julho 05, 2005

O REGRESSO DA GRANDE VIOLONCELISTA

Matosinhos será das poucas localidades portuguesas que não precisa de efemérides para homenagear as suas personalidades, sobretudo no campo da Cultura. Cuido também que poucos matosinhenses com destaque nesta ampla área, matosinhenses por nascimento ou por residência prolongada, mortos ou vivos, que não tenham merecido aos executivos a que venho presidindo um particular interesse.

Para além de sessões públicas de debates esclarecedores, as sucessivas edições que constituem memórias para a posteridade. Assim, com frequência acontece voltar-se uma e outra vez a esta e àquela figura. Por exemplo, agora. No passado dia 27 de Junho cumpriram-se 120 anos sobre o nascimento da notável violoncelista Guilhermina Suggia. A Câmara Municipal de Matosinhos, há precisamente seis anos, editou a obra Guilhermina Suggia - A Sonata de Sempre, da escritora Fátima Pombo. Convenhamos que esta coerência cultural não é vulgar no campo autárquico.

No próprio dia de aniversário da Suggia foi formalizada uma associação para a divulgação e estudo da obra da referida intérprete, e o município de Matosinhos, como não podia deixar de ser, está associado.

Do mesmo modo, estamos a estudar uma série de iniciativas que pretendem, uma vez mais, chamar a atenção para esta figura internacional da Música Portuguesa. Bem entendo, posso dizer mesmo que bem entendemos, que desta forma, Matosinhos, constituindo mais do que uma etapa na biografia da Suggia, não pode eximir-se de a homenagear e disponibilizar materiais sobre a sua vida e obra. Assim, é minha intenção deixar aqui algumas pistas sobre a presença da artista na cidade de Matosinhos.

A aproximação é feita através do pai, Augusto Jorge de Medim Suggia, violoncelista do Real Teatro de S. Carlos e professor do Conservatório de Música, em Lisboa. Em dada altura da sua vida, ele recebe uma tentadora proposta da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos para vir para o Norte, a fim de ensinar música em Matosinhos. Por qualquer razão, Augusto Suggia fixa residência no Porto, na Rua de Ferreira Borges. A casa onde viveu então, e há muito demolida, foi onde, a 27 de Junho de 1885, nasceu Guilhermina Augusta. Temos notícia de que com apenas dois anos, ela queria que a levassem para ao pé do pai, a assistir às aulas de violoncelo. Terá sido essa a razão das suas primeiras visitas a Matosinhos.

A família Suggia muda-se do Porto, indo viver para uma casa em Manhufe, próximo da igreja de Matosinhos. Porém, no Verão de 1891, nova mudança de casa dentro da vila, para a Rua do Godinho. É, finalmente, aqui que Guilhermina começa a fazer estudos sistemáticos de solfejo e violoncelo, sob a orientação do pai, que também lecciona a filha Virgínia, três anos mais velha que a irmã, que estuda piano. Segundo Fátima Pombo, Guilhermina Suggia não era uma aluna conformista, mesmo diante da reconhecida autoridade musical e cultural do pai. Desde muito cedo, ela revelou-se uma singular personalidade de violoncelista.

Decerto o professor Augusto Suggia reconhecia o enorme talento dessa filha, ainda que a jovem estivesse ainda longe da maturidade. As suas potencialidades chamavam a atenção. Aliás, a estreia de Guilhermina como concertista tem lugar já em 1892, tendo ela apenas sete anos, no salão da Assembleia de Matosinhos. Ai a criança violoncelista foi acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia. Depois passaram três anos, antes de Guilhermina voltar a participar num recital, fê-lo relativamente próximo do local da sua estreia, no Clube da Foz, a 14 de Agosto de 1895. Foi o segundo concerto da época balnear, em que interpretou obras de Offenbach e Popper, sempre acompanhada pela irmã.

Estas informações são retiradas do programa. Porém, a 12 de Outubro desse ano, de novo os amadores de música de Matosinhos escutam, extasiados, o violoncelo de Guilhermina Suggia, desta vez no Grémio de Matosinhos. E, alternando com concertos no Porto, sobretudo no Orfeão Portuense, a 22 de Setembro do ano seguinte, a violoncelista apresenta-se no Clube de Leça, e no concelho, voltará a tocar nesta mesma sala, a 12 de Setembro de 1898. E esta foi a terceira e última vez que actuou no concelho.

Recorde-se que a derradeira aparição de Guilhermina Suggia em público foi no histórico Teatro Aveirense, a 31 de Maio de 1950, uns dois meses antes do seu falecimento. Tendo, pois, Matosinhos como cenário das suas primícias como concertista, este seu novo espaço torna-se biograficamente importante. E a própria acção do professor Augusto Suggia ainda está insuficientemente estudada como estímulo a algumas carreiras musicais da época, para além das suas duas filhas.

Narciso Miranda- Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos

O COMÉRCIO DO PORTO, 4/7/2005

Publicado por vm em julho 5, 2005 12:42 AM
Comentários

Está de parabéns a Câmara de Matosinhos pela divulgação que faz desta Senhora da música.

Afixado por: Menina_marota em julho 6, 2005 09:00 AM