julho 31, 2004

PARTE DE UM DISCURSO NUM ESPECTÁCULO DE HOMENAGEM

E — depois dos maiores triunfos nas grandes cidades e cortes da Europa, de Lisboa a S. Petersburgo — morreu, segundo o desejo que manifestara, nos derradeiros dias, ao Padre Luís Rodrigues:
" Cheguei a suplicar a Deus que me desse vida e saúde, pois agora grandes coisas gostaria de fazer para Sua glória. Mas que merecimentos tenho eu, mulher como qualquer outra, para que o Senhor me distinguisse e em mim manifestasse o Seu poder? Não. Aceito a vida ou a morte, consoante Deus determinar".

E, pelas onze horas da noite de 30 de Julho, o Padre Luís Rodrigues, seu confessor, a quem a doente pedira que não a abandonasse na hora extrema, ajoelhado à beira da sua cama, rezava-lhe as orações dos moribundos que ela atentamente seguia, no supremo esforço de deixar a terra e entrar, purificada, na Eternidade.
No quarto, como testemunhas mudas da tragédia sublime da libertação daquela alma, apenas Mrs Melville, que chegara de Londres nesse mesmo dia, chamada por um telegrama da doente, e a enfermeira inglesa, de joelhos também, subjugada pela grandeza do quadro que tinha diante dos olhos. E mal o sacerdote acabou de recitar as orações, Guilhermina Suggia expirou serenamente, entregando a alma a Deus que a fizera nascer Artista e seguir no mundo da Música uma trajectória de luz.

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CARTA A MÃE DE SUA ALUNA PILAR TORRES

Em 12 de Outubro de 1949 escreve à mãe de Pilar Torres, a bordo do Highland Monarch da Royal Mail para agradecer «o terem vindo ao cais na companhia de tão santo homem que é o Prior Carvalho. Deu-me coragem e sinto que as suas orações e as da Maria e das pessoas minhas amigas são ouvidas e que Deus me acompanhará sempre. E confessional continua: «mas que saudades e agora que estou tão só no mundo custa-me a deixar a minha casa que tanto gosto. Já tenho um desejo doido de regressar a Portugal. Afinal sou muito mais portuguesa do que pensam ahi».

Despede-se nostálgica desejando ter «Pilarzinha a bordo comigo».
Mas a viagem é inevitável.
Em 22 de Outubro tem um concerto no Wïnter Gardens de Bournemouth para comemorar o 57° aniversário da criação da orquestra sinfónica de Bournemouth. Interpreta de novo o Concerto em dó de Eugène d'Albert desta vez sob a direcção do maestro Rudolf Schwarz. O Dr. Bártolo do Vale Pereira, que nessa altura a visitou, disse que «(...) não há a menor dúvida que foi um grande triunfo para ela, e para mim uma noite memorável».
Esta foi a última actuação de Suggia em Inglaterra, que verdadeiramente a venerou. Guilhermina pressente, contudo, a quebra sucessiva da sua vitalidade, o que se tornou muito notório após a morte do Dr. Carteado Mena em Março de 1949.
No final do concerto perguntam-lhe como é que ela se sente.
«-Estou sozinha, sem um único parente no mundo».
Guilhermina sabe que familiarmente não tem ninguém, embora confie em Clarinda e num punhado de amigos. A possibilidade de tocar nos E. U.A. não se dissipa, contudo, dos seus interesses.

Do livro: “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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julho 30, 2004

RECORDEMOS SUGGIA NO SEU MELHOR

GUILHERMINA a.jpg

Para mim, esta é das mais belas fotografias de SUGGIA.

(cedida por Isabel Millet)

Publicado por vm em 12:26 AM | Comentários (3)

GUILHERMINA SUGGIA MORREU HÁ 54 ANOS

Suggia confiou a um amigo «que chegou para morrer». Não hesita em fazer as últimas disposições e as últimas despedidas.
Escolhe o vestido que levará para o túmulo. Ordena que lhe arranjem o cabelo e as unhas. Quer os lábios pintados. Deitado ao seu lado, na cama, o violoncelo.

Guilhermina Suggia morre na sua casa do Porto, na noite de 30 de Julho de 1950. O numeroso funeral sai da Rua da Alegria, 665, na terca-feira, 1 de Agosto de 1950. Pelas 11.30 h, na Igreja da Lapa, é a missa de corpo presente. Será enterrada no cemitério de Agramonte.

Na cidade de Prades, nos Pirinéus Orientais de França comemoram-se, em Julho de 1950, os 200 anos da morte de Bach (1685-1750), sob a direcção de Pablo Casals.
O violinista Alexander Schneider, um dos amigos mais íntimos de Casals, com incansável entusiasmo defendeu e concretizou a ideia de realizar um festival em Prades para celebrar esse acontecimento. Esta calma localidade tornou-se, de repente, anfitriã das maiores celebridades musicais. Suggia é convidada de honra, ela que nasce e morre 200 anos depois do mestre alemão, que tanto admira. Talvez tenha sido a incontornável recusa deste convite uma das situações mais dolorosas da vida de Guilhermina Suggia.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:21 AM | Comentários (0)

julho 29, 2004

NO REGRESSO AO PORTO a 17 de JULHO de 1950

No London Clinic, quando preparavam Guilhermina Suggia para a sua viagem de avião na tarde de 17 de Julho, confessa ela que: “ Sei que tenho um mal que não tem cura. O Dr Maingot contou-me ontem toda a verdade. A Medicina nada mais pode fazer. Tentou-se tudo. Receitou-me umas injecções. Levo-as comigo. Se não fizerem efeito, mais nenhuma terapêutica se conhece para este mal”

do livro Guilhermina Suggia A Sonata de Sempre, de Fatima Pombo

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O ÚLTIMO RECITAL DE G. SUGGIA em 31 de Maio de 1950

O seu último recital é para os sócios do Círculo de Cultura Musical de Aveiro, em 31 de Maio de 1950.
As condições acertam-se uns meses antes.

Círculo de Cultura Musical/Delegação de Aveiro

Aveiro, 18 de Fevereiro de 1950

Excelentíssima Senhora
Dona Guilhermina Suggia

Apresentamos a V. Exa. os nossos cumprimentos da mais alta consideração.
Esta Delegação do C.C.M. pretende encerrar a actividade desta temporada de 1949-1950 no próximo mês de Maio. Porque o nível e brilho desta época está sendo de excepcional relevo, é nosso desejo mantê-lo e fechar com um concerto a que chamaremos "chave de ouro".
Assim, tomamos a liberdade de convidar V. Exa. a dar-nos a grande honra de vir a Aveiro fazer o citado concerto em dia, daquele mês, a combinar, não esquecendo que por exigência da empresa do Teatro Aveirense e da economia desta Delegação do C.C.M. esse dia deverá ser uma quarta ou uma sexta-feira. Finalmente, muito gratos ficamos pela fineza de nos informar de quanto deverá ser o "cachet", com acompanhadora, pedindo desde já a benevolência possível dado o excepcional peso com que esta época está a sobrecarregar as nossas frágeis finanças. Na expectativa das notícias de V. Exa. e renovando os nossos cumprimentos de muita estima e admiração,
Somos de V. Exa.
Atenciosamente gratos
O Secretário

Carlos Aleluia


Círculo de Cultura Musica/Delegação de Aveiro
Aveiro, 3 de Março de 1950

Excelentíssima Senhora
Dona Guilhermina Suggia
Gratamente reconhecido pela amável carta de V. Exa." e satisfazendo a informação que V. Exa." pede, venho comunicar que o «cachet» que pagámos em 1946, foi de 10.000$00 a V. Exa. e 1.000$00 à pianista acompanhadora que foi a Exma. Senhora Dona Berta Alves de Sousa.
A data do concerto achamos muitíssimo bem o dia 10 de Maio.
Aguardando e agradecendo a fineza de notícias de V. Exa. subscrevemo-nos com a mais elevada admiração.
De V. Exa. Muito atenciosamente
Carlos Aleluia


O concerto é no último dia de Maio, executando com acompanhamento ao piano, por Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, a Sonata de Locatelli, a Sonata em dó menor de Saint-Saëns e pequenas peças de Boccherini, Bach, Fauré, Weber, Chopin, Schubert e Falla. As últimas peças que toca extra-programa são a Peça em Forma de Habanera de Ravel, A Abelha de Schubert (que bisou) e o Rondo de Weber.

Regressa ao Porto conduzida pelo motorista, com o carro cheio de flores.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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julho 28, 2004

A ÚLTIMA CARTA A CLARINDA

Galopantemente, a doença esmaga-a.
O Dr. Álvaro Rodrigues, a pedido do seu colega Dr. Castro Henriques, examina-a e aconselha a intervenção cirúrgica: «Vou para Londres preparada para quanto me possa suceder», afirma Suggia, desejando que a operação se realize em Inglaterra.
Na mesa operatória na London Clinic, em 28 de Junho de 1950, perante as lesões da parede da vesícula e do fígado, o cirurgião Maingot e Álvaro Rodrigues assistem à impossibilidade de qualquer esperança.


The London Clinic
20 Devonshire Place - London W. L
5-07-1950

Minha boa Clarinda,
É o primeiro dia em que posso escrever um pouco, apesar de muito fraca ainda -já deve saber da operação que decorreu bem, mas não foi nada d'aquilo que se esperava - não puderam tirar a vesícula nem o apêndice. visto o fígado estar por demais inflamado - tinha sido arriscar a vida -abriram mais do que se tivesse sido tirar a vesícula pois tiveram que cortar umas aderências que eram perigosas para o futuro e tornaram a coser - é um golpe longo, tenho 15 pontos (ao comprido) e está tudo com adesivo. Nada senti da operação excepto um mal estar horrível ao acordar, mas logo atenuado com injecções e drogas que não deixam sofrer o doente. Tenho levado dezenas de injecções nas pernas, nos braços, no tú-tú, enfim já me habituei e estou resignada. Tenho enfermeiras dia e noite, adoráveis, o quarto cheio de flores - a Mrs. Melville passa todo o dia comigo, um bom quarto - os melhores médicos, mas chorei quando o Dr. Álvaro Rodrigues me deixou no Sábado.

Era o meu grande amparo moral. É um santo. Os Srs. Pitman têm vindo aqui todos os dias e o Embaixador de Portugal também e o Dr. Pile um amor e um bom amigo - a Miss Brunch doente de cama mas falo com ela pelo telefone. Foi quem nos foi buscar ao aeroporto. E esta noite tive a grande honra e alegria de receber uma carta da Rainha de Inglaterra com uma caixa cheia de cravos cor de rosa, cheia de pena e simpatia por eu estar doente. Chorei de alegria! Não posso ser melhor tratada e estimada por todos. Bem haja Deus Nosso Senhor que me tem protegido e todas as pessoas que por mim rezam.

Boa noite, obrigada pelas suas cartas.
Recebi tudo. Saudades a todos, sim. Não devo escrever mais. Um abraço.
Guilhermina Suggia

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre”, de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:24 AM | Comentários (5)

julho 27, 2004

CARTA A CLARINDA

Guilhermina Suggia continua a queixar-se com dores. Não tem apetite e emagrece bastante.
Apesar disso, ainda aceita participar, em Agosto de 1949, no Festival Internacional de Edimburgo, no Usher Hall, tocando o Concerto em dó de Eugène d'Albert, com a Orquestra Escocesa da BBC, regida por lan Whyte.

Sobre esse acontecimento podem ler-se palavras de Suggia, numa carta a Clarinda, criada da sua completa confiança:

Caledonian Hotel - Edinburgh 3285L
28 de Agosto de 1949

Clarinda,

Até que enfim, terminei ontem à noite os meus concertos n'esta cidade que foram dois autênticos triunfos. Graças a Deus tudo correu o melhor possível e eu estava bem disposta e fui felicíssima nas minhas interpretações. Foi o grande, o maior sucesso do Festival o que representa uma grande honra para Portugal, (...) As salas cheias e à saída foi preciso a polícia intervir pois não me deixavam passar e no meio da rua eram dezenas e dezenas de pessoas a dizer adeus e a aplaudir.
Uma coisa extraordinária, parecia que estavam loucos.

Eu sinto-me tão feliz, pois estava um tanto nervosa antes de principiar, pois é uma grande responsabilidade, no meio dos maiores artistas mundiais e perante um público internacional. Americanos, austríacos, noruegueses, franceses, etc., milhares de pessoas e já está mais ou menos combinada a ida à América!
Bem dizia o Dr. Castro Henriques.
Esta carta serve para as pessoas que por mim se interessam.

Lembranças às moças e António.


do livro: "GUILHERMINA SUGGIA - A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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julho 26, 2004

SUGGIA COM UM DOS SEUS CÃES

Suggia7a.jpg


Aqui temos Guilhermina Suggia com um dos seus cães - penso que a Mona.

(cedida por Isabel Millet)

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julho 25, 2004

CALENDÁRIO DE CONCERTOS-1904

25Abr. Concerto no Salão Trindade, no qual executa obras de Volkmann, Klengel e Dvorak, acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.

23 Mai. Concerto do Congresso Marítimo Internacional de Lisboa, no Teatro D. Maria II em Lisboa, participando com obras de Svendsen, Popper, Liszt, Klengel e Chopin, acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.

25 Out. Concerto na Musensaale dês Rosengarten de Mannheim, sob a direcção de Edouar Colonne, interpretando música de César Frank, R. Volkmann, Svendsen e A. Piatti.

1 Nov. Concerto em Leipzig, na Festsaale dês Central-Theaters, sob a direcção de Hans Winder-stein, interpretando composições de Beethoven, Dvorak, R. Strauss, Svendsen e Piatti.

do livro " GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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julho 24, 2004

G. SUGGIA NO CASTELO DE LINDISFARNE

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Mais uma interessante fotografia de GUILHERMINA SUGGIA. Esta, de novo, no castelo de Lindisfarne

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julho 23, 2004

SUGGIA VESTIDA DE MINHOTA (?)

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Uma bem engraçada fotografia da nossa GUILHERMINA SUGGIA, saída numa revista inglesa. Penso estar vestida de minhota. Estarei certo?

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julho 22, 2004

RECEBI UM POSTAL DA IRLANDA

A minha amiga Sónia foi de férias para a Irlanda. Hoje recebi um postal dela que me comoveu muito. Diz assim:

2004/07/17

Querido Virgílio,

Acredita que ontem jantámos num muito simpático restaurante irlandês, perdido nas montanhas, que tem pendurado numa parede nada mais nada menos, que um retrato de GUILHERMINA SUGGIA! Estivemos a falar com a dona do restaurante sobre isso e ficámos de lhe mandar uma biografia. Até te ligámos para te falar, tal foi a emoção. Mas não te apanhámos.
beijos
Sónia e

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julho 21, 2004

NO CEMITÉRIO DE AGRAMONTE- AS PLACAS COM OS NOMES DOS PAIS de SUGGIA FORAM CORRIGIDAS

Quem, de vez em quando, leia alguns documentos aqui transcritos ( críticas, testemunhos, notícias) ficará certamente com a certeza de que GUILHERMINA SUGGIA foi uma das pessoas que mais honrou o seu país e sobretudo a sua cidade: o PORTO.
Infelizmente nem o país nem o Porto parecem ter merecido Guilhermina Suggia. Ela foi enorme para quem não a sabe recordar, respeitar a sua memória, os seus desejos.


Como já aqui foi dito, os nomes dos pais estavam, numa total falta de respeito, errados nas placas que se encontram sobre a sua sepultura. o Pai AUGUSTO - estava como Dª GUSTA, e a mãe ELIZA - estava como ELIGA. O foi foi denunciado publicamente. Foi feita reclamação à Camara Municipal do Porto. Talvez achassem que os factos eram de pouca importância. Ou nenhuma. As placas continuaram com os nomes errados até que houvesse quem tratasse de mandar corrigir os erros. Essa pessoa foi a Sra. Dona ISABEL MILLET. Neste momento as placas que estão sobre a sepultura de Guilhermina Suggia estão com os nomes dos pais, corrigidos.

Seria importante, em meu entender, criar-se um grupo de cidadãos que se juntassem para requerer junto da CMPorto a classificação da casa onde viveu e morreu Suggia, como Imóvel de Interesse Camarário e ao mesmo tempo mandar afixar na parede do prédio uma placa lembrando a quem por ela passa que ali viveu uma das pessoas mais importantes que o Porto viu nascer.
Mãos à Obra.

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julho 20, 2004

"RECITAL SUGGIA", NO SALÂO ÁRABE DO PALÁCIO DA BOLSA-10/6/1934

Seguindo uma tradição a todos os títulos simpática, a Universidade do Porto vem comemorando, nos últimos anos, a data camoneana – 10 de Junho, com solenidades de carácter nobremente, elevadamente, artístico.
Este ano, pode dizer-se que a Universidade do Porto obteve o seu maior triunfo trazendo até nós GUILHERMINA SUGGIA, a mais notável individualidade musical portuguesa da actualidade e, no dizer de críticos eminentes, a "primeiro" violoncelista de todo o mundo.

Para que o “Recital Suggia” tivesse todo o carácter de sumptuosidade e grandeza a que tinha jus conseguiu o devotado reitor do nosso primeiro estabelecimento de ensino que a Associação Comercial do Porto cedesse a mais importante dependência da sua Sede.
O Salão Árabe do Palácio da Bolsa, sendo único no país, presta-se, naturalmente, às festas e solenidades da mais requintada distinção.
E, ao vê-lo, no domingo pretérito, polvilhado de vestidos elegantíssimos, de casacas e de smokings, compreendia-se logo a supremacia daquele recinto de maravilha em relação a todos os outros que possuímos.

Na primeira parte do programa, D. GUILHERMINA SUGGIA fez-se ouvir em “Sonata em Sol Maior” de Sammartini; “Melodia” (Orpheu) de Gluck; “Allegro Spirituoso” de Senallié, acompanhada por D. Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, pianista de nome consagrado, e “Sonata em Sol menor, op. 5 nº 2” de Beethoven, acompanhada por D. Ernestina da Silva Monteiro, outra pianista cujos méritos se evidenciaram também.
É impossível com uma Artista como Suggia, dizer que isto foi melhor que aquilo. E festivamente por ela tudo é bem tocado, sempre.
Tanto uma como outra das sonatas tiveram a interpretação assombrosa que só Suggia pode dar.

Na segunda parte, o prof. Adriano Rodrigues, na sua qualidade de Reitor da Universidade do Porto, proferiu algumas palavras sobre o significado da festa, transformadas de resto, num interessante discurso, em que a figura, musicalmente excepcional de Guilhermina Suggia e o vulto incomparável, o vulto máximo do cantor dos Lusíadas, perpassaram e brilharam.
O prof. Adriano Rodrigues justificando a realização daquela comemoração camoneana com o Recital Suggia, consignou à Artista e ao Poeta as expressões que a uma e a outro, de verdade se aproximavam.

Na terceira parte, novamente Suggia. “A Suite em dó” de Bach para violoncelo (Prelude, Alemande, Courante, Sarabande, Bourrées I e II e Gigue) teve todos os requisitos para obter do auditório a ovação que obteve.
Depois “Sicilienne” de Marie-Therese von Paradis, “Gavotte” de Méhul, em primeira audição, e “Rondo” de Boccherini, uma das mais belas páginas que existem para violoncelo, tiveram também a interpretação própria, o mais rigoroso, o mais brilhante que é possível dar a obras tão características e de tanta preciosidade.
D. Maria Adelaide de Freitas Gonçalves fez os acompanhamentos destas três obras de maneira superior.
E o programa fechou com “Arte em Estilo Antigo”, de José Franco, outra primeira audição. “Malagueña” de Albeniz, “Pièce en forme deHabanera”, de Ravel, e “Sérénade espagnole”, de Glazunov, obras que Suggia teve D. Ernestina da Silva Monteiro por acompanhadora primorosa.
Fora do programa, correspondendo aos aplausos vibrantíssimos do auditório, que não arredava pé da Sala e da Galeria, a Artista tocou, ainda, “Andalucia”, outra saborosa página espanhola de Nina, e essa Formosíssima “A Abelha”, de Schubert, cujo vôo a violoncelista, admiravelmente descreve.

Todo o sarau, pode afirmar-se sem exagero, foi para Guilhermina Suggia, uma alta consagração.
O público recrutado no escol da sociedade e da intelectualidade portuense, saudou a Artista com uma veemência que não pode ser superada.
De resto, pela sua maneira de tocar, pessoalíssima, a violoncelista eminente merece bem todos os aplausos que se lhe consagram.
Vivendo, intensamente, apaixonadamente, a sua arte, Guilhermina Suggia é uma concertista poderosa que, pelas próprias atitudes, que seriam exageradas se não fossem, como são, sinceras e naturais. Conquista e subjuga a alma dos auditórios.
Resta dizer que a Artista foi felicíssima na escolha das suas colaboradoras.
Tanto D. Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves como D. Ernestina da Silva Monteiro pertencem como pianistas, ao nosso primeiro plano musical.
Desde o rigor e a expressão duma à emoção e à vibração da outra, todos os encómios são devidos às duas senhoras que tanto enobrecem, entre nós, a arte dificílima do piano.

D Guilhermina Suggia recebeu das mãos dum distinto estudante universitário um violoncelo miniatural em oiro filigranado com o símbolo da Universidade. Delicada e valiosa prenda esta. E às suas preciosas colaboradoras foram oferecidos pequenos corações, também em linda filigrana de oiro.
Suggia recebeu ainda, das mãos da sua discípula dilecta, D. Madalena Moreira de Sá e Costa, filha do eminente pianista Luiz Costa, um admirável ramo de flores.

O recital tinha, como dissemos, um objectivo altamente meritório. Era dado em benefício dos estudantes universitários pobres.
E a verdade é que apesar dos preços elevados, que foi mister estabelecer, o Salão Árabe quase se encheu da Sala à Galeria.

O COMÉRCIO DO PORTO, 12 de Junho de 1934


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julho 19, 2004

OUTRA CRÍTICA AO CONCERTO DO TEATRO RIVOLI DE 5/5/1937

Noite de inolvidável arte, noite de encantamento - como justamente a considerou o sr. dr. Joaquim Costa – a de ontem no Rivoli! Efectuava-se o segundo e último concerto da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, com a preciosa colaboração da grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA.

Encheu-se o vasto teatro. Reuniu-se ali a maior representação social portuense. Um grande nome constituía a atracão. Sentia-se, transparentemente, um palpitante interesse em ouvir a Artista. Para muitos ela havia proporcionado já, por diferentes épocas, horas de adorável prazer espiritual. Para outros ela era uma figura de relevo no mundo artístico, cujos méritos se conheciam apenas através da informação de autorizados críticos. A noite de ontem foi de realidades. A grande “virtuose” que conquistara as elites do nosso país, atravessara há muito as fronteiras, percorrera pelo estrangeiro, os grandes centros artísticos e impusera, vitoriosamente, o seu nome, a sua categoria, a sua personalidade de concertista. GUILHERMINA SUGGIA, na terra onde nascera, neste Porto, berço de várias notabilidades da arte musical, ia, novamente, proporcionar momentos de adorável prazer espiritual.

....................
O concerto iniciou-se com uma linda composição de Tartini, “Adágio”, em que SUGGIA documentou esplendidamente a sua técnica. Naquela compostura de sóbria elegância que é ao mesmo tempo uma graciosa imagem arrancada à preciosa tela de museu, dominando o Stradivarius, SUGGIA arrancou uma autoridade que empolgou a assistência.
Tocou, depois, a “Suite Ancienne” de Sammartini. Três andamentos em que se fundem delicadas harmonias. Execução primorosa onde se salientou o estilo inconfundível da concertista, marcado na pureza do som, na envolvente porção de sentimento e na vigorosa interpretação.
O concerto de Antonin Dvorak – composição em que se reúnem caprichosos temas – foi um mimo de interpretação. A assistência esteve suspensa das suas atitudes integradas no espírito da obra, sentindo a vibração da sua correctíssima arte.
A orquestra, que Pedro de Freitas Branco conduziu com inteligência e pormenorizadamente nos seus efeitos manteve-se em perfeita unidade com as execuções de SUGGIA, atingindo o conjunto dos dois valores um invulgar brilho.
A solo, a grande violoncelista tocou a “Suite em dó” de Bach, numa segurança perfeita, arrancando do instrumento “nuances” de cor, de poesia, sentimento e vivacidade.
Ravel na “Pièce en forme de Habanera”; Glazunov na “Sérénade espagnole”, e Sinigaglia na “Humoreske”. Três composições cheias de contrastes e de motivos de sugestiva delicadeza assentes em construções ricas de efeitos – foram interpretadas com mestria, com a expressão e o carácter só possíveis na arte e na técnica de GUILHERMINA SUGGIA.
A grande artista foi demorada e entusiasticamente aplaudida, num frisante testemunho de admiração, numa clara demonstração de apreço. Dos aplausos compartilharam o ilustre maestro Pedro de Freitas Branco e os professores que formam a orquestra.

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No final da primeira parte procedeu-se a uma significativa homenagem à insigne artista. No palco, rodeada de Mestre Teixeira Lopes, Drs. Carlos Ramos, Joaquim Costa e Aarão de Lacerda, Freitas Gonçalves, Pedro Freitas Branco, Henrique de Castro Lopes, Máximo de Carvalho, dr. Carteado Mena, Manuel Reis, Pinto Machado e inúmeras pessoas de destaque social, GUILHERMINA SUGGIA foi alvo de uma grande ovação.
O sr. dr. Joaquim Costa, ilustre escritor e director da Biblioteca Municipal, improvisou um discurso. Enalteceu a figura artística, “extraordinária figura humana” de SUGGIA, em cujas veias girava sangue italiano, árabe e português. Apontou os primores da sua técnica e as suas grandes qualidades de artista. Referiu-se à cultura literária de SUGGIA e destacou-a com orgulho, como portuense ilustre, que os portuenses devem venerar. Recordou o concerto da noite anterior em que brilhou uma jovem concertista, artista de instinto e de largo futuro, obra cultural de SUGGIA, Mlle.Maria Alice Ferreira.
Largos aplausos coroaram as palavras do sr. dr. Joaquim Costa.
A seguir foi descerrada na sala, por Mlle Maria Alice Ferreira, uma lápide com o nome da eminente artista, acto que foi sublinhado com calorosos aplausos.
O sr. Manuel dos Santos, gerente do Rivoli, que representava o empresário e director daquela casa de espectáculos, sr.M. J. Pires Fernandes, leu o auto da inauguração da lápide.
SUGGIA, emocionada, agradeceu, dizendo não merecer tão expressiva homenagem. A assistência, de pé, novamente lhe manifestou a sua consideração em aplausos carinhosos. E vieram flores. Lindas “corbeilles” ocuparam a ribalta dando uma nota de cor ao recinto.

............
A Orquestra tocou com todo o carácter e ampla sonoridade “El Sombrero de três picos” de Manuel de Falla – peça conhecida do nosso público – que foi muito aplaudida.
A pedido, SUGGIA executou duas composições sempre com apreciável brilho, sendo muito aplaudida. Foi-lhe oferecida uma coroa de flores de lindíssimo efeito.
Uma memorável noite de Arte que deixou inolvidáveis impressões! - M.F.

“O PRIMEIRO DE JANEIRO”, de 6/5/1937

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julho 18, 2004

CALENDÁRIO DE CONCERTOS- 1903

26 Fev. Concerto na Gewandhaus.

9 Mai. Recital para os sócios do Orphéon Portuense, interpretando música de Volkmann, Davidov, Rubinstein, Godard e Klengel acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.

12 Mar. Concerto no Herzogliches Hoftheater de Altenburg, sob a direcção de Hans Sitt, interpretando composições de Mendelssohn-Bartholdy, Rossini, R. Volkmann, Hans Sitt, F. Liszt, Goldmark, Chopin, Popper, R. Strauss e Wagner.

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julho 17, 2004

G. SUGGIA E OS GATOS

SUGGIA COM GATOS ab.jpg

Estes são os filhos de uma gata preta que um dia apareceu no jardim da Rua da Alegria e que G. SUGGIA deu instruções para que fosse bem tratada.


(foto cedida por Isabel Millet)

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julho 16, 2004

A CASA DE MANHUFE, EM MATOSINHOS

A Casa de Munhufe.jpg

Esta é a casa de Manhufe, em Matosinhos, onde viveu a família SUGGIA.
Creio que ainda existe.

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julho 15, 2004

CRÍTICA AO CONCERTO DE 5/5/1937 no TEATRO RIVOLI

A glória de Guilhermina Suggia, firmada há muitos anos, não se avoluma – entre nós, pelo menos – com mais um concerto em que a grande violoncelista se apresente. Para os admiradores de Guilhermina Suggia – e quem, tendo-a ouvido, não a admirará? -, a glória da mestra do violoncelo é como um dogma inalterável: por mais audições que lhes proporcione, não ficam a admirá-la mais, porque mais não podem já admirá-la!

Guilhermina Suggia, a quem não é exagerado qualificar de genial, porque só o verdadeiro génio é susceptível de realizar prodígios como os que ela realiza com o violoncelo, tem para nós, de todas as vezes – e são tão poucas... – que a ouvimos, algo de novo e de surpreendente. Riquíssima de qualidades artísticas, de qualidades que se fundem, quando toca, no bloco maravilhoso que subjuga todas as atenções. A Artista apresenta-nos, por assim dizer, facetas desconhecidas, à medida que a ouvimos e lhe analisamos – se o encantamento consente qualquer espécie de análise ...- a excepcional personalidade. É assim, de audição para audição, Guilhermina Suggia oferece-nos novos motivos de assombro que, se não lhe aumentam a glória, tornam a sua grande figura artística, por multiforme, um prodígio – diremos assim, convencidos de exprimir noção verdadeira – em constante renovação de si mesma.

Ontem, ao terminar, sob aplausos frenéticos, o concerto, essa impressão radicara-se-nos no espírito. Guilhermina Suggia, soube ser a instrumentista máxima da sua especialidade, afigura-se-nos, sempre diferente – gigantescamente diferente -, da Guilhermina Suggia que, no concerto anterior, havíamos observado.

Desde que há anos, num sarau de arte efectuado no sumptuoso Salão Árabe do Palácio da Associação Comercial do Porto, a eminente concertista se apresentou aos “dilettanti” portuenses, não voltámos a deliciar-nos com a arte duma das mais notáveis concertistas do mundo, na actualidade. Os musicófilos lisbonenses ouviram-na, há poucos meses, em dois concertos que ficaram memoráveis na vida musical de Lisboa. Por seu turno os “dilettanti” da grande capital britânica, mais felizes do que os portugueses, têm tido o ensejo de aplaudir a artista gloriosa, várias vezes, nos últimos anos. Eis porque repetimos: Guilhermina Suggia que é nossa e vive no Porto, sua terra natal, não pode nem deve estar tanto tempo sem que os portuenses, seus conterrâneos, a oiçam. Porque há-de um tesoiro de tal valia permanecer oculto durante anos?

Os concertos de anteontem e ontem provaram, uma vez mais, que o Porto, quando lhe proporcionam arte autêntica, não se escusa, não se retrai e aflui aos concertos, em massa, antegozando o prazer de poder aplaudir, aplaudir com entusiasmo e sem reservas, como aplaudiu, nestas duas últimas noites, no recinto da nossa mais vasta casa de espectáculos. É preciso que Guilhermina Suggia apareça em público mais vezes. Cada audição dessa artista incomparável é sempre um banho lustral para quem ama e admira a música.
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Passava das 22 horas – como anteontem – quando Pedro de Freitas Branco subiu ao estrado da regência, acolhido por palmas estrepitosas. E quando Guilhermina Suggia entrou no palco, vestida de preto, com simplicidade e elegância, os aplausos cresceram em intensidade. Todo o público prestava, assim, a sua primeira homenagem dessa noite à concertista que, principalmente o levara ali.
Como na véspera, notaram-se no teatro todas as figuras de destaque nos meios social, cultural, artístico do Porto. O aspecto do recinto impressionava, pela imponência. Era um grande mar de cabeças, distribuído por todos os sectores do teatro. Muitos vestidos de noite, lindíssimos alguns, muitas casacas, muitos smokings também. Um grande interesse, um interesse apaixonado a transparecer de todas as fisionomias. Ambiente de sensação, a sensação justificada por um concerto de Guilhermina Suggia.
Numa frisa, a triunfadora da véspera, Maria Alice Ferreira, com a família, frechada pelos olhares admirativos dos que a haviam ouvido já. Noutra frisa, com o marido da Artista, Sr. Dr. Carteado Mena, mestre Teixeira Lopes, miss Muriel Tait, a pianista D. Ernestina da Silva Monteiro. E não acabaríamos de citar nomes representativos se pudéssemos dar-nos a esse trabalho impossível...

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Adágio, de Tartini, abriu a primeira parte. Obra brilhante, de acentuado cunho clássico, Guilhermina Suggia cuja arcada larga e brilhante tinha o ensejo de se evidenciar, desde logo, executou, magistralmente a bela peça de abertura. Os aplausos com que a premiaram foram, como é óbvio, abundantes e vibrantes. O triunfo começava – no princípio da audição.
Emoldurando a concertista, o conjunto instrumental, comandado, impecavelmente, por Pedro de Freitas Branco, fez sobressair, mais ainda, a página de Tartini.
Depois, a suite ancienne, de Sammartini, primorosamente arranjada para orquestra. Três andamentos – Allegro, Grave, vivace – de nobre classicismo. Motivo de êxito seguro para a execução e a interpretação de Guilhermina Suggia, muito à vontade dentro da bela peça do compositor milanês. Os mesmos aplausos fortíssimos.

Um pequeno intervalo. E logo a concertista reaparece para tocar o Concerto de Dvorak, três movimentos apojados de boa música, de música da melhor. A obra do grande compositor, orgulho legítimo da “Tcheca-Eslováquia” de hoje, encontrou em Guilhermina Suggia uma intérprete admirável, capaz de valorizar, pela riqueza de expressão com que apresenta a riqueza de motivos das páginas, o pensamento musical do mestre.
Findara a primeira parte. O público subjugado pelo génio da concertista, não cessava de bater palmas. Na verdade, a concertista mereceu-as bem. Elas não representavam mais do que um prémio justíssimo.
Que dizer de Guilhermina Suggia que não esteja dito já? Para quê insistir na sua fogosidade apaixonada, marca inconfundível do seu talento de raça? Para quê salientar, se não constitui revelação para ninguém, a sua virtuosidade sublime, que lhe dá azo a fazer do seu violoncelo, ora um leão que “ruge” ora um rouxinol que “gorjeia”, já uma garganta que soluça e geme e estertora, já uma boca fresca e sadia que exorta e gargalha e canta? O violoncelo de Guilhermina Suggia, já de si maravilhoso, tangido pelas mãos milagreiras da Artista, chega a afigurar-se-nos um instrumento mágico. Será preciso dizer mais, exaltar o modo por que ela fraseia, diz, exprime a música que interpreta e executa? A sonoridade magnífica que produz, a vida que comunica a tudo o que toca, o próprio comentário histriónico que lhe é peculiar e acompanha a execução de qualquer peça, exteriorização natural duma pujante e vibrante sensibilidade – tudo modalidades da sua arte magistral, da sua arte de eleita.

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Eis porque foi justíssima a homenagem que, durante o intervalo da primeira para a segunda parte, lhe prestaram os seus admiradores, representados, no palco, por artistas, escritores, jornalistas, pessoas de categoria no meio oficial, na sociedade, na vida superior do Porto.
Nesse acto de consagração, a que se associou, vibrantemente, entusiasticamente o auditório em peso e a que, pela hora tardia a que teve fim o concerto – 1 hora e 5 minutos da madrugada de hoje – só amanhã consagraremos a referência merecida, o sr. dr. Joaquim Costa proferiu um breve e brilhante discurso de saudação e a menina Maria Alice Ferreira, a convite daquele ilustre homem de letras, descerrou uma lápide, na plateia, de homenagem a Guilhermina Suggia, a sua grande mestra. Uma verdadeira e impressionante apoteose à Artista e à sua arte.

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Na segunda parte, Guilhermina Suggia fez-se ouvir, de entrada, a solo, na lindíssima suite, em dó, de Bach, o clássico egrégio, viveu, assombrosamente, sob a arcada da concertista eminente. O Prelude, a Allemande, a Courante, a Sarabande, a Bourrée e a Gigue, as seis partes da obra magistral, agradaram, em absoluto ao auditório, que aplaudiu, com o vigor de sempre, com o entusiasmo de sempre.

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A Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, sob a regência empolgante de Pedro de Freitas Branco, salientou-se, depois na conhecida e admirada obra de Manuel de Falla “El Sombrero de tres picos”, uma das suas coroas de glória. O eminente artiste, valor dos maiores, também, da música portuguesa, foi aplaudido, com frenesi. E as palmas do público envolveram, merecidamente, o seu admirável conjunto instrumental. Regina Cascais esteve ao piano durante a execução da obra já famosa.

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Por fim, Guilhermina Suggia, acompanhada pela orquestra tocou “Pièce en forma de Habanera”, de Ravel, “Sérénade espagnole” de Glazunov, e “Humoresque” de Sinigaglia, três peças de estilo para uma instrumentista como ela obrar prodígios. E o público aplaudiu em delírio, no final.
Correspondendo aos aplausos, Guilhermina Suggia fez-se ouvir, ainda, num delicioso “Andante” de Haydn e no caprichoso “Rondó” de Boccherini, peça para acrobacia de mãos.
É óbvio acrescentar que a grande violoncelista tocou, estupendamente, como as anteriores, estas duas peças fora do programa.
O concerto – acentuamo-lo para rematar – rematou com uma apoteose. Todo o público de pé, aplaudiu, longamente, carinhosamente, Guilhermina Suggia. É impossível que, seja onde for, o público manifeste maior entusiasmo.
Ontem foi o máximo – eis tudo!

“O COMÉRCIO DO PORTO 6/5/1937)


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julho 14, 2004

OUTRA CARTA DE E. HUDSON A VIANNA DA MOTTA

5573 Victoria
15, Queen Anne’s Gate
S.W. (1)


26 de Janeiro de 1925


Caro Senhor Vianna da Motta,

Estou a escrever-lhe a pedido de Madame Suggia que me disse para lhe transmitir que devido ao seu estado de saúde, aos seus muitos concertos e à mudança de casa se encontra incapaz para o fazer. Ela e a sua mãe estão aqui comigo. Madame Suggia escrever-lhe-á acerca dos vossos concertos, o mais breve possível.

Madame Suggia está esperançada que vai conseguir que Mr. George Reeves a acompanhe nos concertos do Porto. No que respeita às datas de 18 e 19 de Março estão praticamente bem para ela.

Madame Suggia agradece-lhe muito o livro de Teixeira Gomes, o qual ela levará para Lisboa em Março.

Com os meus respeitosos cumprimentos

Vosso

Edward Hudson

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julho 13, 2004

CARTA DE E. HUDSON A VIANNA DA MOTTA

18 de Janeiro (1925?)

5573 Victoria
15, Queen Anne’s Gate
S.W. (1)

Caro Senhor Vianna da Motta,

Os meus agradecimentos pela sua carta com várias questões, que hoje mesmo mostrei a Madame Suggia.

É com satisfação que lhe digo que ela manifestou ligeiras melhoras, apesar de eu entender que a sua convalescença ir-se-á prolongar por muito tempo - o grande número de concertos, a sua doença e a mudança de casa no meio de tudo isto foi demais para ela, e, claro ultrapassou o limite.

Infelizmente, ela terá que de certo os seus concertos em Inglaterra em Março, por conseguinte será com muitas dúvidas que se pode dizer que estará capaz de cumprir toda a programação feita para ela em Portugal.

Eu digo com muitas dúvidas, mas como ela vai estar brevemente no Porto, as coisas resolver-se-ão quando ela chegar, certamente.

Com respeitosos cumprimentos

Vosso

EDWARD HUDSON

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julho 12, 2004

ANÚNCIO DE NOIVADO DE G.SUGGIA e E. HUDSON

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Notícia saída num jornal inglês anunciando o noivado de GUILHERMINA SUGGIA e EDWARD HUDSON, o senhor do Castelo de Lindisfarne e do Stradivarius.

(cedência de Isabel Millet)

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julho 11, 2004

CALENDÁRIO DE CONCERTOS- 1901

7Jan. Concerto no Orphéon Portuense, executando o Concerto Op. 33 de Saint-Saëns acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.

25Jan. Repetição do Concerto de Saint-Saëns e participação num trio para a execução de música de Beethoven, no Orphéon Portuense.

23 Fev. Última colaboração nos concertos do Orphéon Portuense, participando na execução de um Trio de Tchaikowsky.
25 Mar. Concerto no Conservatório Nacional de Lisboa integrada no Quarteto Moreira de Sá.
? Mar. Recital no Palácio das Necessidades, Lisboa.
24 Ago. Sessão musical na casa Lambertini em Lisboa, em que executa obras de Tchaikowski, Beethoven, Marx-Markus, Arthur Napoléon e Popper.

20 Out. Concerto no salão do Teatro de S. João, no Porto, integrada no Quarteto Moreira de Sá.

27 Out. Segundo Concerto no salão do Teatro de S. João, no Porto, com o mesmo Quarteto.

3 Nov. Terceiro Concerto da mesma série, no qual foram executados os dois últimos Quartetos de Beethoven.

4 Nov. Concerto de despedida na sede do Orphéon Portuense antes da partida para Leipzig. Colabora pela 50a e última vez com Moreira de Sá em conjuntos de Câmara.


Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em 01:12 AM | Comentários (0)

julho 10, 2004

G. SUGGIA- A PESCADORA DE LINDISFARNE

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Quem diria que esta "pescadora" é Guilhermina Suggia no Castelo de Lindisfarne !?

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julho 09, 2004

CASTELO DE LINDISFARNE

CASTELO DE LINDISFARNE a.jpg

Este é o Castelo de Lindisfarne, que Mr Edward Hudson - seu noivo inglês - ofereceu a Guilhermina Suggia, tal como o violoncelo Stradivarius, como prova do seu muito amor e admiração.
Quando rompeu o noivado para vir casar com o Dr Carteado Mena, G.Suggia devolveu o Castelo.
Quando morreu, Mr E. Hudson deixou em testamento 250 libras a G. Suggia pelo grande prazer que em vida lhe havia dado, ouvindo-a tocar.

(foto cedida por Isabel Millet)

Publicado por vm em 10:31 PM | Comentários (1)

DEPOIMENTO DA 1ª GALARDOADA COM O PRÉMIO SUGGIA DO CONSERVATÓRIO DO PORTO-1953

Em Junho de 1953, quando estava prestes a terminar o curso de violoncelo no Conservatório de Música do Porto, fui convidada a concorrer ao prémio “Guilhermina Suggia”. Fiquei surpreendida pois era a primeira vez, depois da sua instituição, que esse concurso se realizava.

Eu tinha uma grande admiração por aquela tão grande violoncelista e francamente achava-me um pouco imatura. No entanto tudo correu bem e o prémio foi-me atribuído por unanimidade.

Maria José Ribas Gonçalves de Azevedo Santos

1 de Maio de 2004

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julho 08, 2004

CALENDÁRIO DE CONCERTOS - 1900

12Jan. Concerto no Orphéon Portuense, colaborando na interpretação do Andante e Allegro do 2° Trio de Saint-Saëns.

29Jan. Concerto no Orphéon Portuense, colaborando na 1a sessão dedicada à música de Câmara de Beethoven (à excepção das sonatas para piano).

5 Fev. Segunda colaboração nas sessões para a exposição da música de Câmara de Beethoven.

12 Fev. Terceira colaboração nas sessões acima referenciadas.

19 Fev. Quarta colaboração nas sessões acima referenciadas.

12 Mar. Quinta colaboração nas sessões acima referenciadas.

20 Mar. Sexta colaboração nas sessões acima referenciadas.

26 Mar. Sétima e última colaboração nas sessões acima referenciadas.

28Abr. Concerto no Orphéon Portucalense, participando na execução de trios de Brahms e Saint-Saëns.

2 Mai. Concerto no Orphéon Portuense, participando na execução de composições de Luís Costa, Miguéz e Reinecke, por uma orquestra de câmara.

10 Mai. Concerto no Orphéon Portuense, participando na execução de trios de Volkmann e Dvorak.

25 Mai. Concerto no Orphéon Portuense, participando na execução do Quarteto, Op. l de Rahl e de trios de Th. Kirchner e Saint-Saëns.

14 Nov. Nova execução do Quarteto de Rahl no Orphéon Portuense.

19 Nov. Concerto no Orphéon Portuense, participando na execução do Trio de Volkmann.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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julho 07, 2004

G. SUGGIA, A.SUGGIA, V. da MOTTA

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Aqui se vê GUILHERMINA SUGGIA de braço dado com seu pai, AUGUSTO SUGGIA e tendo ao seu lado direito VIANNA DA MOTTA. Gostaria muito de saber quem são as outras pessoas. Se alguém souber aqui ficam desde já os agradecimentos

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julho 06, 2004

NOTA, SEM DATA, ESCRITA A VIANNA DA MOTTA

HOTEL de L’EUROPE
Installation Moderne
(appartements avec salle de bain)
Praça Luís de Camões, 6
Lisboa
Telephone C.5363
9,35 h

My dear mouse,

Acordei às 8h para me levantar e tocar consigo mas não sei como, adormeci outra vez e só agora é que almoço.
Desculpe sim, eu ter faltado à minha palavra d’ ingleza.
D’aqui a 20 minutos sou sua

Pussycat

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julho 05, 2004

VIOLONCELO "LOCKEY HILL"

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Violoncelo fabricado em Londres, em finais de séc XVIII, princípios de séc XIX, deixado por testamento ao Conservatório de Música de Lisboa, em homenagem a seu pai que aí foi professor.

Encontra-se no Museu da Música

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julho 04, 2004

CALENDÁRIO DE CONCERTOS - 1898

1898


7Jan. Concerto no Orphéon Portuense, participando com música de Tchaikowsky - Variações sobre um tema Rococó para violoncelo - acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.

17Jan. Concerto no Orphéon Portuense, executando música de Mozart integrada num quarteto de arcos. Interpreta música de Tchaikowsky, acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.

28Jan. Concerto no Orphéon Portuense, participando num quarteto que toca composições de Mendelssohn, Haydn e Mozart.

18 Fev. Concerto no Orphéon Portuense, participando na execução do Septimínio, Op. 20 de Beethoven.

12 Mar. Colabora no 1° Concerto Histórico da Música de Violino realizado no Orphéon Portuense, interpretando a Sonata a tre de Tartini.

18 Mar. Colabora no 2° Concerto Histórico da Música de Violino, em que foram executadas composições de Mozart, Brahms, Mendelssohn e Tchaikowsky.

25 Abr. Concerto no Orphéon Portuense, interpretando a Polonaise para violoncelo e piano de Chopin acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.

3 Mai. Concerto no Orphéon Portuense, interpretando música de Raff (Concerto para violoncelo) acompanhada pela sua irmã Virgínia.

24 Ago. Concerto no Clube da Foz, executando Caprice Hongrois de Dunkler, e Souvenir d'Italie de C. Casella acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.

12 Set. Concerto no Clube de Leça, interpretando música de Oscar da Silva.


do livro "GUILHERMINA SUGGIA - A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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julho 03, 2004

CASA QUE GUILHERMINA SUGGIA COMPROU PARA OS PAIS

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A porta do lado direito deste prédio de azulejos, o nº 894 da Rua da Alegria é a entrada para a casa que GUILHERMINA SUGGIA comprou para os pais, em 1924.

Porto 19/11/1924
(...)
Hoje ainda gostei mais da casa. Deus permita que fiques contente. Mas parece-me que sim. Mando-te aqui uma fotografia da casa, mas a máquina não a apanhou toda. As janelas rentes da rua, em baixo são muito grandes, e falta ahi a plati... e as águas furtadas, que são muito boas, etc... etc... ao todo 4 pavimentos.
É preciso cuidar no seguro da casa. Isto é importante, porque a casa pegada a esta, está ainda em construção e pode haver qualquer descuido, e era um desastre. Eu escrevi-te carta no dia 17. Espero ancioso as tuas respostas. Não posso escrever mais.
Deus te proteja e à nossa mãe, e que Deus te pague o que fazes aos taes velhinhos.
Saudades e beijos do teu pae velhinho

Augusto Suggia

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julho 02, 2004

VARIAÇÔES SOBRE UM RETRATO- Inês Lourenço

Guilhermina Suggia
(variações sobre um retrato)

1.

No escarlate do vestido
entre os joelhos avulta
o versátil companheiro
que em voz grave lhe responde
desde esse Porto marítimo
da infância, muito antes
da era dos petroleiros e
da boçalidade dos banhistas.

2.

O arco descreve
o intenso itinerário
de Leipzig a Paris,
de Berlim a Varsóvia,
o fascínio dos palcos, o
secretismo dos camarins,
na arritmia do pulso
que o fulgor persegue.

3.

Num crescendo vibrátil
desenha o andamento,
seus motivos ascendentes de
harmónica tensão. E na pausa
final, que um ímpeto antecede
o arco se suspende
augúrio e êxtase.


4.

No atelier londrino
de Mallord Street,
o pintor fixa o instante
de uma metamorfose.
Na tela cresce a silhueta
unida ao Stradivarius,
num corpo mútuo
de exótica mariposa,
olhos cerrados no meridional
abraço. Nem Pablo,
o virtuoso, nem qualquer outro
amante, desatará jamais
esse abraço sem fim.

por Inês Lourenço

Publicado por vm em 12:06 AM | Comentários (2)

julho 01, 2004

VISITAS AO BLOG DURANTE JUNHO

O Blog, durante o mês de Junho teve 6447 visitas, o que dá uma média diária de 210

Publicado por vm em 10:42 AM | Comentários (0)

CALENDÁRIO DE CONCERTOS

1899
3O Jan. Concerto no Orphéon Portuense, com peças para violoncelo e piano de Popper e César Casella.

15 Abr. Concerto no Orphéon Portuense, participando num trio que interpreta o Trio em Dó menor de Mendelssohn.

29 Mai. Concerto no Orphéon Portuense, colaborando na execução de música de câmara de Beethoven, Markus e Schubert.

7 Dez. Concerto no Orphéon Portuense, participando num quarteto que executa música de Saint-Saëns.

14 Dez. Concerto no Orphéon Portuense, participando na execução do Trio, Op. 97 de Beethoven. Exposição da música de Câmara de Beethoven.

12 Fev. Terceira colaboração nas sessões acima referenciadas.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:00 AM | Comentários (0)