julho 26, 2005

TRISTE FIGURA QUE PORTUGAL FARÁ QUANDO QUALQUER NAÇÂO ESTRANGEIRA LEVADA PELO INCONTESTADO MÉRITO DE GUILHERMINA SUGGIA, DISTINGUIR ESTA NOSSA COMPATRIOTA

No dia 23 de Abril de 1904 as duas irmãs participam num concerto de beneficência em Lisboa. E ele (o jovem jornalista,primo de Óscar da SilVa) esceve:

“(...) AS IRMÃS SUGGIA – Após uma série de concertos realizados nos principais centros de música, como os da Alemanha e França, onde Guilhermina Suggia e Virgínia Suggia, provaram à evidência a exuberância do seu talento e proclamaram bem alto que este florido cantinho, quase esquecido, possui compleições artísticas de primeira grandeza; depois das gratas e inolvidáveis recordações pela forma aliás merecida e justa por que foram recebidas – elas não se esqueceram, todavia, o prometido que haviam feito de oferecer um concerto em favor das Escolas Móveis; e, fiéis a essa promessa e só para o seu cumprimento, vieram a essa capital.

Essa festa que, como é do domínio público, se realizou em 23 de Abril último, foi mais um triunfo para esses dois entesinhos deliciosos e vagos, essas duas encarnações da Arte!

Além do programa cumprido na totalidade, as ilustres artistas, gratas ao quente acolhimento e entusiásticos aplausos com que o selecto auditório, ávido de lhes prestar mais uma vez inteira justiça, as glorificou, num requinte de gentileza e de bondade, fizeram-se ouvir em outras célebres e difíceis composições, entre elas a poética Sérenade de Herbert e o mavioso Nocturno de Chopin.

Está acima de todo o elogio o precioso desempenho que as duas geniais irmãs deram a todas as peças que executaram; em nossa fraca opinião não há termos que rigorosamente exprimam e definam o estado da nossa alma, que, se desprendem dos instrumentos, quando vibrados pelos dedos fuselados dessas gráceis figuritas, se perde em extasiada em mundos extraordinários e desconhecidos, que só elas têm o magno condão de nos mostrar!

O espírito crítico abate-se num misto de respeito e admiração ante estas duas personificações do mimo, da correcção, do sentimento, da divina arte, enfim! E duplamente lhes agradece a encanadora noite que lhe proporcionou, e mais ainda, ao ver quão bem se casa a arte com a bondade de sentimentos e desinteresse que se albergam nos seus corações juvenis de mulher e de artistas, a manifesta lembrança que tiveram para com aqueles que, sem meios para o obter, carecem de pão para o espírito.
E,quanta mágoa nos causa o vermos que, nesta terra tão fértil em galardoar burguesas enriquecidas, não houvesse ainda quem alvitrasse um galardão digno e Guilhermina Suggia, nem um Director Geral de Instrução, que, escudado nessa alevantada e justa ideia, promovesse a imposição do hábito de S. Tiago.
Aí fica o alvitre que muito folgaremos ver realizado por V. Exa., lembrando-lhe a triste figura que Portuga fará quando qualquer nação estrangeira levada pelo incontestado mérito de Guilhermina Suggia, distinguir esta nossa compatriota!”
Orlando Courrege
Jornal de Matosinhos, 17/1/1997

Publicado por vm em julho 26, 2005 12:38 AM | TrackBack
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