fevereiro 22, 2005

GUILHERMINA SUGGIA NÃO DEIXOU DESCENDENTES E A BUROCRACIA É NEGRA, NEGRA, NEGRA...

Fiz o Pedido do certificado de admissibilidade, no Registo Nacional de Pessoas Colectivas, da Associação Guilhermina Suggia.

Passados dias contactei aqueles serviços para saber se o mesmo tinha sido despachado favoravelmente. Atendeu-me uma senhora, simpática aliás, que me perguntou o nº do processo. Eu dei conhecimento desse número. Aguardei uns segundos e a senhora diz:
"-É um pedido feito por... para a criação da Asoociação Guilhermina Su... Su... qualquer coisa que eu não sei ler"
-Suggia, disse eu.
-Isso, Suggia. Ora temos aqui um despacho a pedir autorização do uso do nome desta senhora. Esta senhora tem que escrever uma declaração a autorizar o uso do seu nome na constituição da Associação.
- Mas essa senhora, que foi uma das mais importantes figuras da música que Portugal teve, morreu vai fazer 55 anos, em Julho.
- Terão que ser os descendentes a autorizar o uso do nome
- Mas a senhora não deixou escendentes
- Vai ter que fazer prova disso.
- E como vou provar o que não existe? É difícil. Se tivesse deixado era mais fácil.
- Mas como sabe que não deixou descendentes?
-Existem livros escritos sobre Guilhermina Suggia onde isso é referido.
-Então escreva uma carta para cá a explicar tudo isso e faça referência a esses livros.

Assim fiz. Escrevi. Expliquei . Referi os livros de Fátima Pombo. Transcrevi parte de uma entrevista feita após um concerto, depois da morte do marido, em que lhe perguntam como se sente. "Sózinha. Muito sózinha. Apesar de ter muitos amigos não tenho um único parente no mundo".

Passados dias voltei a contactar os serviços. Fui sempre muito bem atendido. Disseram-me:

-A sua declaração não foi aceite. Uma vez que a senhora deixou testamento (eu tinha feito referência a isso) terão que ser os herdeiros a autorizar o uso do nome.

Existe apenas uma herdeira viva: a sua aluna Sra. D. Isabel Cerqueira Millet.

Contactei a senhora, através de sua filha, e a senhora fez uma declaração autorizando o uso do nome na Associação Guilhermina Suggia, da qual irá também fazer parte.

Fui entregar a declaração.

Passados 3 dias, conforme me disseram, voltei a contactar aqueles serviços.

A declaração não tinha sido aceite. A senhora vem referida no testamento como ISABEL.... e a declaração que fez diz MARIA ISABEL...

Havia que apresentar uma declaração do notário a certificar que era uma e a mesma pessoa.

De novo contactei a senhora que fez nova declaração dizendo ser a mesma pessoa.

A filha da senhora foi ao notário. O notário exigiu que a declaração fosse feita presencialmente.

A senhora tem perto de 90 anos, doente e impossibilitada de sair de casa.

-Mas pode ir um funcionário do notário a casa.

Pois pode. Mas tudo isso custa dinheiro. A Associação não existe sequer. Não tem dinheiro.
Eu próprio paguei €58,15 para pedir o certificado de admissibilidade.

Contacto de novo os serviços. Conto o que acontece. Pergunto se não será possível, uma, duas, três - as pessoas que entenderem - fazerem uma declaração (essa sim no notário), garantindo que se trata da mesma pessoa.
Dizem que não. Tem mesmo que ser uma declaração da senhora.

O desgaste da burocracia é assustador. E eu pergunto: será que os herdeiros testamentários têm poder para autorizar o uso do nome de Guilhermina Suggia?! Que outro poder poderão ter senão aquele que o próprio testamento lhes confere?

E se fôssemos registar a Associação a Londres? Se calhar seria mais fácil.

Por mais que diga que pretendemos fazer bom uso do nome de Guilhermina Suggia, dizem que terá que haver autorização porque pode vir alguém reclamar a autorização para o uso do nome de GUILHERMINA SUGGIA.

Somos tão pequeninos!!! E começo a ficar farto - ainda nada começou!

Publicado por vm em fevereiro 22, 2005 12:29 PM
Comentários

Caro Virgílio

Compreendo os seus tormentos. A irrascibilidade e a pura estupidez são das coisas que mais me atormentam. Essa tacanhez, essa incapacidade de pensar, de ser flexível, razoável...

Espere tudo, tudo mesmo, e tente rir-se, tente achar graça ao caricato da situação. Não é fácil mas é recompensante. Porque o riso ajuda muito, o riso ajuda sempre. E siga em frente resoluto. Mais importante é que a Associação se forme.

Boa sorte!

Afixado por: ver em março 5, 2005 06:35 PM

Apesar de tudo acho que sou uma pessoa que sabe rir, mas a imbecilidade revolta. E se não for autoririzado o uso do nome de Guilhermina Suggia ( E espero bem que seja. Não pararei até que isso aconteça) a Associação não se formará. Não faz sentido uma Associação sem o nome de G. Suggia. Acharia até ofensivo. Parecer-me-ia caricato que tivéssemos que optar por "ASSOCIAÇÃO EM MEMÓRIA DAQUELA VIOLONCELISTA QUE NASCEU NO PORTO, EM 27/6/1885, ESTUDOU EM LEIPZIG COM JULIUS KLENGEL, VIVEU COM UM VIOLONCELISTA CATALÃO NASCIDO EM 1876 E FALECIDO EM 1973, QUE CONHECEU AOS 13 ANOS QUANDO ESTE VINHA TOCAR PARA O CASINO DE ESPINHO.TOCOU COM O MAIOR SUCESSO EM TODOS OS GRANDES CENTROS MUSICAIS DA EUROPA, VIVEU EM INGLATERRA QUE A CONTINUA A ADMIRAR HONRANDO A SUA MEMÓRIA. O SEU PAÍS ESQUECEU-A E RECUSA-SE A HONRAR QUEM TANTO NOS DIGNIFICOU. A ROYAL ACADEMY OF MUSIC, DE LONDRES, EM SUA HOMENAGEM ATRIBUI ANUALMENTE o PRESTIGIADO PRÉMIO GUILHERMINA SUGGIA, QUE FOI O SEU NOME. ESTÁ SEPULTADA NO CEMITÉRIO DE AGRAMONTE, NO PORTO."

Afixado por: Vm em março 5, 2005 11:30 PM