setembro 19, 2007

Padre MANUEL DE FARIA: "CRISE AVIADA NO SENTIDO DE UMA RENASCENÇA"

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I - Sem dúvida, embora uma crise aviada no sentido duma Renascença, com muitos pontos de contacto com os séculos IX-X (à procura da Polifonia), XIII-XIV (invenção da Ars Nova) e XVI-XVII (“Cammerata Fiorentina» e «ricercare» da música instrumental), mas com a agravante de hoje tudo decorrer artificialmente a velocidades supersónicas (o que dantes levava 400 anos hoje pretende-se dum dia para o outro). A ideia revolucionária do corte radical com a tradição e a pretensão orgulhosa (como nunca) de criar tudo “ex nihilo” deixa-nos sem a mínima segurança do terreno sobre que construir e entregues à mais completa arbitrariedade crítica.

II — Creio que sim, embora não saiba bem concretizá-la com exactidão. Quando mais não seja, temos a canção popular nitidamente individualizada, com raízes inegavelmente abeberadas na primigénia fonte trovadoresca e reflexos mais ou menos fundos na renovação musical da primeira metade deste século.
Quanto à integração dos actuais compositores nessa tradição, não vejo mesmo outra saída, pois como vamos assimilar culturas estranhas, se não somos capazes de assimilar a nossa? Se no passado nos faltam «grandes» é precisamente por olharem mais para fora do que para dentro.


III — Confesso a minha perplexidade na resposta a este ponto. Sinto-me até envergonhado, mas cumpre-me dizer a verdade: — o dodecafonismo exclusivo e sistemático não me convence. Por mais esforços que tenha feito (e tenho feito de facto), não consigo captar a sua mensagem. É uma música que me interessa, como compositor, pela sua novidade (isso sim), mas que me não toca; E eu sou daquelas pessoas que pedem à arte e muito especialmente à música uma emoção, seja ela qual for.
Entendo no entanto que, pondo de parte o exclusivismo, como contributo para o património geral da arte musical, o dodecafonismo é um enriquecimento e como tal capaz de valorizar uma cultura musical já bem assente nas citadas raízes da tradição.
Isto mesmo por maioria de razão se aplica à música electrónica e à concreta. Em meu entender, estas duas últimas modalidades são uma espécie de nova arte, que não substitui a antiga e a que chamamos música por analogia. Sem dúvida que tais descobertas têm o seu lugar na «obra de arte» moderna, sobretudo pelos efeitos dramáticos que delas se podem tirar. Mas duvido muito de que esteja aí a solução do problema da música portuguesa...

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em setembro 19, 2007 08:44 AM
Comentários

adoro MANUEL FARIA perente este MESTRE

Afixado por: pedro em novembro 27, 2008 05:54 PM