maio 02, 2008

PRIMEIRA NOITE DE ARTE DE MARIA ALICE FERREIRA (10) - "O CONCÊRTO DE APRESENTAÇÃO DA VIOLONCELISTA MARIA ALICE FERREIRA COM A COLABORAÇÃO DA GRANDE ORQUESTRA SINFÓNICA DA EMISSORA NACIONAL"

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Quem é esta Maria Alice Ferreira? — preguntava-se, ontem, à noite, antes do concêrto, nas salas, nos vestíbulos, nos corredores do Teatro Rivoli. E, depois do concêrto, quando os quási dois milhares que a tinham ouvido deixavam os seus lugares, já não se preguntava:i Quem é esta Maria Alice Ferreira?, já não se murmurava em ar de argumento que tudo justificava e explicava: Dizem que é filha do grande industrial Delfim Ferreira! Exclamava-se, assombradamente, encantadoramente: É uma grande artista !

Esta frase sintética, expressiva, lapidar, colhida em muitas centenas de bôcas, em tantas bôcas, por certo, quantas as pessoas que haviam assistido ao concêrto, serve para aferir, grosso modo, a impressão do público.

Desconhecido, poucas horas antes (ou conhecido, apenas através das referências e dos anúncios dos jornais), o nome de Maria Alice Ferreira conquistara, efectuado o concêrto, a celebridade a que todos os artistas, legitimamente aspiram e que só excepcionais circunstâncias lhes permitem, a maior parte das vezes, obter.

O grande e ilustre nome de Guilhermina Suggia, que havia, naturalmente, servido de reforço para a curiosidade dos musicófilos, saíra na verdade, mais prestigiado, ainda, da audição. A discípula, em tudo e por tudo, era digna da mestra. À coroa de glória desta somava-se, com o triunfo indiscutível daquela, mais um belíssimo florão. Note-se, porém, que esse triunfo indiscutível é, principalmente, obra de Maria Alice Ferreira, da sua extraordinária personalidade artística das suas qualidades assombrosas de concertista. A mestra poliu, afeiçoou, integrou nos cânones da arte-ciència o temperamento duma artista nata, que é, já, grande e será maior se porfiar, rumo ao futuro de glória que, desde ontem, ficou aberto diante dela. A mestra disciplinou, metodizou, deu o inconfundível retoque a esse temperamento de excepção. E o resultado patenteou-se, ontem, de modo impressionante a um público enorme e entusiasmado que, interrogando-se, duvidando, talvez, a princípio, encontrou a resposta mais rigorosa e se certificou, em absoluto, finda a audição reconhecendo e proclamando, entre si, esse reconhecimento: Esta Maria Alice Ferreira, afinal, é uma grande artista!

De “O COMÉRCIO DO PORTO” de 5-V-1937
Cedido por Luís Sá Pessoa

Publicado por vm em maio 2, 2008 11:34 AM
Comentários

Relativamente a este post, posso referir que Delfim Ferreira (industrial textil), nasceu em Riba de Ave (Famalicão)a 13 de Dezembro de 1888 e faleceu a 24 de Setembro de 1960.

Quando, "em 1960, Delfim Ferreira morreu, era provavelmente a maior fortuna pessoal portuguesa"

in(Fortunas & Negócios:revista)

Afixado por: Eduardo Santos Carneiro em outubro 31, 2008 10:15 PM