agosto 28, 2007

CADA MANHÃ SE PUNHA À PORTA JULIUS KLENGEL, ESPERANDO A RAPARIGA...

8aa.jpg
Cada manhã se punha à porta Julius Klengel, esperando a rapariga que o acaso lhe metera no percurso. Com desembaraço rompia ela, escorraçada das intempéries, logo a toda a volta distribuindo os objectos de seu mester. O aroma de vasta morbidez, de molhadas plantas que decaíam, se lhe ia evaporando dos vestidos. Já, por essa altura, se fixara na indumentária desleixada e heteróclita, com que haveria de caracterizar os anos de apogeu.

E na palma da mão recebia o pachorrento Julius Klengel, acabada de salvar, uma dessas aves cinzentas e reboludas, que costumam remexer nos lodos ribeirinhos. Quando, com a dúvida do apaixonado, o arrebatado desenho lhe corrigia de um portamento, a posição dos dedos lhe reconstituindo, dir-se-ia o tempo petrificado, com os plátanos lá de fora desfocados num extenso borrão verde. Nisso meditaria Julius Klengel, retractando-se daquilo que ensinara, refundindo a prelecção que fizera, debitada agora a maior velocidade. Como poderia Guilhermina obedecer-lhe, retomar o excerto que lhe fora assinalado, sem todavia prescindir de se ser? Essa trepidação agastada, que nem nos deixa carentes nem nos satisfaz, dela padecia o alemão, ante o mistério ostensivo que jamais se atreveria a louvar. E a transmutável beleza se lhe materializava nessa jovem do sul, no fogo que tudo molda em sua consumpção.

Do livro “GUILHERMINA”, de Mário Cláudio, reeditado recentemente

Publicado por vm em agosto 28, 2007 12:06 AM
Comentários