agosto 31, 2007

"O CATARRO NACIONAL", por MARIA DA GRAÇA AMADO DA CUNHA

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Uma mulher na Tertúlia? Estará em crise o sexo masculino, que tanto gosta de afirmar que «onde há galo não canta galinha»? Ora então, com licença, meus senhores, visto que a vosso convite aqui venho, embora assaz preocupada com a recepção que me espera. Não porque jamais se tenha desmentido a vossa proverbial fama de perfeitos cavalheiros, mas talvez justamente por isso: da vénia impecável à camaradagem autêntica vai um abismo...

Duplamente preocupada, mesmo, por me caber a vez de palrar sobre música logo a seguir a um parceiro temível como é o Lopes Graça. Confesso que me sinto João Feijão e me falece o ânimo! Tanto mais porque gostaria de pegar nas justíssimas considerações que ele aqui fez sobre o “analfabetismo musical” dos nossos intelectuais para as alargar a um sector mais vasto do público, variando o tema, de resto, pois que do analfabetismo passaremos à doença.

Já repararam nos efeitos tremendos que a música tem nos brônquios e nas laringes do nosso respeitável público? Vai-se ao teatro, ou ao cinema, e a saúde da população parece ser absolutamente normal, fora um ou outro catarro próprio da estação. Mas vai-se ao concerto, seja qual for a altura do ano, com chuva ou com sol, com frio ou com calor, e é uma desgraça: espirros, roncos, tosses de arrasar, narizes que se desentopem a tiro de canhão, é um tal cortejo de faringites, laringites, bronquites, sinusites, tuberculoses pulmonares, tosses convulsas, alergias ruidosas, que corta o coração! Sem falar nos casos de flatulência e de dispneia, que também abundam. Ora o que eu ainda não consegui determinar é se só vão ouvir música os doentes crónicos das vias respiratórias, ou se é a própria música que dá cabo da saúde aos frequentadores dos concertos. Aqui peço a ajuda de algum médico melómano para me tirar desta perplexidade. É que o problema é grave, não só porque diz respeito à saúde pública, como até porque tem sido motivo de espanto e de dó por parte dos artistas estrangeiros que nos visitam.

Será o português alérgico à música? Produzirá ela, nos nossos ouvintes, os mesmos efeitos das correntes de ar geladas, ou de uma valente molhadela de pés? O que mais me intriga, devo dizer, é o aspecto contagioso do fenómeno.

Todos nós conhecemos casos individuais de alergia musical, como, por exemplo, o do nosso amigo Manuel Mendes, para quem até os teclados dos pianos têm mau hálito. Mas esses casos, perfeitamente admissíveis e absolutamente legítimos, não explicam o comportamento colectivo a que me quero referir.

Mas, espera! Agora me lembro de que os latidos, os roncos, os uivos, os estertores com que entre nós se acompanha, ou se intercala, a música, cessam como por encanto desde que a orquestra desça ao fosso e ceda o palco aos bailarinos (estrangeiros, está bem de ver!). É isso! Desde que se trate de ballet, e apesar do «barulho» da música, melhoram imediatamente as gargantas, os pulmões, os narizes do respeitável público! Estranho mistério... Senhores doutores, querem fazer o favor de mo explicar?
MARIA DA GRAÇA AMADO DA CUNHA
Desenho de JOÃO ABEL MANTA
da "GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes" nº 112/113 de Julho/Agosto de 1960

Publicado por vm em agosto 31, 2007 12:00 AM
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