agosto 06, 2007

GUILHERMINA SUGGIA PARTE COM SEU PAI, AUGUSTO SUGGIA, PARA LEIPZIG

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A cumprir seus fados desandaria Augusto, também, que na escolta de que se incumbe, a Leipzig, conduzindo a pupila, tardiamente concretiza desideratos que não desenvolvera. Embarcam em Vigo, tocam em Bremen, apreensivos da excessiva bagagem que lhes vem no encalço, como se em vera, definitiva migração fossem ambos. A algures entre os campos irá GuiIhermina aportar, aonde o exercício se lhe possibilite. Andará flanando pelas margens do Elster, a memorizar compassos e a planear glórias, agora que, por entre volumosas baforadas de charuto, lhe incute Julius Klengel, o professor, que não há trecho capitulando à liberdade de quem dele se abeire.

Instantes se davam em que convergia a natureza de ambos, por uma fala despoletada que de nenhuma outra forma se lograria proferir, o que era só a crispação do desejo. Dera já Klengel por única a ocasião, que se lhe patenteava, de uma aula de recuos que não de investidas, de assombro que não de chateza.

Filtravam os grandes vidros a luz estanhada do Inverno germânico, arrepiavase na aragem a corrente do rio. Como que por efeito do clima, tinha agora mais dúcteis os cabelos, sobre a meia face larga descaindo em bandós. De muito e recôndito sossego fazia a conversa com as cordas, admirada da frequência que soltavam. E era Leipzig, assim, a milhares de quilómetros, cintilante corpo solitário, divagando pelo espaço sidéreo.

Do livro “GUILHERMINA” de Mário Cláudio, recentemente reeditado

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julho 31, 2007

AS IDAS DE GUILHERMINA A ESPINHO PARA RECEBER AULAS DE PABLO CASALS

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A Espinho iria dar Pablo Casals, catalão e violoncelista, que firmara contrato para aparecer como membro de um septeto, a solo uma vez apenas por semana, no casino local. «Era o Casino de Espinho», lembrará meio século depois, «em realidade, uma casa de jogo.» Contava por então vinte e um anos, em seu dom confiado e em sua sorte, ao braço do instrumento adossando as miúdas feições de pernóstico preceptor. E, por conselho do pai, viria Guilhermina diariamente, de comboio, escutar-lhe a lição. No conceito desse mestre, tão jovem, afinal, mas tão maduro que a variedade dos temperamentos se diria reprovar, evidentemente se tratava, o que bastante temia, de uma futura notável. Essas expedições de solavancos, que do Porto a conduziam à praia apinhada de ociosos, bem didácticas se revelavam da autonomia da genialidade e do dever de a acalentar, da sumária indiferença que é necessário contrapor aos machos mentores, da eternidade do abraço em que ao peito se estreita o luminoso instrumento. Na convicção de estar, de certo modo, dilapidando dotes, assim é que Pablo exemplificaria.

Que poderia esperar de seus recursos a rapariguita esgalgada, sem piedade o olhando numa atonia pascácia? Havia cordas e dedos, já o explicara, uma expectação que tu¬do absorvia. Que poderia, pois, ensinar-lhe? Era como quando vem lastimar-se um amigo, não atinamos com que coisa fazer da ternura, da repulsa que nos resta. Mas era um fio, também, na tessitura geral, que o diálogo distraía. O homem tinha ela, em seu núcleo de brasas, aí onde verdade e engano se entrecruzam, decadência e grandeza. Que poderia fazer, encadeada a um texto que ninguém em definitivo traduzia? A cada instante lhe sussurravam a desistência, inquiriam porquê, da teimosia se riam. Seria isso, a música, um soluço de outra pátria, com sua capital de perfeitas artérias, seus frisos de oiro rebrilhando ao sol? Que tarde que se tornara, que frio, agora que haviam as ondas deixado de bramir. Acamava o violoncelo em seu estojo, avançava aos sacões, apitando, a longa composição.

Do livro “ GUILHERMINA”, de Mário Cláudio, agora reeditado

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junho 25, 2007

MOREIRA DE SÁ e GUILHERMINA SUGGIA

No Porto, o modelo sociocomunicativo dos concertos públicos estabiliza-se mais cedo do que em Lisboa — o que mereceria investigação sociológica aprofundada. Quem dinamiza todo o processo é Bernardo Valentim Moreira de Sá. Deve-se-lhe a fundação de uma Sociedade de Quartetos em 1874, de uma Sociedade de Música de Câmara em 1883, bem como de um Quarteto (1884) em que ele próprio é primeiro violino e que se mantém activo durante 30 anos, realizando nomeadamente a primeira audição integral portuguesa dos 17 quartetos de Beethoven. Além disso, a partir de 1891, Moreira de Sá funda o Orpheon Portuense (integrando uma orquestra sinfónica e um coro que constituem a base para séries regulares de concertos sinfónicos, corais-sinfónicos e de câmara, em que participam, como solistas, famosos virtuosi estrangeiros) e dirige no Teatro Águia d'Ouro os concertos sinfónicos da Associação Musical de Concertos Populares (desde 1900) e da Associação de Classe Musical dos Professores de Instrumentos de Arco do Porto (desde 1906), onde também dá a conhecer obras importantes do repertório clássico, romântico e moderno (cf. Borba e Lopes-Graça, 1956: II, 259 ss.). Sem esta tradição não se teria revelado, decerto, Guilhermina Suggia, que aos 7 anos já se apresentava em público, aos 12 anos assumia a chefia do naipe de violoncelos da Orquestra Sinfónica do Orpheon Portuense e, no ano seguinte (1898), passava a integrar o Quarteto Moreira de Sá em substituição de Joaquim Casella.
do livro " Pensar é Morrer ou O TEATRO DE SÃO CARLOS na mudança dos sistemas sociocomunicativos desde fins do séc XVIII aos nossos dias" de Mário Vieira de Carvalho

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novembro 16, 2005

RESUMO DA ACTIVIDADE ARTÍSTICA DE GUILHERMINA SUGGIA, NO "ORPHEON PORTUENSE"

Foram numerosas as actuações de GUILHERMINA SUGGIA nesta Sociedade, quer como executante solista, quer como componente de grupos de câmara ( nomeadamente do Quarteto Moreira de Sá) e ainda como elemento da Orquestra dirigida por Moreira de Sá, na qual ocupou o lugar de 1º violoncelo.
Contava GUILHERMINA SUGGIA 10 anos de idade quando se apresentou pela primeira vez a solo no “Orpheon Portuense”.

Cifra-se num total de 17 Concertos a solo e 32 em Conjuntos a sua actuação nesta Sociedade.

Antes de partir para o seu estágio de aperfeiçoamento em Leipzig despediu-se do “Orpheon Portuense” com uma admirável execução do Concerto de Saint-Saëns.

Decorrido apenas, precisamente, um ano de permanência em Leipzig aí fez a sua sensacional apresentação pública, em Dezembro de 1902, no Gewandhaus, com o célebre regente Nikisch.

Alguns meses depois, em Maio de 1903 apresentou-se com sua irmã Virgínia num recital no “Orpheon Portuense”, e quando se fixou definitivamente em Portugal em 1923 – em plena carreira gloriosa – teve a extrema gentileza de oferecer um concerto ao “Orpheon Portuense”.

Aqui se apresentou depois a grande Artista em vários Concertos – um dos quais repetido na Sociedade Filarmónica de Vigo, com Leonilde Moreira de Sá e Costa e Luiz Costa – e outro em 1930 ( repetição do Concerto de Sonatas efectuado em Londres, no Wigmore Hall, com Luiz Costa).

GUILHERMINA SUGGIA – Evocando… (1950)
(cedido por João Pedro Mendes dos Santos)

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abril 01, 2004

VIRGÍNIA trabalha para manter a família

Augusto Suggia conta que Guilhermina parte, nos primeiros dias de Novembro, para Leipzig e que ele a acompanha. A casa onde Guilhermina se hospedará pertence a Olga Katzentein, sobrinha do cônsul alemão nessa cidade. Esta escreveu dizendo ser já tarde para a entrada no Conservatório, embora, através de uma boa recomendação, isso seja ainda possível. Julius Klengel e Arthur Nikisch fazem parte das relações de Olga Katzentein, a qual diz saber que este último se mostra muito cativado com a forma como foi recebido e tratado em Lisboa. Augusto Suggia sugere que ninguém melhor que Lambertini pode conseguir este feito: «A minha filha Guilhermina, pede-lhe com o maior empenho e suplica-lhe de mãosinhas postas que escreva já para Leipzig a predispor bem aquelle mestre [Nikisch], ou outro qualquer que alli conheça, para que isto, que tem corrido tão bem, tenha bom resultado como nós todos desejamos.»

Lambertini é repetidamente abordado com pedidos de Augusto Suggia: ora para se divulgar notícias de suas filhas na “A Arte Musical”, ora para, em colaboração com Henrique Sauvinet, obter facilidades para a entrada das concertistas nas casas da Duquesa de Palmela ou da Condessa de Edla, prevendo que isso desencadeasse o auxílio de quem pudesse promover os estudos das suas filhas. Noutra ocasião, já em 1904, pede-lhe que escreva a Edouard Colonne para que este não se esqueça de como tinha apreciado ouvir Guilhermina tocar. Depois de obtida a pensão para a filha mais nova, a sua preocupação vai para Virgínia. A certa altura, conta que esta desejava muito ir a Lisboa tocar, mas que os custos da deslocação são incomportáveis. Augusto pede a Lambertini que consiga, através de Henrique Sauvinet ou da direcção da Real Academia de Amadores de Música, que esta instituição a receba num concerto e que, de alguma forma, consiga minorar os custos da viagem. Noutra ocasião, pede-lhe o favor de comprar um novo piano a Virgínia para que esta pudesse continuar a leccionar. É que Virgínia não tem como pagá-lo, pois todo o dinheiro que recebe é enviado para Leipzig. Augusto garante que se não for Virgínia, com o dinheiro das suas lições, a pagar a dívida, Guilhermina pagará mais tarde a despesa. Para além de todos estas solicitações, das quais Augusto Suggia tinha perfeita consciência, escreve também a Lambertini para enviar notícias dos progressos de Guilhermina, não se furtando a afirmar a sua gratidão pelo auxílio com que sempre contaram de sua parte.

“Michel’Angelo Lambertini”, Museu da Música, Lisboa 2002

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março 29, 2004

SUGGIA toca em Lisboa pela 1ªvez

Guilhermina Suggia (1885-1950) tocou pela primeira vez em Lisboa, no salão do Conservatório, em 25 de Março de 1901, integrada no Quarteto Moreira de Sá. No dia seguinte, a convite de Lambertini, Guilhermina inaugurou a primeira das Audições Musicais da Casa Lambertini com um recital de violoncelo que a apresentou, a si e à sua irmã Virgínia, à imprensa jornalística de Lisboa. Em 27 de Abril, as duas jovens estavam de volta às Audições Musicais no salão Lambertini.

Entretanto, Lambertini divulgava, na “A Arte Musical”, a urgência do aperfeiçoamento dos estudos das duas concertistas e a necessidade da protecção do Estado para que esta aprendizagem fosse feita no Estrangeiro. Em 3 de Outubro do mesmo ano, em carta a Lambertini, Augusto Suggia, pai das duas jovens, anuncia ter sido concedida a Guilhermina a pensão do Governo para que esta prosseguisse os seus estudos no Estrangeiro. Guilhermina deslocou-se então para Leipzig, onde tiveram inicio as suas aulas com Julius Klengel.
A jovem violoncelista vai dando notícias a Lambertini dos seus progressos, envia-lhe os programas dos concertos, conta-lhe que personalidades do meio musical, e não só, vai conhecendo, manifestando sempre, em cada carta, a sua gratidão para com ele.
Em 1903, depois de um concerto que ofereceu, em 11 de Junho, à Escola de Música de Câmara, e onde foi acompanhada por Virgínia, foi nomeada sócia de mérito dessa instituição. Em 14 de Maio de 1907, voltou a actuar na Sociedade, desta feita com José Viana da Mota. Pela sua colaboração, foi contemplada com a medalha da Sociedade, a qual visava premiar aqueles que tinham concorrido de forma especial para abrilhantar o trabalho daquela instituição.

“Michel’Angelo Lambertini”, Museu da Música, Lisboa 2002

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fevereiro 20, 2004

1896 - ano de referência

1896 é um ano de referência para a carreira artística de Guilhermina.

Depois de 1892 apresenta-se mais duas ou três vezes em público, acompanhada ao piano pela irmã, conquistando sempre os mais fervorosos bravos. De um concerto em Janeiro de 1895, lê-se assim uma notícia então publicada: “ os espectadores acolheram-nas com as mais vivas demonstrações de agrado, aplaudindo-as freneticamente de modo que as encantadoras crianças tiveram de executar outros trechos que não faziam parte do programa. Do entusiasmo da sala compartilhou também o pai das pequerruchas, sr. Augusto Suggia, que teve de aparecer no palco sendo efusivamente aplaudido”.

Em 22 de Maio de 1896 tem a primeira grande apoteose “profissional”_ trata-se do concerto no Teatro Gil Vicente, no Palácio de Cristal do Porto, para apresentação aos sócios do Orpheon Portuense. Toca L’Etoile du Nord de Lee, acompanhada ao piano por Virgínia e o Andante Com Variações (hino Austríaco) de Haydn, integrada num quarteto de cordas. Já não se trata de concertos para o público restrito das aristocráticas agremiações como o Clube da Foz ou o Grémio de Matosinhos, mas de um concerto numa sala sem dimensão familiar. O público se entrou com uma atitude condescendente – afinal sempre é uma criança que vai tocar – perdeu-a quando Guilhermina aparece no palco. Muito determinada, com um sorriso calmo e fazendo sentir o prazer que tinha com o violoncelo. Consta, além disso, que recebeu o primeiro “cachet”.

Nesse mesmo ano de 1896, a 22 de Setembro, toca pela primeira vez no Clube de Leça. Interpreta Valsa Brilhante de Lee e Arlequim et Papillon de Popper, acompanhada ao piano por Virgínia. Depois do primeiro concerto no Teatro Gil Vicente, Suggia participa em todas as temporadas artísticas do Orpheon Portuense, como solista, integrando agrupamentos de música de câmara ( com ou sem acompanhamento de piano) ou ocupando o lugar de primeiro violoncelo na Orquestra dirigida por Bernardo Valentim Moreira de Sá (1853-1924)

Por esta altura tratava-se bem no Porto a grande música. Moreira de Sá, Nicolau Ribas, Miguel Ângelo, Marques Pinto e Joaquim Casella organizam a Sociedade de Música de Câmara, para dar a conhecer ao público do Porto as principais obras de música de câmara, apresentando não só o reportório clássico, mas também as obras contemporâneas. O Porto mantinha-se numa linha de vanguarda, não perdendo as obras de novos compositores.
Em O COMÉRCIO DO PORTO de 6 de Maio de 1874 pode ler-se sobre a Sociedade de Quartetos – a primeira portuguesa no seu género – que com esta iniciativa se procurou “constituir uma Sociedade destinada a propagar o gosto pela música clássica, por meio de concertos ou sessões musicais, em que serão executadas as mais apreciadas composições de Haydn, Boccherini, Mozart, Beethoven, Schumann, Mendelsshon, Sphor, Ries, Weber, Schubert e outros que cultivaram a música de câmara”. A inauguração desta SOCIEDADE DE QUARTETOS fez-se no Teatro S. João em 10 de Junho de 1874.

Em 1883 funda-se a Sociedade de Música de Câmara com Nicolau Ribas, Marques Pinto, Moreira de Sá, Alfredo Napoleão e Ciríaco Cardoso. Em 29 de Novembro de 1883 realiza-se a primeira sessão de música de câmara promovida por esta Sociedade.
Um outro acto pioneiro do Porto foi a criação do Orpheon Portuense. O Orpheon Portuense designava uma sociedade coral de amadores, com sede no nº 155 da Rua do Rosário. Henrique Carlos de Meirelles Kendall, que aí habitava, disponibilizou uma das suas salas e o seu piano para se fazerem os ensaios, enquanto o Orpheon não tivesse instalações próprias. A primeira apresentação em público é feita num concerto da Assembleia Portuense em 4 de Março de 1882 com composições corais.
Embora tendo iniciado as suas apresentações com composições para coro, o Orpheon Portuense executa todas as formas musicais, desde a música de câmara até à sinfonia ou à oratória com solistas, coros e orquestra. Ao fim de 30 anos de existência é possível contabilizar cerca de 280 concertos com a execução de mais de mil obras diferentes, sendo em grande número obras com primeira audição no Porto e, por isso, em Portugal. Ficaram célebres, por exemplo, os concertos para orquestra, sendo interpretados pela primeira vez os Poemas Sinfónicos Parisina e Ave Libertas do compositor brasileiro Leopoldo Miguéz, com a presença do próprio compositor, e a Sinfonia “À Pátria” de Vianna da Motta. Foram interpretadas obras de música de câmara dos clássicos e dos românticos e até 1920, quase todos em primeira audição, entre outros, foram executados os quartetos de César Franck; Vincent D’Indy, Debussy, Dvorak, Saint-Saëns, Brahms, Hugo Wolf, Borodine, Conrado del Campo, Malipiero, Tanéiev e trios de César Franck, Brahms, Ravel, Tschaikovsky, Rachmaninov, Saint-Saëns… Igualmente se ouviram obras de literatura para piano, violino e violoncelo, também muitas delas em primeira audição.
A convite do Orpheon Portuense, foi possível que o Porto assistisse às interpretações dos mais notáveis músicos, muitos dos quais nunca se apresentaram noutro local português. A convite do Orpheon Portuense, vem Maurice Ravel a Portugal, mais concretamente ao Porto, para um concerto único em 24 de Novembro de 1928, com um programa constituído exclusivamente por obras suas, em primeira audição. A 1ª parte foi preenchida pela obra “ Le Tombeau de Couperain”, que Ravel interpretou ao piano, por “ Ronsard à Son Ame” interpretada pelo autor e por Madeleine Grey (canto) e pela “Sonata para piano e violino”, executada por Ravel e por Claude Lévi (violino). A 2ª parte foi constituída por Habanera, três melodias hebraicas ( Madeleine Grey – canto) e por “Pavana para uma Infanta Defunta”, interpretada por Claude Lévi (violino). O piano esteve sempre a cargo de Ravel.
A criação do Orpheon no Porto foi um acto pioneiro em Portugal, “Lisboa ainda não o tinha” e poucos havia, aliás, na Península. A acção deste organismo contribuiu estruturalmente para a implantação da música erudita no Porto e para a formação de uma cultura de que as gerações sucessivas de músicos não podem deixar de sentir-se descendentes. Deve-se à existência do “Orpheon” a introdução do género lied em Portugal, sendo no Porto que esta forma musical apareceu pela primeira vez em programas de concertos. Sobre a repercussão das iniciativas musicais portuenses, diz-nos Luís de Freitas Branco o seguinte:
“Quando comecei a estudar música em Lisboa, onde nasci e onde tinha residido, os círculos, de que me aproximaram os encarregados da minha educação, viviam em conflito aberto com a opinião lisboeta em matéria de gosto musical. Chamo opinião lisboeta, à corrente dominante em Lisboa, a corrente então característica do meio musical da cidade. Nela ocupavam os principais lugares de orientação musical, não os continuadores da tradição próxima de João Domingos Bomtempo, ou da tradição remota dos tempos em que na capital ensinavam Duarte Lobo e António Fernandes, mas os descendentes artísticos da decadência italiana, nos domínios da ópera e da música religiosa.
Vianna da Motta aparecia na Lisboa deste tempo como um meteoro, respeitado, aparentemente, por todos, mas, na verdade, apenas pelo pequeno círculo de oposição à corrente dominante. Mais tarde se viu que estes, e os seus continuadores, eram os únicos fiéis, porque os outros se voltaram contra Vianna da Motta logo que viram o momento azado.
Onde encontrava Vianna da Motta ambiente mais próprio da sua mentalidade e da sua arte? No Porto. E porquê? Porque Bernardo Valentim Moreira de Sá, com a criação do “Orpheon Portuense”, organismo então único em Portugal, dera os últimos retoques a um longo e metódico trabalho cultural: à obra do levantamento do nível estético dos espectáculos musicais e da mentalidade dos músicos e do público da capital do Norte.
Desde criança ouvi dizer que no Porto havia público para “música clássica” o que não sucedia em Lisboa.
Por muito meditar nesta inferior situação da capital e estando em constante ligação com Bernardo Moreira de Sá, dois amigos dele, dois portuenses residentes em Lisboa, pensaram em criar uma associação exclusivamente consagrada à música elevada. Eram eles: Michel’Angelo Lambertini e António Arroyo. Defendia esta agremiação uma revista bi-semanal. Chamou-se a associação: Sociedade de Música de Câmara, denominava-se a revista: A Arte Musical ( A Arte Musical é uma revista publicada quinzenalmente em Lisboa). Ambas eram dirigidas por Lambertini, sem dúvida a principal figura deste movimento, mas nele andaram sempre juntos Lambertini e António Arroyo, unidos por uma amizade nunca desmentida, que o génio vivo de ambos não empanou nem por um instante, numa vida inteira de assídua convivência.
Quem começara, no Porto, o que estes ilustres portuenses continuavam em Lisboa? Moreira de Sá.
Por vezes ( não tão frequentemente como os seus amigos residentes em Lisboa o desejavam ) Moreira de Sá aparecia em Lisboa. Lembro-me de um concerto no Salão da Ilustração Portuguesa, com a sua filha D. Leonilda, concerto que foi o grande acontecimento da época. Lá estavam, na primeira fila dos entusiastas, além de Lambertini e António Arroyo, Manuel de Oliveira Ramos, outro grande portuense, Jaime Batalha Reis, Augusto Machado, tudo enfim o que havia de mais elevado no meio musical de Lisboa.
Todos estes pertenciam ao grupo de Arte Musical, e ainda: Alfredo Bensaúde, o dramaturgo e crítico musical João de Freitas Branco, Alexandre Rey colaço e Sousa Viterbo.
Mais tarde, quem organiza a comissão de reforma do Conservatório de Lisboa? Um portuense: o Ministro Alfredo de Magalhães; quem preside a ela? Outro portuense: António Arroyo; quem decreta a reforma? O portuense Leonardo Coimbra, tendo como director geral o portuense Augusto Gil, poeta de génio, amigo íntimo de Arroyo (Costa, 1947, 69-72).
Em Março de 1901, apresenta-se no Salão do Conservatório de Lisboa o QUARTETO MOREIRA DE SÁ, criado em 1884, animado pelo mesmo desejo que presidiu à fundação da Sociedade de Quartetos e da Sociedade de Música de Câmara.
O QUARTETO MOREIRA DE SÁ, para além de Bernardo Moreira de Sá como primeiro violino, contava com Henrique Carneiro como segundo violino, com Benjamim Gouveia na viola, e com uma rapariga de 15 anos a assegurar o violoncelo. Logo no Quarteto em dó maior de Beethoven, o público compreendeu que a violoncelista possuía qualidades musicais e artísticas extraordinárias. Tal impressão teve a mais rápida confirmação quando, dias depois, se apresentou ela no Salão Lambertini, no recital para violoncelo com acompanhamento ao piano.
Neste mesmo mês de Março recebe a jovem violoncelista e irmã um convite para tocarem no Palácio das Necessidades tal era a curiosidade real perante os ecos da presença de uma singular violoncelista portuense em Lisboa. Para além da nata da sociedade lisboeta, lá estavam D. Carlos, D. Amélia, o príncipe Luís Filipe, os infantes D. Afonso e D. Manuel, a rainha Maria Pia… e Suggia, majestosa. No final do recital a rainha D. Amélia, certamente impressionada com a música que acabava de ouvir, pergunta a Guilhermina Suggia o que é que ela mais desejava. A violoncelista não hesita em responder que queria aperfeiçoar os seus estudos no estrangeiro. Prometem-lhe o mecenato.

Guilhermina Suggia, apoiada incondicionalmente pelo pai, quer concretizar o desejo já nesse ano lectivo de 1901-1902. Fazem-se todos os esforços. Do compromisso real vai Augusto Suggia dando conta ao seu amigo Michel’Angelo Lambertini. Em 6 de Abril escreve o pai a Lambertini que Suggia e Virgínia receberam, por intermédio do Governador Civil, “duas ricas pulseiras donde pendem dois corações com rubis e brilhantes, mimo de S. Majestade a Rainha. Acompanha esta dádiva uma carta do Conde de Sabugosa, em nome de Sua Majestade. Como o meu amigo talvez queira dar notícia disto, envio-lhe cópia da carta.”


………….

"Paço das Necessidades, 2 de Abril de 1901

Ill.mas e Ex.mas Sr.as

D. Guilhermina Suggia e D. Virgínia Suggia,

Encarrega-me S. Majestade a Rainha de enviar a V-as Ex.as as inclusas lembranças, para lhes testemunhar o agrado com que as ouviu na noite em que aqui estiveram.

DE V.as Ex.as Alt.o Ven.dor

Conde de Sabugosa "


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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A Infância de Guilhermina Suggia

GUILHERMINA SUGGIA não teve infância de bonecas. Apenas com dois anos pedia para a levarem para perto do pai para o ouvir a estudar violoncelo. E tinha já preferências musicais pedindo ao pai para tocar esta ou aquela música, porque mais lhe agradava.

AUGUSTO JORGE DE MEDIM SUGGIA, natural de Lisboa, era violoncelista no Real Teatro de S. Carlos e professor no Conservatório de Música de Lisboa. A Convite da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos para exercer o cargo de professor nas escolas da localidade muda-se com a família para o Porto, para a Rua Ferreira Borges, na freguesia de S. Nicolau. Não é possível ver a casa que foi demolida para dar lugar a novos traçados urbanísticos. É nessa casa que nasce GUILHERMINA AUGUSTA XAVIER DE MEDIM SUGGIA em 27 de Junho de 1885, com ascendência espanhola e italiana (florentina) pelo lado paterno. A mãe, Elisa Augusta Xavier de Medim Suggia, é lisboeta de gema.

Guilhermina tem uma irmã, três anos mais velha: Virgínia. As duas crianças dependem dos sons: Virgínia cumprindo as suas obrigações com o piano e Guilhermina entregando-se ao violoncelo. O pai, vigia-lhes o estudo, dá ordens de solfejo e insiste com a técnica.
Virgínia, talentosa para o piano, obedece, cumprindo devotamente as obrigações. É discípula da professora Thereza Amaral, que a considera intérprete brilhante, de grande rigor técnico e com uma intensa intuição artística.
Guilhermina começa a aprender música com o pai quando ainda não conhecia as letras do abecedário e nem sequer pronunciava as palavras com toda a clareza. À semibreve chamava “semibebe”, à mínima “mina” e à semínima “sumina”. Dividia os compassos com perfeição e solfejava correctamente. Um ano e meio depois chega o violoncelo de ¾ de Paris, mandado vir expressamente para ela, pelo visconde Villar d’Allen.

É já em Matosinhos, na casa que habitavam na Rua do Godinho, para onde se mudam depois do Verão de 1891 – antes habitavam em Manhufe, próximo da igreja de Matosinhos – que Guil é iniciada no violoncelo. O pai é o primeiro professor. Guilhermina recusa a autoridade e consequentemente as indicações rígidas. As lições com o pai são tempestuosas quando lhe diz que ela está a exagerar no estilo da interpretação. Guilhermina parece não poder deixar de estar ligada ao violoncelo à maneira dela. Augusto Suggia não deixa, no entanto, de lhe espiar o vibrato, o legato, a arcada, reconhecendo-lhe um desmesurado talento. Guilhermina mantém a ligação quotidiana ao violoncelo e não se lhe conhecem factos que a impedissem.

Há talvez, entretanto, um acontecimento que para ela pode ter sido insólito: o seu baptismo. Certamente sem intensas convicções religiosas decide-se baptizar Guilhermina a 6 de Janeiro de 1891. Tem ela seis anos e vai pelo seu próprio pé à Igreja Paroquial de Stº Ildefonso no Porto inclinar a cabeça à água de bênçãos inodora. Não se reveste de nenhum facto especial o acontecimento. Regressam a Matosinhos recolhendo-se da humidade invernosa. É possível que ela ainda tenha pegado no violoncelo.

É outro o acontecimento inesquecível.

Está-se em Outubro de 1892. Guilhermina tem o seu primeiro concerto público no aristocrático salão da Assembleia de Matosinhos. A apresentação à sociedade é organizada por Guilherme Ferraz, amigo da família e figura de destaque na vida social de Matosinhos.

Tinha sete anos e apareceu de vestido escocês pela canela, de gola branca, larga e aos bicos. Os vestidos de concerto serão sempre uma preocupação particular de Suggia. “Estar num palco é comunicar com o corpo todo e não só com o violoncelo”, dirá ela mais tarde. Não se sabe se esse vestido de xadrez foi especialmente escolhido por ela, mas é muito possível que não o tenha recusado. A mãe teve a oportunidade de contar que desde bastante pequena Guilhermina tinha opinião sobre as coisas que a rodeavam e lhe diziam respeito.

Neste primeiro concerto é acompanhada pela irmã, ao piano. Foi o primeiro assombro.

O JORNAL DE NOTÍCIAS do Porto, de 13 de Outubro de 1892, referindo-se a esse concerto, depois de fazer os maiores elogios à criança prodígio, descreve-a “sentada em microscópica cadeira abraçada ao violoncelo, fazendo lembrar uma dessas bonequitas, que são o encanto das da idade dela (…) E ela sorria e brincava com o arco do instrumento. E a arcada era firme e segura. Assombrosa criança essa, é tão assombrosa que damas e cavalheiros se levantaram para a saudar, cobrindo-a de beijos e palmas, que ela sorrindo, agradecia”. Guilhermina com 7 anos fez suspeitar os circunspectos menos dados à disposição de que ela tinha a fibra das excepcionais. O pai, há muitos anos professor de violoncelo, proclamava as virtudes prematuras de Guilhermina para o violoncelo.
Contava também com agrado que a filha tinha um ouvido privilegiado. Pequena de 7 ou 8 anos Guilhermina, acompanhada ao piano por Xisto Lopes, que, também tocava violoncelo, deu provas de um ouvido apuradíssimo. Xisto Lopes afinou o violoncelo porque ela não tinha força para puxar as cravelhas e entregou-lho dizendo para começar quando quisesse. Ela passa o arco pelas cordas e pára. Xisto Lopes insiste, mais uma e outra vez, mas ela não começava. Temia-se que Guilhermina decidisse não tocar. Mas ela levanta-se muito envergonhada e tímida e ao ouvido de Xisto Lopes diz-lhe que “o sol não está afinado”. E era verdade.

Numa outra altura, à mesa de um hotel em Coimbra, ela ouvia a classificação que Tomás del Negro e outros músicos davam às vibrações de diversos objectos. Alguém se lembrou de fazer vibrar uma grande taça com água, com peixes vermelhos dentro, que estava no meio da mesa. Tomás del Negro afirmou que esse som não era nada, não cabendo dentro de um tom nem de um meio tom. Seria um ruído indefinido, musicalmente nada. Mas ela disse muito baixinho ao pai que a vibração da taça era “um fá natural”. O pai repete em voz alta a classificação que ela tinha dado àquele som, o que fez gerar grande discussão. Levaram a taça próxima de um piano e constatou-se que era realmente um fá natural que a taça a vibrar produzia.


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre", de Fátima Pombo


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