maio 31, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - VII

Com o rebentar da Primeira Guerra Mundial, Suggia, que entretanto se havia desligado de Casals, decide ir viver na Inglaterra numa tentativa de prosseguir a sua carreira, algum tempo suspensa. Aí continuamente solicitada e rodeada de honrarias, o seu prestígio de concertista torna-se cada vez maior.

Um consagrado escritor e ensaísta britânico exprime, em prosa de arte, a rara sensação que lhe causou a grande Artista num concerto efectuado em Manchester em 1919, reparando na «figura atraente... ao surgir no estrado com o seu belíssimo instru¬mento e seu trágico semblante egípcio...»

Augustus Jonh (1879-1961), o maior retratista inglês do séc. XX, num quadro a óleo, concluído em Março de 1923, fixa também a figura de Suggia tocando numa elegante atitude de emoção e domínio, quadro impregnado de majestade e beleza.


Em 1927, Suggia consorcia-se com o Dr. José Carteado Mena (1876-1949) fixando residência no Porto.
Ouvi-a pela primeira vez, era eu menino e moço, num Concerto dado no Teatro de S. João a 10 de Abril de 1930 com a colaboração da Orquestra dos "Concertos Sinfónicos de Lisboa" sob a direcção de Pedro de Freitas Branco (1896-1963).
Nessa noite inesquecível de vibrante entusiasmo, a audição do Concerto de Haydn e o de Saint-Saëns, do Kol Nidrei de Max Bruch e da Habanera de Ravel constituiu, graças à soberba interpretação de Suggia, um incitamento para o meu estudo de violoncelo e a revelação duma elevada arte com a perfeição da qual comecei então de sonhar...
(Cedido por A Cunha e Silva

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maio 30, 2005

ESTOU EM BRUXELLAS HA UMA SEMANA...

Postal-59.jpg
Bruxellas, 25-3-906
Meu bom amigo,
Muito lhe agradeço pela sua amável carta do corrente. Estou em Bruxellas ha uma semana e ficarei até meados de Abril.
Qual será a melhor épocha de ir a Lisboa? Que suas majestades estejam lá. Escreva-me, sim, para Bruxellas, rue de l'arbre benit, 44 Bruxelles.
Muitas saudades e até à vista. Sua amiga
Guilhermina Suggia
(Cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 27, 2005

UM DOS SALÕES DA RUA DA ALEGRIA, 665

SALAO 2.jpg
Dentro destas paredes quanto se terá falado de música?! Quanto se terá estudado? Seria bom se estas paredes pudessem reproduzir-nos agora toda a música que escutaram.
(Cedido por Isabel Millet)

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maio 26, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - VI

Nesse mesmo ano (1907), em Portugal, um conhecido articulista, ao anunciar um concerto de Suggia no Salão do Conservatório de Lisboa, escreve nos seguintes termos: "O que existe nessa extraordinária mulher-artista e que levanta a sua arte, aos olhos de todos os que o escutam, com um relevo admirável e a enche da mais veemente expressão e do mais vivo e impressionante colorido, é todo um cálido temperamento de meridional, bem criado à luz do nosso sol e sob o vivo azul do nosso céu, é uma alma bem portuguesa que uma vocação artística cedo despertada ensinou a vibrar, emocionando-se com violência e sabendo, por uma sugestão feliz, transmitir-nos a nós essa emoção.

Segue-se um largo período em que, em Paris, o íntimo convívio que Suggia manteve com Casais foi de molde a adquirir novas experiências humanas e estéticas, sendo de salientar o conhecimento das Suites de Bach. O Concerto Duplo para dois violoncelos e orquestra de Emmanuel Moór (1862-1931) foi muitas vezes tocado por ambos. A Suite op. 110, do mesmo compositor é-lhes dedicada.

Dão inúmeros concertos, e nessa actividade conjunta dir-se-ia que a Intelectualidade Ibérica, na sua dupla feição hispânica e lusitana, nunca esteve tão altamente representada como por esses dois génios peninsulares da Música.
(Cedido por A Cunha e Silva)

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maio 25, 2005

O MEU MAIOR DESEJO É VOLTAR POR UM MEZ À MINHA PATRIA...

Postal-58.jpg
Berlin, 20-3-1906
Meu bom amigo,
Muito lhe agradeço a sua estimada carta.Sempre é certo eu ir a Lisboa em fins de Abril.
Estimarei immenso dar um ou dois concertos se a epocha não fôr muito avançada.
Minha irmã também estará lá por essa ocasião, mas não sei se ella estará de acordo ou se ella desejaria de preferencia dar um concerto ella só.
O meu maior desejo é voltar por um mez à minha patria e tornar a ver os meus amigos e parentes.
Acceite muitas saudades. Sua amiga
G.S.
(Cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 24, 2005

TESTEMUNHO DE PROF MADALENA SÁ E COSTA

NET 1931 14 MAIO GUILHERMINA, MADALENA E AUG SUGGIA PAL CRISTAL.jpg
Guilhermina Suggia, a grande violoncelista portuguesa nasceu no Porto em 1885.
Em 1901 partiu para Leipzig onde foi estudar com Julius Klengel, mas até
essa data estudou violoncelo no Porto com seu Pai, Augusto Suggia, excelente
violoncelista e professor, e música de câmara com Moreira de Sá, personalidade ímpar no meio musical português.

Durante esses dezasseis anos pertenceu ao Quarteto Moreira de Sá e aí toma conhecimento dos quartetos de Beethoven (que virão a ser dados em primeira audição em Portugal) e de muitas outras obras importantes; toca em muitos concertos do "Orpheon Portuense", sociedade de concertos fundada em 1881 por Moreira de Sá com muitas elementos do meio musical portuense.

Esta sociedade que ao longo desses anos da formação de Guilhermina muito acarinhou o seu desenvolvimento, organiza um concerto antes da sua partida para Leipzig, em que toca o 1º andamento do concerto de Lalo, Tarantela de Popper e Variações sobre um tema Rococo de Tschaikovsky.
No dizer de minha Mãe, Leonilda Moreira de Sá Ferreira da Costa, quando
Guilhermina parte, já é uma violoncelista muito feita, muito completa.

Fui sua discípula durante 10 anos. Esse período da nossa convivência e
amizade foi fabuloso. Ouvi-a tocar muitas vezes em ensaios e concertos com
minha Mãe e com meu Pai. Aprendi muito nas suas lições e ouvindo-a em
concertos, com a sua maneira de tocar muito comunicativa e emotiva.

Em 1926, a Sociedade de Concertos de Vigo, convidara Guilhermina e meus
Pais para tocarem numa série de concertos, tocando ela num deles com a
Orquestra Sinfónica de Madrid dirigida pelo famoso maestro Arbós.
Para mim as sonatas de Brahms e a sonata em lá de Beethoven, que tocava
com meu Pai, tiveram uma execução de rara beleza e perfeição que jamais
esquecerei. Guilhermina convidou meu Pai a realizar este programa no Wigmore Hall de Londres em 1929. E minha Mãe a tocar nessa ocasião em concertos em casas particulares de Londres.

Foram relações artísticas e de amizade muito intensas e profundas. Quando
Guilhermina parte para a Alemanha deixa uma sua fotografia com a seguinte dedicatória: "A Moreira de Sá com eterna gratidão". E, com minha Mãe manteve uma correspondência enorme durante muitos anos incluindo cerca de cem postais enviados de muitas cidades e países onde toca. Realiza concertos em muitos países.

Além de Portugal, onde é delirantemente ovacionada e acarinhada, toca em
Espanha, França, Alemanha, Itália, Áustria, Holanda, Dinamarca, Polónia,
Suíça, Rússia, etc. e com Orquestras dirigidas por eminentes maestros como
Artur Nikisch, Mengelberg, Pedro de Freitas Branco, Malcom Sargent.

Deixa em testamento o seu famoso violoncelo Montagnana para ser vendido e,
com o produto daí resultante se instituir um prémio com o seu nome destinado
ao melhor aluno do Conservatório de Música do Porto. Esse prémio foi
distribuído a seis jovens em provas de concerto com orquestra tendo
altamente dignificado esta atribuição.

Deixou ainda o famoso violoncelo Stradivarius à Real Academia de Londres,
Ao Conservatório de Música de Lisboa deixou um outro assim como à
violoncelista Isabel Cerqueira Millet sua discípula; e, a mim, um violoncelo
italiano do século dezoito. Fiquei-lhe eternamente grata também por este seu
gesto.

Versão do capítulo sobre Guilhermina Suggia que integra o livro de
memórias de Madalena Moreira de Sá e Costa em fase de pré-publicação
.
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FOTO ACIMA - 1931 com Guilhermina Suggia e Augusto Suggia no final do ensaio
do meu 1º concerto (Teatro Gil Vicente, Palácio de Cristal, Porto).
FOTO 1 ABAIXO - 1901 Quarteto Moreira de Sá: Bernardo Moreira de Sá (1º
violino), Henrique Carneiro (2º violino), Benjamim Gouveia (viola) e
Guilhermina Suggia.
FOTOS 2 ABAIXO - 1929 Programa de concerto no Wigmore Hall


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QUARTETO MOREIRA DE SÁ

Quarteto-Moreira-de-Sa.gif

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PROGRAMA DE WIGMORE HALL-19/11/1929

ANEXO 3 NET - 1.jpg.jpg

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PROGRAMA DE WIGMORE HALL-19/11/1929

ANEXO-3-NET -2.jpg

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maio 23, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - V

No mês de Abril deste ano de 1904 as irmãs Suggia dão um Concerto em Lisboa a favor da Associação das Escolas Móveis pelo método de João de Deus.

No ano seguinte, na estância termal de Carlsbad, Guilhermina encontra-se casualmente com a Rainha D. Maria Pia e com o famoso violoncelista David Popper (1843-1913) que todos os dias se compraz em ir tocar com ela. "Que felicidade eu ter ainda lições com o grande David Popper!" exclama então Suggia, em cujo Álbum ele autografou: "À maior dos violoncelistas vivos, Guilhermina Suggia, do seu velho confrade D. Popper".

De 1904 a 1907, na companhia de sua irmã e colaboradora de sempre, os seus concertos sucederam-se por quase toda a Europa, desde Portugal à Rússia e à Turquia.

Em Itália, o notável pianista e compositor G. Sgambati (l841-l914), discípulo dilecto de Liszt e amigo de Wagner, escreveu estas palavras a propósito dos concertos que em 1907 a nossa compatriota realizou naquele país: "Suggia é superior a Piatti, Popper, Klengel, etc. Nunca ouvi assim tocar violoncelo".
(cedido por A Cunha e Silva)

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maio 22, 2005

MAIS UM PORMENOR DA CASA VERDE

CASA VERDE.jpg
Por esta escada, do interior da casa verde, do nº 665 da Rua da Alegria, subiu Guilhermina Suggia inúmeras vezes. Se entrasse na porta à direita dava para um dos salões. Se subisse a escada iria para os quartos.

A memória desta casa devia ser preservada. Oxalá venha a ser a CASA-MUSEU GUILHERMINA SUGGIA. Faremos por isso.

(Cedido por Isabel Millet)

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maio 21, 2005

CASA DA MODISTA DE GUILHERMINA SUGGIA

Casa da Modista-Rua Direita.jpg
Este é um retrato de António Mendes, da casa ainda existente, da modista onde Guilhermina Suggia mandava fazer o seu guarda-roupa, em Leça, na Rua Direita.
A Clarinha, a mestra de costura de grandes senhoras, apara-lhe os caprichos, tateia os tecidos que a Suggia traz, cinge-lhos à cintura, traça-os em diagonal sobre o peito.
Na sala de provas, as duas na intimidade. Suggia ensaia o seu altar, o seu estrado ou palco da vida realçado em sedas e cetins. No espelho, o corpo inteiro reflecte vida. Suggia aproveita o Verão e a sua modista de Leça para preparar as suas "toilettes", os vestidos pomposos dos concertos das "tournées".
Na sala do primeiro andar estavam as costureirinhas - minha mãe estava lá - que cochichavam: "que mulher espalhafatosa e elegante! Que tecidos exóticos!"
E assim ficavam mais um ano à espera do dia Suggia, como quem espera o dia da festa de São Bartolomeu.
(cedido por A Cunha e Silva)

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maio 20, 2005

SEMPRE EMINENTE SUCCESSO

Postal-57.jpg
Berlim, 5/3/906
Meu bom amigo,
Toquei ante-hontem em Berlim (Philharmonie), hoje em Anklam e emanhã em Berlim novamente; sempre eminente successo. Amanhã espera-se a familia imperial assistirá ao concerto.
É certo eu ir a Lisboa em Abril (fins d'Abril); talvez minha irmã já lá esteja por esse tempo.
Saudades
G.Suggia
(Cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 19, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo -IV

Aureolada de glória, Suggia regressou a Portugal nesse mesmo ano de 1903, e com sua irmã deu no Porto um concerto para os sócios do "Orpheon Portuense", e em Lisboa outro no Salão da Trindade, em benefício da Assistência Nacional aos Tubercu¬losos, patrocinado pela Rainha D. Amélia.

Afigura-se-me interessante revelar a dedicatória que se lê num velho exemplar da "Elegia" de Fauré, pertencente ao Arquivo Suggia, e que, escrita nessa época pelo conhecido dilettante portuense Dr. Forbes de Magalhães, a seguir se transcreve:

"À insigne violoncellista portuense, Guilhermina Suggia

off."
O seu mais antigo admirador; o primeiro que a ouviu tocar, tendo ella seis annos d 'edade e residindo em Manhufe, próximo da igreja de Mathosinhos; o primeiro que a acompanhou ao piano; o primeiro que com ella tocou um duetto de violoncellos; o que não admira só as suas qualidades artísticas, mas aprecia muito o seu merecimento como muito amiga de seus paes e de sua irmã, outra notável artista,
Porto. 7-2-1904

Forbes de Magalhães

(cedido por A Cunha e Silva)

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maio 18, 2005

PARA GUILHERMINA SUGGIA, de Valter Hugo Mãe

reúnem-se sob a concha
de deus capazes dos sons
que sempre sonharam, os animais
e os músicos, bichos de voz
exótica enfim reencontrados.

aí os sabemos de patas e
mãos aquecidas por dentro, as
almas lúcidas de beleza, atentos
apenas à melodia que se eleva e
à voz torpe dos ouvintes.

os ouvintes como emanação dos '
sons, por dentro como almas
a crescer ou lugares onde
nunca acabam.

Poema inédito 2002 de valter hugo mãe • Poeta editor. Edições Quási

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maio 17, 2005

JÁ TENHO IMMENSAS SAUDADES DA MINHA PATRIA

Postal-56.jpg
Berlin, 23/2/06
Já estou de volta da Russia. Sigo hoje para Frankfort. Já tenho immensas saudades da minha patria. Saudades.
G. Suggia
(Cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 16, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por CARLOS FIGUEIREDO - III

No mês de Abril deste ano de 1904 as irmãs Suggia dão um Concerto em Lisboa a favor da Associação das Escolas Móveis pelo método de João de Deus.

No ano seguinte, na estância termal de Carlsbad, Guilhermina encontra-se casualmente com a Rainha D. Maria Pia e com o famoso violoncelista David Popper (1843-1913) que todos os dias se compraz em ir tocar com ela. "Que felicidade eu ter ainda lições com o grande David Popper!" exclama então Suggia, em cujo Álbum ele autografou: "À maior dos violoncelistas vivos, Guilhermina Suggia, do seu velho confrade D. Popper".

De 1904 a 1907, na companhia de sua irmã e colaboradora de sempre, os seus concertos sucederam-se por quase toda a Europa, desde Portugal à Rússia e à Turquia.

Em Itália, o notável pianista e compositor G. Sgambati (1841-1914), discípulo dilecto de Liszt e amigo de Wagner, escreveu estas palavras a propósito dos concertos que em 1907 a nossa compatriota realizou naquele país: "Suggia é superior a Piatti, Popper, Klengel, etc. Nunca ouvi assim tocar violoncelo".
(Cedido por A. Cunha e Silva)

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maio 15, 2005

SALA SUGGIA - CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DO PORTO

Sala Suggia-CMusPorto-Angela Macedo.jpg
Óleo s/ Tela de Ângela Macedo
(Cedido por A. Cunha e Silva)

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maio 13, 2005

J'AI JOUÉE HORS PROGRAMME 12 FOIS.

Postal-55.jpg
Warschau, 21-2-1906
Colossal succés à Warschau.
J'ai jouée hors programme 12 fois.
Ainda anda aqui a revolução ás voltas. É perigosissimo andar-se na rua. Sigo depois de amanhã para Francfort e Berlim. Muitas Saudades
G. Suggia
(Cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 12, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - II

Em 1901 a sua ida a Lisboa, constitui um passo decisivo na sua vida, conquistando na Capital os maiores admiradores, entre os quais os membros da Família Real. A Rainha D. Amélia, entusiasmada e magnânima, ao saber que a sua maior ambição era o seu aperfeiçoamento no estrangeiro, promete-lhe uma bolsa de estudo.

Atribuída esta, realiza-se então no Porto, em 4 de Novembro daquele ano, um Concerto de Despedida, no qual G. Suggia executa obras de Chopin, Tchaikowsky, Lalo e ainda, como nota de interesse, Nocturno e Tarantela de Klengel, o compositor--violoncelista e insigne pedagogo que na Alemanha iria ser o seu Mestre. Alguns dias depois acompanhada por seu pai, vai a Vigo, onde embarca para Lípsia, por via Bremen.

Julius Klengel (1859-1933), ao ouvir a nova discípula logo reconheceu nela uma vocação extraordinária e um temperamento excepcional; a sua forte intuição musical bem se revelava na forma como ela cantava os andamentos lentos!

Assim como os antigos davam o nome de diva às grandes cantoras que, como Luísa Todi (o caso de maior celebridade na Arte musical portuguesa) eram especialistas no canto "spianato"— também a Suggia, tal a grandeza sonora e profunda expressividade que imprimia no canto largo, merecia que se lhe desse o nome de deusa.

Não estaria longe o dia de ela se impor como grande Artista...

O primeiro entre os maiores acontecimentos da sua carreira, foi na verdade, a sua apresentação em 1903, na consagrada sala de concertos de Lípsia — o Gewandhaus. Tocou o Concerto de Volkmann, acompanhada por orquestra sob a direcção do genial Artur Nikisch (1885-1922).

Uma apoteose sem precedentes veio coroar a interpretação fascinante daquela jovem portuguesa com dezoito anos ainda incompletos!

(Cedido por A. Cunha e Silva)

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GUILHERMINA SUGGIA: A MAGIA DO VIOLONCELO- DIA 19/5 -TEATRO HELENA SÁ E COSTA

No dia 19 de Maio, Quinta-feira. 21h30, no Teatro
Helena Sá e Costa, a Escola Superior de Música e das
Artes do Espectáculo do Porto promove a sessão
integrada no "Ciclo das Quintas", pela ocasião do 5º
aniversário do Teatro Helena Sá e Costa, com :


Guilhermina Suggia : a magia do violoncelo
Intervenções de Fátima Pombo e Mário Cláudio.
Momento musical pelo quarteto Harmos da ESMAE e duo de
violoncelo e piano.O programa constará de:
Guilhermina Suggia: a magia do violoncelo

Intervenção de Mário Cláudio
E
Fátima Pombo

Alexandre Delgado(1965-), Pequena Suite Laurissilva (2001)
(A Levada- A Floresta- o Pombo Trocaz)
Prelúdio para quarteto de cordas (1982)
pelo

Quarteto Harmos

Francisca Machado, violino I
Ana Patrícia Lopes, violino II
Sara Rodriguez, viola
Lydia Pinho, violoncelo

G. Fauré, Après un rêve
J. Brahms, Sonata em Mi menor op.38
1. Allegro non troppo
2. Allegretto quasi Menuetto
3. Allegro


Américo Martins, violoncelo
Ona Petrauskaité, piano


-------------------------

Todas as entradas são livres até à lotação da sala.

ESMAE
Rua da Alegria, 503
Porto

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maio 11, 2005

ACCLAMAVAM-ME A PAGANINA

Postal-54-a.jpg
Budapeste, 19-2-1906
Meu bom amigo,
Toquei hontem aqui em Kolozsvár (Rumänie) e foi um successe tão grande que não me deixam sehuir para a Polonia sem dar um segundo concerto. Acclamavam-me a Paganina.
As criticas são esplendidas.
Pena serem escritas em hongrois, pois podia-lhas enviar imediatamente.
Imagine que ha um mez ando todos os dias em viagem sem ter descanço algum. Ha já 7 noites que passo nos comboios.
Estou immensamente cançada mas não para tocar.
Todas as pessoas dizem que pareço nunca estar cançada, e isso é uma felicidade. Muitas lembranças
Suggia
(Cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 10, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, Por Carlos Figueiredo - I

Não se improvisa, o Artista nasce feito. Assim tal qual. Seja homem ou mulher, Ensimesmado, inquieto, insatisfeito, O Artista nasce quando Deus o quer.
Jorge Condeixa

Guilhermina Suggia, vulto genial entre os músicos portugueses, foi no firmamento da Arte interpretativa um astro de primeira grandeza.
Filha de portugueses, mas de ascendência espanhola e italiana pelo lado paterno (Medim Suggia) nasceu em 27 de Junho de 1885 no Porto, na freguesia de S. Nicolau. Veio a este mundo numa modesta e acolhedora casa da Rua de Ferreira Borges, prédio que mais tarde teve que ser demolido em obediência a novos traçados urbanísticos.

Seu pai, Augusto Suggia, natural de Lisboa, onde depois de frequentar o Conservatório, foi violoncelista do "Real Teatro de S. Carlos", e que, a convite da Santa Casa da Misericórdia de Matosinhos, veio a exercer as funções de professor de música nas Escolas desta vila, iniciou-a no estudo da música, tendo ela apenas cinco anos, para logo a fazer dedilhar, como quem brinca, nas cordas dum pequenino violoncelo, instrumento propositadamente mandado vir de Paris.

Nesta altura, a família Suggia morava em Matosinhos, sendo de crer que na Rua do Godinho, conforme reza a própria certidão de nascimento de Guilhermina, que aos seis anos foi a baptizar-se na igreja de Santo lldefonso, no Porto.

Augusto Suggia, como bom pedagogo e conhecedor das belas qualidades latentes de sua filha, em breve lhe proporcionou o primeiro contacto com o público, como colaboradora num concerto realizado no "Grémio de Matosinhos" acompanhada ao piano por sua irmã Virgínia, um pouco mais velha, devendo-se a sua apresentação a Guilherme Ferraz, figura local de grande prestígio.

É portanto em Matosinhos que em 1892, com sete anos de idade, Guilhermina Suggia ensaia os primeiros voos da sua trajectória ascensional de Artista.

Durante alguns anos G. Suggia toma parte em muitos concertos efectuados não só em Matosinhos, (um programa dos quais aqui se reproduz em fac-simite), como em Leça, na Foz do Douro e no Porto, quase exclusivamente para o "Orpheon Portuense".

Entretanto será curioso recordar que na época balnear de 1898 foi contratado para o Café de Espinho um violoncelista catalão de 21 anos, que rapidamente se fez notar pelo seu invulgar talento: Pablo Casals.

Atraído por essa fama, Augusto Suggia levou sua filha a receber dele as proveitosas lições que a ajudariam a progredir.
(Cedido por A. Cunha e Silva)

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maio 09, 2005

GRANDES SUCCESSOS EM HOLLANDA E BELGIER

Postal-53.jpg
Bruxellas 5/II/906
Grandes successos em Hollanda e Belgier. Assim que chegar a Leipzig envio-lhe programas e críticas.
Sua amiga
Suggia
(Cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 07, 2005

POSTAL DE ANTÓNIO LAMAS

ANTONIO LAMAS- 2.jpg
Pelo teor da conversa, e dado não existir o nome de destinatário, depreende-se que António Lamas escreve a Virgínia Suggia, a quem esteve num recital a virar as partituras.
Pela data do postal que coincide com a do postal endereçado a Guilhermina Suggia, teria sido um recital das duas irmãs.
(Cedido por Isabel Millet)

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maio 06, 2005

OBTIVE NA HOLLANDA UM SUCCESSO EXTRAORDINÁRIO.

Postal-52.jpg
Haag 2-2-1906
Obtive na Hollanda um successo extraordinario. O célebre Kapellemeister Dr. Viota disse não ter havido ainda em Haag um successo tão sublime. Penso ir a Portugal em Abril. Peço-lhe a fineza de me dizer quantos concertos se poderão arranjar. Saudades. Sua amiga muito grata
G. Suggia
(Cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 05, 2005

SALA DE JANTAR DE GUILHERMINA SUGGIA

SALA DE JANTAR.jpg
Esta é uma fotografia da Sala de jantar da casa da Rua da Alegria, 665, no Porto, onde GUILHERMINA SUGGIA viveu entre 1927 e 1950.
(Cedido por Isabel Millet)

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maio 04, 2005

O CONCERTO FOI SIMPLESMENTE UM DELIRIO

Postal-51.jpg
Stockholm, 24-1-1906
Estriei-me hontem aqui (Stockholm). O concerto foi simplesmente um delirio. Visitaram-me o ministro e consul portugueses e talvez vá tocar ao palacio real.
A viagem é sublime.
Stokholm e Kopenhagen são duas maravilhas. Amanhã sigo para Malmö.
Saudades
G.Suggia
(Cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 03, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, por ANITA MERCIER - VII

Infelizmente Suggia não gostava de gravar discos. Deixou apenas três e a maior parte do reportório em que era mais conhecida nunca foi gravada.
Em 1988 a EMI lançou uma compilação de gravações antigas, que contudo não representa o melhor de Suggia. Ao que parece, não existem gravações das suas numerosas actuações para a BBC. Dependemos do relato de colegas ou ouvintes dos seus recitais para formarmos uma ideia de como tocava. Estas fontes não deixam dúvidas: a mestria musical de Suggia era soberana. Ao longo da sua carreira, Suggia foi louvada pela sua técnica sem falha, o absoluto controlo do arco, a subtileza do fraseado, a riqueza do timbre, a sensibilidade das interpretações.

Algumas fontes sustentavam que as suas interpretações perdiam em poder pela forma deficiente como manejava o arco. É possível que tal opinião tenha sido posta a circular por Feuermann, que era um seu concorrente assumido e considerava Suggia uma “intérprete de sala de estar”. Mas é desmentida por múltiplos relatos de imprensa sobre os seus concertos. Numa época em que o maior elogio que uma mulher poderia receber era que “tocava como um homem”, não há dúvida de que Suggia tinha capacidade para se afirmar entre intérpretes dos dois sexos. O violoncelista com quem mais vezes foi comparada era Casals.

Suggia tocou a maior parte do reportório popular no seu tempo, incluindo os concertos de Haydn, Dvorak, Saint-Saëns, Lalo, Schumann e Elgar. Quanto a Delius, cedeu-o a Beatrice Harrison. Os seus programas incluíam regularmente sonatas de Sammartini, Brahms, Beethoven, Locatelli, Franck, Rachmaninov e Debussy. Alguns violoncelistas deixaram-se intimidar pelo incontestável.

Domínio das suites de Bach por Casals e não as tocavam por isso, mas Suggia tocou com frequência algumas das suites. Além do Stradivarius, possuía um Montagnana e um Lockey Hill; reconhecidamente ciosa dos seus violoncelos não admitia que colocassem flores no palco onde tocava, com receio de que a humidade pudesse danificar os instrumentos.

Suggia era claramente uma solista; raramente tocava em conjuntos de câmara. Por um curto período, em 1914, integrou um trio com Fanny Davies e Jelly d’Arányi e a irmã desta, Adila Fachiri, e com a violinista e compositora Rebecca Clarke, que lhe dedicou uma peça para violoncelo e piano. O acompanhante musical mais frequente de Suggia foi George Reeves.
Ocasionalmente, participou em recitais com outros artistas como Arthur Rubinstein e Wilhelm Backhaus. Entre os maestros com os quais trabalhou contam-se Hamilton Hardy, Adrian Boult, Henry Wood e Pedro de Freitas Branco, da Orquestra Sinfónica portuguesa. Tinha uma relação de especial proximidade com Malcolm Sargent, que dirigiu a Sinfónica de Londres num concerto memorial, após a sua morte. Zara Nelsova, que tivera um contacto com Suggia e fora muito inspirada por ela, participou também nesse concerto.

É possível que permaneçam para sempre envoltos em mistério alguns aspectos da vida pouco convencional de Suggia, mas isso não é importante. O que, sim, importa é a marca deixada por Suggia na história da música. A atribuição anual do Prémio Suggia é ocasião para evocar a carreira extraordinária de uma grande intérprete e o seu compromisso generoso para com os violoncelistas do futuro.

(ANITA MERCIER está a escrever uma biografia de GUILHERMINA SUGGIA. Se possuir alguma informação relevante, por favor envie-a para o seguinte endereço: amercier@juilliard.edu )


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maio 02, 2005

NÃO IMAGINA O SUCCESSO QUE AQUI OBTIVE PELA 2ª VEZ

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Dresden, 28-12-1905
Não imagina o successo que aqui obtive pela 2ª vez. Tenho tido immenso trabalho e estou sempre em viagem. Se meu pae ou minha mãe aqui estivessem já lhe teria mandado alguns jornais que trazem esplendidas criticas e programmas, mas assim, só, não imagina tenho de me ocupar de mil cousas ao mesmo tempo e por isso lhe peço desculpa se não cumpro com o meu dever.
Desejo-lhe mil felicidades para o anno-novo e a toda a sua Ex.ma familia.
Peço-lhe que me escreva de vez em quando pois me dá muita satisfação, sempre para Leipzig. Gottschedtr, nº 24.
Acceite minhas saudades.
Sua amiga
G. Suggia
(cedido por Prof Elisa Lamas)

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maio 01, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, por ANITA MERCIER - VI

Suggia vivia em Londres quando as “suffragettes” lutavam na rua pelos direitos das mulheres. A sua opinião sobre o feminismo não é conhecida, mas ela foi certamente uma feminista pelo exemplo. Casals provou que o violoncelo podia ser um instrumento de eleição para um solista. Suggia provou que as mulheres podiam ser violoncelistas solistas em igualdade com os homens.

Outras violoncelistas da geração de Suggia deixaram a sua marca – em especial, Beatrice Harrison e May Muckle -, mas Suggia foi especialmente bem sucedida em conciliar duas qualidades com as quais muitas intérpretes mulheres ainda hoje se debatem: ser atraente e ser levada a sério como artista. No artigo que publicou em THE STRAD a propósito da morte de Suggia, Millie Stanfield salientou este ponto: “Ela provou, pelo próprio exemplo, que o violoncelo podia conferir elegância a uma mulher tal como a um homem e produzir uma música tão forte e tão viril”.
(tradução de Luís Lopes)

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