setembro 03, 2007

"OS HISTORIADORES ESTRANGEIROS E A MÚSICA PORTUGUESA", na GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes

Certo e sabido : quando não se acham lamentavelmente inçadas de erros e confusões, são singularmente omissas ou parcimoniosas no que respeita a
Portugal as histórias da música saídas dos prelos estrangeiros. E jã não é na verdade sem um sentimento de apreensão, de desconfiança, que folheamos qualquer publicação recente do género que adrega de nos chegar às mãos.

Foi o que ainda agora nos sucedeu (e com razão, como se vai ver), ao percorrermos a luxuosíssima Histoire illustrée deLa Musique, subscrita por um dos mais considerados musicólogos franceses, Marc Pincherle, e editada (1959) pela conhecida casa Gallimard. de Paris.

Em relação à sua irmã mais velha, a Histoire illustrée de La Musique de René Dumesnil (Plon, 1934), absolutamente muda sobre a música em Portugal, temos de estar reconhecidos à história de Pincherle pela sua maior generosidade : nas suas 223 páginas de formato monumental, faz nada menos de... duas referências de passagem à música portuguesa: a primeira para citar o nome de Joan (sic) Rebello entre os polifonistas vocais ibéricos do século XVII, a segunda para nomear Manuel Rodrigues Coelho entre os organistas da geração que sucedeu à de Cabezón.
Et c'est tout... Não, não é tudo: há ainda uma terceira referência, não propriamente a um músico, mas a uma personagem real: «La princesse Madeleine - Barbara de Portugal, La future reine d'Espagne». É ainda para se estar agradecido, só sendo para lamentar que, entre as princesas de Portugal, não se conheça de facto nenhuma com aquele nome...

É claro que nós não pretendemos que a música e os músicos portugueses possam aspirar a ocupar largo espaço nas histórias gerais da arte dos sons. Mas se alguma delas, limitando embora a sua escassa informação à nossa música clássica, traz à baila o nome de João Lourenço Rebelo (o tal Joan Rebello de Pincherle), não percebemos por que critério musicológico não se há-de referir a outros vultos, um Duarte Lobo, um Manuel Cardoso, um Melgaz, por exemplo, acaso mais importantes do que o Rabelinho, cuja obra, segundo o erudito francês, «merecia ser estudada», ignorando que a quase totalidade dessa obra se encontra irremediavelmente perdida, o que felizmente não sucede com a daqueles outros mestres. Quanto a Rodrigues Coelho, parece-nos licito pôr a seguinte questão: uma vez decidido o historiador a documentar a nossa música instrumental clássica tão só com um nome dentre os dos seus representantes (que, é certo, não parece serem muitos), não seria mais acertado que a sua escolha recaísse sobre o nome de Carlos Seixas, que, sem desprimor para a figura do ilustre autor das Flores de Música, se antolha aos estudiosos da música portuguesa, e debaixo do ponto de vista da evolução e da caracterização étnica desta, personalidade artística mais significativa ?

A partir do século XVII, a música portuguesa não existe para M. Marc Pincherle (já não existia antes). Pode-se alegar para este silêncio a falta de projecção universal dessa música (e nós não contrariaremos essa razão, embora ela nos não pareça decisiva para um historiador). Pode-se alegar a necessidade de ser breve e essencial numa obra não muito extensa (e essa alegação ocorre aqui e ali no trabalho de M. Marc Pincherle, embora em muitos pontos ele esteja longe de ser esquemático). Mas pode-se também mais uma vez acusar os franceses de desconhecerem, ou fingirem que desconhecem, a geografia, quando verificamos que, chegado por exemplo ao período contemporâneo, M. Marc Pincherle reserva na sua história um cantinho praticamente a todas as escolas nacionais (na Europa: à Espanha, à Inglaterra, á Bélgica, à Holanda, à Suiça, à Hungria, à Checoslováquia, à Suécia, à Noruega, à Dinamarca, à Finlândia, à Polónia, à Roménia, à Grécia; na América: aos Estados Unidos, ao México, ao Brasil, ao Chile, à Argentina, ao Uruguay), e a Portugal... nicles.

Por Júpiter ! Não haverá mesmo na música portuguesa da primeira metade do presente século um nome, um só nome que seja, que pudesse figurar sem desdouro na história de M. Pincherle ao lado, por exemplo, do espanhol Federico Mompou, do holandês Marius Monnikendam, do suíço Hans Huber, do checo Karel Husa, do sueco Dag Wiren, do dinamarquês Ebbe Hammerik, do finlandês Bengt de Torne, do grego Lévidis, do mexicano Silvestre Revueltas ou do chileno Domingo Santa-Cruz, cuja universalidade (sem menosprezo pelo que artisticamente possam valer) nos parece bem contestável ?

Tudo isto é certamente lamentável. Mas metamos um pouco nós próprios a mão na consciência. Os estrangeiros desprezam ou desconhecem a música portuguesa. Prezam-na ou conhecem na todavia mais os mesmos portugueses ? Que temos nós feito para a dar a conhecer, para a proteger, para a valorizar aos nossos próprios olhos e aos dos estranhos ? Que crédito podemos nós esperar para ela, quando sabemos o que dessa música exportamos como expoente das nossas faculdades artísticas, os desaires a que nos sugeitamos com o beneplácito de entidades responsáveis, uma das quais ainda ultimamente proclamava alto e bom som que Portugal se estava tornando mundialmente conhecido graças ao génio (génio foi mesmo o que se disse) de dois compositores de... canções revisteiras ?

Artigo não assinado da “GAZETA MUSICAL e De Todas As Artes”, Ano X, 2ª Série nº 112/113 de Julho/Agosto de 1960

Publicado por vm em setembro 3, 2007 12:00 AM
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