junho 30, 2004

POSTAL ENVIADO A V. DA MOTTA

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(espólio de Vianna da Motta- Museu da Música)

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junho 29, 2004

PRÉMIO GUILHERMINA SUGGIA do CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DO PORTO-1ª GALARDOADA

MARIA JOSÉ RIBAS GONÇALVES DE AZEVEDO SANTOS

Frequentou o Conservatório de Música do Porto, na classe de violoncelo da Profª Madalena Sá e Costa, de 1944 a 1953, ano em que obteve o “Prémio Guilhermina Suggia do Conservatório de Música do Porto” em prova pública e perante um júri constituído por: Profª Maria Adelaide de Freitas Gonçalves (presidente do júri), maestro Frederico de Freitas, Prof Fernando Correia de Oliveira (presidente da Juventude Musical), Prof Henri Mouton, do Conservatório de Música do Porto e Profª Madalena Sá e Costa.

Estava presente, convidado de honra o grande violoncelista espanhol Gaspar Cassadó, que no final da prova dirigiu palavras de muito apreço à jovem violoncelista premiada. A prova constou das seguintes obras: Saint –Säens (Concerto em la menor), Bach (Suite em dó Maior) e Fauré (Elegia).

O prémio foi entregue à noite no Salão Árabe do Palácio da Bolsa pelo presidente da Câmara Municipal Engº José Albino Machado Vaz, durante o concerto de homenagem a Guilhermina Suggia em que tocou com a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Músico do Porto o célebre violoncelista Gaspar Cassadó.

“Prémios GUILHERMINA SUGGIA do Conservatório de Música do Porto” de Profª Madalena Sá e Costa

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junho 28, 2004

CARTA SEM DATA DE FILHA DE V. DA MOTTA A G. SUGGIA

Minha querida tia Guilhermina,

Muito lhe agradeço os lindos retratos que me mandou. Também o nosso paizinho gostou tanto deles que no-los palmou, dizendo que são para a sua colecção porque lhe lembram a sua irmãzinha quando toca Bach.

Espero vê-la e ouvi-la aqui em Março já que não tive a sorte de minha irmã que poude assistir este ano aos seus ensaios.

Peço-lhe que aceite um abraço muito “tight” da sua sobrinha muito agradecida que também muito gosta de gatinhos.

Inês

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junho 27, 2004

NASCEU Há 119 ANOS

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Há 119 anos, no dia 27 de Junho de 1885, numa casa que já não existe, na Rua Ferreira Borges, na freguesia de S. Nicolau, no Porto, filha de Augusto Jorge de Medin Suggia e de Eliza Augusta Xavier de Medin Suggia, nasceu GUILHERMINA SUGGIA, que viria a ser uma das mais importantes figuras da música do seu tempo.

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junho 26, 2004

CALENDÁRIO DE CONCERTOS

1892
Primeira apresentação em público na Assembleia de Matosinhos, acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.


1895
14 Ago. Concerto no Clube da Foz, tocando Au Bord de Ia Mer - Rêverie de Offenbach e Gavotte de David Popper.

12 Out. Concerto infantil no Grémio de Matosinhos. Guilhermina Suggia interpreta Air de ballet du XVIIeme siècle de Offenbach, acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.


1896
22 Mai. Sarau no Teatro Gil Vicente. Interpreta L' Étoile du Nord, de Lee, acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia, e Andante com Variações (Hino austríaco) de Haydn, integrada num quarteto de cordas.

22 Set. Concerto no Clube de Leça. Interpreta Valsa Brilhante de Lee e Arlequin et Papillon de Popper, acompanhada ao piano pela sua irmã Virgínia.


1897
12 Fev. Concerto no Orphéon Portuense.

13 Mar. Concerto no Orphéon Portuense, interpretando o 1° tempo da 1a Sonata de Beethoven.

27 Mar. Concerto no Orphéon Portuense, integrada num quarteto que interpreta música de Haydn (7ºQuarteto) e num trio que executa música de Dvorak.

O5ABR. Concerto no Orphéon Portuense, integrada num quarteto com piano que interpreta música de Beethoven e Max Bruch

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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junho 25, 2004

SUGGIA À JANELA DA SUA CASA, NA RUA DA ALEGRIA,665

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GUILHERMINA SUGGIA com um dos seus cães à janela da sua casa, na Rua da Alegria,665, no Porto.

Nela deveria ser instalada a Casa-Museu Guilhermina Suggia. Está à venda por cerca de 450.000 Euros. A Casa onde Suggia, uma das personalidades mais importantes do seu tempo, viveu os últimos 23 anos da sua vida, está tão cheia de memória que todos nós devemos sentir orgulho e exigir a sua recuperação.

Não tem sequer uma placa que diga que nela viveu e morreu Guilhermina Suggia.

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junho 24, 2004

CARTA DE VIANNA DA MOTTA A LUIS COSTA

Lisboa, 28 de Dez 1924

Meu querido amigo,
Tive a agradabilíssima surpresa da visita de Mad. Suggia que eu estava tão longe de supor em Portugal e muito estimei ter por seu intermédio algumas notícias suas.

Combinámos programas e disse-me ela que algumas pessoas aí lhe aconselharam a que não tocássemos mais de uma sonata em cada concerto. Ficariam, portanto, as 7 Sonatas que o meu amigo num belo e grandioso como artístico programa tinha pensado, reduzidas a duas.

Ora como muito bem se lembra a sua primeira ideia foi a de me contratar para dois recitais, e só quando soube que eu tinha tenção de tocar as 5 Sonatas de Beethoven com a Suggia é que propôs fazermos essa sessão no Orpheon que era efectivamente a sociedade indicada para tal demonstração de elevada arte e não um público vulgar. Mas desde que ela declara não as poder tocar acho que não há razão para eu tomar parte nos seus concertos, impedindo o público de a ouvir em maior número de peças, como se vê claramente pelo pedido que lhe fizeram de não tocar mais de uma Sonata comigo em cada concerto, nem para eu sacrificar os dois recitais que o meu amigo desejava que eu aí desse. Por isso sou da opinião que será melhor ela dar os seus concertos em Março com a minha colaboração e eu dar os dois recitais como era a sua primeira ideia. A dificuldade de acompanhamento também desta maneira se resolve muito bem, pois não entrando eu como solista nos seus concertos pode o meu amigo encarregar-se dos acompanhamentos e tocar uma Sonata com ela como ela me disse que desejava. E assim todos ficariam satisfeitos. Está claro que nestas circunstâncias eu não modifico o meu cachet para os recitais, aceitando o mesmo que estava estipulado para os recitais com a Suggia.

A respeito das datas muito me convinha que os meus recitais pudessem realizar-se a seguir à sessão de homenagem a seu sogro e para a qual me fizeram a honra de me convidar, a fim de eu não ter que fazer a viagem duas vezes, o que me transtorna bastante os meus trabalhos aqui. E quanto aos concertos de Suggia, como ela manifestou desejo que os concertos no Porto fossem depois de Viseu, peço que me diga se os seus concertos aí poderão ser a 18 e 20 de Março para eu pedir em Viseu que o concerto dela comigo ali, seja a 16.
Não escrevo à Suggia directamente porque não sei aonde ela se encontra aí, por isso lhe peço que lhe comunique esta carta com os meus afectuosos cumprimentos e que espero receber os seus programas para os seus concertos aqui.
Muitas lembranças a sua mulher e para si um grande abraço com o desejo que o novo ano lhe seja mais propício do que o foi o que vai findar que tão duro golpe lhe feriu.
Sempre amigo dedº e obrigº

J. Vianna da Motta


(espóçio de V. da Motta- Museu da Música)

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junho 23, 2004

CARTA A VIANNA DA MOTTA

15, Queen Anne’s Gate
S.W.1

5573 Victoria

Sabbado, 29-11-24

Dearest Jay,
Tinha tenção de lhe escrever ainda para Vigo, de Mansfield, mas não houve meio. Dois concertos no mesmo dia, dias seguidos e com viagens e debaixo dum tempo muito feio, escuro, húmido e frio.

Ao Chegar a Londres recebi a sua carta de (?)e creia que sinto muito todos os contratempos que tem tido. É horroroso, essas viagens matam o artista e destroem todo o prazer que se pode ter depois mesmo de um concerto magnífico que não duvido foram os seus em Vigo.
Também recebi carta de minha irmã dizendo-me que tanto ela como o seu marido ficaram encantados com a sua visita e que o tinham achado muito simpático.
Já deve ter recebido a minha carta na qual lhe dizia que certamente não fez mal algum em fallar de meus projectos para o futuro. Por enquanto ainda está tudo na mesma excepto que sempre me decidi a comprar a casa para meus pais, o que os alegra muito.

Desde que Jay partiu que tenho recebido vários “engagements” que me destroem as minhas “vaccances”. O mais engraçado é que não hesitam a aceitar seja o que for que eu peça como condições. Imagine que terei que voltar a Inglaterra em fins de Março, antes de ir a Hespanha, e os concertos ahí terão que ser realizados da seguinte forma:

-1º Concerto com orchestra, quarta-feira, 11 de Março
-2º Concerto (1º com piano) 13
-O 3º (com piano) domingo 15
-Porto-1º Concerto 17
-2º Ctº 19
-Viseu dia 20
Partida para Londres dia 21, chegada a Paris 22 e a Londres 23. Concerto em Londres 24.

Importantíssimo: já vê que terei justo o tempo de o fazer e creio que seria melhor que o primeiro concerto de todos fosse com orchestra . Também terei que fazer uma modificação no programa, mas isso brevemente lho direi. Envio-lhe esta carta para Lisboa pois creio que já não o apanho em Barcelona. Recebi hontem à noite a sua carta de Vigo.
(...)
Não vale a pena ganhar por um lado para ser roubado por outro!
Espero que encontre a sua família de boa saúde e desculpe-me esta carta escripta à pressa, mas tenho tido muitíssimo que fazer.
Na próxima carta incluhio as críticas.
Hoje o dia aqui é bem preto. Não se vê do outro lado da rua, e é bem aborrecido.
Muito lhe agradeço pelas suas cartinhas.
Muitas lembranças de minha mãe e de sua irmã e admiradora
Gi

(espólio de Vianna da Motta- Museu da Música)

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junho 22, 2004

SOBRE A CAMPA DE SUGGIA NO CEMITÉRIO DE AGRAMONTE

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Esta é a placa referente à mãe de GUILHERMINA SUGGIA. Chamava-se ELIZA XAVIER DE MEDIN SUGGIA.

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junho 21, 2004

SOBRE A CAMPA DE SUGGIA NO CEMITÉRIO DE AGRAMONTE

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Esta é a placa referente ao pai de GUILHERMINA SUGGIA que se encontra sobre a sua campa. Foi o seu 1º professor. Professor nos conservatórios de Lisboa e Porto. Chamava-se AUGUSTO JORGE DE MEDIN SUGGIA.Qualquer pessoa merecia mais respeito!

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junho 20, 2004

CARTA de LEONOR (FILHA DE VIANNA DA MOTTA) A G.SUGGIA

Minha querida tia Guilhermina

Venho agradecer-lhe o lindo retrato que me mandou da nossa nova tia que será para nós uma recordação muito agradável da nossa amiguinha que tão bem toca e tão boazinha é para nós.

Como vê pelo boneco neste papel houve no Bussaco alguém que fotografou a tia quando dançava com o nosso paizinho.
Não acha que o pai ficou muito parecido?

Queira aceitar um beijinho muito affectuoso da sua sobrinha muito amiga e agradecida

Leonor

(Espólio de Vianna da Motta- Museu da Música)

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FOTO DEDICADA A LEONOR (FILHA DE VIANNA DA MOTTA)

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junho 19, 2004

O QUADRO VAI PARA A AMÉRICA

Em 28 de Maio de 1923 uma notícia no Daily Express refere a inauguração da exposição de August John, no dia anterior, na «Alpine Club Galleries».

A exposição era dominada por temas espanhóis, designadamente estudos de ciganos espanhóis. Figuras ilustres como a Infanta Beatriz de Espanha e o Embaixador espanhol retribuíram a homenagem prestada pelo pintor, aparecendo com amigos na inauguração. Diz, no entanto, o autor do artigo que «Mme. Suggia num casaco de peles, apesar do calor e um pequeno chapéu escarlate e dourado, aguentava uma recepção em frente do seu retrato».

Nesse mesmo ano de 1923 o quadro é vendido a William P. Clyde Júnior de Nova York, accionista da «Clyde Steamship Company». Este americano, que na altura se encontrava em Monte Carlo, soube que este quadro de August John seria exposto em Londres. Voou para a Alpine Club Gallery e comprou-o por um preço entre 4.000 e 5.000 libras, fazendo um seguro de 10.000 libras.

Durante muito tempo o nome do comprador permaneceu secreto por desejo do próprio. É que receou que o pai, ao saber o preço do quadro, lhe reduzisse a herança por extravagância. Na América, o quadro é exposto nos museus de Filadélfia, Cleveland, Washington e Michigan. Milhares de pessoas que não a tinham ouvido pessoalmente, puderam admirá-la suspensa nas cores de John.

O facto do quadro sair de Inglaterra não agradou a ninguém. Suggia confessa em Fevereiro de 1925 que «Mr. Clyde veio ter comigo, disse que me reconheceu como Mme. Suggia e que tinha comprado o meu quadro. Acho que não fui muito simpática com ele, dizendo-lhe que não tinha o direito de levar aquela obra de arte para a América».

O quadro acabará por ser recuperado por Sir Joseph Duveen que o oferece à Tate Gallery. August John, no seu livro de memórias "Chiaroscuro", refere-se também a este movimento do seu quadro:

«O meu retrato de Mme. Suggia foi comprado pelo Sr. Clyde, de Nova York, quando foi primeiramente exibido em Londres. O Sr. Clyde enviou-o para Pittsburgh, onde ganhou o primeiro prémio. Mais tarde Duveen comprou-o, tendo vindo a apresentá-lo à Tate Gallery para grande satisfação de Mme. Suggia e de mim próprio. A distinta violoncelista não aprovou a transferência deste quadro para a América, onde, a não ser por reputação, ela era desconhecida; quanto a mim, claro, só queria concordar com a Guilhermina em todas as ocasiões possíveis.»

Quando Sir Joseph Duveen telefonou a um amigo a confirmar que o quadro voltaria para Inglaterra, esse amigo levou a notícia imediatamente a Suggia.
Estamos em Fevereiro de 1925. Estava ela rodeada por admiradores no camarim, no fim de um concerto no Queen's Hall, depois do concerto da Women's Symphony Orchestra e responde com humor:

- “Ah, assim já não preciso de ir à América, se o meu quadro voltar para cá. Tenho tido muitos convites e tenho-os recusado todos, mas já estava a pensar em aceitar, só para ver o meu quadro outra vez.”

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre”


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junho 18, 2004

TESTEMUNHO SOBRE O QUADRO de A. JOHN

Sobre a impossibilidade da pintura revelar o temperamento musical de Suggia, o testemunho seguinte é eloquente.

«Eis aqui um retrato da maravilhosa Suggia - com o seu semblante em constante mudança, a sua testa expressiva, e a sua boca sensível.

Augustus John imortalizou-a pintando-a numa obra-prima, mas mesmo ele seria certamente o primeiro a admitir que a expressão que ele retratou constitui apenas uma entre cem outras igualmente atraentes, e unicamente captadas quando ela toca ou fala. Nestes pequenos traços eu abstive-me propositadamente de exprimir qualquer opinião acerca das proezas de uma intérprete musical. Como tal, para além de constatar que Suggia é uma das grandes violoncelistas desta geração - um facto bem conhecido de todos - não tenho qualquer intenção de divagar sobre a sua mestria musical. Ela é uma criatura fascinante nas recepções - cheia de vivacidade, muito divertida, e sempre pronta a participar numa brincadeira. Encontro nela uma absoluta ausência de ciúmes e uma generosa apreciação dos artistas seus companheiros. Ela constitui uma das poucas mulheres do mundo que pode revelar uma aparência graciosa quando toca violoncelo. Sempre me pareceu como sendo ela parte do instrumento. Estou certo de que a Natureza nunca esperou que ela tocasse qualquer outro. Hollman, um bem conhecido violoncelista do seu tempo, costumava referir-se ao seu instrumento como «Minha esposa»; Suggia poderia certamente chamar ao seu: «A minha melhor metade!»

(in My Portrait Gallery, s/d., s.a.)

do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo


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junho 17, 2004

ESBOÇO PARA QUADRO DE A. JOHN

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EM PONTAS DOS PÉS

Pode ser prontamente compreendido que, com um método de trabalho tão cuidadoso, as poses fossem razoavelmente prolongadas. Em regra, eu posava duas horas, mas perto do fim, quando John se encontrava ansioso para terminar o quadro, eu posava duas horas de manhã e outras duas à tarde. Nessa altura, contudo, havia entre as poses, o conforto de um delicioso almoço com o artista.

John é um brilhante conversador por um lado, e um homem silencioso por outro. O que significa que ele não conversa grande coisa, mas nunca fala sem dizer algo que mereça ser dito. Ele é mordaz na sua conversação, por vezes sarcástico, mas nunca indelicado.

Relativamente aos jovens artistas em especial, o seu discurso é sempre gentil; só o inculto e o hipócrita são susceptíveis de serem cruelmente criticados numa pausa entre as poses.

A minha actuação durante as poses impediu naturalmente muito diálogo, mas o artista apreciava a música e continuava a trautear a melodia depois de eu ter terminado. Por vezes ele começava a andar para cima e para baixo, em simultâneo com a música. Isto recorda-me uma particularidade do John. Quando especialmente satisfeito com o seu trabalho, quando uma determinada técnica de pintura de pestanas ou a aplicação de uma tonalidade lhe corriam bem, ele caminhava sempre nas pontas dos pés.

Assim que eu ouvia a serenidade dos seus passos e o seu andar leve, eu fazia um esforço enorme para manter à justa uma atitude correcta. Num quadro pintado assim, o retrato não só de um músico como também do seu instrumento - mais, do próprio verdadeiro espírito da música - o modelo deve, numa grande extensão, participar na sua criação. O próprio John é suficientemente gentil para lhe chamar o «nosso» quadro.
Isto explica a perfeita felicidade e satisfação que senti ao longo de toda a minha pose, e em todas as vezes que observei o meu retrato, mesmo nas fases iniciais.

John não só permite que os seus modelos vejam o retrato inacabado, como os encoraja a efectuar críticas. Estas, no meu caso, ficaram confinadas a pormenores técnicos relativos à posição do arco e do violoncelo, e assim por diante.
Da primeira vez que observei o quadro, fiquei surpreendida por ver como progredira tão rapidamente. John tem, acima de tudo, a maravilhosa capacidade de criar um esboço em poucos traços. Os dois esboços a carvão que ele fez como um estudo preliminar para o retrato foram descritos como os melhores do seu género desde Rafael.

Passaram alguns anos desde que Augustus John me ouviu tocar pela primeira vez e me perguntou se podia pintar o meu retrato. Quase três anos decorreram enquanto se procedia ao trabalho, mas estou mais encantada com o resultado do que alguma vez pensaria ser possível. Eu sempre me recusei a ser pintada antes, e sinto que não desejo que alguém, a não ser talvez o John, me volte a pintar.

Ele tem, a propósito, um outro retrato meu meio acabado que foi iniciado antes da presente pintura. Nesse a minha cabeça encontra-se voltada no sentido oposto, olhando sobre o ombro esquerdo, e uso uma toga verdadeiramente maravilhosa, de um azul vacilante. John abandonou-o porque não era suficientemente grande - apenas três quartos do tamanho do presente retrato. A tela que ele preparou para o meu retrato possui uma forma original, pois é quase tão larga como longa. Encontra-se particularmente apropriada para o retrato de uma violoncelista e seu instrumento, o que requer uma certa largura.
Algumas pessoas têm-me dito que gostaram mais do quadro antes de me conhecerem, uma vez que pensam que ele não me fez tão bela como elas pensam que eu sou. Como resposta, eu cito o que o próprio John disse à minha mãe enquanto ela olhava para o quadro.
Muito humildemente ele perguntou-lhe se ela estava satisfeita com o quadro. Quando ela replicou que estava extremamente satisfeita, ele respondeu-lhe (em francês): «A sua filha está a ficar cada dia mais bonita, e o que eu lamento é o facto de não ser capaz de a representar tão bonita como ela está agora».

do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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junho 16, 2004

POSANDO PARA AUGUST JOHN

No artigo «Posando para August John» publicado em 8 de Abril de 1923 no Weekly Dispatch e assinado por Suggia fica a saber-se mais detalhes dessa criação conjunta.

Ser-se pintado por August John não constitui uma experiência vulgar. Se o resultado da pose é uma obra-prima, o processo que conduz à sua criação não é menos excitante. O homem é único, assim como o são os seus métodos.

Para iniciar, o seu verdadeiro estúdio é original. Um grande e belíssimamente bem proporcionado quarto em Chelsea, não iluminado a partir do topo, tal como sucede com a maioria dos estúdios, mas a partir de um dos lados, sendo a totalidade desse lado do quarto uma janela. Quando posei para o meu retrato, estava voltada para a janela, o artista, claro, estava de costas para a luz. Esta posição ajuda a explicar o notável efeito da luz intensa sobre o violoncelo, de modo tão pleno que pode ser observado no quadro. Eu podia ter achado fatigante a prolongada contemplação da luz solar - pois John sempre escolheu dias resplandecentes - não fosse a minha pose ter exigido que eu tivesse a cabeça voltada para o lado.

Pintar a Música de Bach

A minha pose explica o segredo da totalidade do retrato. Eu estava a tocar. No decorrer da quase totalidade das poses, eu estava realmente a tocar - não meramente a fingir que tocava, como faria a maioria dos artistas, mas expressando realmente a música de Bach. Toquei principalmente Bach, porque, sendo música clássica, ajustava-se à atitude exigida pelo artista.
Permitir este constante movimento nas suas poses constitui talvez o segredo do génio de John. Tal requer, claro, constantes alterações. O meu braço esticado, por exemplo, naturalmente que variava um pouco em posição, e John pintou cada uma destas variações até aperfeiçoar o resultado final. Tal como com a expressão; as disposições de cada pose, ou antes, cada movimento realçado pela minha música, foram registados pelo artista.
Esta capacidade de pintar e repintar tão rapidamente e facilmente encontra-se talvez melhor demonstrada pelas alterações que o artista efectuou no meu vestido. Ele iniciou o retrato seleccionando um clássico vestido de gala dourado, e um dia, em alguns minutos, alterou-o para branco. Este efeito, embora muito angelical e elegante, não era bem o que ele desejava, e então concebeu o traje vermelho que eu uso no retrato final.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo


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junho 15, 2004

O QUADRO de JOHN SOA

Em 1923 SUGGIA é imortalizada pelo pintor inglês Augustus John (1878-1961)Na tela a óleo, o êxtase da paixão, a graça felina, a presença exótica dela, são dados com toda a mestria.

No quadro não ficam dúvidas de que o violoncelo é parte dela e de que a música, com Suggia, não só se ouve, mas também se vê. John não ficou impressionado com Suggia só pêlos olhos, mas por todos os sentidos e conseguiu pôr no quadro a relação emocional, intelectual, visível, audível... entre o modelo e o pintor. No quadro de Suggia a música e a cor unem-se num resultado único: o vestido vermelho escuro, o castanho avermelhado do violoncelo, as cortinas douradas, verdes nas sombras... sugerem sons.

No Evening Standard de 27 de Março de 1923 descreve-se o longo vestido carmesim, concluindo que «nenhuma violoncelista poderá pôr um vestido qualquer depois de ter visto este pintado». Talvez não possa ver-se e ouvir-se um outro violoncelo sem pensar no de Suggia.
O quadro de John soa.

Do livro “ GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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junho 14, 2004

QUADRO DE AUGUST JOHN, DA TATE GALLERY, Londres

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junho 06, 2004

SUSPENSÃO DE NOVAS ENTRADAS ATÉ DIA 13

Vão estar suspensas as edições de novas entradas neste blog até dia 13/6.

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PRÉMIO GUILHERMINA SUGGIA DO CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DO PORTO

A genial violoncelista Guilhermina Suggia nasceu no Porto em 1885 e faleceu na mesma cidade em 1950. Deixou no seu testamento o seu famoso violoncelo Montagnani para ser vendido e com o seu produto se instituir um prémio anual com o seu nome para o melhor aluno de violoncelo do Conservatório de Música do Porto.

Este valioso prémio foi assim atribuído:

• 1953 a Maria José Ribas Gonçalves de Azevedo
• 1955 a Maria da Conceição Ferreira de Macedo
. 1963 a Isabel Delerue
. 1979 a Paulo Gaio Lima
• 1979 a Gisela Neves (menção honrosa)
• 1986 a José Augusto Peneira de Sousa.

Interessa salientar a maneira como foram premiados.

Maria José Ribas Gonçalves de Azevedo tocou o Concerto de Saint-Saëns, Suite em dó de Bach e Elegia de Fauré em prova, na presença do júri e do grande violoncelista espanhol Gaspar Casadó, convidado de honra, que no final dirigiu palavras de muito apreço à jovem premiada. O prémio foi-lhe entregue pelo presidente da Câmara Municipal do Porto, Eng.° José Albino Machado Vaz, no salão do Palácio da Bolsa, durante o concerto de homenagem a Guilhermina Suggia em que tocou o violoncelista espanhol Gaspar Cassadó com a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto.

Maria da Conceição Ferreira de Macedo tocou em prova uma Suite de Bach, uma peça e com a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, dirigida pelo Maestro italiano Ino Savini o Concerto de Elgar no Teatro S. João.

Isabel Delerue tocou na prova uma Suite de Bach, uma peça e com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo Maestro Silva Pereira, as Variações Sinfónicas de Böelmann, no Teatro Nun’ Álvares.

Paulo Gaio Lima tocou em prova uma Suite de Bach, uma peça e com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo Prof. Costa Santos, o Concerto em si bemol de Boccherini, no Salão Nobre da Câmara Municipal do Porto.

Gisela Neves, menção honrosa, tocou em prova uma Suite de Bach, o Kol Nidrei de Max Bruch e o Concerto de Elgar. Com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida peto Prof. Costa Santos tocou o Kol Nidrei de Max Bruch no Salão Nobre da Câmara Municipal do Porto.

José Augusto Pereira de Sousa tocou em prova uma Suite de Bach, uma peça e o Concerto de Lalo com a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida pelo Prof. Costa Santos no Teatro Carlos Alberto.

Estes seis premiados, cinco dos quais meus discípulos, e o ultimo discípulo da Profª Isabel Delerue, deram provas valiosas de talento e de sério trabalho ao longo dos anos em que frequentaram o Conservatório de Música do Porto.

Honraram com verdadeiro espírito profissional o Prémio Guilhermina Suggia do Conservatório de Música do Porto e cumpriram as suas carinhosas palavras deixadas em testamento.
Trabalharam com elevado ideal. Porto Janeiro, 2004

MADALENA SÁ E COSTA (Violoncelista/Professora)

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junho 05, 2004

SOBRE GUILHERMINA SUGGIA

João de Freitas Branco concede esta confidência no seu discurso proferido no Porto em 12 de Julho de 1989:

«Passou-se isto numa época em que eu fui uma espécie de seu assistente para os concertos da Emissora Nacional. Tinha ido buscá-la( a GUILHERMINA SUGGIA) ao hotel para a levar ao concerto em que ia tocar e, durante o caminho, reparei que ela se mostrava um tanto deprimida. (Ao contrário do que era costume, pois ela era sempre muito exuberante.) A certa altura, disse-me: «Sabe, hoje vou tocar muito preocupada, porque quando saí do Porto a minha cadelinha adoeceu... Não sei como é que hoje vou poder tocar bem».


No final dos anos 40, o encontro de Suggia com Maria Adelaide de Freitas Gonçalves tem consequências para a vida cultural portuense.
Formaram um duo piano-violoncelo, tendo sido com Adelaide Gonçalves que Suggia tocou pela última vez em público, na delegação do Círculo de Cultura Musical de Aveiro. Maria Adelaide Gonçalves, que era directora do Conservatório de Música do Porto, lançou também as bases preparatórias da orquestra, com elementos dessa escola de música, seleccionando, por exemplo, alunos finalistas. Guilhermina Suggia superintendeu com mestria e eficácia o naipe dos violoncelos, na sua maioria constituído por alunos seus! Dizia-se que era o naipe mais seguro da orquestra. Karl Achatz, de nacionalidade sueca, devotou-se à preparação de um conjunto musical de 72 elementos. Enraizada no Conservatório, a Orquestra foi chamada «Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto». Foram, no entanto, convidados a integrar a Orquestra outros elementos, alguns deles estrangeiros residentes no Porto.
A inteligência e empenhamento de Adelaide Gonçalves para concretizar esse desejo artístico e cultural do Porto, de ter uma orquestra sinfónica, atraiu algum apoio de entidades oficiais e patrocínios particulares.
O concerto para apresentação oficial, em primeira audição, da Orquestra Sinfónica do Conservatório do Porto dá-se na noite de 21 de Junho de 1948, no Rivoli, no Porto. A estreia foi um acontecimento sensacional. A solista foi Guilhermina Suggia que executou obras de Weber, Beethoven, Saint-Saëns, Max Bruch e Liszt. A assistência, que enchia completamente a vasta casa, aplaudiu entusiasmada. O ministro da Educação Nacional, em representação do presidente da República, no final do concerto elogiou a iniciativa e a convicção, depois de cumprimentar elogiosamente Suggia, a Orquestra e o seu maestro Karl Achatz.


Em 1949, Guilhermina Suggia já com sinais visíveis de doença, tem a corajosa iniciativa de criar o Trio do Porto, constituído por ela, pelo violinista Henri Moton (professor do Conservatório e concertino da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto) e pelo violetista François Broos.
A estreia foi no sábado, 21 de Maio de 1949, no salão nobre da Faculdade de Medicina. O concerto foi organizado pelo Centro Universitário do Porto da Mocidade Portuguesa. O programa foi consagrado a Beethoven: trio n° 5 em dó menor op. 9 n° 3; o trio nº 3 em sol maior op. 9 n° l e o trio n° 2 em ré maior op. 8 (conhecido por l.a serenata). O êxito foi total e os aplausos calorosos.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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junho 03, 2004

PROGRAMAS DOS CONCERTOS DE LISBOA E VISEU

15, Queen Anne’s Gate
S.W.(1)
5573 Victoria


Dearest Jay,

1º Concerto:

1ª Ária - Bach
Adágio e Allegro - Boccherini
Allegro Spiritoso - Senaillié
............
Sonata en La - Beethoven
.............
Rondo - Dvorak
Waldesruhe - Dvorak
Larghetto - Schumann
Vito - Vianna da Motta

...........

2º Concerto

Sonata de - Porpora
Suite em Sol - de Bach
...........
Sonata em mi de Brahms
........
Après un Rêve - Fauré
Papillon - Fauré
Danses Espagnoles - Popper
………

Desculpe-me sim, o ter tardado tanto a enviar-lhe estes programas para Lisboa. Para o Orpheon do Porto já os tem Luís Costa. Enquanto ao acompanhador para Lisboa desejava fazer-lhe um pedido. Seria possível que a Sociedade do São Luiz contratasse o George Reeves, pois não terei muito tempo para ensaiar e será muito fatigante para mim depois duma longa viagem. O que eu propunha é o seguinte: se a Sociedade pagasse as despesas de viagem a George Reeves, seja: 25 Libras ida e volta de Londres a Lisboa, eu me ocuparia do resto, do seu cachet e despesas de Hotel em Lisboa. Eles deveriam poder fazer isto, visto já terem um benefício na subida do escudo, pois que quando fiz as minhas condições em Libras aqui há meses estava então a libra a 150 escudos. De todas as maneiras eles terão que pagar a um acompanhador, portanto para a Sociedade pouco mais seria e para mim preferiria pagar do meu cachet a Mr Reeves do que ter que tocar com um desconhecido e ter que ensaiar – Confio na sua “interference” para ver se se arranja uma solução de acordo.
Diga-me também se acha bem os dois primeiros programas para Lisboa ou se os acha curtos. Para Viseu pensei tocarmos:
I - A Sonata de Sammartini
II – Piano Solo
III – Sonata Beethoven em lá
IV – Piano Solo
V – Elegie e Sicilienne de Fauré e
Vito de Popper.

Que lhe parece? Fiquei com bastante pena de ter ficado tão pouco tempo em Lisboa e não ter assistido ao maravilhoso concerto de Bordas!
Escreva-me para aqui, sim? Pois minha casa será brevemente transferida para o Porto.
Um feliz ano para si e toda a sua família.
Sua colega,
Gi

(Espólio de Vianna da Motta- MUSEU DA MÚSICA)

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junho 02, 2004

AINDA OS CONCERTOS EM PORTUGAL COM VIANNA DA MOTTA

30 Roland Gardens
South Kensington
S.W.
10 Dec.1924


Dearest Jay,
Tenho querido escrever-lhe há bastantes dias já, mas não tive ainda um momento de descanso desde a última carta que lhe escrevi muito a correr.
Tive muito prazer em receber os postais de Cannes e Arbois com os seus simpáticos dizeres e estou esperando carta sua de Lisboa.

Juntamente lhe envio algumas críticas “amusantes” ainda sobre os nossos concertos.
Também lhe envio uma do Times sobre Furtwangler e Casals. Estive no concerto e também achei que Casals “didn’t do himself justice”. Parecia estar muito cansado e distraído – mas tornei a ouvi-lo no concerto de Dvorak com Hamilton Harty em Manchester e aí tocou maravilhosamente. Estava lá com minha mãe pois no dia seguinte tocava em Bowdon e depois Derby. Depois do concerto Casals com um amigo dele vieram ao mesmo restaurante aonde nós estávamos e falámos durante bastante tempo – foi um pouco “exciting” para toda aquela gente que nos conhecia de vista.

Agora que já deve estar um pouco mais repousado das suas fadigas de viagem, vou-lhe falar um pouco sobre os programas para Portugal, pois creio que lhe vou dar um pequeno choque mas não tenho outro remédio.
Fiquei bastante doente da vista depois de ter tocado os concertos de sonatas e quando fui ver, o oculista proibiu-me de jamais tocar ou ler sem lunetas, pois sem elas sofreria imenso de dores de cabeça.
Ora já vê a minha careta feia, ainda mais feia com óculos, pois não tenho nariz para pince-nez. Que espectáculo seria!

Aqui está o que lhe proponho de fazer. Teremos que tocar uma sonata em cada concerto e por isso escolherei as que conheço melhor e quase de memória.
Também estou ansiosa para saber se as datas convém à Sociedade de S. Luiz.
Como lhe escrevi:
11- Concerto com orquestra – Lisboa
13- 1º recital com piano – Lisboa
15- 2º recital com piano – Lisboa
17- 1º recital – Porto
19- 2º recital – Porto
20 – Concerto Viseu

Programa com orquestra:
I- orquestra
II- Concerto de Lalo
III- Intervalo
IV- Kol Nidrei –Max Bruch
V- Saint-Saëns – concerto
Apenas um intervalo.

Mas é absolutamente condicional (infelizmente pelo meu estado de saúde) assim como também o das datas dos concertos, pois tenho que ter um dia de descanso entre cada concerto. Para o de Viseu não há remédio senão ser dias seguidos mas como é mais perto do Porto não faz mal. E de lá, isto é da Pampilhosa, parto para Londres imediatamente onde tenho um importantíssimo contracto que começa em 24 de Março.

Então gatinho diga-me o mais depressa possível se está de acordo com as datas e o que propõe tocar para eu também escolher os meus solos.
Estou dedilhando-lhe o “Vito” que entre poucos dias lhe envio registado.

Tenho tido demasiado que fazer devido à minha mudança de casa, e tantos concertos e a minha saúde não tem sido muito boa.
Felizmente a mamã vai melhor e tenho tido boas notícias do meu velho pai.
Então escreva depressa. Muito lhe agradeço os programas e críticas que me mandou de Espanha.
(...)
Muito ri com a driscrição do Thibaud ao Novôa.
Mais uma fotografia da sua irmãzinha que é muito feia.
Lembranças de minha mãe e espero que todos aí estejam de perfeita saúde.
Sua gatinha and great admirer of ratinho
Gi

(espólio de Vianna da Motta-Museu da Música)


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junho 01, 2004

VISITAS DURANTE O MÊS DE MAIO

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Publicado por vm em 10:36 AM | Comentários (0)

VIANNA DA MOTTA E O MEIO PORTUGUÊS

Não creio grandemente nas virtudes e alcance prospectivo ou retrospectivo desta quase instituição literária e muito portuguesa que é o In Memoriam ('), e afigura-se-me que se no outro mundo (em que aliás não acreditava) Viana da Mota pudesse ter conhecimento de que também a sua memória estava em vésperas de ficar arrumada nas páginas de um mais ou menos copioso e laudatórío volume, não deixaria por certo de fazer uma daquelas suas tão expressivas visagens em que fina e discretamente se misturavam a ironia e a piedade pelas fraquezas e ridículos dos mortais.

Adiantará esta homenagem póstuma alguma coisa no conhecimento, na compreensão, que os portugueses tiveram da figura do ilustre músico? Duvido. A verdade é que, se nunca em vida Viana da Mota teve a consagração que a sua invulgar estatura merecia, se na hora do traspasse lhe não foram prestadas as honras a que como poucos tinha direito, não será agora, ano e meio volvido sobre o seu passamento, que essa injustiça se reparará com o improvável reconhecimento, por parte dos seus compatriotas, da grandeza de um artista que era insofismavelmente um vulto nacional.
Mas não estarei eu a cair em erro de utopia, supondo que as coisas poderiam ter-se passado de maneira diferente, de maneira mais conforme aos ideais
que nos fazemos dos deveres e ilustração do homem
civilizado? Pendo a crer que sim. ..

Num país avesso, parece que por natureza ou má sina, à consideração dos valores superiores da inteligência e da sensibilidade; num país lamentavelmente propenso à subestimação das coisas da arte e do pensamento, e onde o culto, a fascinação de quanto é vazio e medíocre vem atingindo, há uns anos a esta parte, aspectos e proporções verdadeiramente alarmantes; num país onde a maioria da população só tem duas paixões, só vibra, só se electriza com duas funções: o fado e a bola; num país onde até os melhores, os mais esclarecidos, se deixam facilmente contaminar da inanidade geral e lá fazem também cortejo atrás da «vedeta» desportista, cinematográfica ou radiofónica que a moda lançou e a desenfreada publicidade jornalística consagrou — quem é que se lembra de honrar o talento que nobremente se soube conservar afastado do barulho da feira pública, que não desceu a contemporizar com a mediocridade, que não pagou a arautos que sonorosamente lhe proclamassem o génio, que não adulou os príncipes da finança ou da política, que não ingressou em confrarias e capelinhas de elogio mútuo e até à última manteve um decoro, uma compostura, uma ética (para empregar uma destas palavras mágicas muito ao gosto dos tempos que correm), que não pode deixar de incomodar uma sociedade que, acima dos altos valores humanos e dos rigorosos imperativos da consciência moral, põe as delícias da vida fácil, o amor do luxo e da ostentação, a sede do oiro, a ânsia da glória, qualquer que ela seja, por qualquer modo que se possa obter, e ainda que seja a... curto prazo?

Foi Viana da Mota um dos maiores pianistas do seu tempo, um artista admirado e respeitado pelos seus pares como um Mestre? Frioleiras...

Foi Viana da Mota durante algumas décadas o nome português mais europeu, um verdadeiro embaixador espiritual do seu país? Ninharias...

Foi Viana da Mota amigo ou correspondente de algumas das figuras mais notáveis da música e do pensamento musical da sua época? Bagatelas...

Foi Viana da Mota como compositor o iniciador do nacionalismo musical português, o pioneiro de um movimento que, se não produziu melhores frutos, não teria sido positivamente por culpa sua? Bugiarias...

Esteve Viana da Mota durante cerca de vinte anos à testa do primeiro estabelecimento musical do País, a que emprestou o prestígio do seu nome, nome a que incontroversamente ficou ligada a mais esclarecida, actualizadora e progressiva reforma que ainda tal estabelecimento conheceu depois da sua fundação? Lendas...

Foi Viana da Mota, como pedagogo, o fundador da moderna escola de tocar piano em Portugal e mestre, directo ou indirecto, de quase todos os artistas que hoje no País usufruem de alguma notoriedade como virtuosos do teclado? Invencionices...

Foi Viana da Mota, como artista e como professor, um modelo de probidade profissional, um trabalhador e um estudioso sempre ávido de superar-se a si próprio, procurando constantemente, apaixonadamente, penetrar mais fundo nos segredos, nos problemas técnicos e estéticos da sua arte? Maravalhas...

Foi Viana da Mota, pela cultura e ilustração intelectual, um homem superior, um tipo de artista-humanista raro no nosso país? Patacoadas...

...não monta mais
Semear milho nos rios
Que querermos por sinais
Meter coisas divinais I
Nas cabeças dos bugios.

Como tantos outros artistas portugueses dos maiores, Viana da Mota foi uma vítima da incompreensão, da maldade e da pequenez de um meio com o qual a sua invulgar estatura não podia ter medida comum. Negaram-lhe o talento, disputaram-lhe a glória, moveram-lhe campanhas ultrajantes, dificultaram-lhe a vida, regatearam misérias nos seus modestos cachets de concertista, esforçaram-se por fazer cair sobre o seu nome e a sua obra a pedra vil do esquecimento, deixaram-no morrer num isolamento e numa solidão terríveis, e mesmo depois de morto se procurou evitar que a sua vera fisionomia de artista e de intelectual pudesse ser revelada em toda a sua luz.

Entretanto, os medíocres que o guerreavam subiam, os nulos que lhe invejavam a fama triunfavam, os incompetentes que lhe deslustravam o nome floresciam, os néscios que desdenhavam da sua arte alcandoravam-se — e agora são capazes de aparecer a fazer-lhe o comovido panegírio...

Que a meia dúzia de amigos e admiradores sinceros que lhe permaneceram fiéis se não agastem:

Adhuc sub judice lis est.

(1)Fernando Lopes Graça ( texto escrito como contribuição para IN MEMORIAM de VIANNA DA MOTTA, foi contudo recusada a sua publicação com alegação em invencíveis mas não explícitas dificuldades quanto à sua inclusão nele)
1949


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