setembro 30, 2007

AJUDE A SALVAR O SALÃO NOBRE DO CONSERVATÓRIO

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Hoje estão assim estas cadeiras no Salão Nobre do Conservatório Nacional.
O Nosso património deve/tem que ser salvo por todos nós, estejamos onde estivermos. Não ache que têm que ser apenas os outros a fazer o que todos temos que fazer. No mínimo, faça ISTO
foto de STEVEN GOVERNO

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setembro 29, 2007

É ONDE? - OLHE QUE NÃO É ONDE PENSA

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Quer saber onde é?
Carregue AQUI
foto de Steven Governo (Publicada no "Tal&Qual"de 28Setembro2007)

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setembro 28, 2007

AUGUSTO SUGGIA FOI ALUNO NO CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DE LISBOA

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Começou a estudar violoncelo aos 18 anos, no ano lectivo de 1869/1870 tendo terminado em 1876/1877 com 25 anos. Fez o exame final com a classificação de 15 valores com distinção e recebeu um prémio de 15 000 réis.

Por ele e por todos os que lá estudarem e pelo prazer que vamos ainda hoje tendo, fruto do amor que dedicaram à música, em especial, assine AQUI.

Publicado por vm em 12:06 AM | Comentários (0)

setembro 27, 2007

O ESTADO DAS NOSSAS COISAS: QUEREM SABER QUAL É O EDIFÍCIO ?

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Querem mesmo?
Carreguem e assinem AQUI

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setembro 26, 2007

TEATRO DA CORNUCÓPIA - "O CONSTRUTOR SOLNESS" de HENRIK IBSEN, de 27 de Setembro a 4 de Novembro

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Tradução Pedro Fernandes
Encenação Carlos Aladro
Cenário e figurinos Cristina Reis
Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção
Distribuição Beatriz Batarda, Duarte Guimarães, Luís Lucas, Luis Miguel Cintra, José Manuel Mendes,
Sofia Marques e Teresa Sobral.

Teatro do Bairro Alto, Lisboa


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setembro 25, 2007

ESTA É A FACE DA ESCOLA DE MÚSICA DO CONSERVATÓRIO NACIONAL

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Como é possível deixar chegar as nossas coisas a este ponto?

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setembro 24, 2007

"GAUDÍ, GUILHERMINA E A MÚSICA" - DIA 11 de OUTUBRO ÀS 19 horas no SALÃO NOBRE DO CONSERVATÓRIO de LISBOA

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Neste Salão, que lamentavelmente se vai perdendo com a total indiferença de quem tem por obrigação zelar pelo nosso património, ir-se-á realizar uma conferência numa iniciativa conjunta da ANTENA 2, ASSOCIAÇÃO GUILHERMINA SUGGIA e ESCOLA DE MÚSICA DO CONSERVATÓRIO DE LISBOA.
Serão conferencistas:
TERESA CASCUDO - Musicóloga e crítica musical.
ANA MARIA FÉRRIN - Jornalista, escritora (biógrafa do arquitecto
A.GAUDÍ)

Música interpretada(ao vivo) por:
JOSÉ CARLOS ARAÚJO (organista)
PAULO GAIO LIMA (violoncelista)
PAULO PACHECO (pianista)

Apoio do INSTITUTO CERVANTES- Lisboa

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setembro 23, 2007

MARIA DE LOURDES MARTINS: "O DODECAFONISMO, A MÚSICA ELECTÓNICA E A MÚSICA CONCRETA JÁ NÃO SÃO "NOVAS TÉCNICAS"

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I -Parece-me que “crise» não é a palavra exacta para exprimir toda a
amálgama de ideologias, inquietações, necessidades e tendências que caracteriza a música de hoje.
Esta diversidade idiossincrásica, própria do período de transição em que presentemente nos encontramos, acumula-nos de composições de interesse apenas experimental, de tentativas de menor ou maior projecção, de manipulações de oportunistas sem escrúpulos, mas também nos oferece obras de real valor.

É evidente que a geração post-weberniana se vê a braços com responsabilidade desmedidas, provocadas pela herança de novos factores sociais, socialistas, culturais, científicos e filosóficos, legada por duas grandes guerras mundiais. A reintegração de antigos instrumentos, a criação de outros e o espantoso desenvolvimento atingido pelos instrumentos electrónicos que nos proporcionam modos de expressão inteiramente novos, obrigam a novos princípios estéticos, novas técnicas e novas concepções formais. Mas não será tudo isto uma maravilhosa fonte de riqueza? — Uma riqueza que serve apenas aqueles que a sabem utilizar: Boulez, Nono, Maderna, Stockhausen... e aqueles que, por enquanto em número limitado, a sabem apreender...

II — Existe, quando muito, uma relacionação de ideias entre alguns compositores portugueses, mas não uma tradição como os alemães consideram Beethoven-Max Reger-Hindemith uma linha de continuidade através de séculos.

III — O dodecafonismo, a música electrónica e a música concreta já não são «novas técnicas». O dodecafonismo já foi ultrapassado e a música electrónica e a música concreta já deixaram a sua fase inicial e encontram-se num período de franca evolução.
Desde 1953 que existe música electrónica mas as experiências de Werner Meyer-Eppler datam já de 1949. Logo após a fundação do «Estúdio de Música Electrónica» em Colónia, sob a direcção de Herbert Eimert, vários países apoiaram iniciativas semelhantes, criando-se novos estádios em Itália, Japão, América, Bélgica, Polónia, França, Suécia, Dinamarca, Inglaterra, etc.
A música concreta também já tem uns 14 anos - está portanto na adolescência...

Quando mais ninguém tiver nada a dizer, «as velhas técnicas” (novas técnicas para nós) farão a sua entrada triunfal no nosso pais; mais uma vez se cumprirão os fados e as perspectivas da música portuguesa continuarão como até aqui. Sim porque nisso temos uma tradição...

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

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setembro 22, 2007

CIDADÃOS PELO CAPITÓLIO

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O Teatro Capitólio é um edifício classificado, de importância arquitectónica internacional. Está localizado no Parque Mayer, um antigo recinto de diversões de Lisboa inaugurado em 1922. O arquitecto Luis Cristino da Silva (1896-1976) projectou o Capitólio entre 1925-1929, e o jovem engenheiro José Belard da Fonseca (1899-1969) foi o autor da inovadora estrutura de betão armado. Quando abriu ao público, a 10 de Julho de 1931, foi um manifesto sem precedente em Portugal do espírito do mundo moderno.

O inovador edifício combinava um grande salão com uma cobertura em terraço para espectáculos ao ar livre. O reconhecido pioneirismo da sua arquitectura funcionalista faz do Capitólio um exemplo notável do princípio do Movimento Moderno na Europa.

Presentemente o Capitólio encontra-se abandonado. Décadas de desleixo e falta de manutenção levaram ao seu actual estado de degradação. Sucessivas alterações, algumas ilegais, acabaram também por subtrair grande parte das suas caraterísticas interiores e exteriores únicas. O seu restauro - longamente esperado - ajudaria a criar um futuro viável para este edifício histórico. No entanto, quatro sucessivos projectos de intervenção para o Parque Mayer, desde 1970, têm proposto a demolição do Capitólio. Este esquecido, mas precioso edifício, classificado pelo Estado Português (Imóvel de Interesse Público, 1983) e registado no Docomomo Ibérico (1996), precisa urgentemente de ajuda e atenção.

O Capitólio tem de ser salvo porque:

- é o primeiro grande edifício do Movimento Moderno em Portugal.

- introduziu ideias, funções e tecnologias revolucionárias em Portugal.

- é um dos últimos locais de espectáculos do início do Movimento Moderno que sobrevive em Portugal.

- é um testemunho valioso da história do cinema e das artes do espectáculo em Portugal.

- é uma obra insubstituível do património cultural do Parque Mayer.

É uma responsabilidade dos cidadãos salvar o Capitólio para as futuras gerações.

'Cidadãos pelo Capitólio' - Missão:

'Cidadãos pelo Capitólio' é um grupo de trabalho de voluntários, independente, formado em 2003. Os seus membros estão preocupados com a apatia pública em relação ao futuro do Capitólio e a sua proposta demolição.
Apesar das alterações que o Capitólio sofreu ao longo dos seus 75 anos de história, o espírito e propósito fundamental do edifício continuam contemporâneos. 'Cidadãos pelo Capitólio' acredita que um restauro rigoroso, associado a uma adequada reutilização, devolverá vida ao edifício - é possível regressar à obra original e ao mesmo tempo responder às aspirações e necessidades de uma Lisboa do século XXI.
O grupo de trabalho 'Cidadãos pelo Capitólio' pretende:

- educar o público para a apreciação, conhecimento e compreensão do valor patrimonial do Capitólio;

- salvar o Capitólio da destruição ou de mais alterações, e apoiar activamente o seu restauro e reutilização apropriada;

- colaborar com todas as autoridades, intituições, públicas e privadas relevantes assim como grupos cívicos e indivíduos, em Portugal e no estrangeiro, afim de garantir a protecção do Capitólio;

'Cidadãos pelo Capitólio' visa alcancar os seus objectivos através de reuniões, organizando encontros, exposições, produzindo publicações ou qualquer outra forma de educação, publicidade ou pesquisa, e promovendo e apoiando planos para salvar este edifício único.


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AQUI VIVEU MICHEL' ANGELO LAMBERTINI

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No 2º andar do nº 193 da Rua Augusta

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setembro 21, 2007

CULTURAS MUSICAIS DA UNIÃO EUROPEIA - de 21/09 a 29/12 no MUSEU DA MÚSICA

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MUSEU DA MÚSICA

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setembro 20, 2007

FERNANDO CORRÊA DE OLIVEIRA: "SIM, HÁ UMA TRADIÇÂO MUSICAL PORTUGUESA..."

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I - A pergunta é tão vasta que se torna difícil responder. Há tanta diversidade na música contemporânea! Será essa pluralidade de aspectos sintoma de «crise»? Em meu entender, não. Numa época como a nossa, era de esperar precipitação de factos artísticos, paralela à que se verifica em todos os domínios do saber humano. Não há crise; há aceleração. Poderíamos, em verdade, falar de crise se nos referíssemos à situação do compositor em re¬lação ao editor, ao executante e ao público. Aqui, sim, há crise, pois se desencontram forças: aspirações reformadoras do primeiro, interesses comerciais do segundo, inércia dos dois restantes. Mas tudo isto constitui um amamento de crise» (diria melhor, uma época de crise} para o músico, que não para a música.

II — Sim, há uma tradição musical portuguesa que se deve aos compositores portugueses. Sendo assim, não veio que exista problema e encontro, até, mistério na dúvida que ressalta da segunda parte da pergunta: «...os compositores actuais: devem (ou podem) integrar-se nessa tradição?».
Por que se há-de duvidar que queiram (e possam) integrar-se numa coisa que lhes pertence de facto? Permita-se-me acrescentar que o desejo de manter os compositores portugueses unidos no propósito de fazerem música portuguesa é supérfluo: primeiro, porque os factores raça e educação bastam, na maioria dos casos, para estabelecer um elo, ténue que seja, entre as suas obras; segundo, porque aquelas que constituírem excepção à regra merecerão, igualmente, existir, dado que é primordial serem, as criações dum compositor, afirmação do indivíduo e, só secundariamente, expressão de relações com o grupo étnico a que ele pertence.

III - Precisamente as mesmas que a qualquer dos países onde essas técnicas de composição já são aplicadas. O dodecafonismo já é praticado entre nós, se bem que raramente, e, graças ao disco, não são já tão poucos quantos alguns crêem os ouvintes que sinceramente o apreciam. Prevejo uma progressiva aproximação para esta técnica, por parte dos jovens compositores portugueses. Ê também crível que se formem ramificações saídas do tronco central do dodecafonismo. Releve-se-me a referência à «harmonia simétrica» e ao «contraponto simétrico», que considero como tais. Com respeito a música concreta e à electrónica, è possível que se crie um grupo de compositores especializados e não me admiraria se fitassem mais ligados à Rádio e Televisão, ao Teatro e Cinema do que às salas de concerto.

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

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setembro 19, 2007

O ESTADO DAS NOSSAS COISAS: "O CINEMA ODEON FARÁ Dia 21/SETEMBRO, 80 ANOS QUE FOI INAUGURADO"

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A Cinemateca, em colaboração com o Fórum Cidadania Lx, exibirá dia 21, pelas 19h, o filme mudo «A Viúva Alegre» (http://en.wikipedia.org/wiki/The_Merry_Widow_(1925_film), de Erich von Stroheim, que inaugurou há 80 anos exactos aquela que viria a ser uma sala incontornável no circuito cultural lisboeta. O filme será exbido com acompanhamento ao piano.

Que esta iniciativa contribua para trazer de volta o Odéon ao convívio dos lisboetas, é algo que todos esperamos.


Categoria / Tipologia Arquitectura Civil / Cinema
Inventário Temático -

Localização
Divisão Administrativa Lisboa / Lisboa / São José
Endereço / Local Rua dos Condes, 2 a 20
Lisboa
1200-822 Lisboa
Rua das Portas de Santo Antão, 129 a 133
Lisboa
1200-822 Lisboa
Pátio do Tronco, 1 e 1-A
Lisboa
1200-822 Lisboa

Protecção
Situação Actual Em Vias de Classificação
Categoria de Protecção Em Vias de Classificação (com Despacho de Abertura)
Decreto Despacho de 2004.10.12 (EM VIAS desde 2004.11.08, 3 dias úteis após a comunicação)
ZEP -
Zona "non aedificandi" -
Abrangido em ZEP ou ZP ZEP dos imóveis classificados da Avenida da Liberdade e área envolvente, Portaria 529/96, de 1-10-1996
Património Mundial -

Descrições
Nota Histórico-Artistica Desde os seus primórdios que os cinemas de Lisboa se foram instalando entre o Chiado e a Baixa, como situação experimental e provisória, para um público de elites. À medida que se tornaram populares, as novas salas procuraram preferencialmente as áreas das tradicionais portas da cidade, visto que se tornaram os sucessores das feiras, circos e teatros.
Nesta sequência, e pelas sucessivas inaugurações, podem identificar-se claramente dois eixos principais: o do Rossio - Rua dos Condes/Restauradores - Parque Mayer - Avenida, eixo elegante e requintado, que corresponde aos sectores residenciais e funcionais mais ricos da cidade, que partiu das velhas Portas de Santo Antão; e o eixo Martim Moniz - Rua da Palma - Avenida Almirante Reis, que, partiu das Portas da Mouraria e se define como uma área pequeno-burguesa e popular de Lisboa (FERNANDES, 1995, p. 8). Numa segunda fase, quase todos os bairros de Lisboa tiveram uma sala de cinema, restando hoje em dia muito poucos.
O cinema, que utilizava de improviso salas de edifícios destinados a outros espectáculos, a pouco e pouco, surge com autonomia construtiva e formal. Com a crescente utilização do betão armado e o aparecimento de uma linguagem modernista na arquitectura, com formas geométricas puras e superfícies lisas, que coincidiu com novas regulamentações de segurança contra incêndios e com o despertar de novas salas, de estética inovadora, o cinema passou a ser então o espectáculo urbano por excelência, que atraía multidões.
O Cinema Odéon que se situa na Rua dos Condes, eixo nobre da cidade, em frente ao lisboeta Olympia, foi fruto de um projecto de 1923, pelo construtor Guilherme A. Soares. Abriu portas a 21 de Setembro de 1927, com A Viúva Alegre, de Stroheim e durante largos anos, estabeleceu laços fortes com a sala do Trianon Palace, sua contemporânea, de 1930, partilhando ambos a mesma cópia de filme.
Em 1931, foi modernizado com as expressivas galerias metálicas, salientes da fachada, muito decorativas, com os seus rendilhados de vidros coloridos, que quase apagam o desenho ao estilo clássico do edifício. Estilo esse que é ainda visível no piso superior e, principalmente, na esquina com a Rua das Portas de Santo Antão. Destaque ainda, para o janelão que ocupa dois andares, sobre balcão semi-circular, assente em métopas que enquadram o nome Odeon.
O interior é notável pela sua grande cobertura em madeira escura, pelo seu palco de frontão Art Deco, pelos sumptuosos e volumosos camarotes e pelo lustre central, irradiando néons.
(Liliana Garcia)

Imagens -

Bibliografia
Título Lisboa Desaparecida, volume 7
Local Lisboa
Data 2001
Autor(es) DIAS, Marina Tavares

Título Cinemas de Portugal
Local Lisboa
Data 1995
Autor(es) FERNANDES, José Manuel

IPPAR

Publicado por vm em 10:52 AM | Comentários (0)

Padre MANUEL DE FARIA: "CRISE AVIADA NO SENTIDO DE UMA RENASCENÇA"

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I - Sem dúvida, embora uma crise aviada no sentido duma Renascença, com muitos pontos de contacto com os séculos IX-X (à procura da Polifonia), XIII-XIV (invenção da Ars Nova) e XVI-XVII (“Cammerata Fiorentina» e «ricercare» da música instrumental), mas com a agravante de hoje tudo decorrer artificialmente a velocidades supersónicas (o que dantes levava 400 anos hoje pretende-se dum dia para o outro). A ideia revolucionária do corte radical com a tradição e a pretensão orgulhosa (como nunca) de criar tudo “ex nihilo” deixa-nos sem a mínima segurança do terreno sobre que construir e entregues à mais completa arbitrariedade crítica.

II — Creio que sim, embora não saiba bem concretizá-la com exactidão. Quando mais não seja, temos a canção popular nitidamente individualizada, com raízes inegavelmente abeberadas na primigénia fonte trovadoresca e reflexos mais ou menos fundos na renovação musical da primeira metade deste século.
Quanto à integração dos actuais compositores nessa tradição, não vejo mesmo outra saída, pois como vamos assimilar culturas estranhas, se não somos capazes de assimilar a nossa? Se no passado nos faltam «grandes» é precisamente por olharem mais para fora do que para dentro.


III — Confesso a minha perplexidade na resposta a este ponto. Sinto-me até envergonhado, mas cumpre-me dizer a verdade: — o dodecafonismo exclusivo e sistemático não me convence. Por mais esforços que tenha feito (e tenho feito de facto), não consigo captar a sua mensagem. É uma música que me interessa, como compositor, pela sua novidade (isso sim), mas que me não toca; E eu sou daquelas pessoas que pedem à arte e muito especialmente à música uma emoção, seja ela qual for.
Entendo no entanto que, pondo de parte o exclusivismo, como contributo para o património geral da arte musical, o dodecafonismo é um enriquecimento e como tal capaz de valorizar uma cultura musical já bem assente nas citadas raízes da tradição.
Isto mesmo por maioria de razão se aplica à música electrónica e à concreta. Em meu entender, estas duas últimas modalidades são uma espécie de nova arte, que não substitui a antiga e a que chamamos música por analogia. Sem dúvida que tais descobertas têm o seu lugar na «obra de arte» moderna, sobretudo pelos efeitos dramáticos que delas se podem tirar. Mas duvido muito de que esteja aí a solução do problema da música portuguesa...

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em 08:44 AM | Comentários (1)

setembro 18, 2007

TEATRO ACADÉMICO GIL VICENTE - COIMBRA - ANTÓNIO ROSADO - 20/09 às 21,30h

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Orquestra Gulbenkian
Joana Carneiro (Direcção de Orquestra)
António Rosado (Piano)

Programa:

Johannes Brahms - Festival Académico, Op. 80; Sergei Rachmaninov - Concerto N.º 3 em Ré menor, Op. 30, para Piano e Orquestra;
Johannes Brahms - Sinfonia N.º 2 em Ré Maior, Op. 73.

Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) - Coimbra
Praça da República - Tel.: 239855636
http://www.uc.pt/tagv


Publicado por vm em 06:04 PM | Comentários (0)

LUIS FILIPE PIRES - "TALVEZ CRISE DOS MÚSICOS NÃO DA MÚSICA"

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I - Talvez crise dos músicos, não da música. A crise afigura-se-me mais aparente ao que real. O estado de confusão em que hoje, e mais do que nunca, a música se encontra é devido, em grande farte, à existência de dois tipos de compositores que, embora de características diversas, se unem na produção dos mesmos danos. Os primeiros, discípulos fascinados de determinada Escola ou tendência, nada mais conseguem do que reproduzir fielmente o que aprenderam, tudo esquecendo do seu «eu» intuitivo em favor da técnica. Deles não se esperam contributos para uma evolução e a obra que nos deixam é morta, uniforme e sem futuro.
A par destes, pululam os individualistas irredutíveis, candidatos a génios que, numa ânsia de sobrevivência histórica, persistem em inovações que a nada conduzem e mais não são ao que especulações contrárias à causa da verdadeira Arte.
Num século em que já eclodiram algumas formas revolucionárias de expressão não se pode, com verdade, falar em crise da música.

II - Na história da arte criadora musical ao nosso país sempre se verificaram grandes desníveis qualitativos. A um período áureo seguiu-se outro da mais completa obscuridade, o que tem quebrado a continuidade de uma tradição realmente existente. Nos nossos dias ela apresenta, com mero carácter acidental, uns fios ténues e escassos. Compete aos nossos jovens compositores estudar e sintetizar os pontos característicos de contacto desses diferentes períodos, reatando uma tradição que, doutra forma, se perderá.


III – As referidas técnicas de composição não são, de modo algum, incompatíveis com a feição que poderá tomar a nossa música. Nem só o folclore – que, infelizmente, e mercê de avanços da técnica, já disse a última palavra – se revela capaz de promover a diferenciação da música de diferentes latitudes. A chave do problema encontra-se, a meu ver, na aplicação dessas técnicas como meio de exprimir climas, características locais e pessoais, aliados a elementos históricos, filosóficos e artísticos herdados de séculos anteriores.

De “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes” ANO X, 2ª Série nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em 12:00 AM | Comentários (0)

setembro 17, 2007

CAPA DO PROGRAMA DO CONCERTO de 25 de JANEIRO de 1937 no TEATRO POLITEAMA

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do livro "GUILHERMINA SUGGIA - A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:04 AM | Comentários (0)

setembro 16, 2007

TEATRO POLITEAMA - AQUI TOCOU GUILHERMINA SUGGIA EM 25 de JANEIRO de 1937

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Num recital para os Sócios da Sociedade de Concertos de Lisboa, executando peças de Tartini, Sammartini, Boccherini, Ravel, Glazunov e Saint-Saëns. Acompanhada pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco, interpreta o Concerto em Ré de Lalo.
do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 11:19 AM | Comentários (1)

setembro 14, 2007

LUISA TODI (1753-1833) UMA DAS MAIORES CANTORAS DO SEU TEMPO

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Foi em 1 de Outubro de 1833, estando presentes as suas três filhas e um padre do vizinho convento de S. Pedro de Alcântara, que a grande artista Luísa Todi fechou os olhos para sempre. Foi sepultada na Igreja da Encarnação.

A zona da igreja onde Luísa Todi foi sepultada deixou, mais tarde, de fazer parte do templo e veio a ser ocupada por uma chapelaria que teve o nº 78 da Rua do Alecrim. Diversos autores têm escrito que a cantora foi sepultada sem qualquer indicação do local. Há, porém, razões para supor que tal não corresponda à verdade. De facto, o jornal República publicou um artigo em que se menciona uma afirmação do então dono da referida chapelaria. Esse senhor, de nome Artur Santos, declarou peremptoriamente ter visto, durante umas obras de levantamento do soalho da loja, a pedra tumular de Luísa Todi. A inscrição estava um pouco sumida, mas não tanto que não permitisse ver nitidamente o nome da cantora. Foi ainda o referido comerciante quem conseguiu evitar que um dos operários destruisse a pedra com uma picareta. Na época ainda se esboçou a ideia de recuperar a pedra tumular e de dar à grande artista uma sepultura condigna. Mas, como já seria de esperar, nada se fez nesse sentido. Por nossa parte, entendemos que os fins em vista continuam a justificar amplamente as necessárias pesquisas, por pouco provável que alguém possa considerar o bom êxito do empreendimento e sejam quais forem as objecções que se possam levantar. Em qualquer país que prezasse devidamente os seus maiores vultos já há muito se teria realizado tal tarefa. Na nossa terra, porém, até agora não se conseguiu muito mais do que um sorriso irónico e um encolher de ombros. Isso não nos impede de renovar aqui a pergunta já feita na República há mais de sessenta e quatro anos: estará a Câmara Municipal de Lisboa interessada na recuperação da pedra tumular de Luísa Todi e em dar à nossa grande artista a sepultura que ela merece?

Do livro “LUÍSA TODI” de Mário Moreau

Publicado por vm em 06:16 PM | Comentários (3)

setembro 13, 2007

ARMANDO SANTIAGO - "NUTRO UMA CERTA FOBIA PELO ENDEUSAMENTO DE QUALQUER SISTEMA TEÓRICO"

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I — Em que sentido se deve entender a possibilidade de existência de crise?
A — Em relação aos meios de que os compositores podem actualmente dispôr para criar as suas obras?
B — Em relação ao valor absoluto dessas próprias obras?
C — Em relação a projecção que as técnicas actuais de composição poderão ter no futuro?


A -Quando, num séc. XVIII, por exemplo, um compositor criava uma obra, não se lhe punha, com tanta agudeza como hoje, o problema de ter de seguir esta ou aquela forma diferenciada de organizar os sons, de escolher este ou aquele sistema técnico. As ideias musicais do compositor geravam-se já moldadas a uma única técnica, como técnica do seu século. Os caminhos estavam catalogados. Quer dizer, escrever música era arrumar as próprias ideias (ou as de outros) na senda da cadência perfeita, da plagal, da picarda...; no sentido indicado pelos acordes alistados pura a modulação; pelos intervalos que se contraem ou pelos que se distendem; pela bitola segura de formas já estruturadas ou de evolução lenta; etc.

Que diferença se observa nos nossos dias, em presença desse séc. XVIII, que agora me ocorreu como termo de comparação? Primeiro que tudo, para se criar hoje uma obra musical é necessário que o compositor tome uma orientação técnica definida, escolhida de entre várias ao seu dispor. Ou se sujeita aos rigores do atonalismo serial dodecafónico; ou apenas emprega a série e usa, heteradoxamente, a porção daquelas disciplinas que melhor se casa com as suas idiossincrasias; ou escreve simplesmente em linguagem atonal, sem sistematização, desapegado da série; ou, por uma convicção quase religiosa, ainda usa o balanço ordenado do mundo funcional; ou, ainda, se lança em ambiências mais abstractas, alcançadas pela via experimental da electro-acústica, singrando pela música concreta, pela música electrónica; etc., etc.
Paralelamente, e perante a diversidade dos processos, além de que a estruturação dos caminhos a seguir pertence, em grande parte, à arbitrariedade do próprio compositor, ele sente o desejo de alcançar o nunca ouvido, numa luta aflitiva, asfixiante, em busca da novidade de meios de expressão.

Pergunta-se: — gera este estado de coisas um ambiente de crise, de graves dificuldades, de momentos críticos quando se pega nos sons e se pretende construir uma obra de arte? Não tenho dúvidas a esse respeito.
Não haveria, porém, igualmente, graves problemas a resolver quando, naquele séc. XVIII, se tinha de utilizar uma universalidade de processos para se criar uma obra nova, diferente, plena de vitalidade?

No que toca às questões específicas da luta do compositor com os sons, para dar origem a uma obra válida, estou convencido, que em todas as épocas se determinarão momentos de crise, ainda que originados por causas diferenciáveis.


B — Há crise de obras-primas? Se hoje se pode afirmar que «O Combate de Tancredo e Clorinda»; a «Paixão Segundo S. Mateus»; a «Nona Sinfonia»; o «Pelléas et Mélisande»; a «Sagração da Primavera», são obras-primas, não me parece que tenha já passado o tempo suficiente para se dizer se o «Pli selon pli», de Boulez; os «Quaderni I», de Berio; o «Gesang der Jungelinge», de Stockhausen; a “Sonate pour guitare, harpe, contrrebasse et instruments de peau», de Kagel; as «Anamorphoses I, Anamorphoses II», de Schaeffer; ou uma obra que eu vou fazer amanhã, o são também.
Por outras palavras: as técnicas actuais de composição correspondem a obras tais que se possa
concluir que se atravessa um momento de crise ou de êxito?
Não sei responder. Proponho que se deixe passar mais umas dezenas de anos.

C — A que caminho irá dar a instabilidade que caracteriza a época presente, é questão insolúvel, de momento. Poder-se-ia ter previsto, no séc. XV, que a Paixão de Obrecht abriria caminho à de Bach, ou, no séc. XVII, que os colóquios da “camerata fiorentina» seriam o primeiro passo para a evolução de uma forma musical que iria produzir monumentos como a «Tetralogia»?
Será índice de crise musical não se poder prever qual a projecção que irão ter no futuro os actuais meios de expressão? Talvez, neste caso, instabilidade não seja sinónimo de crise.


II - Trata-se, portanto, de nos certificarmos se há, ou não, alguma distinção entre Música feita por portugueses, e uma hipótese de Música Portuguesa.
Por outras palavras: se o simples facto de se escrever Música em Portugal, por músicos portugueses que tenham estudado em Portugal, ou que o tenham feito no estrangeiro, ou, ainda, que até nunca tivessem estudado (talvez seja possível), confere a essa Música características tais que se deva classificar como Música Portuguesa.

Para que não se estabeleça aquela distinção, será necessário verificar-se, em Portugal, a existência de uma Escola de Composição una, centralizadora e suficientemente capaz de estilizar, de fixar e de exteriorizar, por meio da arte dos sons, o que de verdadeiramente lusitano existe nesta porção da Europa.
Por outro lado, que se verifique uma linha de continuidade nos processos e na estética da Música que se vem fazendo em Portugal desde os séculos anteriores até aos nossos dias.
Pelo que diz respeito à música do passado não se conhece o suficiente da produção para se chegar a uma conclusão definida. Umas insinuações de lirismo?... São insuficientes e vagas para estruturar afirmações.
No presente século, se, por um lado, o que se tem feito de trabalho de folclorismo não teve ainda consequências estilizadoras, de criação de escola, embora com indiscutível interesse, por outro, não se pode afirmar que os compositores tenham manifestado um desejo comum de construir partindo de bases solidamente nacionais, quer na técnica quer na estética. Não é apenas por tratar qualquer argumento baseado na História ou na Literatura pátrias, ou transcrever um perfil melódico cantado por camponeses, que se cria uma Ópera ou uma Sinfonia nacionais. A meu ver, o problema deve implicar um conhecimento muito profundo de nós próprios, das nossas linhas dominantes, como povo. Tenho quase a certeza, porém, que esse conhecimento se torna muito mais alcançável por um trabalho de equipa, de esforço comum inteligente, do que pela dispersão e pelo guerreamento vigentes.

Acima de tudo, porém, há uma linha de continuidade indiscutível que sempre se tem verificado: a importação de processos.
Será esta a tradição musical portuguesa? Tem-se escrito à Scarlatti, à Haydn, à Beethoven, à Debussy, à Strawinsky, à Bela Bartok, a Hindemith; mas é mais difícil poder dizer-se que se tivesse escrito à Seixas, à Bomtempo, à Casimira, ou, recentemente, que se possa seguir este ou aquele compositor vivo, para que se deixe de filiar em importações. Não se conclua que pretendo afirmar que não há elementos definidos que pudessem impor-se na produção musical, de molde a dar à música composta por portugueses um estigma de Música Portuguesa.

Se a tradição musical portuguesa for um facto que não ponha dúvidas, neste caso, os compositores actuais, ou não, se são portugueses, integrar-se-ão nela, naturalmente, não porque devam ou porque possam, mas, simplesmente, porque o são.


III — A música portuguesa, tal como se vai desenhando no presente, sem problemas de portuguesismo, não constitui nenhum caso especial que tenha de ser tratado em separata. Deve identificar-se com a produção musical mundial, e as perspectivas que as técnicas mais recentes de composição — como a das músicas experimentais e a já não muito nova técnica dodecafónica — abrem à música feita em Portugal serão as mesmas que abrem à Música feita em qualquer outra parte do Mundo.
As técnicas de composição, sejam quais forem, não devem, a meu ver, desempenhar senão um único papel: providenciar a segurança e a riqueza na escrita.
Como músico criador, a técnica, que particularmente me interessa no momento de escrever uma obra, só tem valor como meio — o que verdadeiramente me importa é alcançar uma resultante válida, a obra, como conteúdo estético, isto è, tudo o que eu puder comunicar de mim próprio aos outros que ouvirem essa obra. A Música deverá ter sempre uma finalidade. A técnica não será mais que um meio para a alcançar. Ora, uma vez atingido esse fim, que importa, na realidade, que a técnica tenha sido o modalismo, o tonalismo, o atonalismo sistematizado ou não sistematizado? Não resultaram válidos quaisquer deles?

Evidentemente que estou muitíssimo longe de desprezar uma técnica segura que garanta uma unidade de escrita e uma disciplina do pensamento construtivo. Apenas nutro uma certa fobia pelo endeusamento de qualquer sistema teórico, seja qual for, para se fazer técnica apenas pela técnica.
No que toca ao dodecafonismo, a sua excelência reside apenas em ser um processo seguro de sistematização, de organização interna da escrita não tonal.

Finalmente, as novas técnicas de manejo dos sons: as músicas experimentais.
Transcreverei um fragmento do Relatório, recentemente entregue na Secção de Música da Fundação Calouste Gulbenkian, referente ao Estágio que realizei no Groupe de La Recherche Musicale de Ia Radiodiffusion-Télêvision Française, no principio de 1961, onde trato das Aplicações da Música Concreta:
«De uma maneira geral, podem encarar-se três aspectos distintos na aplicação da Música Concreta. De um lado, aquele que resulta de se lhe atribuir um valor absoluto tendente a faze-la viver por si própria, isto é, a pô-la num nível de interesse estético suficiente para preencher as duas horas e meia de um concerto; para cobrir as duas faces de um disco comercial; para perfazer uma meia hora de um programa, na radiodifusão; etc. De outro lado, o aspecto procedente de se considerar apenas como um novo elemento subsidiário a juntar aos processos de expressão musical ditos tradicionais, na medida em que um defeito concretos for, por assim dizer, tomado como mais uma cor a manipular na alquimia da instrumen¬tação de uma obra musical, em busca de ambiências especiais; ou, ainda, for utilizado como excelente auxiliar expressivo de outras manifestações artísticas, nomeadamente, o bailado, o teatro, o cinema, ou, ainda, na radiodifusão e televisão. Finalmente, o terceiro aspecto, ainda que de preocupações menos artísticas, embora igualmente válido, em que os resultados obtidos pela manipulação dos efeitos concretos podem ser utilizados como material experimental em psicologia, investigações acústicas, etc.

«No que diz respeito ao primeiro aspecto, a experiência mostra, desde os primeiros ensaios (Ecole Normale de Musique, Paris, 1950), que, sob a forma de concerto, através dos amplificadores colocados cm pontos definidos de uma sala, a Música Concreta determina uma técnica e uma estética de audição cujos resultados talvez não sejam plenamente satisfatórios. Na audição radiofónica, pelo contrário, suprimem-se esses inconvenientes e a Música Concreta tem já dado lugar, quer na radiodifusão francesa, quer em emissores estrangeiros, a experiências bastante concludentes. A impressão de discos poderá, evidentemente, ser encarada como um meio de completar uma experiência de difusão no grande público.

«Qualquer destas formas, em que a Música Concreta é avaliada e apresentada como fenómeno artístico isolável, bastando-se a si própria, se me afigura, porém, arriscar-se a uma demasiada aridez, em que se não torna muito fácil alcançar um conteúdo estético suficientemente rico de intensidade.
«Não obstante, o aspecto da aplicação da Música Concreta como nova colaboradora dos processos tradicionais oferece, indiscutivelmente, um interesse muito mais real, que me parece, de longe, o que melhor resulta artisticamente e o que mais sólidas perspectivas apresenta. No campo das suas relações com o cinema abstracto, por exemplo, a correspondência perfeita entre estas duas formas é um dos casos interessantes da aplicação subsidiária da Música Concreta”.

Haverá ainda a acrescentar que obras como “Quaderni I (Berio), “Sonate pour…”(Kagel), “Pli selon pli” (Boulez), por exemplo, embora sejam exclusivamente obtidas pelo emprego de instrumentos tradicionais, são obras que vivem paredes meias com os efeitos concretos ou electrónicos, e, neste caso, a influência destes sobre aquelas não está longe de alcançar ambiências de muito interesse.

de " GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes", ANO X, 2ª série, nº 126/127 Setembro/Outubro de 1961

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setembro 12, 2007

"HAMELIN" de JUAN MAYORGA pelos ARTISTAS UNIDOS NO CONVENTO DAS MÓNICAS

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Tradução de António Gonçalves Com Américo Silva, Ana Lázaro, Andreia Bento, António Filipe, António Simão, Elsa Galvão/Ana Teresa Santos, João Meireles, Paulo Pinto, Pedro Carraca, Sérgio Conceição e Sylvie Rocha Cenário e figurinos de Rita Lopes Alves Luz de Pedro Domingos Direcção de produção de António Simão e João Miguel Rodrigues
Assistência Ana Lázaro

O texto está editado nos Livrinhos de Teatro nº 20

De novo no Convento das Mónicas a partir de 7 de Setembro

Um texto simples, complexo, em que a culpa oscila.

A tradução teve o apoio do ATELIER EUROPÉEN DE LA TRADUCTION/SCÈNE NATIONAL D’ORLÉANS com o apoio da UNIÃO EUROPEIA Comissão de Educação e Cultura – programa Cultura 2000.

Às vezes ouvimos um som aos nossos pés, ou entre as sombras, e temos medo que os ratos já aqui estejam, entre nós. Agora que éramos tão felizes.
Às vezes ouvimos nas nossas costas o som daquela flauta e dá-nos medo de nos voltarmos e reconhecermos os olhos do flautista. E corremos para os quartos dos nossos filhos para ver se ainda ali estão.
Às vezes tememos que o “Era uma vez” nos alcance como uma língua negra. E que, como uma profecia, cumpra o conto em nós.
Nas versões mais antigas do conto, as crianças nunca voltam a Hamelin. O flautista leva-os para sempre com a formosa música da sua flauta. Arrebatando os filhos inocentes, o flautista outorga à culpa dos pais o mais cruel dos castigos.
Também este Hamelin é um conto sobre a culpa dos adultos e o seu castigo. Sobre as crianças de uma cidade que não sabe protegê-los. Sobre um menino e os seus inimigos. Sobre o ruído que o rodeia e o medo que nos olha.
Juan Mayorga

Hamelin fala do mesmo que o conto: de ratos, de homens rato.
A cidade encheu-se de ratos; a perversão está na base da pirâmide: as crianças, a pedofilia.
Hamelin fala-nos da perversão, da perversão da educação, da perversão sexual, da perversão das palavras.
Unidade familiar significa família para uma criança que não sabe o que isso é? E se a tolerância é zero, quererá isso, para um juiz moderno e democrata, dizer repressão?
Hamelin também é, claro, um jogo teatral perverso onde uma personagem-comentador, em contínuo contacto com o público, nos muda o ponto de vista ou nos esclarece acerca de um conceito ou nos comove a adpotar uma postura crítica ou simplesmente senta-se ao nosso lado e olha-nos para ver como olhamos. E é disso que se trata, de olhar. De olharmos.
Andrés Lima

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setembro 11, 2007

ÁLVARO LEON CASSUTO- " AS NOVAS TÉCNICAS PODERÃO ABRIR À MÚSICA PORTUGUESA AS MESMAS PERSPECTIVAS QUE À MÚSICA FRANCESA, ITALIANA OU ALEMÃ"

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I — Sim; somente que essa crise não resulta duma carência de valores, mas sim num conjunto de tentativas de renovação ou de criação de certa linguagem musical e de uma técnica de composição adequada.

II — Sem dúvida, se considerarmos tradição um jacto como, por exemplo, o de a música portuguesa estar bastante apegada à tonalidade. Neste caso, não se põe o problema de um compositor se «poder» integrar nela; sempre o pode. Se o deve? Parece-me que será melhor deixá-lo ao critério de cada qual.

III — Exactamente aquelas que abriram e ainda poderão abrir à música francesa, italiana ou alemã.

de "GAZETA MUSICAL e De Todas as Artes" ANO X, 2ª Série - Nº 126/127 de Setembro/Outubro

Publicado por vm em 05:14 PM | Comentários (0)

setembro 10, 2007

SOB A DIRECÇÃO DE SIR MALCOLM SARGENT

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Em Janeiro de 1943 ( 3 concertos no Teatro Nacional de S. Carlos e 2 no Teatro Rivoli)

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setembro 07, 2007

FRANCINE BENOIT - "A PRODUÇÃO MUSICAL PORTUGUESA TEM PROCEDIDO NÃO CONTÍNUA MAS ESPORADICAMENTE...

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I — Sim, mas crise normal, por assim dizer, integrada na crise geral ligada às transformações e aos embates dos sistemas que nos regem, no extremo alargamento das comunicações, no desenvolvimento das ciências positivas, operando por enquanto em jogos desencontrados (ou assim me parecem). A música também é beneficiada pelas aquisições científicas, sem poder contudo livrar-se de um idêntico desequilíbrio e aplicado o progresso a fins tão diversos como a largueza (quantas vezes desbaratada) de audiência do disco e da rádio, a recolha e fixação fiel de documentos ao vivo, e, em estado ainda experimental e muito circunscrito, a música concreta e mais ainda a música electrónica. Destacando o que tem cabimento cm Portugal, verifica-se desde já que música concreta e música electrónica estão excluídas como prática in loco. O mesmo não acontece com os elementos renovadores extraídos das recolhas de documentos musicais verdadeiramente populares e seu estudo, mas muito parcimoniosamente porque os trabalhos de pesquisa, de recolha e de análise se acham por enquanto dispersos e insuficientemente apoiados.

II — Tradição musical portuguesa, no pleno sentido das palavras, julgo que não é impossível criá-la. A tradição não se desassocia de um processo consciente e de continuidade, e a produção musical portuguesa, como a podemos apreciar, tem procedido não contínua mas sim esporadicamente. É uma consolação mais que platónica convencermo-nos que não podiam dar-se essas erupções de música polifónica, de música cravística, de música operática e de música sinfónica, (mestres da escola de Évora e similares, Carlos Seixas, João de Sousa Carvalho, João Domingos Bomtempo), se não tivesse havido sempre um fundo latente de virtualidades musicais nos portugueses, como na generalidade dos países, afinal, mas com um potencial de força criadora de primeira plana. Das edições precedidas das necessárias reconstituições empreendidas pelos Serviços Musicais da Fundação Gulbenkian, se forem criteriosamente orientadas e acrescidas de um estímulo não tímido aos compositores actuais, podia esperar-se algo de fundamentalmente útil. E tem também foros de tradição, embora não no aspecto com que nos é apresentada na pergunta deste inquérito, a permanência, forte ou fraca, da música ao povo. Tanto assim que no que ela tem de verdadeiramente significativo se fortaleceu a música do compositor português contemporâneo mais representativo — direi até o mais inesperadamente representativo — Fernando Lopes Graça, e que as pesquisas sobre a música popular ainda estão na ordem ao dia. Mas será isto suficiente para responder que os compositores (portugueses) actuais devem integrar-se na música de linguagem estruturada sobre dados do folclore? Podem jazê-lo, evidentemente; que o devam fatalmente jazer não é minha opinião.


III — Do pouco que eu posso perceber sobre música concreta e música electrónica, não vejo que elas possam abrir perspectivas a qualquer música em si característica de qualquer pais; vejo-as antes como aplicação de meios — e aplicação ainda muito preliminar — com diferenciações de escola naturalmente inevitáveis, mas que vêm representar correntes de formação intelectual muito mais do que temperamental. E de qualquer modo, o compositor português tentado pela música concreta ou pela música electrónica antes de mais nada tem de emigrar por lodo o tempo que lhe durar o apetite. O dodecafonismo, sim, que de mais a mais já transpôs a fase da doutrina hermética, está licitamente (no meu entender] franqueado aos compositores portugueses — já se provou, de resto. Na medida das forças do compositor, da sua sinceridade, do justo emprego dos meios com os princípios e com os fins, se avolumará o património da música portuguesa.
da "GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes" - Ano X, 2ª Série, nº 126/127 de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em 12:00 AM | Comentários (0)

setembro 06, 2007

SHOUT ! PELA DEMOCRACIA E LIBERDADE DE IMPRENSA NO ZIMBABUÉ » 4ª-feira dia 12 no espaço LER DEVAGAR/ETERNO RETORNO, Em Braço de Prata

Esta iniciativa decorre simultaneamente em variadas cidades do Mundo e consiste na leitura colectiva de poemas de autores zimbabueanos em espaços públicos, nas rádios locais ou nacionais, e é promovida pela Fundação Peter Weiss for Art and Politics no âmbito do Festival Internacional de Literatura de Berlim (de 4 a 16 de Setembro nesta cidade).

Lisboa junta-se ao apelo lançado pela Peter Weiss e propõe a leitura de poemas de autores zimbabueanos e ainda de outros autores (Mia Couto e João Cabral de Melo Neto são alguns) que enformem o alerta que se pretende deixar ao Mundo: a realidade no Zimbabué é desesperante, os media são controlados e a informação manipulada, o povo tem fome e as perseguições políticas assumem cenários dantescos.

Nomes como Luanda Cozetti (cantora), Chullage (rapper), Nástio Mosquito (performer), Tiago Gomes (editor), Belen (actriz argentina), Meirinho (actor) e Danae (cantora) confirmaram a sua participação no evento. Começa às 21h30.

Paralelamente, haverá uma campanha verde nos jardins da cidade: usamos os ramos das árvores como braços de distribuição nos quais prendemos poemas do Zimbabué com uma breve explicação do evento e seu enquadramento.

Já mais de 50 países confirmaram a sua participação assim como vários escritores de renome: John Ashbery, Jon Fosse, Margaret Atwood, Alessandro Baricco, John M. Coetzee, Don Delillo, Nadine Gordimer, Gunter Grass e John Updike são alguns deles.

Apelamos aos media em geral, aos bloguistas, às rádios e aos autores de programas de cultura e literatura para uma participação activa: divulguem o evento, leiam um dos poemas no vosso programa ou venham ao evento e transmitam as leituras em directo.

O silêncio sobre o Zimbabué não pode continuar.

Divulguem e apareçam.

www.peter-weiss-stiftung.de

( A livraria Ler Devagar/Eterno Retorno em Braço de Prata (antiga fábrica de armamento) fica junto à rotunda 25 Abril, a caminho do Parque das Nações. Na direcção Santa Apolónia-Expo encontra esta rotunda após os cilos da fábrica, faça meia rotunda para trás e entre na rua estreita à direita. Percorra o muro e entre no portão à direita. Estacionamento privativo e gratuito. )

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FREDERICO DE FREITAS: "MAS O QUE É QUE NO MUNDO NÃO ANDA EM CRISE?..."

Frederico de Freitas.jpg
— Mas o que é que no mundo não anda em crise?...
Não estarão em crise as relações entre os Estados e até entre os homens?...
Não estarão igualmente em crise as relações entre o homem e a natureza?
Onde encontrar, pois, já não digo a euforia, mas, ao menos, a tranquilidade e a estabilidade; conducentes a uma produção intelectual reflectida?...

Sendo, ou devendo ser, a obra de arte, um produto representativo do momento que vivemos: — onde está na arte actual, música ou artes plásticas, aquilo que se tem, ou deve ter, por expressão estética que se defina por si, em beleza e simplicidade, tendente a transpor o homem para regiões superiores?...

O que se encontra na mensagem dos artistas criadores contemporâneos que não seja de certo modo a expressão de uma arte convulsiva e feia?...
É evidente que me refiro a generalidades: — as excepções só podem confirmar a asserção.

A fuga ao que ontem era novo e hoje se considera velho traduz não só a ânsia de encontrar caminho original, como também a instabilidade gerada no espírito do artista por pressões do ambiente exterior.
Creio que ninguém aprenderá hoje o ofício de compositor de música, pela inecessidade da aplicação dos processos escolares à arte de amanhã. Pois se os processos actuais da expressão compositorial, como a música concreta ou a música electrónica, já nada têm que ver com a didáctica escolar, menos o terão ainda para a futura composição, porventura produto de cérebros mecânicos, talvez espécie de robots musicais, dos quais, já nos vão chegando notícia...

Teremos, então, uma orquestra de robots executantes musicais, tocando electronicamente, música presumivelmente atómica...
Assim se terá talvez atingido a expressão artística do material, pois parece ser esta a meta que actualmente muitos procuram...

Mas, muito embora o desequilíbrio produzido pela velocidade adquirida, na busca de encontrar meios novos, para dizer o que em verdade aceitamos terem para dizer os artistas desta época convulsa e ameaçadora, o certo ê dever acompanhar-se, com o mais sério interesse, as experiências e os caminhos novos que os vanguardistas trilham.


II — Digo sem hesitar que existe uma tradição musical portuguesa. Porém, essa tradição histórica, por incúria de educação, aliás já vinda de longe, criou nos espíritos uma ideia errada. Estamos diante de uma situação paradoxal: a generalidade dirá não existir tal tradição (inclusive educadores), quando na realidade ela existe de facto, facilmente demonstrável pelas coordenadas históricas.

Nós não somos um povo sem tradição musical, antes a possuímos, própria, e com características definidas, tal como acontece com a Espanha.
O que fez, e faz, crer-se o contrário, é, para além do que se disse, o desamor e a indiferença que conduzem à presunção de que o que temos nada vale.

Ninguém ousará negar a existência de uma pintura, de uma escultura, ou de uma arquitectura portuguesas, que constituem património artístico e histórico de uma grandeza e força indiscutível. Pois a verdade é existir uma música paralela e digna das conhecidas obras de artes plásticas, que só não é apreciável, como aquelas, por residir, como morta, nos arquivos e bibliotecas.
Só de raros conhecida, e mesmo assim, longe de se ter atingido a extensão do seu conhecimento.

Mas vejamos ainda: Poderá dizer-se não existir tradição musical, num país que, durante o período medieval, teve uma floração poético-musical tão rica?
Que essa mesma lírica, não obstante as influências provençais, tenha criado formas próprias?
Que esse mesmo influxo provençal, ao ser assimilado, tivesse sofrido caldeamento pela existência de uma música e poesia autóctone?
Que este mesmo povo e a corte, durante os primeiros séculos da sua existência, embora empenhados em consolidar o novo reino, não deixaram nunca de cantar e bailar?
Não foi neste período que nasceram as Cantigas de Amigo (expressão lírica e amorosa de criação nacional), as Canções de Escárneo e Mal-dizer, as Canções de Gesta e os Romances que têm embalado gerações sucessivas?
Se a corte não passava sem os serões onde os trovadores e até os reis entoavam seus cantares, menos o povo dispensava a presença dos estimados jograis, que lhe alimentava o espírito e a folgança.
Depois, com a evolução da lírica medieval, assiste-se à criação do teatro português, com Gil Vicente.

Paralelamente à aceitação do teatro português (teatro que foi conjunto de prosa, verso e música) tivemos a florescência dos guitarristas ou vihuelistas, criando a Fantasia e a Diferença, o Vilancico e o Romance, as danças de corte, a poesia palaciana, o Madrigal, o Moteto, e, de feição popular, a Chacota, a folia e outros bailes de vilão.
Não menos rica, contudo, foi a floração da polifonia religiosa, espécie de réplica musical ao maravilhoso estilo gótico flamejante.
Parece ter começado, por esta época, um como que assurdinar da alegria popular, da qual Mestre Gil dá sinal. No obstante, os moços filhos de algo e a gente miúda, quando partem para Alcácer Quibir fazem-se acompanhar de guitarras e adufes.

No plano superior da cultura musical: a Universidade de Coimbra inclui, pelos seus primórdios, com os estudos das humanidades, a música. Outros centros a cultivam e ensinam, mormente nas dioceses episcopais, atingindo mesmo grande esplendor o culto da música, nas catedrais de Braga, Viseu, Lamego, Santa Cruz de Coimbra e outras.
Com a Restauração da nacionalidade temos um rei músico — D. João IV — e neste período, a polifonia religiosa eleva-se a proporções altas, com dois notáveis centros que criaram escola:
— Évora e Vila Viçosa.

Pelo século XVIII, com a expansão da ópera italiana, constroem-se teatros e enviam-se a Itália, a expensas régias, alguns compositores portugueses, os quais nos viriam a deixar fausto espólio, hoje quase ignorado e praticamente alimentando a traça dos arquivos.
Depois, o século XIX foi em verdade pobre no aspecto da criação musical, mas não obstante Garrett funda o Conservatório cuja direcção entrega a um notável músico português — Domingos Bomtempo. O Conservatório vem substituir com largas vantagens o ensino da música que então se ministrava no Seminário Patriarcal.

Edificam-se os teatros de ópera, S. Carlos e S. João, respectivamente em Lisboa e no Porto, e não esqueçamos a larga aceitação dos mesmos espectáculos pelo público, que só por si o alimenta.
É ainda da tradição a exigência dessas mesmas plateias que consagrava artistas.
Pelo que fica dito — embora em resumida resenha histórica — não poderá em verdade negar--se a existência de uma tradição musical portuguesa, pelo menos, no sentido em que a música foi cultivada e preferida pelas diferentes classes sociais.

Mas se o facto de se utilizar a música como desejável função social não basta só por si para definir a existência de uma tradição musical, estudem-se então as constantes musicais, desde a fundação da nacionalidade até nossos dias e conhecer-se-á a permanência de um fulcro expressivo, ou linha climatérica, que, digamos, por instinto — nanja por consciência evolutiva — adrega de chegar aos compositores de nossos dias, o que acontece, seguramente, por mera inspiração atávica.

Ê certo, porém, terem alguns dedicado estudo ao folclore, como meio inversivo e retrospectivo de alcançarem um conhecimento, que, por escassez de fontes, de outra forma não seria possível obter.
Se a tradição é a via pela qual os factos são transmitidos de geração em geração, sem. outra prova de continuidade que não seja a própria veracidade da transmissão, o canto popular — música, poesia e dança — está neste caso, por constituir ele, propriamente, vivência de cantares longínquos.
Creio ter deixado defendida a minha opinião quanto à existência de uma tradição musical portuguesa, muito embora os traços largos com que procurei documentá-la.

Quanto à segunda parte da pergunta — “Em caso afirmativo, acha que os compositores actuais devem (ou podem) integrar-se nessa tradição?”: Entendo que devem e podem, se o quiserem. Se em Portugal se tivesse agido como em Espanha; se a seu tempo se tivesse criado um estabelecimento com ã expansão equivalente ao Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, o qual tem dado à estampa todos os tesouros da música espanhola antiga devidamente comentados e transcritos em notação moderna; se a seu tempo se tivessem preservado, recolhido e publicado, tanto os velhos documentos musicais, como grafado as antigas melodias cantadas pelo povo, outra seria hoje a nossa posição no cômputo da cultura musical dos povos.

Ao mesmo tempo ter-se-ia guardado uma consciência que só o estudo sério pode informar. Ê essa mesma tomada de consciência que leva alguns compositores espanhóis a convencerem-se de que a ortodoxia dodecafonista, tal como se emanou de Viena, não é vestimenta que lhes sirva. Outrossim, e depois do estudo aprofundado dos livros de texto musical antigo, mormente os de música profana, vêem agora, esses mesmos compositores, que o folclore usado pelos seus imediatos antecessores não corresponde a uma raiz pura de essência nacional, mas, antes, a uma limitação regional.


III - As famigeradas técnicas de composição, muito especialmente as designadas por música concreta e música electrónica, como de certo modo o dodecafonismo, ou outras destas derivadas, tendem, a priori, para uma expressão universalista e unitária que parece ser inconciliável, justamente, com os elementos e valores étnicos que vincam a tradição.
Até ao presente será possível distinguir, pela audição, a música deste ou daquele país; com as novas técnicas, tão caracterizadas por carência de autoctoneidade, não parece vir assim a acontecer. a avaliar pelo estado actual da composição musical.

Terá a arte — e os países que a produzem — alguma vantagem em universalizar-se, ou melhor, em estandardizar-se, de maneira tal a que a música, a pintura, a escultura e até a própria arquitectura sejam iguais por toda a parte, por desprovidas de elementos característicos nacionais?!... Quem viaja e pode ver exposições de artes plásticas vanguardistas, tal como vê as construções maciças para alargamento de cidades, observa, não certamente sem se admirar, o comum do estilo dessa mesma arte, que, em pouco ou nada, difere de pais para país.

Assim parece caminharmos para uma expressão de arte generalizada, que, embora intelectualizada, se assemelha ou aproxima, por comum, a uma espécie de primativismo aborígene.
Ê de certo modo o que nos sugere a música concreta, com o seu homofunismo assente sobre o primado do ritmo.

E ocorre perguntar: sendo a arte portadora de valores morais e intelectuais eternos, poderá ela abjurar de seus princípios? Se é certo, como dizem, caminhar o mundo para uma evolução social na qual porventura virá a estruturar-se uma organização económica diferente da actual, será porventura — ainda que em fase experimental — a arte actual expressão antecipada dessa sociedade vindoura?!...

Seja como for, de maneira alguma se devem enjeitar as experiências que, certamente, hão-de trazer novas perspectivas à composição musical, não me parecendo por isso haver motivo para que a música portuguesa se alheie dos caminhos que as mesmas experiências lhe deparam.
Julgo ainda que todas as técnicas serão úteis, na medida em que servirem o pensamento original do autor, e este se conserve vinculado à tradição espiritual do seu país.

"GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes" Ano X, 2ª Série - Nº 126/127 Setembro/Outubro de 1961

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setembro 05, 2007

INQUÉRITO SOBRE A MÚSICA - RESPONDEM 10 COMPOSITORES ( a partir de AMANHÃ)

crise ou não?

tradição nacional ou não?

novas técnicas aceitáveis ou não?

A seguir aos romancistas pronunciam-se agora os compositores portugueses sobre alguns daqueles problemas que se nos afiguram de viva actualidade e de importância capital em matéria de criação artística. Sabida a relutância que, de um modo geral, os nossos músicos manifestam cm escrever sobre assuntos da sua arte, e o relativo desinteresse com que se têm alheado de teorizações, ou até da divulgação desses mesmos assuntos, a Gazeta considera como excelente sintoma o acolhimento prestado pelos compositores nacionais a este novo capítulo dos seus Inquéritos.

Como bom sintoma será ainda a concordância quase unânime sobre os problemas fundamentais contidos nas três perguntas do questionário. À excepção de uma, todas as respostas são concordes em que haverá uma crise, sim, mas crise de gestação, crise fecunda, de reajustamento a novas técnicas que vêm abrir novos caminhos à música. E do mesmo modo é unânime a aceitação da realidade irrefutável que hoje em dia representam essas novas técnicas, independentemente dos tons variados em que se dê tal aceitação, seja o da adesão calorosa, ao da prudente expectativa, ou ao da resignação. Finalmente, poucas respostas afirmam haver uma tradição musical portuguesa, e a esmagadora maioria que a dá como inexistente, ou apenas «possível de vir a criar-se», vem pôr o dedo numa das chagas vivas da nossa cultura, precisamente a da falta de escolas e de linhas de continuidade na música portuguesa através dos séculos. Eis as perguntas, e têm a palavra os músicos:

1) Em seu entender a música atravessa um momento de crise?

2) Haverá uma tradição musical portuguesa? Em caso afirmativo, acha que os compositores actuais devem (ou podem) integrar-se nessa tradição?

3) Que perspectivas poderão abrir à música portuguesa as novas técnicas de composição — dodecafonismo, música concreta, música electrónica?

da "GAZETA MUSICAL e DE Todas as Artes" Ano X, 2ª Série , JULHO-AGOSTO de 1960, Nº 112-113

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setembro 04, 2007

TEATRO SÁ DE MIRANDA em VIANA DO CASTELO

teatro sa de miranda  Viana.jpg
Aqui tocou GUILHERMINA SUGGIA em 14 de Maio de 1945, para os sócios do Círculo de Cultura Musical de Viana do Castelo. Acompanhada por Ernestina da Silva Monteiro interpretou a Sonata em Sol de Beethoven, as Variações Sinfónicas de Boëllmann e trechos de Bach, Boccherini, Senaillé, Fauré, Popper, Ravel e Falla
(do livro "GUILHERMINA SUGGIA - A Sonata de Sempre", de Fátima Pombo

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setembro 03, 2007

ATELIERS MUSICAUX SONS CROISÉS (VIIème année)

jorgeNAIVE.jpg
17, 18 et 19 septembre
colegio de españa
(ciup)

fondés et dirigés par Jorge Chaminé et Marie-Françoise Bucquet

invité exceptionnel :
le célèbre pianiste et chef d'orchestre LEON FLEISHER (19 septembre)

masterclass publics de 11h à 13h et de 15h à 19h

concert public : le 19 septembre à 20h00
(dans la limite des places disponibles)

informations : 01 43 36 55 06
sonscroises@noos.fr

Colegio de España
Cité Internationale Universitaire de Paris
7 E Bld Jourdan
RER : Cité Universitaire
Bus 21/67/88/PC.


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"OS HISTORIADORES ESTRANGEIROS E A MÚSICA PORTUGUESA", na GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes

Certo e sabido : quando não se acham lamentavelmente inçadas de erros e confusões, são singularmente omissas ou parcimoniosas no que respeita a
Portugal as histórias da música saídas dos prelos estrangeiros. E jã não é na verdade sem um sentimento de apreensão, de desconfiança, que folheamos qualquer publicação recente do género que adrega de nos chegar às mãos.

Foi o que ainda agora nos sucedeu (e com razão, como se vai ver), ao percorrermos a luxuosíssima Histoire illustrée deLa Musique, subscrita por um dos mais considerados musicólogos franceses, Marc Pincherle, e editada (1959) pela conhecida casa Gallimard. de Paris.

Em relação à sua irmã mais velha, a Histoire illustrée de La Musique de René Dumesnil (Plon, 1934), absolutamente muda sobre a música em Portugal, temos de estar reconhecidos à história de Pincherle pela sua maior generosidade : nas suas 223 páginas de formato monumental, faz nada menos de... duas referências de passagem à música portuguesa: a primeira para citar o nome de Joan (sic) Rebello entre os polifonistas vocais ibéricos do século XVII, a segunda para nomear Manuel Rodrigues Coelho entre os organistas da geração que sucedeu à de Cabezón.
Et c'est tout... Não, não é tudo: há ainda uma terceira referência, não propriamente a um músico, mas a uma personagem real: «La princesse Madeleine - Barbara de Portugal, La future reine d'Espagne». É ainda para se estar agradecido, só sendo para lamentar que, entre as princesas de Portugal, não se conheça de facto nenhuma com aquele nome...

É claro que nós não pretendemos que a música e os músicos portugueses possam aspirar a ocupar largo espaço nas histórias gerais da arte dos sons. Mas se alguma delas, limitando embora a sua escassa informação à nossa música clássica, traz à baila o nome de João Lourenço Rebelo (o tal Joan Rebello de Pincherle), não percebemos por que critério musicológico não se há-de referir a outros vultos, um Duarte Lobo, um Manuel Cardoso, um Melgaz, por exemplo, acaso mais importantes do que o Rabelinho, cuja obra, segundo o erudito francês, «merecia ser estudada», ignorando que a quase totalidade dessa obra se encontra irremediavelmente perdida, o que felizmente não sucede com a daqueles outros mestres. Quanto a Rodrigues Coelho, parece-nos licito pôr a seguinte questão: uma vez decidido o historiador a documentar a nossa música instrumental clássica tão só com um nome dentre os dos seus representantes (que, é certo, não parece serem muitos), não seria mais acertado que a sua escolha recaísse sobre o nome de Carlos Seixas, que, sem desprimor para a figura do ilustre autor das Flores de Música, se antolha aos estudiosos da música portuguesa, e debaixo do ponto de vista da evolução e da caracterização étnica desta, personalidade artística mais significativa ?

A partir do século XVII, a música portuguesa não existe para M. Marc Pincherle (já não existia antes). Pode-se alegar para este silêncio a falta de projecção universal dessa música (e nós não contrariaremos essa razão, embora ela nos não pareça decisiva para um historiador). Pode-se alegar a necessidade de ser breve e essencial numa obra não muito extensa (e essa alegação ocorre aqui e ali no trabalho de M. Marc Pincherle, embora em muitos pontos ele esteja longe de ser esquemático). Mas pode-se também mais uma vez acusar os franceses de desconhecerem, ou fingirem que desconhecem, a geografia, quando verificamos que, chegado por exemplo ao período contemporâneo, M. Marc Pincherle reserva na sua história um cantinho praticamente a todas as escolas nacionais (na Europa: à Espanha, à Inglaterra, á Bélgica, à Holanda, à Suiça, à Hungria, à Checoslováquia, à Suécia, à Noruega, à Dinamarca, à Finlândia, à Polónia, à Roménia, à Grécia; na América: aos Estados Unidos, ao México, ao Brasil, ao Chile, à Argentina, ao Uruguay), e a Portugal... nicles.

Por Júpiter ! Não haverá mesmo na música portuguesa da primeira metade do presente século um nome, um só nome que seja, que pudesse figurar sem desdouro na história de M. Pincherle ao lado, por exemplo, do espanhol Federico Mompou, do holandês Marius Monnikendam, do suíço Hans Huber, do checo Karel Husa, do sueco Dag Wiren, do dinamarquês Ebbe Hammerik, do finlandês Bengt de Torne, do grego Lévidis, do mexicano Silvestre Revueltas ou do chileno Domingo Santa-Cruz, cuja universalidade (sem menosprezo pelo que artisticamente possam valer) nos parece bem contestável ?

Tudo isto é certamente lamentável. Mas metamos um pouco nós próprios a mão na consciência. Os estrangeiros desprezam ou desconhecem a música portuguesa. Prezam-na ou conhecem na todavia mais os mesmos portugueses ? Que temos nós feito para a dar a conhecer, para a proteger, para a valorizar aos nossos próprios olhos e aos dos estranhos ? Que crédito podemos nós esperar para ela, quando sabemos o que dessa música exportamos como expoente das nossas faculdades artísticas, os desaires a que nos sugeitamos com o beneplácito de entidades responsáveis, uma das quais ainda ultimamente proclamava alto e bom som que Portugal se estava tornando mundialmente conhecido graças ao génio (génio foi mesmo o que se disse) de dois compositores de... canções revisteiras ?

Artigo não assinado da “GAZETA MUSICAL e De Todas As Artes”, Ano X, 2ª Série nº 112/113 de Julho/Agosto de 1960

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setembro 02, 2007

"APRENDA MÚSICA..."

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Em "GAZETA MUSICAL e de Todas As Artes" Ano X, 2ª Série, nº 126/127, de Setembro/Outubro de 1961

Publicado por vm em 12:00 AM | Comentários (2)

setembro 01, 2007

"NEM TUDO QUE LUZ É OURO, NEM TUDO QUE TOSSE É CATARRO", por JOÃO JOSÉ COCHOFEL

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Já agora, deixem-me meter também a minha colherada. As tosses de que se queixa a Maria da Graça e o desabafo de Sampaio Bruno têm decerto uma raiz comum. E essa raiz comum não será a de estar a gente, no fundo, bem no fundo, nas tintas para a arte e a cultura?

Bem sei que há a febre do ballet. Mas têm a certeza de que muitos não irão lá senão para ver as pernas às bailarinas?
Bem sei que se editam livros como nunca, que se realizam exposições, que os cinemas estão cheios, que os teatros vão vegetando, que os concertos tem um público fiel. Mas têm a certeza de que o vulgar leitor de romances, o espectador das fitas e das peças, procura mais que uma distracção, mais do que saber se o fulaninho sempre casa com a cicraninha? Têm a certeza de que o comum visitante das exposições procura mais que a flagrância dos retratos ou o lindo verde dos campos? Têm a certeza de que o «habitué» dos concertos
procura mais do que um bom sono por dentro, quando não por fora, embalado na harmonia dos sons, ou do que verificar se o concertista "X" produz maior ou menor número de notas por minuto que o concertista "Y"? Sim, andamos todos a fingir cultura, como diz o José Gomes Ferreira, que devia ser ele a escrever este comentário, mas anda com a mania de que cortou a colecta (esperemos que lhe passe).

Mas não acham também que num pequeno país pobre, de oito ou nove milhões de habitantes, tudo isso é compreensível, e que o facto de ainda assim haver concertos, haver exposições, escreverem-se livros, saírem revistas literárias, tem qualquer coisa de milagreiro?
Não acham, com franqueza, que já é fazer muito e que não há, afinal, grandes razões para desânimos ?
JOÃO JOSÉ COCHOFEL
Desenho de JOÃO ABEL MANTA
Da “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes”, ANO X, 2ª Série Nº 112/113 de Julho/Agosto de 1960

Publicado por vm em 12:00 AM | Comentários (0)