é o regresso de Suggia aos palcos escoceses.
Refere-se que o Concerto em dó de Eugène D'Albert é soberbamente interpretado: o som do violoncelo grandioso parecia vencer sem aparente esforço a unidade sonora da orquestra. lan Whyte, que dirigia a Orquestra Escocesa da B.B.C., tinha de ter cuidado para não se deixar dominar pelo efeito natural da personalidade de Suggia.

E se o concerto de D'Albert não pode ser considerado uma grande obra musical, tem melodias com beleza e uma abertura profundamente imaginativa. A prolongada cadência em tom menor no final do movimento lento é particularmente interessante. Tocado pela Suggia cresce e distingue-se. O som dela, marcado a fogo, é capaz de dar vida à peça mais esquecida.
No final do concerto os aplausos e as centenas de flores chamam-na várias vezes ao palco. Suggia, deslumbrante num vestido branco e mais régia do que nunca, agradece.


No feroz The Times é referido o enigma da escolha do concerto de Eugène D'Albert por Suggia.

Estando em voga há 50 anos, já não significa nada, porque não estimula nem o pensamento nem o sentimento, afirma o crítico. Conclui, no entanto, que só o estilo e a eloquência da magnífica Suggia poderiam realizar o raro fenómeno de animar um cadáver.
Uma das razões pela qual o concerto foi escolhido - provavelmente a principal - foi a nacionalidade escocesa de D'Albert. Nascido em Glasgow (ascendência francesa-inglesa), D'Albert surgiu como a opção melhor para o Festival Internacional de Edimburgo, a realizar-se no Usher Hall.


Nas peças de charme - e muito em especial na Peça em forma de Habanera de Maurice Ravel - Guilhermina Suggia tinha uma magnífica elegância e graça.
Disse João de Freitas Branco a 12 de Julho de 1989, no Porto, que "quem a tenha ouvido tocar essa peça, essa pequena preciosidade, nunca mais, creio eu, poderá suportá-la noutra interpretação, mesmo que seja a do melhor que há no nosso tempo"».


No Manchester News de 15 de Novembro de 1919 lê-se:

«A interpretação do "Adagio e Allegro" de Boccherini por Madame Suggia, bem como de outros solos de Dvorak, Fauré e Popper, demonstraram o seu génio na apresentação de uma técnica perfeita, impregnada de uma contínua subtileza de tom e expressão».
O prazer musical é mais difícil de ser conseguido com peças menores, a não ser que o intérprete consiga transformar o que é banal ou monótono num momento de raridade. Suggia redime as composições.

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Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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março 31, 2004

Concerto de Elgar

Diário de Lisboa, 14 de Dezembro de 1938

«O Embaixador do Brasil em Portugal regressando de Inglaterra trouxe a notícia do êxito estrondoso de Suggia no concerto de Elgar no dia 10 de Dezembro de 1938 no Queen's Hall de Londres, com a orquestra sinfónica da BBC sob a direcção de Sir Henry Wood.
A interpretação da obra foi de tal modo notável que o público que enchia a famosa sala de concertos irrompeu numa espontânea e vibrante demonstração de entusiasmo, trazendo Guilhermina Suggia inúmeras vezes ao palco, entre aplausos frenéticos e calorosos».


Seara Nova, 5 de Junho de 1943

S. Carlos - 4° concerto da orquestra sinfónica nacional
«O 4º Concerto do chamado "ciclo da Primavera" (e que com boas razões já se poderia chamar estival) da O.S.N. teve o especial relevo da colaboração da grande violoncelista Guilhermina Suggia. Colaboração preciosa, escusado será dizê-lo, já pela categoria da artista, já porque ouvi-la é um prazer quási excepcional, tão raras vezes ela se apresenta, ou se tem ultimamente apresentado em público.
Ainda há pouco tempo tivemos ocasião de manifestar aqui mesmo nesta Revista toda a nossa consideração pela ilustre violoncelista, o nosso alto apreço da sua arte maravilhosa, para que se nos escuse o não entrarmos novamente a desfiar o rosário dos adjectivos em uso no estilo de jornalismo barato.
Suggia é uma grande extraordinária artista: isto vale dizer tudo. A sua interpretação do Concerto de Lalo, foi de urna qualidade de estilo única, de uma eloquência generosa, no 1º andamento, de uma qualidade de som encantadora no 2º, e de uma graça e vivacidade insuperáveis no último.
Excelentemente secundada pela Orquestra Sinfónica Nacional e pelo excelente "acompanhador" que é Pedro de Freitas Branco, Guilhermina Suggia teve no Concerto de Lalo uma das melhores criações que jamais lhe ouvimos.
Sempre perfeita, sempre elegante, sempre de uma sedução sem par, Suggia deu--nos ainda, o Kol Nidrei, de Max Bruch, o Allegro apassionato de Saint-Saëns, a Peça em forma de Habanera, de Ravel e a Dança do fogo, do Amor Brujo. de Falla, que confessamos nos parecer pouco própria a um «arranjo» solístico com orquestra. Extra programa e correspondendo ao entusiasmo do público, executou a ilustre violoncelista o Zapateado, de Sarasate, e uma Suite para violoncelo solo, de Bach, onde subiu às culminâncias da arte grande, servida por uma grande artista.
Como «novidade», apresentava-nos a Orquestra Sinfónica Nacional a 1ª audição (entre nós) do poema sinfónico de Strauss: Assim falava Zarathustra.
Valerá a pena perder tempo com «novidades» que já não são novidade nenhuma, quando há tanta coisa de facto «nova» ainda desconhecida e que espera ser revelada? Este poema sinfónico nada adianta no conhecimento que o público já tem da obra e da personalidade de Strauss. Para nós, pessoalmente, é ela mais um dos grosseiros erros da estética sensacionalista da sua primeira fase, onde a verdadeira música era substituída pelo «gesto» teatral, e o pretensiosismo «filosófico» escondia urna verdadeira carência de ideias («eu descubro tais ideias cada vez que ato os meus suspensórios», dizia pouco mais ou menos o espirituoso e lúcido Paul Dukas). Nietzsche-Zarathustra seria o primeiro a detestar esta música. Ele que a queria de pés de fogo, dispensadora de «embriaguês ditirâmbica», como poderia deixar de dirigir contra Strauss e a sua música pesadona e vulgar os sarcasmos de que crivou o pedantismo da cultura germânica contemporânea, e que o levou mesmo a renegar o seu grande amor de adolescente Wagner?
Historicamente, impõe-se um confronto: Also sprach Zarathustra foi composto um ano depois do Prélude à laprés-midi d'un faune (1894). Abstraindo mesmo do que possa haver de irredutível nas personalidades de Debussy e Strauss como representantes de culturas radicalmente diferentes, o confronto não deixa por isso de ser simbólico do ponto de vista puramente históríco-musical, como situando cronologicamente um conflito entre duas concepções da arte dos sons, uma que morria, outra que nascia, com todas as consequências que para a evolução posterior da arte dos sons advieram da vitória da simplicidade naturalista da écloga debussysta sobre a macissês filosofante do poema straussiano.

Fernando Lopes Graça


República, 16 de Fevereiro de 1946

«António Viana refere-se ao concerto do Teatro Nacional de S. Carlos "em que a colossal artista emocionou e encantou a assistência, que lhe fez justamente uma verdadeira apoteose. Tocou o concerto em mi-menor de Elgar com a sua arcada, que arrebata, com o brio e a expressão que só ela possue e ouvido em religioso silêncio, teve aplausos intermináveis, tendo de repetir o último andamento, gentileza justamente premiada com lindíssimos ramos de flores. Grande artista que honra Portugal e que já é uma das maiores glórias mundiais do violoncelo».


Diário de Notícias, 16 de Fevereiro de 1946

«Sobre este mesmo concerto pode ler-se num artigo assinado por A. Joyce que "Guilhermina Suggia, promoveu ontem aquele encantamento, que é também prodígio, de ampliar ao máximo as virtudes da obra. Conseguiu-o mediante aquele magnífico poder, privilégio dos inspirados. Supérfluo será dizer que a sua incomparável actuação provocou delirantes ovações, bem demonstrativas da impressão causada, como sempre, rara e inesquecível, mas semelhando cada dia mais funda. Às infindáveis aclamações correspondeu Suggia bisando o "Allegro molto" do Concerto.»

do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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março 28, 2004

Concerto de LALO

1937 (sem referência do jornal, dia ou mês)

Rui Coelho, ao afirmar que Guilhermina Suggia é uma intérprete genial, diz que o faz com prazer e com mágoa.
«Prazer, porque admirar nos consola. Mágoa, porque raras vezes as podemos escrever, Guilhermina Suggia-Mena tem frequentado pouco o nosso acanhado meio musical.

Oxalá o seu fogo sagrado agite mais vezes as almas dos que aqui desejam ansiosamente ouvir música, livremente, sem sujeições ao que na música tantas vezes serve para não dar aos espíritos, o que eles afinal nela procuram: o espírito das obras e não os seus efeitos técnicos; a alma da música e não o mistério mecânico dos seus segredos de laboratório.
Guilhermina Suggia-Mena teve na orquestra dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco, tanto no Concerto de Lalo. como no de Saint-Saëns, e no resto do programa, uma colaboração justa, atenta, elegante e muito valiosa».

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março 26, 2004

Música em casa de SUGGIA

Na sua elegante residência, M.me GUILHERMINA SUGGIA DE MENA e o Sr. Dr. Carteado de Mena proporcionaram a alguns amigos, raros e felizes, momentos inolvidáveis de convívio e de música. As fidalgas atenções...
Assim deveríamos começar em correcto estilo de «carnet mondain». Mas o talento, quando soberano, suprime o protocolo. Acaso pretendemos ser mais cortezes do que as inúmeras salas europeias que têm aclamado o nome famoso da virtuose ?

Digamos, pois, que é com íntimo sentimento de respeito que se entra em casa de GUILHERMINA SUGGIA. Ali vêem quebrar-se os aplausos do vasto mundo e ali, contraste cheio de encanto, se respira a calma de quem busca isolar-se na pequenez do monótono burgo natal. Desta sorte a grande artista reúne as vantagens da glória com as da obscuridade.
Ambiente de gosto e de cultura, todo em linhas nítidas, um pouco ao estilo do norte. Sociedade brilhante, predominando a língua britânica. O exílio na Inglaterra é doce e deixa nos repatriados uma nostalgia de segunda pátria. Entre ela e a violoncelista, a afeição é recíproca.
Ora, na colónia inglesa não faltam músicos excelentes. Todos os anos o demonstra o concerto da «Choral Society», festa sempre original e viva, com muita emoção, o seu quê de solenidade e outro tanto de humorismo. Neste meio, e a par dele no melhor círculo de artistas portuenses (em rigor, a uns e outros contamos como nossos), escolheu GUILHERMINA SUGGIA os executantes e os auditores do seu programa.
Vejam como se combinam agradavelmente os apelidos ingleses e os portugueses. A Miss Margaret Sampson contraporemos a menina Helena Costa: duas imagens da candura, reconcentrada a inglesinha como uma figura de Rosseti, a portuguesita sorrindo aos jogos cintilantes de Weber e de Debussy. A arte delicada de Miss Burnall e de Miss Flower deu-nos canções de lirismo requintado, a de Mr. e Mrs. Hubert Stutfield outras de forte e pitoresco relevo. (É necessário dizer que o cantor, director de coros e director de orquestra é uma das personalidades interessantes do Porto e que nunca mais o restituiremos ao seu país, agora que temos a fortuna de o ter cá ?) Enfim, a magnânima «hostess» tocou com a Sr.a D. Leonilda Moreira de Sá e Costa (Boccherini, Senaillé, Glazounow, Kreisler) e com Luís Costa (nada menos que uma sonata de Brahms). Estas poucas palavras dizem tudo.
A violoncelista vai dar dois concertos em Madrid e em breve fará uma jornada pela América. Seríamos tentados a ante-invejar esses longínquos ouvintes. Mas por confessável que fosse o feio sentimento, quem o pode conceber ao admirá-la tão nobre no seu lar encantador como nas grandes noites de concerto?
Most gracious singer of high poems !

(CARLOS RAMOS em O Primeiro de Janeiro, de 1 de Junho de 1928).

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março 25, 2004

3º Concerto da Sociedade de Concertos 8/5/1924

O terceiro concerto da eminente violoncelista GUILHERMINA SUGGIA constituiu um novo triunfo para a nossa compatriota. Acompanhada pelo ilustre pianista Georges Reeves, SUGGIA executou magistralmente todos os números do programa, afirmando mais uma vez aquele intenso dinamismo que caracteriza as suas interpretações – sempre correctas, conscienciosas e inexcedíveis.

No lugar de honra figurava a “Sonata em fá” para piano e violoncelo, de Brahms, interpretada por SUGGIA com a colaboração do director da Sociedade de Concertos JOSÉ VIANA DA MOTA. A extraordinária realização dessa obra colossal foi absolutamente digna dos gloriosos artistas que a animaram com aquele fogo de duas naturezas irmãs pela raça e pelo génio.

SUGGIA, VIANA DA MOTA e GEORGES REEVES foram alvo de carinhosas ovações, que nos proporcionaram numerosos trechos extra-programa – entre os quais o II andamento da “Sonata em mi menor”, de Brahms, o “Vito” de Popper, a “Aria em ré” de Bach e “Au temps jadis” de George Henschell. - F.L.

O SÉCULO, 9 de Maio de 1924

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março 22, 2004

Recital no S. Carlos em 3/5/1924

RECITAL DE GUILHERMINA SUGGIA


A intérprete máxima da literatura do violoncelo apresentou-se ontem em S. Carlos, numa das sessões da Sociedade de Concertos de Lisboa.

A profunda impressão de beleza que a nossa gloriosa compatriota nos tinha causado por ocasião do seu concerto com a orquestra “Pró-Arte”, renovou-se ontem com notável intensidade.

A parte puramente técnica das execuções de GUILHERMINA SUGGIA não permite qualquer juízo crítico, porque a genial artista é a primeira a esquecê-la, fazendo convergir todas as suas faculdades interpretativas na realização de um ideal estético absolutamente definido.

Sem fraquezas ou concessões de nenhuma espécie, sem desfalecimentos ou hesitações, a eminente violoncelista procura sempre atingir uma finalidade antecipadamente determinada pelas suas tendências e pelo seu instinto. Assim o que distingue as fenomenais realizações de GUILHERMINA SUGGIA é a sua espontaneidade sem limites, o seu assombroso realismo.

A ilustre artista é tão portuguesa pelo seu nascimento e pela sua educação, como pelos traços fundamentais da sua personalidade: na base emotiva das suas interpretações vamos nós encontrar aquele subjectivismo intenso e indestrutível que caracteriza a alma da Raça, e que se manifestou da maneira mais ampla no “Abenlied” de Schumann, tocado fora do programa. É decerto, desnecessário acrescentar que a ilustre violoncelista conseguiu manter, no decurso do concerto uma linha estética de extraordinária elevação.

Concorreu para o êxito absoluto desta sessão de arte o pianista George Reeves, antigo professor do “Royal College” de Londres, que acompanhou ao piano a nossa compatriota. - F. L.


O SÉCULO, 4 de Maio de 1924

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março 21, 2004

Temporada entre nós

GUILHERMINA SUGGIA

A exímia violoncelista, após uma brilhante peregrinação artística no estrangeiro, tenciona passar uma temporada entre nós


A nossa distinta compatriota. e exímia violoncelista D. GUILHERMINA SUGGIA, há tantos anos ausente deste país, e que por esse mundo, tanto e tão bem tem sabido dar lustre e tornar respeitado e admirado o nome de Portugal, encontra-se agora em Paris e tenciona visitar-nos muito brevemente.

Saudades da Pátria? Sem dúvida. Um vago plano de se mostrar, isto é, de encantar e comover os seus compatriotas com a arte sublime que é a sua e que ela serve sublimemente? Talvez, também, sim. E embora esse plano, porventura, não chegue a ser tenção, não passando dos limites dum desejo sentimental, embora a inspirada artista não venha até nós realizar uma “tournée”, os portugueses hão-de encontrar, certamente, uma maneira de lhe patentearem a admiração que merece e a estima de que é credora.

E assim, enquanto aqui descansar do seu demorado e esplêndido esforço, numa carreira de arte que tem sido uma série contínua e brilhante de triunfos, a distinta artista que é D. GUILHERMINA SUGGIA não terá nem ocasião nem motivos de se recordar, sentindo a amargura da distância, no tempo e no espaço, dos seus admiradores inúmeros e dos seus inumeráveis e admiráveis êxitos artísticos. É isto que, com vivo prazer, lhe auguramos.

DN 24 de Abril de 1923

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março 19, 2004

Concerto em ré maior, de HAYDN

Musical Standard, Fevereiro de 1928
«O mais marcante momento do programa foi a interpretação soberba de Madame Suggia do concerto em ré maior para violoncelo e orquestra de Haydn.
Não tinha ouvido tocar assim violoncelo desde que ouvi a última vez Casals; perfeição é a única palavra para isto. Dizer mais alguma coisa seria supérfluo.»


The Times, Janeiro de 1935
«O concerto em ré para violoncelo e orquestra de Haydn raramente soou tão belo como nesta ocasião, tocado como foi pelo magnífico virtuosismo e, ao mesmo tempo, pela mais íntima simbiose por Madame Suggia, a ligação entre solo e orquestra foi perfeita».

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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março 16, 2004

Crítica de "O SÉCULO" (A.J.) ao concerto de 6/6/1923

O 2º Concerto da “Filarmonia de Lisboa”

A confraria de músicos que Francisco de Lacerda reuniu deve estar contente com os resultados dos seus iniciais trabalhos. Depois do primeiro concerto, a cujo sucesso enorme já fizemos a necessária, embora incompleta, referência, esta segunda festa de arte foi pela concorrência do mais escolhido público e pelo delírio das manifestações, uma das mais belas, entre as mais brilhantes noites, de que há memória na história gloriosa do nosso S. Carlos. Nós que em matéria de arte nunca fizemos questão de pessoas nem de pátrias, poderemos ter no relato deste concerto sensacional o grato prazer de registar que o retumbante triunfo de ontem se deve apenas ao concurso de artistas portugueses, o que indubitavelmente reveste de uma alta e consoladora significação, o memorável festival da prometedora Filarmonia.

Francisco de Lacerda e a sua valorosa falange de músicos, que na sua apresentação conseguiram surpreender os mais exigentes, interpretando aquela sublime “Pastoral” de forma absolutamente superior, notável e inesquecível, confirmaram brilhantemente neste notável segundo concerto a magnífica orientação inicial, tanto na “Abertura do D. João” de Mozart, como na execução dos fragmentos do 3º Acto dos “Mestres Cantores” de Wagner e do sugestivo e poético “Nocturno” de H. Duparc. Em capítulo especial e com mais vagar, diremos as nossas impressões acerca do talentoso regente e dos seus colaboradores orquestrais. A gentileza de Lacerda e dos componentes do seu núcleo artístico será um dos motivos a exigir que dediquemos a GUILHERMINA SUGGIA os principais louvores desta notícia breve.

Que dizer, porém, nos apertados limites de tempo e espaço de que dispomos, dessa genial e portentosa intérprete, desse fenómeno maravilhoso que o mundo inteiro escuta com enlevo e para a grandeza do qual todas as palavras nos aparecem apagadas e poucas? Como explicar o milagre daquela arcada espontânea, nítida e profunda, daquela sonoridade de sonho, que não é a simples vibração de simples cordas, mas a expressão belíssima, ideal, do lirismo humano? Mergulhada na onda sublime da sua concepção interpretativa, na linguagem sonora, perfeita, a qual ora é branda, suave e graciosa nas suas comunicações, ora se eleva e engrandece nos paroxismos da energia e da paixão, a figura pictural de SUGGIA atinge as augustas proporções de um símbolo!

Não se concebe coisa alguma de mais perfeito, de maior, de mais completo! A arte difícil e superior da interpretação não pode ter representante mais idóneo, nem mais colossal. Interpretou Bach, Lalo, Haydn?? Não há que fazer citações, nem estabelecer preferências: todos os seus trabalhos foram soberbas criações. O público assim o compreendeu esplendidamente e fazendo a justiça de significar ao ilustre maestro Lacerda o quinhão que lhe pertencia nas apoteóticas ovações da noite.

Para dar uma nota deste entusiasmo sem precedentes, terminaremos noticiando que, findo o espectáculo, artistas e público, neste figurando o que há de mais ilustre nas letras e nas artes, acompanharam até à Praça de Camões, em triunfal cortejo, soltando-lhe vivas clamorosos, a grande artista, que da janela do Hotel Europa, onde está hospedada, agradeceu comovida e sensibilizada, as manifestações recebidas. A.J.


O SÉCULO, 7/6/1923

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março 15, 2004

Crítica de LUIS DE FREITAS BRANCO, ao concerto de 6/6/1923

S CARLOS

2.°Concerto da Filarmonia de Lisboa

Quem ontem assistiu a esta memorável noite, saiu do teatro, por muito pouca sensibilidade que possuísse, cançado de emoções, com os nervos destrambelhados, por ter ouvido GUILHERMINA SUGGIA.

Ontem, em S. Carlos, fez-se arte da mais pura, da mais elevada e também da mais intensa e sincera, houve o frémito divino que sacode e embriaga, que aperta a garganta e humedece os olhos como se fosse um sofrimento e é um prazer, como se fosse insuportável e desejar-se-ia, como o Fausto de Goethe, prolongá-lo eternamente.

Dizer depois disto como tocou SUGGIA, analisar a sua técnica da mão esquerda, a arcada, o seu estilo, parecer-nos-ia uma profanação, e além disso, como cremos já ter dito, não nos sentimos com a serenidade precisa para essas frias considerações.
A técnica da colossal artista é ilimitada, extraordinária a sua sonoridade, a arcada esplêndida, tudo enfim quanto representa a preparação de um violoncelista o mais completo que possa imaginar-se, possui-o a nossa genial compatriota no mais elevado grau. Imagine-se tudo isto e pense-se que mesmo assim não se terá uma pálida ideia do que é a arte de GUILHERMINA SUGGIA, porque todas essas qualidades, por muito importantes que as consideremos, desaparecem perante e espírito que as domina, que as aniquila, um espírito de intérprete que é um segundo espírito criador da obra de arte que lhe estamos ouvindo, uma sensibilidade aguda, intensa, dando a cada período, a cada frase, a cada ritmo o seu completo valor expressivo, parecendo ainda intensificá-lo, até nos deixar como estamos ao traçar estas linhas, exaustos de emoção, procurando em vão as palavras que não existem, para repetir o que SUGGIA nos disse numa divina linguagem.

Limitar-nos-emos ao enunciado das obras pela grande artista interpretadas, que foram os concertos de Haydn em ré maior e de Lalo, e a solo a «partita» de Bach em que se encontra a celebre «Loure», tendo sido a «Giga» da mesma «partita» executada em «bis».

O maestro Francisco de Lacerda, que ouvíamos pela primeira vez, é um regente de técnica moderna, que ontem revelou notável valor no modo impecavelmente clássico como traduziu a abertura do «D. João» de Mozart, na belamente graduada interpretação dos «Fragmentos do 3.º acto dos Mestres Cantores», na poética versão das «Etoiles» de Duparc, trecho que lhe é dedicado pele autor, e ainda nos acompanhamentos, em que foi admirável, especialmente no segundo andamento do concerto de Lalo.

À saída do teatro, uma multidão compacta de admiradores esperava GUILHERMINA SUGGIA, repetindo-se as delirantes e frenéticas ovações que a tinham acolhido durante todo o concerto, assim como a Francisco de Lacerda.

Como a genial artista se dirigisse a pé para o hotel, a multidão rodeou-a e acompanhou-a, soltando vivas e dando palmas entusiásticas.
LUÍS DE FREITAS BRANCO.

DN 7/6/1923

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março 14, 2004

Hoje no S. Carlos Concerto com SUGGIA

Filarmonia de Lisboa

Ansiosamente esperado pelo que de raro prazer espiritual promete, realiza-se hoje, em S. Carlos o segundo concerto promovido pela admirável orquestra Filarmonia de Lisboa, à testa da qual se encontra o notabilíssimo músico Francisco de Lacerda, e que com tanto brilho se exibiu pela primeira vez na passada quarta-feira. Este concerto de hoje, em que pela segunda vez vai ser admirado o escolhido núcleo de artistas que constituem a Filarmonia, tem ainda o interesse de apresentar peta primeira vez em Lisboa, acompanhada por orquestra, a requintada artista portuguesa, outra legítima glória nacional, a violoncelista GUILHERMINA SUGGIA, antiga discípula do notável mestre Klengel, que o foi também de David de Sousa. A nossa gloriosa compatriota ocupa hoje. entre os concertistas de arco, um dos primeiros lugares, podendo dizer-se com verdade que se alguns poucos com ela emparelham, nenhum a excede, até mesmo naquelas qualidades que são peculiares aos homens, a potência da sonoridade, o vigor da expressão e a resistência para as execuções mais difíceis e intensas. O concerto de Lalo e de Haydn, dois dos mais formidáveis monumentos da literatura do violoncelo, bem como a “Elegia” de Fauré, vão dar hoje a muita gente que nunca ouviu a nossa compatriota, a prova segura do alto nome que SUGGIA conquistou nos mais exigentes centros de música do mundo, e a abertura do “D. João” de Mozart e os “Fragmentos dos Mestres Cantores” darão ensejo a que se firme solidamente a reputação alcançada no primeiro concerto pela Filarmonia de Lisboa e pelo seu admirável e ilustre director.

DN, 6/6/1923

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março 13, 2004

O 1º concerto de Suggia, em Lisboa, com orquestra

TEATRO DE S. CARLOS

Concertos Sinfónicos sob a direcção de Francisco de Lacerda

Conforme noutro lugar anunciamos, abre hoje em S. Carlos a assinatura para dois únicos concertos sob a direcção do maestro Francisco de Lacerda, com a apresentação, no segundo, da grande artista portuguesa GUILHERMINA SUGGIA.
A estes concertos, que sabemos serem a primeira afirmação pública de um largo programa artístico da iniciativa do seu director, não é exagerado prognosticar um êxito notabilíssimo.

A orquestra, a Filarmonia de Lisboa, recentemente fundada por associação dos nossos melhores músicos, tem uma larga e simpática missão a desempenhar no nosso meio, e na sua própria organização tem já um legítimo fundamento de sucesso seguro; o seu director e regente traz um nome ilustre e uma competência consagrada em meios do mais exigente gosto musical, tendo no estrangeiro, mormente na França e na Suiça, dirigido notavelmente, durante anos, núcleos de execução orquestral e coral considerados entre os primeiros daqueles países, o que lhe criou a reputação de um dos primeiros directores de concertos da Europa; GUILHERMINA SUGGIA, uma autêntica glória da nossa terra, é justamente considerada hoje uma das raras notabilidades musicais do mundo inteiro e a sua apresentação em Lisboa, que ainda a não admirou na sua grandeza, tornava-se absolutamente necessária.

É, pois, lícito afirmar que estes dois concertos marcarão duas datas notáveis na historia musical do nosso país, as quais devem iniciar um novo período de actividade artística, sempre meritória e indispensável numa capital de um país, civilizada.


DN 26/5/1923

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O 1º concerto de Suggia, em Lisboa, com orquestra

TEATRO DE S. CARLOS

Concertos Sinfónicos sob a direcção de Francisco de Lacerda

Conforme noutro lugar anunciamos, abre hoje em S. Carlos a assinatura para dois únicos concertos sob a direcção do maestro Francisco de Lacerda, com a apresentação, no segundo, da grande artista portuguesa GUILHERMINA SUGGIA.
A estes concertos, que sabemos serem a primeira afirmação pública de um largo programa artístico da iniciativa do seu director, não é exagerado prognosticar um êxito notabilíssimo.

A orquestra, a Filarmonia de Lisboa, recentemente fundada por associação dos nossos melhores músicos, tem uma larga e simpática missão a desempenhar no nosso meio, e na sua própria organização tem já um legítimo fundamento de sucesso seguro; o seu director e regente traz um nome ilustre e uma competência consagrada em meios do mais exigente gosto musical, tendo no estrangeiro, mormente na França e na Suiça, dirigido notavelmente, durante anos, núcleos de execução orquestral e coral considerados entre os primeiros daqueles países, o que lhe criou a reputação de um dos primeiros directores de concertos da Europa; GUILHERMINA SUGGIA, uma autêntica glória da nossa terra, é justamente considerada hoje uma das raras notabilidades musicais do mundo inteiro e a sua apresentação em Lisboa, que ainda a não admirou na sua grandeza, tornava-se absolutamente necessária.

É, pois, lícito afirmar que estes dois concertos marcarão duas datas notáveis na historia musical do nosso país, as quais devem iniciar um novo período de actividade artística, sempre meritória e indispensável numa capital de um país, civilizada.


DN 26/5/1923

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março 04, 2004

O CONCERTO EM LÁ MENOR DE SAINT-SAËNS

Musical Opinion, 9 de Março de 1917
«A actuação de Mlle. Suggia revelou toda a grandeza. Ela executou Saint-Saëns não da maneira Alemã mas sim da Francesa, mostrando todas as suas boas qualidades, toda a sua amabilidade, a sua cortesia, a sua agudeza de espírito, e o requinte de execução no qual estas graças vivem sem sobrecarregar a música, com sentimentos tensos. As Variações de Böllmann possuem mais exuberância de expressão e de estilo, e nestas Mlle. Suggia colocou em realce uma energia apropriada, dando mesmo o toque do estilo satânico ao qual conduz a originalidade da música. Esta música foi executada, pensamos, de um modo mais gracioso do que qualquer homem poderia alguma vez ter a esperança de conseguir».

The Daily Mail, Novembro de 1929
«A solista da tarde foi a admirável artista, Madame Guilhermina Suggia, cuja interpretação do Concerto em Lá menor para violoncelo e orquestra de Saint-Saëns foi caracterizada pela mais rara beleza de som, pela vivacidade da emoção e pela perfeição técnica que caracterizam tudo o que ela fez».

Daily Telegraph, 23 de Outubro de 1930
«Mme. Suggia executou a sua parte do concerto como se toda a literatura da. música do violoncelo nunca houvesse sustentado nada tão divino. Ela parecia, igualmente, inspirar a orquestra (Orquestra Sinfónica da BBC, dirigida por Sir Adrian Boult) com o mesmo sentimento.
Foi chamada ao palco variadíssimas vezes».

Musical Opinion, Março de 1936
«Não houve efeitos, nem distorções rítmicas, nem ênfases exageradas de qualquer espécie: houve uma absoluta precisão técnica, uma constante perfeição da entoação e toda a peça foi envolvida com luminosidade e frescura.»


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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março 02, 2004

O Concerto em Lá menor de Schumann

The Ladie's Field, 7 de Junho de 1919
«Tocou com perfeita compreensão, com sobriedade e ao mesmo tempo com o charme que fez total justiça à obra. Acrescenta-se que a técnica é de tal modo perfeita, que nos esquecemos dela».

Sunday Times, 8 de Fevereiro de 1920
«E quase impossível encontrar algo de novo a dizer sobre a arte de Madame Suggia mas todas as suas aparições são um fresco deleite. A sua leitura do concerto para violoncelo de Schumann foi absolutamente subjugadora, não tanto pela perfeição do fraseado e beleza do tom, como pela impressão que se adquiriu de que Mme. Suggia estava absolutamente vivendo na música».

The Daily Mail, 27 de Outubro de 1922
«Suggia é soberbamente temperamental, sendo sempre ela que dirige o seu temperamento sem nunca ser dirigida por ele. No Concerto de Schumann anima com o fogo da sua personalidade o que de outro modo ficaria morto; com a esplêndida largueza de arco e a vivacidade do seu som, Suggia dá alento e brilho à peça».

The Times, 22 de Novembro de 1926
«O íman que atraiu a multidão ao Queen's Hall na tarde de sábado foi Mme. Suggia, cuja exuberante demonstração de virtuosismo e temperamento atrai todos os pregos da loja de ferragens. Todos os lugares, incluindo os que ficam atrás da orquestra, estavam cheios e todos os seus admiradores tiveram a plena satisfação de assistir à execução do Concerto para Violoncelo em Lá menor de Schumann».


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre", de Fátima Pombo

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fevereiro 29, 2004

Bach

Numa entrevista concedida a Marques da Cunha em 12 de Janeiro de 1943 e publicada em O Primeiro de Janeiro, Guilhermina Suggia afirma que prefere a música «especialmente dos séculos XVII e XVIII, Bach e Beethoven - acima de todos. Depois Haydn, Schumann, Schubert, Brahms, e tantos, tantos outros. Foi pena que Mozart (...) não tivesse escrito qualquer composição exclusivamente para violoncelo. Eu gosto de interpretar como sinto a música de Bach. Quase sempre as suas composições são executadas com demasiada austeridade, quando é certo que o seu autor não era possuído dum tal temperamento, pois ele próprio escreveu, para educação dos seus filhos, diversas músicas cadenciadas no agitado ritmo das danças. Antes de se interpretar a obra de um artista, é preciso compreender e sentir a delicadeza espiritual do seu temperamento. De outro modo, é falsear a Arte...»

Guilhermina Suggia acrescentará: «A predilecção pela música clássica não me impede de apreciar também a música moderna. Devo dizer-lhe mesmo que me interesso por esta música e que a estudo sempre que posso. (...) A música moderna define, na linguagem musical, a expressão exacta da vida contemporânea - feita de sobressaltos, de violências, sob o dinamismo impetuoso da vertigem».
Eu gosto de interpretar como sinto a música de Bach é uma afirmação que encontra o mais nítido eco nas críticas musicais ao Bach de Suggia. Há um estilo e uma relação pessoal e, portanto, única de Suggia com o autor das Suites para violoncelo solo.
O público e os críticos - em uníssono! - reconheciam a especificidade da interpretação de Suggia e desejavam-na.

Arts Gazette, 29 de Novembro de 1919
Escreve L. Dunton Green:
«Para mim ela foi sempre uma violoncelista incomparável, mas o que nos deu em Boccherini, em Huré, e especialmente em Bach, foi a execução duma grande artista, a sensualidade do seu tom passou a uma sobriedade de paixão serena. O modo como toca é não só de uma beleza sem falhas, como tem o auto-domínio sem o qual nenhuma arte pode viver. A precisão dos contornos e ritmos em Bach, o charme delicado em Boccherini, o sonho em Huré - nada mais perfeito poderia imaginar-se».

The London Mercury, Agosto de 1922
«('...) não é demasiado dizer que ela cria as suites para violoncelo solo de Bach através ao seu magnífico ritmo e estruturados "crescendi".»


Sunday Times, 12 de Novembro de 1924
«Ela alcança provavelmente o seu melhor nas suites de Bach a solo, onde nenhum conjunto de sons orquestrais ou de piano vêm escurecer a insuperável beleza do seu tom. Tem-se dito acerca dela que consegue fazer vibrar a sua audiência através da mera execução de uma vulgar escala, o que dificilmente constitui um exagero. Não existe, contudo, nada de suave na arte de Mme. Suggia. Ela não corre o perigo de cair na doçura, que constitui o principal defeito dos violoncelistas. Ouvi-la tocar os lentos andamentos do Concerto de Elgar, do qual poucos conseguem extrair a essência sem se tornarem maçadores, leva-nos a captar o significado do temperamento latino na Arte».


Glasgow Evening Standard, 22 de Outubro de 1926
«Tudo o que possa ser dito acerca de Mme. Suggia já foi provavelmente dito muitas vezes. É assim quase suficiente afirmar que Mme. Suggia estava na sua melhor forma. Admirava-se, a um tempo, o fraseamento, o tom delicado e calmo, e a articulação quase humana do instrumento, como uma fonte de algo que se aproximava do espanto. Foi, contudo, talvez no seu Bach a solo que a sua musicalidade atingiu o mais alto nível. Em suma, Mme. Suggia obrigou-nos uma vez mais a tomar consciência de tudo o que o seu nome significa no mundo da música».


Morning Post, 4 de Novembro de 1927
«Quarta-feira, no Wigmore Hall, ela tocou a Suite para Violoncelo Solo de Bach (em dó maior} com tanta eloquência e plenitude de tom que a harmonia implícita em cada frase se tornou tão real como se Mr. George Reeves, na sala dos artistas, facilmente a preenchesse.
O legato em dó menor da Bourrée constituiu uma das mais intrigantes experiências deste memorável recital».


Daily Telegraph, 1 de Dezembro de 1927
«Só se pode descrever o terceiro e último recital de Mme. Suggia no Wigmore Hall, na noite passada, como tendo sido um brilhante sucesso. Ela esteve no melhor da sua forma e teve uma audiência merecedora da ocasião. A sua actuação encontra-se tão próxima da perfeição como nada neste mundo de imperfeição pode estar. Não esqueceremos facilmente as suas oitavas no final da Sonata Locatelli (...) O seu programa estava dividido em três partes - duas sonatas do período clássico italiano, altura em que existiu um verdadeiro culto do violoncelo, uma suite de Bach a solo, a qual Johann Sebastian nunca poderia ter ouvido ser interpretada do modo como o foi na noite passada e, para finalizar, um grupo de modernas peças para demonstrar que o violoncelo pode derramar lágrimas de sentimento ou brincar amorosamente conforme o humor com que é tocado. Não houve um momento de monotonia. E, na Sarabande da suite de Bach, Suggia elevou-nos às alturas da música . Ela é uma intérprete maravilhosa, até mesmo no inimitável porte da sua cabeça».


Oxford Mail, 5 de Dezembro de 1930 A propósito da Suite n° 4 em mi bemol maior:
«Uma actuação magistral. A violoncelista deu-nos uma interpretação particularmente notável das duas danças populares e da giga».

Sunday Times, 16 de Fevereiro de 1936
«O som conseguido na Suite n" l em sol maior para violoncelo solo de Bach foi de uma única e magnífica classe».


A última crítica aos concertos de Suggia a que tivemos acesso foi a que apareceu no Glasgow Herald de 26 de Agosto de 1949.
«O recital de violoncelo dado por Guilhermina Suggia no Freemasons' Hall ontem à noite proporcionou uma noite de inesquecível prazer.
Tecnicamente não há ninguém que a supere e artisticamente amadureceu até um ponto em que não é possível imaginar mais avanços.
A maior possibilidade de Suggia como intérprete é a sua capacidade de identificar-se com o que toca. Para cada peça, seja qual for o período ou a atmosfera, ela imprime-lhe um entusiasmo que dá vitalidade a cada frase. O seu som é incomparável na sua pureza. Isto é a perfeição na interpretação do violoncelo e perante tal arte toda a crítica tem de ser silenciada.
A primeira parte do programa foi preenchida com compositores dos séculos XVII e XVIII. Foi uma alegria ouvir a primeira suite de Bach para violoncelo solo tocada com tal facilidade e tal fidelidade ao estilo. Em solos de Frank Bridge, Glazounov, Florent Schmitt, Ravel e Falla, a virtuosidade e a musicalidade andaram de par em par. O Chant Elégiaque de Schmitt foi extraordinário pela intensidade da emoção colocada pela interpretação de Suggia. O acompanhamento de Ivor Newton não foi suficientemente sensível nos momentos de solo, mas na Sonata em mi menor op. 38 de Brahms deu-se uma exuberante simbiose»,

Para este recital foi construído um estrado especial de modo a que a música de Suggia tivesse a melhor ressonância.
Ao chegar ao hall, Suggia viu que o estrado tinha sido coberto com um tecido de feltro. Embora apreciando a intenção, Suggia pediu a remoção do feltro, que seria inibidor do som. Disse ela que «tocaria no assoalhado». E tocou.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo


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fevereiro 27, 2004

Entrevista ao DN 3/6/1923

Numa entrevista a Mário Carregal publicada no dia 3 de Junho de 1923, no Diário de Notícias, entre outras revelações de Suggia, há a referência a uma criação de António Carneiro.
«Suggia é querida lá longe, tanto mais, talvez do que entre nós, onde o culto pelos grandes artistas quase se perdeu neste «mare magnum» revolto de egoísmos.
Suggia tem estado doente. À porta do seu quarto, o médico assistente, Dr. Carteado Mena, benemérito que, desajudado dos governos, tem curado, aos milhares, e sempre sem um insucesso, os desgraçados mordidos pela raiva, aconselhou:
- Não a fatigue; tem um poucochinho de febre... Quis recuar. Mas a voz de Suggia, que o meu ouvido sempre conservou, acudiu de manso:
- Entre, entre; é um pouco de «gripe»... Beijo-lhe, comovido, a mão. Digo quem sou e relembro um pouco do passado.
- Recordo, sim - diz sorridente -; recordo tão bem... Lá vão, pelo menos, - espere... - Vinte e três anos!... Se recordo!...
- Quanto tempo vai que saiu de Portugal?
- Há dezoito, dezoito anos!
- Que saudades das noites de Leça, da Foz, de Matosinhos... e os serões no Gil Vicente...
- Estive lá ainda há dias - diz-me, contente. - Com que silêncio amigo me escutaram...
Fitava-a. Suggia já não é aquela pequenina, não... É uma senhora, donairosa, ilustrada e gentil... A sua voz melodiosa, que a permanência no estrangeiro ligeiramente tomou, diz, de quando em quando, com infinita graça, uma palavra francesa ou italiana...
- Perdoe! Tenho viajado tanto que, às vezes, sem que eu repare, me escapa uma frase em língua estranha...
- De onde veio agora? - diga-me.
- Da Filarmónica de Madrid. Tenho corrido a Europa. Parara nessa terra hospitaleira e fidalga. E tinha tantas saudades, muitas saudades dos lugares onde passei a minha meninice, que vim... Se soubesse com que prazer, com que misteriosa, imensa alegria, tenho corrido, por vezes, um pouco deste Porto amigo!... Se soubesse...
O seu lindo olhar de grega, velado e doce, que em mim se pousa meditativo, traduz saudade...
- Sei que tem sido feliz, vitoriosa sempre... Tenho-a seguido na sua carreira áurea e gloriosa e linda...

O seu lábio crispava-se num sorriso comovido.
- É verdade! Tenho sido feliz, muito feliz... O grande público incita-me com seus bravos, guia-me com seus aplausos... Tenho sido feliz, disse a verdade... Quando rebentou a guerra vim para a França; fui enfermeira, não toquei... Mas, logo que os meus serviços não foram precisos aos feridos, voltei para a Inglaterra. Foi o único país onde a Música viveu durante o fragor da metralha! Dou-me lá tão bem... São tão meus amigos, os ingleses, tão nobres... Acolhem-me e recebem-me tão amigavelmente, que tenho a Inglaterra como a minha segunda Pátria. Quero-lhe como a esta que não se olvida nem em horas venturosas nem em instantes amargos... Corri a Rússia, a Bélgica, a Itália, a Suíça, a França, a Escandinávia... São dezoito anos desta vida errante, errante mas venturosa... Todos os salões - não o digo- oh! não! - por vaidade - se abriram para mim, que procuro merecer as distinções que me concedem, sempre estudando; aprendendo sempre...
- Onde reside, em França?
- Não, na Inglaterra, pois não lhe disse já que... Aos nossos bons músicos ninguém os conhece em Portugal.

- Tem razão, perdoe...Vai, então, para Lisboa, agora, sem que o Porto a escute de novo? Assim mo disseram...
- Não, não. Vou à capital tomar parte nos concertos da Filarmónica de Lisboa que, em S. Carlos, se realizam. Sabe que os seus músicos são oitenta e cinco dos mais ilustres professores, sob a regência habilíssima dum músico português, bem pouco conhecido em Portugal...
- Não sabia. Quem é?
- O Francisco de Lacerda. É, como eu, mais conhecido lá fora do que no seu país - o que não admira -vive-se lá longe, estudando intensamente, trabalhando com frenesi...
- Que peças vai tocar em Lisboa, posso sabê-lo, dizê-lo?
- Pode, sim. O «Concerto de Haydn», o «Concerto de Lalo» e, a solo, uma «Suite de Bach». Devo estar em Lisboa no dia 3, pois tenho que tocar no dia 6 e...«il faut voir»...
- E depois?
- Depois volto ao Porto, onde vim respirar o ar balsamizante da terra querida. Não quero, não devo deixá-lo sem lhe mostrar a minha gratidão, a gratidão da Suggia que ele viu e amparou e guiou pequenina, vai para mais de vinte anos... Tocarei no S. João, no dia 8, e também a solo.
- Mas são dois os concertos.
- Sim; mas só tocarei no primeiro. Sou obrigada a partir para Londres; há contratos imperiosos.
- É, então, alguma coisa de grande a Filarmónica de Lisboa?
- Muito, muito valiosa! Reunir, entre nós, tão grande número de professores ilustres, é esforço raro, titânico... Merece aplausos e auxílios.
É sua mãe, é seu pai que chegam e me recebem jubilosos quando Suggia lhes recorda os dias de há vinte anos...
- Mas recordamo-nos todos, sim... sim... é bem verdade!...
- Como é feliz! - murmuro.
- E sou. Todos os que amo estão a meu lado. Só minha irmã - recorda-se? A Virgínia abandonou o piano. Está em Paris. Mas minha mãe, meu pai acompanham-me sempre; têm, como eu, corrido a Europa inteira...
- Diga-me, Suggia, tem seguido a evolução da música entre nós?
- Pouco, embora o haja procurado fazer. Como sabe, estou distante há muito e - deixe-me dizer-lhe isto com mágoa - a música portuguesa é, lá longe, quase desconhecida!...
- É curioso! Tão ricas, tão lindas canções temos...
- Sim, sei isso; tenho-as pedido baldadamente... Só os «Fados» que Rey Colaço reuniu em colectânea que mais parece um abraço - eles mostrarão, no futuro, um pouco da nossa alma de meridionais, cheios de sentimento e bondade - só esses são conhecidos. A outra música portuguesa, onde há pérolas magníficas, não está recolhida. Se soubesse com que mágoa o registo tanta vez!...
- Creio. Deve perturbá-la não ter a seu lado, para a executar e ouvir, aquela doce melodia em que se embalou...
- Diz a verdade! Lá fora fala-se muito dos nossos escultores - é querido o Teixeira Lopes - dos nossos poetas, dos nossos pintores, dos nossos romancistas... Mas dos músicos - que mágoa! - não se fala!... E olhe que os «Fados» são conhecidos em França e na Espanha. Daí para além... Como compositor e artista, muito se fala em Vianna da Mota, que, em Paris, é vivamente apreciado. E deixe recordar outro nome - formidável nome de artista! - o Francisco de Andrade, o grande barítono português que, correndo o mundo, foi, nessa Berlim, e tanta vez, aplaudido pelo imperador! Vê como a saudade à mágoa se reúne...
- Esteve na Rússia, ouviu os seus cantares que dizem lindíssimos...
- E que formosos são! As canções russas, como as escocesas, são maravilhas de encanto, de suavidade, nimbadas de uma melancolia enternecedora e saudosa. A música da Escócia é a mais rica de toda a Inglaterra. Olhe que se repetem ainda hoje os «cantares» do século XVI! A sua tristeza, a poesia que os envolve, uma vez vinda até nós, jamais se esquece...
Suggia far-se-á ouvir no Porto. Um instante de silêncio. Eu via-a através da sua carreira gloriosa de violoncelista inigualável.
- Voltemos, então, ao Porto. Foi muito saudada no Orfeão...
- Fui, e não esqueço que, enquanto toquei, me escutaram numa tranquilidade profunda, que me enterneceu.... Sabe que esse silêncio como que inspira os artistas... Os meus «pianíssimos» foram tocados no meio duma paz quase religiosa, o que me mostrou a ânsia de querer guardar no coração as melodias! Não esqueço isto nunca mais, e hei-de dizê-lo em toda a parte... Essa noite do Gil Vicente não me sai do coração...
- O Porto não a esqueceu. Quando até nós chega um dos seus triunfos, quando o seu nome surge, escuta-se e repete-se com carinhosa ternura, hoje bem rara... Lisboa vai escutá-la assim; ela ama os artistas, quer-lhes... - Sim, o público português é bom... A guerra é que espalhou o mal pelo mundo, por todo o mundo...
Era tarde. Levantei-me para a despedida, quando Suggia me disse alegremente:
- Espere. Vou mostrar-lhe alguma coisa que não viu, que poucos viram.
E, retiradas de sobre as folhas de cartão, suas guardas cor de lilás, vi, maravilhado, uma sanguínea e um esboço a «crayon», do pintor Carneiro - o grande mestre pintor. São magistrais. Na sanguínea, a semelhança, a mansidão do olhar é inexcedível. Mas no esboço, Suggia, cingindo o violoncelo, a fronte levemente inclinada num gesto de inspiração divina, estende o braço numa arcada larga, misteriosa, beethoveana...»
Neste mesmo ano o Governo português atribui-lhe as insígnias de Oficial da Ordem de Santiago de Espada.
Suggia, em plena glória pública, oferece um concerto ao Orpheon Portuense em reconhecimento e memória do seu início de carreira.
1924 é um ano de prolixa correspondência entre Guilhermina e o pai, por causa da compra de uma casa. Suggia decide ter uma residência fixa no Porto para reunir o pai e a mãe, que há muito tempo viviam separados.
Augusto Suggia permanece geralmente em Portugal e a mãe faz-lhe longas visitas em Inglaterra.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:25 AM | Comentários (0)

fevereiro 26, 2004

Suggia estuda sempre

GUILHERMINA SUGGIA estuda sempre e com uma persistência e dedicação que o episódio seguinte bem caracteriza.

Em Londres, Suggia mora num segundo andar. A vizinha dela – Miss Caroline Mona Ada Marriott – queixou-se à sua senhoria – Mrs.Selina Vénus Wyatt -, reclamando uma indemnização pelo contrato de arrendamento não ser respeitado. No contrato diz-se que não será permitido aos inquilinos incomodar ou fazer distúrbios. Miss Marriott cedo descobriu que num dos apartamentos do andar de cima, Suggia, para além de dar aulas de violoncelo, tocava continuamente. O “barulho” começa pelas 10 horas da manhã e prolonga-se frequentemente até às 11 da noite. Diz Miss Marriott que lhe parece ouvir a mesma nota a ser tocada pelo menos 100 vezes em cada manhã. Acrescenta que Suggia mudou-se para lá no Outono de 1922 e até agora – 1924 – nunca deixou de tocar.
Miss Marriott ficou doente, consultou um médico e considera Mrs Wyatt culpada por permitir que o “barulho continue”.

A senhoria, Mrs Wyatt levou no dia 1 de Abril de 1924 o caso a tribunal. Mrs Wyatt afirmou nunca ter dado permissão a Suggia de dar lições. Uma outra vizinha – Mrs Amélia McCullum – que habita o apartamento por cima de Suggia foi ouvida como testemunha e afirmou que o som de Suggia é suficientemente alto para se ouvir, mas que nunca a incomodou.

O juiz disse a Miss Marriott que ela tem razão quanto às lições de violoncelo, mas que encaminhou mal a queixa. Devia ter apresentado queixa contra Suggia e não exigir indemnização a Mrs Wyatt que não deu permissão a Suggia para que desse lições de violoncelo. Perante o caso, o juiz tem que encerrar o processo com custos por conta de Miss Marriott.


Os jornais ingleses ocuparam-se vivamente desta história, fazendo amplos elogios a Suggia, que, apesar de famosa, estudava com a tenacidade de quem inicia a carreira. Segundo Guilhermina Suggia ela é a sua crítica mais lúcida e vigilante e, por isso, a mais severa.

“-Não fui nunca contagiada do mal de inveja nem do mesquinho sentimento da vaidade. Confesso, no entanto, que me sinto orgulhosa de mim mesma. Não me envaideci, nem me envaideço – pelo que sou e pelo que valho. Como artista sou sempre insatisfeita, buscando a todo o momento atingir a perfeição suprema. Estudo todos os dias – e estudo ainda, como outrora, para aprender o muito que me resta saber. Quando toco em público e sou feliz da minha interpretação, gosto que me aplaudam entusiasticamente, pois antes que o auditório se manifeste eu já me tenho aplaudido a mim própria, no íntimo contentamento dum sincero prazer espiritual. Eu sou o crítico mais austero do meu trabalho artístico. Por isso mesmo quando me convenço que não fui feliz na minha interpretação, não me envaidecem nem me comovem os aplausos ou as aclamações dos que me escutaram. Em minha consciência, essas manifestações são imerecidas. E, sendo assim, apenas as agradeço – mas não as aceito na reconhecida gratidão da minha alma de mulher e de artista…”

do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 01:34 AM | Comentários (0)

Estilo Suggia

Guilhermina Suggia entrega-se à comunicação sensual do que está na partitura e consegue a rara proeza de ter uma técnica rigorosa. Dentro de um estilo exaltado e brilhante, Suggia era uma artista total. E se, numa análise superficial, o que ressalta nas suas interpretações é a expressão, é porque a técnica é tão perfeita que nem se dá conta que está lá como suporte seguro.
Um estilo nem excessivamente clássico nem excessivamente romântico e seria incorrer em simplismo identificá-lo unilateralmente.

Intérprete romântica é o primeiro impulso para a nomear, porque o rosto e o corpo dela reflectem o humor de cada nota. Mas as notas não são todas românticas e ela é capaz de mostrar a pureza das frases de uma forma irresistivelmente convincente.
Tem sempre um ar de poderoso domínio: o violoncelo obedece-lhe e a audiência obedece-lhe.

Pode ser majestosamente austera na interpretação: “(...) mesmo nas elegantes frases líricas do movimento lento de Dvorak ela não se permitiu ser levada pela sua doçura, mas controlou-a e manteve-a bem entre limites, como tal nunca houve o subtil perigo da degeneração do sentimento em sentimentalismo”. - afirma-se no The Daily Mail de 5 de Março de 1939.

A interpretação de Suggia não era só para os ouvidos ou para os olhos, mas apela à complexidade sinestésica do indivíduo. A forma de ela tocar violoncelo é visceralmente atravessada pelo seu temperamento e pelo seu carácter de ser invulgar. A sua paixão, energia, vivacidade de espírito, generosidade, ressentimento cruzavam-se com instinto musical, fascínio, fazendo dela uma excitante dona do violoncelo.
Percorrendo as variadas críticas aos seus concertos, «glamour» é o adjectivo repetido, simultaneamente para o som e para o temperamento. «Glamour» de encanto, feitiço, fascínio, sedução.
De Suggia é preciso, aliás, afirmar que não só era a maior violoncelista, como um dos mais supremos artistas.
Toca com uma aura de total absorção e mestria que contagia a audiência. Quando começa, acende-se alguma coisa dentro dela e a música nasce, mostra-se não só através do rosto dela, mas de cada músculo do seu corpo que se movimenta com o violoncelo. Suggia possui a qualidade de magnetizar a audiência quando toca, levando-a se quiser ao cúmulo do entusiasmo. É comum ler-se nas críticas que os aplausos são estrondosos, ressoando nas salas, com assistências enfeitiçadas. Suggia, mais do que aplaudida, é aclamada.
Um episódio contado por João de Freitas Branco em 12 de Julho de 1989, no Porto, mostra como Suggia dá significado ao aplauso.
«Isto passou-se exactamente assim e foi o primeiro contacto que tive com, Guilhermina Suggia: no concerto do grande pianista Walter Giesekinng, no Teatro São Carlos, para os sócios do Circulo de Cultura Musical.
Eu, que era muito novo e tinha em Giesekinng um dos meus grandes ídolos, aplaudi-o de uma maneira juvenil, entusiástica e ruidosa. Chegou o intervalo. Guilhermina Suggia também tinha estado a assistir, numa frisa. (Eu estava na plateia; ela eslava numa frisa, com Malcolm Sargent.) Ao sair da sala, ia eu a virar para o corredor do Teatro S. Carlos quando me cruzo com ela a sair da frisa. A sensação que tive foi a de que uma pantera tinha saltado positivamente sobre mim: sem dizer mais nada, sem nunca me ter falado, ela deu-me um beijo. E depois, a seguir disse: "Assim é que se deve aplaudir um grande artista!" Quer dizer: ela tinha estado a reparar na maneira como eu tinha batido palmas e gritado para Giesekinng e quis-me mostrar, deste modo, que eu estava no bom caminho e que devia continuar a aplaudir assim os grandes artistas».
Dir-se-ia que o violoncelo era mais do que um órgão do corpo dela e que através dele ela deixava aparecer heterónimos.
Tinha movimentos largos e livres e o charme de quem sabe que domina aparecia-lhe no rosto oriental iluminado por um misterioso sorriso.
Quando a orquestra retomava uma secção e Suggia esperava pela sua continuação, sorria, mantendo os olhos cerrados. O público rendia-se-lhe.
Favorita dos deuses é o epíteto que melhor pode descrever esta jovem artista, pela sua incomparável interpretação das obras dos grandes mestres... E prossegue o autor em The Ladies' Field em 7 de Junho de 1919:
«A beleza do seu semblante de um primitivo tipo italiano, a boca amável, com uma sugestão de energia a mover-se nos cantos, o fulgor da alma, as rápidas mudanças da expressão de que a sua fisionomia é capaz! Observando de perto a artista enquanto toca, pode ver-se reflectido no seu rosto o estremecimento da alma com as mais violentas ou mais delicadas emoções».
No Brighton Herald de 8 de Dezembro de 1934 lê-se que:
«Pode-se ser perdoado por se pensar em Guilhermina Suggia como sendo a expressão musical do puma, das florestas sul-americanas, esplendidamente flexível, vigorosamente graciosa, imensamente decorativa, segurando pela trela da esboscada uma paixão dormente, até que, no momento do clímax, toda a brilhante inteligência salta e atinge o seu fim. É altamente excitante. E imensamente impressionante».
Num recital dedicado a Bach, no Wigmore Hall de Londres em 3 de Dezembro de 1929, declara o crítico no Musical Standard do dia seguinte que a ouviu e que a sentiu «com a expressão de uma rainha trágica».
O mais reputado e temido crítico inglês, Ernest Newman, afirma a respeito de Suggia:
«A vida em Londres tem as suas compensações musicais. Por exemplo ouvir Madame Suggia duas vezes em três dias. E um dos raros e realmente grandes intérpretes de instrumentos de corda».

A 29 de Janeiro de 1937 escreve Francine Benoit a propósito do segundo concerto da temporada na Sociedade de Concertos de Lisboa que:
«Além do excepcional talento de Suggia, há que admirar e render homenagem à sua energia, à sua força de vontade, ao seu domínio sobre uns nervos duma sensibilidade agudíssima. Tout se tient, dizem os franceses: naqueles nervos e naquela reacção forte da vontade está toda a maior característica da arte de Suggia. Dominaram novamente o palco - e o teatro todo, completamente cheio - a sua figura (...), as suas feições vincadas, as suas expressões pessoalíssimas (que têm sido tão imitadas...) e que nunca mais esquecem a quem as viu uma só vez. Sensibiliza porventura um pouco o público anónimo que Suggia nunca se digne abaixar - ou erguer - os olhos até ele, mas os artistas do traço e da cor admiram incondicionalmente essa viva imagem da arte no seu aspecto mais avassalante».
Se há um critério para Suggia, é Suggia. É bom seguir o som dela ao longo dos anos e constatar as nuances.
Um modo de o conseguir é através de críticas à mesma peça interpretada em anos diferentes.
Para o concerto de Dvorak recorremos também às palavras de Suggia.
Parece que Suggia mantém uma sonoridade poderosa - masculina, disseram-no - e a arcada voluntariosa. Porém, à medida que envelhece, se os nervos não vibram menos, há neles um domínio mais sereno, uma maior tendência para a doçura e o sorriso parece esboçar mais compreensão humana. Da orquestra exige Suggia também mais discrição, mais andamento, ritmo menos farpado.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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