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novembro 25, 2009

Inquérito sobre a identidade nacional.


Hoje o público notícia
o debate que o Sr Ministro Eric Besson (Ministère de l’Immigration, de l’intégration, de l’identité nationale et du développement solidaire) lançou em França sobre a identidade nacional e a definição do que é ser francês, sobre o qual já tinha falado aqui.
Um site sobre o assunto foi mesmo criado pelo Ministério para albergar tudo o que lhe diz respeito. Arquivos, opiniões de rua, de parlamento, de embaixadores estrangeiros, contribuições, biblioteca e videoteca escolhidas a dedo, etc, etc, podem ser consultados... aqui fica o link, no entanto, é necessário assinalar que a nossa simples visita, ainda que crítica, é tida como uma prova de legitimação da opinião pública ao debate, é assim nos dito logo na primeira página: “Ce site connaît un immense sucès! Cela nous réjouit... »
O que não é assim tão claro e fácil é de chegar a este link que mais não é que um inquérito enviado a todas os comissariados de polícia como sendo uma base de debate. Não esqueçamos que são os comissários as pequenas mãos do sistema no que diz respeito a recusar ou a aceitar os “titres de séjour”, processo acompanhado por uma pesada administração e desprezo por aqueles que necessitam desses títulos.
Este inquérito é um instrumento importantíssimo para aqueles que estudam ou têm interesse na construção das nações, nacionalismos, identidades nacionais, etc, etc... e ainda para aqueles que estudam metodologicamente as questões das entrevistas e como a formulação destas pode influenciar as suas respostas. Este inquérito, tem o mérito de fazer um inventário de como a identidade nacional é fabricada institucionalmente.
Uma das questões mais inteligentes do inquérito é a seguinte: Pourquoi l’identité nationale génère-t-elle un malaise chez certains intellectuels, sociologues ou historiens ?
Infelizmente eles sabem qual é a resposta... a identidade nacional, é um conceito que se tornou a panaceia para todos os males nas ciências sociais, mas o verdadeiro grande problema é que a perspectiva constructivista da identidade forjada pelos cientistas sociais foi completamente ultrapassada pela perspectiva essencialista institucional (cito Rogers Brubaker – Au-delà de l’identité, 2001). É esta segunda que vingou nas nossas maneira de pensar e agir.

Publicado por [Shift] às novembro 25, 2009 03:21 PM

Comentários

"É esta segunda que vingou nas nossas maneira de pensar e agir."

Isso é o "Common sense groupism", nas palavras do mesmo Brubaker (ethnicity without groups, 2002).

Ao dizeres "perspectiva construtivista" referes-te à habilidade dos cientistas sociais observarem e descreverem densamente os processos de construção e/ou manutenção de identidades?
E ao dizeres "perspectiva essencialista institucional" referes-te às conceptualizações de senso comum de "identidade" que viajam por entre entidades tão abstractas e genéricas como a "opinião pública" ou a "sociedade civil" através de veículos como os media ou o discurso político mainstream?

Se sim, entendo perfeitamente o que dizes e sinto-o da mesma forma que tu, mas apenas enquanto "civil esclarecido acima da média sobre o tema". Porque enquanto "cientista social" tenho uma opinião diversa: os observadores da produção e dos produtores de senso comum (sociólogos, antropólogos, historiadores, etnógrafos) devem ter cautela para não participarem nessa produção e devem ter consciência de que é fácil entrar na mesma, mas não devem estranhar que o mundo social e político produza senso comum aos magodes. Por isso tento sempre, enquanto "cientista social", não estranhar isso. Afinal, é o que o mundo social e político sempre fez.

Quando eu era pequenino não desconfiava da invenção das tradições. Assimilava-as todas como deve ser, funcionavam mesmo bem comigo, como funcionam com o grosso da malta - é para isso que são feitas, e que é um esquema bem montado não podemos negar. Depois aprendi que eram inventadas, e senti-me enganado, defraudado. Pensei insurgir-me, berrar ao mundo que os padrõezinhos dos kilts dos escoceses não são de tempos imemoriais mas sim uma invenção nascida em pleno séc. XX, e coisas do género. Das primeiras vezes que me dei conta de que as tradições eram mesmo todas inventadas por interesses vários (inconscientes ou conscientes, maus ou bons, quem está aqui para julgar?) de minorias com um superavit de poder decisório e de acção/coerção (elites, se quisermos), até pensei "palhaços dos gajos que inventam tradições e patrimonializam com fins nacionalistas e afins". Mas depois de passar por cima dessa desilusão absorvi gradualmente a evidência de que esse processo inventivo é natural como os passarinhos voarem, e independentemente de o meu "eu" civil esclarecido concordar ou gostar ou não concordar e não gostar (e olha que o meu "eu" civil gosta e desgosta, concorda e discorda), as tradições sempre se inventaram e vão continuar a inventar. E identidades por essas tradições suportadas continuarão a ser activamente construídas. As pessoas fazem isso. Facto. Fabricam-se rápida e descaradamente e à luz do dia identidades recheadas de aspectos desenhados como pesada e importantemente patrimoniais e imemoriais. "Nossos, antigos, únicos e melhores que os outros". As pessoas fazem isso: sempre fizeram, não creio que parem agora.

Assim, para terminar, deixo que o amigo Brubaker diga em poucas palavras o que disse em muitas. No "Ethnicity without groups" (2002):

«Ethnic common sense - the tendency to partition the social world into putatively deeply constituted quasi-natural intrinsic kinds - is a key part of what we want to explain, not what we want to explain things with; it belongs to our empirical data, not to our analytical toolkit. (...) The evidence suggests that some common sense categories -notably ethnical and racial - tend to be essencializing and naturalizing. (...) But as "analysts of naturalizers we need not be "analytic naturalizers".»

Dito isto, e sabendo nós que o discurso académico acaba sempre perspassando para a fábrica de construção do senso comum, neste assunto despertam-me curiosidade os processos segundo os quais essa passagem foi/é/será feita num tópico tão importante e basilar no mundo contemporãneo como é o das nações e nacionalismos. Questões desse inquérito como a que citas, não serão elas já uma espécie de essencialização dos produtos da análise dos analistas de essencializações? :)

Bom post! Cheers!

Publicado por [G.R.] às dezembro 7, 2009 02:33 PM

Great thinking! That really brkeas the mold!

Publicado por [Carlynda] às agosto 19, 2011 08:20 PM

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