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novembro 18, 2009

A festa de babete


"A tarefa era dura: tinha de juntar toda a informação possível sobre os locais que constavam do roteiro gastronómico do caso «Face Oculta». Durante largos meses, os homens fartaram-se de almoçar uns com os outros por esse país fora. Mas eu só tinha uma semana. Meia-dúzia de dias a comer e beber nalguns dos melhores restaurantes do país... Era um trabalho sujo, mas alguém tinha de o fazer. [...]
O polvo mostra-se generoso em quantidade e qualidade, acompanhado no interior do tacho onde se banha num molho escuro e espesso por batatas, grelos, tomate e camarões. Outra das referências da casa é o leitão, assado com o cuidado e a sapiência destacados por vários críticos gastronómicos. Mas o leitão está esgotado... Ou não. Na mesa ao lado, dois cavalheiros que chegaram mais tarde acabam por se deliciar com uma travessa de nacos do pequeno reco. Terão encomendado com antecedência. [...]
O ritual é sempre o mesmo: entramos e desfilamos perante uma banca de peixe e mariscos para escolher a refeição - entrada e prato principal. É uma visão impressionante, mesmo para quem não tenha a paixão pelo peixe fresco, este baixo-relevo formado por exemplares notáveis de robalo, dourada, sargo, pargo, linguado, pregado, corvina, cherne, salmonete. Todos alinhados numa frescura que nos leva a pensar que a qualquer momento nos vão saltar para o colo...
Ali ao lado, camarões-tigre, carabineiros e amêijoas oferecem-se à gula para entrada. Irresistível. Junte-se a tudo isto a qualidade irrepreensível dos acompanhamentos (umas batatinhas assadas no forno que são um mimo e uma salada mista de pimentos, tomate, cebola e batata) e tudo se conjuga para uma refeição inesquecível, numa sala apesar de tudo capaz de conter as muitas conversas, mas com um serviço de rapidez oscilante - como o peixe tem de passar pela grelha, os primeiros a chegar e a pedir são servidos depressa, mas os retardatários farão bem em ocupar o tempo com algumas entradas e um copo de vinho.
A este nível, numa garrafeira repleta de opções a várias dezenas de euros (e estamos a falar de vinhos brancos...), é impossível não notar uma inflação despropositada dos preços. Como exemplo, uma garrafa pequena de Planalto paga-se a 9,50 euros, quando o mesmo vinho, no supermercado, custa menos de um terço disso - no Continente on-line paga-se a 2,84 euros.
(Bom, chefe, tenho de confessar: almocei acompanhado. Num sítio daqueles não se come sozinho. A cerimónia de apreciar um robalo de dois quilos não é coisa para se fazer a solo e os peixes da "lota" são, por norma, muito grandes. Na nossa mesa apareceram dois salmonetes, excelentes, e um linguado, ligeiramente seco. A aclamada mestria dos homens da grelha do Mercado do Peixe teve aqui um momento infeliz...)
No final, a acompanhar o café, pudemos apreciar um pastel de nata acabado de fazer e que é uma maravilha! Manuel José Godinho almoçou aqui quatro vezes com alguns dos envolvidos no caso «Face Oculta». Não sabemos se usaram os babetes que alguns dos convivas envergam para não salpicarem as gravatas e camisas de seda, mas temos quase a certeza de que o restaurante foi do agrado do empresário de Ovar.
(E até digo mais: quem não acredita que os criminosos voltam sempre ao local do crime é porque nunca provou estes pastéis de nata...)"

Luís Francisco, O homem que gostava de peixe

Publicado por [Rick Dangerous] às novembro 18, 2009 06:40 PM

Comentários

Até que enfim que aprendo alguma coisa neste blog. Companheiro ricky, é com certeza esta, a visão que mais interessa sobre o caso. Parabéns.

PS:Ouvi dizer que esteve bem e jovem no debate.

Publicado por [Adriano] às novembro 18, 2009 11:49 PM

e a malta do avental também se banqueteia por aqui?

Publicado por [Anónimo] às novembro 19, 2009 01:14 AM

Camarada Adriano, este era especialmente a pensar em si. Ao fim e ao cabo, pouco me interessam os 10 mil euros, mais carris menos carris. Já a notícia de que Manuel Godinho levava os seus sócios a comer bem é algo a saudar. Corruptos por corruptos, antes em frente a uma boa massada de cherne.
PS: Enganaram-no acerca do debate. Ao lado do meu companheiro de mesa, eu parecia ter mais de 60 anos. Diz que vou chegar a ministro. Bato na madeira.

Publicado por [Rick Dangerous] às novembro 19, 2009 04:03 PM

Bata... bata muito, caro Ricky. E leia «A Ilustre Casa de Ramires». Está lá tudo. E o Sr. Mini... perdão, e o Ricky está no caminho certo. Vá lá, só mais um esforço, meu caro.
PS: Ps, está a ver?

Publicado por [Anónimo] às novembro 19, 2009 09:48 PM

I'm shocked that I found this info so eaisly.

Publicado por [Kristabelle] às setembro 30, 2011 03:40 PM

Good points all around. Truly appercaited.

Publicado por [Carlynda] às outubro 2, 2011 04:44 AM

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