outubro 07, 2007

JORGE PEIXINHO: "PERSPECTIVAS? TODAS AS PERSPECTIVAS"

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I -É uma pergunta bastante complexa.
Em primeiro lugar, há a distinguir o conceito de crise «positiva», digamos assim, em sentido evolutivo (acção interna e externa de renovação), ao de crise «negativa», que vulgarmente se traduz na acepção oposta (marasmo, conformismo, estagnação) .
Entrando directamente no problema, passarei a ocupar-me exclusivamente da crise na primeira acepção, ou seja, a crise activa, positiva, vital. E devo desde já explicar, na medida do possível, os conceitos de «acção interna e externa de renovação», a que aludi.
Com a «acção interna» pretendo definir as forças contrárias, paralelas ou convergentes, que se manifestam e se entrechocam em momentos de crise; a «acção externa» será já o aspecto exterior dessa crise, o seu desenvolvimento, as suas directrizes e a sua própria resolução em sentido histórico.

Para além de um lugar comum: o constatar que qualquer momento constitui um elo na evolução histórica e consequentemente terá o seu quê de problemático, de crítico, não me parece verdadeiramente que a música atravesse, no momento presente, uma particular crise. O último após-guerra, com a redescoberta de valores humanos inestimáveis, pôs em cheque toda uma mentalidade neo-clássica, desmantelando-a, corroendo-a até nos seus mais válidos alicerces: e assim se assistiu ao quase trágico retrocesso de um Hindemith, o grande renovador dos anos 20, à cristalização de Milhaud e dos sobreviventes dos «6», ao isolamento de Britten e de Krenek, enquanto, num país socialmente progressista como a Rússia, continuavam a pontificar paradoxalmente os epígonos do sinfonismo tardo-romântico.
Na Itália, em virtude de um formidável esforça de renovação (um novo renascimento post-bélico), assistiu-se à curiosa evolução de Petrassi e Dallapiccola.
Seria interessantíssimo ainda aludir a Stravinsky e a Messiaën, se o espaço mo permitisse.

O grande momento de crise musical do após-guerra deu-se entre os anos 49 e 53, com a descoberta de Webern e a revelação de Nono, Boulez e Stochausen. É claro que esta crise se acentuou nos anos sucessivos, e em sentido de uma progressiva racionalização. Chegou-se assim à serialização integral, a desvinculação do fenómeno sonoro (puntilismo), a um tipo de figuração não pré-ordenado (abstracto).

O segundo grande momento de crise deu-se com a chamada “obra-aberta” (concepção de influência extra-europeia que revolucionou o conceito de forma), a obra aleatória e a recentíssima música informal. O aparecimento de uma nova e singular figura (John Cage) está ligado ao ponto de capital importância que originou esta segunda crise: a necessidade de uma reacção à ultra-racionalização ao fenómeno musical.
Hoje assiste-se a um momento mais «pacífico»: a plena maturidade estilística e ideológica dos jovens compositores de 50 («Intolleranza-1960» de Nono; «Pli selon pli» de Boulez;”Kontakte» de Stocchausen).
Pelo que diz respeito à música portuguesa, a tão desejável crise ainda não se deu, e isso não é um sintoma positivo.

II - Tradição, no sentido de um elo cultural contínuo e orgânico que mantém características constantes ao longo de uma evolução histórica, não existe na música portuguesa. Haverá talvez a possibilidade de se reconstituir artificialmente, direi quase com um critério «arqueológico», uma linha de hipotética tradição entre os pontos mais salientes e mais originais da música nacional, mas tal processo é por demais vago e ingrato. Claro que, por outro lado, se uma tradição existisse, os compositores actuais situar-se-iam automaticamente nela, mesmo sentindo a necessidade de lhe imprimir, conscientemente, um novo rumo.
Creio, aliás, que o tão falado «problema da música, portuguesa» não é hoje senão um pseudo-problema. O período dos nacionalismos musicais, tão caro (por razões diversas) a ideologias políticas diametralmente opostas, está hoje ultrapassado historicamente. Tornemos às origens, abandonemos falsos racionalismos e nacionalismos retóricos, e consideremos que a música que escrevemos será fatalmente portuguesa, como a língua que falamos, como as características étnicas que possuímos, de portugueses que somos.


III - Todas as perspectivas. No plano da música vocal-instrumental, o caminho da música portuguesa, como o caminho da música em geral, deverá inevitavelmente ser condicionado pela «abertura» do espaço dodecafónico; e não tanto pela técnica em si, como pela nova organização linguística — livre de esquemas apriorísticos ou esteriotipados —, pela nova sensibilidade musical, pelo «universo» novo e fecundo que ela nos abre.
Devo ainda acrescentar que me referi de preferência a um problema linguístico e não a um problema técnico, já que, reduzir o primeiro a termos de puro tecnicismo, significa alterar-lhe o seu mais profundo significado.
Quanto à música experimental (concreta e electrónica), essa poderia também abrir novas e brilhantes perspectivas no panorama geral da música portuguesa. Mas como poderá isso acontecer num país como o nosso, onde não existe qualquer estúdio de fonologia, onde não existem técnicos especializados e onde aos compositores, portanto, se nega a possibilidade de experimentarem os novos meios de produção sonora?

Nota da Redacção — Foram ainda convidados a responder ao Inquérito, mas não o fizeram até à data de fechar este número, os seguintes compositores: Armando José Fernandes, Cláudio Carneyro, Elvira de Freitas, Filipe de Sousa, Joly Braga Santos, Jorge Croner de Vasconcelos, Rui Coelho e Vítor de Macedo Pinto.

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961


Publicado por vm em outubro 7, 2007 10:21 AM
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