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agosto 31, 2010

O stalinismo dos outros

A apresentação do candidato do partido comunista português à presidência da república não constitui uma novidade. Na verdade, nem interessa referir o nome da personagem, pois é o partido que vai a eleições. Mais ninguém. Sempre foi assim desde o início da organização (pelo menos, da sua fase demoliberal) e, faça-se justiça, eles nunca o esconderam. Chama-se leninismo e consta do programa.

A novidade pode encontrar-se nas críticas realizadas a este acontecimento que nada tem de fenomenal (se calhar, nem chega a constituir um acontecimento). Por um lado, o argumento de que a personagem é desconhecida apenas tem sentido para quem fez dos meios fins, fazendo da campanha partidária e da sua estratégia por excelência – o marketing – as pedras basilares da política. Por outro, apontar o candidato comunista como sendo um homem do aparelho não poderia ser mais hipócrita. Manuel Alegre foi deputado de 1975 até 2009, mas como entretanto escreveu uns livros, nunca será tido como uma excreção do aparelho partidário, mas sim como um homem experiente, cujos sacrifícios à pátria são indiscutíveis. O discurso dominante não perdoa e surge pelas mais diversas bocas do espectro político.

Em suma, que se critique a candidatura do PCP, mas que se o faça com justiça, apontando armas aos seus conceitos base: partido, centralismo democrático, vanguarda. Mais do que isso, que se tenha a coragem de reconhecer que esta maneira de fazer as coisas, assente no roubo do direito das pessoas a decidirem sobre as suas próprias vidas, está longe de constituir um monopólio do PCP. Porque há lobos que se apresentam como lobos e há raposas que se vestem com pele de cordeiro.

Publicado por [Dallas] às 01:21 AM | Comentários (13)

agosto 30, 2010

Fernanda Câncio merece um prémio.

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A silly season que este ano está quase a acabar tem-nos dados momentos de absoluto non-sense com a consulta cuidada de f./fernanda câncio no jugular.
Há duas semanas atrás a Fernanda andava às turras com um jornalista do Público porque ele se tinha constituído assistente no processo Freeport. E tudo por uma questão de ética jornalística, sem a qual não podemos viver nem informar. Alguém pode explicar à Fernanda que perde “um bocadinho” a legitimidade pelo facto de toda a gente saber que mantém (manteve) uma relação com outro dos implicados/ilibados/não-questionados do mesmo processo?
Fernanda Câncio detesta que seja referido este facto, que seja referido que têm (teve) uma relação amorosa com o Primeiro-ministro José Socrates, mais, usualmente quando alguém lhe relembra esse facto gosta de se colocar no papel de vítima. “Trazer para aqui a minha relação é descabido”-dirá- “o meu relacionamento é pessoal e particular e eu não posso ser prejudicada por esse relacionamento do meu foro pessoal”.
Mas o problema é que o relacionamento, embora lhe dê toda a legitimidade de continuar a opinar, a expõe: pode dar uma “chazada” num jornalista sobre a sua constituição como assistente mas não consegue passar entre os pingos da chuva como se nada tivesse com o assunto.
Quem quer dar lições de moral tem primeiro de olhar para os seus próprios telhados, sob pena de estes se partirem e a ferirem mortalmente.

Não contente com as suas lições de ética, a Fernanda decidiu hoje fazer uma opereta-bufa. Decidiu listar as “personalidades” que estiveram ou não na manifestação de sábado.
Esta atitude, que tem merecido firme repúdio de quase toda a gente, tem claramente um piquinho a polícia secreta ou a controleirismo. Quem cá está e quem cá não está, vamos lá ver e apontar aqui no moleskine para mais tarde recordar, leia-se atirar à cara de quem me apetecer.
Por outro lado, menoriza todos aqueles anónimos e anónimas que num sábado escaladante saíram para a rua para manifestar o seu repúdio pela selvajaria. Todos eles saíram de casa a pensar que íam para uma acção de protesto e não para servirem de moldura à Fernanda e a su muy nobre galeria de personalidades sonantes, ou de notáveis engalanados.
Ainda porque esta atitude também menoriza a própria acção, conseguir enumerar quem lá esteve (ou não) é sinónimo claro que não esteve assim tanta gente, e embora os meus números coincidam com os da Fernanda (entre 250 a 300 pessoas) não dou um pentelho para saber quem ou não esteve lá, nem quero fazer um processo de intenções a quem faltou.

Fernanda Câncio habilta-se a ganhar o prémio causas perdidas, mas para ela estará tudo bem desde que estejam presentes na atribuição do prémio muitas, muitas personalidades (desde que notáveis, claro!).

Publicado por [POKE] às 11:02 PM | Comentários (2)

agosto 28, 2010

Questões do crescimento Chinês ou Bicicleta Vence!

Obras numa auto-estrada nos arredores de Pequim estão a provocar há dez dias consecutivos um engarrafamento de proporções inéditas, com as autoridades chinesas a admitirem já que o tráfego só estará normalizado em Setembro.

A fila de trânsito já atingiu os 100 quilómetros e os carros apanhados no meio deste mega engarrafamento só conseguem andar cerca de um quilómetro por dia, segundo explicou o director da divisão de trânsito da cidade de Zhangjiakou, Zhang Minghai.

As obras na auto-estrada que liga Pequim a Zhangjiakou, na província de Hebei, no leste da China, começaram a 14 de Agosto.

Para passar as longas horas de espera, os condutores dos carros, cuja maioria regressava a Pequim, fazem pequenas caminhadas, dormem ou jogam cartas ou xadrez.

O engarrafamento também se transformou numa oportunidade de negócio para os habitantes locais. Com a ajuda de bicicletas, de forma a contornar os carros parados, os vendedores de ocasião começaram a comercializar pequenas refeições aos condutores.

Noticia retirada daqui.

Publicado por [Saboteur] às 12:26 PM | Comentários (3)

agosto 26, 2010

Para dentro

Num momento de profunda crise económica, social e política, em que mais do que nunca seria necessário trabalhar para escorraçar de Belém o reaccionário professor de finanças, procurando ao mesmo tempo, construir pontes à esquerda em busca de um caminho para o país e para a Europa, o PCP lança a sua candidatura à Presidência da República com objectivos meramente internos.

Francisco Lopes é já desde alguns anos o dirigente mais importante do Partido, tendo mesmo mais influência do que o próprio Secretário-Geral (ultimamente parece que é moda nos agrupamentos comunistas…). A escolha do candidato foi, por isso, uma escolha em que ele - Francisco Lopes - não deixou de ter um papel determinante e que tem como principal objectivo, preparar a substituição de Jerónimo Sousa.

Nada que o Partido não tivesse já feito, com Carvalhas, dir-me-ão… Acontece que em 1990, o contexto era substancialmente diferente. Só para inicio de conversa, recorde-se que Soares, que se recandidatava liderando folgadamente as sondagens, tinha o apoio de PS e PSD (muito embora o Cavaco apoiasse Soares um pouco como Sócrates apoia agora Alegre...), deixando o candidato de direita a milhas de distância.

Nesta fase e com esta Direcção, não esperava que o PCP apoiasse Manuel Alegre logo na primeira volta, juntando-se ao BE, à Renovação Comunista e ao PS, cuja Direcção não teve outra alternativa senão apoiar. Mas contava com um candidato como Bernardino Soares, com mais abrangência e prestígio fora do Partido, que conseguisse passar uma mensagem anti-Cavaco e anti-Capitalista, afirmar o PCP e, mais importante, captar os votos de todos os que não se identificam com Alegre e Nobre, redireccionando com inteligência esse capital numa eventual segunda volta.

Publicado por [Saboteur] às 12:43 PM | Comentários (17)

agosto 25, 2010

Contra a Lapidação - Lisboa, uma das 100 cidades contra as execuções no Irão

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O protesto contra a política de execuções da República Islâmica do Irão terá lugar em Lisboa, no Largo de Camões, às 18:00 do dia 28 de Agosto (próximo sábado).

Publicado por [POKE] às 09:16 PM | Comentários (7)

agosto 24, 2010

É caso para dizer que o "Partidão 'Tá com o Xico"

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Do site oficial da candidatura:

Francisco José de Almeida Lopes
55 anos
Electricista
Funcionário do PCP

Natural de Vinhó, concelho de Arganil.

Tirou o curso industrial de montador electricista na Escola Industrial Marquês de Pombal.
Participou na actividade associativa no movimento estudantil no Instituto Industrial de Lisboa (actual ISEL) nos anos lectivos de 72/73 e 73/74.
Activista do Movimento Democrático, no plano estudantil e na base de Moscavide, participou no III Congresso da Oposição Democrática em Aveiro, no Encontro da CDE em Santa Cruz e na acção política eleitoral de Outubro de 1973.
Foi membro da União dos Estudantes Comunistas (UEC) em 1973 e 74 e é membro do PCP desde 1974.

Trabalhador na Applied Magnetics, foi membro da Comissão de Trabalhadores e da célula do PCP dessa empresa. Participou na acção sindical no âmbito do Sindicato dos Electricistas do Distrito de Lisboa

Membro do Comité Central do PCP desde o IX Congresso (1979)
Eleito membro suplente do Secretariado do Comité Central do PCP no XII Congresso (1988)
Membro da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central desde o XIII Congresso (1990)
É responsável pela Área do Movimento Operário, Sindical e das Questões Laborais e pelas Questões da Organização Partidária

Deputado à Assembleia da República, eleito pelo Círculo Eleitoral de Setúbal

Publicado por [POKE] às 06:22 PM | Comentários (13)

Hoje estou mesmo pachorrento.

Publicado por [POKE] às 04:34 PM | Comentários (0)

agosto 21, 2010

Trotsky morreu...


... e eu não fui ao funeral.

Publicado por [Rick Dangerous] às 01:18 AM | Comentários (12)

agosto 13, 2010

A Luta Continua

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"NOTA DE IMPRENSA

Foi com profunda consternação que o Secretariado do Bureau Político do MPLA tomou conhecimento do falecimento do camarada RUY DUARTE DE CARVALHO, militante consequente do Partido e destacado homem do saber, ocorrido no dia 12 de Agosto de 2010 (quinta-feira), na República da Namíbia, por doença.

Antropólogo, cineasta, sociólogo e historiador, o camarada RUY DUARTE DE CARVALHO contribuiu decisivamente para a afirmação de Angola nas suas mais variadas vertentes, quer através de escritos, como no domínio audiovisual, donde sobressai o seu filme documental “Nelisita”, galardoado com um prémio internacional.

O seu súbito desaparecimento, aos 69 anos de idade, deixa um vazio difícil de preencher, particularmente na sua área profissional, onde trabalhou com muito empenho e dedicação.

Neste momento de dor e de luto, o Secretariado do Bureau Político do MPLA, em nome de todos os militantes, simpatizantes e amigos do Partido, curva-se, respeitosamente, perante a memória do camarada RUY DUARTE DE CARVALHO e endereça à família enlutada as suas mais sentidas condolências.

PAZ, TRABALHO E LIBERDADE
A LUTA CONTINUA
A VITÓRIA É CERTA

Luanda, aos 13 de Agosto de 2010.

O SECRETARIADO DO BUREAU POLÍTICO DO MPLA."

Publicado por [Party Program] às 04:48 PM | Comentários (6)

Tetris

Publicado por [Chuckie Egg] às 10:46 AM | Comentários (1)

agosto 12, 2010

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Publicado por [Paradise Café] às 06:36 PM | Comentários (2)


Publicado por [Rick Dangerous] às 04:10 PM | Comentários (1)

agosto 11, 2010

Da coragem do anonimato

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Neste texto no vias de facto, zé neves fala da cobradia do anonimato. Da minha parte, com óbvia declaração de interesses por assinar com o nome de um jogo de computador, aqui segue a polémica...

Fala ele de uma questão que não me merece grande reaparo: quando se usa o anonimato para estar em pé de desigualdade ético com o outro fazendo calúnias pessoais que não podem ser respondidas na mesma moeda, estamos mesmo a falar de pulhice. Admito que, por isso, aqui e ali, já fui sendo pulha umas quantas vezes...

Mas sublinhar isto não chega para secar o tema do anonimato, muito menos num texto com o título - Da cobardia do anonimato - que dá a esta opção uma carga claramente negativa. É que esta opção no discurso e acção políticas (bem utilizado, como tudo na vida, assim tipo o açucar) transporta consigo a crítica activa a uma ideia de um EU estático totalmente categorizado, que o império nos quer vender. Este que está no BI será sempre a mesma coisa, uma série de nomes, agora aquilo que hoje e aqui sou, na intervenção que faço, não tem nada a ver com o que esse já foi, nem concerteza com o que será.

Creio que há ainda um outro bom argumento: quem se organiza e vai tentando criar conflito, verdadeiro conflito, tem muitas razões para tentar evitar a sua identificação. É que desde a polícia ao patrão, nunca se sabe de que lado podem vir as balas. Quem não tem esses problemas que assine orgulhosamente com o seu nome...

Publicado por [Paradise Café] às 01:35 PM | Comentários (8)

Leituras de Agosto

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«Carlos Brito, dirigente destacado do nosso Partido, militante de muitos anos, que passou o duro caminho da luta e da vida clandestina, das prisões, das torturas das condenações, não é um candidato à procura de promoção pessoal (…)».

É com estas palavras que Álvaro Cunhal apresenta o candidato do PCP às eleições presidenciais de 1980 e autor do livro de memórias “Álvaro Cunhal – Sete Fôlegos do Combatente”. Eleições em que o PCP viria a retirar a sua candidatura para apoiar Ramalho Eanes e derrotar o candidato da direita.

Aproveite-se, então, já esta oportunidade para sublinhar que, por um lado, estamos perante um livro de memórias singular de um homem particularmente bem colocado para testemunhar sobre Álvaro Cunhal e os extraordinários acontecimentos do período da história de Portugal, no qual o livro se desenrola. Por outro lado, estamos perante um livro de relevante actualidade política, que nos faz pensar no passado, mas também, através dele, no presente e nos combates do futuro.

O livro está organizado formalmente em três partes. As duas primeiras são memórias quase cronológicas: desde o primeiro encontro com Cunhal, em Paris, onde Brito, saído recentemente da prisão, assume acrescidas responsabilidades no Partido, até ao 25 de Abril e, depois, desde o 25 de Abril até ao XVI Congresso do PCP, em 2000. Na terceira, de uma maneira mais solta, Brito procura testemunhar mais sobre a personalidade do líder histórico do PCP, o seu sentido de humor, a sua sensibilidade, as suas embirrações…

Diríamos, no entanto, que são outras duas partes que nos ficam na memória: uma primeira ritmada pelos “sete fôlegos do combatente”, que dão título à obra, e uma segunda em que um oitavo fôlego, não de Cunhal mas sim de uma nova geração de dirigentes do Partido, liderado então já por Carlos Carvalhas, impulsionadora da Resolução do Comité Central designada de “Novo Impulso”, merece a oposição de Cunhal e marca o seu regresso à vida e à luta interna do Partido.

Os sete fôlegos são, como descreve Brito, sete “sobressaltos ideológicos [de Cunhal], viragens tácticas para abrir caminhos, quase sempre surpreendentes, mesmo para os que o acompanhavam mais de perto, que tanto podiam seguir-se a uma grande vitória como a grandes dificuldades ou derrotas”.

Sem sistematizar aqui os sete, note-se, a título de exemplo, “A Linha Conciliatória do Comité Central de Alhandra, de Agosto de 1975”, um fôlego bem sucedido que contribuiu para evitar a guerra civil e mitigar, depois, as consequências do 25 de Novembro para o PCP e para o movimento dos trabalhadores em geral. Ou a “Tese do Campo Social Politicamente Vazio”, em que o PCP apoia a criação do PRD, na convicção que este ganharia parte do eleitorado do Bloco Central e contribuiria para uma modificação da arrumação das forças parlamentares que quebrasse o bloqueio que impedia o acesso dos comunistas à área da governação.

O oitavo fôlego, o “Novo Impulso”, contendo um conjunto de decisões sobre organização interna e de relacionamento do PCP com a sociedade, conferindo-lhe maior abertura e dinamismo, foi a primeira grande viragem de orientação partidária que não teve Cunhal como autor.

Desta vez, segundo Brito, Cunhal não teve novo fôlego, mas sim deu um salto atrás, recuando mesmo em relação a rasgos analíticos que tinha personalizado no XII, XIII e XIV Congressos. Apoiou a ala conservadora do Partido numa dramática luta interna que gerou divisões e dissidências com uma magnitude nunca antes observada. Uma luta ainda muito pouco estudada e documentada, o que torna ainda mais valioso o testemunho de Carlos Brito.
Assim, esta obra é importante para conhecer o pensamento e a acção de Álvaro Cunhal, mas também um documento incontornável para a história do PCP e também para a história de Portugal, nomeadamente no que diz respeito aos primeiros anos de democracia.


Publicado por [Saboteur] às 12:07 AM | Comentários (11)

agosto 09, 2010

Indiferentes como o mar que transporta navios


O mais impressionante no romance O Zero e o infinito (em inglês, Darkness at noon) - escrito em 1939 por Arthur Koestler, um ex-militante Komintern de origem austríaca - é a permanente sensação de empatia que qualquer comunista pode sentir para com Rubachov, o dirigente soviético caído em desgraça e acusado de conspirar contra Estaline, a unidade do partido e o superior interesse da pátria da revolução. Todas as recordações que o atormentam na prisão, entre os interrogatórios a que se vê submetido, confrontam R. - um velho bolchevique que não hesitou perante nenhum trabalho sujo ao serviço do poder soviético - com a sucessão de eventos que o conduziu até ali.
Expulsou das fileiras da Internacional um jovem carpinteiro alemão que reorganizou o Partido na sua cidade, após a vaga repressiva que assinalou a subida dos nazis ao poder, por este ter defendido a unidade de toda a Esquerda contra Hitler. Em seguida expulsou e caluniou a célula dos estivadores do porto de Antuérpia, por eles se recusarem a furar o boicote de venda de petróleo à Itália fascista durante a invasão da Etiópia, decretado pelo Komintern mas violado pela Agência de Comércio Externo Soviética. Finalmente, permitiu que a sua jovem amante fosse acusada de espionagem ao serviço de uma potência estrangeira, denunciando-a em público para não se deixar arrastar na sua desgraça.
E em todos esses momentos, Rubachov agiu por motivos estritamente políticos e sem que alguma vez os seus interesses pessoais tenham determinado a sua conduta. Foram sempre os superiores interesses da revolução e a convicção na imparável marcha da história a ditar o seu comportamento. Lentamente, o círculo fecha-se e ele, que resistiu a vários meses de tortura nas prisões da Gestapo, acaba por aceitar todas as acusações que lhe são feitas. Cada uma das suas escolhas anteriores conduziu-o a essa opção e o seu julgamento público é a farsa final, que assegura a Estaline o controlo absoluto sobre o partido e o Estado. O desafio, que R. aceita, é a renúncia à última forma de vaidade que consistiria na salvaguarda da sua dignidade pessoal, pela recusa de uma confissão pública e a escolha de uma execução "administrativa", convenientemente secreta. No contexto dos processos de Moscovo, a dignidade pessoal era a derradeira traição aos interesses do proletariado e Rubachov deve admitir os mais infames crimes de maneira a tornar a sua execução um elemento de reforço da revolução.
Todos os personagens são construídos com uma contenção extrema, mas simultaneamente com o grau de complexidade que lhes confere uma verosimilhança rara nos textos ficcionais que se debruçam sobre o universo concentracionário do Estalinismo. Ninguém é apenas grotesco e até o mais cínico dos carcereiros invoca sinceramente a seu favor a convicção de agir pelos mais elevados interesses. Algumas figuras são tão familiares que quase poderíamos julgar tê-as conhecido em pessoa...
Na sala onde interrogam R., está a fotografia do "Nº1". Ao seu lado uma marca na parede, onde durante muitos anos estivera uma outra foto, de um congresso de revolucionários clandestinos e ilegais, realizado no estrangeiro. A marca que sinaliza uma ausência está presente em muitos outros locais por onde passa o olhar de Rubachov, relembrando-lhe os seus ex-camaradas desaparecidos e o destino que também o aguarda. O primeiro dos seus interrogadores - ao lado de quem Rubachov havia combatido durante a guerra civil - não sobreviveu ao seu interrogatório. É provável que o segundo não tenha sobrevivido à sua confissão. A revolução não sobreviveu a nenhum deles.
Diz Rubachov, a dada altura, ao primeiro homem que o interroga :

Nesse tempo chamavam-nos o Partido da Plebe. Que sabiam os outros da história? Ondulações passageiras, pequenas marés e ressacas. Espantavam-se com as mudanças da superfície e não conseguiam explicá-las. Mas nós tínhamos descido ao fundo, às massas informes e anónimas que desde sempre constituíram a substância da história; e fomos os primeiros a descobrir as leis do seu movimento. Descobrimos as leis da sua inércia, da lenta mudança da sua estrutura molecular, e das suas súbitas erupções. Essa era a grandeza da nossa doutrina. Os jacobinos eram moralistas; nós éramos empíricos. Cavámos na primitiva lama da história e aí encontrámos as suas leis. Sabíamos mais do que qualquer homem jamais soube sobre a humanidade; e por isso a nossa revolução foi bem sucedida. E agora voltámos a enterrar tudo...
As massas tornaram-se de novo surdas e mudas, o grande x silente da história, indiferentes como o mar que transporta navios. Cada luz que passa reflecte-se na sua superfície mas, no fundo, tudo é escuridão e silêncio. Há muito, muito tempo, conseguimos agitar os fundos, mas, agora, tudo acabou. Por outras palavras, nesse tempo fazíamos história; agora fazemos política. E essa é a grande diferença.

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:29 PM | Comentários (5)

Morte natural


O General Walter Krivitsky era o Chefe dos Serviços Secretos Militares Soviéticos (4º Bureau do Exército Vermelho) na Europa Ocidental, até cortar com o regime em 1937. Foi o primeiro caso de deserção de um oficial superior da rede dos serviços secretos soviéticos. Por duas vezes o G.P.U. tentou assassiná-lo em França. Conseguiu-o à terceira tentativa, nos Estados Unidos. A sua morte foi preparada para parecer um suicídio. O General Krivitsky foi encontrado com uma bala na cabeça, que aparentemente ele próprio disparara, num quarto de um hotelzinho em Washington onde nunca estivera antes. Tinha avisado repetidamente a família e os amigos que nunca acreditassem que se suicidara, se por acaso aparecesse morto. Há um velho ditado da G.P.U. que diz: «Qualquer tolo pode cometer um assassínio, mas é preciso um artista para cometer uma morte natural».
Arthur Koestler, O Zero e o Infinito, Lisboa, Europa-América, 1973, p.243

Publicado por [Rick Dangerous] às 04:12 PM | Comentários (1)

agosto 07, 2010

Play the Game

Play "Safe Passage"

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Publicado por [Shift] às 08:58 PM | Comentários (2)

Prémio boas práticas no serviço público

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A cinemateca portuguesa fecha em Agosto para o pessoal ir (todo) de férias.
Assim de repente, acho que este bom exemplo devia ser seguido noutros serviços públicos como a RTP e as rádios públicas Antena 1, 2 e 3. Ou porque é que não fecham a Biblioteca Nacional e os museus nacionais todos em Agosto? Provavelmente os interesses do serviço público e do próprio público ficavam melhor defendidos desse modo.

Publicado por [Renegade] às 06:14 PM | Comentários (2)