abril 30, 2004

CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL-CONCERTO 21/1/1943

TEATRO NACIONAL DE S.CARLOS
Círculo de Cultura Musical - Concerto de 21/1/1943

O Círculo de Cultura Musical deu agora aos seus sócios, com o concerto realizado ontem em S. Carlos, um programa sinfónico, sob a direcção de Malcolm Sargent, um maestro inglês de grande reputação e que pela primeira vez dirige em Lisboa.

Aumentava ainda o valor inédito do programa a interpretação de algumas famosas obras inglesas desconhecidas entre nós e a audição da “3ª sinfonia” de Brahms, um dos monumentos da música. Malcolm Sargent conquistou aplausos justos e entusiásticos do público. De facto regeu com uma técnica que sabe colocar num plano superior as obras sem trair o pensamento dos autores, e conservou sempre as sonoridades orquestrais num ambiente de apurado bom gosto. A orquestra colaborou com verdadeiro “brio” profissional.

As obras inglesas possuem uma construção sólida, técnica firme, concisão e colorido.

Deve dizer-se que o interesse propriamente musical da noite manteve-se, particularmente, na monumental “Sinfonia” de Brahms e na primeira audição das páginas de Holst, um compositor que honra a moderna música inglesa.

GUILHERMINA SUGGIA foi a solista dos dois conhecidos concertos de Dvorak e Saint-Saëns.

É evidente que o concerto de Saint-Saëns apesar da interpretação brilhante de SUGGIA ficou numa posição débil, justamente pela “virtuosidade “ artificial, dado o contraste imediato com a “música pura” da “Sinfonia”. O mesmo se deu com o concerto de Dvorak, tão próximo das páginas modernas de Williams.

Isto não significa não ter sido GUILHERMINA SUGGIA a artista de sempre. – RUY COELHO

Diário de Notícias, 22 de Janeiro de 1943

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abril 29, 2004

3 NOMES GLORIOSOS

“...outros dois artistas que, como Vianna da Motta, têm adquirido nos centros artísticos mais cultos, um nome glorioso, mercê dos seus méritos que os distinguem, são o notabilíssimo cantor Francisco de Andrade e a insigne violoncelista D. GUILHERMINA SUGGIA.”

Do Livro “Os GRANDES PERÍODOS DA MÚSICA” de J. Neuparth, 1911

Publicado por vm em 12:18 AM | Comentários (0)

abril 28, 2004

AUTORIA DA CARICATURA DO CABEÇALHO DO BLOG

É, de facto, uma lacuna não estar referido o autor da caricatura das irmãs SUGGIA, que aparece junto ao nome de GUILHERMINA SUGGIA, no cabeçalho do blog.
É, para os que não sabem, AMADEU de SOUZA-CARDOSO.

A Propósito da mesma um texto de A Cunha e Silva que a seguir reproduzimos:

A caricatura sobre Guilhermina e Virginia Suggia feita pelo pintor Amadeo de Souza- Cardoso, representa no contexto deste levantamento sobre registos iconográficos, provávelmente (porque não mesmo?) o primeiro, dentro duma ordem cronológica, de que se tem conhecimento.
Curiosamente e para além desta particularidade, ganha também valor histórico e documental, porque nenhum outro – a não ser um fotografia em criança -, envolve as duas irmãs em concerto, em plena exibição.
Trata-se de um momento raro captado por um dos mais invulgares pintores portugueses do sec. XX.
Porém, uma dúvida persiste: a caricatura terá sido realizada em Paris ou Espinho?
O pintor Amadeo de Souza-Cardoso, chegou a Paris em Novembro de 1906 e nesta altura Suggia vivia em Auteuil, perto de Paris, zona muito procurada pelos pintores e artistas em geral. Guilhermina Suggia estava com Pablo Casals com quem tinha casado recentemente, facto que Amadeo não desconheceria, porque os artistas portugueses a viver em Paris contavam-se pelos dedos e como por outro lado o pintor tinha suficiente poder económico, isso permitia-lhe desafogadamente participar nos acontecimentos mundanos da vida parisiense, assim participando do mesmo meio que o casal Suggia.
Durante o ano de 1907, o pintor realizou um conjunto assinalável de caricaturas, que publicou no jornal “O Primeiro de Janeiro”, período que marca também o início do reconhecimento do percurso de Amadeo como pintor. “...A atracção de Amadeo pela caricatura, prende-se com o terreno propício da vida parisiense de então, e onde proliferavam os jornais humorísticos, entre 1907 e 1909. Para além do estudo da Arquitectura e Pintura – motivo pelo qual seguiu para Paris -, Amadeo entregou-se com entusiasmo” - confirmam os seus biógrafos, a praticar esta forma de arte: a caricatura.
Neste espaço de tempo temos a notícia do concerto em Paris, na Salle Gaveau, a 15 de Março de 1908, de Guilhermina Suggia e é de admitir que terá sido nesta ocasião que Amadeo registou o acontecimento.
Rebelo Bonito, a quem se deve a primeira divulgação desta imagem, num artigo publicado no “Tripeiro”, nada adianta sobre a origem do desenho de Amadeo.
A caricatura apresenta um terceiro personagem. Será Pablo Casals?
Comparando com fotografias da época não é despropositado.
Será Léon Richon? Marido de Virgínia Suggia e livreiro e editor parisiense.
A personagem em causa, equilibra a composição do desenho, criando profundidade e simultaneamente determina que se trata de um local de concerto, a avaliar pelo rigor das “toilletes”, daí admitir como mais provável tratar-se da Salle Gaveau, em Paris.
A Cunha e Silva

Publicado por vm em 04:46 PM | Comentários (0)

TESTEMUNHO DE ISABEL CERQUEIRA MILLET(violoncelista, aluna de G.SUGGIA)

Porto, 26 de Abril de 2004

É com grande prazer que escrevo algumas palavras sobre a grande artista que foi GUILHERMINA SUGGIA.

Foram 11 anos (de 1939 a 1950), em que tive momentos de grande emoção e beleza, tanto ouvindo os seus concertos, como assistindo a inesquecíveis ensaios, em que era acompanhada pelas pianistas Ernestina da Silva Monteiro ou Maria Adelaide Freitas Gonçalves, suas colaboradoras habituais.

Nunca poderei esquecer a sonoridade única e expressiva, que fazia vibrar de emoção quem a escutava.

Extraordinariamente extrovertida quando interpretava, por exemplo, Dvorak ou M. De Falla, etc., mas também contida e mesmo severa nas sonatas de Beethoven, Brahms, ou as suites de Bach.

É impossível não mencionar também as suas lições em que a par de uma grande exigência interpretativa, nos ajudava a resolver as nossas dificuldades com conhecimento ímpar.

Foram 11 anos que terminaram com a sua morte, em que pude não só admirá-la como Artista, mas também como grande amiga que tive a sorte de conhecer, e que fez com que toda a minha vida tenha sido dedicada ao violoncelo.

ISABEL CERQUEIRA MILLET (violoncelista, aluna de Guilhermina Suggia)

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abril 27, 2004

ZARA NELSOVA


Publicado por vm em 12:23 AM | Comentários (0)

TESTEMUNHO DE ZARA NELSOVA

ZARA NELSOVA, violoncelista naturalizada americana, nascida em Winnipeg em 1918, descendente de pais russos, foi professora na Juilliard School e Rutgers University nos Estados Unidos e também na Royal Academy of Music , de Londres.

Eu sabia que após a morte de Guilhermina Suggia, num concerto em sua memória organizado pela Royal Academy of Music-Londres, ZARA NELSOVA tocou um andamento do Concerto de Elgar.

ZARA NELSOVA, violoncelista naturalizada americana, nascida em Winnipeg em 1918, descendente de pais russos, foi professora na Juilliard School e Rutgers University nos Estados Unidos e também na Royal Academy of Music , de Londres.

Eu sabia que após a morte de Guilhermina Suggia, num concerto em sua memória organizado pela Royal Academy of Music-Londres, ZARA NELSOVA tocou um andamento do Concerto de Elgar.

Depois das minhas deambulações pelo Porto em busca de documentos sobre SUGGIA, da casa onde viveu e morreu Suggia. Depois de me perguntarem se Guilhermina Suggia era um programa para computadores, de perguntar a dezenas de pessoas que me pareciam poderem saber onde morou Suggia e nem uma única sabia quem tinha sido GUILHERMINA SUGGIA, resolvi escrever a Zara Nelsova a/c de Juilliard School em jeito de desabafo, não pensando sequer numa resposta.

Passado cerca de um mês recebi a carta que transcrevo a seguir.
(Zara Nelsova viria a morrer em 23 de Outubro de 2002.)


“Os meus agradecimentos pela sua carta e as minhas desculpas pelo atraso na resposta.

SUGGIA foi uma das grandes intérpretes do seu tempo. Ouvi-a tocar quando eu tinha 10 anos de idade. Conheci-a pessoalmente em Londres cerca de um ano antes da sua morte. Ela ouviu-me tocar através da rádio de Londres o concerto de Schumann e encontramo-nos em casa de amigos comuns.

Arranjou-me concertos em Lisboa com orquestra e um recital no Porto. Infelizmente, morreu uma semana antes de eu chegar. Fui ao cemitério pôr flores no seu túmulo, com um grande desgosto.

Ela foi uma grande inspiração no mundo da música e deu enorme prazer a milhares de pessoas que a escutaram.

NÃO POSSO ACREDITAR QUE SEJA ESQUECIDA EM PORTUGAL! NO SEU PRÓPRIO PAÍS.
CERTAMENTE QUE NUNCA SERÁ ESQUECIDA POR QUALQUER VIOLONCELISTA QUE A TENHA ESCUTADO.

Zara Nelsova”


Publicado por vm em 12:21 AM | Comentários (0)

abril 26, 2004

RETRATO por BERTA ALVES DE SOUSA

Publicado por vm em 12:04 PM | Comentários (3)

QUE ME RECORDEM NO MEU MELHOR

A sua reputação como artista de primeira classe ficou agora estabelecida, e a sua carreira subsequente tem sido uma série ininterrupta de sucessos. Na sua arte existem poucos, na verdade muito poucos, um ou dois no máximo, que a igualem, e nenhum que a ultrapasse. É intenção de Suggia retirar-se completa e definitivamente do trabalho em concertos no preciso momento em que ela suspeite de uma negligente deterioração na sua execução.

"A altura chegará, claro está", disse ela, não tristemente, não resignadamente, mas como alguém que alegremente aceita um facto inevitável, "quando eu não estiver capacitada para tocar tão bem, então... nunca mais aparecerei em público. Quero que as pessoas sejam capazes de me recordar no meu melhor. Tal será melhor para eles e também para mim. Não quero que suceda comigo o que sucede com outros artistas. É, penso eu, uma loucura da parte deles prosseguirem se de tal não necessitam, e muito triste se eles continuam porque devem, porque não foram cuidadosos».

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre”, de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:37 AM | Comentários (0)

abril 25, 2004

JOHN BARBIROLLI e "HIS MASTER'S VOICE

Em 1927 Barbirolli foi “descoberto” uma segunda vez, desta feita pelo legendário empresário da HMV, Fred Graisberg; este andava à procura de alguém que fosse capaz de ser maestro para as gravações de Árias de Ópera, canções e concertos. A sua intuição disse-lhe que tinha encontrado o homem certo apesar de Barbirolli só estar a dirigir orquestras profissionalmente há cerca de 3 anos. Nos meses seguintes, com Gaisberg ao seu lado, o jovem maestro aprendeu as técnicas do mercado das gravações enquanto dirigia cantores como Gigli, Chaliapin, Leider, Schorr e Schumann. Rapidamente também o seu nome constava das etiquetas das gravações de concertos, lado a lado com os grandes instrumentalistas da época: Schnabel, Fischer, Backhaus, Cortot, Rubinstein, Kreisler, Elman, SUGGIA, Piatigorsky e Casals.


Por Lyndon Jenkins

Publicado por vm em 12:49 AM | Comentários (0)

abril 24, 2004

CARTA DE ANTÓNIO EÇA DE QUEIROZ

Secretariado da Propaganda Nacional
17 de Janeiro de 1939
Minha Senhora,
Peco-lhe me perdoe a demora que pus em escrever-lhe para confirmar a conversa que tivemos no Porto; um ataque de gripe foi o responsável pela falta involuntária.

Quero, minha Senhora, agradecer-lhe a grande amabilidade com que me recebeu no Porto e o interesse que mostrou pela proposta que tive a honra de fazer-lhe.
O António Ferro ficou-lhe profundamente grato e pede-me que lhe transmita os seus muitos agradecimentos.
Com a colaboração de V.Exa. o êxito das nossas intenções em Londres está de antemão assegurado.
Espero que V. Exa. tenha recebido a carta que o Dr. Oliveira Salazar desejava entregar-me para eu me apresentar a V. Exa.
Renovando-lhe os meus agradecimentos, peço--lhe me creia de V. Exa.....

António Eça de Queiroz

do livro"GUILERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:11 AM | Comentários (3)

abril 23, 2004

CARTA DE PEDRO DE FREITAS BRANCO

Em Portugal, Suggia é considerada uma individualidade musical de excepção.
A carta que lhe é dirigida por Pedro de Freitas Branco e a de António Eça de Queiroz, declaram a completa reverência dos máximos representantes do poder em Portugal.


Presidência do Conselho
Secretariado da Propaganda Nacional - Gabinete do Director
22 de Setembro de 1937
Ex.ma Senhora D. Guilhermina Suggia Mena
Leça da Palmeira

Ex.ma Senhora:
O telegrama de V. Ex." causou aqui considerável emoção, pelo receio manifestado de não poder tomar parte no Festival de Paris de 17 de Outubro, mas também ansiosa expectativa pela esperança que esse telegrama ainda nos deixa de podermos contar com a honra da sua colaboração.

Permito-me hoje escrever-lhe, porque os dias passam depressa, o tempo urge e eu recordo as últimas e animadoras palavras de V. Ex.ª na «gare» de S. Bento quando parti do Porto. No que diz respeito à questão das condições, de que então falámos, resolvi não fazer caso das informações que colhi em Paris a pedido de V. Ex. Com efeito, verifiquei durante o mês e meio que lá passei que o «standard» tem baixado imenso, nesse campo como em todos os outros - e que os maiores artistas têm tocado ultimamente em Paris por quantias diminutas.
O meu dever perante V. Exª é, portanto, não fazer caso dos outros e perguntar-lhe simplesmente se concorda com o «cachet» de 15.000 fr (15.000 francos) que o Comissariado Português, organizador do Festival, lhe pode oferecer pela sua colaboração. V. Ex.ª que conhece o nosso país e sabe as precárias condições em que sempre se realizam entre nós as manifestações deste género (sobretudo quando se trata de música) pode avaliar o que semelhante oferta representa de esforço, de comprehensão e de interesse em ver o seu nome encimando o programa do Concerto. E não se admirará decerto quando eu lhe disser que, atendendo ao carácter nacionalista do espectáculo, todos quantos nele colaboram fazem-no em condições excepcionais (despesas pagas e mais nada, por assim dizer) e que os dois únicos «cachets» normais serão o de V. Exª e o da Orquestra Lamoureux.
Esta orquestra, dirigida por mim fará exclusivamente obras portuguesas e francesas, estando portanto naturalmente indicado que V, Exª toque o Concerto de Lalo - ou o de St. Saëns com a Habanera de Ravel. Também sobre isto aguardo o seu acordo.
Resta-me apenas acrescentar que o Comissário de Portugal na Exposição, António Ferro, director do Secretariado de Propaganda, partiu já para Paris deixando-me encarregado de concluir a organização do concerto e pedindo-me para comunicar a V. Exª que, ao submeter ao Sr. Presidente do Conselho o programa e os prováveis colaboradores, quando chegou o nome de V. Exª o Sr. Dr. Salazar comentou com estas palavras:
«Essa é indispensável».
E mais uma razão, minha Senhora, a juntar a tantas outras que me levam a escrever-lhe pedindo-lhe com insistência uma resposta favorável e - se for possível - telegráfica.
Como estou fora de Lisboa com minha Família, peço a V. Exª" que não me enderece a resposta para minha casa, mas sim para o Secretariado de Propaganda Nacional, R. de S. Pedro de Alcântara -Lisboa (Telegramas: Secretariado - Lisboa), em meu nome, bem entendido.
Com os meus afectuosos cumprimentos para o meu ilustre amigo Ex.mo Sr. Dr. Carteado Mena, peco-lhe aceite, minha Senhora, com os meus antecipados agradecimentos, as minhas homenagens muito respeitosas e os protestos da minha profunda admiração

Pedro A. de Freitas Branco


do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:00 AM | Comentários (1)

abril 22, 2004

Desenho de António Carneiro (Après un Rêve)

Publicado por vm em 02:34 PM | Comentários (7)

FADIGA, SAUDADE,SOLIDÃO (2ª CARTA)

Em 1936, em duas cartas a Ernestina da Silva Monteiro, que a acompanha ao piano em vários concertos em Portugal, Suggia, apesar dos êxitos habituais, confessa fadigas, saudades e solidão.
Na segunda carta é difícil deixar de sentir comoção perante uma afirmação tão pueril como esta: Agora vou-me deitar, já é meia-noite, mas como não tive tempo para jantar antes do concerto ceei há pouco».

2ªCARTA

26 de Novembro 1936
Minha boa amiga Ernestina.
Que longe que estou d'ahi e no entanto bem perto pelo pensamento. Tenho muitas saudades. Esta noite foi o concerto aqui numa grande sala que continha mais de 2.500 pessoas.
Passei todo o dia no comboio chegando aqui às 6.30 da tarde para às 8h estar na sala de Concertos St. Andrew's Hall.

Estou bastante fatigada da viagem mas felizmente melhor da minha saúde e bem disposta e os concertos sendo um sucesso. Tive pena ter que perder os concertos em Dublin. Elisabeth Schumann foi em meu lugar, mas por outro lado foi melhor não ter ido, que em vez de terem só uma noite na travessia para a Irlanda, tiveram nevoeiro e o barco ficou parado na "Mersey" durante 15 horas. Imagine o que me esperava. Aqui também faz nevoeiro mas não muito espesso. Sigo amanhã para Edinburgh que é bem mais bonito que Glasgow. Isto e muito grande, mas arquitectura pesada e sombria, muito triste.

Na segunda-feira Mrs. Melville deu uma soirée para a apresentação do Aubrey e ele tocou lindamente e fez grande impressão. Cresceu imenso e já usa calça comprida e ninguém acredita que ele tenha 12 anos.
Hoje está tocando com a orquestra de Mrs. Melville em Cherkenwell e na terça-feira é o seu recital em Londres. Também teve uma audiência para o B.B.C.

Frederic Lamond toca nos concertos d'esta tournée a Sonata Appassionata, Lizst, Chopin e tem uma técnica formidável. Admira, com tanta idade!
Estou tão só aqui que até me admiro da minha coragem.
Lamond está em casa particular, George Reeves n'uma pensão e eu n'este grande Hotel que é tão grande que a gente se perde cá dentro.

Agora vou-me deitar, já é meia-noite, mas como não tive tempo para jantar antes do concerto ceei há pouco.

Como têm passado ahi todos? Tem tido muito que fazer e tem estudado muito o seu piano?
Agora depois de Edinburgh só lenho o Banbury no dia 8 mas terei muitas lições a dar, todos os dias. Um abraço desta sua amiga sincera e para suas manas muitas lembranças afectuosas e para sua tia também,
Guilhermina Suggia

- O comboio ele Londres aqui hoje era tão rápido que até parecia que rolava como um navio - até dava dores de cabeça e fazia enjoar.


do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:06 AM | Comentários (0)

abril 21, 2004

2 COMENTÁRIOS DE UM EX-ALUNO DO CONSERVATÓRIO

Isto não é um comentário, é simples conversa a propósito.
Fui aluno do Conservatório de 1934 a 1943.
O S. Carlos (tal como a Sociedade de Concertos e o Circulo de cultura Musical) oferecia uma porção de bilhetes à Associação dos Alunos do Conservatório, para cada concerto (e espectáculos de ópera).
Fui um beneficiário regular dessas ofertas.

Lembro-me de ter assistido então a um concerto da Guilhermina Suggia, no S. Carlos. Deve ter sido o recital de homenagem ao General Jordana.
Não sei dizer de que cor era o vestido da artista, mas lembro-me que "dava nas vistas". Quando sentada quase desaparecia sob os muitos metros de pano.
Mas mais do que o vestido impressionaram-me os movimentos dos seus braços, que me pareceram muito exagerados.
Muito novo ainda, a Guilhermina Suggia deu-me a impressão de gostar de "dar espectáculo". Suponho que terei saído do S. Carlos incomodado, a pensar que para se tocar bem violoncelo não é preciso tanto esbracejar...
Não tenho palavras para descrever o prazer do reencontro que o vosso weblog me proporcionou.
E a anedota dos 60 contos é engraçadíssima.
Vou visitar todo o vosso weblog.
Fernando Marques Pinheiro.

11/4/04


Há poucos dias um jovem que assistiu a um concerto de Guilhermina Suggia no Teatro de S. Carlos, aludiu aqui, em “Suggia, Ferro e Salazar”, a dois pormenores que ficaram gravados na sua memória visual : o vestido da artista, que “dava nas vistas”, e os movimentos dos braços, que lhe pareceram “exagerados”. Do que ouviu, do que escutou, nada disse. Ainda escutava mal. Guilhermina Suggia deixou-o indiferente.
Mas quase setenta anos depois surgiu este weblog e com ele a indiferença desse jovem foi quebrada. Surgiu a curiosidade e logo a seguir a admiração.

Hoje proponho um pequeno exercício a realizar dentro deste weblog.
Depois de, com “Suggia, Ferro e Salazar”, se imaginar o ambiente que rodeou o concerto de Suggia realizado no S. Carlos conjuntamente com banquetes, recepções, tourada à antiga portuguesa, etc., tente-se imaginar o ambiente num outro concerto, este em Londres, lendo-se as palavras da própria Guilhermina Suggia que se encontram neste weblog em “Carta a uma amiga sobre o concerto de Albert Hall”.
Eis algumas dessas palavras :
(...) “o meu concerto no Albert Hall foi triunfal (...). (...) estava triste, o que comoveu muita gente que tinha lágrimas nos olhos – incluindo a Rainha” (...).
“A Rainha, com a princesa Margaret e a sua corte, recebeu-me no fim, tendo para mim palavras comovedoras, dizendo que nunca nenhum artista a tinha entusiasmado tanto e que era preciso eu vir mais vezes aqui pois que os ingleses me adoravam. Bebemos champanhe (...) e ela bebeu à mais velha aliada” (...).
“Estava triste”, escreveu Guilhermina Suggia a propósito da maneira como tocou neste concerto.

Veja-se agora também neste weblog, em “Guilhermina Suggia e Vianna da Motta”, a alusão do Dr. João de Freitas Branco a intérpretes “intelectuais” e intérpretes “impulsivos”, colocando Guilhermina Suggia na categoria dos “impulsivos” e Viana da Mota na dos “intelectuais”.
Mas note-se que, se por um lado Freitas Branco classifica Suggia como “impulsiva”, por outro lado não omite o facto da artista fascinar o público pela fibra da sua “interpretação” - tal como Viana da Mota obtinha as suas coroas de glória ao “interpretar”, como também diz Freitas Branco, o pensamento beethoveniano ou de Bach.

Possuidora de uma enorme sensibilidade, Guilhermina Suggia terá, de facto, parecido algumas vezes arrebatada, ou incontida, ou...“impulsiva”..., mas também o Dr. Luís de Freitas Branco aponta nela “a elegância da linha melódica, a vivacidade do ritmo, a graça da simples inflexão da frase”. E isto revela uma natural contenção.

Resta que, como é evidente, entre o calor da sensibilidade e a frieza do intelecto, a escolha é livre, para quem se dispõe a ouvir.
Fernando Marques Pinheiro.

18/4/04



Publicado por vm em 09:47 PM | Comentários (0)

FADIGA, SAUDADE e SOLIDÃO

Em 1936, em duas cartas a Ernestina da Silva Monteiro, que a acompanha ao piano em vários concertos em Portugal, SUGGIA, apesar dos êxitos habituais, confessa fadigas, saudades e solidão.
Na segunda carta é difícil deixar de sentir comoção perante uma afirmação tão pueril como esta: Agora vou-me deitar, já é meia-noite, mas como não tive tempo para jantar antes do concerto ceei há pouco».

1ª CARTA

Domingo, 22-11- 1936
Minha boa Amiga, Ernestina,
Como já deve ler recebido o meu postal e também pelo meu marido, sabe que cheguei bem, após uma viagem bastante melhor do que eu esperava e que já toquei em Cheltenham e ontem em Liverpool, tendo regressado a Londres à noite.
Ambos os concertos foram bem, mas depois de Cheltenham senti-me muito cansada e consultei o médico especialista de doenças de coração e ele me aconselhou fortemente a abandonar a ideia de ir à Irlanda dar dois recitais no mesmo dia; que se eu o fizesse ele se não responsabilizava pelo que poderia acontecer. Ficou surpreendido de minha baixa pressão de circulação do sangue que é abaixo de 100 quando normalmente é de 145 e de 150, Isto é n'um estado de muito abatimento podendo qualquer extra esforço prejudicar-me para sempre.

Veja em que condições eu vim e como é preciso ter coragem para tocar n'esta tournée de Mossel. Felizmente o programa não é pesado e tenho descanso enquanto Fred Lamond toca.
Estranhei Imenso o encontrar-me em salas de concertos de 2.000 pessoas completamente repletas e quase que desfaleci em Cheltenham antes de tocar mas lá foi e fui bem feliz.
Hontem foi um sucesso enorme e à saída alas de senhoras e colégios de meninas me esperavam para me aplaudirem e dizerem o seu «Au revoir».
Esta manhã ouvi o Aubrey que veio à sua lição tocando lindamente. Amanhã Mrs. Melville dá uma soirée para a sua apresentação onde virão cerca de 100 pessoas. Ele tocará com Gerald Moore.
Depois lhe levarei os programas.
O tempo calmo e de vez em quando sol, mas a maior parte do tempo faz nevoeiro e é tudo cinzento escuro tendo luz eléctrica todo o dia. Mas é muito confortável a vida em Inglaterra e não se sente tanto frio como ahi. Eu estou tão contente por ter vindo apesar de muita saudade que lenho d’ahi e dos meus e dos cuidados que carecem pois sinto que lhes faço falta, tanto a meu marido como aos queridos pequenitos e pessoal e espero um bocadinho também aos meus amigos.
Dê-me notícias suas e dos seus. Tenha cautela com a sua saúde. Lembro-me de si, e gostaria um dia de estar consigo n 'este meio, que é maravilhoso para o espírito, para a Arte, para tudo em geral.
Como está Menuhin?
Um abraço para si e muitas lembranças afectuosas para suas manas e tia. Sua dedicada amiga,
Guilhermina Suggia Mena

Lembranças de Mrs. Melville que encontrei muito bem

do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo


NB- A 2ª CARTA SERÁ TRANSCRITA AMANHÃ

Publicado por vm em 01:07 AM | Comentários (0)

abril 20, 2004

GUILHERMINA SUGGIA E A INGLATERRA

«Toquei em todos os palácios reais e presidenciais da Europa, na presença de Chefes de Estado e dos vultos mais destacados da vida política, social e artística do Velho Mundo. Viajei muito, enamorada sempre do contacto com as variadas paisagens e com usos e costumes diferentes. Não gostei nunca da monotonia. Por toda a parte fui vitoriada e de todos guardei sempre uma grata recordação - através da Espanha, da França, da Alemanha, da Áustria, da Rússia, da Inglaterra, da Bélgica, da Holanda, da Dinamarca, da Escandinávia, da Itália, da Suíça, da Checoslováquia, da Turquia e dessa Polónia martirizada e heróica, onde a Música encontrou sempre um ambiente de mística adoração... Fiquei, porém, cativa da aliciante hospitalidade britânica.

Posso mesmo afirmar que quási não conheço os hotéis de Londres, de tal modo sou ali solicitada por distintas famílias que me honraram sempre com a mais sincera amizade. Frequentei, como artista, a corte imperial inglesa - desde os venturosos tempos de Eduardo VII. A actual rainha, quando era apenas duquesa de York, não se esqueceu nunca de me convidar para tomar parte, como concertista, nas grandiosas festas de beneficência que ela mesma organizava a favor dos hospitais londrinos. De tudo isso ficaram sempre no meu espírito as mais enternecidas recordações - todo o mundo espiritual da minha comovida saudade. Convivi, então, com as individualidades de mais elevado prestígio do Reino Unido: nobres, titulares, estadistas, médicos e cirurgiões de categorizado renome, pintores, escultores e literatos. E - por uma singular coincidência - quási não convivi, em Inglaterra, com artistas musicais.»

do livro"GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:01 AM | Comentários (0)

abril 19, 2004

Prémio SUGGIA-Conservatório de Música do Porto

REGULAMENTO DO CONCURSO PARA O “PRÉMIO GUILHERMINA SUGGIA” NO CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DO PORTO

Artigo 1º - É instituído, em cumprimento de disposição testamentária da eminente violoncelista GUILHERMINA SUGGIA, e sob a designação de “PRÉMIO GUILHERMINA SUGGIA”, um prémio anual destinado a galardoar o melhor aluno do Curso Superior de Violoncelo do Conservatório de Música do Porto


Artigo 2º - O prémio será inicialmente da importância de 16.500$00, correspondente ao juro a 3%, do valor de 550 contos atribuído ao violoncelo Montagnana que foi objecto da citada disposição testamentária
§ único – O montante dos prémios anuais não atribuídos acresce ao valor inicial de 550 contos a que se refere o corpo deste artigo.

Artigo 3º - Este prémio será concedido mediante concurso de provas práticas e públicas.

Artigo 4º - As provas iniciar-se-ão normalmente no dia 20 de Junho.
§ único – Na hipótese de os concursos não poderem ser iniciados em 20 de Junho, o Director do Conservatório reunirá o Conselho Escolar, que apreciará as razões dessa impossibilidade e proporá as novas datas a fixar, as quais, em última análise, dependerão do despacho da Presidência da Câmara Municipal do Porto.

Artigo 5º - Os concursos serão anunciados por meio de avisos afixados no Conservatório, em lugar bem visível, com antecedência de dois meses em relação à data do início das provas.

Artigo 6º - Um mês antes do início das provas será afixado o aviso com o programa a que se refere o artº 12º.

Artigo 7º - Só serão admitidos ao concurso os alunos do Conservatório de Música do Porto que frequentem o Curso Superior de Violoncelo no ano lectivo em que for aberto o mesmo concurso.
§ Único –Não poderão concorrer ao prémio alunos premiados anteriormente nestes concursos.

Artigo 8º - A inscrição dos candidatos far-se-á mediante requerimento, escrito pelos próprios, com a assinatura reconhecida por notário, e endereçado ao Director do Conservatório.
§ único - O candidato fará acompanhar o seu requerimento de documento comprovativo da qualidade de aluno do Conservatório de Música do Porto e mencionará o Concerto e a Peça que deseja executar no Concurso.

Artigo 9º - Os requerimentos deverão ser entregues na Secretaria do Conservatório de Música, nas horas de expediente, até ao dia 20 de Maio de cada ano ou, quando as provas não possam iniciar-se no dia 20 de Junho, até um mês antes do início das provas.

Artigo 10º- Findo o prazo de apresentação dos requerimentos, a Direcção do Conservatório elaborará por ordem alfabética a lista dos candidatos admitidos, que será afixada no mesmo Conservatório, indicando-se logo o dia em que se realizam as provas do concurso e os concorrentes que deverão executar em cada dia.
§ único – As provas realizar-se-ão no Salão do Conservatório.

Artigo 11º - Os júris destes concursos, que deverão ser nomeados pela Câmara, depois de ouvido o Conselho Directivo do Conservatório e com antecipação nunca inferior a dois meses em relação ao início das provas, serão constituídos por um representante da Câmara, que presidirá, pelo presidente do Conselho Directivo do Conservatório de Música do Porto, pelo professor ou professores de violoncelo do mesmo Conservatório, e por mais três vogais escolhidos entre os críticos ou artistas musicais de reconhecida competência, residentes nesta cidade, sendo um deles preferentemente, o Maestro-Regente da Orquestra Sinfónica do Porto.
§ único – No caso de empate o Presidente do júri terá voto de qualidade.

Artigo 12º - Os concursos constarão do seguinte programa:
a) Uma suite de Bach, à escolha do júri, dada a conhecer com um mês de antecedência;
b) Um concerto, à escolha do candidato;
c) Uma Peça, à escolha do candidato.
§ único – o Concerto e a Peça serão executados com acompanhamento ao Piano.

Artigo 13º - Os candidatos que, por motivo de força maior, devidamente comprovado, não compareçam a prestar provas no dia e hora que lhes tiverem sido designados, poderão ser admitidos a prestá-las no prazo máximo de 15 dias a contar do último dia marcado para as provas do concurso.

Artigo 14º - A votação, nas reuniões do júri, será feita verbalmente, lavrando-se actas dessas reuniões, que ficarão fazendo parte do processo do concurso, a remeter à Presidência da Câmara.
§ único – o prémio só poderá ser atribuído a candidato que tenha merecido aprovação em mérito absoluto.

Artigo 15º - Além do prémio será concedido ao candidato premiado um diploma assinado pelo Presidente da Câmara e por todos os membros do Júri.
§ único – O júri poderá conceder diplomas de menção honrosa aos candidatos que considerar merecedores dessa distinção.

Artigo 16º - O prémio será entregue em acto solene presidido pelo Presidente da Câmara Municipal do Porto, durante o qual o aluno premiado poderá executar uma ou mais peças à escolha do mesmo aluno, de acordo com o júri.

Artigo 17º - As dúvidas que se suscitarem na interpretação deste Regulamento serão resolvidas por despacho da Presidência da Câmara sob proposta fundamentada do Director dos Serviços Centrais e Culturais.


Este prémio foi atribuído pela primeira vez em 1953. Por unanimidade, o júri concedeu-o a Maria José Ribas Gonçalves de Azevedo, neta de Nicolau Ribas e aluna de Madalena Moreira de Sá e Costa.
Apesar das pesquisas, não foi possível apurar o nome de todos os premiados, de então para cá. Apresenta-se por isso, em seguida, o elenco possível dos violoncelistas contemplados com este prémio:

1953 – Maria José Ribas Gonçalves de Azevedo

1954 – Maria da Conceição Macedo

1963 – Maria Isabel Martins Delerue

1979 – Paulo Gaio Lima

1986 – José Augusto Nunes Pereira de Sousa


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo


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abril 18, 2004

Testemunho de LUIS DE FREITAS BRANCO

GUILHERMINA SUGGIA, portuguesa, nascida no Porto é, em toda a história da música, a senhora que mais se distinguiu como instrumentista de arco, e possui o som de violoncelo mais formoso e expressivo de que há memória.

GUILHERMINA SUGGIA é um dos vultos geniais da história da música portuguesa.”


“HISTÓRIA POPULAR DA MÚSICA” de Luís de Freitas Branco, 1943

Publicado por vm em 12:13 AM | Comentários (0)

abril 17, 2004

Espanha e Portugal

"... não é preciso que em Espanha e Portugal compositores e intérpretes vivam de costas. Temos Casals, Cassadó, Casaux, uma SUGGIA..."

"Contribución al estudio de la música española y portuguesa", de SANTIAGO KASTNER, 1941

Publicado por vm em 02:21 PM | Comentários (0)

UMA CELEBRIDADE MUNDIAL,NASCIDA NO PORTO

GUILHERMINA SUGGIA

O Porto pode orgulhar-se de ter nascido aqui uma artista extraordinária, que alcançou, em todo o mundo, uma fama, quase ímpar.
GUILHERMINA SUGGIA nasceu nesta cidade no último quartel do século passado – ou mais precisamente a 27 de Junho de 1885.
Aqui faleceu também a 31 de Julho de 1950 (1), depois de uma carreira cheia de triunfos artísticos que ainda estão na memória de muita gente.

Seu pai, Augusto Suggia, professor de violoncelo, tinha grande estima por meu avô, 1º Visconde de Villar d’Allen, que tanto trabalhou em prol da música e dos músicos e que, por isso mesmo, o auxiliara e protegera, especialmente no início da sua vida profissional.
Quando a pequenina Guilhermina, aos 6 anos - ia principiar a aprender violoncelo com seu pai - meu avô, que possuía um violoncelo de pequeno formato (único que existia no Porto), sempre na ânsia de estimular o estudo da música, logo lhe emprestou esse invulgar instrumento. Dele se serviu a futura grande artista durante alguns anos. É desse período inicial uma curiosa fotografia em que GUILHERMINA SUGGIA figura com este pequeno violoncelo, e ao lado, sua irmã Virgínia, que a acompanhava ao piano (in “O Tripeiro”, Dezembro de 1963).

É desnecessário alongar-me aqui sobre dados biográficos desta artista pois, nesta mesma revista, ainda não há muitos anos, sobre ela escreveu, com interesse e copiosa soma de detalhes, um ilustre colaborador - Rebelo Bonito.

No arquivo da minha casa existe o programa do seu 1º concerto, no Orfeon Portuense (Teatro Gil Vicente), em 22 de Maio de 1896, portanto antes de completar 11 anos. Acompanhou-a ao piano sua irmã “menina” Virgínia. Colaboraram: “menina” Leonilde Moreira de Sá, D. Irene Fontoura, D. Amélia Marques Pinto e D. Laura Barbosa. Augusto Suggia dirigiu a orquestra.

Em 1905 já o grande violoncelista David Popper escreveu num álbum de SUGGIA: “ To the greatest of living cellists, Guilhermina Suggia, from her aged confrère, D. POPPER.” Ninguém podia dizer mais dum “oficial do mesmo ofício”...

Sabendo que eu possuía o pequeno violoncelo no qual iniciara os seus estudos - e de que tinha tão gratas recordações - a nossa ilustre conterrânea mostrou grande desejo de o tornar a ver, ao que imediatamente, e com muito gosto, acedi.

Expôs-se então - de acordo com a genial artista - o curioso instrumento, rodeado pela colecção dos seus discos, na montra da Agência da “His Master’s Voice” (que tinha o exclusivo das suas gravações) e que eu então dirigia em Portugal. Foi isto em 1930 e SUGGIA não escondeu o grande prazer espiritual que sentiu ao relembrar os saudosos tempos da sua iniciação na arte musical. Ofereceu-me nessa ocasião a fotografia autografada que acompanha estas despretenciosas notas. Para se poder avaliar o tamanho do violoncelo, fotografei-o ao lado do meu “Forter”, que foi também pertença do meu avô e seu instrumento preferido; dele também me utilizei nos remotos tempos da minha aprendizagem, a que já atrás me referi, mas que cedo infelizmente abandonei, limitando-me apenas a ouvir os outros – mas isto devotadamente – primeiro por diletantismo e mais tarde – durante mais de 30 anos – até por dever profissional.

Como certamente toda a gente que teve a felicidade de assistir aos concertos de GUILHERMINA SUGGIA, recordo ainda com saudade esses momentos invulgares. É que encantava ouvi-la tocar, e talvez não menos vê-la tocar, tal a expressão e sentimento que ela imprimia às suas execuções.

É de justiça recordar aqui, ter sido a Rainha Senhora D. Amélia quem, no início da sua carreira, lhe facultou uma bolsa de estudo para a nossa artista se aperfeiçoar no estrangeiro, antevendo assim as suas extraordinárias possibilidades.

Todos sabem, possivelmente, o prestígio e a fama que SUGGIA alcançou, dum modo especial, em Inglaterra, onde a alta-roda a acolhia carinhosamente.

Disso posso dar um curioso testemunho: - Uma noite, na primavera de 1927, estando em Londres, fomos (minha mulher e eu) à Royal Opera House – Convent Garden. Ia à cena o “Rigoletto”, tendo como figura principal o tenor Dino Borgioli, que no nosso Teatro de S. João tantas vezes foi calorosamente aplaudido. Pouco antes de levantar o pano, observámos do nosso camarote um certo movimento e sussurro na plateia, onde algumas pessoas se levantavam ou, pelo menos, esboçavam um gesto de cumprimento a alguém que avançava pela coxia central para se dirigir a um “fauteil” de orquestra, numa das primeiras filas: era GUILHERMINA SUGGIA que, envolta num elegantíssimo e rico agasalho de peles – e inconfundível na sua maneira de ser e de se apresentar – correspondia, sorridente, às senhoras e homens que a saudavam.

Assim verificámos, com um certo orgulho de portugueses, o prestígio e estima de que a nossa Artista ali gozava.

Villar d’Allen, Março de 1970

Do livro “O porto e a Música” de Alfredo Ayres de Gouveia Allen, Porto 1970

(1)Refira-se que G. Suggia morreu a 30 de Julho de 1950 e não 31 como é mencionado.- VM

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abril 16, 2004

Valorização dos nossos Artistas Músicos

A propósito de dois notáveis instrumentistas que recentemente se fizeram ouvir nos chamados concertos de Outono do Tivoli: o pianista Artur Rubinstein, de fama mundial, e o violoncelista Maurice Gendron, no início de uma carreira que se antevê gloriosa, apraz-nos recordar o nome de dois artistas portugueses: José Viana da Mota e Guilhermina Suggia que, nas obras ora executadas, o 4.° Concerto para piano de Beethoven, e os Concertos para violoncelo de Haydn e Dvorak, brilharam por toda a parte como intérpretes inigualáveis.

Falecidos há pouco tempo, não pertencem a um passado tão longínquo que não os possamos recordar ainda, e lembrá-los do mesmo passo às gerações novas, com o orgulho e o respeito que nos devem merecer os verdadeiros valores nacionais, aqueles valores que, na nossa actual e cada vez mais pronunciada idolatria pelo artista estrangeiro (e qualquer que ele seja, ilustre, de facto, ou simples prestidigitador), tendemos lamentavelmente a subestimar ou, pelo menos, a considerar sob o ângulo de uma admiração reticente, se não meramente formal. Viana da Mota e Guilhermina Suggia foram dois dos mais excelsos artistas músicos desta terra. Hoje todos o dizem, ou todos se sentem na obrigação de o dizer; mas, quando vivos, nem todos o pensavam: o desdém, a indiferença e não raro até o abocanhamento foram durante muito tempo os únicos prémios com que galardoámos o seu talento – e o caso de Viana da Mota, nomeadamente, é sintomático, até mesmo na morte... Não foi aqui que eles conquistaram as palmas da sua glória, não. O estrangeiro reconheceu-lhes o valor excepcional muito mais cedo do que nós.
Aqui, os nossos valores passam-nos à porta, cruzamos com eles nas ruas, mas só damos por eles tarde demais.
Nós somos assim: muito patrioticamente orgulhosos das nossas glórias, mas as nossas glórias são quase sempre... póstumas. O pior é que não temos emenda, o pior é que a indiferença, o menosprezo do artista nacional vivo continua a ser a nossa atitude corrente, o pior é que continuamos a passar certamente por muitos e indiscutíveis valores que só reconhecemos depois do seco necrológio jornalístico ou do quantas vezes banal IN MEMORIAM.
Na música, possuímos aí uma dezena de artistas - instrumentistas de arco, pianistas, cantores – de indiscutível mérito, reais talentos que não desmerecem da tradição dos nossos grandes concertistas e cujo confronto com tantos dos virtuosos estrangeiros que nos visitam, e que nós tão entusiasticamente acarinhamos, não pode resultar em seu desabono. Mas quê – já lá dizia o Nobre: Que desgraça nascer em Portugal! – quem dá por eles, que oportunidades se lhes oferecem (as que lhes apresentam são quase sempre de favor...), que estímulos proporcionamos à sua arte, que fazemos para os valorizar, como os consideramos, como os estimamos?

Há para aí várias sociedades de concertos, outras se criam, os empreendimentos musicais públicos pululam, as temporadas de concertos sucedem-se aqui e ali: mas em vão se procuraria que deste intenso e algo descontrolado movimento algum benefício resultasse para os nossos intérpretes musicais. O virtuoso estrangeiro – bom, mau ou sofrível – é que é a base, o chamariz, o engodo de toda esta actividade, no fundo, e atentamente vistas as coisas, bem fictícia sob o ponto de vista de uma verdadeira cultura. O público assim o quer, os empresários condescendem (na verdade, não se sabe bem se não são os empresários que o querem, e se não é o público que condescende)... Quanto aos artistas nacionais, oh! Esses têm tempo de se afirmar, de singrar, de brilhar... post mortem.
Não seria possível, não seria desejável, não constituiria um dever pensar, estudar, elaborar quaisquer medidas tendentes a proteger o artista músico nacional, a garantir-lhe a apresentação pública, a proporcionar-lhe o rendimento de que em tantos casos é capaz, ainda que com sacrifício do virtuoso estrangeiro e sem que com isso fossemos cair em feio pecado de xenofobismo?
Cremos que já alguma coisa se tentou neste sentido. Desgraçadamente, o que parece é que as obrigações decorrentes do estatuto proposto se escaparam habilidosamente pelas lassas malhas da condescendência e da tolerância – e os nossos intérpretes musicais aí continuam à espera que queiram reparar neles ou que qualquer mera e degradante oportunidade de favor se lhes depare.

Fernando Lopes Graça (do livro “A Música Portuguesa e os seus Problemas” 1952)

Publicado por vm em 12:10 AM | Comentários (1)

abril 15, 2004

Intérpretes portugueses

Interpretação musical.— Além dos intérpretes portugueses já referidos, como o violinista Sá Noronha, o pianista Artur Napoleão, o insigne Viana da Mota, Óscar da Silva, o maestro David de Sousa, notabilizaram-se o barítono Francisco de Andrade (1859-1921), seu irmão António (1854-1942), a soprano Maria Augusta Correia da Cruz (1869-1901), Francisco de Lacerda, como chefe de orquestra, e a violoncelista Guilhermina Suggia (1878-1950). Todos estes artistas fizeram carreira internacional e alcançaram reputações justificadas.
Para se ajuizar da craveira de Francisco de Andrade como Intérprete de ópera bastam estas palavras escritas por Bruno Walter nas suas memórias: «outra realização que nunca esquecerei foi o fascinante Don Glovanni de Andrade, um dos raros exemplos em que um artista parecia, por natureza, predestinado ao papel.

Do Livro “História da Música Portuguesa” de João de Freitas Branco


(Refira-se que Suggia viveu entre 1885 e 1950 e não entre 1878-1950 como referido-vm)

Publicado por vm em 01:35 AM | Comentários (0)

abril 14, 2004

ALGUNS DADOS S/ SUGGIA

Chamamos a atenção para a actualização da Bibliografia onde se fala de Suggia e que no blog se encontra na categoria "Geral" - "Alguns dados sobre Suggia.

Publicado por vm em 09:03 PM | Comentários (0)

GUILHERMINA SUGGIA E VIANNA DA MOTTA

Para além-fronteiras, foi em Inglaterra que se prestou Inteira justiça ao talento extraordinário de GUILHERMINA SUGGIA, que tinha algo de genial. Se é legitima a distinção entre intérpretes intelectuais e impulsivos, nenhuma comparação a pode ilustrar melhor do que a que se fizesse entre Viana da Mota e Guilhermina Suggia.

Exceptuadas as peças de bravura, nomeadamente as de Liszt, em que Viana da Mota era magistral, os grandes monumentos do pensamento beethoveniano, ou de João Sebastião Bach, foram as coroas de glória do eminente pianista, enquanto a inconfundível violoncelista portuense atingia o seu máximo em páginas como os concertos de Saint-Saëns, de Lalo, Dvorak ou de Elgar, como as Variações de Boëllmann ou, no género miniatural, a transcrição da Habanera, de Ravel. Fascinava então o público pela fibra da interpretação, a elegância da linha melódica, a vivacidade do ritmo, a graça de uma simples inflexão da frase, tudo como se fosse inteiramente espontâneo, transfigurando o imenso labor de preparação necessário a qualquer artista de craveira.
Viana da Mota e Guilhermina Suggia formaram escola em Portugal e a sua acção pedagógica reflecte-se hoje em considerável número de pianistas e violoncelistas de merecimento, alguns em vias de carreira internacional.


Do livro “História da Música Portuguesa” de João de Freitas Branco

Publicado por vm em 12:29 AM | Comentários (2)

abril 13, 2004

Gravações de Guilhermina Suggia em 78 rpm

Compositor Obra Acompanhamento


Henschel Gavotte - Au temps jadis n.n. (piano)

Glazounov Sérénade espagnole

Popper Spanische tänze, Vito, Op.54, nº.5 n.n. (piano)

Senaillé (arr. Salmon) Allemande

Sinigaglia Humoreske n.n. (piano)

D. Popper Tarantella em sol M

Bach Suite para violoncelo solo em dó M(prelúdio e allemande)

Boccherini (arr. Piatti) Sonata em lá M(Pts. I e II) n.n. (piano)

Popper Spinnerlied, Op.55 George Reeves (piano)

G. B. Sammartin (arr. Salmon)Sonata em sol M(allegro - grave - vivace) George Reeves (piano)

Bruch Kol Nidrei, Op.47 n.n. Lawrence Collingwood

Saint-Saens Concerto nº 1 em lá m, Op.33(minuete) n.n. Lawrence Collingwood

Lalo Concerto em ré m (intermezzo)

Saint-Saëns Allegro appassionato, Op.43 Reginald Paul (piano)

Fauré Sicilienne

Haydn Concerto em ré M, HVIIb:2, Op.101(allegro moderato - adagio - allegro) n.n. John Barbirolli

Benedetto Marcello (arr. J. Salmon) Sonata nº 3 em ré M(largo - allegro) George Reeves (piano)

Francesco Guerrini (arr. Salmon) Allegro con brio

Gluck Mélodie de Orfeo George Reeves (piano)

Ravel Pièce en forme de habanera

Boccherini-Bazelaire Rondo

Kreisler Polichinelle Serenade George Reeves (piano)

Fauré Elégie em dó m, Op.24 Reginald Paul (piano)

Carmago (arr. T. Nachez)(arr. B. van Lier) Moto perpetuo Reginald Paul (piano)

Lalo Concerto em ré m London Symphony Orchestra Pedro de Freitas Branco


Informação prestada por Helder de Macedo Sampaio

Publicado por vm em 12:01 AM | Comentários (2)

abril 12, 2004

Convite da Fundação Engº António de Almeida

Exmos. Senhores
Virgílio Marques
Catarina Campos

Temos o prazer de convidar V. Exas. para assistir, no próximo dia 5 de Maio de 2004, pelas 21h30 à cerimónia onde será instituído, pela Fundação Eng. António de Almeida, o «Prémio Guilhermina Suggia». A Fundação já tinha oferecido à cidade do Porto, uma estátua, em bronze, da violoncelista. Agradecemos a divulgação destes factos, se os considerarem pertinentes, no weblog Guilhermina Suggia


Fundação Eng. António de Almeida
Rua Tenente Valadim, 325 - Porto
Telef. 22.6067418
fundacao@feaa.pt

Publicado por vm em 08:24 PM | Comentários (4)

Carta a uma amiga sobre o concerto do Albert Hall

Minha boa Amiga:
Escrevo-lhe muito à pressa, só para lhe dizer que o meu concerto no Albert Hall foi triunfal. Toquei o melhor possível e o entusiasmo, gritos e aplausos e flores não se pode descrever. A Rainha com a princesa Margarida e a sua corte recebeu-me no fim tendo para mim palavras comovedoras, dizendo que nunca nenhum artista a tinha entusiasmado tanto e que era preciso eu vir mais vezes aqui pois que os ingleses me adoravam. Bebemos champanhe (...) e ela bebeu à mais velha aliada agradecendo a mensagem que eu lhe tinha transmitido do meu país pela alegria do nascimento do seu netinho.

Eu estava muito bem disposta e nem sombra de nervos na ocasião de tocar, tendo sofrido muito antes e estava triste, o que comoveu muita gente que tinham lágrimas nos olhos - Incluindo a Rainha - Não sonha como me senti feliz depois d'este êxito colossal que só pela protecção de Deus e das pessoas que por mim rezam podia ser. A minha secretária está doida de contente e tem visitado o que há de melhor em Londres. Agora um grande abraço para si, Maria José (...) na certeza que devem estar felizes por eu ter cumprido bem a missão de artista portuguesa e portuense! Sua sempre muito amiga:

Guilhermina Suggia Mena


- O meu vestido branco de renda foi um sucesso.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:01 AM | Comentários (0)

abril 11, 2004

SUGGIA NO ALBERT HALL

GUILHERMINA SUGGIA tocou ontem no Albert Hall de Londres


Londres, 22 – Guilhermina Suggia, célebre violoncelista portuguesa, tocou esta noite no Albert Hall de Londres, por ocasião de um concerto em benefício de músicos desempregados britânicos.

A rainha e a princesa Margareth assistiram ao concerto e pediram que lhes fosse apresentada a artista portuguesa que veio expressamente de Lisboa para interpretar o concerto em Sol menor de Elgar. A orquestra foi dirigida por Sir Malcolm Sargeant.

Diário de Notícias, 23/11/1948

Publicado por vm em 02:14 AM | Comentários (0)

abril 10, 2004

Testemunho de GEORGE WOOD

Em “Memórias” de George Wood (1999), referentes à década de 1930, encontra-se uma referência elogiosa ao talento de Suggia, a par dos de Caspar Cassado, Pablo Casals, André Navarra, Gregor Piatigorski, Beatrice Harrison e outros que ele diz ter conhecido e escutado, com prazer, naquela época.

tradução de Ana Maria Costa

Publicado por vm em 01:27 AM | Comentários (2)

abril 09, 2004

Carta de Mãe Elisa a G.SUGGIA

Rua da Alegria 894 Oporto, 16-X-de 1926

Minha boa e doce filha,

Recebi agora mesmo 10 horas da manhã 2 postais teus (o de Aberdeen e muito bonito e único) vou envialo a Virgi pois também desejo que ella o veja! Hontem á noite escrevi a Virgi e agora ao meu biju adorado e requestado e todos rno querem tirar, mas eu desejo que o biju seja muito feliz, como merece pois que é tão bom e doce para todos quando também não é carrasco, pois os bons exemplos tomamse depressa mas quando ella é doce eleva nos ao Céu e então é a beleza em toda a grandeza.

Fiquei muito satisfeita de saber que vais melhorzinha de saúde e podes descançar e tra-tareste com cuidado O Hudson é um bom e raro amigo que tu tens e eu desejava tanto vel-o e nunca esquecer as suas boas attençoes com que sempre me recebeu é um bom gentleman dalhe lembranças minhas.
Por cá tem chovido immenso e muitas trovoadas, hoje porem não chove mas o Céu esta coberto de nuvens eu não tenho sahído devido ao mau tempo; O papa continua tendo falla só para a mais que tudo e ella está fier de tantas attenções, aqui só o gatinho é meu amigo, a songa da Emilia é a única que trabalha, as outras comem dormem e sujam e olhamme com olhos de carneiro mal morto enfim espero que em tu vindo façais muita limpeza. O Dr parece que ficou menos meu amigo depois do desastre do cognac, mas em tu vindo tudo voltará aos eixos como dantes, tu perguntas-me seu já vi a tua casa nova, mas eu não sou intruza eu não vou lá sem o Dr me convidar, ou o melhor será quando tu vieres e então já tudo estará pronto, (tem-se feito economias no passadio não tem havido fruta e carne não muita mas lá se vai passando peixe tem sido o bacalhau eu fico com meia dúzia d'ovos que a lavadeira me traz aos sábados mas creio que as contas mentem muito, pois o papa brame que as contas são muito grandes, eu não gosto da Gloria que não é natural e deveste lembrar que eu te disse que na tua auzencia podíamos ficar só com a Emília e a outra vai às compras demorase e é a Emilia que muitas vezes acende o fogão para se fazer o almoço e é só ella que trabalha na casa a outra é invejosa demorase muito quando vai e tem por costume deitar-se depois do almoço quando não sai.
Dos visinhos do lado só sei que teem doença em casa e um rapaz está tuberculozo, vem o medico todos os dias e vão as criadas todas as noites buscar remédios à botica defronte creio que é mãe e pai e filho e filhos e criadas muito pandegas que já falam com as nossas enfim é tudo a mesma cousa O Moutinho é que te pôde dizer quem são pois já o vi lá ir (creio que o dono da casa é negociante) Deu agora meio dia vou me arranjar para deitar esta carta para ti e outra para a Virgi. .Ella diz que não te tem escripto por que não sabe onde estais. Mil beijinhos para a doce filha e até breve tratate bem meu biju e divertete
tua Elisa.

Muito desejo verte meu amor mas quero verte bonita e com saúde e gordinha. Talvez que depois de casar engordes com as comidas do Dr pois com esta cusinha de lavoira não esperes muito.»

do livro "GUILHERMINA" de Mário Cláudio


Publicado por vm em 12:38 AM | Comentários (0)

abril 08, 2004

TESTAMENTO de GUILHERMINA SUGGIA

Eu, Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena, viúva, violoncelista, residente na Rua da Alegria, número seiscentos e sessenta e cinco, desta cidade do Porto, encontrando-me no uso pleno das minhas faculdades e livre de qualquer coacção, faço por este meio e meu testamento e disposições de última vontade, para que se cumpram e respeitem tais como passo e enunciar:

Eu, Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena, viúva, violoncelista, residente na Rua da Alegria, número seiscentos e sessenta e cinco, desta cidade do Porto, encontrando-me no uso pleno das minhas faculdades e livre de qualquer coacção, faço por este meio e meu testamento e disposições de última vontade, para que se cumpram e respeitem tais como passo e enunciar:
Sou Católica Apostólica Romana e, como tal, quero que o meu enterro se realize em obediência ao que manda a Santa Madre Igreja O meu corpo deverá ser sepultado no Cemitério de Agramonte, desta cidade, onde repousam as cinzas de meus pais e meu marido.
Quanto aos bens que possuo e existam à data da minha morte, são eles assim distribuídos:

-O meu violoncelo “Stradivarius” juntamente com dois arcos, um “Tourte” e outro “Voirin”, que se encontram na posse da Embaixada Inglesa em Lisboa, será enviado pelo nosso Embaixador à casa Hills de Londres, a fim de ser por ela adquirido ou vendido pelo melhor preço que se obtenha e o seu produto entregue à “Royal Academy of Music”, que o aplicará, segundo o melhor critério, por forma que o rendimento daí obtido se destine à criação de um prémio denominado “Guilhermina Suggia”, a atribuir, anualmente, ao melhor aluno de violoncelo,

-Possuo outro violoncelo, “Montagnana”, que igualmente será vendido pelo melhor preço, quantia essa que lego ao Conservatório de Música do Porto – através da Câmara Municipal do Porto, se o dito Conservatório continuar a pertencer-lhe, ou do Estado, se porventura ele passar a ser nacional – a fim de, com o rendimento deste legado, se instituir, também, um prémio designado “Guilhermina Suggia”, a atribuir, em cada ano, ao melhor aluno de violoncelo do referido Conservatório. Nesta venda será dada preferência à Senhora Dona Maria Alice Ferreira, filha do Senhor Delfim Ferreira, morador na Rua Dom João Quarto, duzentos e trinta e nove, desta cidade, se esta, na devida altura, pretender adquiri-lo.
Lego, ainda, ao mesmo Conservatório, a minha biblioteca musical – material de orquestra e literatura de violoncelo -, objectos esses a que será dada instalação condigna, para que, dessa forma, o culto, que eu toda a minha vida dediquei à arte musical, perdure e sirva de incentivo a todos – Mestres e Discípulos – que à Arte se dedicam.

-O meu violoncelo “Lockey Hill” lego-o ao Conservatório Nacional de Lisboa, como homenagem a meu pai, que foi aluno desse Conservatório.

-Ao meu criado António Igregias da Silva, deixo o meu automóvel Renaul – NN-cinquenta-zero-zero-, como testemunho de reconhecimento pela dedicação para com meu marido, e, bem assim, as ferramentas e utensílios que se encontrem na minha garagem, legado este que deixará de subsistir se eu, antes da minha morte, tiver transferido para esse dito criado o automóvel e utensílios em referência.

À Excelentíssima Senhora Dona Ernestina da Silva Monteiro, professora de piano, residente na Praça Mouzinho de Albuquerque, sessenta e nove, desta cidade, lego o meu piano de cauda “Franz Arnold”, que se encontra no salão da minha casa.

Mais lego à Excelentíssima Senhora Dona Maria Adelaide de Freitas Gonçalves, professora do Conservatório do Porto, a quantia de cinquenta mil escudos, em dinheiro, como lego, também, a quantia de vinte mil escudos à Sociedade Protectora dos Animais, desta cidade.

Quanto ao prédio que possuo e me pertence na Rua da Alegria, número seiscentos e sessenta e cinco, desta cidade, lego-o em usufruto a Dona Isabel Pereira Caldas Vilarinho de Carvalho Cerqueira, moradora na Rua Álvares Cabral, número cinquenta, desta cidade, e a raiz do mesmo ao Colégio Ultramarino das Missionárias de Maria, em Arcozelo, Barcelos, para, com o seu produto, auxiliar a construção de uma capela destinada ao culto privativo desse dito Colégio. Se, porém, à data em que o legado for recebido, essa capela tiver sido já construída, será o mesmo aplicado, a quaisquer fins inerentes ao exercício do culto.

Em documento que fiz, por mim escrito e assinado, contém-se a disposição de vários objectos mobiliários que possuo, documento esse que se cumprirá inteiramente, a menos que, antes da minha morte, eu resolva transferir tais objectos para os respectivos beneficiários.
Todos os legados instituídos e que não sejam, por Lei, isentos de imposto sucessório, são feitos sem quaisquer encargos, pelo que estes sairão do remanescente da minha herança.

Os valores que, porventura, existam, à minha morte no Westminster Bank Limited, de Londres lego-os a Miss Muriel Collins, moradora no número quarenta e nove Campden Hill Square – London, para esta lhe dar o destino, conforme as instruções que de mim tenha recebido.
Finalmente, e uma vez cumpridos todos os legados, que aqui ou em documento separado eu tenha instituído, disponho dos restantes bens a favor de Dona Isabel Pereira Caldas Vilarinho de Carvalho Cerqueira, atrás referida, a quem deixo, portanto, o remanescente da minha herança.
Para testamenteiros, que executarão fielmente todas as disposições da minha vontade, nomeio: Alberto Carlos de Carvalho Cerqueira, casado, residente na Rua Álvares Cabral, número cinquenta, desta cidade. Miss Muriel Tait, solteira, de nacionalidade inglesa, residente na Rua de Entrequintas, número cento e cinquenta e cinco, desta mesma cidade, e o Doutor Alberto Pires de Lima, casado, advogado, residente na Rua de Naulila, número duzentos e vinte e um, também desta cidade.
Assim, dou por terminado este meu testamento, escrito a meu rogo, para que se cumpra tal como nele se contém e revogo qualquer outro anterior que eu haja feito.
Porto,. Vinte e dois de Junho de mil novecentos e cinquenta
Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia Carteado Mena

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre”, de Fátima Pombo

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abril 07, 2004

Sonatas de Brahms e Beethoven

«Existem determinados artistas que não poderiam ser de um modo diferente do que aquele que são e, no seu dia, Suggia constitui um deles. Foi o seu dia no Wigmore Hall, na terça-feira. (...) e não existe nenhum artista que consiga colocar mais emoção na sua execução do que aquela que Suggia coloca.

Assim, vulcânicos como são os seus sentimentos, nada surge como destoando, nem as exigências da técnica, nem a precisão da sua interpretação. O trabalho constitui sempre um todo perfeito, sendo, no entanto, algumas partes em particular intensamente sentidas. Mesmo a sua arrebatadora interpretação do tema de abertura do op. 69 de Beethoven não provocou, por algum milagre, um desequilíbrio na leveza geral da sonata - uma sonata na qual, acidentalmente, Beethoven deu uma grande ideia a César Franck. Pois no último movimento, Franck, através da alteração de duas notas e efectuando um desenvolvimento em conformidade com isso, produziu uma melodia magnífica tendo Beethoven, por uma vez falhado por disso não se ter apercebido.
O acompanhante perfeito de Suggia ao piano tem ainda de ser encontrado - talvez esteja- ainda por nascer, Luiz Costa não é um mero acompanhante para um qualquer vulgar víoloncelista, na sua parte da sonata ele teria sido um seu igual, mas tocando com Suggia houve ocasiões onde a perfeita harmonia foi perdida, não por culpa de algum dos dois artistas, mas simplesmente devido à gigantesca personalidade da execução de Suggia. Os seus fraseados, tal como a coordenação dos seus "rubatos", foram excelentes, e tivemos o invulgar espectáculo de dois Latinos pegando fogo às difíceis composições teutónícas de Beethoven e Brahms. A propósito, as sonatas de Brahms foram as encantadoras op. 38 e a extremamente popular op. 99».


Morning Post, 12 de Novembro de 1924
«Ouvi-la tocar a Sonata de Brahms (Opus 38) com o pianista adequado, como sucedeu no Wigmore Hall na segunda-feira, e aquela obra-prima, que tão primorosamente realçou as numerosas qualidades do violoncelo, compreende-se o quanto a perfeita fusão entre o intelecto e a emoção significam num artista, embora desvendar e definir a arte de Suggia nos transmita a impressão de que existe algo de inapreensível. Ela surge identificando-se de uma forma tão íntima com o seu instrumento que parece que este apreendeu o seu carácter. Sente-se que só através do violoncelo poderia viver, de modo a ir ao encontro da plenitude da expressão.»


The Daily Telegraph, 21 de Novembro de 1938
«Actualmente Guilhermina Suggia não actua em público com frequência - para nossa grande perda. Presentemente, ela constitui uma artista ainda mais delicada e subtil relativamente ao que sempre foi, e ontem no Palladium proporcionou-nos uma tal exibição em violoncelo, que só muito raramente alguém é suficientemente afortunado para tal ouvir.
Mme. Suggia pode sempre adoptar um tom persuasivo e, quando necessário, um estilo desapaixonado. O tom é agora mais doce e a vitalidade rigorosamente controlada. A elegância da execução do seu primeiro grupo de peças - pequenas composições de Sammartinl, Bacb e Senaillé - não foi inesperada, nem o resplendor da sua interpretação do Concerto de Saint-Saëns nos tomou de surpresa.
Mas a sua terceira contribuição - a Sonata de Brahms em mi menor, op. 38 - na qual teve em Gerard Moore o mais admirável colaborador - superou todas as expectativas. Foi notório o gracioso fraseamento no terceiro andamento, o qual foi particularmente cativante e, acima de tudo, a sua interpretação do último andamento, onde, com demasiada frequência, o violoncelo competia com o piano, sugerindo uma batalha entre um duende e um gigante.
A vitalidade de Mme. Suggia e o tacto do seu acompanhante colocaram os dois instrumentos em igualdade. Vitalidade esta que não se traduziu, no entanto, por tons forçados ou ritmos caóticos. Uma rigorosa noção de medida fluiu ao longo de toda a concepção; combinando espírito com um clássico sentido de forma, resultando numa interpretação que não será facilmente esquecida.»

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abril 06, 2004

Guarda bem esta Carta (...)

Em 1948, uma nevrite obriga Guilhermina Suggia a um repouso absoluto da mão esquerda. A recuperação faz-se na totalidade, sem deixar sequelas. Graves são as dores abdominais de que ela se queixa e que tanto a inquietam.
Apesar de ao longo dos anos Suggia se queixar de uma saúde frágil, desta vez os sintomas são preocupantes.
Por isso, antes de viajar para mais um concerto em Inglaterra, escreve a seguinte carta ao Dr. Carteado Mena em Novembro de 1948:


Em 1948, uma nevrite obriga Guilhermina Suggia a um repouso absoluto da mão esquerda. A recuperação faz-se na totalidade, sem deixar sequelas. Graves são as dores abdominais de que ela se queixa e que tanto a inquietam.
Apesar de ao longo dos anos Suggia se queixar de uma saúde frágil, desta vez os sintomas são preocupantes.
Por isso, antes de viajar para mais um concerto em Inglaterra, escreve a seguinte carta ao Dr. Carteado Mena em Novembro de 1948:


Meu Querido José:
Vai-se aproximando o dia da minha partida para Londres e vão aumentando as saudades – Como eu gostaria que este tempo aqui se prolongasse ainda por mais uns dias, tão bem que aqui me sinto e tendo notícias diárias dos meus queridos que afinal és tu e a mana! Ambos queixosos e com muito mimo, valha-lhes Nosso Senhor – Eu bem rezo a pedir que os melhore.
À medida que se aproxima a data da partida vão-se acumulando as várias coisas a tratar aqui, que o tempo não chega para tudo. Despedidas aos dois Presidentes, Embaixada Inglesa, recepção Instituto Britânico, Maria Alice Ferreira e Pilar Torres ambas pedindo uma lição pelo menos, tratar passaporte e ter tudo pronto para a viagem, bem podes calcular como tenho de andar depressa e sobretudo que precisava estudar muito.
O tempo promete estar bom. Miss Dorothy Tait chega na Terça-feira a Lisboa, já tenho o bilhete d’ela, lugar marcado no avião que se chama “York” e leva 22 passageiros – quatro motores e partem agora de Lisboa às 9h da manhã devendo chegar a Londres às 2 h da tarde de quinta-feira 31. É melhor assim pois chega-se de dia. Tenho-o visto voar por cima d’esta casa e realmente deve ser uma coisa muito agradável ir-se la em cima mas confesso que já gostaria de estar em Londres no Dorchester Hotel Park Lane, a escrever-te como estou agora aqui a fazê-lo.
Que Deus nos proteja e nos acompanhe sempre. De Londres mandaram um telegrama dizendo que o Permit vem de avião ter aqui. Devo recebê-lo amanhã mas tudo estava já arranjado com a Embaixada Britânica e com o “Home Office” em Londres para eu ir de todas as maneiras, até os agentes da aviação me disseram que eu iria mesmo sem visa porque Inglaterra me reclamava.
Têm sido tão amáveis e simpáticos para comigo que me sinto cativada. Também estive aqui com um advogado distinto, amigo do sr. Engº Queiroz que me aconselhou a fazer umas certas disposições por fora do meu testamento que ali fiz e que está guardado ali no Cofre do Banco Borges & Irmão, que é um tanto antiquado e cuja chave está na minha escrivaninha do meu quarto de dormir. A Clarinda sabe encontrá-la, mas como não tive tempo para fazer novo testamento o meu advogado aqui aconselhou-me a deixar a uma pessoa ou pessoas da minha confiança, os meus últimos desejos. Ninguém melhor do que tu poderá cumprir estas disposições e por isso numa folha separada t’as mando, na certeza de que terás prazer em cumprir aquilo que te peço no caso de eu vir a falecer antes do meu regresso a Portugal.
Enquanto aos donativos que desejo oferecer às nossas criadas tive de deixar isso entregue a um Banco. Tudo isto são prevenções que se Deus quiser e Deus há-de querer não será preciso, pois hei-de regressar contente e feliz de ter cumprido a minha missão
Eis o que te peço para fazeres no caso de eu não regressar:

1º- O violoncelo “Plumerel” que era do meu pai e que actualmente está em casa do sr Cerqueira deixo-o à filha, Isabel Cerqueira, como prova de amizade e também por ter sido aluna de meu pai que muito a estimava.

2º- O violoncelo “William Forster” que está no meu salão ao pé do piano, deixo-o à minha discípula Pilar Torres, como prova de afecto e amizade por ela e pela família.

3º- O pequenino violoncelo italiano com arco que está em Girassóis Barreiros deixo-o à Felisbella Passos em memória de meu pai.

4º- O meu piano Franz Arnold que está no “Cottage” em Barreiros deixo-o à minha boa amiga Ernestina da Silva Monteiro, como prova de sincera amizade.

5º- O meu piano “Bluthmer” que está no Porto à minha irmã Virgínia Pichon.

Das minhas jóias e toilettes e bibelôs gostaria que se fizesse uma dádiva segundo o teu critério a várias das minhas amigas que tanto estimo. (Muriel Tait, Linda Ramos, Mrs Yeatmam, Audrey Melville, Jean Marcel, Isabel e Maria luísa Cerqueira e às irmãs Silva Monteiro e Maria Alice Ferreira e tua filha Maria Anna e tua irmã Anna Mena.

Como tenho muita coisa em vestidos, roupas, pratas e chapéus, peles, roupas interiores, sapatos, casacos, cobertores e móveis, etc., é natural que minha irmã Virgínia tenha a primazia na selecção, e dos meus bens gostaria de contemplar as seguintes obras de caridade – Músicos Pobres, Sociedade Protectora dos Animais em recordação aos meus queridos cãezinhos Sandy e Mona, e para a Maria Beiras (Madre Lídia Inéz) uma verba boa para ajudar a construir uma capela no Colégio Ultramarino do Arcoselo – verdade que a maior parte da minha fortuna está em Inglaterra, mas gostaria de destinar metade dos meus bens monetários e valores de estado para essas obras de caridade – Ainda ficarias com muito.

(N’uma das minhas anuidades do Canadá, a última que fiz, está incluído que o sobrevivente de nós dois continua a receber cada semestre a quantia X) pois assinei-a em teu nome e meu.

Agora resta-me dar-te um beijo de muito carinho e desejar-te que melhores do teu braço e que sejas ainda muito feliz.

Deus te proteja e abençoe. Para a minha querida maninha mil beijinhos e saudades e lembranças às criadas. Guarda bem esta carta (…)

Tua Guilhermina

Do livro “ GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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abril 05, 2004

Histórias de Abandonos

O modo como movimentava o arco constituía todo um tratado gestual. «O meu arco começa no meio das costas»,dizia. E isso sentia-se. Percebia-se na magnificência da atitude assumida. Além disso, tinha uma relação quase pessoalizada com os violoncelos. Um Stradivarius, um Lockey Hill e um Montagnana. Instrumentos valiosos doados em testamento a diferentes instituições.

O modo como movimentava o arco constituía todo um tratado gestual. «O meu arco começa no meio das costas»,
dizia. E isso sentia-se. Percebia-se na magnificência da atitude assumida. Além disso, tinha uma relação quase pessoa-lizada com os violoncelos. Um Stradivarius, um Lockey Hill e um Montagnana. Instrumentos valiosos doados em testamento a diferentes instituições. O Montagnana, por exemplo, foi comprado pela Câmara Municipal do Porto e entregue ao Conservatório de Música desta cidade para patrocinar um Prémio Guilhermina Suggia. O produto da venda do Stradivarius serviu para patrocinar prémio semelhante em Londres. Acontece que no Porto, por questões burocráticas, há já vários anos ninguém é distinguido com o Prémio Suggia. Em Londres, todos os anos há um aluno premiado.
É apenas uma, entre muitas histórias de abandonos. A casa de Suggia é outra das recordações tristes. Chegaram a Leixões navios carregados com tapetes persas, biombos da China, móveis raros, lustres e papéis de parede, tudo comprado em Londres. Suggia quis ter no Porto a sua «home», como não se cansava de dizer.
A ideia era reproduzir o ambiente das mansões inglesas, e tê-lo-á conseguido. Hoje nada | resta. Pilar Torres não esconde a mágoa de ter visto que «alguém teve a coragem de colocar lá uma bandeira de leilão. A Câmara devia ter comprado aquele recheio fabuloso. Havia quadros de Malhoa, prenda da Rainha D. Amélia e da Rainha de Inglaterra. Hoje, se se quiser fazer uma Casa Guilhermina Suggia, não há quase nada».
E, no entanto, haveria tanto!

EXPRESSO, 18 de Janeiro de 1997

E, no entanto, hoje em Portugal, de Suggia, apenas resta para além dos 2 violoncelos, a casa onde viveu e morreu, na Rua da Alegria, nº 665. Não tem sequer uma placa que diga:” AQUI VIVEU E MORREU GUILHERMINA SUGGIA”
Nada. Silêncio, desconhecimento. Ignorância quase total acerca da mais importante figura da música do seu tempo.
Hoje a casa está à venda, será destruída e no seu espaço será construído um edifício que renda milhões. A única casa ainda de pé, onde Suggia viveu está à venda por 90.000 contos e ninguém a salva. Perde-se a oportunidade de se abrir uma CASA-MUSEU GUILHERMINA SUGGIA.
O violoncelo “Montagnana” que deixou para ser instituído anualmente um prémio ao melhor aluno de violoncelo do Conservatório do Porto, foi comprado pela CMPorto, tendo-lhe sido atribuído um valor de 550.000$00. Foram atribuídos, creio,5 prémios desde 1951. Muito provavelmente o valor do “Montagnana” hoje, daria para comprar várias vezes a casa.
Vai chegar um dia em que não haverá mesmo nada. E no entanto Suggia deixou tanto. Tanto que nós não merecemos.
Entrei numa livraria, na Rua dos Clérigos. Dirigi-me ao balcão onde estava um senhor distinto, bem vestido, com ar de quem não vendia só livros, também os lia. Perguntei se tinha alguma coisa sobre Guilhermina Suggia e ele perguntou-me:
Isso é o quê? Um programa de computadores?”
Assim mesmo. Tal e qual.
Expliquei quem tinha sido Suggia. Disse-me:
”Ah! talvez encontre na Rua Formosa, nuns alfarrabistas.”
Corri para a Rua Formosa, entrei no primeiro. Perguntei:
”Tem alguma coisa sobre a Guilhermina Suggia?”
E com um ar muito simpático o senhor disse-me :
” Olhe, agora pergunte-me em português”.
“Não sabe quem foi Guilhermina Suggia?”.
“Não faço ideia”.
Lá lhe disse. E como estava perto da Rua da Alegria subi para ver a casa. Cheguei ao nº 665. O que havia sido um jardim era agora um cemitério de automóveis. Bati à porta duma casa abandonada sempre a imaginar Suggia lá dentro. Acho mesmo que a escutava.
Eu queria ouvir alguém dizer: FOI NESSA CASA QUE SUGGIA VIVEU. Perguntei desesperadamente a dezenas de pessoas que passavam na rua com idade que eu julgava poderem ter conhecido Suggia. Ninguém sabia onde ela tinha vivido.
“Mas sabe quem foi Suggia?” Todos a quem perguntei, sem excepção, disseram
“Não imagino quem tenha sido”
Eu estava torcido. Eu queria que alguém me dissesse que tinha sido naquela casa. Lancei um olhar sobre as casas e corri para uma que tinha ar de ser habitada. Nº 645. Toco à campainha. Era um rez-de-chão alto. Oiço abrir uma janela e fiquei cheio de esperança. Perguntei:
“A senhora sabe se foi nesta casa que viveu Guilhermina Suggia?”(Só queria ouvir dizer:”Foi no nº 665”)
“Ai não faço ideia. Mas olhe, antes de nós não viveu. Nós vivemos aqui há 8 anos e conhecemos os senhores que viviam cá”
“Mas sabe quem foi Guilhermina Suggia?”
“Não senhor. Não faço ideia”

Desci a correr a Rua da Alegria. Entrei numa papelaria, comprei um bloco de cartas. Sentei-me num café e escrevi a ZARA NELSOVA professora na Juilliard School em Nova Iorque. Sabia que ela tinha tocado em Londres num concerto organizado pela Royal Academy of Music em 1950, em homenagem a Suggia. Escrevi sofridamente as minhas tristes aventuras desse dia.
Quase ninguém sabe quem foi GUILHERMINA SUGGIA! Que ingrata terra!


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abril 04, 2004

SUGGIA, FERRO e SALAZAR

Finda a guerra de Espanha, Franco substituiu, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, Serrano Suner, que era seu cunhado, pelo general Jordana. Este era amigo dos portugueses. Por isso Salazar determinou que, na visita que Jordana vinha fazer a Portugal, fosse aqui recebido o melhor possível. Entre as festas que se preparavam, além dos banquetes, recepções, tourada à antiga portuguesa, etc., organizou António Ferro em S. Carlos um breve recital de violoncelo com Guilhermina Suggia...

Um dia, o Ferro apareceu a Salazar muito embaraçado:
- Temos um problema com a Guilhermina Suggia. Ela pede um cachet de sessenta contos pela sua participação. Que é quanto lhe pagam em Londres e não quer baixar o preço dos seus recitais...
Salazar ponderou:
- Realmente, sessenta contos por tocar durante meia hora, é muito...
E de repente, fitando o Secretário da Informação:
- Olhe lá, o senhor sabe tocar rabeca?
Ferro, surpreendido, gaguejou:
- Não, não sei.
- Eu também não. Não há outro remédio: temos de pagar os sessenta contos à senhora.

Os sessenta contos foram depois dados pela artista a casas de caridade. Simplesmente, não descia seu cachet.

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abril 03, 2004

O Concerto de D'Albert e outras peças

21 de Agosto de 1949

O grande acontecimento musical que aparece em relevo nos jornais é o regresso de Suggia aos palcos escoceses.
Refere-se que o Concerto em dó de Eugène D'Albert é soberbamente interpretado: o som do violoncelo grandioso parecia vencer sem aparente esforço a unidade sonora da orquestra. lan Whyte, que dirigia a Orquestra Escocesa da B.B.C., tinha de ter cuidado para não se deixar dominar pelo efeito natural da personalidade de Suggia.

E se o concerto de D'Albert não pode ser considerado uma grande obra musical, tem melodias com beleza e uma abertura profundamente imaginativa. A prolongada cadência em tom menor no final do movimento lento é particularmente interessante. Tocado pela Suggia cresce e distingue-se. O som dela, marcado a fogo, é capaz de dar vida à peça mais esquecida.
No final do concerto os aplausos e as centenas de flores chamam-na várias vezes ao palco. Suggia, deslumbrante num vestido branco e mais régia do que nunca, agradece.


No feroz The Times é referido o enigma da escolha do concerto de Eugène D'Albert por Suggia.

Estando em voga há 50 anos, já não significa nada, porque não estimula nem o pensamento nem o sentimento, afirma o crítico. Conclui, no entanto, que só o estilo e a eloquência da magnífica Suggia poderiam realizar o raro fenómeno de animar um cadáver.
Uma das razões pela qual o concerto foi escolhido - provavelmente a principal - foi a nacionalidade escocesa de D'Albert. Nascido em Glasgow (ascendência francesa-inglesa), D'Albert surgiu como a opção melhor para o Festival Internacional de Edimburgo, a realizar-se no Usher Hall.


Nas peças de charme - e muito em especial na Peça em forma de Habanera de Maurice Ravel - Guilhermina Suggia tinha uma magnífica elegância e graça.
Disse João de Freitas Branco a 12 de Julho de 1989, no Porto, que "quem a tenha ouvido tocar essa peça, essa pequena preciosidade, nunca mais, creio eu, poderá suportá-la noutra interpretação, mesmo que seja a do melhor que há no nosso tempo"».


No Manchester News de 15 de Novembro de 1919 lê-se:

«A interpretação do "Adagio e Allegro" de Boccherini por Madame Suggia, bem como de outros solos de Dvorak, Fauré e Popper, demonstraram o seu génio na apresentação de uma técnica perfeita, impregnada de uma contínua subtileza de tom e expressão».
O prazer musical é mais difícil de ser conseguido com peças menores, a não ser que o intérprete consiga transformar o que é banal ou monótono num momento de raridade. Suggia redime as composições.

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Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:48 AM | Comentários (1)

abril 02, 2004

Testemunho de MADALENA SÁ E COSTA

Penso que deveriam haver mais homenagens e concertos em memória da grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA. A sua memória dever-se-ia manter sempre viva.

Em 1950, ano em que ela faleceu, o Conservatório realizou nos jardins um concerto com quatro violoncelos em que toquei com Celso de Carvalho, Carlos Figueiredo e Luís Millet. Mais tarde a Universidade realizou um concerto com vários violoncelistas, em que eu também toquei. Em 1985, ano Mundial da Música a Secretaria de Estado da Cultura convidou-me a colaborar num concerto realizado no Ateneu Comercial do Porto em que tocaram 12 violoncelistas as Bachianas Brasileiras, de Villa-Lobos, dirigidas pelo Dr. Manuel Ivo Cruz. Em 2001 houve um concerto para fazer lembrar a memória de GUILHERMINA SUGGIA, no Teatro Rivoli, com o magnífico violoncelista Mischa Maisky.
Ainda a Fundação Engº António de Almeida mandou esculpir um busto de SUGGIA que está num dos jardins da Cidade. Tudo isto, a meu ver, é pouco, quando se foi tão grande. Sobretudo acho que o Conservatório de Música do Porto deveria não esquecer a fantástica oferta que Suggia fez aos alunos daquele estabelecimento de ensino.
Lembrei-me de oferecer ao Conservatório este livrinho que hoje lhe estou a enviar(1) e juntamente escrevi uma carta à Presidente da Direcção do Conservatório, sugerindo a instituição na Escola, de um dia, cada ano, "GUILHERMINA SUGGIA”. Estou satisfeita que de agora em diante o dia 21 de Maio será de música pelos alunos para ser lembrada a grande violoncelista. Também o violoncelo “Montagnana” é, para mim, outro problema. A Câmara tirou-o do Conservatório e levou-o para o Museu Soares dos Reis. Deveria ser garantida a sua manutenção sonora. Ser tocado constantemente pelos premiados “Guilhermina Suggia”.
Alguém me pediu que escrevesse um trabalho sobre a maneira como SUGGIA tocava, porque não se conhece nada específico. É claro que não se pode dar uma ideia em palavras. Mas estou a tentar fazer um trabalho porque a ouvi muitas vezes com meus pais em privado e em concerto. E também com orquestra.
Foi tão grande o seu talento, a sua Arte, que a sua memória nunca devia ser apagada.


(1)trata-se do livro da autoria de Madalena Sá e Costa “Prémios Guilhermina Suggia do Conservatório de Música do Porto"

MADALENA SÁ E COSTA, violoncelista, professora de violoncelo (ex-aluna de Guilhermina Suggia)

Publicado por vm em 03:14 AM | Comentários (4)

abril 01, 2004

VIRGÍNIA trabalha para manter a família

Augusto Suggia conta que Guilhermina parte, nos primeiros dias de Novembro, para Leipzig e que ele a acompanha. A casa onde Guilhermina se hospedará pertence a Olga Katzentein, sobrinha do cônsul alemão nessa cidade. Esta escreveu dizendo ser já tarde para a entrada no Conservatório, embora, através de uma boa recomendação, isso seja ainda possível. Julius Klengel e Arthur Nikisch fazem parte das relações de Olga Katzentein, a qual diz saber que este último se mostra muito cativado com a forma como foi recebido e tratado em Lisboa. Augusto Suggia sugere que ninguém melhor que Lambertini pode conseguir este feito: «A minha filha Guilhermina, pede-lhe com o maior empenho e suplica-lhe de mãosinhas postas que escreva já para Leipzig a predispor bem aquelle mestre [Nikisch], ou outro qualquer que alli conheça, para que isto, que tem corrido tão bem, tenha bom resultado como nós todos desejamos.»

Lambertini é repetidamente abordado com pedidos de Augusto Suggia: ora para se divulgar notícias de suas filhas na “A Arte Musical”, ora para, em colaboração com Henrique Sauvinet, obter facilidades para a entrada das concertistas nas casas da Duquesa de Palmela ou da Condessa de Edla, prevendo que isso desencadeasse o auxílio de quem pudesse promover os estudos das suas filhas. Noutra ocasião, já em 1904, pede-lhe que escreva a Edouard Colonne para que este não se esqueça de como tinha apreciado ouvir Guilhermina tocar. Depois de obtida a pensão para a filha mais nova, a sua preocupação vai para Virgínia. A certa altura, conta que esta desejava muito ir a Lisboa tocar, mas que os custos da deslocação são incomportáveis. Augusto pede a Lambertini que consiga, através de Henrique Sauvinet ou da direcção da Real Academia de Amadores de Música, que esta instituição a receba num concerto e que, de alguma forma, consiga minorar os custos da viagem. Noutra ocasião, pede-lhe o favor de comprar um novo piano a Virgínia para que esta pudesse continuar a leccionar. É que Virgínia não tem como pagá-lo, pois todo o dinheiro que recebe é enviado para Leipzig. Augusto garante que se não for Virgínia, com o dinheiro das suas lições, a pagar a dívida, Guilhermina pagará mais tarde a despesa. Para além de todos estas solicitações, das quais Augusto Suggia tinha perfeita consciência, escreve também a Lambertini para enviar notícias dos progressos de Guilhermina, não se furtando a afirmar a sua gratidão pelo auxílio com que sempre contaram de sua parte.

“Michel’Angelo Lambertini”, Museu da Música, Lisboa 2002

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