maio 31, 2004

SOBRE OS RECITAIS EM PORTUGAL COM VIANNA DA MOTTA

Roland Gardens
South Kensington,
London

30 de Setembro de 1924

Mein liebe meister,
(...).
Acabo de receber hoje a sua carta do dia 26 e com respeito aos concertos de Portugal, estou disposta a fazer concepções, somente seria preciso garantir, por ex. um número mínimo de concertos, diremos 6 concertos “to an average fee of 50 pounds”. Está bem assim? Eu compreendo bem que em cidades pequenas é impossível exigir muito, mas talvez se possa elevar um pouco o preço dos bilhetes para esses nossos concertos. E depois também é preciso que o “meu irmão” imponha as suas condições, senão o ratinho vai morrer de fome.

Já comecei a tratar do reclame para aqui – e brevemente já virão os nossos programas publicados.

Recebi há dois dias o seu lindo “VITO” e quase que o sei de cor – os “doigtées” para aquela passagem rápida levaram uma tarde inteira a achar e no dia seguinte tive uma “migraine” muito forte. Apesar de tudo decidi de o tocar no primeiro concerto. Os meus solos serão pois: Suite de Bach, Kol Nidrei deMax Bruch, Rondo de Dvorak e Vito do “Jay”.

Agora tem que haver uma alteração na forma dos concertos, Isto é, o recital Beethoven vem a ser o último dos três concertos, fechando assim com chave de ouro. Teremos mais tempo para ensaiar.
Mr George Reeves só está livre nos dias 3 e 10, mas em 19 tem que acompanhar Casals em Birmingham. O segundo programa fica sendo o terceiro e os meus solos nesse são os seguintes: Sonata de Sammartini, Sicilienne de Veracini e Allemande de Senallié. É mais interessante que só a sonata de Locatelli que é muito tocada aqui.
Espero que o ter mudado a ordem dos programas sem lhe pedir licença, não o contrarie. Creio mesmo que é melhor para preparar o público. Há outro motivo também e é que, como para as sonatas de Beethoven uso o Stradivarius, posso preparar melhor, não tendo assim que mudar de instrumento em poucos dias.

Escrevo-lhe esta muito, muito à pressa. Brevemente lhe respondo a mais detalhes das suas cartas. Junto lhe envio carta de IBBS and TILLETT a seu respeito.

Não se esqueça de ver se pode arranjar alguma coisa para a Argentina em meados de Maio, e Brasil em Julho, Agosto do ano próximo. Já agora eu podia fazer Portugal em Março, Espanha de Abril até meados de Maio, depois Argentina. Se não for tarde e no verão Brasil – a regressar em Setembro para descansar até Outubro. A América do Norte tem-me feito as “démarches” mas ainda nada que valha a pena. Isso será mais tarde.
Much love for you, little sister
G.

Espólio de Vianna da Motta- Museu da Música”

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maio 30, 2004

MEDALHA DE OURO DA CIDADE DO PORTO EM 1938

Em 1938 a Câmara Municipal do Porto concede-Ihe a Medalha de Ouro da Cidade por proposta do Comandante João de Paiva Faria Leite Brandão.

Câmara Municipal do Porto
Secretaria - Serviços de Expediente

Exma. SrªD. Guilhernina Suggia Mena
Encarrega-me o Exmo. Sr. Presidente de ter a subida honra de vir comunicar a V. Exª. que esta Câmara, na sua reunião de 16 de Dezembro do ano findo, resolveu aprovar a seguinte proposta:

«Tendo em consideração que a eminente artista Guilhermina Suggia Mena, nascida no Porto, onde fez os seus primeiros estudos com seu pai, o professor Augusto Suggia fazendo parte mais tarde, ainda criança, do Quarteto Moreira de Sá, contribuiu para o desenvolvimento da cultura, colaborando em inúmeros concertos nesta Cidade. - Atendendo que esta virtuosa, depois de completar os seus estudos na Alemanha, tem marcado no estrangeiro, com especial evidência, o seu lugar entre as primeiras executantes do mundo, assim consagrada especialmente em Inglaterra, onde muitas vezes tomou parte nas mais notáreis audições, atraindo deste modo para o seu país as atenções do mundo musical, tenho a honra de propor:
Que seja concedida à consagrada artista «A Medalha de Mérito», em. ouro.»
Aproveitando a oportunidade para cumprimentar V. Ex.ª e endereçar-lhe as minhas muito vivas felicitações, tenho a honra de me subscrever com a mais distinta consideração e
A bem da Nação
Porto e Paços do Concelho,
4 de Janeiro de 1938.
O Chefe da Secretaria
(Assinatura ilegível)

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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maio 29, 2004

RESPOSTA DE G. SUGGIA A V. DA MOTTA (escrita faz hoje 80 anos)

30, Roland Gardens
Flat 2
South Kensington

29 de Maio de 1924

Cher et grand artiste,
meu querido gato,

Mil vezes obrigada pela sua amável carta e pelo seu retrato que acho bastante parecido, mesmo um pouco “flatteur”.

Peço-lhe que diga a “seu irmão” que temos contas a ajustar e que se acautele pois terá que passar por um exame de consciência dos mais delicados – diga-lhe mais – que não esperava dele essa acção tão diversa das qualidades que aparenta, mas enfim tendo cometido tal indiscrição estou contente que pelo menos soube identificar bem a raça do “Tormmycat” – MIAU!

A sua ideia de darmos aí concertos é excelente pois foi para mim também um enorme prazer de tocar consigo, mas isso ainda depende dos meus concertos aqui, que geralmente se prolongam até princípios de Abril. Em todo o caso farei todo o possível para estar aí a 19 ou 21 de Março, pois a tournée em Espanha não começará antes de meados de Abril.

Enquanto a condições é um pouco difícil de fixar pois o nosso cambio está cada vez pior – os meus concertos aqui são pagos a 80 e 100 guinéus e com pouca despesa visto eu habitar aqui.
Estou pronta a fazer uma excepção para si e para o meu país:
6 concertos (2 Lisboa,2 Porto, 1 Viseu e 1 Coimbra) por 400 libras
7 concertos por 450 libras
8 concertos por 500 libras
dividindo as cidades como queira – mas compreenderei perfeitamente se estas condições são impossíveis para aí.

Não sei como lhe agradecer a sua proposta de me acompanhar “en cas de besoin” nalguns solos.
Também recebi as críticas e lista de programas. Na próxima semana falarei a Sir Henry Wood e veremos se daí resulta que venha tocar aqui ao Queen’s Hall. Poderia ser então que arranjássemos uns três ou 4 recitais em Londres na mesma época, para lhe ser mais fácil a sua vinda a este país. Infelizmente as Salas de Concertos para “musique de chambre” são pequenas e mesmo cheias pouco mais resulta que para pagar as despesas de reclame, agente, aluguer, etc. Por isso é raro eu dar recitais. Mas discutiremos sobre isto juntos mais tarde.
Meu pai está no Porto, mas agradeço-lhe muito os seus cumprimentos para ele.

Desculpe-me esta carta tão longa e cheia de erros gramaticais. I am happier writing in English.
Sua admiradora sincera

Guilhermina Suggia

(Espólio de Vianna da Motta- MUSEU DA MÚSICA)

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maio 28, 2004

CARTA DE VIANNA DA MOTTA SOBRE CONCERTOS COM SUGGIA

Lisboa, 18 de Maio de 1924

Grande e querida artista,
Os seus concertos foram um acontecimento na minha vida artística e constituem uma das mais fortes impressões de arte que tenho recebido. Deixaram-me a nostalgia de a tornar a ouvir e tocar consigo. Todo o meu desejo é ter na próxima época a felicidade de uma série de concertos consigo, com a minha irmã artística.

A empresa do Teatro S. Luís gostaria muito de nos organizar 2 ou 3 concertos aqui, 2 no Porto e um em Viseu, onde também há imenso interesse em ouvi-la, como verifiquei quando lá fui tocar há 10 dias. Em Coimbra certamente se organizará também um concerto. Disse-me que a melhor época para cá vir seria para si a Páscoa. Mas no ano que vem a Páscoa é a 12 de Abril, o que já é tarde para concertos públicos em Lisboa. Se lhe fosse possível vir em meados de Março, é que seria ideal para a pequena 'tournée' que eu desejaria fazer consigo.

Poderia já dizer-me quais as condições que faria?
Como alguns destes concertos constariam só de ambos, não seria necessário vir com o seu acompanhador, pois eu teria muito prazer em lhe acompanhar os solos que quisesse tocar, excepção que só para si faria.

Ainda não descobri os prospectos ingleses que queria mandar-lhe, já que teve a gentileza de me prometer a sua intervenção para eu tocar em Londres.
(...) Muito lhe agradecerei o que puder fazer para me facilitar a minha reaparição em Londres.

Muito obrigado pelo seu telegrama de Paris.
À falta, de um bom retrato, mando-lhe um que talvez se pareça um pouco.
Com os melhores cumprimentos de sempre
Vianna da Motta

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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maio 27, 2004

SUGGIA OFICIAL DA GRÃ-CRUZ DE CRISTO

No ano de 1944, entregam-lhe as insígnias de Oficial da Grã-Cruz de Cristo.
Guilhermina Suggia não se satisfaz, no entanto, com condecorações, nem se protege no silêncio.

“É preciso intensificar-se cada vez mais no nosso País culto muito sincero pela arte musical.

Torna-se indispensável construir salas de concerto, que, à semelhança do que há lá fora, poderiam ser utilizadas também para a realização de conferências de divulgação cultural. Essas salas deveriam comportar apenas umas seiscentas a oitocentas pessoas e seriam dotadas das imprescindíveis condições de segurança e conforto, a par duma acústica impecável e duma excelente e equilibrada distribuição de luz. Estou convencida de que o admirável bairrismo dos portuenses e o seu arrojado espírito empreendedor poderiam tornar em realidade uma tão útil iniciativa - para a qual eu desejaria contribuir com a mais dedicada solicitude. Poderíamos, então, realizar concertos musicais num «clima» apropriado. Convém não esquecer nunca que um executante pode ser gravemente prejudicado por um pequenino pormenor que perturbe a serenidade do seu espírito - desde a perturbadora delicadeza dum perfume esquisito até à luz crua e violenta das gambiarras.
A música de câmara requer um ambiente quási familiar, de igual modo que a voz de um órgão apenas se espiritualiza no silêncio augusto e profundo das grandes naves duma catedral gótica.
- Os efeitos de luz são de alta importância para quem executa e para quem ouve - para o artista e para o auditório.
O célebre compositor russo Scriabin escreveu, sob o domínio dos contrastes da luz e do som, a sua magnífica sinfonia «Prometheus». Assisti à sua primeira audição, na própria residência do autor, em Moscovo. Foi um espectáculo maravilhoso. Aquela sinfonia foi executada caprichosamente - com as mais diversas modalidades de tom em íntima concordância com as adequadas nuances de luz...»

De livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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maio 26, 2004

PALAVRAS DE FRANCINE BENOIT SOBRE SUGGIA

A 29 de Janeiro de 1937 escreve Francine Benoit a propósito do segundo concerto da temporada na Sociedade de Concertos de Lisboa que:

«Além do excepcional talento de Suggia, há que admirar e render homenagem à sua energia, à sua força de vontade, ao seu domínio sobre uns nervos duma sensibilidade agudíssima.

“Tout se tient”, dizem os franceses: naqueles nervos e naquela reacção forte da vontade está toda a maior característica da arte de Suggia. Dominaram novamente o palco - e o teatro todo, completamente cheio - a sua figura (...), as suas feições vincadas, as suas expressões pessoalíssimas (que têm sido tão imitadas...) e que nunca mais esquecem a quem as viu uma só vez.

Sensibiliza porventura um pouco o público anónimo que Suggia nunca se digne abaixar - ou erguer - os olhos até ele, mas os artistas do traço e da cor admiram incondicionalmente essa viva imagem da arte no seu aspecto mais avassalante”.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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maio 25, 2004

NOTÍCIAS SOBRE SUGGIA NO DAILY MIRROR

Talvez para atiçar a imaginação, publica-se uma coluna com pequenas notícias sobre Suggia no The Daily Mirror (sem data):


«Apesar da eminência que Mme. Suggia atingiu, secreta e privadamente, a maior alegria da vida dela é saber que um concerto foi cancelado. A razão principal é a devoção à casa dela no Porto, ao seu jardim (de que ela diz não perceber nada a não ser adorar as flores) e aos seus cães. Longe, no Portugal quente, ela gosta de nadar e de tomar banhos de sol.

- Suggia não tem a comum inquietação pelas suas preciosas mãos. Rema. Faz vela. Pesca. Decora interiores. Só o ténis joga com suavidade, porque pode ser perigoso para o pulso da violoncelista.

- Suggia colecciona tapetes. Tem vários persas e chineses. Detesta salas de concerto atapetadas.

- Disse Suggia que a melhor sala de concertos, na Europa, por razões de acústica, de mobiliário e em geral é o Usher Hall em Edimburgo, seguido pelo Teatro Nacional de S. Carlos em Lisboa.

O número ideal de audiência é 500.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo”

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maio 24, 2004

IN MEMORIAM- BERNARDO VALENTIM MOREIRA DE SÁ

Em 1944, organizando-se um livro In Memoriam do grande homem de cultura que foi Bernardo Valentim Moreira de Sá, as palavras de Suggia são imprescindíveis.

Porto, 13 de Março de 1944
Presto a minha homenagem à memória do notabilíssimo musicólogo que foi Bernardo Valentim Moreira de Sá, espírito de excepcional cultura enciclopédica, dedicando todo o seu esforço para bem instruir a geração do seu tempo e que pelas virtudes do seu carácter conquistou a justa admiração dos que privaram com ele e ainda, mais além, de todos que ainda hoje beneficiam da sua obra erudita e perdurável para a elevação do meio musical Portuense.
Relembrar a sua vida é manifestar a nossa gratidão ao nobre exemplo que constituiu a sua vida laboriosa, conseguindo despertar a compreensão e o amor pela mais sublime das artes que é a Música.
Guilhermina Suggia

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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maio 23, 2004

SUGGIA É MAGNÂNIME E ALTRUÍSTA

Suggia é magnânime e altruísta, revela-se implacável perante a hipocrisia.

Uma noite, no Clube Portuense, um grupo de senhoras benfazejas rodeia Suggia e pede-lhe, certamente com toda a deferência e provável eloquência, um recital sem cachet, com uma finalidade do género caritativo a que se dedicava e que já não é possível reproduzir aqui.

Suggia consente na sua participação, mas considera que deverão encontrar-se noutra altura para conversar sobre o assunto. As senhoras despedem-se vitoriosas.

Entretanto, há um baile no Clube Portuense. Encontram-se lá Guilhermina Suggia e as mesmas senhoras que ignoram ostensivamente a sua presença.

Passam-se poucos dias depois da noite do baile e essas senhoras fazem anunciar-se na casa de Suggia.
Clarinda traz uma resposta breve do 1° andar:

- «A madame Suggia manda dizer que não está».

do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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maio 22, 2004

DIA "GUILHERMINA SUGGIA" NO CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DO PORTO

Por sugestão à Direção do Conservatório do Porto, da Prof. Srª D. Madalena de Sá e Costa, foi instituído um dia por ano para lembrar a grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA. Será um dia de música tocada pelos alunos do Conservatório. Hoje celebra-se esse dia.

Publicado por vm em 12:23 PM | Comentários (0)

VIDA CASEIRA

“Existem dois lados da minha vida bastante separados e bastante distintos, a minha vida caseira e a minha carreira artística. À semelhança de muitos outros grandes músicos, não vivo todo o meu tempo rodeada de uma atmosfera musical.

Quando estou em casa trabalho bastante na minha música numa parte do dia, mas a maior parte do meu tempo é tomado com outras coisas, como olhar pela minha casa, visitar os meus amigos, e diverti-los. O meu marido tem muito bom gosto no que diz respeito a antiguidades e um grande conhecimento delas. Ele mobilou certas partes da casa e eu tenho os meus próprios quartos mobilados de acordo com o meu gosto, que é bastante diferente.
Eu gosto de cadeiras modernas e confortáveis, como aquelas" - ela apontou para o grande sofá de braços estofado em que eu me encontrava sentado. «Eu gosto igualmente de uma casa bem governada, e gosto de boa comida, e de nisso ser bem servida, porque quando estou em casa sou uma mulher bastante ocupada. Então os agentes escrevem-me a convidar-me para actuar em concertos, e por um tempo estou outra vez na atmosfera musical, apreciando-a. Mas sinto sempre que a minha arte tem as suas raízes na minha vida caseira, como tal sem a minha vida doméstica não seria capaz de conduzir a minha música de uma forma tão bem sucedida».

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em 03:09 AM | Comentários (2)

maio 21, 2004

BOA MÚSICA

«De entre os concertos existe algum que seja da sua preferência?» - perguntei, e «Não», replicou Suggia. «Eu gosto de todos os que toco, e seja o que for que eu toque, no momento sinto que é a música mais bela que alguma vez toquei. Só toco boa música, claro.

Uma pequena obra pela qual eu seja talvez, particularmente apaixonada, é a última das que toquei na quinta-feira, 'Sicilienne'. Foi composta por Maria Theresa Paradis, a qual foi a mais notável das mulheres, uma afilhada da Imperatriz Maria Theresa. Ela ficou cega quando tinha cinco anos de idade, e no entanto tornou-se numa maravilhosa pianista e violinista, e percorreu toda a Europa dando concertos. Compôs uma enorme quantidade de música, sinfonias, concertos, quartetos, tal como pequenas obras, mas a quase totalidade das mesmas têm-se perdido. Porque é que tal tem acontecido, não sei, mas é uma pena que se perca porque é tão belo o que dela temos.

'Sicilienne' era uma das preferidas do meu pai, que morreu» - ela parou por um momento - há apenas alguns dias. Quando a toquei na quinta-feira, toquei-a para ele, e no fim senti que ele se encontrava realmente ali, a ouvir-me».

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre “ de Fátima Pombo

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maio 20, 2004

CARTA A VIANNA DA MOTTA

STATION HOTEL
Chesterfield

Telephone nº 343
Proprietors:
The Chesterfield Brewery Co. Ltd
Chesterfield

25th November 1924


Dearest Jay,

Muito obrigada pela sua carta. Nada mal fez em discutir com minha irmã sobre o meu futuro. Ela ainda estava debaixo da impressão que era Portugal que eu tinha escolhido e não Inglaterra – mas agora já sabe.

Saí esta manhã de Londres às 9, tendo ainda recebido a sua carta e Mr Hudson também ficou encantado com a sua carta em inglês, que me deu para ler.
Apenas lhe escrevo estas linhas à pressa para que tranquilize o seu espírito.

Acabei de almoçar agora mesmo e apenas terei tempo para me vestir e ir para o ensaio das 2 às 3. Concerto para as crianças das 3 às 4.15. Depois tomar chá, vestir-me para o concerto da noite às 7,30. Amanhã em Mansfield a mesma coisa.

Mas logo, depois do concerto, talvez escreva com mais descanso. Também lhe enviarei algumas críticas interessantes – as que são boas para si, são más para mim e vice-versa.

Até logo, pois.
E mais uma vez, obrigada pela sua carta e por ter ido visitar minha irmã.
Sua irmãzinha gatinha
G.

(espólio de Vianna da Motta- MUSEU DA MÚSICA)

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maio 19, 2004

PRÉMIOS SUGGIA- PORTO e LONDRES

Note-se a diferença.
Suggia deixou por testamento o seu violoncelo Montagnana à CMPorto de quem dependia o Conservatório de Música do Porto, para ser vendido e com o produto dessa venda ser instituído anualmente um prémio ao melhor aluno de violoncelo. A CMPorto fez uma compra que não pagou, atribuíu ao violoncelo um valor de 550 contos e atribuíu 5 - CINCO - prémios! O Montagnana está fechado no Museu Soares dos Reis. Ninguém o vê. Ninguém o toca.

Suggia deixou à Royal Academy of Music de Londres o seu violoncelo Stradivarius ( Note-se que os preços de um Montagnana e de um Stradivarius são iguais. Não há diferença rigorosamente nenhuma). Este foi vendido. Nunca deixou de ser tocado. Neste momento é tocado pela violoncelista do AMAR QUARTETT, e apesar de não termos consegido saber o nome dos galardoados nos anos 1953, 1956, 1957, 1961, 1988 e 1991, o prémio começou a ser atribuído em 1952 - um ano antes do que aconteceu no Porto - foram atribuídos 58 - CINQUENTA E OITO- prémios.

Que diferença!

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PRÉMIOS "SUGGIA", de Londres

“PRÉMIO GUILHERMINA SUGGIA”, na Royal Academy of Music, de Londres


REGULAMENTO:

1 – O valor da Bolsa será aproximadamente de 275 libras esterlinas anuais (isentas de impostos) e será atribuído a um estudante de violoncelo que se tenha distinguido

2 – A duração da Bolsa será de um ano, com a possibilidade de ser renovada.

3 – A Bolsa destinar-se-á a actuais estudantes da Real Academia de Música que sejam cidadãos ingleses ou portugueses por nascimento.

4 – A Bolsa será concedida pelo Director, sob a autoridade da comissão de Gestão. Fica reservado o direito de reter ou cancelar a atribuição de uma bolsa em qualquer altura.

5 – Na ausência de candidatos que preencham as condições descritas no parágrafo 3, o Director poderá atribuir a Bolsa em condições que a Comissão de Gestão então determinará.


Instituído em 1951, este prémio tem como principal objectivo auxiliar aqueles que tenham perfil de intérpretes a solo a dedicarem-se a um período especial de pós-graduação sem problemas financeiros, ajudando-os, deste modo, na difícil fase inicial das suas carreiras.
Apresentando-se sob a forma de uma bolsa de estudo, este prémio foi atribuído anualmente. Refere-se em seguida a lista dos nomes dos vários contemplados que foi possível constituir:

1952 – Derek Simpson

1954 – Bernard Vocadlo

1955 – Jacqueline du Pré

1958 – Penélope Lynex

1959 – Keith Harvey

1960 – Peter Willison

1962 – Gregory Baron

1963 – Beverly Chester

1964 – Naomi Butterworth

1965 – Gillian Thomas

- Caroline Dale

1966 – Haflidi Hallgrimsson

1967 – Peter Worrall

1968 – Christopher van Kampen

1969 – Robert Glenton

- Richard May

1970 – Ângela East
Steven Isserlis

1971 – Fiona Stewart

1972 – Christina Shllito

1973 – Raphael Wallfisch

1974 – Roderick McGrath

1975 – John Senter

1976 – Nicholas Gethin

1977 – Sebastian Comberti

- Christopher Gough

1978 – Susan Dorey

1979 – Martin Loveday

1980 – Júlia Desbruslais

1981 – Elizabeth Parker

1982 – David Daniels

1983 – Joanne Cole

1984 – Timothy Folkard

1985 – Paul Marleyn

1986 – Robert Max

1987 - Timothy Gill

- Judith Mitchell

1989 – Sian Bell

1990 – Paul Kellett

1992 – Andrew Gunn

1993 – William Lighgow

1994 – Aidan Eardley
Alexsander Chaushian

1995 – Verónica Freeman

1996 – Ivo Cortes Montero
David Cohen

1997 – Aleksander Chaushian

1998 – Aleksander Chaushian
Marie Macleod
Emily Francis

1999 – David Cohen
Guy Johnston
Marie Macleod
Richard Harwood

2000 – Sergei Suvorov

2001 – Sergei Suvorov

2002 – Bartholomeu LaFolette
John Myerscough

2003 – Reinoud Ford

2004 - Pau Codina

2005 - não atribuído

2006 - Jonathan Bloxham


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maio 18, 2004

CARTA Do PAI (24-1-1931)

«Porto 24-1-1931

Minha querida Guilhermina,
recebi a tua carta de Vigo, e hoje o postal já de Londres, com o quinteto de creadas. Felizmente que tiveste uma boa viagem, o que é para agradecer a Deus. Por cá, não há novidade!!! Corre tudo regularmente, como se fôssem todos muito felizes.........

Eu, cá vou andando com a minha Dandysse, mas, bastante doente. O inverno tem sido três assez rigoureux!!! Muito frio, e muita chuva! Hoje recebi convite do nosso Dr. Mena, para lá ir jantar na companhia do Sr. Fonseca. Não deve ser um jantar alegre, mas, deve ser de amizade. O jardineiro veio, e o jardim ficou bonito. A minha apoquentação, agora, é não dormir. Só durmo pela madrugada, e tudo faz com que ande sempre com dores de cabeça, e este sábado tira-me o bom humor e vontade de trabalhar. O que me parece, é que a cabeça está gasta, e precisa de muito descanso. Deus te dê saúde e força para vencer esses concertos todos, e que tu venhas bem concertada para termos bastantes jantares, de 2,3,4 e 5 copos... ou mais! Recebe um abraço, d'este teu páe (velho Dandy)

Augusto Suggia

Os pirâmidões que me deste no frasquinho não me dão o rezultado dos outros tubos! Tráze-me dos pequeninos. Passou-se muito bem o jantar. Fizemos-te uma saúde.»

Do livro “GUILHERMINA” de Mário Cláudio

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maio 17, 2004

ÓLEO S PAPEL DEDICADO A SUGGIA de A.CUNHA E SILVA


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CARTA À AMIGA ERNESTINA DA SILVA MONTEIRO

Nesta carta à amiga, Guilhermina Suggia resume a travessia de recentes acontecimentos e emoções com os detalhes suficientes para se poder imaginar cenários e o modo dela se mover neles.


16. Cheyne Walk - Chelsea - S. W.3
9 de Novembro de 1946

Minha boa amiga Ernestina,
Mais umas linhas para lhe dizer do grande successo que foi a noite de quarta-feira passada. Fui felicíssima na execução do Concerto d'Elgar no Real Albert Hall aonde havia cerca de 8.000 pessoas. Os ensaios tinham já sido bons e gostei imenso do chefe d'orquestra Warwick Braithwaite que por sua vez ficou encantado comigo. E que discrição a orquestra! Uma maravilha! Foi pena não ter sido radiodifundido mas corno a orquestra é a London Symphony não costumam radiodifundir. No dia 18 também não será transmitido. Apenas no dia 21 pela BBC pois nessa ocasião serei acompanhada pela Orchestra da BBC com Sir Adrian Boult.

O meu vestido de renda branco fez sucesso e todos me acham bem.
Felizmente tenho passado bem apesar de nem sempre poder seguir a minha dieta por falta de muitas coisas essenciais. É tudo por racionamento, pão, manteiga, açúcar e carne é raro comer - só em condições. Isto enquanto estava no Hotel. Aqui nesta casa já é outra coisa porque os donos têm casa de campo com vacas e galinhas, assim temos manteiga e ovos frescos. É um sonho esta casa como situação e como recheio.

Apesar de muitos compromissos tenho tempo para estudar à vontade porque aqui tudo se faz com pontualidade. Estou ansiosa por saber se me ouviu falar esta noite e se ouviu as palavras que o Sr. Pessa disse a meu respeito.
Eu estava mais excitada para falar para o microfone do que para o concerto no Albert Hall, pois lá estava muito calma. Sentia uma divina protecção como senti quando da viagem por avião. Penso muito no meu marido e na maninha e recebo poucas notícias de lá. Que Deus permita que eles melhorem e que vá encontrar tudo e todos o melhor possível no meu regresso.

Mrs. Melville esteve comigo uma semana no Dorcbester Hotel e esta tarde veio tomar o chá comigo a esta casa aonde eu tenho um salão magnífico para estudar com fogão enorme e um quarto de dormir que é um encanto e uma cama tão fofa que parece feita de seda e algodão em rama. A comida também é óptima. Gostei tanto de falar com a rainha mãe Queen Mary, que simpatia.. O tempo agora está lindo e o sol entra por esta casa dentro tendo o rio «Tames» por defronte. Tudo o que há de mais poético!

Na próxima terça-feira os nossos embaixadores Duques de Palmella dão um jantar em minha honra no Claridges Hotel aonde eles estão hospedados e na quinta, há urna soirée aqui com Gerald Moore. aonde tocarei Valentini, Brahms (mi menor). Bach suite. Falla, etc. Várias recepções com os ministros ingleses e uma festa no Anglo-Portuguese Sociely.

Tenho os meus dois violoncelos comigo. Tive grande alegria ao abraçar o meu Montagnana que está lindo, mas só toco por enquanto no Stradivarius.

Agora, um grande abraço para a minha boa amiga e manas e tia e espero ter notícias suas brevemente. As saudades já apertam e não pouco.
Sua muito amiga,
Guilhermina Suggia Mena


Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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maio 16, 2004

CARTA A AGRADECER CONCERTO A/F VÍTIMAS CICLONE

Lisboa, 31 de Março de 1941

Exma. Sra. da minha maior consideração

Retido na cama por um ataque de gripe, não quero deixar de, em duas linhas, testemunhar imediatamente a V. Exa, o meu reconhecimento pela amável carta que acabo de receber e pela sua penhorada aceitação do convite que tive a grande honra de lhe dirigir.

Em nome de todos os Portugueses a quem a sua Arte Maravilhosa vai suavizar um pouco o doloroso destino, os mais sentidos e vivos agradecimentos.
Quanto à organização e data do Concerto, aguardo as sugestões que o Sr. Miranda, representante no Porto do Diário de Notícias me vai enviar em nome de V. Exa. Nada se fará sem o seu prévio assentimento.
Peço a V. Exa., que como expressão da minha mais alta consideração, me creia
Grato admirador de V. Exa.

Augusto de Castro


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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maio 15, 2004

CARTA A FILIPE LORIENTE, de QUINTA DOS GIRASSÓIS

QUINTA DOS GIRASSÓIS
Barreiros
Concelho da Maia

Telef:
VERMOIM- 35

31/8/1944

Caro Amigo Loriente,
Enviei-lhe ontem como carta registada as seguintes peças:
Concerto de Haydn (cello), trio Beethoven (cello) Rondo Boccherini (cello que pertence a uma minha discípula ingleza) e a Malagueña de Albeniz, da qual lhe empresto a minha parte de cello com a parte de piano já copiada pelo sr. Oliveira.

Vai tudo dedilhado por mim. Devo dizer-lhe que tive um trabalhão com o Triplo Concerto de Beethoven – horas sem fim de trabalho e paciência pois não foi fácil – fiquei satisfeita com a minha obra que creio se deve parecer bem com as arcadas e dedilhação que há muitos anos ouvi a Casals, que de resto, temos o mesmo pensamento e compreensão na arte de dedilhar. Só lhe pedia uma coisa, e creio de direito. Era ver se arranjava uma outra parte de violoncelo para entregar ao Maestro Freitas Branco, ficando o Loriente com essa cópia que vai dedilhada (que foi feita EXCLUSIVAMENTE para si e só para si) ou então depois de a ter estudado e tocado em público – mandá-la copiar (se não houver em Lisboa) e passar as minhas marcações para a minha cópia, usando depois de uma borracha para apagar tudo o que é meu (para que não se perca o meu trabalho mas também para que não fique prejudicada sendo utilizada por outros violoncelistas que não são meus discípulos).
Era dar pérolas a porcos, desculpe a vulgar mas bem adequada frase.

Gostaria e seria mesmo de grande necessidade para si se pudesse antes de qualquer ensaio dessa obra, vê-la comigo a fim de lhe dar o carácter na interpretação. É difícil e requer um estudo como se fosse um concerto para violoncelo solo – e tinha prazer em que fizesse muito bonita figura – O violino terá que frasear um pouco da mesma forma para que haja homogeneidade.
Fiquei aqui com as cópias da melodia de Bridge, a “Gavotte” de Méhul e também a sonata de Strauss que só mais tarde lha posso enviar. Diga-me para onde lhe devo enviar o Franck Bridge e Méhul no fim da próxima semana.

Estamos a vindimar aqui e fizemos já duas pipas e meia de vinho branco (verde) e hoje estão a colher o vinho tinto que dará outro tanto. Gosto desta época e o tempo tem estado óptimo, sem demasiado calor. Após o vinho é a desfolhada do milho que tem sempre um ar festivo e alegre sobretudo quando se encontra uma espiga de milho preto, o que quer dizer segundo a tradição cá para o norte, que os rapazes têm que beijar as raparigas ou senhoras, seja quem for que esteja presente.

Ainda me demoro por aqui mais uma semana regressando ao Porto no dia 7 ou 9 quando conto partir para Francellos a passar uns dias à beira-mar, para tomar banhos que adoro – e lá pode-se nadar.

Enquanto o meu marido ainda não decidiu quando fará a operação e se terá de a fazer – Felizmente não tem piorado ultimamente, apesar de lhe doer sempre - Coitado, merecia melhor sorte.

Todos os dias estudo no William Forster. Se vir o senhor Celso diga-lhe que em breve lhe mando a Sonata de Samartini, mas não sei para onde. Poderia enviar-me o endereço dele? E o Carlos Figueiredo ainda está no Avenida?
A todos as minhas lembranças em especial para si e sua esposa.
Cumprimentos de meu marido

Yours Sincerely

Guilhermina Suggia

Junto vai a nota do copista- quer que lhe pague? – Dê-me as suas instruções.


carta cedida pelo prof Henrique Fernandes

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maio 14, 2004

O VIOLONCELO (de SUGGIA) NOS LIVROS DE VIRGÍNIA WOOLF

Que GUILHERMINA SUGGIA foi, durante as primeiras décadas do século passado, muito mais conhecida e admirada na Grã-Bretanha do que em Portugal, não restam dúvidas.
Em Londres, “ir ouvir a SUGGIA”, era sinónimo de necessidade ou “dever” que gostosamente se cumpria.

No Diário, de Virgínia Woolf, por exemplo, (volume II – 1920-24 – da Penguin Books) pode ler-se, no sábado, dia 2 de Novembro de 1924: (traduzo): “ Como de costume estou, ou imagino que estou, afogada em trabalho, embora consiga, ainda assim, algumas horas de puro prazer: ir ao cinema esta noite, ir à SUGGIA na segunda-feira, porque desejo a sua música para me estimular e inspirar.”

Em nota de rodapé: (GUILHERMINA SUGGIA, 1888-1950, a célebre violoncelista portuguesa, acompanhada pelo seu compatriota José Viana da Mota, deu um concerto em Wigmore Hall no dia 3 de Novembro de 1924). Tocaram, sabe-se, as duas sonatas de Brahms, a em “mi menor” e a em “fá maior”.


Também no livro THE ART OF DORA CARRINGTON, da autoria de Jane Hill, Londres, The Herbert Press, 1994, existe uma referência à nossa violoncelista (a vida de Dora Carrington foi levada ao cinema – CARRINGTON – com Emma Thompson na protagonista).

Página 26 (traduzo): "em 1912, quando frequentava o 2º ano da Slade, Carrington começou a ter encomendas e a arranjar alunos. Um estúdio em Chelsea custava então cerca de 10s. por semana e cada lição rendia-lhe 5s.
A sua determinação em ser independente era tal que chegou a considerar a hipótese de aceitar o lugar de professora de desenho no liceu de St. Helen, em Abington. Mas, por temperamento, era-lhe impossível ter um emprego fixo, pois tal significaria o fim da sua ambição de se dedicar apenas à pintura.
O que ela realmente necessitava era do incentivo da vida londrina: passar as manhãs na London Library e as tardes, até quase à noite, no seu estúdio – tomar chá com Augustus John num dos cafés belgas de Fitzrovia ou ouvir uma sonata de Bach tocada por Madame SUGGIA no Aeolian Hall ou a “Flauta Mágica” no camarote de Lord Esher’s na Royal Opera House”.

São apenas dois exemplos.
Creio que entre os outros componentes do chamado Bloomsbury Circle existirão muitos mais. Para os estudiosos de GUILHERMINA SUGGIA, que não sou, uma pesquisa nas correspondências e diários, quando os haja, de autores e artistas como Roger Fry, Duncan Grant, Mark Gertler, Lady Ottoline Morrell, Clive Bell, Lytton Strachey, Vanessa Stephen (a irmã de Virgínia Woolf) ou John Keynes, talvez traga resultados muito proveitosos.

Sem falar na leitura, ou releitura de toda a obra de Virgínia Woolf que, confissão sua, com SUGGIA contou para a inspirar e estimular.

Ora aqui está, porventura, o tema para uma interessante tese de doutoramento em literatura inglesa – “O violoncelo nos Livros de Virgínia Woolf” – ( e este violoncelo seria o de SUGGIA, que ninguém duvide!)
Mãos à obra!

Ana Maria de Almeida Martins, escritora-ensaísta

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maio 13, 2004

DEPOIMENTO DE UM ALUNO DE VIOLONCELO,da "ESPROARTE" de Mirandela

Olá. Em primeiro lugar gostaria de me apresentar. Chamo-me Zé João, tenho 15 anos e resido em Mirandela, minha terra natal.

Frequento o 10º ano na "Esproarte", Escola Profissional de Arte e música de Mirandela, no naipe de Violoncelo. Já frequentei um curso de verão com a prof. Madalena de Sá e Costa e com o prof. Paulo Gaio Lima, com este último alguns estágios.

Agora passo a agradecer a vossa página, muito especialmente por se tratar dessa Grande Senhora, " Guilhermina Suggia". O fascínio pela sua vida começou há dois anos quando passava na rua da Alegria e Marquês, no Porto e o meu pai me mostrou a casa de uma violoncelista portuguesa, de renome internacional.
Aquele ar desprezível da casa, com as cortinas certamente de origem a esvoaçar, foi motivo de diálogo em família, sobre o menosprezo que no nosso país se dá a grandes vultos, elogiando figuras fúteis e sem qualquer valor moral, artístico, cultural, ex. "Residentes do Big ...".

Brevemente terei de realizar a minha prova de aptidão profissional (PAP), para conclusão do curso de instrumento nesta escola. Gostaria de tratar a vida e obra de Guilhermina Suggia.

Gostaria e agradecia que me dessem directrizes para pesquisa de materiais sobre a celebridade em questão.
Também gostaria que me informassem sobre a editora dos livros “Guilhermina Suggia - A sonata de Sempre” e “Guilhermina Suggia ou o Violoncelo Luxuriante”, de Fátima Pombo.
Grato pela colaboração que me estão a prestar já com esta página e por se fazer jus a tão notável Senhora.
Com os melhores cumprimentos e ao vosso dispor

josé joão.

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maio 12, 2004

CONCERTO A FAVOR DAS VÍTIMAS DE CICLONE de 1941

Em 1941 pedem-lhe a presença musical num concerto de caridade e Suggia acede.

Lisboa, 21 de Março de 1941
Minha Ilustre Senhora.
Pela segunda vez venho fazer um apelo a V. Exª.
Na primeira vez, quando eu era ministro em Bruxelas, não permitiram as circunstâncias que V. Exa. honrasse com a sua eminente participação a festa em honra do Rei da Bélgica.

Hoje, venho como director do «Diário de Notícias» e membro da Comissão Nacional, nomeada pelo governo, de auxílio às vítimas do ciclone do dia 15 de Fevereiro, pedir-lhe que dê o alto prestígio da sua colaboração e do seu nome a um concerto no Teatro de S. Carlos, em benefício dos que, no terrível sinistro, tudo ou quase tudo perderam e se encontram na miséria.

Tenho a certeza de que o seu grande coração não foi insensível à desgraça que feriu, n'este momento, tantos portugueses e que o seu espírito acompanha o movimento patriótico de socorro, creado em torno do possível reparar d'essas dores.
Por isso, me atrevo a apresentar a V. Exª a minha solicitação certo do seu bom e magnânimo acolhimento.
Se V. Exª anuir a este desejo, ser-lhe-á previamente submetido todo o programa do concerto, que será uma alta manifestação de Arte.

A. data da sua realização deverá ser o mais aproximada possível, mas deixo a V. Exª fixá-la.

Com antecipados agradecimentos e as minhas desculpas, peço a V. Exª que me creia de V. .Exª admirador de sempre,

Augusto de Castro

do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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maio 11, 2004

CARTA A FILIPE LORIENTE

Telefone 552
Rua D’Alegria, 665
Porto- Portugal

27/5/1944

- Estas linhas escritas a correr –

Exmo Senhor Loriente,
Quando hoje me perguntou se queria alguma coisa para Lisboa, esqueci-me de lhe pedir para indagar quando começam os concursos de violino e lembrar-lhe a peça de concurso de Szimanowski para a Dona Ester Andrade de Melo conferir com o manuscrito – Também gostava de saber como vai o Carlos Figueiredo e dizer-lhe que gostaria que ele viesse ao Porto antes da orquestra para eu o ouvir, e a quem peço lhe faça os meus melhores cumprimentos para ele e esposa.


Se falar com a Dona Aida Torres a quem também envio lembranças diga-lhe que a Pilar vai bem e espero que se note grandes progressos em breve.
Espero que tenha feito boa viagem e que não se esqueça das minhas múltiplas notações, que estou sempre insatisfeita, a começar comigo mesma, sempre desejosa de atingir um ideal cada vez mais sublime; tenho as melhores esperanças a seu respeito mas ainda há muito que trabalhar e da sua parte muito suor a enxugar.
Até quinta-feira, 3h.
Com os meus cumprimentos de admiração pelo seu talento e um dia de anos muito feliz,

Guilhermina Suggia Mena
PS – Lembranças a Dona Irene Diniz, que muito breve lhe escrevo a felicitá-la

(cedida pelo Prof Henrique Fernandes)


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maio 10, 2004

ENTREVISTA DE CELSO DE CARVALHO A D.JOÃO DA CAMARA (EXCERTO)

Um dos discípulos preferidos de GUILHERMINA SUGGIA foi o Professor Celso de Carvalho. Transcreve-se aqui algumas passagens de uma entrevista por ele concedida à Emissora Nacional, num programa produzido por D. João da Câmara e radiodifundido em 30 de Julho de 1974:

D. João da Câmara: Faz hoje 24 anos que faleceu Guilhermina Suggia, uma grande violoncelista portuguesa, que fez carreira em todo o Mundo: uma longa carreira, sempre em lugar de primeiro plano, e que viria mais tarde a fixar-se no Porto, exercendo aí uma notável acção pedagógica que contribuiu decisivamente para a formação de alguns dos nossos melhores violoncelistas.
O Celso de Carvalho foi um desses escolhidos, por isso, peco-lhe que recorde para nós a grande artista.

Celso de Carvalho: Não é sem emoção que recordo esse relacionamento. A minha convivência com Guilhermina Suggia foi marcada principalmente pela oportunidade de poder ser seu discípulo. Pude assim conhecer e apreciar mais de perto a sua rica personalidade, tão fértil em valiosos conhecimentos, como no bom acolhimento que me dispensou.
Em cada lição vivia a proximidade da sua arte. Era como se o tempo se tivesse dilatado e ganhasse uma nova dimensão.

D. João da Câmara: Foi um trabalho regular ou teve interrupções?

Celso de Carvalho: Por essa altura, Suggia estava a residir no Porto com mais frequência e a série de lições que em princípio se tinha combinado foi-se prolongando e veio a durar três anos.

D. João a Câmara: Esse trabalho continuado revela, evidentemente, um interesse da mestra pelo discípulo.

Celso de Carvalho: É verdade. Esses três anos representaram para mim um alto benefício pois, de facto, devo-lhes a melhor parte da minha formação artística.

D. João da Câmara: Seria interessante que nos revelasse alguns aspectos do modo como decorriam as lições.

Celso de Carvalho: Guilhermina Suggia como Mestra era também uma pessoa excepcional, não só pelo valor dos ensinamentos mas, sobretudo, pela sua capacidade de os transmitir.
Por exemplo: durante as lições ela nunca se preocupava com o decorrer do tempo previamente estabelecido, estava sim preocupada em que as coisas se aperfeiçoassem e fossem conseguidos os melhores resultados possíveis.
Um dos aspectos mais importantes dessas lições resultava do hábito de se sentar junto do aluno e, servindo-se sempre de um dos seus magníficos violoncelos, corrigir e exemplificar aquilo que julgava necessário, deixando-se, muitas vezes, levar pelo gosto de concluir uma frase ou até a própria obra.
Eram esses os grandes momentos em que me era dado seguir o seu pensamento, admirar mais de perto a sua mestria.

D. João da Câmara: Falemos agora de outro aspecto da sua personalidade. Guilhermina Suggia era uma pessoa com muito interesse; muito agradável, de disposição alegre e comunicativa.

Celso de Carvalho: E também de uma grande simplicidade. Ocorre-me relatar alguns factos que o testemunham bem.
A sua popularidade no Porto, estendia-se até ao Mercado do Bolhão (o mais famoso da Cidade) onde, diariamente, fazia as suas compras discutindo os preços com as vendedeiras a quem, de seguida, oferecia bilhetes para os seus concertos.
Ou então, estando hospedada no Palácio-Hotel do Buçaco, uma tarde apareceu inesperadamente, com o seu violoncelo, na pequena sala privativa onde os músicos do Sexteto que tocava no Hotel principiavam a jantar. Com a maior naturalidade disse-lhes: «Vocês tocam para nós enquanto tomamos as refeições; hoje venho eu tocar para os meus colegas e amigos — é a lei das compensações», e sentando-se presenteou-os com algumas peças do seu vasto repertório.
Recordo-me ainda que, quando se apresentava com a Orquestra Sinfónica do Porto, onde fui solista do naipe de violoncelos, muitas vezes me pedia que fosse ouvi--la da plateia, querendo saber de imediato a minha opinião sobre o que acabara de realizar. E, certa vez em que o Maestro pretendia continuar o ensaio enquanto trocávamos impressões, ela retorquiu-lhe que esperasse, pois tinha em muita consideração as minhas observações.
Eram assim as suas reacções: tinha dentro de si aquela aguda e fina sensibilidade, sem a qual não se é verdadeiramente um grande artista.
Um concerto representava sempre para ela uma grave preocupação: «Para tocarmos em público (confessava muitas vezes) queimamos os nossos nervos».

D. João da Câmara: Suggia era a menina-bonita do Porto.

Celso de Carvalho: Sem dúvida. Quando, em 1948, a Orquestra Sinfónica do Porto fez a sua primeira apresentação em público — no Teatro Rivoli — foi ela a solista escolhida. As intermináveis ovações que culminaram a sua actuação eram também de reconhecimento pela grande influência que exercera para que se concretizasse aquela realidade que se oferecia à Cidade do Porto — ter uma Orquestra Sinfónica.
Quero ainda dizer quanto lamento não existir em Portugal um único disco seu em boas condições técnicas (no apogeu da sua carreira estávamos ainda muito longe dos actuais processos de gravação) de modo a que nos fosse dado guardar em toda a sua plenitude o raro prazer de a ouvir. . .»


de "PONTO E CONTRAPONTO". Revista da Academia de Música de Santa Cecília

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maio 09, 2004

APRÈS UN RÊVE, de ANTÓNIO CARNEIRO

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POSTAL A FILIPE LORIENTE (SEU ALUNO, DE LISBOA)

Porto, 4/3/1946

Rua da Alegria, 665

Duas linhas para lhe dizer que cá o espero na sexta-feira próxima, dia 8 a partir das 10 horas da manhã e nos dará prazer, a mim e ao meu marido, de ficar para almoçar após a lição, tendo depois a sua tarde livre para o que desejar fazer até a partida do rápido.
Agradecia um p.c. dizendo-me se aceita este convite.
Com os nossos melhores cumprimentos para sua esposa e muitas felicidades

Guilhermina Suggia Mena

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maio 08, 2004

FUNDO PARA O VIOLONCELO

FUNDO PARA O VIOLONCELO
EM MEMÓRIA DE GUILHERMINA SUGGIA

O Fundo foi criado para dar cumprimento a um último desejo expresso por Guilhermina Suggia, quando esta se encontrava em Inglaterra pouco antes da sua morte.
O Fundo é composto por uma bolsa de capitais de cerca de 10.000 libras esterlinas e engloba os bens que Guilhermina Suggia possuía em Inglaterra.
Destinado a ser utilizado em benefício dos estudantes de violoncelo e, particularmente, dos jovens músicos que pretendam vir a ser artistas a solo.

O Fundo foi colocado sob a responsabilidade do Conselho Artístico da Grã-Bretanha, que foi nomeado ser Administrador juntamente com outras instituições e individualidades. Os Administradores podem atribuir bolsas aos estudantes de violoncelo, destinadas a cobrir as suas despesas com os estudos e a formação técnica.

REGULAMENTO do “Fundo para o Violoncelo em memória de GUILHERMINA SUGGIA”

1 – Só serão consideradas candidaturas de estudantes excepcionalmente talentosos, susceptíveis de serem considerados detentores de qualidades potenciais de um músico a solo de primeira classe.

2 – São elegíveis estudantes de qualquer nacionalidade, desde que tenham idade inferior a 21 anos. Os Administradores considerarão as candidaturas de estudantes muito jovens que ainda se encontrem a receber educação geral, em instituições privadas ou particulares, desde que correspondam ao preceituado em 1.

3 – O estudo ou formação para os quais o auxílio financeiro seja oferecido podem ser levados a cabo em qualquer instituição de educação musical reconhecida, ou com um professor particular, no Reino Unido ou no estrangeiro, mediante a aprovação dos Administradores.

4 – Serão concedidas audições somente aos candidatos cujas credenciais escritas satisfaçam os Administradores.

5 – As audições terão lugar em Londres, sendo os candidatos responsáveis pelas despesas resultantes da sua participação nas mesmas.

6 – As candidaturas deverão ser apresentadas em formulário próprio e acompanhadas de duas cartas de recomendação subscritas por músicos profissionais, um dos quais deverá ser professor de violoncelo.
Todas as candidaturas deverão ser remetidas para: The Music Director, The Arts Council of Great Britain, 4, St James’s Square, London, S.W.I.

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maio 07, 2004

TESTEMUNHO DE UM LEITOR, EX-ALUNO DO CONSERVATÓRIO DO PORTO

É sempre bom existirem pessoas preocupadas na divulgação de personalidades Portuguesas que na área da Música notabilizaram Portugal, quer no ensino e divulgação Musical Nacional, quer na vertente do seu contributo para o Mundo!

De facto, não ficava indiferente quando eu tinha algumas aulas de Piano na Sala Guilhermina Suggia no Conservatório do Porto (onde nos anos 90 ainda existia o seu Violoncelo numa "Cúpula de vidro"!...será que ainda lá está...?).

Ainda na semana transacta eu estava a falar com uma personalidade Diplomática em Genève (por razões profissionais) e veio à conversa o nome desta violoncelista e particularmente o do Mestre Vianna da Motta (que foi professor naquela cidade com notável êxito)!
Claro que a minha satisfação aumentou uma vez que tirei o Curso Superior de Piano no Porto com a mais notável discípula do Mestre (na minha humilde opinião) Maria Manuela Araújo!!!

Não querendo fugir ao seu assunto, deixo o meu testemunho do exame final com a máxima classificação do José Augusto Pereira de Sousa , com o acompanhamento deslumbrante de Manuela Araújo!

Por fim deixe-me registar-lhe que visitando o Conservatório do Porto poderá ver Salas com o nome da Guilhermina Suggia, da Manuela Araújo e o Salão Nobre com o de Vianna da Motta!


Manuel Pimentel Fonseca


Meu Caro senhor,
Agradecemos as suas simpáticas palavras que acabam por ser um estímulo para continuarmos este nosso trabalho.

Quanto ao violoncelo Montagnana que GUILHERMINA SUGGIA deixou em testamento para ser instituído o prémio SUGGIA, a ser atribuído anualmente ao melhor aluno da classe de violoncelo do Conservatório de Música do Porto melhor fora que, tal como o Stradivarius, o deixasse a Inglaterra. Digo isto não com anti-patriotismo, porém com muita mágoa. O Montagnana é, segundo os entendidos, um instrumento equiparado em tudo (mesmo no preço) ao Stradivarius. Suggia deixou o desejo expresso no seu testamento de que o violoncelo fosse vendido pela CMPorto – de quem dependia nessa altura o Conservatório de Música do Porto, e com o produto dessa venda fosse instituído o prémio. Caso o Conservatório deixasse de estar sob a alçada da CMPorto a administração do bem passaria para a entidade que o tutelasse para que o prémio continuasse a ser atribuído.
A Câmara Municipal do Porto estipula um valor de 550 contos ao violoncelo, faz uma compra, que evidentemente não é paga (Se estou errado que alguém me corrija) e em 53 anos (Suggia morreu em 30/7/1950) o prémio é atribuído 5 vezes. CINCO VEZES! O valor do prémio foi o correspondente a 3% da importância dada pela CMPorto ao violoncelo.
O Montagnana que, apesar de não ter sido pago (que me corrijam se estou enganado) é legalmente propriedade da CMPorto, que o tem fechado num cofre-forte no Museu Soares dos Reis, sem ser visto e, o mais importante, sem ser tocado. Está provado por técnicos especializados que a inactividade dos instrumentos prejudica o seu som. Quem e como se pode resolver isto?
Será que as autoridades não entendem que um bem como o Montagnana não é propriamente a coroa do D. João V? Deve ser usufruído por violoncelistas e público. E as decisões testamentárias devem ser cumpridas, sob pena de sermos desleixados, corruptos, traidores. A memória de quem tanto honrou este país merece respeito.
Oxalá nós merecêssemos os valores que nos honram. A sua memória ainda honra o seu país! Que nós o sentíssemos como sentem os ingleses!

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maio 06, 2004

TESTEMUNHO DO PROF HENRIQUE FERNANDES

Foi no Inverno de 1943 que tive a oportunidade de, pela primeira vez e ao vivo, ouvir GUILHERMINA SUGGIA.

Nessa noite memorável, com foros de acontecimento excepcional no meio musical lisboeta, no Teatro Nacional de S. Carlos, apresentava-se a consagrada violoncelista ao lado de outro grande intérprete, o maestro Sir Malcolm Sargent, que dirigia a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional.

Num deslumbramento dificilmente descritível, admirei a sua versão do Concerto de Dvorak, revelado numa plenitude de recursos tão exuberantemente demonstrados no arrebatamento das passagens brilhantes, como na contenção inteligente das páginas mais íntimas.

Esta emoção repetiu-se alguns anos depois quando me foi dado assistir a um recital seu onde incluía no programa, além de outras obras, a Sonata em Lá maior, de César Franck, na sua versão original para violoncelo solo, a 3.a Suite para violoncelo solo, de J. S. Bach (o seu autor predilecto) e ainda a Dança Ritual do Fogo, do Bailado «O Amor Bruxo», de Manuel de Falla.

Afortunadamente, ofereceu-se-me assim o ensejo de apreciar algumas das suas realizações mais instantemente reclamadas e aplaudidas por todos os auditórios.
Escusado será dizer que, a partir de então, não mais esqueci o fascínio dessas interpretações.
E quem poderia esquecer a perfeição da sua técnica que tudo vencia sem esforço aparente?
Como esquecer a incomparável sonoridade conseguida através de um soberbo e elegante domínio do arco?
O vigor do seu estilo inconfundível, misto de paixão, sensibilidade e inteligência?
E, enfim, a sua presença senhoril, dominando o palco e a assistência, tal como a imortalizou no magnífico quadro da «Tate Gallery», de Londres, o pintor Augustus John.

A grande violoncelista exerceu também a nobre missão de ensinar e transmitir a outros a sua arte, o seu saber.

Guilhermina Suggia tinha o dom de nos elevar ao sublime com uma inata capacidade de exprimir a essência da música, como se ela própria e o violoncelo fossem um só corpo vibrando em uníssono!

Henrique Fernandes (violoncelista e professor de violoncelo)

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maio 05, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL-Conc de 25/1/1943

S. CARLOS— Não há palavras que possam descrever o ambiente de arte e de entusiasmo que reinou no terceiro e último concerto de GUILHERMINA SUGGIA e Malcolm Sargent.

Se do primeiro para o segundo já se sentira um crescendo de vibração, a diferença em relação ao de ontem, ainda mais se acentuou, talvez por ser a despedida da nossa inigualável compatriota, que tão raras vezes ouvimos, e do notável regente britânico tão aplaudido nas inesquecíveis noites que ficámos devendo ao Círculo de Cultura Musical.
O programa tinha uma feição marcadamente inglesa, pois que até os dois mestres alemães nele incluídos: Haëndel e Haydn, estão longe de poder ser considerados estranhos à Inglaterra.
O arranjo que sir Hamilton Harty fez da «Water-Music”, de Haëndel, é um modelo de rara aliança do bom efeito orquestral, moderno, com o respeito pelo estilo antigo.

Seguiu-se mais uma interpretação do admirável concerto de Elgar para violoncelo e orquestra, que na primeira audição alcançara um triunfo e ontem obteve um êxito, se é possível, ainda maior.
O génio de GUILHERMINA SUGGIA, o admirável dom que a divina artista possui de fazer dos sons musicais uma linguagem tão explícita como a falada ou escrita, brilharam, mais que brilharam, cintilaram, nesta obra, cheia de recitativos e de melodias de intensa expressão.

A «Fantasia sobre um tema de Fallis» de Vaughan Williams, importante primeira audição deste programa, apresenta-nos o maior compositor inglês contemporâneo, na sua maneira mais característica, apoiada no classicismo e no modalismo dos compositores seus compatriotas do século XVI. O tema quinhentista de Fallis é enquadrado e desenvolvido por processos modernos, com admirável valorização da sonoridade da orquestra de arcos e sem nada perder da sua cor. O maestro Sargent dirigiu esta obra com profunda emoção e rematou-a com admiráveis cambiantes dinâmicos.

No célebre concerto em ré maior, de Haydn GUILHERMINA SUGGIA, venceu brincando as dificuldades acumuladas: os repetidos passos em «capotasto», as notas vertiginosamente agudas, fora da extensão do ponto, os desenhos rapidíssimos, as notas dobradas, todo o mais espinhoso repertório da técnica do violoncelo, desfilou diante dos nossos ouvidos encantados, com a facilidade da água corrente. As ovações que já tinham sido largas e calorosas, ao terminar o concerto de Elgar, foram ainda mais entusiásticas no fim do de Haydn, sendo a incomparável artista obrigada a vir vezes sem fim ao proscénio, rodeada de flores.

A ópera «Romeu e Julieta», de Delius da qual foi extraído o trecho sinfónico ontem ouvido em primeira audição com o título de «Jardim do Paraíso», não é o drama de Shakespeare, mas a novela do escritor suiço-alemão Gottfried Keller. Os noivos designados simbolicamente pelos nomes shakespeareanos são dois jovens camponeses, que, por não poderem casar, se suicidam. O «Jardim do Paraíso» que não é uma peça triste mas um trecho de expressão ao mesmo tempo sóbria e transfigurada descreve o caminhar dos noivos para a morte.
O maestro Malcolm Sargent pôde nesta partitura, dar a plena medida da sua arte, em que a inteligência se alia à sensibilidade.
No trecho seguinte, que terminava o programa o maestro Sargent mostrou a ductilidade do seu talento, passando do sentimento estático de Delius para a exuberância realista da abertura, «Cockaigne», de Elgar composta em louvor da cidade de Londres e dos seus habitantes.

Foram delirantes, apoteóticas as ovações tributadas ao maestro dr. Malcolm Sargent. Deixa este eminente chefe de orquestra em Portugal milhares de admiradores entusiastas, que esperam ter brevemente ensejo de o tornar a aplaudir. É um intérprete moderno que se encontra, igualmente à vontade nos estilos barrôco e romântico, movendo-se com pasmosa facilidade no meio das mais intrincadas complicações, sucessivas e simultâneas, de ritmos desusados e de acordes dissonantes Tem sobretudo a virtude de tornar clara toda a musica que dirige. Foi portanto plenamente justificado o triunfo do maestro Sargent e cremos que não leva má impressão nem do publico de Lisboa nem da Orquestra Sinfónica Nacional, que neste concerto continuou a realizar maravilhas.—F. B.

"O SÉCULO" de 25 de Janeiro de 1943

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maio 04, 2004

EDIÇÕES DE GRAVAÇÕES DE SUGGIA

Em 1988 a EMI RECORDS LTD- Hayes Middlesex-England fez a edição em vinil do LP ref "mono EH 7 61083 1" sob o título de " A Centenary Tribute to MADAME SUGGIA". Supostamente homageava o centenário do nascimento de Suggia. (Suggia nasceu em 1885 e não em 1888 como é referido no LP e na maior parte dos dicionários de música ingleses)

O LP contém as seguintes gravações efectuadas entre 1927 e 1930:

-de BENEDETTO MARCELLO - Largo e Allegro da Sonata nº 3 em Ré c/ George Reeves no piano
-de G.B.SAMARTINI - Sonata in Sol maior, c/ George Reeves no piano
-de FRANCESCO GUERINI - Allegro con brio, c/ George Reeves no piano
-de CAMARGO - Moto perpétuo, c/ Reginald Paul no piano
-de SAINS-SAËNS -Minuet de Concerto para violoncelo nº 1 in La menor op 33, c/ orquestra n.n. dirigida por Lawrance Collingwood
-de LALO - Intermezzo de Concerto para violoncelo in Ré Menor, c/ orq n.n. dirigida por Lawrence Collingwood
-de FAURÉ - Elégie in Do menor op 24, c/ Reginald Paul no piano
-de RAVEL - Pièce en forme de Habanera, c/ George Reeves no piano
-de HAYDN - Concerto para violoncelo in Ré H VIIb:2 (op101), c/ orquestra n.n. dirigida por John Barbirolli
-de MAX BRUCH - Kol Nidrei op 47, c/ orq. n.n. dirigida por Lawrence Collingwood


Em 1992 a Editora PEARL fez a edição de uma caixa com 3 CD, refª "GEMM CDS 9981-3", intitulada " THE RECORDED CELLO- VOLUME I - The history of the recording of the world's finest cellists up to the early post-war years, including: CASALS, ROSTROPOVICH, ROSE, SUGGIA, PIATIGORSKY, MAINARDI, SADLO, KNUSHEVITZKY,CASSADÓ, MILLER, SALMOND, de MACHULA, SHAFRAN.

SUGGIA interpreta nesta edição, de SINIGAGLIA - Humoresque (gravação de 1924)

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CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL- Conc de 25/1/1943

TEATRO DE S. CARLOS – Círculo de Cultura Musical
Concerto de 25/1/1943

A série de concertos da iniciativa do Círculo de Cultura Musical para a apresentação entre nós da moderna música inglesa, terminou ontem, com o mesmo êxito dos anteriores.

É evidente que a revelação da cultura musical de um país numa representação de tantos autores modernos, em obras desconhecidas, como Holst, Walton,Williams, Delius, Elgar, etc. grandes compositores Mestres da orquestra moderna, demais dados na versão fidelíssima de um Maestro também inglês, não podia deixar de constituir, - porque se trata de obra de vocação – o facto principal, o primeiro plano, de todas essas manifestações culturais. E só depois do aspecto criador, - o da revelação de tantas obras – deveríamos considerar o aspecto interpretativo. Foi o que fizemos, porque o contrário seria admitir o absurdo. “A obra é única”. Os diversos intérpretes chegam depois . Oxalá essa lição dada em três concertos por “um” grande e competente maestro inglês, - lição de amor à cultura musical da sua terra – sirva de exemplo.

Fez Malcom Sargent, em três concertos, o que normalmente, em anos de trabalho muitos não conseguem. Ontem Malcom Sargent tocou as seguintes obras: “Música Aquática de Haendel-Harty; “Fantasia” de Williams; “No Jardim do Paraíso” de Delius; e a abertura de Elgar “Cockaigne”. As páginas de Delius são delicadíssimas, repassadas de um ambiente poético delicioso. As de Williams são de facto do mais forte sinfonista inglês contemporâneo.

A “Abertura” de Elgar deu um final esplendoroso e brilhantíssimo a estes festivais. Está cheia de melodias bem traçadas de grande colorido e de ritmos francos.

GUILHERMINA SUGGIA tocou novamente o concerto de Elgar, ouvido num concerto anterior e o concerto de Haydn. Esta notável intérprete a que chamamos numa das nossas impressões “a grande artista de sempre”, continuou ontem à noite a sua posição de excepcional artista. Que poderemos acrescentar? Que o público não se fatigou de aplaudir, em chamadas repetidas e intermináveis, o Maestro Malcom Sargent, GUILHERMINA SUGGIA e a Orquestra Sinfónica Nacional. – RUY COELHO

Diário de Notícias 26 de Janeiro de 1943

Publicado por vm em 12:29 AM | Comentários (1)

maio 03, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL- Conc 22/1/1943

S. CARLOS—O concerto de ontem foi ainda mais apoteótico que o de antes de ontem, o que é elogioso para o público de Lisboa, visto o programa de ontem ser de compreensão bem mais difícil e conter nada menos de três primeiras audições. Foram elas: «Ouvindo o primeiro cuco na primavera», de Frederick Delius, «Concerto» para violoncelo e orquestra, de Edward Elgar. e «Sinfonia», de William Walton.

O requintado talento do compositor inglês Delius falecido há apenas oito anos, está destinado a uma carreira feliz em Portugal. O supremo bom gosto que pôs em tudo o que escreveu torna-o querido nos países latinos amigos da delicadeza e da justa proporção. A peça ontem ouvida em primeira audição é um delicioso quadro de ar livre, inteiramente original e diferente desses outros quadros campestres ou florestais que são: o «Siegfried-Hyll». de Wagner; a «Noite de Verão», de Kodaly; a «Tarde de um Fauno», de Debussy; e a «Pastoral», de Honnegger. O maestro Sargent dirigiu-a com elevada sensibilidade.

O «Concerto», de Elgar. é maravilhosamente concebido segundo a índole expressiva do violoncelo, mais romântico do que o concerto de violino do mesmo autor, mais livre na forma e orquestrado de modo a nunca abafar, o que não é fácil, a tessitura grave do Instrumento. A liberdade da forrna e o sentimento romântico tornam a obra difícil de interpretar, e não é possível imaginar-se uma interpretação ao mesmo tempo mais clara e mais cheia de fantasia, de a que ontem ouvimos. Quanta à sinfonia de William Walton pasma-se que uma tão densa floresta de sons, uma das mais titânicas concepções musicais dos últimos tempos, sejam obra de um compositor de trinta anos. de um debutante na forma da sinfonia. A obra, que dura 45 minutos, consta do primeiro andamento rápido, de «scherzo», de andamento lento e de final rápido, quatro andamentos, como se vê, mas tratados sem qualquer preocupação tradicional, nem mesmo clássica. É uma obra monumental. como dissemos, essencialmente rítmica e dionísica, escrita por processos melódicos, harmónicos e contrapontísticos, inteiramente aparte dos habituais.

Completavam o programa a «Abertura de Londres», de John Neland, e as «Variações sinfónicas», de Boëllmann, para violoncelo e orquestra.

Para GUILHERMINA SUGGIA não encontramos outra classificação do que a que davam os antigos às grandes cantoras, à Todi, por exemplo, que, como SUGGIA era especialista no canto largo, ou, como então se dizia, no canto «spianato»: GUILHERMINA SUGGIA é uma deusa, é a deusa da arte que sabe traduzir a vida no que ela tem de mais profundo, no amor e na dor. O público mais uma vez vibrou intensamente nas variações de Boëllmann e sentiu, logo à primeira audição, todas as belezas do concerto de Elgar, que teve acolhimento entusiástico.

Como os aplausos não cessassem, a nossa genial compatriota veio gentilmente ao proscénio desculpar-se de não poder bisar devido à extensão do programa.

O maestro dr. Malcolm Sargent alcançou um merecido e grande êxito pessoal. Compartilhou com SUGGIA da vitoria da nobre partitura de Elgar. Foi brilhantíssimo na abertura de Ireland e na dificílima sinfonia de Walton provou ser um grande chefe moderno, que sabe tornar claras e expressivas as maiores complicações rítmicas e polifónicas. A espantosa ovação que acolheu Malcolm Sargent ao terminar a sinfonia deve deixar-lhe grata recordação. As chamadas foram Inúmeras, e o publico parecia não querer abandonar a sala.

A Orquestra Sinfónica Nacional elevou-se à máxima altura e por várias vezes foi distinguida com os aplausos especiais do público electrizado. — F B.

“O SÉCULO, 23 de Janeiro de 1943

Publicado por vm em 12:23 AM | Comentários (0)

maio 02, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL-CONCERTO 22/1/1943

TEATRO NACIONAL DE S. CARLOS
Círculo de Cultura Musical – 22/1/1943

O segundo concerto dirigido pelo maestro inglês Malcolm Sargent, no Teatro de S. Carlos, realizou-se ontem com um programa – com excepção das “Variações” de Boëllman – consagrado à música sinfónica inglesa só para orquestra e para “celo” e orquestra.

O Círculo de Cultura Musical proporcionou assim aos seus sócios o conhecimento directo de algumas obras mais representativas de Ireland, autor da “Abertura Londres”, de Walton, autor da Sinfonia que fechou o programa, de Delius, autor da “Primavera”, e de Elgar, autor do concerto para violoncelo e orquestra. Este facto de revelação de tantas obras da escola inglesa ao nosso público, merecia largas referências, tanto mais que, por exemplo, só a Sinfonia de Walton, pela sua vastidão, pelo sentido estético, pelo vigor da paleta orquestral, não pode ser comentada com a mesma ligeireza com que se comenta as “Variações” de Boëllman.

Há nesta Sinfonia o momento culminante de todo o programa – num esforço para evitar o lugar comum, na expressão, no ritmo, na côr, e em todos os elementos instrumentais.

Como no concerto anterior, GUILHERMINA SUGGIA esteve como solista e tocou, além das “Variações” de Boëllman, o concerto de Elgar, conservando-se, como era natural, à altura do nome que há muito conquistou.

A orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, sob a direcção nítida e viva do Maestro Malcolm Sargent, especialmente na obra realmente dificílima que é a Sinfonia de Walton, foi digna do título que usa. – RUY COELHO

Diário de Notícias, 23 de Janeiro de 1943

Publicado por vm em 01:00 AM | Comentários (0)

maio 01, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL-conc 21/1/1943-Outra crítica

S. CARLOS— o décimo concerto do Círculo de Cultura Musical na temporada presente merece ficar assinalado na história dos concertos sinfónicos em Portugal. O reaparecimento da divina GUILHERMINA SUGGIA e a estreia de um notável regente moderno, o maestro inglês Dr. Malcolm Sargent, asseguraram a este espectáculo o êxito apoteótico que de facto o acolheu.

A genial artista portuguesa que electriza o público logo ao aparecer no estrado mais uma vez vincou a música, mais uma vez fez cantar o seu soberbo «Stradivarius» com inflexões que mais parecem de uma voz
humana do que de um instrumento. A fantasia romântica e o "sentimento apaixonado do concerto de Dvorak, o elegante classicismo de Saint-Saëns encontraram em GUILHERMINA SUGGIA uma intérprete igualmente perfeita arrancando ovações delirantes ao terminar estas obras capitais da literatura do violoncelo.

Quem esperar a fleugma britânica na regência do maestro Malcolm Sargent enganar-se-á redondamente. É um chefe de Orquestra intenso, fogoso mesmo, sem deixar de ser elegante nas atitudes e nos gestos. "Acompanhou excelentemente os dois concertos e dirigiu com mestria a abertura «As vespas», de Vaughan Williams a terceira sinfonia de Brahms e um bailado de Holst rico de imprevisto rítmico e de instrumentação. É uma das melhores obras modernas inglesas que temos ouvido e o maestro Sargent dirige-a admiravelmente . A guerra actual e os seus horrores não impediram que o maestro Malcolm Sargent incluísse no programa de ontem uma obra alemã. Registamos o facto com o aplauso que merece tão nobre procedimento.

A Orquestra Sinfónica Nacional ouve-se com infinito brilho, ocorrendo-nos salientar, entre outros momentos felizes a acção das trompas no concerto de Dvorak, o maestro Malcolm Sargent conquistou o público de Lisboa. Foi mais de meia dúzia de vezes chamado ao proscénio no final do concerto por entre frenéticas aclamações.

A direcção do Circulo de Cultura MUSICAL merece louvores pela Organização deste inesquecível espectáculo da mais pura arte. —F. B.


O SÉCULO, 22 de JANEIRO de 1943

Publicado por vm em 12:20 AM | Comentários (1)