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novembro 13, 2009

de eléctrico em barcelona 1908

Parece que este filme foi muito falado há uns meses mas só agora tive uma amiga lá da terra e empurrar-me para a maravilha. Pode dizer-se tanto, e tenho a certeza que algum estudioso do cinema já disse tudo o que havia para dizer, mas não posso deixar de convidar quem vai vendo este blog a repousar o olhar no filme à mesma velocidade do eléctrico. E, se tiverdes vagar, a vê-lo uma e outra vez.
Este filme lembra outro travelling famoso, aquele em que Nanni Moretti visita o descampado onde pasolini foi assassinado (em Caro Diário).Mas desta vez é tudo ao contrário: há gente nas ruas, o cenário é a cidade e não uma zona inóspita suburbana, há alegria e vontade de vida em cada passante e não o sonambulismo melancólico dos fantasmas que moretti vai cruzando, o eléctrico parece não ter destino fixado ao contrário da vespa de Moretti, em viagem de peregrinação. Além de observarmos passivamente, sentimos que centenas de olhos nos observam.

Alguma analogia se pode fazer entre este filme e os quadros dos realistas flamengos, nem que seja por atrair o olhar para o detalhe. Mas em movimento! Toda a gente vê os chapéus a saltar das cabeças, mas será que todos vêem a pantomima revisteira do moço a mostrar o traseiro à câmara? Também não é difícil reparar que a civilização do automóvel ainda não tinha canibalizado a cidade e que as bicicletas borboleteavam por ali. Mas será que todos reparam na desigualdade de género entre os proprietários/utilizadores dos veículos? Ficamos maravilhados com o vestuário daquela gente, as plumas nas cabeças das mulheres, os chapéus, mas será que, ao fazê-lo, nos questionamos sobre o significado cultural de só as crianças terem, e nem sempre, as cabeças descobertas (aqui estou a pensar nas coisas absurdas que se dizem hoje em dia a propósito de véus islâmicos)? E não haverá uma interpelação algo violenta ao nosso enfado pequeno-burguês no êxtase das caras anónimas reveladas neste travelling? Se alguém se der ao trabalho de ver o filme, e já entrando no ritmo lento destes curtos sete minutos, gostava que esse alguém aqui dissesse qualquer coisa sobre o que deles colheu para si e eu direi qualquer coisa quando de lá voltar.

Publicado por [Renegade] às novembro 13, 2009 11:48 AM

Comentários

queria pedir-lhe se me deixava publicar este vídeo. assim com excertos do seu texto, no meu blog, para o dedicar a uma pessoa muito especial. apesar ele se encontrar na net, mas como foi através de si que o descobrir...
obrigada,
dramha

Publicado por [jose ant. ferreira] às novembro 14, 2009 09:00 PM

usa sim pá, de onde pensas que isto veio?
o conceito de propriedade não existe na net!

Publicado por [Anónimo] às novembro 14, 2009 09:17 PM

Eu também acho!

Publicado por [Faustino (no fundo)] às novembro 15, 2009 11:06 PM

bom, anti-pré-conceito.

Publicado por [Adriano] às novembro 15, 2009 11:21 PM

Ppl like you get all the brains. I just get to say tkahns for he answer.

Publicado por [Greta] às julho 9, 2011 05:04 PM

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