setembro 23, 2007

MARIA DE LOURDES MARTINS: "O DODECAFONISMO, A MÚSICA ELECTÓNICA E A MÚSICA CONCRETA JÁ NÃO SÃO "NOVAS TÉCNICAS"

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I -Parece-me que “crise» não é a palavra exacta para exprimir toda a
amálgama de ideologias, inquietações, necessidades e tendências que caracteriza a música de hoje.
Esta diversidade idiossincrásica, própria do período de transição em que presentemente nos encontramos, acumula-nos de composições de interesse apenas experimental, de tentativas de menor ou maior projecção, de manipulações de oportunistas sem escrúpulos, mas também nos oferece obras de real valor.

É evidente que a geração post-weberniana se vê a braços com responsabilidade desmedidas, provocadas pela herança de novos factores sociais, socialistas, culturais, científicos e filosóficos, legada por duas grandes guerras mundiais. A reintegração de antigos instrumentos, a criação de outros e o espantoso desenvolvimento atingido pelos instrumentos electrónicos que nos proporcionam modos de expressão inteiramente novos, obrigam a novos princípios estéticos, novas técnicas e novas concepções formais. Mas não será tudo isto uma maravilhosa fonte de riqueza? — Uma riqueza que serve apenas aqueles que a sabem utilizar: Boulez, Nono, Maderna, Stockhausen... e aqueles que, por enquanto em número limitado, a sabem apreender...

II — Existe, quando muito, uma relacionação de ideias entre alguns compositores portugueses, mas não uma tradição como os alemães consideram Beethoven-Max Reger-Hindemith uma linha de continuidade através de séculos.

III — O dodecafonismo, a música electrónica e a música concreta já não são «novas técnicas». O dodecafonismo já foi ultrapassado e a música electrónica e a música concreta já deixaram a sua fase inicial e encontram-se num período de franca evolução.
Desde 1953 que existe música electrónica mas as experiências de Werner Meyer-Eppler datam já de 1949. Logo após a fundação do «Estúdio de Música Electrónica» em Colónia, sob a direcção de Herbert Eimert, vários países apoiaram iniciativas semelhantes, criando-se novos estádios em Itália, Japão, América, Bélgica, Polónia, França, Suécia, Dinamarca, Inglaterra, etc.
A música concreta também já tem uns 14 anos - está portanto na adolescência...

Quando mais ninguém tiver nada a dizer, «as velhas técnicas” (novas técnicas para nós) farão a sua entrada triunfal no nosso pais; mais uma vez se cumprirão os fados e as perspectivas da música portuguesa continuarão como até aqui. Sim porque nisso temos uma tradição...

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em setembro 23, 2007 12:05 AM
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