março 31, 2004

Concerto de Elgar

Diário de Lisboa, 14 de Dezembro de 1938

«O Embaixador do Brasil em Portugal regressando de Inglaterra trouxe a notícia do êxito estrondoso de Suggia no concerto de Elgar no dia 10 de Dezembro de 1938 no Queen's Hall de Londres, com a orquestra sinfónica da BBC sob a direcção de Sir Henry Wood.
A interpretação da obra foi de tal modo notável que o público que enchia a famosa sala de concertos irrompeu numa espontânea e vibrante demonstração de entusiasmo, trazendo Guilhermina Suggia inúmeras vezes ao palco, entre aplausos frenéticos e calorosos».


Seara Nova, 5 de Junho de 1943

S. Carlos - 4° concerto da orquestra sinfónica nacional
«O 4º Concerto do chamado "ciclo da Primavera" (e que com boas razões já se poderia chamar estival) da O.S.N. teve o especial relevo da colaboração da grande violoncelista Guilhermina Suggia. Colaboração preciosa, escusado será dizê-lo, já pela categoria da artista, já porque ouvi-la é um prazer quási excepcional, tão raras vezes ela se apresenta, ou se tem ultimamente apresentado em público.
Ainda há pouco tempo tivemos ocasião de manifestar aqui mesmo nesta Revista toda a nossa consideração pela ilustre violoncelista, o nosso alto apreço da sua arte maravilhosa, para que se nos escuse o não entrarmos novamente a desfiar o rosário dos adjectivos em uso no estilo de jornalismo barato.
Suggia é uma grande extraordinária artista: isto vale dizer tudo. A sua interpretação do Concerto de Lalo, foi de urna qualidade de estilo única, de uma eloquência generosa, no 1º andamento, de uma qualidade de som encantadora no 2º, e de uma graça e vivacidade insuperáveis no último.
Excelentemente secundada pela Orquestra Sinfónica Nacional e pelo excelente "acompanhador" que é Pedro de Freitas Branco, Guilhermina Suggia teve no Concerto de Lalo uma das melhores criações que jamais lhe ouvimos.
Sempre perfeita, sempre elegante, sempre de uma sedução sem par, Suggia deu--nos ainda, o Kol Nidrei, de Max Bruch, o Allegro apassionato de Saint-Saëns, a Peça em forma de Habanera, de Ravel e a Dança do fogo, do Amor Brujo. de Falla, que confessamos nos parecer pouco própria a um «arranjo» solístico com orquestra. Extra programa e correspondendo ao entusiasmo do público, executou a ilustre violoncelista o Zapateado, de Sarasate, e uma Suite para violoncelo solo, de Bach, onde subiu às culminâncias da arte grande, servida por uma grande artista.
Como «novidade», apresentava-nos a Orquestra Sinfónica Nacional a 1ª audição (entre nós) do poema sinfónico de Strauss: Assim falava Zarathustra.
Valerá a pena perder tempo com «novidades» que já não são novidade nenhuma, quando há tanta coisa de facto «nova» ainda desconhecida e que espera ser revelada? Este poema sinfónico nada adianta no conhecimento que o público já tem da obra e da personalidade de Strauss. Para nós, pessoalmente, é ela mais um dos grosseiros erros da estética sensacionalista da sua primeira fase, onde a verdadeira música era substituída pelo «gesto» teatral, e o pretensiosismo «filosófico» escondia urna verdadeira carência de ideias («eu descubro tais ideias cada vez que ato os meus suspensórios», dizia pouco mais ou menos o espirituoso e lúcido Paul Dukas). Nietzsche-Zarathustra seria o primeiro a detestar esta música. Ele que a queria de pés de fogo, dispensadora de «embriaguês ditirâmbica», como poderia deixar de dirigir contra Strauss e a sua música pesadona e vulgar os sarcasmos de que crivou o pedantismo da cultura germânica contemporânea, e que o levou mesmo a renegar o seu grande amor de adolescente Wagner?
Historicamente, impõe-se um confronto: Also sprach Zarathustra foi composto um ano depois do Prélude à laprés-midi d'un faune (1894). Abstraindo mesmo do que possa haver de irredutível nas personalidades de Debussy e Strauss como representantes de culturas radicalmente diferentes, o confronto não deixa por isso de ser simbólico do ponto de vista puramente históríco-musical, como situando cronologicamente um conflito entre duas concepções da arte dos sons, uma que morria, outra que nascia, com todas as consequências que para a evolução posterior da arte dos sons advieram da vitória da simplicidade naturalista da écloga debussysta sobre a macissês filosofante do poema straussiano.

Fernando Lopes Graça


República, 16 de Fevereiro de 1946

«António Viana refere-se ao concerto do Teatro Nacional de S. Carlos "em que a colossal artista emocionou e encantou a assistência, que lhe fez justamente uma verdadeira apoteose. Tocou o concerto em mi-menor de Elgar com a sua arcada, que arrebata, com o brio e a expressão que só ela possue e ouvido em religioso silêncio, teve aplausos intermináveis, tendo de repetir o último andamento, gentileza justamente premiada com lindíssimos ramos de flores. Grande artista que honra Portugal e que já é uma das maiores glórias mundiais do violoncelo».


Diário de Notícias, 16 de Fevereiro de 1946

«Sobre este mesmo concerto pode ler-se num artigo assinado por A. Joyce que "Guilhermina Suggia, promoveu ontem aquele encantamento, que é também prodígio, de ampliar ao máximo as virtudes da obra. Conseguiu-o mediante aquele magnífico poder, privilégio dos inspirados. Supérfluo será dizer que a sua incomparável actuação provocou delirantes ovações, bem demonstrativas da impressão causada, como sempre, rara e inesquecível, mas semelhando cada dia mais funda. Às infindáveis aclamações correspondeu Suggia bisando o "Allegro molto" do Concerto.»

do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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março 30, 2004

concerto no Salão da Trindade

Em 21 de Novembro de 1903, Lambertini promove uma festa artística em favor das duas irmãs, onde estas se apresentam num último concerto, no Salão da Trindade, em Lisboa, antes da sua partida para prosseguir os estudos na Alemanha e Rússia.

Os subscritores da circular que participa a realização da festa são: as condessas de Almedina, de Almeida Araújo e de Proença-a-Velha, Maria Domingas da Camara, Elisa Baptista de Sousa Pedroso, Luisa Burnay, Maria Ferraz Bravo, o Marquês de Borba, os condes de Almeida Araújo e de Proença-a-Velha, o Visconde da Ribeira Brava, António de Noronha, Luís da Cunha Meneses, Alberto Pedroso, Afonso Vargas, Alexandre José Sarsfield, Alfredo Keil, António Lamas, Augusto Machado, Jerónimo Bravo, José Relvas, José Ribeiro da Cunha e Lambertini.

“Michel’Angelo Lambertini”, Museu da Música, Lisboa, 2002

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março 29, 2004

SUGGIA toca em Lisboa pela 1ªvez

Guilhermina Suggia (1885-1950) tocou pela primeira vez em Lisboa, no salão do Conservatório, em 25 de Março de 1901, integrada no Quarteto Moreira de Sá. No dia seguinte, a convite de Lambertini, Guilhermina inaugurou a primeira das Audições Musicais da Casa Lambertini com um recital de violoncelo que a apresentou, a si e à sua irmã Virgínia, à imprensa jornalística de Lisboa. Em 27 de Abril, as duas jovens estavam de volta às Audições Musicais no salão Lambertini.

Entretanto, Lambertini divulgava, na “A Arte Musical”, a urgência do aperfeiçoamento dos estudos das duas concertistas e a necessidade da protecção do Estado para que esta aprendizagem fosse feita no Estrangeiro. Em 3 de Outubro do mesmo ano, em carta a Lambertini, Augusto Suggia, pai das duas jovens, anuncia ter sido concedida a Guilhermina a pensão do Governo para que esta prosseguisse os seus estudos no Estrangeiro. Guilhermina deslocou-se então para Leipzig, onde tiveram inicio as suas aulas com Julius Klengel.
A jovem violoncelista vai dando notícias a Lambertini dos seus progressos, envia-lhe os programas dos concertos, conta-lhe que personalidades do meio musical, e não só, vai conhecendo, manifestando sempre, em cada carta, a sua gratidão para com ele.
Em 1903, depois de um concerto que ofereceu, em 11 de Junho, à Escola de Música de Câmara, e onde foi acompanhada por Virgínia, foi nomeada sócia de mérito dessa instituição. Em 14 de Maio de 1907, voltou a actuar na Sociedade, desta feita com José Viana da Mota. Pela sua colaboração, foi contemplada com a medalha da Sociedade, a qual visava premiar aqueles que tinham concorrido de forma especial para abrilhantar o trabalho daquela instituição.

“Michel’Angelo Lambertini”, Museu da Música, Lisboa 2002

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março 28, 2004

Concerto de LALO

1937 (sem referência do jornal, dia ou mês)

Rui Coelho, ao afirmar que Guilhermina Suggia é uma intérprete genial, diz que o faz com prazer e com mágoa.
«Prazer, porque admirar nos consola. Mágoa, porque raras vezes as podemos escrever, Guilhermina Suggia-Mena tem frequentado pouco o nosso acanhado meio musical.

Oxalá o seu fogo sagrado agite mais vezes as almas dos que aqui desejam ansiosamente ouvir música, livremente, sem sujeições ao que na música tantas vezes serve para não dar aos espíritos, o que eles afinal nela procuram: o espírito das obras e não os seus efeitos técnicos; a alma da música e não o mistério mecânico dos seus segredos de laboratório.
Guilhermina Suggia-Mena teve na orquestra dirigida pelo maestro Pedro de Freitas Branco, tanto no Concerto de Lalo. como no de Saint-Saëns, e no resto do programa, uma colaboração justa, atenta, elegante e muito valiosa».

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março 27, 2004

Faz agora 15 anos que morreu...

Faz agora quinze anos que morreu uma grande artista portuguesa. Raros amigos e admiradores a lembraram; e a que foi das melhores violoncelistas do seu tempo e assinalou com fulgores de talento a sua presença na musicologia das últimas décadas é hoje um valor arrumado entre os que o tempo quase apagou. Mas há esquecimentos que pesam como injustiças, quando não como ingratidões. Lembrar os que deixaram alguma coisa de si para nos tornar melhores — a nossos olhos e aos dos outros — para além de retribuição de um bem com simples acto de reconhecimento, é mostra de dignidade, sentido de valor humano, posição perante a vida a definir-se em cultura. E nós, que somos poucos, deveremos ter o cuidado de suprir pela qualidade a míngua da quantidade, para conseguir que um equivalha a muitos com a força e a virtude que fazem do homem o íntimo dos deuses. Honrar os que já foram e se tornaram grandes por seu merecimento é mantê-los presentes como afirmação de uma existência também nossa, pois nosso é o património que nos ficou; na sua glória ou na altitude que lograram atingir está com o nome deles o do povo a que pertenceram: a sobrevivência e continuidade no tempo como valor humano. GUILHERMINA SUGGIA além do prémio anual atribuído pelo Secretariado Nacional da Informação, crê-se não ser recordada como se devia a uma Artista que no estrangeiro, sobretudo na Inglaterra, soube servir a música e o seu país.


De rara precocidade, havendo recebido lições de seu pai, Augusto Suggia, já aos 13 anos fazia parte do quarteto de música de câmara do Orfeão Portuense como violoncelista, com executantes da estirpe de Moreira de Sá e Henrique Carneiro.
Logo os êxitos dos seus concertos se sucedem e a Rainha Dona Amélia concede-lhe uma bolsa de estudo para cursar na Alemanha. A seguir, e o jornadear pelas capitais do Mundo, cotando-se como das melhores intérpretes de Saint-Saëns, Lalo, Dvorak, Elgar, Boëllmann, Ravel. Na Inglaterra admiravam-na extraordinariamente e a Família Real dispensava-lhe especial estima. Os seus concertos atraíam o grande público e a sua arte singular dominava e fazia escola.
De forte, densa capacidade interpretativa, o arco abria estradas e claridades, em traços vivos, de notável sobriedade e firmeza, sem excluir a subtileza de um apontamento, o encanto de uma sonoridade. Tinha o sortilégio de urna presença que transfigurava e tudo fazia esquecer: estava ela, com o seu instrumento de magia, e o mundo maravilhoso que abria e revelava. Aconteceu mesmo que, findo um concerto, reinou o silêncio das grandes comoções, quase doloroso, até irromper o entusiasmo daqueles que a sua arte subjugara - e aguardavam mais, não querendo que passassem os momentos de embriaguez espiritual. E conta-se que umas estrangeiras de visita ao nosso país percorreram centenas de quilómetros para irem ouvi-la, dizendo depois que só para isso valia a pena vir a Portugal.
GUILHERMINA SUGGIA morreu no Porto, onde passou grande parte da sua vida e criou profundas amizades e dedicações.
Também se votou a coisas das artes e da cultura, mostrando particular interesse pela educação artística da juventude. E ao seu grande coração não era estranha a pobreza: ultimamente só abandonava o seu recolhimento para colaborar em obras de caridade. Isto, que sucedeu em vida, transpareceu também depois da morte, pois o seu testamento reflecte o quanto ela queria aos seus amigos (não esquecendo os de Inglaterra), aos servidores, aos jovens que vão para o futuro com a promessa de uma realização em humanidade. Há uma dívida em aberto para com esta grande artista portuguesa. É preciso saldá-la, honrando-lhe a memória, perpetuando o seu nome como bem merece. Isso também honrará quem o fizer, porque os homens e os povos valem, pelo que fazem e pelo modo como sabem apreciar os que, de algum modo, puderam dar expressão duradoura ao que neles há de superiormente humano. Assim os homens se aproximam do Homem e não se afastam do seu destino; é um modo de se dignificarem.

MIRANDA MENDES ( Diário de Notícias 28/4/1969)

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março 26, 2004

Música em casa de SUGGIA

Na sua elegante residência, M.me GUILHERMINA SUGGIA DE MENA e o Sr. Dr. Carteado de Mena proporcionaram a alguns amigos, raros e felizes, momentos inolvidáveis de convívio e de música. As fidalgas atenções...
Assim deveríamos começar em correcto estilo de «carnet mondain». Mas o talento, quando soberano, suprime o protocolo. Acaso pretendemos ser mais cortezes do que as inúmeras salas europeias que têm aclamado o nome famoso da virtuose ?

Digamos, pois, que é com íntimo sentimento de respeito que se entra em casa de GUILHERMINA SUGGIA. Ali vêem quebrar-se os aplausos do vasto mundo e ali, contraste cheio de encanto, se respira a calma de quem busca isolar-se na pequenez do monótono burgo natal. Desta sorte a grande artista reúne as vantagens da glória com as da obscuridade.
Ambiente de gosto e de cultura, todo em linhas nítidas, um pouco ao estilo do norte. Sociedade brilhante, predominando a língua britânica. O exílio na Inglaterra é doce e deixa nos repatriados uma nostalgia de segunda pátria. Entre ela e a violoncelista, a afeição é recíproca.
Ora, na colónia inglesa não faltam músicos excelentes. Todos os anos o demonstra o concerto da «Choral Society», festa sempre original e viva, com muita emoção, o seu quê de solenidade e outro tanto de humorismo. Neste meio, e a par dele no melhor círculo de artistas portuenses (em rigor, a uns e outros contamos como nossos), escolheu GUILHERMINA SUGGIA os executantes e os auditores do seu programa.
Vejam como se combinam agradavelmente os apelidos ingleses e os portugueses. A Miss Margaret Sampson contraporemos a menina Helena Costa: duas imagens da candura, reconcentrada a inglesinha como uma figura de Rosseti, a portuguesita sorrindo aos jogos cintilantes de Weber e de Debussy. A arte delicada de Miss Burnall e de Miss Flower deu-nos canções de lirismo requintado, a de Mr. e Mrs. Hubert Stutfield outras de forte e pitoresco relevo. (É necessário dizer que o cantor, director de coros e director de orquestra é uma das personalidades interessantes do Porto e que nunca mais o restituiremos ao seu país, agora que temos a fortuna de o ter cá ?) Enfim, a magnânima «hostess» tocou com a Sr.a D. Leonilda Moreira de Sá e Costa (Boccherini, Senaillé, Glazounow, Kreisler) e com Luís Costa (nada menos que uma sonata de Brahms). Estas poucas palavras dizem tudo.
A violoncelista vai dar dois concertos em Madrid e em breve fará uma jornada pela América. Seríamos tentados a ante-invejar esses longínquos ouvintes. Mas por confessável que fosse o feio sentimento, quem o pode conceber ao admirá-la tão nobre no seu lar encantador como nas grandes noites de concerto?
Most gracious singer of high poems !

(CARLOS RAMOS em O Primeiro de Janeiro, de 1 de Junho de 1928).

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março 25, 2004

onde está o Stradivarius de Suggia?

Será que está fechado num cofre forte a 7 chaves sem ser visto e sem ser tocado? Não está. Segundo informação recebida de um leitor deste blog o stradivarius está cedido pela Stradivari Stiftung Habisreutinger à violoncelista Maja Weber do suiço AMAR QUARTET. Se estivesse em Portugal seria, com certeza, diferente! Por estupidez, ignorância ou mesquinhez! Próprio de quem não sabe dar valor ao que tem. Os instrumentos devem ter vida. Isso preserva-os.

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3º Concerto da Sociedade de Concertos 8/5/1924

O terceiro concerto da eminente violoncelista GUILHERMINA SUGGIA constituiu um novo triunfo para a nossa compatriota. Acompanhada pelo ilustre pianista Georges Reeves, SUGGIA executou magistralmente todos os números do programa, afirmando mais uma vez aquele intenso dinamismo que caracteriza as suas interpretações – sempre correctas, conscienciosas e inexcedíveis.

No lugar de honra figurava a “Sonata em fá” para piano e violoncelo, de Brahms, interpretada por SUGGIA com a colaboração do director da Sociedade de Concertos JOSÉ VIANA DA MOTA. A extraordinária realização dessa obra colossal foi absolutamente digna dos gloriosos artistas que a animaram com aquele fogo de duas naturezas irmãs pela raça e pelo génio.

SUGGIA, VIANA DA MOTA e GEORGES REEVES foram alvo de carinhosas ovações, que nos proporcionaram numerosos trechos extra-programa – entre os quais o II andamento da “Sonata em mi menor”, de Brahms, o “Vito” de Popper, a “Aria em ré” de Bach e “Au temps jadis” de George Henschell. - F.L.

O SÉCULO, 9 de Maio de 1924

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março 24, 2004

Testemunho de Maestro Manuel Ivo Cruz

Nos seus altos e baixos, a vida musical portuguesa tem encontrado, em todas as épocas, músicos do mais alto valor, que ultrapassam o ónus da nacionalidade e a projectam no exterior de forma indelével. Poder-se-á mesmo dizer que a presença portuguesa no dia a dia cultural europeu se deve prioritariamente ao talento dos nossos artistas músicos, compositores e intérpretes.
SUGGIA foi um desses seres de privilégio que nos colocaram naturalmente na Europa culta, muito antes da entrada dos nossos políticos nos gabinetes de Bruxelas ou de Strasburg.

O início da minha vida artística fez-se através do violoncelo; fui aluno de Mimi de Korth Brandão e depois, no Conservatório Nacional, de Mário Camerini; durante alguns anos fiz parte do naipe de violoncelos da Orquestra Filarmónica de Lisboa.
Esta informação destina-se apenas a indicar o peso da presença de SUGGIA na minha vida: mas dela me lembro desde a minha infância.
SUGGIA era então uma espécie de divindade mitológica, que por vezes chegava até nós como que descendo dos céus! O género de fascínio que mais tarde viriam exercer Maria Callas e Karajan.
A primeira vez que a vi foi no S. Carlos, num concerto de que já esqueci quem tocava e qual o programa; lembro-me somente que SUGGIA estava num camarote de 1ª ordem - olhava para o palco e eu via-a de perfil, perfeitamente desenhada contra a ligeira iluminação que vinha do fundo, imóvel, concentrada, atenta ao concerto. E eu atento àquele perfil magnífico, rasgado, dominador, cheio de força. Depois, no intervalo, já com as luzes acesas, a SUGGIA parecia uma rainha, sorrindo e respondendo discretamente a todos os que, cá debaixo, a cumprimentavam. Tornei a vê-la, mais de perto, no Conservatório Nacional; meu Pai, então Director, tinha-a convidado para professora e sei que SUGGIA ficou satisfeita com a hipótese; a sua ligação ao Porto e sobretudo a carreira de grande concertista internacional impediram porém a concretização desse plano.
Mas nas minhas memórias infantis, avultam sobretudo os seus concertos a que assisti no S. Carlos, em 1943, com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional dirigida por Sir Malcolm Sargent. Foi a 1ª vez que a vi tocar e guardo desses momentos uma recordação luminosa! Não só o som espantoso do seu violoncelo ressoa ainda na minha cabeça, como também me é inesquecível a sua presença em cena, arrebatadora, duma expressividade que ajudava o público a acompanhar e apreender as mais subtis “nuances” da obra que interpretava.
Nada lhe era indiferente, todo o frazeio era claro, talentosíssimo, musicalíssimo!
As Variações Sinfónicas de Boëllman, os concertos de Dvorak, Elgar e Saint-Saëns, nunca mais saíram do arquivo das minhas emoções.

Um dos aspectos mais duradouros e positivos das actividades de Suggia foi o de ter deixado uma escola de violoncelo perfeitamente caracterizada no Norte de Portugal, a Escola de SUGGIA.
Um exemplo recente disso é o facto de, quando da muito controversa criação, em 1988, da Orquestra da Regie Sinfonia, no Porto, enquanto os diversos naipes foram sobretudo preenchidos com músicos estrangeiros, dos quatros lugares então abertos, no naipe de violoncelos, três acabaram por ficar bem entregues a músicos portuenses, netos artísticos de SUGGIA: José Augusto Pereira de Sousa, Gisela Neves e Paula Almeida, que felizmente continuam hoje na Orquestra Clássica do Porto. Isto é significativo, mais ainda por se ter verificado numa conjuntura em que ser músico português levantava imediatamente injustas reservas. (1)
Em 1985, dirigi no Norte uma série de concertos comemorativos do centenário do nascimento de GUILHERMINA SUGGIA, por amável convite de Madalena Moreira de Sá e Costa, sua discípula directa e continuadora no Conservatório do Porto da sua grande escola. Reuniu-se nessa altura uma orquestra de violoncelos de alto nível, formada por discípulos e discípulos-netos de SUGGIA, entre os quais retive os nomes de Madalena Moreira de Sá e Costa, Isabel Delerue, Teresa Rocha, Isabel Cerqueira Millet, Arnould Allum, Gisela Neves, Vieira Duarte, Paula Almeida, José Augusto Pereira de Sousa, José Lobo...
Grande representante nortenho da escola de SUGGIA foi também Carlos Figueiredo, violoncelista de carreira muito notável, prematuramente desaparecido, de quem conservo a melhor recordação.
Mas outros discípulos de Suggia continuaram a sua escola em Lisboa, entre os quais o saudoso Filipe Loriente, Celso de Carvalho e Pilar Torres,(2) que muito felizmente a prolongou na sua cátedra do Conservatório de Lisboa.
Outro aspecto a salientar no fulgurante rasto de Suggia foi o seu entusiástico apoio à criação da Orquestra Sinfónica do Porto, em 1948.
Como espírito cultivado, mulher inteligente e cidadã europeia por direito próprio, SUGGIA tinha a noção de que uma vida musical estável exige a presença do organismo sinfónico, garante básico da profissão de músico e forte dinamizador de público. Sei que o seu empenhamento foi enorme: não só se apresentou como solista nos primeiros concertos da nova Orquestra como passou várias semanas a trabalhar o naipe de violoncelos, os seus jovens alunos, preparando o reportório sinfónico que iriam enfrentar pela 1.a vez.
É exemplar, a grande SUGGIA a fazer o papel de chefe de naipe de uma Orquestra que ainda não existia!
Repito: SUGGIA foi um desses seres de privilégio que nos colocaram naturalmente na Europa culta, muito antes da entrada dos nossos políticos nos gabinetes de Bruxelas ou de Strasburg.

(1) - Hoje a situação não melhorou...
(2) - Ambos também nesta data já falecidos, para nosso pesar.

...
Maestro MANUEL IVO CRUZ

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março 23, 2004

Descanso. Acordo para a compra da casa

Com a carta que recebeu da filha no dia 1 de Dezembro concordando com a compra da casa, já pode o pai lamentar-se e atrair o carinho de Guilhermina para si.


Porto, 2-12-1924

Minha Querida Guilhermina,
Recebi hontem a tua carta e telegrama.
Já era tempo!!! Fiquei mais descansado. Imagina tu na tua fraca intellegencia que é igual à minha, como eu havia de andar sem receber notícias nem respostas a 3 cartas e 2 telegramas! O tempo ia-se passando, a libra ia-se baixando, eu ia-me apoquentando e ralando e desesperando e telegrafando e gastando.
Na minha fraca intellegencia que é igual à tua, já phantasiava coisas funestas e incríveis!!!
E tu a descansares das fadigas e eu a cansar-me das fadigas que isto me tem dado e dará...
Se era tempo de estares quieta, em Londres, isto não era diffícil, mas assim foi o di-á-cho.

Fui hoje falar ao dono da casa, (pois que ainda é d'elle) e elle concordou em se fazerem as escripturas, quando tu vieres, (segundo tu dizes) em meádos d'este mez. O que tem de se fazer já, é pagar a ciza, que é a contribuição à Câmara. O que eu vou tratar, quando vier o dinheiro: e untar as mãos, aos que vão avaliar a casa, e quanto menos a avaliarem, mais pequena é a contribuição…………….
Em seguida tratarei do seguro. Fiquei contentíssimo em saber que vens cá ainda este mez; mas custa-me a acreditar semelhante coisa!!! Era bem bom, e bem preciso.
Há 15 dias que faz um Inverno rigorosíssimo. A minha saúde tem andado muito abalada. Tenho andado muito assustado com a minha saúde e muito esmorecido, e principalmente agora que eu tanto desejava viver, para descansar um pouco e poder agradecer-te os grandes sacrifícios que tens feito e fazes, por mim e pela mamã, e rogar a Deus (que tudo sabe e tudo vê) que te dê a recompensa que tu mereces.
Eu, há pouco tempo, aceitei tocar num teatro que é um pouco mais abaixo da casa onde moro.
Não chega a 2 minutos de caminho. A música, lá, é muito fácil e sem responsabilidade alguma e ganho 20 escudos por noite. Como não me custa nada, aceitei. Vou indo até quando puder: assim que veja que não posso, não vou. Isto acaba em Março. (...) E então não podes levar a mal. Depois descansarei.
Agora falemos da casa. Não é cara, nem barata. Antes pelo contrário! O que não era possível é que tivesse um grande salão, como tu estás imaginando. Encontrei, sim, casas com grandes salões, mas peia módica quantia de 250, 300 a 400, e 500 contos. Mas por 140 contos, não ha salões, A casa é moderna, é elegante, é situada em lugar saudável; tem nos 4 pavimentos 20 divisões, um bocado bem razoável para jardim, e em todas as 20 divisões tem luz eléctrica. Tem água encanada da companhia, tem 1 quarto de banho, com as janellas. e tudo que pertence a um quarto de banho.
A. cozinha é pequena (como se uza agora), mas provida de bons armários e bom fogão. Tem sala no 1º andar e sala no 2º. De uma d'estas salas, podes fazer quarto para ti e para a mamã. Uma, (a primeira) tem duas janellas, e a segunda, tem três janellas. Já se vê. que tudo isto está nu. O picheleiro tem bastante que fazer, e só estando tu cá é que se sabe o que se há-de fazer.
Eu gosto immenso da casa. Muitas vezes estou parado em frente a namorá-la. A parede exterior é de azulejo como a de Mathosinhos. Tem muitas arrumações. Enfim só o que não tem é o tal salão.
A respeito d'isso, é melhor casares e o teu marido mandar construir casa, com dois salões. Um para música de câmera e outro para concertos symphónicos.
A casa onde estou está medonha de velha e mal cheirosa. É insuportável!!!
Com estas trapalhadas de falta de correspondência, não houve tempo de te mandar dizer, que mandasses o dinheiro para o Banco Commercial, onde sou muito conhecido e acreditado. Mas quando precisares de mandar dinheiro, manda, para este banco. É muito sério e acreditado. Fiquei muito contente por saber que a minha carta à mamã foi recebida no dia dos annos. Deus lhe melhore a saúde, para descançar o espírito. Eu a ensinarei, aqui, a ter paciência, que é o que me tem valido.
Não contes, aqui, com mais ninguém a respeito da casa, porque ninguém se mexe!!!
Aceitem muitos abraços e beijos, e que Deus as proteja.
Teu pae, que te está muito agradecido

Augusto Suggia


- Muitas lembranças e saudades da Felisbella.
- No terreno do jardim pode-se abrir poço, pois que há muita água; e de meias com o vizinho do lado que vae habitar a casa ao lado, exatamenle igual à nossa, e é irmão do indivíduo que vende esta.
- Já não vendo as gravatas de fazer o laço.
- Esqueceu-me dizer que o dono, que teimava em só dar a casa por 155 contos, lhe fez muito effeito eu dizer-lhe que seria paga d'uma vez só. Enfim, se em alguma coisa andei mal não foi porque não fizesse lodo o possível para ir bem.
-Falta-me dizer mais uma coisa. A casa não tem fogões, porque agora não os fazem, porque ha os aquecedores eléctricos, que são mais económicos, mais rápidos e mais baratos, porque só ardem quando queremos, e podem-se mudar para onde quizermos. E são menos perigosos.

Do livro “ GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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março 22, 2004

Recital no S. Carlos em 3/5/1924

RECITAL DE GUILHERMINA SUGGIA


A intérprete máxima da literatura do violoncelo apresentou-se ontem em S. Carlos, numa das sessões da Sociedade de Concertos de Lisboa.

A profunda impressão de beleza que a nossa gloriosa compatriota nos tinha causado por ocasião do seu concerto com a orquestra “Pró-Arte”, renovou-se ontem com notável intensidade.

A parte puramente técnica das execuções de GUILHERMINA SUGGIA não permite qualquer juízo crítico, porque a genial artista é a primeira a esquecê-la, fazendo convergir todas as suas faculdades interpretativas na realização de um ideal estético absolutamente definido.

Sem fraquezas ou concessões de nenhuma espécie, sem desfalecimentos ou hesitações, a eminente violoncelista procura sempre atingir uma finalidade antecipadamente determinada pelas suas tendências e pelo seu instinto. Assim o que distingue as fenomenais realizações de GUILHERMINA SUGGIA é a sua espontaneidade sem limites, o seu assombroso realismo.

A ilustre artista é tão portuguesa pelo seu nascimento e pela sua educação, como pelos traços fundamentais da sua personalidade: na base emotiva das suas interpretações vamos nós encontrar aquele subjectivismo intenso e indestrutível que caracteriza a alma da Raça, e que se manifestou da maneira mais ampla no “Abenlied” de Schumann, tocado fora do programa. É decerto, desnecessário acrescentar que a ilustre violoncelista conseguiu manter, no decurso do concerto uma linha estética de extraordinária elevação.

Concorreu para o êxito absoluto desta sessão de arte o pianista George Reeves, antigo professor do “Royal College” de Londres, que acompanhou ao piano a nossa compatriota. - F. L.


O SÉCULO, 4 de Maio de 1924

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março 21, 2004

algumas considerações

Passado que é um mês depois da abertura deste “blog” parece-nos oportuno fazer determinadas considerações.
Assim, e apesar de GUILHERMINA SUGGIA ser quase uma desconhecida no seu próprio país, o número de leitores parece-me bastante razoável, não obstante o número de comentários feitos no próprio “blog” ser pequeno. Era desejável haver uma maior participação. Tenho apesar disso recebido quer pessoalmente quer por email várias manifestações de amigos, conhecidos, desconhecidos. A todos que o fizeram agradeço aqui publicamente.
Aparte os louvores que são feitos, as críticas fundamentais centram-se em duas questões:
1- Intervenções demasiado longas, tornando o “blog” muito massudo. Chegando mesmo a ser sugerido que os textos sejam sintetizados. Ora bem, quando pensámos fazer esta página, não pensámos fazer uma coisa aborrecida, mas também não pensámos fazer uma coisa leve que conquistasse facilmente muitos leitores. Queremos, acima de tudo, que seja uma fonte de informações o mais completa possível acerca de GUILHERMINA SUGGIA. Quando “descobrimos” uma crítica ou uma entrevista num jornal da época será inteiramente reproduzida. Caberá a quem lê decidir se começa no princípio e acaba no fim das mesmas. Não temos também a preocupação de fazer um retrato cronológico. As intervenções serão referentes a vários períodos da sua vida, ou mesmo depois da sua morte, sem a preocupação de começarmos em 1885 (ano em que nasceu) e irmos por aí em diante.

2-Há falta de imagens. Outra das críticas que mais nos chegam. É um facto. Estamos a tentar resolver esta lacuna que se deve exclusivamente a questões de ordem informática.
Pensávamos ser mais breves, mas razões alheias à nossa vontade levam-nos a que tal aconteça.

Por último gostaríamos muito de pedir a todas as pessoas que tenham gravações, fotografias, programas, informações acerca de SUGGIA, que conheçam pessoas que tenham assistido a actuações suas, que nos contactem.

Melhores saudações
VM

Publicado por vm em 02:25 PM | Comentários (0)

Temporada entre nós

GUILHERMINA SUGGIA

A exímia violoncelista, após uma brilhante peregrinação artística no estrangeiro, tenciona passar uma temporada entre nós


A nossa distinta compatriota. e exímia violoncelista D. GUILHERMINA SUGGIA, há tantos anos ausente deste país, e que por esse mundo, tanto e tão bem tem sabido dar lustre e tornar respeitado e admirado o nome de Portugal, encontra-se agora em Paris e tenciona visitar-nos muito brevemente.

Saudades da Pátria? Sem dúvida. Um vago plano de se mostrar, isto é, de encantar e comover os seus compatriotas com a arte sublime que é a sua e que ela serve sublimemente? Talvez, também, sim. E embora esse plano, porventura, não chegue a ser tenção, não passando dos limites dum desejo sentimental, embora a inspirada artista não venha até nós realizar uma “tournée”, os portugueses hão-de encontrar, certamente, uma maneira de lhe patentearem a admiração que merece e a estima de que é credora.

E assim, enquanto aqui descansar do seu demorado e esplêndido esforço, numa carreira de arte que tem sido uma série contínua e brilhante de triunfos, a distinta artista que é D. GUILHERMINA SUGGIA não terá nem ocasião nem motivos de se recordar, sentindo a amargura da distância, no tempo e no espaço, dos seus admiradores inúmeros e dos seus inumeráveis e admiráveis êxitos artísticos. É isto que, com vivo prazer, lhe auguramos.

DN 24 de Abril de 1923

Publicado por vm em 12:55 AM | Comentários (0)

março 20, 2004

Negócio Aceite- Casa da Rua da Alegria

Dois dias depois, incansável, escreve Augusto Suggia a carta apaziguadora, breve, própria de quem tem de repousar de grandes fadigas.


Porto, 19-11-1924

Guilhermina Querida,
Escrevo-te à pressa. Enviei-te agora telegrama dizendo que consegui a casa por 140 contos. Custou. Foi uma batalha de palavras e esforços, mas sempre consegui. Tive de dar 8 contos de signal, e o homem diz que tem de se fazer as escripturas dentro de 8 dias. Também há a despeza da Ma... que deve importar n'uns 6 a 8 contos mas vou arranjar em pôr a casa em menos preço, para pagar menos contribuição. Farei tudo com muito cuidado e tino. Hoje ainda gostei mais da casa. Deus permitia que fiques contente. Mas parece-me que sim. Mando-te aqui uma fotografia da casa, mas a máquina não a apanhou toda. As janelas rentes da rua, em baixo são muito grandes, e falta ahi a plati... e as águas furtadas, que são muito boas, etc... etc... ao todo 4 pavimentos.

É preciso cuidar no seguro da casa. Isto é importante, porque a casa pegada a esta, está ainda em construção e pode haver qualquer descuido, e era um desastre. Eu escrevi-te carta no dia 17. Espero ancioso as tuas respostas. Não posso escrever mais.
Deus te proteja e à nossa mãe, e que Deus te pague o que fazes aos taes velhinhos.
Saudades e beijos do teu pae velhinho

Augusto Suggia
- Saudades da Felisbella.


Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:58 AM | Comentários (0)

março 19, 2004

Concerto em ré maior, de HAYDN

Musical Standard, Fevereiro de 1928
«O mais marcante momento do programa foi a interpretação soberba de Madame Suggia do concerto em ré maior para violoncelo e orquestra de Haydn.
Não tinha ouvido tocar assim violoncelo desde que ouvi a última vez Casals; perfeição é a única palavra para isto. Dizer mais alguma coisa seria supérfluo.»


The Times, Janeiro de 1935
«O concerto em ré para violoncelo e orquestra de Haydn raramente soou tão belo como nesta ocasião, tocado como foi pelo magnífico virtuosismo e, ao mesmo tempo, pela mais íntima simbiose por Madame Suggia, a ligação entre solo e orquestra foi perfeita».

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:01 AM | Comentários (0)

março 18, 2004

Ainda a compra da casa

Guilhermina Suggia, em Londres com a mãe, que aí se tinha deslocado para se submeter a um tratamento aos olhos, responde ao pai uma carta que não se encontra. Mas Augusto Suggia é solícito em dar-lhe novos elementos sobre a casa.


Porto, 17-11-1924

Querida Guilhermina,
Recebi hontem a tua carta.
Eu mandei-te um telegrama ante hontem, dizendo que estava quasi decidido a compra, mas parece-me que não vem para nós, com bastante pezar meu... tudo quanto me pedes na tua última carta, tudo eu fiz. Nem eu me mettia n 'isto, só e sem saber.
Fui ao G. Faria, elle pediu a um architecto, pessoa bastante séria e professor da academia, o qual achou a casa bonita, bem dividida, o local bom, mas que era cara, que não era para 160 contos, e disse-me que valia, ou que desse só 120 contos.

O dono, porem está teimoso em só a dar por 155 contos. Há differentes pretendentes à casa e por isso offereci, depois de muito regatear, 140 contos, mas não me parece que o homem a dê. Tu não imaginas a falta e procura de casas que há..
Ê espantoso!!! e os donos como sabem isto, teimam em vender as casas pelo dobro do seu valor. A casa da Boavista que tu viste, ainda se não vendeu. Está em 130 contos. A tal dos 200 contos, pedem agora 250 contos!!! Temos ido ver casas de 300, 400 e 500 contos !!! É uma coisa espantosa. À minha vista vi eu offerecer, por esta da rua da Alegria 135 contos. Foi quando eu perdi a cabeça e offereci 140, julguei que o homem m 'a desse logo; mas nada..
Apenas me disse que tomava em consideração esta offerta e que me mandaria resposta. Mas não me parece que o homem a venda por este preço.
Ora... realmente dizer-me o architecto que podia dar 120 contos, acho tolice dar 155 contos. Eu não tomo a responsabilidade porque depois te haviam de dizer que comprei caro, ou que não soube comprar.
O architecto calculou que o dono gastaria com a construção da casa uns 90 contos, é querer ganhar muito. Depois há muitas despezas a fazer ainda. O papel para as paredes, envernizar os chãos, cultivar os jardins, lâmpadas eléctricas, bacias de banho e o seguro, etc... etc.
O sítio é bom, é saudável sobretudo.
Boa vizinhança e sítio socegado. Não é fácil fazer de comprehender onde é. A. rua de S.ta Catharina é a rua do Hotel do Porto e do Anthero.
A tal rua é: sahindo do hotel, em vez de virar à esquerda para minha casa, vira-se para a direita, que é a rua Formosa, ao meio d'esta rua é a rua da Alegria (à esquerda) e ao fim d'esta rua, que é paralela à de S.ta Catharina é a casa, que é também o fim da rua onde mora a família Moreira de Sá.
Ando apaixonado por não ir para esta casa, mas esta paixão, não passa à cegueira de esquecer que isto para ti representa um sacrifício enorme. Estou-te muito agradecido por tudo e espero que ainda hei-de ter dias felizes, n'éssa esperança vivo..
É, porém, sempre com muito trabalho que consigo qualquer bem; e tu nem por sombras podes imaginar, o trabalho, que eu e a Felizbella temos tido, e as léguas que eu lenho andado para conseguirmos encontrar casa,.
Não temos feito outra coisa durante um mez. E afinal fica tudo em sonhos, me parece a mim...
A coisa está, (em conclusão) em que estamos à espera de resposta do homem em aceitar os 140 contos.
Assim, que elle me mande dizer que sim telegrafo-te.
Eu entendo que tu devias trocar dinheiro em escudos; porque (dizem) a libra abaixa até ao fim d'este anno. A libra já está a 102 escudos, e irá até 90. Pensa bem n'isto, que é importante para ti. Todos os dias estás a perder dinheiro.

do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

Publicado por vm em 03:42 AM | Comentários (0)

março 17, 2004

O pai encontra a casa que Suggia comprará

Porto, 2-11-1924


Querida Guilhermina,

Venho agora mesmo de ver uma casa lindíssima, é cara, muito cara, mas é o melhor que tenho encontrado. É um bijou.
Acabada de construir, e com tudo o que tu desejas, 160 contos.
Eu fiquei encantado com a casa. Tem dois andares e águas furtadas e subsolo. Luz eléctrica em todas as divisões. Água encanada e linda cuzinha com bello fogão. A frente é moderna e distincta. Jardim (terreno para jardim) e mesmo até para garage, porta no sítio do jardim para outra rua.
Esta casa é na rua da Alegria 894.

Tem paragem abrigada do carro eléctrico à porta. Tem em frente mercearia e talho, e médico ao pé da porta. Tem tudo como desejas. O único defeito é custar 160 contos...
O sítio é saudável. É na altura da rua de S.ta Catharina.
Apesar de achar cara, fiquei tão entusiasmado com ella, que vim logo escrever-te. A tal casa de 200 contos é grande de mais e velha. Esta só tinhas de mandar plantar flores no jardim.
Se acaso a quizesses, podias mandar-me um telegrama. E já te digo, alugar ainda é mais diffícil e estraga-se dinheiro. Há agora (há um mez) uma lei em que os senhorios não podem elevar as rendas senão 7 vezes mais do que se pagasse antes da guerra e não podem despedir os inquilinos que estão, e por isso há muitas casas a vender, mas quem comprar não pode ir habitar a casa.
E é isto que me tem feito desesperar.
Para alugar casa, tem que se dar alguns contos à pessoa que habita a casa e é só n'essa occasião que o senhorio pode augmentar a renda.
Estou cansado e não te escrevo agora mais, para esta carta ir hoje.
Dize à mamã que recebi a carta d'ella. Estimo as melhoras d'ella. e que Deus as proteja... Amen.
Beijos e abraços para essa querida parelha. Cumprimentos ao Sr. Hudson e lembranças da Felishella, para ti e para a nossa mãe do olho preto. Teu pai que te..... etc... etc...

Augusto Suggia

- A casa está muito bem dividida.
Eu não fazia esta compra sem mostrar a casa ao Guilherme Faria, para elle dar a sua opinião.


do livro "GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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março 16, 2004

Crítica de "O SÉCULO" (A.J.) ao concerto de 6/6/1923

O 2º Concerto da “Filarmonia de Lisboa”

A confraria de músicos que Francisco de Lacerda reuniu deve estar contente com os resultados dos seus iniciais trabalhos. Depois do primeiro concerto, a cujo sucesso enorme já fizemos a necessária, embora incompleta, referência, esta segunda festa de arte foi pela concorrência do mais escolhido público e pelo delírio das manifestações, uma das mais belas, entre as mais brilhantes noites, de que há memória na história gloriosa do nosso S. Carlos. Nós que em matéria de arte nunca fizemos questão de pessoas nem de pátrias, poderemos ter no relato deste concerto sensacional o grato prazer de registar que o retumbante triunfo de ontem se deve apenas ao concurso de artistas portugueses, o que indubitavelmente reveste de uma alta e consoladora significação, o memorável festival da prometedora Filarmonia.

Francisco de Lacerda e a sua valorosa falange de músicos, que na sua apresentação conseguiram surpreender os mais exigentes, interpretando aquela sublime “Pastoral” de forma absolutamente superior, notável e inesquecível, confirmaram brilhantemente neste notável segundo concerto a magnífica orientação inicial, tanto na “Abertura do D. João” de Mozart, como na execução dos fragmentos do 3º Acto dos “Mestres Cantores” de Wagner e do sugestivo e poético “Nocturno” de H. Duparc. Em capítulo especial e com mais vagar, diremos as nossas impressões acerca do talentoso regente e dos seus colaboradores orquestrais. A gentileza de Lacerda e dos componentes do seu núcleo artístico será um dos motivos a exigir que dediquemos a GUILHERMINA SUGGIA os principais louvores desta notícia breve.

Que dizer, porém, nos apertados limites de tempo e espaço de que dispomos, dessa genial e portentosa intérprete, desse fenómeno maravilhoso que o mundo inteiro escuta com enlevo e para a grandeza do qual todas as palavras nos aparecem apagadas e poucas? Como explicar o milagre daquela arcada espontânea, nítida e profunda, daquela sonoridade de sonho, que não é a simples vibração de simples cordas, mas a expressão belíssima, ideal, do lirismo humano? Mergulhada na onda sublime da sua concepção interpretativa, na linguagem sonora, perfeita, a qual ora é branda, suave e graciosa nas suas comunicações, ora se eleva e engrandece nos paroxismos da energia e da paixão, a figura pictural de SUGGIA atinge as augustas proporções de um símbolo!

Não se concebe coisa alguma de mais perfeito, de maior, de mais completo! A arte difícil e superior da interpretação não pode ter representante mais idóneo, nem mais colossal. Interpretou Bach, Lalo, Haydn?? Não há que fazer citações, nem estabelecer preferências: todos os seus trabalhos foram soberbas criações. O público assim o compreendeu esplendidamente e fazendo a justiça de significar ao ilustre maestro Lacerda o quinhão que lhe pertencia nas apoteóticas ovações da noite.

Para dar uma nota deste entusiasmo sem precedentes, terminaremos noticiando que, findo o espectáculo, artistas e público, neste figurando o que há de mais ilustre nas letras e nas artes, acompanharam até à Praça de Camões, em triunfal cortejo, soltando-lhe vivas clamorosos, a grande artista, que da janela do Hotel Europa, onde está hospedada, agradeceu comovida e sensibilizada, as manifestações recebidas. A.J.


O SÉCULO, 7/6/1923

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março 15, 2004

Crítica de LUIS DE FREITAS BRANCO, ao concerto de 6/6/1923

S CARLOS

2.°Concerto da Filarmonia de Lisboa

Quem ontem assistiu a esta memorável noite, saiu do teatro, por muito pouca sensibilidade que possuísse, cançado de emoções, com os nervos destrambelhados, por ter ouvido GUILHERMINA SUGGIA.

Ontem, em S. Carlos, fez-se arte da mais pura, da mais elevada e também da mais intensa e sincera, houve o frémito divino que sacode e embriaga, que aperta a garganta e humedece os olhos como se fosse um sofrimento e é um prazer, como se fosse insuportável e desejar-se-ia, como o Fausto de Goethe, prolongá-lo eternamente.

Dizer depois disto como tocou SUGGIA, analisar a sua técnica da mão esquerda, a arcada, o seu estilo, parecer-nos-ia uma profanação, e além disso, como cremos já ter dito, não nos sentimos com a serenidade precisa para essas frias considerações.
A técnica da colossal artista é ilimitada, extraordinária a sua sonoridade, a arcada esplêndida, tudo enfim quanto representa a preparação de um violoncelista o mais completo que possa imaginar-se, possui-o a nossa genial compatriota no mais elevado grau. Imagine-se tudo isto e pense-se que mesmo assim não se terá uma pálida ideia do que é a arte de GUILHERMINA SUGGIA, porque todas essas qualidades, por muito importantes que as consideremos, desaparecem perante e espírito que as domina, que as aniquila, um espírito de intérprete que é um segundo espírito criador da obra de arte que lhe estamos ouvindo, uma sensibilidade aguda, intensa, dando a cada período, a cada frase, a cada ritmo o seu completo valor expressivo, parecendo ainda intensificá-lo, até nos deixar como estamos ao traçar estas linhas, exaustos de emoção, procurando em vão as palavras que não existem, para repetir o que SUGGIA nos disse numa divina linguagem.

Limitar-nos-emos ao enunciado das obras pela grande artista interpretadas, que foram os concertos de Haydn em ré maior e de Lalo, e a solo a «partita» de Bach em que se encontra a celebre «Loure», tendo sido a «Giga» da mesma «partita» executada em «bis».

O maestro Francisco de Lacerda, que ouvíamos pela primeira vez, é um regente de técnica moderna, que ontem revelou notável valor no modo impecavelmente clássico como traduziu a abertura do «D. João» de Mozart, na belamente graduada interpretação dos «Fragmentos do 3.º acto dos Mestres Cantores», na poética versão das «Etoiles» de Duparc, trecho que lhe é dedicado pele autor, e ainda nos acompanhamentos, em que foi admirável, especialmente no segundo andamento do concerto de Lalo.

À saída do teatro, uma multidão compacta de admiradores esperava GUILHERMINA SUGGIA, repetindo-se as delirantes e frenéticas ovações que a tinham acolhido durante todo o concerto, assim como a Francisco de Lacerda.

Como a genial artista se dirigisse a pé para o hotel, a multidão rodeou-a e acompanhou-a, soltando vivas e dando palmas entusiásticas.
LUÍS DE FREITAS BRANCO.

DN 7/6/1923

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março 14, 2004

Hoje no S. Carlos Concerto com SUGGIA

Filarmonia de Lisboa

Ansiosamente esperado pelo que de raro prazer espiritual promete, realiza-se hoje, em S. Carlos o segundo concerto promovido pela admirável orquestra Filarmonia de Lisboa, à testa da qual se encontra o notabilíssimo músico Francisco de Lacerda, e que com tanto brilho se exibiu pela primeira vez na passada quarta-feira. Este concerto de hoje, em que pela segunda vez vai ser admirado o escolhido núcleo de artistas que constituem a Filarmonia, tem ainda o interesse de apresentar peta primeira vez em Lisboa, acompanhada por orquestra, a requintada artista portuguesa, outra legítima glória nacional, a violoncelista GUILHERMINA SUGGIA, antiga discípula do notável mestre Klengel, que o foi também de David de Sousa. A nossa gloriosa compatriota ocupa hoje. entre os concertistas de arco, um dos primeiros lugares, podendo dizer-se com verdade que se alguns poucos com ela emparelham, nenhum a excede, até mesmo naquelas qualidades que são peculiares aos homens, a potência da sonoridade, o vigor da expressão e a resistência para as execuções mais difíceis e intensas. O concerto de Lalo e de Haydn, dois dos mais formidáveis monumentos da literatura do violoncelo, bem como a “Elegia” de Fauré, vão dar hoje a muita gente que nunca ouviu a nossa compatriota, a prova segura do alto nome que SUGGIA conquistou nos mais exigentes centros de música do mundo, e a abertura do “D. João” de Mozart e os “Fragmentos dos Mestres Cantores” darão ensejo a que se firme solidamente a reputação alcançada no primeiro concerto pela Filarmonia de Lisboa e pelo seu admirável e ilustre director.

DN, 6/6/1923

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março 13, 2004

O 1º concerto de Suggia, em Lisboa, com orquestra

TEATRO DE S. CARLOS

Concertos Sinfónicos sob a direcção de Francisco de Lacerda

Conforme noutro lugar anunciamos, abre hoje em S. Carlos a assinatura para dois únicos concertos sob a direcção do maestro Francisco de Lacerda, com a apresentação, no segundo, da grande artista portuguesa GUILHERMINA SUGGIA.
A estes concertos, que sabemos serem a primeira afirmação pública de um largo programa artístico da iniciativa do seu director, não é exagerado prognosticar um êxito notabilíssimo.

A orquestra, a Filarmonia de Lisboa, recentemente fundada por associação dos nossos melhores músicos, tem uma larga e simpática missão a desempenhar no nosso meio, e na sua própria organização tem já um legítimo fundamento de sucesso seguro; o seu director e regente traz um nome ilustre e uma competência consagrada em meios do mais exigente gosto musical, tendo no estrangeiro, mormente na França e na Suiça, dirigido notavelmente, durante anos, núcleos de execução orquestral e coral considerados entre os primeiros daqueles países, o que lhe criou a reputação de um dos primeiros directores de concertos da Europa; GUILHERMINA SUGGIA, uma autêntica glória da nossa terra, é justamente considerada hoje uma das raras notabilidades musicais do mundo inteiro e a sua apresentação em Lisboa, que ainda a não admirou na sua grandeza, tornava-se absolutamente necessária.

É, pois, lícito afirmar que estes dois concertos marcarão duas datas notáveis na historia musical do nosso país, as quais devem iniciar um novo período de actividade artística, sempre meritória e indispensável numa capital de um país, civilizada.


DN 26/5/1923

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março 12, 2004

Suggia no castelo de Lindisfarne

Sobre a passagem de Guilhermina Suggia pelo “maravilhosamente dramático mas habitável” castelo de Lindisfarne, - na costa nordeste da Inglaterra - , que foi, primitivamente mosteiro, depois fortaleza e, hoje monumento nacional, pode ler-se, num texto de Jonathan & Clare (microart.org):
“O actual aspecto do castelo de Lindisfarne surgiu por obra do fundador da revista Country Life, Edward Hudson. Este, em 1901, descobriu o castelo decadente e vazio e verificou o seu potencial para uma singular morada de férias românticas. Encarregou o seu arquitecto favorito, Edwin Lutyens de o actualizar, mais uma vez, como refúgio para si próprio e amigos seus.” (...) “Uma galeria superior tem um estrado, de um dos lados, onde a hóspede regular de Hudson, a Senhora Suggia se apresentaria com o violoncelo Stradivarius que o mesmo Hudson lhe oferecera”.


Também Jean Moorcroft Wilson, na sua biografia do poeta Siegfried Sasson (1896- 1918), recorda que este visitava Lindisfarne para passar a tarde “com a única ocupante do castelo, a notável violoncelista, Senhora Suggia. (...)
Ouvindo-a tocar Bach no compartimento reverberante de um castelo isolado e histórico, a eloquência do seu violoncelo acompanhava.....”.


(selecção de textos e tradução de Ana Maria Costa)

Publicado por vm em 12:17 AM | Comentários (0)

março 11, 2004

O noivado anunciado com Edward Hudson

Daily Chronicle

Dama Violoncelista terá um castelo numa ilha.

A música comprovou ter um papel casamenteiro no noivado, anunciado ontem, da famosa violoncelista Mlle. Guilhermina Suggia e Mr. Edward Hudson, de Queen Anne's-Gate. director da firma de impressão Hudson & Kearns.
Mr. Hudson é um entusiástico amante da música, e uma figura familiar nos concertos, enquanto que a sua futura noiva é, talvez, a mais encantadora das violoncelistas vivas. Portuguesa de nascimento, possui uma grande reputação tanto no continente como neste país.
De aparência bastante atraente, possuidora de um tipo de beleza meridional, Mlle. Suggia sempre chamou a atenção tanto pela intensidade poética e emocional da sua interpretação como pela técnica perfeita, e os amantes da música desejam que o seu casamento não signifique o afastamento da sua carreira.

Mr. Edward Hudson é dono de uma romântica residência, o Castelo Lindisfarne, na liha Holy, ao largo da costa de Northumberland. Datando originalmente do início do século XVI, o castelo possui associações históricas com a Guerra Civil e com o Príncipe Carlos Eduardo, o Pretendente.


Sem referência no jornal
Violoncelista tornar-se-á senhora de um castelo ilhéu
«É hoje anunciado o noivado de Mr. Edward Hudson, de Queen Anne's Gate e Castelo Lindisfarne, Northumberland, e Mme. Guilhermina Suggia.
Mme. Suggia, que é uma violoncelista notável, e uma grande favorita dos palcos, tem sido ouvida num certo número de concertos em Londres durante os últimos anos. É Portuguesa e uma mulher extremamente bonita.
Conheceu Mr. Hudson, que é um grande amante da música, há cerca de quatro anos. É membro da firma de Messrs. Hudson & Kearns, os editores, da Rua Stamford, S.E., presidente e director-gerente da Country Life, Ltd., e também director de George Newnes.
O Castelo Lindisfarne, a sua residência na Ilha Holy, ao largo da costa de Northumberland, é um local romântico e antigo. Situa-se no cimo de uma rocha quase vertical que se eleva a uma altura de 60 pés. Foi construído por volta de 1500, em 1646 o Parlamento instalou aí uma guarnição militar, e em 1719 foi confiscado a favor do Príncipe Carlos Eduardo, o Pretendente, e ocupado por dois dias.
A Ilha Holy possui um perímetro de 8,5 milhas, situando-se a três milhas de terra firme, à qual está ligada por um estreito canal».

Suggia quebrará o compromisso deste noivado. Edward Hudson tem que aceitar a decisão por mais que lhe seja oposto. Em testamento deixará 250 libras a Guilhermina «que me honrou com a sua amizade durante tantos anos, como pequena lembrança da sua valiosa amizade e apreço pela sua gloriosa música». Edward Hudson morreu no dia 17 de Setembro de 1937.

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em 12:36 AM | Comentários (0)

março 10, 2004

GUILHERMINA SUGGIA no ORPHEON PORTUENSE

Guimermina Suggia no Orpheon Portuense

Ansiedade, entusiasmo, o frémito especial das noites de apoteose: orgulho, «hélas»! toldado de nostalgia, dos amadores de música que há 45 anos, organizando o Orpheon, deram ao nosso burgo a sua feição mais inteligente; alegria transbordante, contagiosa, irreprimível duma juventude elegante e vibrátil, cuja admirável loquacidade se transformava, miraculosamente, religiosamente, no grande silêncio em que passava, soberana, a arcada embriagadora de Guilhermina Suggia: respeito, adoração, frenesi das ovações intermináveis; neste ambiente decorreu o 400.° concerto da gloriosa sociedade portuense. E contudo, em meio do festival memorável, mais do que uma vez nos assaltou, a todos nós, não é verdade?, velhos e novos, a todos nós que recebemos ensinamento, o estímulo do seu magnânimo coração de artista, a recordação sempre viva de Moreira de Sá, o sábio iniciador.


E neste segundo lar do seu espírito, como nos era grato ver continuada a sua tradição por um casal de músicos prestigiosíssimos, para quem Arte, Sinceridade, Beleza não são palavras, mas sim os impulsos íntimos de ser, o evangelho dia a dia traduzido em obras. Pianista de requintado encanto, a senhora D. Leonilda Moreira de Sá e Costa é um temperamento em que temos reconhecido, como em raros, o dom do subtil, a faculdade de encontrar a velatura, a reticência de espiritual poesia. Dom que ainda uma vez se revelou de espécie preciosa para a graça aristocrática dos italianos antigos, como para a fantasia dos coloristas modernos. Assim também na parte de piano da « Sonata em lá» de Beethoven, a comovente discrição de Luís Costa, o emocionado e perfeito mestre, urdia uma tapeçaria de tons ricos e quentes, sobre a qual se destacasse o vulto da violoncelista.


Guilhermina Suggia é verdadeiramente uma mulher de grande estilo. É preciso ver a sua figura principesca de grandes linhas puras e nervosas que, mesmo em repouso, exprime uma consciência de força indomável ; a cabeça extraordinária que o génio marcou, erguida, deitada para trás numa atitude de desdém impassível — ou, talvez, de aspiração divina ; a violência de vida que impulsiona esta forma esplêndida de beleza tigrina. Nasceu para dominar e o instinto de comando achou ao seu dispor recursos de sedução inelutáveis Nenhuma obra, por pálida que seja, resiste ao seu poder transfigurador. Na peça mais gentil, sente-se a garra temível, pronta aos grandiosos empreendimentos. Interpreta uma sonata de Valentini ? O carácter é perfeito, a própria alma da Itália de outros tempos se nos confessa, mas engrandecida, enriquecida de um mundo novo de impressões, um suceder de modalidades deslumbrantes, do grave ao brilhante, da ardente interioridade à estouvanice genial, e todas formando um conjunto de unidade artística suprema.

Governados pelas suas mãos, o «Adagio e Allegro» de Boccherini são um poema de lava, perturbantíssimo. Mas chegou o momento da sonata de Beethoven? Ah! agora reveste-se de singeleza mais cândida e sobe, a plenas asas, às maiores alturas da arte. Soberba, única em todos os géneros, logo se arrisca às peças de virtuosismo mais heróico, sempre ágil, sempre graciosa, sempre triunfante, cativando sempre pela valentia, pelo capricho, pela carícia, pela grandeza.

Prodigioso destino o desta artista que não copia a vida, porque é, ela própria, a verdadeira alegoria da vida, misteriosa, esplendorosa, terrível! Esta sim, que é a paixão que não deprime mas exalta, o sortilégio que transfigura cada pobre coisa terrena numa maravilha de fogo; esta sim, que é a alegria profunda mas inebriante, esta sim, que é a fascinação do próprio génio da vida.


(Crítica de Carmos Ramos em "O Primeiro de Janeiro", de 29 de Abril de 1926).

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março 09, 2004

Suggia e o seu Stradivarius

«Nenhum retrato de Madame Suggia ficaria completo sem se fazer menção ao seu belo violoncelo Stradivarius, que é por ela própria transportado para todo o lado e no qual nenhumas mãos tocam excepto as dela. Ele ocupa um lugar de honra em todos os compartimentos em que permanece temporariamente. As pessoas ficam maravilhadas com Suggia por ela ser tão meticulosa nos cuidados que tem com ele, mas, como ela mesma diz, para além de ser extremamente valioso é praticamente insubstituível. Mesmo na sua casa do Porto, ninguém lhe toca a não ser ela própria. Eu espero que os seus dois adorados cães, tão cheios de vitalidade como são, nunca lhe ponham as patas em cima».

do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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março 08, 2004

Carta de Vianna da Motta a Luís Costa

Sintra, Setembro de 1924


Querido Amigo

Muito me alegra o seu entusiasmo pelos concertos da Suggia comigo.
Se os interessar, poderíamos tocar no 2.° concerto as duas Sonatas de Brahms, pois já em Lisboa as tocámos e também as tocaremos em Londres. O que lhe posso dizer é que vão ser muito cuidadosamente ensaiadas.

Estive alguns dias no Buçaco ensaiando com ela para Londres.
Ah, que artista maravilhosa e completa! Nunca ouvi tocar assim violoncelo. E que cabeça!
Até breve.

Com muitos cumprimentos
seu amigo dedicado

J. Vianna da Motta


do livro "VIANA DA MOTA-Uma contribuição para o estudo e personalidade da sua obra" de João de Freitas Branco

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março 07, 2004

Crítica de Suggia a recital de Fédor Chaliapine, no Queen's Hall, 1921

A crítica que Guilhermina Suggia faz de Fedor Chaliapine (Kazan, 1873- Paris, 1938), publicada na revista Country Life em 29 de Outubro de 1921, mostram a sua perspicácia analítica e uma fluência de escrita com humor.
Se, perante a imponência musical de Chaliapine, é difícil reter adjectivos, sente-se que Suggia tem grande prazer em elogiar.


«Chaliapine nasceu em Kazan em 1873. Mas o que importa a sua idade? Existiu um rumor de que Chaliapine teria morrido ou sido morto durante a guerra. Se tal tivesse sido verdade, não teria feito qualquer diferença para os que o ouviram, uma vez que, tal como poucos, Chaliapine é imortal.

É quase impossível escrever-se sobre tão admiráveis factos ou personalidades, pois muito simplesmente as palavras falham na expressão dos nossos sentimentos ou da nossa admiração. Tudo o que podemos fazer é afirmar que ele é certamente o maior cantor-músico e cantor-actor de que há memória. A sua grandiosidade não se encontra na sua voz, nem numa qualidade específica da sua arte; encontra-se na sua actuação como um todo. A sua voz compara-se a um maravilhoso violino ou violoncelo nas mãos de um grande músico, nunca fica no caminho; constitui um meio para alcançar um fim. A sua voz é para ele tão importante como é para um músico possuir um excelente violino, mas, por muito poderosa e invulgar que seja a sua voz, o que conta é a sua actuação; ele transmite-nos a essência das canções, o fraseado musical, o significado poético, o sentido dramático, o ritmo, a expressão, a cor, tanto de amor, paixão, e tristeza, como de tragédia, e tudo é conseguido por métodos simples, mas de uma forma grandiosa.

A reputação de Chaliapine neste país não tem sido a de um mero cantor, mas é conseguida através de papéis como Boris Godounov, Ivan o Terrível, Mefistófeles, nos quais produziu a mais notável impressão no público inglês durante a Temporada Russa de 1913 -1914 em Drury Lane. O seu recente concerto de despedida de auxílio ao Fundo de Apoio Social Russo no Queen's Hall constituiu uma das maiores provas da sua excepcional arte.

Existe sempre um certo perigo no facto de um cantor de ópera fazer Lieder e, em princípio, a maioria dos cantores célebres de ópera sentem-se deslocados num palco de concerto. O espaço é demasiado limitado para eles, e frequentemente a ausência de liberdade de acção prejudica todo o canto e actuação; mas a arte de Chaliapine é tão versátil e a sua habilidade tão delicada que se adapta a todos os ambientes e condições. Ele faz com o público o mesmo que faz com as canções: ele manipula-os e hipnotiza-os e, à medida que o tempo passa, todos se tornam seus escravos; e ele sabe-o, e perdoamos-lhe o facto de nos usar, porque o que obtemos em troca é algo de maravilhoso e pelo qual vale a pena viver.

O seu programa no Queen's Hall consistia em canções Russas e Alemãs, mas todas interpretadas em Russo. Uma outra prova da sua grandiosa arte constitui o facto de nem sequer termos lamentado o não termos podido compreender o idioma. É verdade, as palavras russas são muito musicais e muito bonitas, mas tal não interessaria se realmente ele só cantasse as notas. Um crítico famoso sugeriu não há muito tempo, discutindo Chaliapine, que não existe razão para que os compositores não escrevam obras na forma concerto para serem cantadas com orquestra e sem palavras, pois as palavras constituem frequentemente um impasse entre o compositor e a música. A arte do canto tornar-se-ia então muito mais difícil, na medida em que exigiria uma educação musical completa. O que coloca Chaliapine muito acima dos outros cantores, para além da sua grande personalidade, é que antes de tudo ele é um músico, depois um actor e por último um cantor, enquanto que o cantor médio pensa principalmente na sua voz, sacrificando a música em prol das palavras.

Entre as canções que Chaliapine interpretou, o grupo germânico constituiu o mais extraordinário, especialmente o «Doppelgänger» de Schubert e «The Two Grenadiers» de Schumann. Alguns podem não ter concordado com a leitura que Chaliapine fez de «Doppelgänger»; pois fê-lo de modo extremamente lento, e o clímax teve de ser bastante dramatizado devido à velocidade com que ele iniciou a canção. Se tais liberdades tivessem sido tomadas por um mestre menor certamente que a canção teria caído em pedaços. Talvez o maior triunfo tenha sido «Song of the Flea» de Mefisto, com a qual ele encerrou este memorável concerto.

Uma palavra mais acerca do seu poder de representação. Apesar de ser tão natural, ele nunca cessa de representar as suas canções. Para se apreciar plenamente as suas interpretações tem que olhar-se para ele (e eu creio que ele gosta de ser observado, uma vez que, depois de anunciar os títulos das suas canções, concede ao público tempo suficiente para que os poemas sejam lidos, para que o público fique sem necessidade de olhar para o programa enquanto ele canta), e certamente que seria uma perda não observar cada uma das suas expressões e movimentos. Existem tantos, e no entanto todos executados na mais perfeita harmonia com a canção; e mesmo quando, no final de um grupo, lhe foi oferecido um ramo de flores, quão graciosamente ele retirou uma rosa, mas, picando-se (ou fingindo que o fez), rapidamente atou a mão com um lenço para estancar o sangue (que possivelmente não se encontrava lá). Tudo isto foi por ele representado de um modo tão perfeito, que embora tudo tivesse ocorrido num segundo enquanto se voltara de costas para a audiência, se poderia simpatizar com a sua dor e amaldiçoar o doador da rosa por não lhe ter retirado os espinhos. Nessa altura colocou-a na lapela e continuou a cantar.

Aqui está, embora muito pequena, uma homenagem a um grande génio, de uma das suas escravas na arte».


do livro"GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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março 06, 2004

Tarde de Setembro no Hotel do Buçaco

Guilhermina provoca, em geral, sentimentos extremados, sendo ela própria de uma impenetrabilidade de aço ou de uma generosidade sem par.

Numa tarde de Setembro, no Hotel do Buçaco, tiveram uma grande surpresa os músicos que tocavam para um grupo de pessoas endinheiradas, que na maior parte aí se hospedavam para bocejar entre as magníficas árvores da região. Uma mulher com um violoncelo entrou para a pequena sala onde os músicos jantavam e preparou-se para iniciar um concerto para eles. Atónitos, não conseguiam disfarçar a surpresa e a honra. «Não interrompam a vossa refeição. Não tocam os senhores enquanto eu janto? Hoje venho eu tocar para os meus amigos», afirma-lhes Guilhermina que tocou brilhantemente como de costume.


do livro "GUILHERMINA SUGGIA ou o Violoncelo Luxuriante" de Fátima Pombo

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março 05, 2004

Carta de Augusto Suggia a Elisa Suggia


1924 é um ano de prolixa correspondência entre Guilhermina e o pai, por causa da compra de uma casa. Suggia decide ter uma residência fixa no Porto para reunir o pai e a mãe, que há muito tempo viviam separados.
Augusto Suggia permanece geralmente em Portugal e a mãe faz-lhe longas visitas em Inglaterra.

Porto, 27-10-1924
Minha Elisa
Recebi a tua carta. Senti bastante o que te aconteceu mas estou contente por saber que estás melhor, e espero que os teus olhos voltem todos à primitiva cor. Eu escrevi à Guil a respeito da casa. É pena que a da Boavista seja tão cara. Até hontem ainda não tinha sido vendida.
Quem me dera que a nossa Guil comprasse uma casa, para nós vivermos juntos. Seria a realidade de um sonho. Só d'este modo eu uzaría todas as minhas gravatas, que as tenho tão bonitas e boas, mas que estão guardadas, por eu não saber dar-lhe o laço.
O mandar construir uma casa como a Guil quere leva muito tempo e há a difficuldade do terreno. O que era bom era comprá-la já feita e com a conveniência de passar eléctricos à porta ou muito perto. Na Foz não há e em Mathusinhos é muito longe.

Deve ser na Boavista ou próximo. Para alugar casa, attendendo à medonha carestia em que estão as casas, é deitar dinheiro à rua. Se a Guil comprar uma casa em poucos anos recupera o dinheiro e é sempre d'ella.
Eu e a Felisbella temos andado n'um fadário à procura de casas e terrenos. Há bastante mas é longe da cidade e onde é preciso ter bilhete, annual do eléctrico e que custa agora 900 000 rs (900 escudos).
Eu, graças a Deus, lenho passado agora uma temporada de saúde regular.
O tempo porém, já está de inverno e eu já tenho apanhado bastante chuva, e o esburacado já tem feito bastante serviço, assim como o casaco gigante.
Mas não importa porque antes do inverno findar terei eu um bello guarda-chuva e um famoso casaco, que os inglezes usam e que são (segundo o que disse a Guil) verdadeiramente invejáveis.
Quanto mais chuva apanhar, mais me lembrarei de ti e da Guil.
A libra vae baixando; já esta em 109 escudos e o franco a mil e duzentos (um escudo e 20 centavos). A carestia ainda é enorme, quasi na mesma.
Para tu avaliares como isto está... vendeu-se n semana passada, postas de pescada a 8 escudos, cada uma !!!
Fiquei contentíssimo em saber que estiveram em casa da Virgi. Deus conserve essa paz, que é tão boa para todos.
Faço ideia da tua satisfação. Assim é mais bonito e é assim que se deviam conservar. Já é tempo de pensarem com tino e convencerem-se que não há coisa melhor que a boa harmonia na família, por causa dos remorsos, que mais tarde mortificam bastante...
Também é preciso que a Guil não trabalhe demasiado, porque ella é fraca, e receio muito que ella aguarde tanto trabalho.
Se ella me falta, vendo as gravatas, e não quero saber de mais nada.
Tu que estás ahi, segura-a e não a deixes fazer da fraqueza forças.
Ainda se ella se alimentasse bem, bom era, mas comendo como ella come não é possível resistir a tanto trabalho.
Enfim, Deus lhe dê, em forças físicas, o que ella tem em génio...
Recebam abraços e beijos e que Deus as proteja. Amen.
Teu marido Augusto Suggia
Lembranças da Felisbella.
Quando me escreveres, dize-me o que foi feito do azeite e do grão de bico. Chegaria tudo lá, ou perdeu-se?

Do livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

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março 04, 2004

O CONCERTO EM LÁ MENOR DE SAINT-SAËNS

Musical Opinion, 9 de Março de 1917
«A actuação de Mlle. Suggia revelou toda a grandeza. Ela executou Saint-Saëns não da maneira Alemã mas sim da Francesa, mostrando todas as suas boas qualidades, toda a sua amabilidade, a sua cortesia, a sua agudeza de espírito, e o requinte de execução no qual estas graças vivem sem sobrecarregar a música, com sentimentos tensos. As Variações de Böllmann possuem mais exuberância de expressão e de estilo, e nestas Mlle. Suggia colocou em realce uma energia apropriada, dando mesmo o toque do estilo satânico ao qual conduz a originalidade da música. Esta música foi executada, pensamos, de um modo mais gracioso do que qualquer homem poderia alguma vez ter a esperança de conseguir».

The Daily Mail, Novembro de 1929
«A solista da tarde foi a admirável artista, Madame Guilhermina Suggia, cuja interpretação do Concerto em Lá menor para violoncelo e orquestra de Saint-Saëns foi caracterizada pela mais rara beleza de som, pela vivacidade da emoção e pela perfeição técnica que caracterizam tudo o que ela fez».

Daily Telegraph, 23 de Outubro de 1930
«Mme. Suggia executou a sua parte do concerto como se toda a literatura da. música do violoncelo nunca houvesse sustentado nada tão divino. Ela parecia, igualmente, inspirar a orquestra (Orquestra Sinfónica da BBC, dirigida por Sir Adrian Boult) com o mesmo sentimento.
Foi chamada ao palco variadíssimas vezes».

Musical Opinion, Março de 1936
«Não houve efeitos, nem distorções rítmicas, nem ênfases exageradas de qualquer espécie: houve uma absoluta precisão técnica, uma constante perfeição da entoação e toda a peça foi envolvida com luminosidade e frescura.»


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre" de Fátima Pombo

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março 03, 2004

IN MEMORIAM

José Pacheco Pereira escreveu: "Não sabia, vim agora a saber por uma referência de Medeiros Ferreira, que o avião da TAP que tinha o nome de "Viana da Motta" foi rebaptizado "Eusébio". Já não há vergonha nenhuma, ou está tudo doido? Eu bem sei que neste país de trituradora já ninguém sabe quem foi Viana da Motta, um dos últimos alunos de Liszt, grande pianista e razoável compositor, que marcou como "mestre" na sua arte toda uma geração de músicos portugueses. Como muitos grandes pianistas anteriores às técnicas modernas de gravação, a qualidade da sua execução só existe na memória dos testemunhos e relatos da época, mas o homem existiu, não existiu? A Luísa Todi também existiu, não existiu? "

As últimas palavras impressas de Guilhermina Suggia, meses antes da sua morte, em 1950, são solicitadas por Oliva Guerra para publicar um In Memoriam em honra de seu mestre, Vianna da Motta (S. Tomé e Príncipe, 22 de Abril de 1868; Lisboa, 31 de Maio de 1948).

IN MEMORIAM
É com sentida saudade e profunda admiração que presto a minha homenagem ao Mestre Vianna da Motta.
Tenho pela sua memória todo o respeito que merece, não vendo nele apenas o grande pianista, mas o Artista extraordinário, o espírito culto dotado de um carácter íntegro, de uma bondade e de uma dignidade inexcedíveis.
Vianna da Motta, com quem tive o privilégio de colaborar em múltiplas ocasiões - tendo tocado, quer em Portugal, quer no estrangeiro, todas as sonatas de Beethoven e de Brahms - possuía, além de uma técnica transcendente, -uma perfeita musicalidade e o verdadeiro dom da pedagogia.
Nos últimos anos da sua vida, em especial, todas as suas raras qualidades se acentuaram, pois devo dizê-lo, a sua expressão e o seu sentido musical atingiram um nível raramente alcançado.
O grande Mestre foi um dos maiores pianistas da sua geração em todo o mundo. A ele Portugal fica devendo um poderoso impulso para o renascimento e progresso da sua cultura musical.
O seu nome nunca se apagará da história da Música.
É esta a minha homenagem.
Guilhermina


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março 02, 2004

O Concerto em Lá menor de Schumann

The Ladie's Field, 7 de Junho de 1919
«Tocou com perfeita compreensão, com sobriedade e ao mesmo tempo com o charme que fez total justiça à obra. Acrescenta-se que a técnica é de tal modo perfeita, que nos esquecemos dela».

Sunday Times, 8 de Fevereiro de 1920
«E quase impossível encontrar algo de novo a dizer sobre a arte de Madame Suggia mas todas as suas aparições são um fresco deleite. A sua leitura do concerto para violoncelo de Schumann foi absolutamente subjugadora, não tanto pela perfeição do fraseado e beleza do tom, como pela impressão que se adquiriu de que Mme. Suggia estava absolutamente vivendo na música».

The Daily Mail, 27 de Outubro de 1922
«Suggia é soberbamente temperamental, sendo sempre ela que dirige o seu temperamento sem nunca ser dirigida por ele. No Concerto de Schumann anima com o fogo da sua personalidade o que de outro modo ficaria morto; com a esplêndida largueza de arco e a vivacidade do seu som, Suggia dá alento e brilho à peça».

The Times, 22 de Novembro de 1926
«O íman que atraiu a multidão ao Queen's Hall na tarde de sábado foi Mme. Suggia, cuja exuberante demonstração de virtuosismo e temperamento atrai todos os pregos da loja de ferragens. Todos os lugares, incluindo os que ficam atrás da orquestra, estavam cheios e todos os seus admiradores tiveram a plena satisfação de assistir à execução do Concerto para Violoncelo em Lá menor de Schumann».


do livro "GUILHERMINA SUGGIA- A Sonata de Sempre", de Fátima Pombo

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março 01, 2004

1914-SUGGIA deixa Paris.Fixa-se em Inglaterra

Em 1914 Guilhermina Suggia já não está em Paris.
Não lhe interessa voltar para Portugal, onde a possibilidade de continuar a sua carreira seria inexistente. Durante os primeiros meses de 1914 refugia-se em Brive-la-Gaillarde com a irmã e o cunhado Léon Pichon, livreiro e editor parisiense. Gasta os dias com longos passeios sobre cinzas, nessa região de camponeses a quem a guerra estraga a rotina das colheitas e sobressalta o gado. Pelas colinas em redor esgota pensamentos enquanto caminha sozinha. Desamarrou-se o cadeado catalão, mas a liberdade parece um acontecimento desgarrado.

Por razões que não foi possível descobrir, Guilhermina Suggia acaba por mudar-se para Inglaterra ainda nesse ano de 1914. Habita em Londres, em casa de Mrs. Hart, com todo o tempo para o violoncelo. No «living-room» tem a lenha a estalar, na lareira sempre acesa. O chá arrefece abandonado na mesinha e os cães respiram adormecidos no tapete. Suggia inicia-se nos hábitos ingleses e torna-os seus, de tal modo que a acusarão de inglesa excêntrica quando pela década de 40 se instalar mais sedentariamente no Porto.
O imaginário das mulheres portuguesas em geral confinava-se a um universo sem ambiguidades. As senhoras respeitáveis mantinham-se tardiamente vitorianas e apregoando as convenções para si e para os outros. Guilhermina Suggia escapava aos papéis tradicionais das mulheres, tanto na esfera pública como na privada. Se ela, pela singularidade da sua personalidade e da sua carreira, se distinguia em qualquer comparação, considerando-a na situação portuguesa só se pode afirmar que vivia no futuro.
Entretanto rolam os «Gay Twenties», os «Wild Twenties», a «Aspirin Age».
Em 1919-1920 toca em Londres «The Original Dixieland Jazz Band» chegada directamente da América. É um êxito. Nestes dias do pós-guerra, o ritmo do «Jazz» sugere furiosamente um novo mundo. Novos passos de dança - o «shimmy», o «charleston» -vindos também da América, são tão absolutamente aceites pela nova geração que a «regra» das famílias vitorianas - e a maior parte eram vitorianas - foi agitada sem tréguas. O «shimmy-shake» é denunciado como chocante, decadente e imoral, mas a música Yes, we have no Bananas vendeu 700 000 discos só em Inglaterra. Porém, o maior de todos os espectáculos é a Exposição em Wembley. Custou 10 000 000 de libras e foi visitada por 27 milhões de pessoas. Ninguém parecia querer lembrar-se que a Irlanda do Sul já não fazia parte do Império, que a índia fermentava e que Gandhi estava preso. Uma nova canção -Wembling at Wembley with You - baloiçava com sucesso todas as ancas.
Mas não é só dançar o «charleston» que se torna uma loucura! A moda torna-se igualmente louca e excêntrica. As mulheres procuram ter uma figura sem busto, lisa; sobem as saias para o meio da perna, descem a cintura e cortam os cabelos. As inibições quanto ao amor e ao sexo, herdadas da geração anterior, vão sofrendo inumeráveis alterações. Married Love e Wise Parenthood são ambos «best-sellers». Em 1921, em Holloway, a Dr." Marie Stopes abre a primeira clínica britânica de planeamento familiar, que desde o início é imensamente frequentada. Em 1919, o Sex Disqualification Removal Act proclamava que ninguém podia ser «rejeitado do exercício de qualquer função pública ou de ser nomeado para qualquer profissão ou vocação por causa do sexo». Em 1922, pela primeira vez mulheres foram jurados no Tribunal Criminal e no ano seguinte cerca de 400 mulheres eram magistrados, conselheiros, guardas, «mayors».
As cidades transformavam-se também por fora. As luzes de néon prolongavam o brilho da vida nocturna, acentuando o contraste de figura e da sombra. The Electrical Times noticia que «dezenas de milhar de visitantes do West End de Londres olharam o Coliseum Theatre com interesse e mesmo com admiração. Nem mesmo à luz do sol são as características arquitectónicas da torre tão fortemente reveladas como sob a iluminação dos tubos de néon com o seu estranho tom crepuscular.» E depois os gramofones, os «talkies» e as bandas sonoras compostas especialmente para os filmes.
A era dos «Roaring Twenties». Ilusão de prosperidade e de paz, ou felicidade artificial, ou entusiasmo verdadeiro; nesta época procura-se esquecer, acima de tudo, a ferocidade da Grande Guerra.


Em Inglaterra, Suggia atinge uma fama sem rival. Leia-se o artigo de 5 de Março de 1920 na revista Time and Side, em que Christopher St. John se refere à vida intensamente musical de Londres e à presença de Suggia: sublime entre os melhores, incluindo Casals.

«Através do The Times tomei conhecimento de que em quatro dias da passada semana, algo como trinta concertos foram dados em Londres. O exercício que tal implica para os críticos de música é tanto físico como mental. Têm. de correr de sala para sala caso sintam ser seu dever discutir mesmo uma selecção representativa de um amontoado de recitais. Começo a pensar que um bom par de pernas constituí um elemento extremamente necessário no nosso equipamento. E um bom olfacto. O meu sistema consiste em seguir o meu olfacto. Eu farejo os concertos que penso que irão ser interessantes, e neles passo o tempo. Não há dúvida que perco muitos concertos dignos de registo, ruas cheguei à conclusão de que não se pode fazer justiça a um artista, se apenas lhe concedermos um rápido olhar durante os poucos minutos que nos separam de iniciarmos uma corrida pelas ruas para apanharmos outro artista noutra sala. O exercício é agradável quando está bom tempo, mas em nada auxilia a crítica.
Depois de Madame Suggia ter executado o compasso de abertura da Sonata de Brahms para Violoncelo em fá maior (op. 99), no seu recital em Wigmore Hall, eu não correria por aí fora ainda que dez outros concertos tivessem exigido a minha atenção. Ficou-se imediatamente com a certeza de que ela teve uma nítida ideia da música. Havia tanta forma na expressão daquele primeiro fraseado que sentíamos que estávamos perante o perfil de Brahms, o qual é quase sempre tremendo, tal como o seu colorido. Estou feliz a todos os níveis, por ser Suggia quem me parece ser a maior de todos os violoncelistas. Casals é tecnicamente seu igual, mas a sua interpretação não me preenche com o mesmo entusiasmo».

São também reveladores da repercussão musical de Suggia os relatos insólitos de Austen Chamberlain e do ministro Balfour.

Declarando que a leitura constituía um dos seus maiores recursos e passatempos, Sir Austen Chamberlain abriu hoje a segunda semana de uma exposição de livros em Grosvenor House, Londres, com um discurso no qual ele mencionou o dinâmico efeito que um livro bem escrito tinha sobre ele. Começou por dizer que a exposição comportava uma maravilhosa colecção de manuscritos musicais e de retratos de músicos.
"Aí de mim!" iniciou ele, "para, mim a música constitui um livro fechado de cujas páginas eu não tive mais do que um breve vislumbre. Eu daria bastante, mesmo por uma só noite, para sentir e para conhecer o intenso prazer que sentem aquelas pessoas que apreciam e sentem prazer na boa música. Uma ou duas vezes se ergueu por um instante a cortina na minha experiência pessoal, como quando o recentemente falecido Mr. Elwes cantou numa pequena reunião, e noutra ocasião quando eu ouvi Madame Suggia. Eu quase pensei que tinha alguma música em mim. Depois a cortina voltou a descer e fui deixado na escuridão». (Northern Echo, 20 de Novembro de 1934)


«- Certa tarde, num dos períodos mais atribulados da outra Grande guerra, o ministro Balfour escutava--me na intimidade de um recital aristocrático. Executava eu a suite de Bach no momento em que o secretário particular daquele eminente estadista entrou na sala para lhe confidenciar, muito em segredo, uma informação que implicava com a solução urgente dum delicado problema de Estado. Tudo isso se passou num breve instante e com uma subtileza de experimentados diplomatas. Eu, no entanto, compreendera que alguma coisa de muito grave havia ocorrido e, serenamente, esbocei num sorriso a intenção de interromper a suite. Balfour, imperturbável e gentil, fez-me sinal para que eu continuasse. A minha alma, angustiada pela incerteza do que teria acontecido, transmitiu ao meu «stradivarius» o sentimento profundo duma alucinadora ansiedade. E ao terminar, Balfour, sempre fidalgo e discreto, honrou-me com estas palavras - que eu julgo ouvir ainda: "Seria um crime imperdoável tê-la obrigado a interromper o seu concerto. Fiquei maravilhado e parece-me que a sua interpretação me inspirou providencialmente para eu poder resolver um problema que se considerava insolúvel…”
(Fátima Pombo “Guilhermina Suggia – A Sonata de Sempre”)

Publicado por vm em 11:43 AM | Comentários (3)