setembro 06, 2007

FREDERICO DE FREITAS: "MAS O QUE É QUE NO MUNDO NÃO ANDA EM CRISE?..."

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— Mas o que é que no mundo não anda em crise?...
Não estarão em crise as relações entre os Estados e até entre os homens?...
Não estarão igualmente em crise as relações entre o homem e a natureza?
Onde encontrar, pois, já não digo a euforia, mas, ao menos, a tranquilidade e a estabilidade; conducentes a uma produção intelectual reflectida?...

Sendo, ou devendo ser, a obra de arte, um produto representativo do momento que vivemos: — onde está na arte actual, música ou artes plásticas, aquilo que se tem, ou deve ter, por expressão estética que se defina por si, em beleza e simplicidade, tendente a transpor o homem para regiões superiores?...

O que se encontra na mensagem dos artistas criadores contemporâneos que não seja de certo modo a expressão de uma arte convulsiva e feia?...
É evidente que me refiro a generalidades: — as excepções só podem confirmar a asserção.

A fuga ao que ontem era novo e hoje se considera velho traduz não só a ânsia de encontrar caminho original, como também a instabilidade gerada no espírito do artista por pressões do ambiente exterior.
Creio que ninguém aprenderá hoje o ofício de compositor de música, pela inecessidade da aplicação dos processos escolares à arte de amanhã. Pois se os processos actuais da expressão compositorial, como a música concreta ou a música electrónica, já nada têm que ver com a didáctica escolar, menos o terão ainda para a futura composição, porventura produto de cérebros mecânicos, talvez espécie de robots musicais, dos quais, já nos vão chegando notícia...

Teremos, então, uma orquestra de robots executantes musicais, tocando electronicamente, música presumivelmente atómica...
Assim se terá talvez atingido a expressão artística do material, pois parece ser esta a meta que actualmente muitos procuram...

Mas, muito embora o desequilíbrio produzido pela velocidade adquirida, na busca de encontrar meios novos, para dizer o que em verdade aceitamos terem para dizer os artistas desta época convulsa e ameaçadora, o certo ê dever acompanhar-se, com o mais sério interesse, as experiências e os caminhos novos que os vanguardistas trilham.


II — Digo sem hesitar que existe uma tradição musical portuguesa. Porém, essa tradição histórica, por incúria de educação, aliás já vinda de longe, criou nos espíritos uma ideia errada. Estamos diante de uma situação paradoxal: a generalidade dirá não existir tal tradição (inclusive educadores), quando na realidade ela existe de facto, facilmente demonstrável pelas coordenadas históricas.

Nós não somos um povo sem tradição musical, antes a possuímos, própria, e com características definidas, tal como acontece com a Espanha.
O que fez, e faz, crer-se o contrário, é, para além do que se disse, o desamor e a indiferença que conduzem à presunção de que o que temos nada vale.

Ninguém ousará negar a existência de uma pintura, de uma escultura, ou de uma arquitectura portuguesas, que constituem património artístico e histórico de uma grandeza e força indiscutível. Pois a verdade é existir uma música paralela e digna das conhecidas obras de artes plásticas, que só não é apreciável, como aquelas, por residir, como morta, nos arquivos e bibliotecas.
Só de raros conhecida, e mesmo assim, longe de se ter atingido a extensão do seu conhecimento.

Mas vejamos ainda: Poderá dizer-se não existir tradição musical, num país que, durante o período medieval, teve uma floração poético-musical tão rica?
Que essa mesma lírica, não obstante as influências provençais, tenha criado formas próprias?
Que esse mesmo influxo provençal, ao ser assimilado, tivesse sofrido caldeamento pela existência de uma música e poesia autóctone?
Que este mesmo povo e a corte, durante os primeiros séculos da sua existência, embora empenhados em consolidar o novo reino, não deixaram nunca de cantar e bailar?
Não foi neste período que nasceram as Cantigas de Amigo (expressão lírica e amorosa de criação nacional), as Canções de Escárneo e Mal-dizer, as Canções de Gesta e os Romances que têm embalado gerações sucessivas?
Se a corte não passava sem os serões onde os trovadores e até os reis entoavam seus cantares, menos o povo dispensava a presença dos estimados jograis, que lhe alimentava o espírito e a folgança.
Depois, com a evolução da lírica medieval, assiste-se à criação do teatro português, com Gil Vicente.

Paralelamente à aceitação do teatro português (teatro que foi conjunto de prosa, verso e música) tivemos a florescência dos guitarristas ou vihuelistas, criando a Fantasia e a Diferença, o Vilancico e o Romance, as danças de corte, a poesia palaciana, o Madrigal, o Moteto, e, de feição popular, a Chacota, a folia e outros bailes de vilão.
Não menos rica, contudo, foi a floração da polifonia religiosa, espécie de réplica musical ao maravilhoso estilo gótico flamejante.
Parece ter começado, por esta época, um como que assurdinar da alegria popular, da qual Mestre Gil dá sinal. No obstante, os moços filhos de algo e a gente miúda, quando partem para Alcácer Quibir fazem-se acompanhar de guitarras e adufes.

No plano superior da cultura musical: a Universidade de Coimbra inclui, pelos seus primórdios, com os estudos das humanidades, a música. Outros centros a cultivam e ensinam, mormente nas dioceses episcopais, atingindo mesmo grande esplendor o culto da música, nas catedrais de Braga, Viseu, Lamego, Santa Cruz de Coimbra e outras.
Com a Restauração da nacionalidade temos um rei músico — D. João IV — e neste período, a polifonia religiosa eleva-se a proporções altas, com dois notáveis centros que criaram escola:
— Évora e Vila Viçosa.

Pelo século XVIII, com a expansão da ópera italiana, constroem-se teatros e enviam-se a Itália, a expensas régias, alguns compositores portugueses, os quais nos viriam a deixar fausto espólio, hoje quase ignorado e praticamente alimentando a traça dos arquivos.
Depois, o século XIX foi em verdade pobre no aspecto da criação musical, mas não obstante Garrett funda o Conservatório cuja direcção entrega a um notável músico português — Domingos Bomtempo. O Conservatório vem substituir com largas vantagens o ensino da música que então se ministrava no Seminário Patriarcal.

Edificam-se os teatros de ópera, S. Carlos e S. João, respectivamente em Lisboa e no Porto, e não esqueçamos a larga aceitação dos mesmos espectáculos pelo público, que só por si o alimenta.
É ainda da tradição a exigência dessas mesmas plateias que consagrava artistas.
Pelo que fica dito — embora em resumida resenha histórica — não poderá em verdade negar--se a existência de uma tradição musical portuguesa, pelo menos, no sentido em que a música foi cultivada e preferida pelas diferentes classes sociais.

Mas se o facto de se utilizar a música como desejável função social não basta só por si para definir a existência de uma tradição musical, estudem-se então as constantes musicais, desde a fundação da nacionalidade até nossos dias e conhecer-se-á a permanência de um fulcro expressivo, ou linha climatérica, que, digamos, por instinto — nanja por consciência evolutiva — adrega de chegar aos compositores de nossos dias, o que acontece, seguramente, por mera inspiração atávica.

Ê certo, porém, terem alguns dedicado estudo ao folclore, como meio inversivo e retrospectivo de alcançarem um conhecimento, que, por escassez de fontes, de outra forma não seria possível obter.
Se a tradição é a via pela qual os factos são transmitidos de geração em geração, sem. outra prova de continuidade que não seja a própria veracidade da transmissão, o canto popular — música, poesia e dança — está neste caso, por constituir ele, propriamente, vivência de cantares longínquos.
Creio ter deixado defendida a minha opinião quanto à existência de uma tradição musical portuguesa, muito embora os traços largos com que procurei documentá-la.

Quanto à segunda parte da pergunta — “Em caso afirmativo, acha que os compositores actuais devem (ou podem) integrar-se nessa tradição?”: Entendo que devem e podem, se o quiserem. Se em Portugal se tivesse agido como em Espanha; se a seu tempo se tivesse criado um estabelecimento com ã expansão equivalente ao Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, o qual tem dado à estampa todos os tesouros da música espanhola antiga devidamente comentados e transcritos em notação moderna; se a seu tempo se tivessem preservado, recolhido e publicado, tanto os velhos documentos musicais, como grafado as antigas melodias cantadas pelo povo, outra seria hoje a nossa posição no cômputo da cultura musical dos povos.

Ao mesmo tempo ter-se-ia guardado uma consciência que só o estudo sério pode informar. Ê essa mesma tomada de consciência que leva alguns compositores espanhóis a convencerem-se de que a ortodoxia dodecafonista, tal como se emanou de Viena, não é vestimenta que lhes sirva. Outrossim, e depois do estudo aprofundado dos livros de texto musical antigo, mormente os de música profana, vêem agora, esses mesmos compositores, que o folclore usado pelos seus imediatos antecessores não corresponde a uma raiz pura de essência nacional, mas, antes, a uma limitação regional.


III - As famigeradas técnicas de composição, muito especialmente as designadas por música concreta e música electrónica, como de certo modo o dodecafonismo, ou outras destas derivadas, tendem, a priori, para uma expressão universalista e unitária que parece ser inconciliável, justamente, com os elementos e valores étnicos que vincam a tradição.
Até ao presente será possível distinguir, pela audição, a música deste ou daquele país; com as novas técnicas, tão caracterizadas por carência de autoctoneidade, não parece vir assim a acontecer. a avaliar pelo estado actual da composição musical.

Terá a arte — e os países que a produzem — alguma vantagem em universalizar-se, ou melhor, em estandardizar-se, de maneira tal a que a música, a pintura, a escultura e até a própria arquitectura sejam iguais por toda a parte, por desprovidas de elementos característicos nacionais?!... Quem viaja e pode ver exposições de artes plásticas vanguardistas, tal como vê as construções maciças para alargamento de cidades, observa, não certamente sem se admirar, o comum do estilo dessa mesma arte, que, em pouco ou nada, difere de pais para país.

Assim parece caminharmos para uma expressão de arte generalizada, que, embora intelectualizada, se assemelha ou aproxima, por comum, a uma espécie de primativismo aborígene.
Ê de certo modo o que nos sugere a música concreta, com o seu homofunismo assente sobre o primado do ritmo.

E ocorre perguntar: sendo a arte portadora de valores morais e intelectuais eternos, poderá ela abjurar de seus princípios? Se é certo, como dizem, caminhar o mundo para uma evolução social na qual porventura virá a estruturar-se uma organização económica diferente da actual, será porventura — ainda que em fase experimental — a arte actual expressão antecipada dessa sociedade vindoura?!...

Seja como for, de maneira alguma se devem enjeitar as experiências que, certamente, hão-de trazer novas perspectivas à composição musical, não me parecendo por isso haver motivo para que a música portuguesa se alheie dos caminhos que as mesmas experiências lhe deparam.
Julgo ainda que todas as técnicas serão úteis, na medida em que servirem o pensamento original do autor, e este se conserve vinculado à tradição espiritual do seu país.

"GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes" Ano X, 2ª Série - Nº 126/127 Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em setembro 6, 2007 12:00 AM
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