setembro 20, 2007

FERNANDO CORRÊA DE OLIVEIRA: "SIM, HÁ UMA TRADIÇÂO MUSICAL PORTUGUESA..."

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I - A pergunta é tão vasta que se torna difícil responder. Há tanta diversidade na música contemporânea! Será essa pluralidade de aspectos sintoma de «crise»? Em meu entender, não. Numa época como a nossa, era de esperar precipitação de factos artísticos, paralela à que se verifica em todos os domínios do saber humano. Não há crise; há aceleração. Poderíamos, em verdade, falar de crise se nos referíssemos à situação do compositor em re¬lação ao editor, ao executante e ao público. Aqui, sim, há crise, pois se desencontram forças: aspirações reformadoras do primeiro, interesses comerciais do segundo, inércia dos dois restantes. Mas tudo isto constitui um amamento de crise» (diria melhor, uma época de crise} para o músico, que não para a música.

II — Sim, há uma tradição musical portuguesa que se deve aos compositores portugueses. Sendo assim, não veio que exista problema e encontro, até, mistério na dúvida que ressalta da segunda parte da pergunta: «...os compositores actuais: devem (ou podem) integrar-se nessa tradição?».
Por que se há-de duvidar que queiram (e possam) integrar-se numa coisa que lhes pertence de facto? Permita-se-me acrescentar que o desejo de manter os compositores portugueses unidos no propósito de fazerem música portuguesa é supérfluo: primeiro, porque os factores raça e educação bastam, na maioria dos casos, para estabelecer um elo, ténue que seja, entre as suas obras; segundo, porque aquelas que constituírem excepção à regra merecerão, igualmente, existir, dado que é primordial serem, as criações dum compositor, afirmação do indivíduo e, só secundariamente, expressão de relações com o grupo étnico a que ele pertence.

III - Precisamente as mesmas que a qualquer dos países onde essas técnicas de composição já são aplicadas. O dodecafonismo já é praticado entre nós, se bem que raramente, e, graças ao disco, não são já tão poucos quantos alguns crêem os ouvintes que sinceramente o apreciam. Prevejo uma progressiva aproximação para esta técnica, por parte dos jovens compositores portugueses. Ê também crível que se formem ramificações saídas do tronco central do dodecafonismo. Releve-se-me a referência à «harmonia simétrica» e ao «contraponto simétrico», que considero como tais. Com respeito a música concreta e à electrónica, è possível que se crie um grupo de compositores especializados e não me admiraria se fitassem mais ligados à Rádio e Televisão, ao Teatro e Cinema do que às salas de concerto.

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em setembro 20, 2007 08:08 AM
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