setembro 18, 2007

LUIS FILIPE PIRES - "TALVEZ CRISE DOS MÚSICOS NÃO DA MÚSICA"

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I - Talvez crise dos músicos, não da música. A crise afigura-se-me mais aparente ao que real. O estado de confusão em que hoje, e mais do que nunca, a música se encontra é devido, em grande farte, à existência de dois tipos de compositores que, embora de características diversas, se unem na produção dos mesmos danos. Os primeiros, discípulos fascinados de determinada Escola ou tendência, nada mais conseguem do que reproduzir fielmente o que aprenderam, tudo esquecendo do seu «eu» intuitivo em favor da técnica. Deles não se esperam contributos para uma evolução e a obra que nos deixam é morta, uniforme e sem futuro.
A par destes, pululam os individualistas irredutíveis, candidatos a génios que, numa ânsia de sobrevivência histórica, persistem em inovações que a nada conduzem e mais não são ao que especulações contrárias à causa da verdadeira Arte.
Num século em que já eclodiram algumas formas revolucionárias de expressão não se pode, com verdade, falar em crise da música.

II - Na história da arte criadora musical ao nosso país sempre se verificaram grandes desníveis qualitativos. A um período áureo seguiu-se outro da mais completa obscuridade, o que tem quebrado a continuidade de uma tradição realmente existente. Nos nossos dias ela apresenta, com mero carácter acidental, uns fios ténues e escassos. Compete aos nossos jovens compositores estudar e sintetizar os pontos característicos de contacto desses diferentes períodos, reatando uma tradição que, doutra forma, se perderá.


III – As referidas técnicas de composição não são, de modo algum, incompatíveis com a feição que poderá tomar a nossa música. Nem só o folclore – que, infelizmente, e mercê de avanços da técnica, já disse a última palavra – se revela capaz de promover a diferenciação da música de diferentes latitudes. A chave do problema encontra-se, a meu ver, na aplicação dessas técnicas como meio de exprimir climas, características locais e pessoais, aliados a elementos históricos, filosóficos e artísticos herdados de séculos anteriores.

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em setembro 18, 2007 12:00 AM
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