outubro 01, 2007

FERNANDO LOPES GRAÇA: "A NOSSA MÚSICA TEM SIDO UM QUASE PERMANENTE COMEÇAR"

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I - - É sempre difícil e perigoso falar em crise, na música como em qualquer outra arte. Lá porque as coisas não vão a nosso contento, não se enquadram nas nossas concepções ou nos nossos esquemas, não satisfazem os nossos gostos, as nossas tendências, desatarmos nós a gritar que tudo está perdido, que o belo está em falência, que a verdadeira arte acabou? Decerto que há crises: mas podem muito bem ser crises de crescimento, mudanças de sentido e de perspectiva estética, cujo carácter de necessidade nós não apreendemos imediatamente, não raro tendo sucedido que o que não nos agrada hoje (e que nós logo fulminamos com a palavra crise, sem atentarmos muito bem na polivalência do conceito) acabe por nos agradar (por se impor) amanhã, — a crise sendo assim uma condição da própria evolução, da própria transformação da sensibilidade e das formas que esta reveste e por que se manifesta. Na música actual há sem dúvida aspectos que, pessoalmente, me não agradam; no entanto, antes de os condenar, antes de diagnosticar a crise, toca-me a consciência a rebate, e eu pergunto-me se não serei eu que estou em crise (a crise da idade, a crise do temperamento, a crise do meio, que tudo isto nos pode diminuir nas nossas faculdades de apreciação), sem que por tal entenda abdicar da minha liberdade crítica, isto é, da necessidade que ao meu espírito (a qualquer espírito não acorrentado) se impõe de analisar, de discutir, de formular juízos de valor, com a sua contrapartida, que é a possibilidade de errar.

II - Tradição musical portuguesa, se existe, é tão vaga, tão descontinua (e tradição descontinua já não é tradição), tão hesitante e historicamente tão tropeçante, que, na realidade, se torna altamente embaraçoso para um compositor nacional (quero dizer: aqui nascido e aqui actuante) tanto o decidir se a sua arte deve ou pode nela integrar-se, como o afirmar que nela está de facto integrada...
Se exceptuarmos o polifonismo vocal de Quinhentos-Seiscentos, em que uma certa comunhão de escopo, uma certa identidade de linguagem e uma certa transmissão de técnicas permitem seguir, através das suas diversas manifestações, uma tal ou qual linha de continuidade (afirmar, portanto, uma tradição), se exceptuarmos esse período, a nossa música tem sido um quase permanente começar, com poucas vantagens para ela e com todos os inconvenientes que para o artista, para o compositor, resultam do facto de se sentir sempre (quando sente...) desligado de um processo evolutivo normal, dessolidarizado nas suas tentativas de criação, que, por bem intencionadas que sejam e por mais logradas que se apresentem, se arriscam a ficar apenas como «casos» e raramente como “exemplos». E o cerne de uma tradição (entenda-se: de uma tradição viva e fecundante) não é jeito de «casos» (a contingência), mas sim de «exemplos» (a necessidade).

III — Se considerarmos essas técnicas como um meio e não como um fim, e se não postularmos (como já tem sido postulado) que elas estão destinadas a abolir as diferenciações nacionais («música francesa», «música alemã», «música italiana», «música russa», e música brasileira», etc.) para rematar numa arte uniformizada, numa arte universalista ou, melhor, anacional, — não se me afigura impossível ou indesejável que elas abram perspectivas à música portuguesa. Pelo menos no que se refere ao dodecafonismo (serial ou não serial), já com os seus pergaminhos; porquanto no que respeita à música concreta e à música electrónica, antolha-se-me ser aquela apenas uma arte auxiliar (a que não sei se caberá com propriedade o nome de música), e esta por enquanto tão-só uma experiência, legítima, sem dúvida, mas ainda não suficientemente desembaraçada do seu imediato condicionalismo «científico». - O que será para recear não é que essas novas técnicas façam a sua entrada em Portugal (o dodecafonismo já cá entrou, e não seremos nós que o iremos expulsar...): é sim que, ao serem adoptadas, venham a constituir mais um dos tais «recomeços» a que acima aludíamos, isto é, que venham a resultar numa «fórmula» que se substitui pura e simplesmente à «fórmula» anterior, comprometendo-se assim mais uma vez a já de há muito comprometida unidade orgânica da música portuguesa, — quer entendamos a expressão «música portuguesa» no sentido de «nacionalismo “folclorizante” (de facto historicamente ultrapassado), quer no sentido de «nacionalismo essencial» (porventura ainda fecundo), quer ainda no sentido de uma música movendo-se no seu âmbito próprio, de uma música nacional por força e virtude do seu mesmo «estilo» (com todas as implicações que o conceito de «estilo» comporta). Se é que os dodecafonistas ortodoxos dão licença que uma tal música exista ou tenha direito a existir...

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em outubro 1, 2007 10:56 PM
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