novembro 14, 2007

O PIANO DUPLO

IMG_0036a.jpg
Entre os instrumentos de musica postos recentemente em circulação ha um que merece honrosa menção n'esta revista, e que é também devido, como a Harpa chromatica ao engenhoso espirito inventivo de Gustavo Lyon, o actual director da importante casa Pleyel.
É o Piano duplo, uma intelligente simplificação, que permitte a dois pianistas assentarem-se em frente um do outro, a uma distancia de 2m,4o, dispondo cada um do seu teclado, das suas cordas e dos seus martellos, e partilhando só o tampo de harmonia que é o mesmo para os dois machinismos. Na sua simplicidade, é justamente este tampo de harmonia commum, que se affigurou impossível de realisar a muitos outros fabricantes, e alguns d'elles notáveis, que tentaram abordar a ideia, mas que na supposicão de que fosse impraticável, a abandonaram logo.

Na disposição das cordas, que são cruzadas para cada um dos machinismos, lembra a dos pequeníssimos pianos de cauda que Carlos Gounod, n'um dia de bom humor, baptisou de sapos (crapauds).
Uma particularidade que permitte produzir effeitos novos e assaz felizes. Ferindo-se uma nota ou accorde n'um dos teclados, as vibrações repercutem-se por sympathia, nas cordas do segundo, se houver a precaução de levantar, n'este ultimo, os abafadores.

Quanto á forma exterior do instrumento, terão os leitores de “A ARTE MUSICAL” uma ideia nítida, pela gravura que lhe offerecemos n'este numero.

Com o Piano duplo, o engenheiro Lyon attingiu duas vantagens essenciaes : a facilidade de accomodacão de dois Pianos de cauda n'uma sala, que não seja muito vasta e sobretudo uma admirável fusão de sons perfeitamente homogéneos, entrelaçando-se artisticamente, sem sombra de discordância cousa rarissima de obter-se em dois pianos differentes.

Estreiaram o Piano duplo em Paris, improvisando com rara felicidade, deante d'um selecto auditório, os srs. Raul Pugno, abalisado professor francez, cujas notas biographicas honram hoje este jornal, e Theodoro Dubois, o illustre director do Conservatório de Paris.

Depois d'esse primeiro successo, tem figurado o Piano duplo em innumeros concertos, em Paris, Londres e outras cidades, constatando-se sempre as qualidades que o tornam merecedor de um logar de honra na moderna industria pianistica.

“A ARTE MUSICAL” ANNO I, Numero 7 de 15 de Abril de 1899

Publicado por vm em novembro 14, 2007 12:04 AM
Comentários