julho 10, 2005

JULIUS KLENGEL

KLENGEL—1859—Um dos pedagogos e artistas alemães de maior reputação. Foi o melhor aluno de Hegar. Solista no Gewandhaus e professor do Conservatório de Leipzig, sua terra natal. Viajou muito na Alemanha e Rússia e tem formado muitos e bons alunos, entre os quais se destaca a nossa violoncelista portuguesa Guilhermina Suggía. O violoncelista português David de Sousa também foi seu aluno mas com ele pouco aproveitou.
E' também um excelente compositor para o seu instrumento destacando-se das suas obras o concerto em Ré Maior tocado em Lisboa, pela primeira vez, por Guilhermina Suggia no Salão da Trindade e com o qual fiz a minha apresentação no teatro de S. Carlos em 1916. Até à data não consta que tenha falecido.
DO LIVRO “O VIOLONCELO- SUA HISTÓRIA, LITERATURA, PEDAGOGIA E METODOLOGIA (1938-EDITORA GRÁFICA PORTUGUESA), DE ADELAIDE SAGUER

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março 30, 2004

concerto no Salão da Trindade

Em 21 de Novembro de 1903, Lambertini promove uma festa artística em favor das duas irmãs, onde estas se apresentam num último concerto, no Salão da Trindade, em Lisboa, antes da sua partida para prosseguir os estudos na Alemanha e Rússia.

Os subscritores da circular que participa a realização da festa são: as condessas de Almedina, de Almeida Araújo e de Proença-a-Velha, Maria Domingas da Camara, Elisa Baptista de Sousa Pedroso, Luisa Burnay, Maria Ferraz Bravo, o Marquês de Borba, os condes de Almeida Araújo e de Proença-a-Velha, o Visconde da Ribeira Brava, António de Noronha, Luís da Cunha Meneses, Alberto Pedroso, Afonso Vargas, Alexandre José Sarsfield, Alfredo Keil, António Lamas, Augusto Machado, Jerónimo Bravo, José Relvas, José Ribeiro da Cunha e Lambertini.

“Michel’Angelo Lambertini”, Museu da Música, Lisboa, 2002

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fevereiro 25, 2004

O Regresso de Leipzig

“Leipzig, 16 de Março de 1903

A Guilhermina foi muito feliz na cidade de Attenburg. A Guilhermina tem tido a felicidade de ser convidada para os concertos mais distintos. Tocou no dia 14 num concerto na sala Alberthall. Este concerto era o último de uma série de 6, para os quais são convidados os artistas mais em evidência.

É considerada aqui em Leipzig como uma celebridade e este Inverno os dois artistas mais discutidos e que melhor sensação causaram foram o violinista Jan Kubelik e a nossa Guilhermina. E isto na Alemanha, onde as notabilidades andam aos encontrões. Está agora em ajuste outro concerto, em Plauen no dia 25 deste mês, e logo em seguida nos vamos embora, porque os concertos acabam todos este mês. Ainda não sei ao certo se vamos direitos ao Porto ou a Lisboa, mas vamos por mar.

Augusto Suggia”


Em Portugal, paradoxalmente, ou talvez não, a primeira reacção ao êxito singular de Guilhermina é de uma hipocrisia que não engana ninguém.


“Matosinhos, 17 de Abril de 1903

à sua pergunta a respeito de dar aqui um concerto tinha imenso que lhe dizer, mas só à vista. Dizem que a Guilhermina é de cá e não nos faltará ocasião de a podermos apreciar.

Augusto Suggia”


Lambertini indignado escreve uma crónica na Arte Musical que tem repercussões nos orgulhos nortenhos.


“Matosinhos, 23 de Abril de 1903

O efeito produzido pela Arte Musical foi surpreendente, no Porto, e então neste momento em que já se andava a tratar de promover uma festa à Guilhermina no Orpheon a convite da Direcção.
Vou mandar-lhe alguns retratos de Guilhermina para, segundo é uso no estrangeiro, pôr em exposição onde o meu bom amigo entender”.


“Matosinhos, 30 de Abril de 1903
O concerto de Guilhermina a convite do Orpheon Portuense realizar-se-á no Salão Gil Vicente, na noite de 9 de Maio.
A Arte Musical parece que acendeu um pouco de brio que fez mexer esta gente”.


Em 9 de Maio de 1903 apresenta-se Guilhermina no recital para os sócios do Orpheon Portuense como diva. Entra no Palco com o ar distante de quem considera que aquele primeiríssimo lugar lhe pertence distintamente desde sempre. Quando começa a tocar, o público mais ofendido rende-se humildemente.
Interpretou nessa noite música de Volkmann, Davidov, Rubinstein, Godard e Klengel, acompanhada ao piano por Virgínia, que mais uma vez provou talento e segurança, recebendo também entusiásticos aplausos.
É com a irmã que sairá de Portugal para durante as temporadas musicais de 1904, 1905 e 1906 tocar por toda a Europa. Sem morada fixa a vida reparte-se por salas de concerto, hotéis, comboios, barcos. De alguns concertos há notícias. Em Abril de 1904 é na Sala Pleyel, em Paris.
A esse concerto assistiu, entre várias notabilidades de Paris, o maestro Colonne e o professor de violoncelo do Conservatório de Paris, Loeb.
O sucesso foi colossal, como podemos constatar pelas impressões que nos dá Dubois Meillaert:
“Logo que aparece, jovem, graciosa, os olhos sorridentes, a silhueta elegante, conquista as simpatias do auditório.
Senta-se em pose, o busto um bocado abandonado, numa deliciosa negligência e as suas pupilas claras e vivas erram sob a assistência.
Os primeiros acordes do acompanhamento escutam-se. Esta subitamente transforma-se. A jovem rapariga dá lugar à artista.
Do maravilhoso instrumento elevam-se sonoridades graves, ondulam harmoniosamente, planam no silêncio profundo da sala…
A melodia enche-se, cresce, domina, magnifica-se em acentos vibrantes, em ritmos extáticos, para se resolver em devaneio…
Agora, é a vida e o movimento. O instrumento trepida sob o arco fogoso, que vai e vem, parte incansável, enquanto a mão esquerda executa nas cordas uma ginástica atordoadora… e segura de si, a artista fremente liberta-se inteira, vibra com o seu instrumento, fazendo brotar sons estranhos numa vertigem endiabrada que o espírito apenas pode seguir.
A manga larga, de tecido solto, agita-se em todos os sentidos, como a asa de um pássaro ferido; ele própria parece envolvida no movimento e toma uma parte activa na interpretação.
A cabeça inclinada, os lábios cerrados, os olhos ardentes, a artista acelera, conduzida pela ardente paixão da sua arte… Sentimo-la impregnada desta obra que ela anima com toda a sua força, com todo o poder dos nervos excitados.
Um impulso breve: terminou… Levanta-se, distendendo o corpo (…) a sua fisionomia ilumina-se de uma alegria sincera. .. Ela sorri no seu belo sorriso.
E o público fascinado, subjugado, depois de ter permanecido ofegante durante a interpretação, deixa subitamente rebentar a sua admiração: o aplauso eleva-se, chama, reclama a artista; querem revê-la, exprimir-lhe a sua satisfação, o seu deslumbramento, o seu reconhecimento pela emoção vivida.
E ela, sempre sorridente – fresco sorriso de dezoito anos! – saúda, calmamente e com um contentamento nos seus belos olhos”.
No fim do concerto, coberto pelos mais calorosos aplausos, Colonne vai ter com ela e convida-a para tomar parte, com ele, nos concertos de Outubro desse ano.
Deste período em que é difícil encontrar críticas nos jornais, o melhor é seguir as impressões que Guilhermina escreve aos amigos em numerosos postais.

“Suiça – Só com data de 1904
Obtive em Basel grande sucesso. Já estou contratada esta época para a Alemanha, Holanda, Hungria, Inglaterra, Bélgica, Polónia, Itália, Escandinávia, etc.”


“Amsterdão, 27/1/1904
Fui felicíssima em todos os concertos em Londres, Haag e Amsterdão. Ontem aqui foi um entusiasmo como nunca vi”.


Paris, 13/3/1904
“ (…) é sublime a vista da parte superior do Arco”.


Do êxito do concerto em Paris temos conhecimento através de uma carta de Julius Klengel a um amigo:


“os meus agradecimentos por me ter escrito dando-me notícias do sucesso colossal que Mlle Suggia teve em Paris. Não estou, de maneira alguma, surpreendido com isto, pois sou, eu mesmo, o maior admirador do seu talento fenomenal. Estou firmemente convencido de que Mlle. Suggia será em breve a artista favorita da melhor sociedade concertista, porque tal maestria na execução combinados com temperamento musical tão maravilhoso, só podem ser encontrados no ciclo eleito dos artistas.
Com os meus cumprimentos”
J.Klengel”


E Guilhermina continuava a viajar, a estudar, a tocar, fazendo o endurance físico e psíquico que é exigido a um grande músico.
Tocar tanto em sítios tão diferentes implica viajar, noite após noite, com o sono perturbado nos wagon-lits e correr de partida em partida com bagagem e uma caixa de violoncelo pesada.
Mas ela prosseguia sem queixas, mostrando só o que é espectacular.


Manheim, 25/10/1904
“Fui felicíssima nos concertos que tenho dado.
Ontem Heidelberg, hoje Manheim regida por Eduardo Colonne de Paris.
Colonne abraçou-me como se eu fosse sua filha.
Entusiasmadíssimo. Vou a Paris em Janeiro. Hoje partimos para Mainz, amanhã Frankfurt e depois Leipzig”


Bremen, 13/12/1904
“O meu concerto em Bremen foi um delírio como nunca, toquei imensas vezes fora programa. Tudo está admirado!! Foi preciso o maestro Panzar dar sinal para a orquestra começar, porque o público não me deixava começar”.

Haia, Janeiro de 1905
“O público louco de entusiasmo.
Depois de um concerto na sala Bechstein, todos pensavam que o instrumento era italiano. Houve quem não acreditasse que era alemão. Fiquei contratada para toda a Inglaterra até 1906 pelo empresário Alfred Schultz Curtius”


Bayreuth, 4/2/1905
“Em Bayreuth fui felicíssima. Tudo entusiasmado com o meu instrumento”.


Praga,3/3/1905
“Março em Praga foi mais um entusiasmo delirante.
Falei com a filha de Dvorak que disse que a interpretação era como o pai desejava. Também falei com a irmã e a sobrinha de Popper”.


Viena, 7/3/1905
“Estamos em Viena há quatro dias. É uma maravilha!
Fomos anteontem ao Teatro d’Ópera ouvir o Freischütz de Weber. Sublime interpretação.
Ontem ouvi a Walküre de Wagner, mas que divina ópera!!”


Berlim, 11/3/1905
“estamos em Berlim há quatro dias, pois tive convite do ministro para tocar na delegação portuguesa numa festa surpreendente e de público escolhido na nata social: o príncipe herdeiro Guilherme, o ministro da Holanda, cônsules portugueses. Só faltou o imperador por se achar ausente de Berlim (…)
O programa constou só de músicas de violoncelo. Nesta noite falou-se imenso de Portugal.
Na ceia, o Príncipe teve lugar “vis-à-vis à moi” e falou toda a noite comigo. Atrevi-me a pedir ao príncipe para assinar o meu álbum (onde está também a assinatura do Nikisch) ao que ele respondeu prontamente “Mit viel Vergnüg” (Com muito prazer).
E quando todos o viram a escrever até me felicitaram por ter conseguido isso. O Príncipe ficou encantado quando me ouviu tocar”.


E prosseguindo a carta a Lambertini, a quem sem modéstias fictícias costuma desenrolar o êxito dos seus concertos, conta ainda que:


“Em Viena foi-me apresentado um compositor italiano chamado Sinigaglia e toquei com ele algumas das suas composições. Há pouco tempo foi executado no “Kammermusik” da Gewandhaus, em Leipzig , um quarteto dele. Tenciono tocar já em Estrasburgo algumas composições dele e depois em Lisboa. Peço-lhe, se tiver espaço, para referir na Arte Musical a minha admiração por Sinigaglia. Querem que eu vá para o próximo Inverno à América”.


Em Karlsbad em Julho de 1905 encontra o velho mestre David Popper (1843-1913) que escreve no álbum em que Suggia coleccionava autógrafos: “À maior dos violoncelistas vivos, Guilhermina Suggia, do seu velho confrade David Popper”.
Mas, deste encontro o que ela relata em 16 de Julho de 1905 a Guilherme Leite de Faria (um amigo da Família, em Matosinhos) é outra coisa:


“Pense o meu bom amigo que tive a felicidade de encontrar aqui o grande David Popper e aprendo imenso com este mestre. Popper toca ainda sublime, encantador.

Sua amiga leal”.


Qualquer intenção de seguir Suggia pelas salas de concerto seria uma loucura.
Com tanto mundo fica-se despaísado. Ela própria estando em Dresden em Dezembro de 1905 escreve ao mesmo amigo, Guilherme de Faria, que, “não é certo ir a Portugal”. Talvez só no ano de 1907”.


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 08:12 PM | Comentários (0)