outubro 29, 2004

GUILHERMINA SUGGIA NUMA RUA DO PORTO

SUIGGIA PERTO DE CASA.jpg

cedida por Isabel Millet

Publicado por vm em 11:05 AM | Comentários (0)

outubro 28, 2004

ADESÃO DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE AUTORES À ASSOCIAÇÂO GUILHERMINA SUGGIA

Em resposta ao seu e.mail sobre a projectada associação de amigos/admiradores de Guilhermina Suggia, tenho o maior gosto em comunicar-lhe em nome da Sociedade Portuguesa de Autores, de que sou Vice-Presidente, que podem contar com a adesão e apoio desta instituição, que se identifica com os objectivos enunciados e com a representatividade dos nomes que já aderiram à iniciativa. Disponha, pois, do nosso apoio, estando a SPA , inclusivamente, disponível para promover um debate, ou outro tipo de evento, sobre a artista num dos seus espaços em Lisboa.
Na expectativa de mais notícias sobre o projecto, sou, com cordiais saudações,
José Jorge Letria

Publicado por vm em 07:31 PM | Comentários (1)

ASSOCIAÇÃO GUILHERMINA SUGGIA

Com o objectivo de de divulgar o espólio, a arte e a memória de GUILHERMINA SUGGIA, e por sugestão da poetisa Inês Lourenço, está em fase de criação a ASSOCIAÇÂO GUILHERMINA SUGGIA.
Trata-se, evidentemente, de uma associação sem fins lucrativos, a cujo projecto já deram o seu acordo muitas pessoas. Pedimos desculpa de não referirmos todas, aqui, mas seria cansativo provavelmente. Deixamos apenas os nomes de algumas, apelando de novo a todos os que queiram aderir, que se manifestem quer comentando este "post" quer através do endereço electrónico do blog.
Todas as pessoas que queiram lutar pelo cumprimento do objectivo da associação serão bem recebidas.

Eis alguns nomes de pessoas que deram a sua anuência ao projecto:
Judite Lima, Jorge Rodrigues, João Almeida, Isabel Millet (filha), Inês Lourenço, Fátima Pombo, Mário Cláudio, António Alçada Baptista, Teolinda Gersão, Eduardo Prado Coelho, Maria João Avillez, Maria do Rosário Carneiro, Sérgio de Azevedo, Ana Maria de Almeida Martins, Maria João Reynaud, António Lagarto, Manuel Dias da Fonseca, Ana Isabel Trigo de Morais, Guilherme d'Oliveira Martins, Jorge Oliveira, Ruben de Carvalho, José Pacheco Pereira, Manuela Magno, Maria João Bacelar Cerqueira, Joana Millet Barradas, Maria Luisa Sá Carneiro, Maria Helena Pina, Duarte Lima, Helder de Macedo Sampaio, Francisco Louçã, Daniel Proença de Carvalho, José Saramago, Júlio Machado Vaz, Vital Moreira, José Viana da Mota Brandão, Inês Viana da Mota Brandão, Graça Mota de Barahona Fernandes, Elisa Lamas, Teresa Ferreira Macedo, Jorge Sá Machado, Miguel Sobral Cid, Filipe Mesquita de Oliveira, António Pinho Vargas, Manuel Ivo Cruz, José Ferreira Lobo, Ana Mafalda de Castro, José Carlos Araújo, Elvira Ferreira, José Manuel Araújo, Alexandre Delgado, violoncelistas Henrique Fernandes, Paulo Gaio Lima, Irene Lima, Maria José Falcão, Luís Sá Pessoa, Isabel Delerue, Gisela Neves, José Augusto Pereira de Sousa, Miguel Ivo Cruz, Paula Almeida, Bruno Cardoso, Teresa Valente Pereira, Filipe Quaresma, Bruno Borralhinho e Hugo Fernandes. Helena Sá e Costa, Maria Teresa Xavier, Nella Maissa, Maria Fernanda Wandschneider, Sofia Lourenço, António Rosado, Bárbara Dória, Fausto Neves, Miguel Henriques, Dina Resende,António Toscano, Picky Resende, Joana Torres Levy, Magna Ferreira, Pimentel Fonseca, Jorge Vaz de Carvalho, Miguel Lobo Antunes,Carlos Alberto de Passos, Rui Fernandes, Paula Pestana, Luís Cunha, César Viana, Vasco Broco, António Vitorino de Almeida, Carlos Azevedo, Sales Martins, Vitor António, António Varela, Christian Bayon, Adriano Aguiar, Pedro Wallenstein, Alberto Gaio Lima, Leonor de Sousa Prado. Isabel Cerqueira Millet, Madalena Sá e Costa e Maria Beires (discípulas de Guilhermina Suggia), Círculo Portuense de Ópera, Sociedade Portuguesa de Autores, Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras. Sindicato dos Músicos, Teatro Pé de Vento, Carlos A Alves,Henrique Silveira,Luis Filipe Vieira,Rogério Santos, Vistalegre

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outubro 27, 2004

O CONCERTO DOS FLAMENGOS

(...)
Por isso convidava sempre amigos e amigas, e Luísa fazia o efeito duma estranha no meio dessa gente ligada por um sentimento vazio e radiante, de contemporâneos, de oficiais da mesma confraria, um pouco ébria de alegria que se prendia com o dia a viver e nada mais. Subitamente levantou-se na cama, assaltada por uma revelação. As portas ouviam-se bater de leve, no corredor os músicos afinavam os instrumentos. Era uma orquestra completa, que contava apenas com duas mulheres. Vestiam quase de igual; só que a violoncelista usava largas calças de seda preta. No seu tempo, a Suggia dava-se ao trabalho de inventar imensos vestidos plumosos e cheios de abas que lhe permitissem emoldurar entre as pernas o famoso celo. Riam-se dela, ignorando a sua arte, mugindo um riso escarninho sobre os seus amores com Casals.

Luísa Baena nunca a tinha visto; mas o colégio que frequentava tinha como primeiro corpo reitoral a mansão do marido dessa fabulosa Suggia, que ia dar lições a Londres às aristocratas. Luísa lembrava-se da sala de jantar e daquela mesa para cinquenta pessoas, e dos side-boards de pau cetim onde cabia uma vitela inteira corada ao lume de azinho. Ou então arranjos frutais como os que se viam nos quadros de Arcimboldo, compondo rostos abrasados e narizes feitos de nabos.

Do livro “O CONCERTO DOS FLAMENGOS” de AGUSTINA BESSA-LUÍS – Guimarães Editores-2002

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outubro 26, 2004

EDIÇÃO EM INGLATERRA de UM CD COM GRAVAÇÔES DE GUILHERMINA SUGGIA

Vai sair brevemente em Inglaterra, um CD com gravações de GUILHERMINA SUGGIA.A Editora será a DUTTON.
O endereço electrónico é: www.duttonlabs.demon.co.uk".
A referência do CD é: "CDBP9748- GUILHERMINA SUGGIA PLAYS BRUCH,HAYDN & LALO", faz parte da coleção "DUTTON SUPER BUDGET HISTORICAL" tem um preço de Libras 4,99 acrescidas de 1,50 para portes.
Para além dos Concertos em ré maior de Haydn e ré menor de Lalo, o Kol Nidrei de Max Bruch terá ainda a Sonata em Sol maior de Sammartini.

DITOSA PÁTRIA esta que continua a querer ignorar quem tanto a honrou.
Esperemos que, ao menos, o CD seja motivo de orgulho e esteja à venda nas nossas lojas.

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CRÓNICA MUSICAL - O COMÉRCIO DO PORTO 14/5/1937

Im wunderschõnen Monat Mai — No Rivoli: uma apresentação e uma apoteose — Recordando noites de beleza — Discípula e Mestra — De novo Freitas Branco e a sua Orquestra
—- Maria Alice Ferreira — A sua aparição — Uma noite que é uma alvorada — Guilhermina Suggia — Momentos eternos
— A Artista, o seu génio e a multidão — A maior e mais
bela das lápides comemorativas

Nos primeiros dias de Maio – “im wunderschönen Monat Mai” como nos disse o grande poeta do Intermezzo – deram-se nesta cidade dois acontecimentos musicais, que não devem passar sem referência nestas crónicas: uma apresentação e uma apoteose.
A apresentação, que era para muitos uma promessa, volveu-se para todos em certeza. Enchera-se de ouvintes o mais vasto Teatro do Porto, o Rivoli. Para lá convergiram, no começo da noite de 4, centenas e centenas de pessoas. De tudo devia haver nessa multidão heterogénea, que quase às ondas, ia enchendo a sala: curiosos, incrédulos e crentes.
Entretanto, fora, continuavam a rodar os automóveis, que depois se espraiavam, tomando posição nas imediações do Teatro. A Grande Orquestra da Emissora Nacional, que dias antes nos deslumbrara, abre com o “Rienzi”, um prólogo entusiástico a essa noite de arte.
Freitas Branco é aclamado à frente da sua esplêndida “cohorte” A sala tem já uma disposição magnífica. A Atenção redobra de intensidade.
Sente-se que passa no ar uma convergência simultânea de olhares e de espíritos. Nisto a orquestra levanta-se e abre caminho a uma alvura que se adianta até ao lugar que lhe é destinado.
Projectando-se no fundo preto dos fatos dos instrumentistas, lembra qualquer coisa de matinal, um sorriso de luz. Era a concertista dessa noite, Maria Alice Ferreira. O público recebe-a “fidalgamente”. As palmas, em aclamação, sucedem-se aos números do programa, cumprido rigorosamente.
A concertista - assim devemos chamar-lhe, atenta a importância da prova a que se submete – põe em evidência a indubitável qualidade de mérito que lhe dão todo o direito às honras duma plateia culta e justa.
Qualidade e quantidade de som, afinação, segurança, largueza de arcada e inteligência de fraseio, o que, tudo junto, dá esta soma – o talento. Será isto dizer que tem tudo feito?
Não. A sua própria inteligência lhe dirá que pôs pé firme no começo duma carreira que vai a subir.
Mal iria o artista que se supusesse ter atingido definitivamente o seu alvo: teria assistido ao seu próprio fim.
A vida alimenta-se de sonho; e a arte, que é a sua intérprete fiel, não pode deixar de sonhar também, ascendendo sempre de aspiração em aspiração. Foi muito, foi muitíssimo o que fez nessa noite; mas agora olhar ao alto.
Possa o eco das aclamações ferventes, que ouviu, e o perfume das flores inúmeras que recebeu transformar-se num estímulo cada vez mais vivo e apontar-lhe sempre a estrada radiosa, mas difícil, aberta às suas privilegiadas qualidades e por onde a conduz a mão segura da sua gloriosíssima e inigualável Mestra.

Nos acompanhamentos, é de justiça registar o quinhão de elogio que cabe à orquestra e à pianista Maria de Lourdes Ferreira, gentilíssima irmã da concertista, pelo talento com que os realizaram. Noite admirável, que nos fica simbolicamente a rescender a flores! Noite de Primavera e Primavera da Alma!


E agora Suggia ! Será possível, porventura, exprimir, comunicar por palavras pautadas e sujeitas a regras estabelecidas, toda essa desordem íntima, toda essa alucinação de visionar mundos, todo esse dinamismo irresistível, que, minuto a minuto nos convulsionava fundamente até às origens do nosso ser? Não: Traços largos. Uma estátua...quando destinada à luz forte do dia, deve ser rebatida em planos incisivos e grandes.
Nessa. noite, Suggia afigurava-se-me uma nobre visão da estatuária antiga. Não uma figura de hoje, mas, superior ao tempo, de todos os tempos — uma encarnação misteriosa do que há de eterno na vida. Trajando de preto, teve, a meu ver, uma ideia felicíssima. O vestido dava-lhe um hieratismo, ao mesmo tempo, solene e estranho.

Intérprete poderosa da alma humana, ela realizava perturbadoramente a protagonista do drama intenso da vida, tão cheio e alternado de êxtases e de angústias !
Pesa na sala um silêncio concentrado, absorvente, depois das palmas vibrantes que a saudaram.
Aguarda-se com ânsia a primeira arcada. Ei-la! E a atmosfera carrega-se de electricidade que, de quando em quando, à medida que a audição prossegue, reboa em descargas atroadoras. Sucedem-se o sábio Tartini, Sammartini, Dvorak... Paremos...

Se tudo na noite foi grande, o Concerto de Dvorak deve, no entanto destacar-se pela vastidão da obra e pelas culminâncias atingidas pela artista. Nos seus três tempos, esta composição dá-nos um trítico empolgante, em que passam todas as emoções, desde o lirismo simples ou amoroso às fremências épicas dum apelo de levante..
Há passagens que não se ouvem sem um calafrio na espinha dorsal. A artista domina-nos absolutamente: tem-nos nas mãos. À Orquestra secunda-a à altura das suas responsabilidades, sob a batuta sugestiva de Pedro de Freitas Branco.
Depois disto que dizer? Não façamos enumerações.

Fiquemo-nos a escutar, a escutar ainda e sempre os ecos que guardaremos na alma. O concerto decorre num crescendo formidável.
De arte? Não seria possível! Por tão alto pairava a eminentíssima artista!
Mas de arrebatamento. Esgotado o programa, há extras. E, ouvidos os extras, há gritos, bravos, palmas, num esquecimento, num desprezo magnífico da hora que avança!

Tinha porém de findar o encantamento. E findou? Não. Saímos. Lá dentro ficou uma lápide marcando a oiro, a noite que passava.
Mas a verdadeira lápide comemorativa inscreveu-a a artista insigníssima, a golpes de génio, na lembrança imperecível da multidão imensa que, de pé e olhos marejados, arremessava aos pés de SUGGIA, a sua alma agradecida e louca de comoção.

PORTO, 13/V/1937

(O COMÉRCIO DO PORTO 14/5/37)

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outubro 25, 2004

GUILHERMINA SUGGIA EM SUA CASA

G.Suggia a.jpg

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CONCERTO DE APRESENTAÇÃO DA VIOLONCELISTA MARIA ALICE FERREIRA

Quem é esta Maria Alice Ferreira? – perguntava-se ontem, à noite, antes do concerto, nas salas, nos vestíbulos, nos corredores do Teatro Rivoli. E depois do Concerto, quando os quase 2 milhares que a tinham ouvido, deixavam os seus lugares, já não se perguntava: Quem é esta Maria Alice Ferreira? Já não se murmurava com ar de argumento que tudo justificava e explicava: “ Dizem que é filha do grande industrial Delfim Ferreira! Exclamava-se, assombrosamente, encantadoramente: “ É UMA GRANDE ARTISTA!”

Esta frase sintética, expressiva, lapidar, colhida em muitas centenas de bocas, em tantas bocas, por certo, quantas as pessoas que haviam assistido ao concerto, serve para aferir, grosso modo, a impressão do público.

Desconhecido, poucas horas antes (ou conhecido, apenas através das referências e dos anúncios nos jornais), o nome de Maria Alice Ferreira conquistara, efectuado o concerto, a celebridade a que todos os artistas, legitimamente aspiram e que só excepcionais circunstâncias lhes permitem, a maior parte das vezes, obter.

O grande e ilustre nome de Guilhermina Suggia, que havia naturalmente servido de reforço para a curiosidade dos musicólogos, saíra, na verdade, mais prestigiado ainda.
Da audição. A discípula em tudo e por tudo era digna da mestra. À coroa de glória desta somava-se, com o triunfo indiscutível daquela, mais um belíssimo florão. Note-se porém que esse triunfo indiscutível é principalmente, obra de Maria Alice Ferreira, da sua extraordinária personalidade artística, das suas qualidades assombrosas e concertista. A Mestra poliu, afeiçoou, integrou nos cânones da arte-ciência o temperamento de uma artista nata, que é, já, grande e será maior se porfiar, rumo ao futuro de glória que, desde ontem, ficou aberto diante dela. A mesma discípula metodizou, deu o inconfundível retoque a esse temperamento de excepção. E o resultado patenteou-se, ontem, de modo impressionante, a um público enorme e entusiasmado que, interrogando-se, duvidando talvez a princípio, encontrou a resposta mais rigorosa e se certificou, em absoluto, finda a audição, reconhecendo e proclamando, entre si, esse reconhecimento: “ Esta Maria Alice Ferreira, afinal, é uma grande artista!

Consola verificar, nestes tempos que não vão muito — diz-se e é, relativamente, certo — para as superiores manifestações do espírito, em geral. e da arte, em particular, que o público portuense sabe ainda, quando confia na qualidade dos artistas que vai ouvir ou ver, corresponder às iniciativas arrojadas.

O concerto de ontem e o de hoje podem ser considerados de muitos pontos de vista iniciativas arrojadas — e, também, meritórias. Trazer ao Porto pela segunda vez, nesta época, um conjunto instrumental da categoria da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional e apresentar uma instrumentista da categoria de Guilhermina Suggia não representam, decerto empreendimento fácil. Razão, pois, para que louvemos os organizadores destes dois concertos que se inserem no panorama musical da capital do Norte como eventos de importância excepcional.
• • •
O Teatro Rivoli. já consagrado como recinto de concertos, que determinem afluência de grande público encheu-se. Da plateia à geral, toda a gente de algo da cidade — e de fora da cidade. As figuras mais categorizadas em todos os sectores da sociedade portuense. Dos meios artístico e cultural uma representação considerável. Toda a aristocracia da música. Numa frisa, acompanhando, com legítima ansiedade — mas também, com a segurança de quem confia em quem. sob a sua égide, se apresenta — Guilhermina Suggia. Todo o Porto do escol no “Rivoli” em suma. Ambiente de récita de gala. Muitas senhoras com vestidos sumptuosos e elegantíssimos. Casacas e smokings, dando ao vasto recinto aquele aspecto de bom gosto e de distinção que – diga-se a verdade – não é frequente nos nossos concertos e nos nossos espectáculos, mesmo quando são oficialmente de gala.

Às 22 horas, com todo o conjunto instrumental instalado, Pedro de Freitas Branco entra no palco. Afectuosamente, admirativamente, o público saúda-o com palmas. E o eminente Maestro, cujo triunfo, nos dois concertos recentes, foi tão notável, empunha a batuta. Faz-se absoluto silêncio. O concerto principia.

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A abertura de Rienzi, a cargo da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, provocou, como era de esperar, dadas as condições de agrado do empolgante trecho da obra perenal de Wagner, intensos aplausos. O concerto começara, auspiciosamente. Na sala. ampla, de linhas sóbrias e imponentes, ao mesmo tempo, a temperatura do interesse pela audição subia, a olhos vistos.
Um breve intervalo. E. gentilíssima, sorrindo, sem aquele enleio que perturba, muitas vezes, os concertistas — e, sobretudo os concertistas femininos — mais experimentados e mais atentos aos grandes auditórios, Maria Alice Ferreira, com o seu violoncelo, sobe ao estrado, um estrado que sugere um trono... Veste de branco. É como uma nuvem de arminho. As palmas crepitam, por todo o recinto. Uma entrada verdadeiramente triunfal.
Pressente-se a curiosidade geral. Volta o silêncio. E o braço ondulante da violoncelista desenha a primeira arcada.
O Concerto em ré menor de Lalo, obra de grande classe, é o primeiro número para violoncelo e orquestra. Quando as ultimas notas do Prelude vibraram, o auditório manifestou-se. entusiasticamente, aplaudindo a concertista, 15 anos que esplendem, precocemente, transformando em mulher quem é quase criança pela idade.
Depois, o Intermezzo e o final. E o alento da violoncelista, se não encontrara, ainda, o género em que pudesse expandir-se, manifesta-se, exuberantemente, nas três partes da obra admirável do mestre glorioso do Roi d'Ys. Ao findar o Concerto, os aplausos estrondearam, com maior intensidade. A juvenil Maria Alice recebia palmas de admiração pelo seu talento de executante e intérprete e de carinho peta sua figura encantadora.
Na segunda parte, consagrada, exclusivamente, a Maria Alice Ferreira, acompanhada por sua própria irmã, Maria de Lourdes Ferreira, pianista de muito merecimento, firme e expressiva na difícil missão de acompanhar, pudemos avaliar melhor, porventura, as qualidades da violoncelista estreante.
A formosa Ária do Orfeu, de Gluck. o conhecido Rondo, de Boccherini, o admirado Aprés un rêve, de Fauré. e esse graciosíssimo Spinnlied, de Popper, permitiram observar, em todas as suas facetas, as faculdades artísticas da concertista. O vigor dramático da página de Gluck e a elegância palaciana da página de Boccherini. o romantismo perturbador da peçazinha de Fauré e a graça descritiva, perfeito desenho de lindos arabescos que é a obrazinha requintadamente violoncelística de Popper foram expressos, por Maria Alice Ferreira, de modo a justificar o entusiasmo ruidoso do auditório. Se tudo, igualmente. nos agradou, queremos destacar o ultimo numero da segunda parte, apresentado, impecavelmente, encantadoramente, pela concertista.
Fora do programa, correspondendo aos aplauso; vibrantissimos com que o
publico premiava a audição. Maria Alice Ferreira brindou os seus ouvintes
com a castíza. e conhecida Jóta de Manuel de Falla.
• • •
Tocada a peçazinha de Popper, foram depostas no palco, enchendo todo o proscénio, dezenas — dezenas! note-se bem — de lindíssimas corbelhas com flores naturais. No meio delas emergindo como uma grande camélia vaporosa, o busto da homenageada sobressaía mais. Os aplausos transcenderam, então, a apoteose.

Chamada, insistentemente, de todos os sectores do recinto enorme Guilhermina Suggia, que tinha a seu lado seu marido, o sr. dr. Carteado Mena, Mestre Teixeira Lopes e miss Tait, ergueu--se para agradecer, E agradeceu, — via-o quem a olhava — emocionada. Os aplausos, palmas fortes, que pareciam reforçar à medida que a discípula e a professora as agradeciam, envolviam, por igual, Maria Alice Ferreira e Guilhermina Suggia. O triunfo que se assim se assinalava era, também, para quem, com as suas lições, havia preparado a concertista daquela noite memorável
Maria de Lourdes Ferreira, modestíssima, esquivando-se aos aplausos, teve, também, o merecido quinhão do agrado do publico. É uma pianista com qualidades para brilhar.

A abrir a terceira parte, Pedro de Freitas Branco, comparticipa, também, naquele êxito grandioso, anunciou que, para se associar, mais ainda, ao significado daquela festa inesquecível, a Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional ia tocar as Danças guerreiras do príncipe Igor, de Borodine. E, maravilhosamente, o seu grande conjunto instrumental tocou o trecho famoso do compositor russo, conquistando, também, aplausos trovejantes. Decididamente, o entusiasmo contagiara todo o auditório.

Em seguida, acompanhada pela orquestra. Maria Alice Ferreira fez-se ouvir, sucessivamente, no delicioso Allegro apassionato, de Saint-Saëns, no religioso Kol Nidrei, de Max Bruch, e na movimentada Tarantella, de Popper. Senhora absoluta de si. dominando-se e dominando o Instrumento. Maria Alice Ferreira terminou o seu concerto, não cessando de encantar quantos a escutavam. Todos os números da terceira e ultima parte do programa foram aplaudidos com extraordinária vibração. O último, porém, valeu-lhe uma ovação formidável»
Gentil para com quem lhe manifestava tão positivo agrado, a juvenil violoncelista tocou, ainda, acompanhada pela Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, "A abelha", de Schubert, obrazinha interessantíssima, que o auditório aplaudiu, também, entusiasticamente.
Fraseando e dizendo de modo que aponta a verdadeira artista. Maria Alice Ferreira afirmou-se executante e intérprete admirável de todos os autores com que se apresentou no seu concerto te estreia. A sua musicalidade evidencia-se logo aos primeiros compassos. O som que arranca do violoncelo é volumoso. Com os anos adquirirá, sem dúvida, maior vigor ainda. Tal como está, tal como se apresentou, é — não receamos asseverá-lo — uma artista digna dos aplausos invulgares com que, ontem, foi distinguida. Os aplausos do publico são, também, os nossos. É com orgulho, legítimo orgulho, que vemos surgir, na nossa terra, já bem fadada para a música, uma artista como Maria Alice Ferreira. Junto dos nomes portuenses já coroados pelo prestígio, o desta novel instrumentista ficou, desde ontem, indelevelmente, assinalado.

Pedro de Freitas Branco, o eminente director da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, muito contribuiu, também, para a beleza e para a grandeza do espectáculo de ontem. À frente do seu admirável agrupamento, onde estão alguns doa melhores músicos de orquestra portugueses, foi tanto nos dois números a seu cargo como nos de acompanhamento, o maestro que tão admirado e aplaudido é. Mereceu bem as palmas fortíssimas com que o auditório o quis, prestando justiça, premiar.
No seu camarim, recheado de flores lindíssimas e lindíssimas prendas, Maria Alice Ferreira foi, nos intervalos e no fim da audição, cumprimentada e felicitada por centenas de pessoas que a haviam escutado e aplaudido.
A sua estreia caracterizou-se por um cunho inusitado de grandiosidade.
Para o público em geral foi uma radiosa surpresa.
Para nós — queremos acentuar — foi, na verdade, uma consoladora confirmação de valores.

O COMÉRCIO DO PORTO, 5/5/1937

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outubro 23, 2004

PROGRAMA DO RECITAL DE HOMENAGEM À MEMÓRIA DE G.SUGGIA - 25/11/1950

HOMENAGEM À MEMÓRIA DE GUILHERMINA SUGGIA
SALÃO NOBRE DA UNIVERSIDADE – 25 de Novembro de 1950

PROGRAMA

BACH- Suite em ré menor (Preludio – Alemande – Courante - Sarabande – Menuetto – Gigue)
VIOLONCELO – D. Maria Isabel Cerqueira
..................................................
HÄNDEL-HALVORSEN – Passacaglia
VIOLINO –Henri Mouton
VIOLETA – François Broos
...................................................
SAMARTINI – Grave
BACH –Toccata
FAURÉ –Elégie
MAX BRUCH –Kol Nidrei
SAINT-SAËNS – Le Cygne
VIOLONCELO – D. Maria Alice Ferreira
PIANO – D. Ernestina da Silva Monteiro
....................................................

SCHUMANN – Quinteto op 44 ( Allegro brillante –In Modo d’Una Marcia
PIANO – D. Helena Moreira de Sá e Costa
1º VIOLINO – Henri Mouton
2º VIOLINO – D. Catarina Hickel Carneyro
VIOLETA – François Broos
VIOLONCELO –D.Madalena Moreira de Sá e Costa Gomes de Araújo

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outubro 22, 2004

GUILHERMINA SUGGIA-GRANDE NA VIDA E NA MORTE ( 4ª e ÚLTIMA PARTE DO DISCURSO)

O interesse de Guilhermina Suggia pela obra cultural e artística da Universidade motivou que nos últimos anos mais de perto com ela convivêssemos. Grande prazer espiritual? Sem dúvida. Mas isso levou-nos a assistir, magoados, aos estragos de uma doença que em curtos meses a entregou à morte.

Havia um ano, talvez, que Suggia se vinha queixando e nos derradeiros meses intensificaram-se os sintomas: dores, fastio, emagrecimento. Em Londres consultou médicos e tirou radiografias. O diagnóstico certo a que chegaram — se a algum chegaram — ignoro. Sei que não lhe falaram em operação. E foi pena.
Desta sua estada em Londres conheço mais pormenores pela carta, de 25 de Outubro, do Dr. Bártolo do Vale Pereira que a visitou, a meu pedido, em casa de Mrs Melville, onde se hospedara. Tenho essa carta diante de mim. Primeiro, são as gratíssimas impressões que lhe ficaram da demorada visita a D. Guilhermina Suggia, com quem falava pela primeira vez e que o recebeu gentilmente. Em seguida, vêm as impressões do concerto em Bournemouth.

Depois de se referir à cidade, entra na descrição do festival que se realizou para comemorar o 57.° aniversário da criação da Orquestra Sinfónica, nessa noite regida por Rudolf Schwarz. À abertura do Egmont de Beethoven, seguiu-se a Suite n.° 3 de Gordon Iacob que estava na sala a assistir à execução da sua obra. Como terceiro número, figurava no programa o Concerto, Op. 20, de Eugène d' Albert. É então que sobe ao estrado a nossa grande Artista que ouviu uma extraordinária ovação. E Bártolo do Vale Pereira remata os seus comentários com esta frase: "Enfim, não há a menor dúvida que foi um grande triunfo para ela, e para mim uma noite memorável".
Foi essa a última vez que Suggia tocou na Inglaterra que a adorava. A penúltima fora, meses antes, nos grandiosos festivais de Edimburgo.

Uma vez em Portugal, aumentaram as preocupações com o seu estado. Assaltou-a uma suspeita terrível. Nas vésperas do último concerto, adiado já por motivo da sua doença, Guilhermina Suggia mostrou-me claramente as suas apreensões. Bem entendi que a Artista fizera o diagnóstico do mal.
Álvaro Rodrigues, que então a viu, a pedido do colega Castro Henriques que sempre tão dedicado lhe foi, aconselhou a intervenção urgente que seria a salvação ou a sentença sem apelo.

Que dias e, sobretudo, que noites de angústia passaria a doente, sozinha, sem qualquer pessoa de família que pudesse consolar-lhe o coração aflito perante o mistério do Além! Porque ela ouvia já, no silêncio do seu quarto, aproximarem-se os passos da Morte e queria preparar-se para se lhe entregar cristãmente.

Chamou na manhã de 17 de Junho, um sábado, o Padre Luís Rodrigues para que lhe indicasse o caminho do Céu. Quando ouviu da boca do sacerdote as palavras da absolvição, sentiu — afirmou depois — a maior felicidade da sua vida. Chamou também o advogado e o notário para melhor poder repartir quanto possuía na terra. E tudo deixou escrito por sua mão, com a meticulosidade, o método e a ordem que punha em todas as coisas. "Vou para Londres preparada para quanto me possa suceder", disse-nos ela, a Castro Henriques e a mim, três dias antes de seguir para Inglaterra.
Partiu, entrou na London Clinic, e na mesa operatória, no dia seguinte ao do seu aniversário (nascera em 27 de Junho de 1885), perante as lesões da parede da vesícula calculosa e já do próprio fígado, o cirurgião Maingot e Álvaro Rodrigues viram desaparecer a última esperança. No mesmo dia da operação, ao cair da tarde, o Dr. Castro Henriques e eu estávamos ao corrente da situação insolúvel.

Portugal ia perder um dos seus mais gloriosos concertistas e a Inglaterra um dos seus artistas predilectos. Assim se exprimiu o Embaixador inglês em Lisboa ao endereçar ao nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros as condolências oficiais da Grã-Bretanha: "Qualquer que fosse o seu auditório — na presença da rainha ou da rainha-mãe, ou de operários das minas chegando do trabalho — a resposta, ao ouvi-la tocar, era sempre a mesma: admiração pela sua arte consumada. Amaram-na por si-mesma e pela sua personalidade verdadeiramente admirável."

Dias depois da laparotomia exploradora, eu recebia a notícia, por carta do Dr. Bártolo do Vale Pereira, prestes a terminar o seu estágio em Inglaterra, de que: Guilhermina Suggia regressaria no avião português de sábado, -15 de Julho. Eu, a caminho do Congresso Internacional de Anatomia, a reunir na velha Oxónia, só chegaria a Londres na noite seguinte.
Por isso, julgando-a já em Portugal, surpreendido fiquei, quando na manhã de segunda-feira o. Dr. Miguel Pile, nosso muito ilustre Cônsul Geral na capital inglesa, me comunicava, em nome da doente, que ela, ainda em Londres, partiria nessa tarde. O avião atrasara o seu voo.
Liguei para a London Clinic. Falou-me com voz segura, a voz de sempre, em que ninguém descobriria sofrimento ou desânimo. Dali a pouco encontrava-me junto dela. Seriam - 11 horas. Estava ainda deitada, a tomar vários medicamentos com que a preparavam para a viagem aérea. Disse-me então: "Sei que tenho um mal sem cura". Quis animá-la, mas logo me interrompeu: " O Dr. Maingot contou-me ontem toda a verdade. A Medicina nada mais pode fazer. Tentou-se tudo. Receitou-me umas injecções. Levo-as comigo. Se não fizerem efeito, mais nenhuma terapêutica se conhece para este mal". A Artista já não podia iludir-se. Ouvira, a sua sentença de morte. E até lhe explicaram como seria o seu fim.

Mrs Melville, a grande amiga das horas boas e das horas más, havia entrado no quarto. E, de pé, junto da cama, olhava-me e olhava a doente, mantendo a custo a serenidade necessária. Era difícil responder. Todavia, precisava de animar a doente e atenuar os efeitos da confissão brutal da verdade. Calmo, procurando dar às minhas palavras a maior naturalidade, observei: "É possível que o seu médico tenha razão. Porém, o que a Medicina e os homens não conseguem, pode muito bem fazê-lo Deus, se assim o entender". Súbito, os olhos da doente iluminaram-se. Por eles passou um clarão de esperança.. E respondeu-me: "Tem razão. E olhe que eu tenho fé. Ainda há pouco esteve aqui um padre irlandês, a quem me confessei e que me deu o Senhor ". Confiava num milagre. Despedi-me e saí.
Duas horas depois entrava de novo na Casa de Saúde. O nosso Cônsul, solícito e carinhoso, não demorou a chegar. Suggia desceu até ao carro amparada por nós. (O edema enorme dos membros inferiores tornava-lhe o andar difícil e muito penoso. No entanto, cabeça erguida, voz forte e bem timbrada, muito cuidada a toilette. Pertencia ao número daqueles "que têm pudor de sofrer ou desfigurar-se em público". Nunca a vi chorar, nem mesmo quando se despediu de Mrs Melville, do Conselheiro da Embaixada, Caldeira Queiroz, do Dr. Miguel Pile e de mim, e a levaram num carrinho de rodas — caridosa atenção do pessoal do aeródromo, creio eu — da sala de espera, onde estávamos, para o avião que a trouxe a Portugal, onde queria morrer e ser sepultada.

Mas sei que chorou na intimidade, tanto na London Clinic como em sua casa, perto do fim. :

"'Lágrimas! A melhor tinta .
Com que se pode escrever".

"Não sei, nem agora me importa saber, se é monótona a descripção de uma dor humana, para os desconhecidos de quem a sofreu", disse Alberto de Oliveira na comunicação sobre a morte do poeta António Feijó, dirigida à Academia Brasileira. E logo acrescentou este comentário: "Monótona será, mas ai de quem lhe não sentir a grandeza e a beleza!" Ao longo dos corredores da London Clinic, Suggia foi-se despedindo do pessoal que a servira. Primeiro, partiu o automóvel com a doente recostada em almofadas, levando junto dela Mrs Melville e a enfermeira que a acompanhou ao Porto. O Dr. Miguel Pile quis passar ainda por uma casa de flores. Levou-lhe uma caixa de jasmins. Eu levei-lhe umas rosas. Pequenas atenções a que era tão sensível o coração da Artista. Nós sabíamos — e ela, desgraçadamente, também o sabia —que eram aquelas as últimas flores que em vida de nós receberia.

Era tão sensível ao bem que lhe faziam que chegava a sofrer. Poucos dias antes de partir para Inglaterra, estávamos junto da sua cama de doente os seus médicos e eu. Decidido que ela se operaria em Londres, o Dr. Álvaro Rodrigues, para a sossegar, prontificara-se a acompanhá-la. Tão grata notícia fora-lhe transmitida na véspera ou antevéspera. E era esse favor que desejava agradecer. "Esperava muito de si (dizia ela voltada para Álvaro Rodrigues), mas nunca podia supor que por mim tanto se sacrificasse. Quando o soube pelo Dr. Castro Henriques, fiquei muito comovida. Não consegui dormir toda a noite. Sofri muito"' E perante a nossa admiração, explicou: "É que eu sofro mais com o bem do que com o mal que me fazem". Por isso, ela era a grande Artista que foi! A sua personalidade — escreveu o violoncelista alemão Paulo Grummer a D. Madalena Moreira de Sá —"foi e permanece única".

Façamos por não esquecer a nobre lição que, sem o pretender, assim nos deu e apague-se qualquer nota discordante que possa vir perturbar a harmonia que em nós deve despertar a evocação da Artista excelsa.

E — depois dos maiores triunfos nas grandes cidades e cortes da Europa, de Lisboa a S. Petersburgo — morreu, segundo o desejo que manifestara, nos derradeiros dias, ao Padre Luís Rodrigues:
" Cheguei a suplicar a Deus que me desse vida e saúde, pois agora grandes coisas gostaria de fazer para Sua glória. Mas que merecimentos tenho eu, mulher como qualquer outra, para que o Senhor me distinguisse e em mim manifestasse o Seu poder? Não. Aceito a vida ou a morte, consoante Deus determinar". E, pelas onze horas da noite de 30 de Julho, o Padre Luís Rodrigues, seu confessor, a quem a doente pedira que não a abandonasse na hora extrema, ajoelhado à beira da sua cama, rezava-lhe as orações dos moribundos que ela atentamente seguia, no supremo esforço de deixar a terra e entrar, purificada, na Eternidade.
No quarto, como testemunhas mudas da tragédia sublime da libertação daquela alma, apenas Mrs Melville, que chegara de Londres nesse mesmo dia, chamada por um telegrama da doente, e a enfermeira inglesa, de joelhos também, subjugada pela grandeza do quadro que tinha diante dos olhos. E mal o sacerdote acabou de recitar as orações, Guilhermina Suggia expirou serenamente, entregando a alma a Deus que a fizera nascer Artista e seguir no mundo da Música uma trajectória de luz.

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

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outubro 21, 2004

GUILHERMINA SUGGIA- GRANDE NA VIDA E NA MORTE (3ª PARTE DE DISCURSO)

Pisava-o seis meses depois. Gentil e generosa, levou à Faculdade de Medicina, na noite de 21 de Maio de 1949,— há pouco mais de um ano! — o notável Trio de que Henri Mouton e François Broos também faziam parte e, a seguir, porque acedesse a tocar a solo, nós ouvimos encantados e agradecidos, os três artistas no Centro Universitário em novo e magnífico recital que terminou a altas horas.

E não se julgue que o oferecimento de Guilhermina Suggia para tocar não representava sacrifício. Talvez poucos saibam que a notável concertista, exigentíssima consigo própria, nunca subia serena para o estrado, donde seduzia e enfeitiçava as almas com a voz do seu violoncelo, "ora mystica e pura como um tabernáculo de Deus, ora desvairada, incoherente, como possessa d'um demónio louco!" para me servir de palavras de António Cândido a propósito da prosa de Eça de Queirós.

"Para tocarmos (confessava-me nessa noite) queimamos os nossos nervos.” Um concerto representava sempre para ela uma grave preocupação."
E foi certamente por isso que, embora houvesse cuidadosamente preparado com D. Ernestina da Silva Monteiro programas diferentes para treze concertos, nunca lhe ouvimos tocar a maior parte dessas músicas. Mas ninguém se admire. O grande Pablo Casals — de quem Suggia, como já o disse, recebeu lições e com quem mais tarde colaborou — "depois de milhares de concertos com o máximo êxito, ainda pode tremer em frente do público como na sua primeira apresentação", escreve um dos seus biógrafos. E passou mais de dez anos a estudar as Suites de Bach antes de as tocar publicamente. É que os artistas vivem insatisfeitos. O grande pintor Malhoa confessava ao Dr. Alberto Rego, em carta de 12 de Junho de 1932, a propósito do Retábulo para a Igreja de Chão de Couce, última obra que sua mão assinou: " Ah! meu amigo, vim ao mundo com olhos e coração de artista, o que quer dizer que tenho tido uma vida de torturas! Se a arte nos dá algumas horas de encanto, sucedem-se não horas mas dias e meses de lutas constantes procurando atingir o que tão difícil é: realizar o nosso sonho!"

Referi estes factos não só para mostrar os motivos da gratidão que a Universidade e o Centro Universitário devem à memória de Guilhermina Suggia, mas também por me parecer que eles pedem contribuir para melhor e mais justa compreensão de algumas atitudes da Artista, julgadas, porventura, estranhas por espíritos desprevenidos.

E, se me permitem, farei referência, ainda, a um episódio, bem eloquente na sua singeleza, contado pelo Prof. Egas Moniz em carta ao seu antigo condiscípulo, cujo nome ainda agora citei.
Passou-se há anos no Hotel do Buçaco. Uma tarde Suggia, ali. hospedada, apareceu inesperadamente, com o seu violoncelo, na pequena sala privativa onde os músicos do sexteto que tocava no Hotel principiavam a jantar: "Vocês tocam para nós (disse-lhes); eu venho hoje tocar para os meus amigos. E a lei das compensações." E sentou-se. De nada sabiam os hóspedes. A surpresa, e simultaneamente recompensa, fora apenas para os artistas. Para ninguém mais Suggia nessa tarde admiravelmente tocou.

Eram assim as suas reacções. Tinha dentro de si aquela aguda e fina sensibilidade, sem a qual não se é verdadeiramente grande artista. No convívio que o Dr. Jayme de Souza e eu tivemos com ela nos três últimos anos — em que nunca lhe ouvimos qualquer referência depreciativa ao valor ou ao carácter de colegas, mas sim, muitas vezes, palavras de elogio e apreço — sempre se mostrou extremamente simples e acolhedora, disposta a auxiliar as iniciativas culturais do Centro Universitário e a estimular a favor dele e da nossa Universidade o entusiasmo das jovens artistas, suas discípulas, às quais inteiramente se dava. Não quis partir para Londres e deixar-se ali operar sem ouvir a voz daquela que hoje é religiosa numa casa de Barcelos. À outra instituiu sua herdeira. Ensinar será obra apenas de inteligência; mas educar, afeiçoar almas, cercando-as de Beleza, é obra de amor.
A alma sensível e o espírito de compreensão de Guilhermina Suggia revelam-se nas duas cartas — uma de 18 de Agosto e outra de 13 de Setembro de 1945, portanto cinco anos antes da sua morte — dirigidas a D. Ernestina da Silva Monteiro, quando a discípula, a que me referi acima, resolveu abraçar a vida religiosa. Escreve na primeira: "Ela veio visitar-me na quarta-feira passada e fomos a Barreiros [onde Suggia tinha a sua casa de campo] e depois a Leça; uma tarde juntas, conversando muito, chorando muito, mas fiquei convencida que é Deus que a chama e que nada há a fazer para modificar as suas ideias". E acrescenta: "Se gostava d'ela até aqui, ainda me prendeu mais aquele ar de bondade, quási de santidade, que nos inspira admiração e respeito". E faz a confissão seguinte que merece ficar registada: "É curioso, mas sinto-me feliz agora por ela ir para esse mundo espiritual, cheio de mistério e de beleza. Não a perdemos, ganhámo-la e estará sempre mais perto de nós". Na carta seguinte volta a falar com a maior ternura da que fora sua discípula muito querida. Diz assim: "Tenho-a sempre no meu pensamento e apesar de me ter conformado e desejando por vezes estar no lugar d'ela, pois que o mundo para onde ela vai é bem melhor do que este em que vivemos, cheio de maldades, invejas, caprichos e ambições e mentiras, sinto uma grande saudade. Ao menos lá tudo é pureza, simplicidade, bondade, abnegação e o próprio sacrifício deixa de existir, porque reverte em prol da Humanidade''.

Não tive escrúpulo em citar aqui passos destas cartas íntimas nem sua dona o teve em consentir que eu o fizesse. O nosso desejo é prestar homenagem à memória da Artista, referindo um conjunto de factos reveladores da nobreza dos seus sentimentos.

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

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outubro 20, 2004

GUILHERMINA SUGGIA-GRANDE NA VIDA E NA MORTE- (2ª PARTE DE DISCURSO )

Restam-nos, além de um filme que não conheço, alguns discos gravados e o soberbo quadro da Tate Gallery, de Londres, em que o pincel de Augustus John imortalizou na tela a genial Artista numa das suas atitudes de sonho, beleza e domínio.

Fui-lhe apresentado pelo marido, o saudoso colega Dr. Carteado Mena, em 10 de Junho de 1934, no Palácio da Bolsa, no intervalo do concerto que ela generosamente ofereceu à Universidade (então dirigida pelo Prof. Adriano Rodrigues), para auxiliar os estudos de alunos mais necessitados. Depois desse recital no Salão Árabe, em homenagem a Camões, outras belas noites lhe ficou devendo a Universidade, nas quais ela própria ou algumas discípulas, trazidas por sua mão,— Miss Fleming, D. Maria Alice Ferreira e D. Pilar Torres — tocaram nas Salas Nobres das Faculdades de Medicina e Engenharia,
Quando, em Junho de 1948, nesta cidade reuniu o II Congresso Nacional de Engenharia e o Dr. Jayme de Souza e eu — acompanhei-o, a seu pedido, nessa missão delicada — quisemos ouvir o conselho de Guilhermina Suggia sobre a organização de um concerto a oferecer aos congressistas, sem que por nós passasse a sombra sequer da ideia de se obter a sua contribuição pessoal, foi ela que espontaneamente se ofereceu, insistindo até vencer o nosso acanhamento e receio em aceitar tão inesperado quanto honroso oferecimento. Pôs só uma condição: tocar dentro da Universidade, no Salão da Faculdade de Engenharia, e apenas para os congressistas e elemento oficial.

Se para o Engenheiro Jayme de Souza foi gratíssima a presença da Artista na sala da Faculdade que o diplomou, para mim seria igualmente grata a sua presença na sala da minha Faculdade, Escola onde seu marido havia também estudado.

A rara sensibilidade de Guilhermina Suggia surpreendeu o meu desejo. Nas vésperas de partir para Londres para tocar, sob a regência de Malcom Sargent, o Concerto de Elgar no grandioso festival patrocinado pela Rainha a favor do "Musicians’ Benevolent Fund", Suggia, nervosa o preocupada, dizia-me no final do ensaio de D. Maria Alice Ferreira: " Se quiser que eu venha tocar na sua Faculdade, não se esqueça de mim nas suas orações, pedindo a Deus que em Londres tudo me corra bem". Felizmente, o êxito foi completo. Releio a carta que o Eng.° Carlos Beires, então em Walton-on-Thames, a trinta quilómetros do centro londrino, me escreveu em 27 de Novembro de 1948:
"Recebi as suas palavras precisamente na manhã desse dia memorável em que fui ouvir a Senhora D. Guilhermina ao Albert Hall. Não podiam, pois, chegar em melhor altura.
" Foi uma noite que não esqueço. A grande sala cheia, com a presença da Rainha e da Princesa Margarida. Programa de música inglesa com um grande Coro, Orquestra Sinfónica de Londres e o M. Sargent. Muito entusiasmo. A grande Artista tocou com uma profundidade e emoção como poucas vezes tenho ouvido. E soube comunicar-no-las !
"Fui encontrá-la à saída do palco, durante os agradecimentos ao público, e senti então ainda melhor essa agitação dos grandes momentos. Recebeu-me com uma amizade que não posso esquecer...

"Transmiti-lhe as palavras de V...... e a incumbência que a sua carta me conferia. E pode estar certo de que, se é grande a sua admiração e gratidão por Guilhermina Suggia, nela não encontrará senão compreensão e boa vontade! Li-o na expressão com que ouviu as minhas palavras."

"E como gostaria (termina Carlos Beires) de estar presente nessa noite memorável em que a maior Artista portuguesa pisar o estrado dum dos salões nobres da nossa Universidade " !

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

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outubro 19, 2004

G.SUGGIA-GRANDE NA VIDA E NA MORTE- HOMENAGEM 25/11/1950- (1ªPARTE DE DISCURSO)

ILUSTRE REPRESENTANTE DE S. EXCELÊNCIA o MINISTRO DA EDUCAÇÃO NACIONAL E
SENHOR VICE-REITOR,
SENHORES PROFESSORES E ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE,
DIGNAS AUTORIDADES,
SENHORAS E SENHORES:

A primeira vez que ouvi Guilhermina Suggia — que eu, em criança, vira passear, já menina prodígio, na praia de Leça com sua irmã Virgínia, há três anos falecida em Paris onde vivia — foi em 9 de Junho de 1923, no Teatro de S. João, quando a grande concertista aqui veio "matar saudades" após uma larga ausência de Portugal. O seu génio artístico, dando-lhe fama, cobria de glória a nossa Pátria.

Se bem me lembro, tocou nessa memorável noite, acompanhada pela Orquestra Filarmónica de Lisboa, regida por Francisco de Lacerda, o célebre, e na opinião de Pablo Casals dificílimo Concerto de Haydn, cuja interpretação, sob a regência de John Barbirolli, ainda hoje podemos admirar na gravação de "His Master's Voice". A solo, tocou uma Suite de Bach, seu autor predilecto, e novamente com a orquestra o Concerto de Lalo.

Se a técnica de Guilhermina Suggia (salientou o "Times" ao noticiar o falecimento da Artista) era de pureza clássica, as suas interpretações animavam-se com um calor e uma paixão que lhe pertenciam pelo berço e pela nacionalidade. Com efeito, seu pai, o violoncelista Augusto Suggia, foi o seu primeiro mestre—só mais tarde Julius Klengel a leccionou em Leipzig; — sua irmã, um pouco mais velha, era uma pianista distinta; e tanto Guilhermina, portuense, como Casals, catalão, — de quem também recebeu lições — se criaram ao sol ardente e magnífico da Ibéria.
Quem poderá esquecer a perfeição da sua técnica que tudo vencia sem esforço aparente? Como esquecer o incomparável som, aveludado e quente, da sua arcada elegante e segura? O vigor do seu estilo inconfundível, misto de paixão, dignidade e firmeza, consoante justamente notou Richard Capell? E como esquecer, enfim, as atitudes da Artista, vivendo intensamente o drama dos poemas que interpretava? Porque ela, rindo ou chorando, tudo nos transmitia através do seu amado violoncelo.
Depois daquele concerto no Teatro de S. João — hora de Arte e de glorificação da Artista — creio que nunca Suggia tocou no Porto que eu não a ouvisse, exceptuando a noite de 25 de Maio de 1948, em que fechou, na Sala do Conservatório, as reuniões da Camarata desse ano.
Nessa noite foi particularmente feliz. Depois da nevrite que por alguns meses a obrigara a absoluto repouso da mão esquerda, tocava então pela primeira vez em público. A doença não a diminuira. Ela própria confessou ao Dr. Jayme de Souza e a mim que ficara plenamente satisfeita com a prova, pois fora uma das raras vezes em que tocara bem na sua já longa vida de concertista. E ao nosso sorriso respondeu, com seriedade e convicção: "facto, tSei o que estou a dizer-lhes. Os dedos das minhas mãos são de mais para contar as vezes em que, de tenho sido feliz ". Era a insatisfação dos grandes artistas.

Pela radiotelefonia, que me lembre, ouvi-a num dos seus concertos em Lisboa: com a Orquestra Nacional e uma noite — estava eu em Santiago de Compostela na acolhedora casa do cirurgião Puente Castro — quando ela, com a mesma orquestra, interpretou em Madrid o Concerto de Dvorak (28-IV-1945).

A última vez que a ouvi—já então o emagrecimento e a palidez impressionavam — foi no dia 31 de Maio deste ano, dois meses antes da morte. Aquele concerto em Aveiro foi o canto do cisne. As derradeiras músicas que tocou foram, extra-programa, a Peça em forma de Habanera de Ravel, e a alada e saltitante Abelha de Schubert, executada, assim como sucedera com o Rondó de Weber, com tal perfeição, nitidez, leveza, e mocidade, que a assistência, com seus aplausos, a levou a bisar o trecho.
Agora, tristemente repetimos as palavras trágicas do Poeta: Never more ! Nunca mais ouviremos vibrar, feridas pelo seu arco mágico, as cordas dos violoncelos predilectos — o Stradivarius e o Montagnana — que legou para prémios escolares. E para sempre nos faltam a alegria e o entusiasmo do seu convívio tão simples e afectuoso.

Sim. A morte da grande concertista emudeceu para sempre as cordas dos seus violoncelos preferidos, companheiros fiéis da sua gloriosa carreira. Lembram-me neste momento os versos emocionantes de Camilo Pessanha:

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.”

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

PARTE DE UM DISCURSO FEITO NUM CONCERTO DE HOMENAGEM(as partes restantes serão publicadas brevemente

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outubro 18, 2004

POSTAL DO PALACE HOTEL DO BUSSACO A VIANNA DA MOTTA

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POSTAL DO PALACE HOTEL DO BUSSACO A VIANNA DA MOTTA

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outubro 15, 2004

CRÍTICA AO CONCERTO DE ZARA NELSOVA NO S. CARLOS

SOCIEDADE DE CONCERTOS DE LISBOA
Abrindo uma nova folha do seu já volumoso livro de ouro, a Sociedade de Concertos apresentou uma artista em começo de carreira, mas precedida de uma forma que longos anos de trabalho muitas vezes não logram atingir. A violoncelista Zara Nelsova tem para nós, portugueses, um significado muito especial, porque a divulgação do seu nome, em tão pouco tempo, se deveu em parte aquela extraordinária capacidade de admiração que caracterizava a nossa saudosa Guilhermina Suggia e não menos ao prestígio de que a insigne concertista gozava no estrangeiro. Foi nem jeito de homenagem à memória de Suggia que Zara Nelsova preferiu Portugal a outros países europeus, nesta primeira “tournée” pelo continente.

O interesse que as circunstâncias suscitavam aumentou quando soubemos o programa proposto.
O vulgar, num artista-virtuoso, é a limitação ao reportório que lhe dá maior evidência.
Zara Nelsova não quis negar ao público uma demonstração indiscutível das suas possibilidades técnicas e assim, começou pelo “Concerto” de Schumann, bem uma peça para solista e acompanhamento. Mas artista séria e inteligente, Zara Nelsona procurou um outro carácter para a sua segunda contribuição, salvando o equilíbrio do programa, tantas vezes comprometido pelo individualismo dos executantes. O “D.Quixote” é essencialmente um poema para orquestra, em que o violoncelo desempenha um papel apenas mais importante do que os outros instrumentos, nomeadamente a viola.
Tanto em Schumann como em Strauss Nelsova marcou uma forte personalidade artística, modularmente séria e, ao mesmo tempo generosa em rasgos de expressão nunca inconveniente à própria natureza da música.
A afinação é impecável nas passagens mais transcendentes como nas elementares. Uma qualidade que nos faz recordar a sua grande admiradora portuguesa, cujo entusiasmo comunicativo não pôde, infelizmente, manifestar-se ontem como em tantas noites de boa música no S. Carlos, é a perfeita incisão rítmica, que, só por si, torna a execução de Nelsova qualquer coisa de vivo e lhe dá a mais sólida base musical.
A assistência soube corresponder à categoria da concertista. Os aplausos e chamadas obrigaram Nelsova a vir inúmeras vezes ao proscénio.
À Orquestra Sinfónica Nacional e ao seu director, Pedro de Freitas Branco, são devidas palavras de elogio pelas realizações das aberturas “Carnaval Romano” e “Rienzi”, do “Adagietto” de Mahler, do acompanhamento do “Concerto” de Schumann, sobretudo pela felicidade com que venceram as mais incontáveis dificuldades da partitura de Strauss, sem esquecer os solos de viola por Albertina Freire.
Está de parabéns a Sociedade de Concertos de Lisboa pelo excelente início de temporada. J.F.B.

O Século, 23/11/1950

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outubro 14, 2004

ZARA NELSOVA HOJE NO S. CARLOS (22/11/50)

A violoncelista Zara Nelsova apresenta-se hoje em S. Carlos.
A Sociedade de Concertos de Lisboa inaugura hoje a temporada com a apresentação de uma artista de fama internacional, considerada uma das melhores violoncelistas da actualidade.
Quando Guilhermina Suggia ouviu pela primeira vez a jovem Zara Nelsova, em Londres, quis, imediatamente conhecê-la, para lhe exprimir todo o seu entusiasmo por tão extraordinários dotes de intérprete e executante. E foi a grande artista portuguesa quem projectou a vinda ao nosso país de Zara Nelsova, projecto que, infelizmente, já não viu realizado.

Do seu extenso reportório, que inclui não só a literatura clássica e romântica do violoncelo, mas também muitas obras de autores modernos, como Hindemith, Martinu e Samuel Barber, Zara Nelsova escolheu para o concerto de hoje, às 21, 45, em S. Carlos, o “Concerto” de Schumann, e o poema sinfónico “D.Quixote” de Richard Strauss. Será acompanhada pela Orquestra Sinfónica Nacional, dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco, que interpretará também, a abertura “Carnaval Romano” de Berlioz, o “Adagietto” de Mahler e a abertura de “Rienzi” de Wagner

O século, 22/11/1950

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outubro 13, 2004

ZARA NELSOVA TOCA EM S. CARLOS

ZARA NELSOVA – A Sociedade de Concertos de Lisboa conseguiu obter, para inauguração da época, a vinda de uma artista de extraordinária categoria, que se estreia depois de amanhã no S. Carlos.
Zara Nelsova é uma violoncelista de técnica perfeita, que sabe interpretar com expressão indizível a música dos grandes mestres.

Do reportório do seu instrumento, Zara Nelsova escolheu duas obras das mais difíceis, mas que são também das que mais intimamente se casam com o seu temperamento romântico: “O Concerto em Lá menor” de Schumann, e o poema sinfónico “D. Quixote” de Strauss.
A orquestra Sinfónica Nacional terá a direcção do maestro Pedro de Freitas Branco que, além dos importantes acompanhamentos, interpretará a abertura de “O Carnaval Romano”, de Berlioz, o “Adagietto” de Mahler e a abertura do “Rienzi” de Wagner.
As assinaturas para os lugares ainda disponíveis efectuam-se amanhã.

O SÉCULO, 20/11/1950

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outubro 12, 2004

CARTA DE ZARA NELSOVA FALANDO DE G. SUGGIA

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CARTA DE ZARA NELSOVA FALANDO DE G.SUGGIA

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outubro 11, 2004

G.SUGGIA, MADALENA SÁ E COSTA e A. SUGGIA

ANEXO 1.jpgNET[1]

Em 1931, a Prof Madalena Moreira de Sá e Costa, com Guilhermina Suggia e Augusto Suggia no final do ensaio do 1º concerto da violoncelista discípula de G. Suggia (Teatro Gil Vicente, Palácio de Cristal

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MEMÓRIAS DE PROF MADALENA MOREIRA DE SÁ E COSTA, DISCÍPULA DE G.SUGGIA

Guilhermina Suggia, a grande violoncelista portuguesa nasceu no Porto em 1885.
Em 1901 partiu para Leipzig onde foi estudar com Julius Klengel, mas
até essa data estudou violoncelo no Porto com seu Pai, Augusto
Suggia, excelente violoncelista e professor, e música de câmara com
Moreira de Sá, personalidade ímpar no meio musical português.
Durante esses dezasseis anos pertenceu ao Quarteto Moreira de Sá e
aí toma conhecimento dos quartetos de Beethoven (que virão a ser
dados em primeira audição em Portugal) e de muitas outras obras
importantes; toca em muitos concertos do “Orpheon Portuense”,
sociedade de concertos fundada em 1881 por Moreira de Sá com muitas
elementos do meio musical portuense.

Esta sociedade que ao longo desses anos da formação de Guilhermina
muito acarinhou o seu desenvolvimento, organiza um concerto antes da
sua partida para Leipzig, em que toca o 1º andamento do concerto de
Lalo, Tarantela de Popper e Variações sobre um tema Rococo de
Tschaikovsky.
No dizer de minha Mãe, Leonilda Moreira de Sá Ferreira da Costa,
quando Guilhermina parte, já é uma violoncelista muito feita, muito
completa.
Fui sua discípula durante 10 anos. Esse período da nossa convivência
e amizade foi fabuloso. Ouvi-a tocar muitas vezes em ensaios e
concertos com minha Mãe e com meu Pai. Aprendi muito nas suas lições
e ouvindo-a em concertos, com a sua maneira de tocar muito
comunicativa e emotiva.
Em 1926, a Sociedade de Concertos de Vigo, convidara Guilhermina e
meus Pais para tocarem numa série de concertos, tocando ela num
deles com a Orquestra Sinfónica de Madrid dirigida pelo famoso
maestro Arbós.


Para mim as sonatas de Brahms e a sonata em lá de Beethoven, que
tocava com meu Pai, tiveram uma execução de rara beleza e perfeição
que jamais esquecerei. Guilhermina convidou meu Pai a realizar este
programa no Wigmore Hall de Londres em 1929. E minha Mãe a tocar
nessa ocasião em concertos em casas particulares de Londres.
Foram relações artísticas e de amizade muito intensas e profundas.
Quando Guilhermina parte para a Alemanha deixa uma sua fotografia
com a seguinte dedicatória: “A Moreira de Sá com eterna gratidão”.
E, com minha Mãe manteve uma correspondência enorme durante muitos
anos incluindo cerca de cem postais enviados de muitas cidades e
países onde toca. Realiza concertos em muitos países.
Além de Portugal, onde é delirantemente ovacionada e acarinhada,
toca em Espanha, França, Alemanha, Itália, Áustria, Holanda,
Dinamarca, Polónia, Suíça, Rússia, etc. e com Orquestras dirigidas
por eminentes maestros como Artur Nikisch, Mengelberg, Pedro de
Freitas Branco, Malcom Sargent.
Deixa em testamento o seu famoso violoncelo Montagnana para ser
vendido e, com o produto daí resultante se instituir um prémio com o
seu nome destinado ao melhor aluno do Conservatório de Música do
Porto. Esse prémio foi distribuído a seis jovens em provas de
concerto com orquestra tendo altamente dignificado esta atribuição.
Deixou ainda o famoso violoncelo Stradivarius à Real Academia de
Londres, Ao Conservatório de Música de Lisboa deixou um outro assim
como à violoncelista Isabel Cerqueira Millet sua discípula; e, a
mim, um violoncelo italiano do século dezoito. Fiquei-lhe
eternamente grata também por este seu gesto.


Versão do capítulo sobre Guilhermina Suggia que integra o livro de
>memórias de Madalena Moreira de Sá e Costa em fase de
>pré-publicação.

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outubro 08, 2004

PLACAS CORRIGIDAS

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Eis as placas com os nomes dos pais de Guilhermina Suggia, corrigidas. Em vez de Dª GUDA já se pode ler AUGUSTO SUGGIA e em vez de ELIGA pode ler-se ELISA. Graças a Isabel Millet que tomou a ser cargo a reparação dos erros, apesar de ter sido feita a denúncia dos erros junto da CMPorto.

Publicado por vm em 01:50 PM | Comentários (0)

outubro 07, 2004

VINTE E SEIS ANOS DEPOIS O PORTO HOMENAGEIA GUILHERMINA SUGGIA


Pela primeira vez, 26 anos depois, o Porto, por iniciativa de César de Morais, presta homenagem àquela que críticas de todo o Mundo consideraram, a par de Pablo Casals, a maior violoncelista mundial – GUILHERMINA SUGGIA.
Patrocinado pela Câmara Municipal do Porto e em colaboração com a Orquestra Sinfónica do Porto, o concerto que se realiza amanhã, no Teatro Rivoli, pelas 21horas e 30, é inteiramente dedicado à artista portuense galardoada com a Medalha de Ouro da Cidade, comenda de Sant’iago e Grande Oficialato da Ordem de Cristo.

Para a homenagem póstuma, César de Morais compôs o “Concerto para violoncelo e Orquestra” prestando-se a interpretá-lo em primeira audição mundial o violoncelista Michel Marchésini, solista da Ópera de Paris, 1º Prémio do Conservatório de Paris, solista e concertista consagrado em recitais e concertos em toda a Europa, solista da Ópera de Nice e Cavaleiro da Legião de Honra.
Completam o programa a abertura sinfónica de Sousa Carvalho “Eumene” e, na segunda parte a 5ª Sinfonia de Beethoven, regidos pelo maestro Gunther Arglebe.
Os bilhetes para o acontecimento são vendidos na bilheteira do teatro, ao preço popular e único de 20$00.
Sem, contudo, necessitar de apresentação, GUILHERMINA SUGGIA, nasceu no Porto a 27 de Junho de 1888 (1), entrando com 13 anos para o Quarteto de Câmara do Orpheon Portuense (2) . Estudando primeiro com o pai, o professor Augusto Suggia, e mais tarde com Klengel, GUILHERMINA SUGGIA obteve um êxito apoteótico, aos 16 anos nos concertos de Gewandhaus dirigidos por Artur Nikisch, iniciando, então a sua carreira com concertos na Alemanha, França, Inglaterra, Holanda, Rússia, Polónia, Suiça, Itália, Bélgica, Escandinávia, Espanha, etc.
Divorciada de Pablo Casals, volta a Portugal, onde fixa residência no Porto (3) dedicando-se a audições de carácter cultural e beneficente a favor de instituições congéneres ou em benefício de estudantes pobres. Sob a regência de Malcolm Sargent, é convidada a tocar no Albert Hall, em benefício dos músicos desempregados, a que assiste a família Real. Doente, é operada em Londres e regressa a sua casa no Porto, onde faleceu no dia 30 de Julho de 1950. No testamento dispôs do seu Stradivarius avaliado em 10.000 libras, para que fosse vendido e o seu produto aplicado na Royal Academy of Music, para instituição de um prémio anual ao melhor aluno de violoncelo. Os outros dois instrumentos que possuía legou-os aos conservatórios de música de Lisboa e Porto, para serem vendidos e instituídos prémios idênticos(4).

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 2 de Setembro de 1976
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(1) - G.S. nasceu a 27 de Junho de 1885
(2) - Quarteto Moreira de Sá
(3) – Quando termina a relação com Pablo Casals, Guilhermina Suggia não regressa a Portugal. Vive uns tempos em casa de sua irmã, Virgínia Suggia, em França e nos inícios de 1914 fixa residência em Inglaterra
(4) – G.S. deixa em testamento o seu violoncelo MONTAGNANA à Câmara Municipal do Porto (entidade de quem dependia na altura o Conservatório de Música) para ser vendido e com o produto dessa venda ser atribuído um prémio anual ao melhor aluno de violoncelo. Caso o Conservatório deixasse de estar sob a tutela da CMPorto o remanescente da venda do violoncelo passaria para a entidade que tutelasse o conservatório, para que o prémio continuasse a ser atribuído. Deixa o seu violoncelo “Lockey Hill” ao Conservatório de Música de Lisboa, em homenagem a seu pai que aí estudou e foi professor.

(notas de vm)

Publicado por vm em 10:59 AM | Comentários (0)

outubro 06, 2004

A MAIOR VIOLONCELISTA DE SEMPRE (O "DIA" de 5/10/1990)

Acabam de completar-se 40 anos sobre a morte de GUILHERMINA SUGGIA. Foi, indiscutivelmente, uma das primeiras figuras entre os violoncelistas de todo o mundo e a maior entre nós. Artista extraordinária, GUILHERMINA SUGGIA sabia, como poucos, arrancar do seu violoncelo sonoridades de magia, que as suas mãos vibrantes e o seu coração de Mulher humanizavam.
A vida de SUGGIA foi um constante sonho de beleza. Vivendo para a Arte, a ela serviu com o seu fulgurante e imenso talento, a ela se entregou por inteiro.

Dotada de invulgar inteligência e possuindo um raro e poderoso encanto pessoal, SUGGIA assim que entrava no palco, cingia a si o violoncelo e levantava o arco, já tinha conquistado o público que, fascinado, febril e vibrante, escutava recolhido a espantosa artista.
Nascida no Porto, a 27 de Janeiro (1) de 1885, contava apenas sete anos quando se apresentou em público e já fazia parte da Orquestra do Porto ainda não tinha completado doze.
Aos quinze anos foi para a Alemanha aperfeiçoar os seus estudos e dois anos depois fazia a sua apresentação como violoncelista nos concertos de Leipzig, logo realizando digressões pela Europa.
Mais tarde, GUILHERMINA SUGGIA trabalhou com Pablo Casals, com quem fez uma famosa tournée em 1912, colaborando ambos nas audições do Concerto para dois violoncelos, composto por Emanuel Moór, e dedicado ao eminente artista catalão (2).
Logo após a primeira grande guerra, SUGGIA fixou residência em Londres (3) tornando-se rapidamente conhecida e apreciadíssima em Inglaterra, tendo tocado algumas vezes em particular para a família real inglesa. Fez-se ouvir com grande frequência pelo público londrino, sempre com unânime elogio da crítica.
Em 1923, o seu retrato, o mais conhecido de todos e o mais famoso da artista, foi pintado por Augustus John e encontra-se na TATE GALLERY, de Londres.
De regresso ao Porto, aí ficaram memoráveis os concertos que realizou, voltando de novo a Inglaterra em 1949, onde se fez ouvir pela última vez nos Festivais de Edimburgo.
A 30 de Julho de 1950, GUILHERMINA SUGGIA falecia no Porto, sendo o seu desaparecimento uma perda irreparável para a música portuguesa e para a arte em geral. Servindo-a com fervor e a mais perfeita dignidade, GUILHERMINA SUGGIA cobriu de glória o seu nome e a sua Pátria.

(1)- Guilhermina Suggia nasceu a 27 de Junho de 1885

(2)- Com efeito o concerto para 2 violoncelos de Emanuel Moór foi dedicado aos 2 violoncelistas, sendo o 1º violoncelo dedicado, pelo compositor, a Guilhermina Suggia e o 2º a Pablo Casals.

(3)- Guilhermina Suggia fixa-se em Londres em 1914. Em 1913 termina a relação com Pablo Casals, fixa-se em casa de sua irmã Virgínia, em França. Parte para Inglaterra no início de 1914 e fixa-se em Londres
(notas de vm)

MARIA FERNANDA MELLA, “O Dia” de 5 de Outubro de 1990

Publicado por vm em 09:04 AM | Comentários (2)

outubro 04, 2004

BILHETE DE IDENTIDADE DE GUILHERMINA SUGGIA

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(cedido por Isabel Millet)

Publicado por vm em 10:12 AM | Comentários (0)

outubro 03, 2004

PARTE DE ENTREVISTA DE PROF HELENA SÁ E COSTA À REVISTA MACAU

VJ - Que tal se começássemos por falar de Guilhermina Suggia
HSC – Sim. Conheci-a aqui no Porto quando ela veio de Londres em 1924. Esteve lá cerca de 20 anos sem vir a Portugal tocar. Era muita falada aqui em casa, pois a minha mãe tinha sido muito amiga dela. Mas nós não a conhecíamos pessoalmente, víamos somente os retratos antigos e tínhamos uma pequena ideia através daquilo que nos contavam. A única coisa que sabíamos era que ela vivia em Londres. Um dia, os meus pais foram tocar a casa do escultor Teixeira Lopes e uma das pessoas que também se apresentou foi a Guilhermina Suggia que tinha acabado de chegar de Londres. Tinha vindo para juntar os pais que estavam separados e conseguir comprar uma casa para eles. Acabou por "encontrar" um marido, tendo casado com um médico português, Dr. Carteado Mena a quem admirava muito.

VJ – Como era a sua personalidade?
HSC – Exuberante. Dava muito nas vistas; não que fosse muito bonita, mas quando se arranjava bem nos concertos chegava a ser bonita. A tocar então, tinha expressões que a tornavam mesmo fascinante. Musicalmente era também muito exuberante. Aquilo que o Pablo Casals tem de interioridade, ela tinha de expressividade. Ela falava muito do Casals, pois tinha vivido sete anos com ele…
VJ - …fala-se muito do seu vibrato intenso…
HSC – …sim, é verdade. Ela tinha uma técnica muito refinada que transparecia, por exemplo, quando tocava as Suites, de Bach. Naturalmente tinha aprendido com o Casals pois tinha sido aluna dele. Como sabe, o Casals tocou muito aqui no Porto, num Café em Espinho. E foi daqui que o meu avô o convidou para fazer uma tournée pelo Brasil com o trio formado por ele próprio, Casals e o pianista inglês Harold Bauer. Só depois disso é que ele foi com a Suggia para Paris e, curiosamente, a mãe dela a acompanhou. Apesar de toda essa exuberância que há pouco referi, ela era um pouco desigual: havia dias que estava muito bem disposta e outros nem tanto. Era também muito notada na rua pois vestia-se sempre com muitas cores. Nos concertos, porém, vestia-se lindamente e com grande requinte. É curioso que ela foi uma das primeiras pessoas a guiar automóvel chegando mesmo a dizer que ia para os seus concertos a conduzir, pois era a maneira de se distrair, concentrando-se naquilo que estava a fazer e não tendo que pensar no concerto. Isso, porque era muito ansiosa. Por várias vezes tocou com Freitas Branco em Lisboa e chegou mesmo a desmaiar pois sentia uma grande aflição antes de entrar para o palco.
Depois de estar muito tempo afastada do nosso meio, tinha receio de que começassem a convidá-la indiscriminadamente para tocar. Por isso, tornou--se de muito difícil acesso: não aceitava os convites e quando aceitava, era um preço louco.

Extracto de entrevista dada a VEIGA JARDIM por Prof HELENA SÁ e COSTA para a Revista MACAU

Publicado por vm em 10:29 AM | Comentários (4)

outubro 02, 2004

O MONTAGNANA DE SUGGIA

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Este é o Montagnana que ninguém vê nem escuta. É um crime ter um instrumento destes fechado num cofre, sem ser tocado. Chegou a estar com bolor. É preciso que este "crime" seja urgentemente reparado.

Publicado por vm em 09:05 AM | Comentários (2)

outubro 01, 2004

PERFIL DE GUILHERMINA SUGGIA

PERFIL DE GUILHERMINA.jpg

É desconhecido o autor deste desenho de G Suggia. Será, provavelmente, António Carneiro

(cedido por Isabel Millet)

Publicado por vm em 10:14 AM | Comentários (1)