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novembro 24, 2009

"A religiosa portuguesa"

« Je vois bien que je vous aime, comme une folle. Cependant je ne me plains point de toute la violence des mouvements de mon cœur, je m’accoutume à ses persécutions, et je ne pourrais vivre sans un plaisir, que je découvre, et dont je jouis en vos aimant au milieu de mille douleurs». (Extracto das « Cartas portuguesas » - I Carta – romance epistolar de Guilleragues, do Século XVII, que era suposto ter sido escrito por uma religiosa portuguesa a um Oficial naval francês).
A beleza do sentimento de amor provém do facto que ele é uma fonte de sofrimento. A isto chamo a concepção do amor malsofrido. Esta forma de amar é sem dúvida a forma mais profunda, mais empolgante e mesma a mais bela... e portanto a mais real – amar sem ser amado.
Pessimista, determinista, romantica melodramatica, o que quiserem... Ao contrário dos sentimentos que este pequeno extracto faz alusão, podendo desencadear em nós as imagens do que o amor encarna de mais carnal e sensual, a mediocridade do filme “A religiosa portuguesa” de Eugène Green apenas pode fazer com que vomitemos na nossa própria taça de sopa os ingredientes espírituais com as quais ela foi feita (as minhas sinceras desculpas aos assistentes de produção do filme).
É uma pena pois até tinha apreciado muito “Le Pont des Arts”.
O que poderia ter sido um louvor à cidade lisboeta é no filme um panfleto de propaganda turística redutor e démodé em torno dos três F’s (Eugène pecou! Sim, reparámos: esse plano fixo fatal onde duas bandeiras de futebol balançam ao sabor do vento. Quase que não preciso de referir o fado para atrair as almas menos avisadas sobre a beleza dos olhos de Camané... e ainda esse diálogo enfadonho de natureza bem cristã entre a verdadeira e a falsa religiosa.
O que poderia ter sido um louvor ao amor é no filme o balizamento estéril desse mesmo sentimento nas gavetas mais normativas do modelo de casal a dois, homem – mulher. Ou mais simples, de tudo aquilo que nos foi metido na cabeça de maneira bem conseguida desde a nossa tenra idade. Assim, trememos facilmente com a noção de infidelidade e desejamos a espera do herói que chegará um dia de nevoeiro das margens do rio Tejo.
O que poderia ser um louvor à procura da espiritualidade é no filme um caminho em direcção da cristandade do que ela tem de mais cretino – a instituição de valores e os valores instituídos. A beleza das coisas e a procura da existência pacifica não se encontra na “unidade do mundo” como diz Green... a caridade que oferecemos ao nosso próximo apenas atrasa a consciência sobre o estado das coisas.
O que poderia ter sido um louvor ao cinema português, se existe um, é no filme uma farsa tragico-dramática sobre o elitismo do cinema. Esta farsa poderia ter sido burlesca mas ela é apenas mal representada. O roquefort caíu infelizmente na água pois tanto as elites cinéfilas como os profanos sentiram-se ofendidos. Os primeiros porque existe um desprezo pela cultura, os últimos porque fizeram deles idiotas.
O realizador não tarda a dizer que ao contrário da religiosa do século XVII, que ficou fechada num circulo de desespero afectivo, a protagonista principal do filme encontra os seus repères na busca do amor pleno! É aqui, que o senhor, Eugène, está enganado... o sofrimento é o inicio do prazer e vice-versa.
Posto isto, vale a pena ver Lisboa no fundo de um ecrã parisiense.... ah a saudade!

Publicado por [Shift] às novembro 24, 2009 12:47 AM

Comentários

Nao reconheceste nenhum nome familiar nos titulos de credito do final?

Publicado por [Pp] às novembro 24, 2009 06:17 AM

sou uma espectadora atenta dos genericos, como podes reparar na ultima frase do 2 paragrafo!

as desculpas estao feitas! :)

um abraço grande

Publicado por [shift] às novembro 24, 2009 09:13 AM

mas nao tenho a certeza de saber o que é ao certo titulos de credito.... falamos bem de genérico?

Publicado por [Anónimo] às novembro 24, 2009 09:31 AM

Fui ontem e acho a tua leitura muito inteligente e acertada, permitindo-me acrescentar a minha própria, de carácter mais rude e insensível: o filme é uma bosta. Consegue ser pretensioso e infantil ao mesmo tempo. Os diálogos são vazios, tirando o tal da freira com a actriz, que desaprovas pelo conteúdo (o que entendo) mas que tem pelos menos o mérito de ter algum conteúdo, poucochinho, lá no fundo. Bastante melhor do que levarmos com bujardas com "ah a bola é tua? então dou-ta" ou personagens tão inanes como o duque desgraçadinho. Do D. Sebastião nem me fales.
Deu-me a impressão que o Green se sentiu habilitado para fazer uma reflexão sobre a "alma portuguesa" depois de 3 dias em Lisboa e 4 filmes do Manoel. Resulta uma visão regurgitada e, pior que tudo, um filme chatérrimo. Valeu por duas ou três imagens de Lisboa sob metereologia variável e algum faduncho, mas isso não paga duas horas de tédio. Faduncho por faduncho, mais vale o Saura.

Publicado por [Rod Daunoravicius] às novembro 24, 2009 01:21 PM

T'as oublié la découverte de l'amour dans la maternité! Elle ne retrouve pas l'amour en couple, elle ne trouve pas ou ne veut pas trouver son prince, mais par contre ce pauvre enfant portugais qu'elle force à prononcer le mot "maman".

Publicado por [elke] às novembro 24, 2009 03:30 PM

chiça, depois de trailer destes ainda vais ver o filme?
esta tendencia do cinema frances ao romantismo blasé consegue ser ainda mais chata que o manel.

Publicado por [chato] às novembro 24, 2009 06:07 PM

You have the moonpoly on useful information—aren't monopolies illegal? ;)

Publicado por [Hessy] às setembro 30, 2011 05:56 AM

r0TdyA ycgiexvbvdop

Publicado por [eoencn] às outubro 3, 2011 12:27 PM

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