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julho 20, 2010

pois

Eu até lá fui na sexta-feira. Chegou para perceber do que a casa gasta. Perdi-lhe o gosto. Desinteressei-me. Foi fácil, não paguei o bilhete de umas quantas dezenas de euro que outros milhares largaram na promotora "Música no Coração". Música no Coração. Sim, sem dúvida, é preciso ter muita música no coração para ver alguma normalidade para cá dos limites do aceitável nas nuvens de poeira que recebiam qualquer visitante no espaço que a Câmara de Sesimbra cedeu (imagina-se que uma parte interessante do orçamento da câmara venha deste tipo de negócios, além dos negócios do imobiliário - não é o concelho de sesimbra aquele que tem previsto duplicar ou triplicar a população residente nos próximos 10 anos? - já para não falar do capital político que uma câmara tão amiga das cervejeiras e das operadoras de telemóvel festivaleiras não pode deixar de ganhar nos comerciantes do concelho). Sesimbra cedeu. E cedeu um terreno sem perguntar ao organizador se tinha garantidas as condições mínimas de habitalidade e acesso a um espaço onde só se chega de automóvel e em parcos autocarros e onde o chão é de areia terrosa e seca. Sesimbra cedeu e a música no coração chegou aos ouvidos do público que pagou dezenas de euro para ver os seus ídolos ou ouver a sua música e, em centenas ou milhares, não se sabe, nunca se saberá, nem chegou a entrar no recinto porque quando o Prince se foi embora ainda havia quilómetros de engarrafamentos de gente que ia chegar e, não se sabe, nunca se saberá, mas imagina-se, nunca chegou. No meio de tudo isto ainda houve quem certificasse o festival como ambientalmente sustentável ou emissões zero ou lá o que é. Pois.

Não paguei o bilhete mas podia ter pago. Se tivesse pago, quem me recompensava pelo serviço pago e não prestado? E também é interessante observar como o nível de exigência do público é baixo. Acha-se "normal" comer poeira às colheradas e perder-se concertos por engarrafamentos de trânsito às portas do festival. É normal passar-se dias num parque de campismo sem sombras. É normal. Faz parte da atitude de improvisação desorganizada de quem tem a música no coração. E todos gostamos de ter a música no coração, de sermos festivaleiros e reconhecidos socialmente por isso, não é? Gostamos de ser parte do grupo, mesmo que o grupo de reja pelos mínimos. No fundo, somos todos muita cuis para chegarmos ao ponto de achar que um festival só vale a pena se dispensar a obrigação de comer toneladas de poeira e com transportes minimamente organizados. Como se faz noutros sítios lá fora e até se faz cá dentro. E ai de quem afirme o contrário!
E a música? Parece que o Prince anda a comer a Ana Moura ou vice-versa. Pois.

Publicado por [Renegade] às julho 20, 2010 10:39 PM

Comentários

No Alive passou-se uma situação similar, há quem tenha estado 3 horas numa fila para entrar no recinto. No entanto, lá a malta foi bem menos compreensiva e pacifica do que nesse festival...e entretanto houve malta que se chegou à frente e invadiu-se o recinto...
Atenção à composição dos dois festivais, aconselho-te para a próxima que vás a um que não seja frequentado maioritariamente por pseudos-sei-tanto-de-musica.

Publicado por [Soraia] às julho 21, 2010 02:57 AM

O renegade, já existe sudoeste há uns quinze anos e agora é que te vens queixar?

O Soraia os pseudos-sei-tanto-de-musica existem por oposição aos verdadeiros-sei-tanto-de-musica? como se distinguem?

Publicado por [PP] às julho 21, 2010 03:45 AM

Pois. Ainda há dias falava disto com outra pessoa. O PP tem razão. E passando todo o registo de surpresa que não se compreende de todo, renegade, digo apenas que isso de querer ser reconhecido como festivaleiro só me faz lembrar a malta que ia às festas de trance e que depois andava com a pulseira durante a semana toda só para mostrar que lá esteve. Quem me dera que os (poucos) bons concertos que vi em festivais tivessem sido fora dos mesmos.

Mas para resolver isso tens Sines, daqui a uma semana, onde aparecem bolas de crude na praia mas as músicas são do mundo (!!!) e não há pó.

Publicado por [Chuckie Egg] às julho 21, 2010 09:30 AM

menos choro pato.

Publicado por [anon] às julho 21, 2010 03:07 PM

não sei, nunca fui ao festival sudoeste. ouvi falar mas nunca fui. para mim foi uma surpresa, de facto. que estas coisas sejam consideradas normais só por já acontecerem há 15 anos ainda é mais interessante. olha, na primeira festa do avante na quinta da atalaia o registo foi muito semelhante, pó por todo o lado e tal. No ano seguinte a organização já tinha quase todo o recinto coberto de relva. A solução era perfeita? não. as pessoas protestaram e alguém que ouviu achou que submeter milhares de pessoas à tortura da poeira também não era "normal", percebem?

Publicado por [renegade] às julho 21, 2010 09:39 PM

A principal questão aqui é o Renegade ter ido ver o Prince! Sabes que ele é testemunha de Jeová e anda com a bíblia de porta em porta a chatear a malta? Imagina-te recebê-lo em casa num domingo de manhã (muito melhor que o Sudoeste). És mesmo resmungão, até parece que não conheces as míticas imagens da malta de woodstock a chafurdar na lama.

Abraço

Publicado por [Jó] às julho 22, 2010 12:51 AM

também a mim me faz confusão às ideias a movida dos festivais. é a inflação para tudo a uns 300%, é o pó, é a fila interminavel para tudo e mais alguma coisa, é a impossibilidade de utilização de um wc e para obter todos esses serviços explendidos compra-se o belo do bilhetinho a parecer que se está a adquirir um qualquer lugar de luxo em camarote com serviço de comes e bebes e massagens incluidas.
da minha experiência na matéria posso falar do 1º SBSR em que fiquei admirado com a novidade festivaleira e com um cartaz "de luxo" na altura, de um Paredes de Coura que valeu pelo lugar (entenda-se aldeia e arredores) e pouco mais e de um sudoeste à uns 8 anos em que ai foi mesmo o cúmulo do pensar mas que raio estarei eu a fazer no meio disto, indiscritivel. o ano passado por acidente fui parar ao SBSR e o espectaculo à entrada era brutal, para se utilizar um dos wc´s havia filas que só visto, então era ver o pessoal a mijar mesmo nas paredes em frente aos wc´s e o rio que se formava ia escorrendo por ali abaixo mesmo junto à entrada do estádio e o pessoal ia circulando no meio daquele rio natural. lindo!
gostos discutem-se e parece que há muita gente que gosta dessa confusão tipica e de ser muito mal servido apesar de pagar bem. são gostos..

Publicado por [areia] às julho 22, 2010 02:55 AM

Em termos de organização todos são maus mas de facto Paredes de Coura e Vilar de Mouros pelo menos são em sítios aprazíveis. Fui uma vez a cada um desses festivais grandes e poder tomar banho no rio é um avanço civilizacional. Em Sines, como disse em cima, às vezes até a praia mete medo. A zambujeira ganhou o epíteto de Cambodja há muitos anos.

Publicado por [Chuckie Egg] às julho 22, 2010 10:37 AM

E que dizer do andanças, esse festival tão fixe que agora custa a módica quantia de 150 euros para 7 dias?

Publicado por [Chuckie Egg] às julho 22, 2010 10:40 AM

O ser humano tende a desprezar o que é gratuito, o que não lhe custa a ganhar. Veja-se o estado das escolas públicas, dos hospitais públicos, etc., e compare-se com os privados.

Publicado por [Paulo] às julho 22, 2010 03:51 PM

ah, com que então pagam-te para cá vires escrever essas coisas e é por isso que fazes um trabalho tão assíduo e profissional.

Publicado por [Chuckie Egg] às julho 22, 2010 04:41 PM

Hey, eu mantenho no braço as pulseirinhas dos festivais onde estive como recordação. Ser um entre milhares não faz parte das coisas que considero "dignas" de gabarolice.

Publicado por [João P.] às julho 22, 2010 06:57 PM

Sim, pagam-me por linha entre 7,5 e 10 euros mais IVA à taxa legal em vigor, consoante a qualidade, no âmbito de uma conspiração internacioal para vos aniquilar, envolvendo até chefes de estado de diversas potências do G20. Achas que é muito?

Publicado por [Paulo] às julho 22, 2010 08:45 PM

Paulo,

Essa tua frase:

"O ser humano tende a desprezar o que é gratuito, o que não lhe custa a ganhar. Veja-se o estado das escolas públicas, dos hospitais públicos, etc., e compare-se com os privados."

é um salto lógico gigantesco. Não vou aqui discutir a primeira frase, também ela discutível, fica para a próxima. Primeiro que tudo os serviços públicos como escolas públicas e hospitais públicos (exemplos que dás) não são gratuitos. Mesmo que não se pague nada quando se vai ao hospital e à escola isso não implica que seja gratuito. São pagos com impostos que todos pagamos. Em vez de se pagar a esta ou aquela seguradora paga-se ao serviço nacional de saúde, é o mesmo. Essa é a ideia dos impostos: pagas para teres acesso a serviços considerados importantes para o bem estar das populações. Portanto, enfiares escolas e hospitais públicos (e outros serviços similares) no saco azul da gratuitidade é errado.

Também é errada a segunda parte dessa frase em que comparas o público com o privado. É bastante discutível essa tua frase feita de que o privado é bom e o público é mau. Há vários exemplos que contradizem o que dizes. Dentro dos exemplos que dás tens o sistema de saúde americano (praticamente todo ele privatizado). Se olhares para os dados oficiais, o sistema de saúde americano é o mais caro por utente. Os seus custos ascendem a mais do dobro dos custos em outros países em que o sistema de saúde é público. Se introduzires outra variável, a da esperança média de vida à nascença, verificas que os EUA estão abaixo da média mundial, apesar dos muito mais altos custos da sua saúde. Podes ver o gráfico seguinte, por exemplo: www.boingboing.net/201001251015.jpg

Outro ponto interessante, relativamente à saúde nos EUA (privada), é a sua ineficiência e burocracia. Nos hospitais privados com fins lucrativos os custos administrativos são de cerca de 34%, nos privados sem fins lucrativos são de 24.5% e nos públicos são de 22.9% (dados de Woolhandler, Himmelstein, "Costs of care and administration at for-profit and other hospitals in the United States"; New England Journal of Medicine 336:769-774 (March 13), 1997). Outro exemplo interessante de desperdícios do sistema privado, citado nesse artigo, é o seguinte: quando houve uma fusão da US Healthcare com a Aetna o CEO Leonard Abramson recebeu 967 milhões de dólares, esse valor seria suficiente para fornecer serviço de saúde a todas a crianças sem seguro do estado do Massachusetts até à puberdade.

Se olhares para os dados da organização mundial da saúde podes ver que os EUA são o país com sistema de saúde mais caro, com resposta mais rápida (mas imediatamente seguido da Suíça e Dinamarca por exemplo com custos na ordem de metade), com taxa de mortalidade infantil maior (de entre os países industrializados, claro), em 54o lugar em termos de justeza do sistema de saúde, em 37o lugar em termos globais e apenas 40% da população está satisfeita com o sistema de saúde.

Em Portugal os hospitais parceria Público-Privado são dos que apresentam maiores buracos financeiros.

A miragem do privado ser melhor, não sei bem de onde vem, é um bocado como tentar fazer omoletes sem ovos. Tens o mesmo serviço e por cima colocas uma taxa de lucro e ainda obténs custos menores. É a galinha dos ovos de ouro.

Quanto à educação... Penso que só existe uma universidade privada considerada com valor em Portugal: a Católica. Conheces mais alguma? Todas as outras são Públicas.

Não vou entrar na discussão das escolas secundárias e dos rankings. Como sabes a questão é muito mais complexa do que um simples público e privado. Tendencialmente nos colégios privados quem os frequenta tem um nível económico muito mais elevado que no público. Desta forma tem acesso a explicações privadas, a pais com níveis académicos muito mais elevados. Portanto, a comparação do ranking está completamente inviesada.

Publicado por [gorkiana] às julho 23, 2010 11:12 AM

Em primeiro lugar, noto que não me insultas e que expões argumentos. Quero felicitá-lo por isso, é uma feliz raridade nas caixas de comentários deste blog.
Depois, é muito curiosa a relação que faz de uma coisa que eu não disse. Claro que os serviços públicos não são gratuitos mas sim pagos por quem paga impostos (os liberais estão sempre a repetir isso – para haver uma mínima noção do que se passa). Eu estava a fazer a relação, não com o gratuito mas, sim, com o “não lhe custa a ganhar”. Pelo menos a garotada do secundário, sabe perfeitamente que andar 10 anos ou 15 anos na escola custa o mesmo e os pais sabem bem que não é por terem 1 ou 5 filhos na escola que vão ter uma grande diferença de encargos com a escola. De facto, não custa nada andar na escola, e aquilo que custa continua a custar antes e depois do período em que se está a estudar. Além disso, quem não estuda paga por quem estuda, o que é uma tremenda injustiça (principalmente no que diz respeito ao ensino superior).
Depois, quando estou a comparar com o privado é porque há mesmo uma diferença abissal por duas razões fundamentais: quem está no privado está a pagar bem e quem está no privado escolheu estar naquele determinado privado. E isto faz toda a diferença no comportamento das pessoas. Estava a discutir as coisas apenas ao nível dos comportamentos.
De qualquer forma, quantos aos restantes assuntos que levantaste:
- por muito que se grite, o sistema de saúde norte-americano está na vanguarda de investigação médica, das descobertas científicas e da qualidade do serviço de saúde, e isso tem a ver com o facto de ser caro (a relação preço qualidade é muito superior)(e além disso os valores do gráfico não vêm à paridade do poder de compra);
- o argumento do ser caro é muito curioso: na prática quer dizer que quem tem um Ferrari está sempre mais mal servido do que quem tem um Smart… (?!);
- não deves tomar os países da OCDE como o mundo inteiro: é o mesmo que dizeres que alguém que tem o rendimento mediano na Quinta da Marinha é um desgraçado de um remediado (os EUA têm 78 anos e o Japão tem 83, o mais baixo da OCDE é 73,2 – achas que a situação dos EUA é assim tão má? – lê os gráficos com atenção antes de os descarregares da net)
Dizes isto: “Tendencialmente nos colégios privados quem os frequenta tem um nível económico muito mais elevado que no público. Desta forma tem acesso a explicações privadas, a pais com níveis académicos muito mais elevados.” Ora bem, é por isso que há uma corrente liberal que defende que o Estado devia privatizar todas as escolas e entregar a cada agregado um cheque que serviria apenas para pagar as mensalidades da escola. Precisamente para acabar com essa injustiça, permitindo que os alunos fossem escolhidos apenas pelo seu mérito e não pelo livro de cheques dos pais. Mas como é uma ideia neosuperultraliberal, deve ser deitada fora antes que seja discutida e compreendida.

Publicado por [Paulo] às julho 24, 2010 11:29 PM

Paulo, isso é um bocado jogar com as palavras o argumento do não é "gratuito" é "não lhe custa a ganhar". Fizeste a relação linear entre as duas coisas na tua frase original, mas enfim, assumamos que só querias dizer o "não lhe custa a ganhar" e que o resto foi um excesso.
Devo dizer que andei metade do meu ensino pré-universitário numa escola privada e outra metade numa escola pública (apenas porque mudei de cidade e a única escola privada que existia, era gerida por padres e eu, e os meus pais, somos ateus, o que levantou alguns entraves de ambas as partes, felizmente isso aconteceu porque tive dos meus melhores professores na escola pública). Quer numa quer noutra sempre tive a consciência de que andar na escola era um encargo para os meus pais e, mais que isso, era um prazer para mim poder passar o dia (entre outras coisas) a aprender coisas novas (mas isso é fruto da educação que os meus pais me deram). Em ambas as escolas tive colegas que se baldavam às aulas e que não estudavam. Quer os putos betinhos quer os putos lixados da casa pia se baldavam, cada um pelas suas razões. No entanto, pelo menos nas escolas em que andei, o número de estudantes que faziam da balda o normal era marginal. Existia mais alunos que se esforçavam mas não conseguiam passar e acabavam por ir trabalhar mais cedo.

1- Como já te disse, se olhares para as estatísticas, vês que a maior incidência de insucesso escolar cai sobre putos que vêm de agregados familiares com níveis económicos e académicos mais baixos, e ambientes familiares muito mais hostis. Porquê? Porque têm genes de burrice? Não, porque não têm pais, como eu tenho, que falavam à mesa de jantar de filosofia, história, matemática, literatura, etc.. Isso faz toda a diferença. Como também faz toda a diferença ter dinheiro para pagar explicações. Tudo isto cria assimetrias que depois se reflectem no desempenho dos alunos, e no ranking das escolas. Já te questionaste porque é que o Eduardo Prado Coelho é filho do Jacinto Prado Coelho e outros casos similares? O processo educativo é algo complexo que tem fortes influências do contexto social do alunos. Se olhares bem para a realidade, verificas que existe a escolaridade obrigatória que impõe um limite mínimo de estudos e uma idade mínima para desistires da escola (18 anos). Os ditos casos endémicos de putos que se arrastam pelas escola restringem-se à escolaridade obrigatória e aos 18 anos. Existem muito poucos casos de putos com muito mais de 18 anos ainda a fazer a escolaridade obrigatória (os ditos do "não lhe custa a ganhar"). Simplesmente porque esses putos quando atingem os 18 anos vão trabalhar. Precisamente porque estarem a estudar é um encargo pesado para os pais. Os encargos com a escola, como tu próprio disseste na questão do custo da saúde, não se podem ver absolutamente, têm de ser vistos relativamente ao orçamento familiar. Tens noção dos custos de ter um miúdo na escola? Mesmo numa pública? O problema dos teus raciocínios é que olhas sempre para as coisas localmente, nunca contextualizas e olhas globalmente para elas. Os custos (em média) de um aluno de uma escola privada representam uma percentagem muito menor do orçamento familiar do que de um aluno de uma escola pública. Pelo menos da minha experiência isso passou-se.

2- Tu olhas para as despesas no ensino apenas como custos. Para ti a educação é um luxo que alguns têm. Em vez de trabalharem, andam alí enfiados nos livros a viverem uma boa vida. É apenas prolongar a vida sem trabalhar. Isso é falso. A educação é um investimento que a sociedade, como um todo, faz em determinados indivíduos e recebe um retorno muito maior do que aquilo que investiu. A saúde é um exemplo disso, a industrialização é outro e a arte é outro. É um ganho para a sociedade. Se há alguma injustiça é apenas porque o ensino não é suficientemente universal para que todos possam ter acesso aos mesmos anos de estudos a que eu tive acesso, por exemplo, e porque as remunerações são bastante díspares.

3- Paulo, tu não leste nada das referências que te dei sobre o sistema de saúde americano, pois não? Diversos estudos internacionais de organizações oficiais, revelam que o sistema de saúde americano, de entre os países desenvolvidos, é o que tem uma menor relação qualidade/preço, ao contrário do que tu insistes em dizer. Já te dei as referências, não posso fazer mais nada. Relativamente à má comparação da saúde com carros e ferraris tenho-te a dizer o seguinte. Acho um bocado surreal comparar um artigo de luxo e de ostentação (um ferrari) com um serviço fundamental (a saúde). Estamos a falar de funções não de status. A locomoção com veículo motorizado em 99.99999% dos casos é igual com um Ferrari ou com um Volkswagen Golf. Não vais mais rápido com o Ferrari (porque tens limites físicos e legais de velocidade) e por vezes é mais desconfortável porque é um carro desportivo. Se comparares com o custo, o Ferrari torna-se um alternativa muito menos interessante. Mais ainda, acho indiscutível que é preferível ter toda a população com um VW Golf TDI (gama média-alta, que custa 30.000E) que ter 10% da população com um ferrari (que custa 300.000E) e os outros 90% a andarem de carroça. Esta é a comparação que se tem de fazer e é disso que se está a falar. Outro ponto, relativamente ao teu tom paternal para eu "ler melhor os gráficos antes de os sacar da net", não percebeste nada do que disse, novamente. Se é o sistema mais caro (o dobro do mais próximo), esperas que seja o melhor sistema de saúde, menos que isso é inaceitável. Melhor sistema de saúde não é medido apenas pelo potencial que tem para 10% da população, mas sim pelo que efectivamente fornece à população (não sou só eu que digo isto, a OMS di-lo também). A esperança média de vida é um parâmetro para aferir isso, entre outros que te dei e que colocam o sistema de saúde americano em 37o lugar, apesar de ser o mais caro. Quanto à relativização dos custos em função do poder de compra. Estamos a falar de comparar os EUA com o Japão, a Dinamarca, França, Inglaterra, Suíça, etc.. Continuas a dizer que isso faz toda a diferença? O Japão e a Suíça são considerados dos países com custos de vida mais elevados e, ainda assim, apresentam custos com saúde de cerca de metade dos EUA. Continuas com esse argumento? Sim, acho que a situação nos EUA é muito má. Pelos custos do seu sistema de saúde, pela exclusão de mais de 15% da população do sistema de saúde e pela mercantilização da saúde das pessoas que a privatização do sistema de saúde implica (o teu seguro de saúde pode ser facilmente cancelado se tiveres um cancro). Isto para mim é aberrante de acontecer num país que se diz a superpotência mundial.

4- Isso dos "school vouchers" do Friedman é uma grande aldrabice. Estou a ver que estás no pico da moda. Só se fala disso agora. Para não falar do custo global acrescido de teres de pagar o lucro dos donos das escolas (que de todo não é compensado pela ilusão da melhorias de eficiência do privado), não resolve problema nenhum. Continuas a ter alunos de meios mais desfavorecidos a irem para escolas piores porque têm desempenhos piores. Continuas a ter escolas boas e escolas más. O objectivo não é elitizar as escolas. O objectivo é subir o nível a todas as escolas. Não é por amor à caridadezinha (como diria o Barata Moura) mas porque quanto mais gente tiver boas condições para estudar mais a sociedade como um todo evolui.

Publicado por [gorkiana] às julho 25, 2010 03:34 PM

Anónimo,
Eu estou sempre a dizer que as coisas que a esquerda chama de gratuitas não o são. Já fui acusado neste blog de o estar sempre a repetir. Parece que foi insuficiente. Se queres fazer de conta que eu não tenho essa opinião, estás à vontade.
O meu comentário não era sobre a tua experiência de vida. Nem sequer a vou comentar, apesar de vocês já o terem feito em relação à minha vida sem sequer me conhecerem (cada um é para o que nasce).
1 – Tens toda a razão. O meu raciocínio tem problemas. Para quê discutir? Tens toda a razão no que dizes mas o meu comentário não era sobre ti (estás a ver as coisas demasiado localmente, focadas em ti, o teu ego está um pouco dilatado). Sem prejuízo de achar a tua experiência fantástica a todos os títulos.
2 – Agora fiquei baralhado. Vejo as despesas apenas como custos? Amanhã vou já ao médico. O que tu estás a dizer que é falso eu não disse. E tens razão, é falso. Mas eu não disse.
3 – OCDE. O que eu queria dizer com o Ferrari era isto: se tu tiveres um Ferrari e fores acusado de comprares carros mais caros do que o teu vizinho que tem um Golf (TDI?), isso é estúpido porque é a constatação de um facto. O que se passa é que tu gasto mais dinheiro em carros do que o teu vizinho. Os números que estás a utilizar não são sobre preços, são sobre despesa. Se tu gastares mais dinheiro no Pingo Doce do que o teu vizinho, isso não quer dizer que compres coisas mais caras, mas apenas que compras mais, entendes a diferença? Imagina que eu vivo em Lisboa e vou a duas consultas (de psiquiatria, claro), gasto 100 euros, e tu vives no Porto e vais só a uma (de urologia), gastas 50 euros. A saúde é mais barata no Porto do que em Lisboa?! Imagina agora que em Lisboa o pessoal só come hambúrgueres, batatas fritas e merdas assim e não faz exercício e que em Lisboa é tudo saladas e flexões: tu dizes que em Lisboa gastam mais em saúde e ainda assim morrem mais cedo. Tu relacionas directamente despesa em saúde com esperança de vida e eu só ligo a custos. Está giro.
“A situação nos EUA é muito má” Terrível, deve ser por isso que os cubanos, mexicanos, haitianos e outros arriscam morrer para ir viver para os EUA. Alguns tornam-se médicos. Que malucos.
4 – O “custo global acrescido para teres de pagar o lucro” é o quê? Fazes ideia do que custa o Ministério da Educação? Sabes quantos funcionários que ganham acima de 2.000 euros tem o Ministério da Educação e que não põem os pés nas escolas? Divide o custo total do Ministério da Educação pelo número de escolas e a seguir ri-te do “lucro dos donos das escolas”. Qual a aldrabice dos cheques-ensino? Só se fala nisso agora? Devias ter jantado mais com os teus pais, quando falavam de filosofia (é só uma dica) e terias ficado a saber que já se fala há muito tempo e que foi um sucesso onde foi implantado. Portugal não tem este sistema, deve ser por isso que o nosso sistema de ensino é tão espectacular (para quem tem meios em casa, claro). Esta menina (www.youtube.com/watch?v=GZEEyvEFvcY) e esta menina (www.youtube.com/watch?v=BVxfEwP1us0) explicam. Também o aldrabão (www.youtube.com/watch?v=EUSOtID5RsQ) e mais três aldrabões (www.youtube.com/watch?v=gmBNvnTUrfM).

Publicado por [Paulo] às julho 26, 2010 12:54 AM

Paulo, (ou será João, Manuel, Fernanda, Josefina ou outro nome qualquer como Paulo? Não me interessa até podes ser um colectivo)

Respondo-te com o que tu dizes:


1- "O meu raciocínio tem problemas. Para quê discutir?" Uma discussão existe precisamente por haver, entre outra coisas, problemas (inconsistências) nos raciocícios das pessoas. E escusas de vir com alusões narcisisticas e megalomaníacas. A minha experiência é um exemplo, só isso. Não sou especial de corrida.

2-"Além disso, quem não estuda paga por quem estuda, o que é uma tremenda injustiça (principalmente no que diz respeito ao ensino superior)." Como é que esta frase não é uma incongruência com o que acabaste de dizer?

3- "Os números que estás a utilizar não são sobre preços, são sobre despesa.". "Se tu gastares mais dinheiro no Pingo Doce do que o teu vizinho, isso não quer dizer que compres coisas mais caras, mas apenas que compras mais, entendes a diferença?"
As seguradoras não andam a dormir. Despesa está directamente ligada a preços dos seguros de saúde. Portanto despesa e preços é o mesmo. Comprares mais, como já te disse, só faz sentido se isso te beneficiar. Se comprares mais e ainda assim tiveres um pior serviço (é isso que acontece) estás a ser aldrabado. Tu que advogas tanto a livre concorrência. Se o serviço é melhor e mais barato, vais para o mais caro e pior? Só se for para poderes dizer que tens um ferrari vermelho.

4- Obrigado pela dica dos custos. Fui ver. O Orçamento do Ministério da Educação para as escolas 1o ciclo ao secundário, para 2010 foi de 941.569.650E (1o ciclo) + 3.765.911.977E (2o, 3o ciclos e secundário). O número de alunos em 2010 é de 1.701.482. Somando e dividindo pelo número de alunos e 10 meses, dá 276 euros por mês por aluno. São dados do ME, não fui eu que os inventei. Se olhares para o colégio Moderno, por exemplo, as mensalidades vão de 395E para primária até 440E para o 12o ano. Se fores para o sagrado coração de Maria tens uns preços uns 5% mais caros. " “custo global acrescido para teres de pagar o lucro” é o quê?" É esta diferença de mensalidades. Ah! E falta dizer que as escolas privadas recebem cerca de 250 milhões de euros por ano em subsídios do Estado. Sendo que existem cerca de 225 mil alunos no privado. O que dá uma subsídio de cerca 950 euros por aluno, por ano. Paulo, isto é uma questão de escala, tu deves saber isto melhor que eu. O Estado é a maior "empresa" de fornecimento de serviços educativos. Portanto consegue ter optimizações de custos que outros mais pequenos não conseguem. "Devias ter jantado mais com os teus pais, quando falavam de filosofia (é só uma dica)" Meu caro, eu sei disso, se leres o que te escrevi, digo lá "Isso dos "school vouchers" do Friedman é uma grande aldrabice". Foi o Friedman que veio com essa treta no Free to Choose, salvo erro. E isso lá andaram a experimentar no Chile e noutros países desgraçados. Morreu um bocado e há uns anos, voltou com a Administração Bush. E agora até o nosso PSD anda todo contente a dizer que descobriu a pólvora.

Esse teu ressabiamento que se expressa nas bocas veladas que mandas só te faz mal à tensão. Tem calma e não te enerves.

Publicado por [gorkiana] às julho 26, 2010 11:24 AM

1 - Ok.
2 - Não.
3 - Preços e despesas são a mesma coisa. Estou sempre a aprender. Quer dizer que aquilo que eu gasto no Pingo Doce não é o dinheiro que entrego pelos produtos que trago mas o preço de todas as coisas que eles têm à venda. Isto muda a minha vida, de facto. Ontem fui comprar uma posta de pescada e só na banca das pastilhas elásticas (que não trouxe) gastei para cima de 200 euros. A minha família não acreditou mas eu depois mostrei-lhes a tua resposta e eles ficaram convencidos.
4 - Estás outra vez errado. Esse é o valor que é atrbuído às escolas. Não é o custo total do Ministério. Podes ir pesquisar novamente: são mais de 7 mil milhões de euros (Orçamento de Estado), ao que se soma as despesas a cargo de cada município (deixo-te esta para descobrires - está na ANMP). Lá se foram as tuas contas para o galheiro (de certeza que vais mudar de opinião, certo? - o teu argumento foi ao ar). No conjunto dos países desgraçados que aplicam schools vouchers estão, além de algumas zonas dos EUA, a Suécia (onde a miséria impera), a Dinamarca (buuuu), a Holanda (só fome e refugiados e gente a tentar fugir para a Bélgica) e outros. O nosso espectacular sistema de ensino (ninguém fala correctamente muito menos fazer contas).
Obrigado pela tua preocupação com a minha saúde. Vê os vídeos que enviei.
Com carinho,
Paulo

Publicado por [Paulo] às julho 26, 2010 12:03 PM

3- Os dados são relativamente a despesas médias por habitante. Como te disse, sendo privatizado (e mesmo não sendo) as despesas globais reflectem-se nos preços. Se em média tens uma determinada despesa em saúde por habitante, o preço da apólice de seguro, no mínimo, será igual a essa despesa. É difícil compreender isto?

4- Não podes meter a acção social escolar, os subsídios às escolas privadas, o novas oportunidades e o ensino especial tudo no mesmo sítio. É óbvio que depois só podes concluir que o público é mais caro. Se tirares isso tudo (que é a comparação justa) ficas com, vá lá, 5500 milhões de euros. Podes somar a isto o orçamento das autarquias que não é mais de 500 milhões de euros, incluíndo coisas como escolas novas, transporte escolar, e outras actividades extra curriculares. Ficas com 6000 milhões de euros. Divides pelos alunos e ficas com 350 euros por mês por aluno. No mínimo no Moderno tens 395E mais os subsídios do estado de 90 euros. Estamos a comparar 350 com 485. Margem de lucro mais ou menos de 25%. É o que se pratica em geral, nas várias áreas de actividade. É destes 20 a 25% a mais que estou a falar. Quando me mostrares que o privado é mais barato, eu mudo de opinião. De entre as zonas dos EUA com o dito cheque escola encontra-se a zona de New Orleans onde o insucesso escolar é maior. A Suécia e a Dinamarca são casos à parte, a educação é completamente gratuita para toda a gente, incluíndo actividades extra curriculares. E salvo erro as escolas não têm fins lucrativos. Na Holanda praticamente não há escolas privadas como nós o entendemos, contam-se pelos dedos. O que há é escolas independentes e religiosas. De resto estas escolas independentes são iguais às escolas públicas: não podem pedir propinas superiores às escolas públicas. Aliás para os Holandeses o conceito de escola privada é algo um bocado estranho. Tenta perguntar a um e vê lá se não franze o sobrolho meio indignado. Mas isto vai contra as ideias do Friedman. Isto é cheques escola regulados, para mim não tem qualquer diferença relativamente a escolas públicas sem cheque escola. Seria uma aplicação se os preços fossem livres. Isso é que é o mercado livre. Assim também eu defendo os cheques escola.

Já tinha visto o do Friedman. O grande argumento é o da liberdade de escolher (dizem eles). Então porque não deixar simplesmente os putos escolherem que escola frequentar? Eu pude escolher que escola pública frequentar (era uma cidade pequena é verdade). Porquê o privatizar? Não percebo a lógica, a menos que seja para aumentar os custos e criar empresas escolares para enriquecer uns quantos "empreendedores" da tanga. Não consigo perceber. Vi os vídeos, mas sinceramente: cheques escola promovem a repopulação dos centros das cidades porque os filhos podem ir para escolas privadas no centro? Poupem-me.

Publicado por [gorkiana] às julho 26, 2010 01:29 PM

Um link interessante sobre um livro novo que fala da reforma do sistema educativo americano:

www.wsws.org/articles/2010/jul2010/ravi-j27.shtml

Publicado por [gorkiana] às julho 27, 2010 05:08 PM

3 - Preços e despesa só estão relacionados para o mesmo nível de serviço e de quantidade, ok? Não venhas agora com a história dos seguros porque não era disso que estavas a falar lá atrás.
4 - Já mostrei que o público é mais caro. Além disso, o nível de serviço do privado é incomparavelmente superior (logo, para fazer a comparação era preciso acrescentar o acréscimo de qualidade do privado). Mas deixa: face a números concretos lembras-te logo de outras coisas que não tinhas referido: tiras deficientes, educação de adultos, acção social (?!). De facto, assim terás sempre razão. O n.º que dás para o custo dos municípios está completamente errado mas nem vale a pena discutir porque irias dizer que o número estava errado.

Não, o grande argumento é o da concorrência - que só se obtém com liberdade de escolha, com rejeição livre do mau pelo bom. Os empreendedores da tanga enriquem actualmente porque a concorrência pública é miserável e não precisam de fazer grande esforço para serem melhores. Viste as entrevistas nas célebres manifestações de professores? Os cartazes? Milhares de erros de Português. É isso que queremos?

Publicado por [Paulo] às julho 27, 2010 05:42 PM

Liberdade de escolha é uma utopia quando se não tem dinheiro no bolso...

Publicado por [POKE] às julho 29, 2010 02:50 AM

Poke, é por isso que a ideia é fornecer um cheque ensino. No estado actual das coisas, tens razão: quem tem dinheiro, escolhe, e quem não tem vai para o Estado e pouco pode escolher.

Publicado por [Paulo] às julho 29, 2010 07:12 PM

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