outubro 27, 2004

O CONCERTO DOS FLAMENGOS

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Por isso convidava sempre amigos e amigas, e Luísa fazia o efeito duma estranha no meio dessa gente ligada por um sentimento vazio e radiante, de contemporâneos, de oficiais da mesma confraria, um pouco ébria de alegria que se prendia com o dia a viver e nada mais. Subitamente levantou-se na cama, assaltada por uma revelação. As portas ouviam-se bater de leve, no corredor os músicos afinavam os instrumentos. Era uma orquestra completa, que contava apenas com duas mulheres. Vestiam quase de igual; só que a violoncelista usava largas calças de seda preta. No seu tempo, a Suggia dava-se ao trabalho de inventar imensos vestidos plumosos e cheios de abas que lhe permitissem emoldurar entre as pernas o famoso celo. Riam-se dela, ignorando a sua arte, mugindo um riso escarninho sobre os seus amores com Casals.

Luísa Baena nunca a tinha visto; mas o colégio que frequentava tinha como primeiro corpo reitoral a mansão do marido dessa fabulosa Suggia, que ia dar lições a Londres às aristocratas. Luísa lembrava-se da sala de jantar e daquela mesa para cinquenta pessoas, e dos side-boards de pau cetim onde cabia uma vitela inteira corada ao lume de azinho. Ou então arranjos frutais como os que se viam nos quadros de Arcimboldo, compondo rostos abrasados e narizes feitos de nabos.

Do livro “O CONCERTO DOS FLAMENGOS” de AGUSTINA BESSA-LUÍS – Guimarães Editores-2002

Publicado por vm em outubro 27, 2004 10:46 AM
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