setembro 07, 2007

FRANCINE BENOIT - "A PRODUÇÃO MUSICAL PORTUGUESA TEM PROCEDIDO NÃO CONTÍNUA MAS ESPORADICAMENTE...

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I — Sim, mas crise normal, por assim dizer, integrada na crise geral ligada às transformações e aos embates dos sistemas que nos regem, no extremo alargamento das comunicações, no desenvolvimento das ciências positivas, operando por enquanto em jogos desencontrados (ou assim me parecem). A música também é beneficiada pelas aquisições científicas, sem poder contudo livrar-se de um idêntico desequilíbrio e aplicado o progresso a fins tão diversos como a largueza (quantas vezes desbaratada) de audiência do disco e da rádio, a recolha e fixação fiel de documentos ao vivo, e, em estado ainda experimental e muito circunscrito, a música concreta e mais ainda a música electrónica. Destacando o que tem cabimento cm Portugal, verifica-se desde já que música concreta e música electrónica estão excluídas como prática in loco. O mesmo não acontece com os elementos renovadores extraídos das recolhas de documentos musicais verdadeiramente populares e seu estudo, mas muito parcimoniosamente porque os trabalhos de pesquisa, de recolha e de análise se acham por enquanto dispersos e insuficientemente apoiados.

II — Tradição musical portuguesa, no pleno sentido das palavras, julgo que não é impossível criá-la. A tradição não se desassocia de um processo consciente e de continuidade, e a produção musical portuguesa, como a podemos apreciar, tem procedido não contínua mas sim esporadicamente. É uma consolação mais que platónica convencermo-nos que não podiam dar-se essas erupções de música polifónica, de música cravística, de música operática e de música sinfónica, (mestres da escola de Évora e similares, Carlos Seixas, João de Sousa Carvalho, João Domingos Bomtempo), se não tivesse havido sempre um fundo latente de virtualidades musicais nos portugueses, como na generalidade dos países, afinal, mas com um potencial de força criadora de primeira plana. Das edições precedidas das necessárias reconstituições empreendidas pelos Serviços Musicais da Fundação Gulbenkian, se forem criteriosamente orientadas e acrescidas de um estímulo não tímido aos compositores actuais, podia esperar-se algo de fundamentalmente útil. E tem também foros de tradição, embora não no aspecto com que nos é apresentada na pergunta deste inquérito, a permanência, forte ou fraca, da música ao povo. Tanto assim que no que ela tem de verdadeiramente significativo se fortaleceu a música do compositor português contemporâneo mais representativo — direi até o mais inesperadamente representativo — Fernando Lopes Graça, e que as pesquisas sobre a música popular ainda estão na ordem ao dia. Mas será isto suficiente para responder que os compositores (portugueses) actuais devem integrar-se na música de linguagem estruturada sobre dados do folclore? Podem jazê-lo, evidentemente; que o devam fatalmente jazer não é minha opinião.


III — Do pouco que eu posso perceber sobre música concreta e música electrónica, não vejo que elas possam abrir perspectivas a qualquer música em si característica de qualquer pais; vejo-as antes como aplicação de meios — e aplicação ainda muito preliminar — com diferenciações de escola naturalmente inevitáveis, mas que vêm representar correntes de formação intelectual muito mais do que temperamental. E de qualquer modo, o compositor português tentado pela música concreta ou pela música electrónica antes de mais nada tem de emigrar por lodo o tempo que lhe durar o apetite. O dodecafonismo, sim, que de mais a mais já transpôs a fase da doutrina hermética, está licitamente (no meu entender] franqueado aos compositores portugueses — já se provou, de resto. Na medida das forças do compositor, da sua sinceridade, do justo emprego dos meios com os princípios e com os fins, se avolumará o património da música portuguesa.
da "GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes" - Ano X, 2ª Série, nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em setembro 7, 2007 12:00 AM
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