maio 27, 2004

SUGGIA OFICIAL DA GRÃ-CRUZ DE CRISTO

No ano de 1944, entregam-lhe as insígnias de Oficial da Grã-Cruz de Cristo.
Guilhermina Suggia não se satisfaz, no entanto, com condecorações, nem se protege no silêncio.

“É preciso intensificar-se cada vez mais no nosso País culto muito sincero pela arte musical.

Torna-se indispensável construir salas de concerto, que, à semelhança do que há lá fora, poderiam ser utilizadas também para a realização de conferências de divulgação cultural. Essas salas deveriam comportar apenas umas seiscentas a oitocentas pessoas e seriam dotadas das imprescindíveis condições de segurança e conforto, a par duma acústica impecável e duma excelente e equilibrada distribuição de luz. Estou convencida de que o admirável bairrismo dos portuenses e o seu arrojado espírito empreendedor poderiam tornar em realidade uma tão útil iniciativa - para a qual eu desejaria contribuir com a mais dedicada solicitude. Poderíamos, então, realizar concertos musicais num «clima» apropriado. Convém não esquecer nunca que um executante pode ser gravemente prejudicado por um pequenino pormenor que perturbe a serenidade do seu espírito - desde a perturbadora delicadeza dum perfume esquisito até à luz crua e violenta das gambiarras.
A música de câmara requer um ambiente quási familiar, de igual modo que a voz de um órgão apenas se espiritualiza no silêncio augusto e profundo das grandes naves duma catedral gótica.
- Os efeitos de luz são de alta importância para quem executa e para quem ouve - para o artista e para o auditório.
O célebre compositor russo Scriabin escreveu, sob o domínio dos contrastes da luz e do som, a sua magnífica sinfonia «Prometheus». Assisti à sua primeira audição, na própria residência do autor, em Moscovo. Foi um espectáculo maravilhoso. Aquela sinfonia foi executada caprichosamente - com as mais diversas modalidades de tom em íntima concordância com as adequadas nuances de luz...»

De livro “GUILHERMINA SUGGIA-A Sonata de Sempre” de Fátima Pombo

Publicado por vm em maio 27, 2004 12:00 AM
Comentários


Este pequeno texto do seu discurso é uma prova da profunda e ao mesmo tempo aguda inteligência de Guilhermina Suggia e também da sua abertura de espírito, da sua inesgotável criatividade, e da sua forte personalidade.
Ela escrevia muito bem. Interessava-se por tudo o que a rodeava, estava sempre aberta a novas ideias, era um espírito inquieto, profundamente jovem e moderno. Foi uma mulher muito avançada para a sua época, mas penso que se tivesse vivido nos dias de hoje se conservaria avançada, e por isso muitas vezes foi incompreendida.
Era um espírito brilhante, que nunca envelhece, sempre à procura de algo novo, sem medo de dizer o que pensava.
Podia ser dominada por muitos estados de espírito diferentes, cada um deles correspondendo a uma diferente expressão da sua face. Era muito emotiva e por isso variava e mudava, mas no fundo era sempre a mesma mulher extremamente sensível, delicada e forte e generosa.

Afixado por: isabel millet em junho 4, 2004 01:30 AM

Foi uma mulher que esteve à frente do tempo em que viveu. Tinha uma grande paixão por Bach , Mozart, mas tocou os seus contemporâneos. Foi avançada em tudo. Começou por ser das primeiras mulheres a tocarem um instrumento considerado para homens. Numa época em que ser mulher devia ser extremamente difícil, ela viveu a sua vida como quis sem se preocupar com o que os outros pensavam, sem no entanto deixar de manifestar sempre o maior respeito pelos outros

Afixado por: vm em junho 6, 2004 01:31 PM