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julho 17, 2010

Perspectivas de saída

Chamo a atenção para este post do Nuno Teles. Vale a pena ler, nem que seja pela primeira frase, uma grande verdade: «A economia nacional encontra-se hoje numa trajectória descendente, onde as perspectivas de saída da crise não existem no debate público».

A proposta de Nuno Teles - saída do euro, secagem das fontes de financiamento externo, desvalorização cambial, inflação, nacionalização da banca - pode ser tão distante como o programa europeísta-socialista que ele diz impossível de pôr em prática tendo em conta "a improbabilidade de uma conjugação de forças sociais e políticas à escala europeia"... Mas é ao menos alguma coisa. Alguma coisa que vai para além dos slogans "Basta de precariedade e desemprego", "basta de impostos e austeridade" ou "mais e melhores salários", que são reivindicações justas, mas que não dão por si só nenhum horizonte ou caminho de saída, capaz de mobilizar amplas massas de trabalhadores.

Publicado por [Saboteur] às julho 17, 2010 01:11 PM

Comentários

Vinha só avisar que essa receita já foi experimentada (avisem também o Nuno Teles, que ele não lê os comentários) e que tivemos de chamar o FMI de urgência. Só há um receita que não foi experimentada: a séria liberalização da economia. Mas claro que isso seria acabar com todos os tachos que alimentam o sistema actualmente e isso é muito complicado para todos os partidos.

Publicado por [Paulo] às julho 17, 2010 06:16 PM

Não sei o que é mais surreal: se o que o Nuno Teles diz, se o que o Paulo repete, repete, repete.

Paulo, a receita da "séria liberalização da economia" já foi tentada em vários sítios (Chile, Indonésia, etc.) e deu no descalabro que deu. Ou também já adoptaste a nova do Pacheco Pereira de que o neoliberalismo é um conto de fadas, nunca existiu? Se calhar pega.

Quanto ao Nuno Teles, não sei quem é a pessoa, mas sinceramente, ver blogs que se dizem de esquerda (essa coisa abstracta e um bocado balofa) como este e o Ladrões de Bicicletas virem com "bitaites" (porque não são mais do que isso) para a "saída da crise". Por favor. Já parece o Bloco a dizer para se cortar só 4.5% no Orçamento da saúde em vez de 5%.

É só a mim que me faz confusão estas frases?

"criação de mecanismos de coordenação salarial que promovam o crescimento salarial como motor dinâmico da procura interna;"

Crescimento salarial como motor dinâmico da procura interna? Mas desde quando é que isto funciona neste sistema económico? Crescimento salarial? Alguém me explica?

"um novo ataque especulativo sobre os países do Sul é só uma questão de tempo"

Um novo? Este já acabou?

"[dívida pública] pelo seu efeito externo, a uma reestruturação da dívida privada (de empresas e famílias), verdadeiro lastro da nossa economia impeditivo do investimento"

A economia portuguesa (e dos países sub-desenvolvidos) só sofre de falta de investimento? Se houvesse investimento levávamos a Volkwagen e a Audi à falência (com passaporte de coelho, como diria o Zé Mário). É essa a causa da nossa fragilidade económica, a falta de investimento?

"Por outro lado, a saída do euro permitiria a desvalorização cambial e aumento da competitividade externa da nossa economia, corrigindo assim os seus desequilíbrios estruturais."

Pimba, faz isto, dá aquilo, problema resolvido. E vamos lá vender o quê? Cortiça e sapatos e arrasar com os salários de 100 euros dos chineses? Que por sua vez andam a fazer lutas de aumentos salariais? Nós vamos ao contrário. Baixar o poder de compra dos assalariados, para dinamizar a economia. Porque no fundo é isso não? Alguém sabe quanto importamos hoje em dia?

"É certo que, no curto prazo, os países que entram em default não conseguem aceder aos mercados de capitais internacionais. No entanto, este período, se olharmos para experiências passadas, costuma ser de poucos anos(...)"

O que é isso de alguns anos a penar? Para além dos outros tantos que já andamos? Mais ano menos ano, o que é que isso interessa? Alguém tem ideia do choque que isso representaria para milhões de portugueses? Alguém tem noção do que isso representou para milhões de Argentinos, por exemplo? Fala-se assim de ânimo leve? É como o Krugman a falar de baixar 30 ou 40% os salários.

"Por outro lado, o aumento do investimento que as novas margens das exportações permitiria, graças à desvalorização monetária, resultaria naturalmente em taxas de poupança privada mais elevadas."

Outra vez, receita mágica. Faz isto, limpa aqui e pimba. E os custos acrescidos da desvalorização monetária? Os custos associados à compra de máquinas (importadas)? A materialização dos investimentos? Alguém fez essas contas? Isto é tudo no ar. Receitas malucas de treinadores de bancada.

"Existiriam certamente pressões inflacionistas, mas no actual contexto internacional deflacionário não é credível que esta chegasse a níveis suficientemente elevados para afectar o ritmo de crescimento económico"

Não é "credível"... Quer dizer que não faz a mínima ideia. Vamos lá brincar com a vida das pessoas que vivem com menos de 500 euros por mês. Mas estamos a falar para quem? Desde quando crescimento económico é igual a melhoria de vida das populações? De onde é que vem essa relação linear? Só eu é que vejo que isto é absurdo que isto é o que nos emprenhas pelas orelhas todos os dias no telejornal? O Nuno Teles diz-se mesmo de esquerda?

"Este é um caminho que não está isento de riscos, todavia a experiência dos países que atravessaram situações similares recentemente (Rússia, Argentina, Uruguai, Equador) mostra que, depois da crise e de quebras no PIB, a recuperação é rápida e robusta ."

A Rússia? A Argentina? O Uruguai? O Equador? Estão a brincar comigo... É que só podem mesmo estar a brincar. Relativamente à disparidade entre ricos e pobres nesses países, comparando a riqueza dos 10% mais ricos com os 10% mais pobres, na Rússia é de 12.7 (em 2002), na Argentina é de 40.9x (em 2007), no Equador é de 44.9x (em 2009) e no Uruguai era de 17.9x (em 2003). Para se ter comparação, num país como a Suécia é de 6.2 e em Portugal é de 15 (em 1995, estimado...).

Pode-se olhar para os valores do índice de GINI, esses quatro países apresentam valores de quase o dobro da Suécia... Este indicador de desigualdade é não linear, portanto o dobro não significa o dobro de desigualdade, representa muito mais.

Num momento em que há um ataque concertado ao Estado social em todo o mundo. Ou seja, existe um política mundial de aniquilação do Estado social. Vêm para aqui Nunos Teles falar de "vamos fechar as fronteiras e resolver os nossos problemas sozinhos. O nosso mal, pá, é o EURO. Passamos uns anitos malm mas depois, pá, é sempre a abrir. Compramos esta merda toda, sem precisarmos de crédito." Mas anda tudo a dormir? Ou andam a gozar com o pessoal?

"improbabilidade de uma conjugação de forças sociais e políticas à escala europeia"???

Então e fazer essa conjugação? Em vez de cruzarmos os braços e irmos discutir números nos cortes orçamentais? É a isso a que se ficou reduzido?

Não há nada. E a única alternativa que surge é mais do mesmo. Mais Blocos e mais PC's e variantes da mesma cangalhada...

Os Gregos lá estrebucharam e a malta toda, borrada de medo, assobiou e disfarçou. Não é nada comigo. Pode ser que passe ao lado, somos pequeninos.

Esta pseudo-esquerda, esperta em economia da tanga, só me satura.

Publicado por [gorkiana] às julho 17, 2010 10:05 PM

No Chile? Mas no Chile resultou! Basta ver as taxas de crescimento! Quem estragou tudo foi o facínora assassino do Pinochet. Façam uma lista dos países com maior PIB per capita de cada região do mundo e depois revejam a sua história dos últimos 100 anos. É tão evidente o sistema que dá maior riqueza a todos! Não dá igualdade: o sistema socialista dá igualdade: todos pobres na fila do racionamento. É isto que querem repetir? No Chile? por favor... o Allende ia destruindo o país (e o curioso é que o socialismo ficou a ganhar com o seu assassinato porque assim não se viu a miséria para a qual conduziria o país; o que não aconteceu em Cuba). Quanto à Indonésia ser uma economia liberal, querem que eu me comece a rir agora ou só durante a semana? Daqui a pouco estão a dizer que o Sócrates é neoliberal ao mesmo tempo que aumenta impostos e a intromissão do Estado na vida das pessoas.

Publicado por [Paulo] às julho 17, 2010 11:34 PM

Paulo mas algum empresário português está preparado para a tal liberalização da economia que defende....

Se alguem defende o status-quo são os subsidio dependentes, ou antes a ESMAGADORA MAIORIA da nossa dita classe empresarial.

Numa economia de mercado, sem barreiras,mas com um verdadeiro controlo dos rendimentos das empresas, com uma fiscalidade que não permitisse fugas, os nossos pequeninos empresários iam todos para o desemprego.

Publicado por [augusto] às julho 17, 2010 11:44 PM

Há muitas consequências na saída do euro de que o Nuno não fala:

1 – o regresso ao controlo monetário é o regresso da emigração em larga escala que até já começou em escala média

2 – é o agravamento da dívida ao exterior pela desvalorização da moeda

3 – é um movimento contrário ao desenvolvimento das forças produtivas, é de certa maneira anti-histórico porque reintroduz barreiras;

4 – representa o regresso aos nacionalismos com o hipotético regresso aos conflitos

5 – o proteccionismo tem um forte risco de congelar o desenvolvimento nacional, na medida em que convida à preguiça, do género do isolacionismo de Salazar....

6 – a resposta nacionalista contraria, pelo menos em tendência, a ideia de revolução internacional

Publicado por [Anónimo] às julho 18, 2010 01:14 PM

Saboteur, não há 'saída para a crise' sem definir o que é 'crise'. Estes comentários definem perfeitamente isso.

Publicado por [xica] às julho 18, 2010 03:51 PM

mas acho que a Gorkiana tem razão.

Publicado por [xica] às julho 18, 2010 03:55 PM

At last! Someone who udenrstands! Thanks for posting!

Publicado por [Chartric] às maio 25, 2011 08:10 PM

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