outubro 23, 2007

"O CHALET MONTROSE" DEBATE 25 OUTUBRO

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Pertencendo à primeira época de edificação do Monte Estoril, quando se pensava torná-lo um centro turístico internacional, o Chalet Montrose detém, em elevada escala, os mais importantes valores patrimoniais dessa época fino-oitocentista.

Trata-se de um chalet de qualidade, composto dos dois corpos característicos (um, sugerindo «torreão», outro adossado, de figura rectangular), com uso abundante de madeiras, debruando os vãos e telhados, e sugestivo jogo cromático entre rosas e verdes secos. Até muito recentemente, esta casa parecia-me - sempre que lá passava, em romagem de saudade e alguma “fiscalização” - impecável. Nunca entrei, mas tenho a certeza que, apesar da sua aparência de casa de férias informal, seria certamente de elevada qualidade construtiva e decorativa. Convém recordar que, a Rainha Maria Pia, depois da morte de D. Luís, foi nesta casa que primeiro se instalou, por simpatia da família Reynolds, e antes de adquirir o seu chalet próprio sobre a Avenida Marginal.
Mas o mais importante desta casa, como de muitas outras, é o seu generoso e qualificadíssimo espaço de jardim. Não pela decoração - de estatuetas que me parecem modestas –mas pela riqueza e beleza das árvores, dos recantos e da atmosfera cálida assim gerada. Apesar das bárbaras construções envolventes, nomeadamente pelas cérceas vorazes, a extraordinária amplitude do jardim garantia que os valores dessa vivência antiga aqui permanecessem.
Ou seja, o Chalet Montrose sempre esteve, desde os anos 80, na lista das peças mais importantes do património de veraneio de Cascais: património arquitectónico e património paisagístico, num feliz e comovente entrosamento de valores. De tal forma assim é que, olhando a casa, podemos sentir que ela, como as árvores, tem raízes naquele terra que um urbanismo romântico tornou fértil.

3. A minha mensagem

Estamos, creio eu, naquelas infelizes situações em que, mais uma vez, nos vão dizer que nada há a fazer. Cumpriram-se regulamentos e índices, aprovaram-se expectativas legítimas. Estamos, claro, num Estado de Direito.
Mas o Presidente da Câmara tem de ser confrontado com esta perversidade: ao mesmo tempo que promove uma exposição no edifício anexo aos Paços do Concelho, anunciando o Plano de Pormenor do Monte Estoril para salvaguardar os seus valores característicos; ao mesmo tempo que os serviços de Património continuam a estudar e fundamentar situações de salvaguarda relevante; outros usam outras leis e outras normas que, digamo-lo claramente, têm contribuído para o enriquecimento indigno de quem entende o passado como um obstáculo ultrapassável aos mesquinhos interesses de lucro imediato. Destruindo todas as possibilidades de futuro. Indo contra a corrente que defende que o turismo, na nossa terra, só interessa para valorizar e estimular as heranças, como nesse tempo fundador aconteceu.
Infelizmente não posso estar presente nesta sessão. Mas saúdo os que se batem pelo direito à sobrevivência de casas e paisagens seculares que são documentos históricos fundamentais que nos interpelam: como garantir-lhes uso e função numa perspectiva de legado ao futuro?

Raquel Henriques da Silva
21 de Outubro de 2007

Publicado por vm em outubro 23, 2007 12:00 AM
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