dezembro 14, 2006

GUILHERMINA SUGGIA NO "CLUB DE LEÇA"

Por curiosidade, registramos o programa do concerto, que se efectuou no Club de Leça, em 12 de Setembro de 1898, no qual tomaram parte o grande pianista Óscar da Silva e a eminente violoncelista G. Suggia:

1—Ouverture—Xisto Lopes.
2—Souvenir d’Italie—Casela. Violoncelo e piano, Ex.mas Snr.as D. Guilhermina e Virgínia Suggia. (1)
3—Chanson de Solvejg—E. Grieg. Canto. Ex.ma Snr.a D. Berta Lehmann Camêlo.
4—Poesia —Ex.mo Snr. Ernesto de Magalhãis.
5—Morceau Caracteristique —Goltermann. Violoncelo e piano. Ex.mas Snr,as D. Guilhermina e Virgínia Suggia.
6—Fiandeira —Oscar da Silva (2) — Canto. Ex.ma Snr.a D. Berta Lehmann Camêlo.
7—Guilherme Tell—Alex. Batta, Três Violoncelos e piano. Ex.mas Snras. D. Guilhermina e Virgínia Suggia e Ex.mo Snrs. Augusto Suggia e Xisto Lopes.
Ao piano—Óscar da Silva e Xisto Lopes.

Em 1915, para dar lugar às obras do porto comercial de Leixões, foi vendida a magnífica casa do Club de Leça, que teve de fechar as suas portas. Reconhecendo-se, porém, que uma povoação como Leça da Palmeira não podia dispensar uma agremiação recreativa desta ordem, um grupo de antigos sócios do Club de Leça tomou a iniciativa de o ressurgir, instalando-o, em 1917, numa casa da rua José Falcão.

Pouco tempo depois, em 1918, foi o Club de Leça transferido para a casa onde hoje se encontra, na rua Ribeira Brava, continuando as suas honrosas tradições, não só pelo conforto que concede aos seus sócios, mas ainda pelas frequentes festas, sempre brilhantes, que organiza.
Actualmente, tem este club 200 sócios efectivos, 6 beneméritos e 6 honorários.


(1) Guilhermina Suggia, que ocupa hoje um lugar de glorioso destaque entre os mais célebres violoncelistas, é natural do Porto, mas, durante muitos anos, viveu em Matozinnos, onde, cerca de 1880, seu pai, o distinto violoncelista Augusto Suggia, era professor de música na escola do sexo masculino, fundada e mantida pela Confraria do Bom Jesus.
Aos 7 anos, tocou, pela primeira vez, em público, entusiasmando o auditório, pela sua execução e pelo sentimento com que interpretou, fazendo vibrar o seu pequeno violoncelo, a ponto de comover os ouvintes.
Guilhermina Suggia foi a criança prodígio; e prodigiosa tem sido toda a sua carreira.
Aos 13 anos, fazia parte do quarteto Moreira de Sá, com Henrique Carneiro e Gouveia; e, quando este quarteto foi a Lisboa, o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia distinguiram-na, oferecendo-lhe uma pensão, para estudar na Alemanha, com Klengel.
Foi para Leípzig aos 16 anos; e, ainda antes de completar os 17, tomou parte num dos grandes concertos do Gewandhaus, sob a direcção de Nikish. Este concerto representou uma apoteose para a jovem artista e foi o início duma tournée por todos os países da Europa; de forma que, em poucos anos, o nome de Guilhermina Suggia era glorificado em todos os grandes centros musicais.
Durante a grande guerra, a Inglaterra aclamou-a como a maior violoncelista do mundo, e os triunfos sucederam-se de tal forma que não havia festa de importância para que não fosse solicitada. Em saraus de caridade, tocou a pedido da Rainha Alexandra, duquesa de York, princesas Vitória e Cristina; e, em 1932, tomou parte com Kreisler num célebre concerto de Albert Hall, em beneficio dos músicos pobres, sendo apresentada aos Reis de Inglaterra, que a honraram com palavras de admiração e estima.
Guilhermina Suggia possui dois violoncelos de grande valor— um Stradivarius e um Montagnana.
Além da arte, em que é astro de primeira grandeza, Guilhermina Suggia interessa-se pela literatura, fala várias línguas, é amiga dos desportos, e encanta, emfim, sempre que se expande a sua alma de eleição. O seu famoso retrato, pintado pelo grande pintor inglês Augustus John e pertencente à Galeria Nacional de Londres (Tate Gallery) representa bem essa gloriosa personalidade, quê honra a nossa pátria.

(2) Óscar da Silva, pianista insigne, de rara sensibilidade, justamente considerado como um dos melhores discípulos de Clara Shuman, nasceu no Porto, em 1870, mas viveu, longos anos, em Leça da Palmeira, tendo por este recanto gracioso o mesmo amoroso apego de António Carneiro, António Nobre, e tantos outros escritores e artistas Ilustres.
Nesta freguesia, a pedido de muitos dos seus moradores, tem o seu nome a rua em que residiu, nos últimos anos, antes da sua retirada para o Rio de Janeiro, onde actualmente se encontra.
Óscar da Silva é também um compositor verdadeiramente notável, podendo mesmo considerar-se, pela sua inspiração e forma elevada, o primeiro dos compositores românticos da península. Compôs, além da ópera D. Mécia, poemas sinfónicos (Alma Torturada e Marian) música de câmara (Sonata, Trio, Quarteto) e trechos para piano (Imagens, Dolorosas, Tarantela, Páginas portuguesas, e outros mais recentes, vasados em técnica modernista).
A obra musical de Óscar da Silva, parte da qual foi escrita em Leça, é um alto título de glória, não só para o seu autor, mas para a arte portuguesa.


“GUIA DE LEIXÕES” editado em 1934 pela Comissão de Iniciativa de Leixões (constituída por Augusto Cardia Pires, José Pestana da Silva, José Veloso Salgado e Júlio Ferreira Santos Silva)

( Cedido gentilmente pelo sr JOSÉ VARELA)


Publicado por vm em dezembro 14, 2006 12:00 AM
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