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novembro 25, 2009

Farsa oculta


As guerras entre facções da camada dirigente revelam, mais do que qualquer investigação judicial ou jornalística, os segredos que comandam o Estado e a economia em Portugal. A sabedoria popular já disse a esse respeito algumas coisas dignas de relembrar. Assim é que Sócrates se tem visto examinado à lupa como raras vezes se tem visto um primeiro-ministro ser examinado à lupa. A nós, que vivemos do lado de cá da cortina de ferro e tudo desconhecemos acerca do que se passa nos bastidores do poder (imaginamos a substância mas ignoramos os pormenores, quando o diabo está, precisamente, nos pormenores), dá alguma jeito que colunistas de direita venham revelar tão abertamente a microfísica do poder.
No espaço de dois dias, respectivamente a 12 e a 14 de Novembro, Pedro Lomba e Pacheco Pereira escreveram no Público duas crónicas preciosas para compreender a dinâmica da economia política que governa Portugal.
Na Cronologia de um golpe, Pedro Lomba faz aquilo que qualquer jornalista de qualidade mínima deveria fazer. Uma cronologia que explica o andamento das coisas e destaca o peso de cada uma, desde a nomeação de Armando Vara para a administração da CGD, passando pela sua chegada ao BCP, até chegar a uma conversa telefónica que já fez correr muita tinta:"Estamos perto do fim desta operação bem montada. Sócrates ganhou de novo as eleições. Mas este encadeamento todo precisava de confirmação. Incrivelmente, nas escutas a Armando Vara no caso “Face Oculta” eis que surge a arma do “crime” libertando fumo: «O primeiro-ministro e o ‘vice’ do BCP falaram sobre as dívidas do empresário Joaquim Oliveira, da Global Notícias, bem como sobre a necessidade de encontrar uma solução para o ‘amigo Joaquim’. Uma das soluções abordadas foi a eventual entrada da Ongoing, do empresário Nuno Vasconcellos, no capital do grupo. Para as autoridades, estas conversas poderiam configurar o crime de tráfico de influências.»
Escutas nulas, disse o Supremo. Os factos, meus amigos, é que não são. A 15 de Janeiro de 2008, Armando Vara é eleito vice-presidente do BCP."

Na sua crónica de Sábado intitulada Um problema de confiança, Pacheco Pereira resume os dados do problema apontando a abrupta ascensão de Sócrates como um calvário repleto de casos por explicar: "A partir daí não há pedra em que não se dê um pontapé, casinhas, processos na área do ambiente quando ele foi secretário de Estado ou ministro, Freeport, negócios ligados ao controlo da comunicação social, Face Oculta, em que Sócrates não apareça. Pode-se dizer que isso é perseguição, como há quem no PS diga. Mas não é, o problema é que Sócrates aparece sempre lá, perto ou longe, com mais ou menos responsabilidades, e aparece porque está lá. Ele, a família, os seus amigos do PS, as pessoas que escolheu, as áreas onde governou e governa. E, quando ele aparece, nada nunca se esclarece cabalmente. Nem na justiça (e isso é uma arma de dois bicos, porque também o prejudica), nem na parte da política que exige transparência. Por isso, a minha desconfiança original não tem conhecido a não ser um crescendo, porque encontra um padrão e não "«casos»."
Que estes mesmos cronistas - pelo menos Pacheco Pereira - assobiem para o lado quando este fado lhes bate à porta em nada desvaloriza a utilidade destes seus escritos. Eles revelam quase tudo acerca da mecânica da governação e do terreno pantanoso estabelecido entre o que é público e o que é privado. Igualmente, o facto de a solução que apresentam ser sempre a mesma - mais privatizações, mais iniciativa privada, menos estado, mais mercado, no jornal da SONAE não há ponta sem nó - ser apenas a continuação desta história por outros meios, não nos impede de reflectir acerca das condições em que decorre o combate político partidário. Não há quem ali entre de forma inocente nem quem saia de mãos absolutamente limpas. É preciso, no mínimo, fechar os olhos e fazer de conta que não se está a ver. Bem sabemos que nada disso assusta os Armandos Varas e os Antónios Pretos deste mundo. Também não são eles que me preocupam, mas antes os que continuam a acreditar que é possível mudar este estado de coisas a golpes de ética republicana. Como dizia o outro, cuidado com as companhias Carlos Jorge.

Publicado por [Rick Dangerous] às novembro 25, 2009 01:22 AM

Comentários

Ó rickinho, valeu a posta só pelo cartoon do Quino, porque essa de valorizar os escritos de PL e PP porque caracterizam as "entranhas do poder" é de bradar aos céus.

O que o PL escreveu é lixo. O do PP não li, nem quero, porque já se sabe o que a casa gasta. Tivéssemos nós um "jornalista de qualidade mínima" na praça e tínhamos cronologia sim, mas sustentada em factos, documentos, essas coisas todas que fazem uma notícia e a distinguem do reles boato. E dão trabalho a compilar...daí que não se vejam nos nossos jornais.

Agora com licença, vou ali ler uns ataques virulentos do VPV no tempo do Independente para "consolidar" a minha consciência de esquerdista convicto.

Publicado por [Anónimo] às novembro 25, 2009 07:51 PM

Consolida filho, consolida.

Publicado por [Rick Dangerous] às novembro 26, 2009 11:29 PM

não concordo nada anónimo. é precisamente na pouca "qualidade" dos escribas do poder que se pode encontrar uma espécie de lucidez sobre o modus operandi, os fundos de pensamento, os almoços grátis que constituem a Poder.

Publicado por [maria] às novembro 27, 2009 07:41 AM

olha os sitús, olha o sitú frequinho!!!!

Publicado por [Anónimo] às dezembro 3, 2009 01:21 AM

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Publicado por [Boomer] às julho 7, 2011 01:29 AM

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Publicado por [eqquoy] às julho 7, 2011 09:32 AM

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Publicado por [Artrell] às julho 8, 2011 10:44 PM

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