dezembro 14, 2007

EXERCICIO ESCOLAR, REALIZADO NO SALÃO NOBRE DO CONSERVATÓRIO

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Mencionamos apezar de não ter recebido convite para assistir a elle, um Exercido escolar que no domingo, 23, realisaram os alumnos do Conservatório no bello salão d'este estabelecimento.

E fazemol-o com tanto maior prazer, que temos sido dos poucos, talvez o único jornal que tem pugnado pela repetição judiciosa, mas frequente d'este género d'audições, lastimando que se não façam muitas em cada anno lectivo.
No intuito de ter sempre os leitores ao corrente do que se vae passando em matéria de musica, no nosso pequeno meio artístico, colhemos algumas informações que lhes offerecemos gostosamente, mas com a reserva de tal ou qual forma justificada pela nossa forcada ausência.

No longo programma havia musica d'orchestra, musica de camara, coros, solos de canto e pecas para instrumentos de sopro.

Entre as primeiras destacaremos o Minuete de Boccherini, que sob a batuta do nosso amigo e novel artista José Henriques dos Santos obteve um ruidoso successo e as honras de bis; causou verdadeira admiração n'esta interessante obra a precisão e pureza com que o esperançoso alumno David de Sousa, detalhou o difficil harpejo do violoncello.
Tanto n'este minuete como no delicioso adagio de Haendel com que abriu o concerto mostrou José H. dos Santos quanto já vale, com a batuta na mão, e a quanto poderá chegar com a perseverança no trabalho e no estudo.

Os coros também foram muito ovacionados; dizem-nos maravilhas de certo trecho, cujo auctor se quiz occultar modestamente sob o réu do anonymo, mas que sabemos ser um dos nossos mais brilhantes compositores, que occupa no Conservatório uma posição das mais eminentes...

Coube também um largo quinhão de applausos aos alumnos pianistas, entre elles dizem-nos ser de justiça especialisar um moco de grande talento que em um transcendente Estudo de Sairít-Saens, mostrou ter adeante de si um risonho futuro, a que não serão talvez alheios os mais enthusiasticos triumphos.
Chama-se Hernáni Torres e é discípulo do; nosso bom amigo e collega Matta Junior.

D. Cândida Pires d'Azevedo e D. Beatriz Rocha, duas pianistas de raros dotes, discipulas respectivamente de Bahia e de Colaço, tiveram também um brilhantíssimo sucesso, de todo o ponto justo.
Da segunda alumna diz um jornal diario que merece menção especial pela maneira impeccavel como se apresentou no Capricho de Saint-Saens (sobre motivos de Gluck. que lhe cabia no programma ; não nos admira a referencia elogiosa porque temos tido por vezes occasiao de apreciar o amoroso cuidado que D. Beatriz Rocha põe em tudo que executa.

E com respeito a D. Cândida Azevedo, que nunca tivemos o gosto de ouvir, basta-nos o facto de ser discípula de Francisco Bahia para calcularmos que se não apresentaria n'uma audição d'estas sem a plena garantia d'um successo.

Desejamos ainda alludir a um oboista, de puríssimo som e grandes aptidões musicaes o alumno Wenceslau Pinto e ao clarinettista Domingos Castanho de Mattos, a quém já nos referimos elogiosamente em outra occasiao e que especialmente no allegro da Aria Variada que apresentou, foi extremamente feliz e mostrou notáveis progressos na sua difficil especialidade.

Na impossibilidade de fazer allusões especiaes a cada uma das obras que constituíam o programma, que, como já dissemos, era bastante extenso, fecharemos esta já longa noticia com um incondicional elogio a todos os professores e alumnos que concorreram para tão satisfatório resultado, animando-os a proseguir sem desfallecimento no caminho em que melhor poderão affirmar os seus constantes esforços.
“A ARTE MUSICAL” Anno II numero 48 de 31 de Dezembro de 1900

Publicado por vm em dezembro 14, 2007 11:25 AM
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