fevereiro 09, 2006

A MORTE DE GUILHERMINA SUGGIA NA REVISTA "THE STRAD" de SETEMBRO DE 1950

(NOTÍCIA GENTILMENTE ENVIADA PELA DIRECÇÃO DA REVISTA "THE STRAD")

É com profunda tristeza que noticiamos a morte de GUILHERMINA SUGGIA, uma das primeiras mulheres violoncelistas a ganhar fama internacional, tendo chegado a ser considerada, no mundo dos violoncelistas de concerto, como a segunda maior intérprete logo a seguir a Pablo Casals. Estivera muito recentemente – início de Junho – em Londres, para se submeter a exames médicos e a uma operação que se esperava pudesse curá-la ou deter a evolução da doença. Regressara a Portugal para repouso.
A notícia do seu falecimento é certamente motivo de consternação para os muitos amigos e admiradores que deixou.
Possuidora de um talento excepcional para o violoncelo, estudara na juventude com Julius Klengel (Leipzig), que se encontrava então no apogeu da sua fama.

Neste período sofreu a influência de Casals, com quem veio depois a colaborar em Paris ao longo de vários anos. De Casals adoptou um sentido de estilo que, até então, estava exclusivamente associado ao nome deste violoncelista, adicionando-lhe um temperamento inteiramente pessoal. Era fisicamente muito parecida com a tenista Suzanne Lenglen e, nos movimentos do arco e na precisão da técnica da mão esquerda, havia algo que evocava a visão e o domínio daquela desportista. Foi talvez em obras como o Concerto de Lalo, com o seu espírito meridional, que Suggia atingiu o ponto cimeiro da sua carreira interpretativa, mas a profunda compreensão do classicismo permitia-lhe satisfazer plenamente os entusiastas de Bach ao tocar as grandes suites para violoncelo solo.
Em Inglaterra, onde viveu muitos anos, beneficiou sempre da fidelidade de um vasto público. Quando voltou a tocar neste país, após um período de quase isolamento em Portugal durante a II Guerra Mundial, foi numeroso o público que se precipitou para assistir aos seus concertos. O número de actuações ainda previstas para a próxima temporada demonstra a sua popularidade e a magia associada ao seu nome.
O célebre retrato pintado por Augustus John tornou Suggia conhecida muito para além dos frequentadores de concertos. Mas esta publicidade adicional não teve relevância para a influência que ela exerceu no meio dos violoncelistas; seria extremamente injusto considerar aquele facto determinante para o seu êxito.
Teve a coragem de se afirmar pela sua arte numa época em que poucas jovens no seu país de origem pensavam em iniciar uma carreira em qualquer domínio, e muito menos como solista de um instrumento supostamente masculino como era o violoncelo. Teve a visão necessária para construir um estilo e uma técnica a partir dos melhores ensinamentos a que teve acesso.
Corajosamente, permaneceu uma idealista e ousou regressar à cena num mundo que evoluíra muito desde a grande novidade das suas primeiras actuações. A fama adicional ganha com o retrato de John não lhe teria servido de nada sem a ilimitada admiração que suscitava entre violoncelistas e músicos em geral.
Este aspecto deve ser salientado por todos os que recordam os anos 1920, os anos cimeiros de Suggia; como é natural, em anos subsequentes nem sempre lhe foi possível dar o seu melhor, o que poderia levar os mais jovens a pensar que as gerações mais velhas estavam a transformar Suggia num mito.
Por esta razão, gostaria de resumir em poucas palavras o que as suas admiradoras violoncelistas lhe devem.
Em primeiro lugar, há que agradecer-lhe a inspiração num momento em que dela mais carecíamos: o período da I Guerra Mundial.
Casals tornara-se um ideal para muitos de nós, ainda crianças. Mas com o início das hostilidades ficámos privados do estímulo da sua arte. Muitas de nós encontravam-se numa idade sensível: ainda não éramos estudantes aplicadas, mas tínhamos elevadas aspirações. De algum modo, escutar Suggia fortalecia-nos nos nossos esforços para realizar tais aspirações e na esperança de virmos um dia a pertencer ao mundo das violoncelistas profissionais. As suas interpretações das sonatas de Beethoven e de Brahms pareciam seguir a mesma linha e a mesma forma da leitura de Casals: o seu fraseado possuía muita da clareza que sempre se associava ao de Casals, com um maravilhoso sentido de lógica. Pouco a pouco, à medida que ela se foi integrando na vida musical de Londres, a sua influência irradiou para além do círculo reduzido dos jovens admiradores entusiastas. Suggia contribuiu para estabelecer e manter um padrão.
O modo como se sentava ao tocar era tão simples e natural que todas as escolas de interpretação passaram a preferir a sua postura direita à inclinação sobre o violoncelo. Demonstrou, pelo próprio exemplo, que o violoncelo poderia ser tão elegante para as mulheres como para os homens e produzir um som igualmente forte e viril.
Os seus alunos têm referido as suas maravilhosas lições, marcadas por um extremo rigor em matéria de técnica, a base essencial de qualquer disciplina artística. Contava-se que nunca olhava para o relógio durante as lições, mas concedia a cada estudante o tempo exacto de que este necessitava. Dizia-se que era paciente e escrupulosa em tudo o que se referia ao estilo e conhecimentos. E estes aspectos acabaram por impregnar – consciente ou inconscientemente – o meio violoncelístico do nosso país.

Ao prestar tributo a uma grande personalidade musical há que pensar maduramente em tudo isto. De caminho, pensemos também nas mudanças verificadas no estatuto das violoncelistas desde que GUILHERMINA SUGGIA começou a planear a sua carreira. Recordando esta evolução, importa que aproveitemos os ensinamentos da sua arte, mesmo que ela viva a partir de agora apenas na nossa memória e nos seus discos. O que ela ofereceu à nossa geração poderá, assim, ser transmitido à que se segue.
M.B.S.

Alguém ligado a Madame Suggia por 30 anos de amizade escreve:
A morte de Guilhermina Suggia, causou tristeza em todo o país; ela era não só uma grande intérprete como uma pessoa muito amada.
A sua personalidade cativante será recordada por longos anos, como o serão a generosa simpatia e o encorajamento que sempre dedicou aos músicos jovens e a outros artistas. Estava sempre disponível para os ajudar e aconselhar e jamais limitou o tempo que lhes dedicava.
Madame Suggia amava profundamente a Inglaterra, que considerava um segundo lar. Costumava dizer: “Tenho duas pátrias, Portugal e a Inglaterra. Mas creio que a Inglaterra é a primeira”.
Este amor por Inglaterra ficou demonstrado pela generosa decisão de legar o seu amado Stradivarius a este país. O magnífico instrumento será posto à venda, revertendo o produto apurado para a criação de uma bolsa de estudo a atribuir pela Royal Academy of Music a jovens violoncelistas.

THE STRAD – September 1950 ( tradução de Luís Lopes)

Publicado por vm em fevereiro 9, 2006 12:00 AM
Comentários

Guilhermina Suggia deixou por testamento o seu violoncelo Stradivarius`a Royal Academy of Music de Londres, para ser vendido e ser atribuído um prémio anualmente ao melhor aluno dessa instituição, tal como deixou o Montagnana ao Conservatório de Música do Porto. A única diferença está no número de prémios atribuídos: em Londres cerca de 70 e no Porto 5 (CINCO!).
A Bolsa para os violoncelistas deixada em Londres tem a ver com o dinheiro que Suggia tinha depositado em bancos ingleses ( cerca de 10.000 libras)

Afixado por: vm em fevereiro 9, 2006 11:51 AM